Life's a Bitch

Escrito por Ticcie | Revisada por Natashia Kitamura

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Primeiro Capítulo

Nova Iorque, NY - Estados Unidos
03:40 AM

A música alta já não era capaz de ser escutada a quilômetros, como no começo da festa, agora as vozes - ou para ser mais realista, os gritos - dos universitários roubaram a cena.
No meio do jardim da república, uma jovem dançava com seu copo em mãos tomando longos goles de um drink desconhecido. Longe de estar bêbada, saboreou com muito proveito a bebida nova e agradeceu mentalmente a garota que ofereceu o “open surpresa”.   
Minutos depois Catherina, sua amiga mais velha, responsável por sua presença naquela festa, levantou o copo vermelho em sua direção soltando uma piscadela.
Já cansada, e imaginando o quão confortável estaria sua cama, Cat arrastou Lauren pelo braço em busca de um local com mais espaço e menos cotoveladas.
- Vá seduzir suas vítimas, não sua amiga inocente e jovem, Catherina! - respondeu encenando um revirar de olhos e se abanando com uma das mãos, enquanto parava ao lado da amiga.
- Pare de reclamar, Lauren! Eu não tenho culpa do meu pod…
A atenção de Lauren já não estava mais em sua amiga, seus ouvidos não prestavam mais atenção na voz dela. Sua concentração estava prestes a focar apenas no som que saía de dentro da república, as batidas intensas do que parecia ser uma eletrônica eram sentidas em cada célula do seu corpo.
Percebendo não ser um acontecimento usual, Lauren piscou algumas vezes e olhou na direção da porta.
Catherina teria gargalhado com gosto ao ver a expressão que se formou no rosto da amiga, se não estivesse tão curiosa com o motivo de tal reação. Ao seguir o olhar da amiga, não foi capaz de acompanhar o raciocínio e voltou-se para Lan:
- Garota, o que foi? Viu um alado azul com glitter?
Lauren balançou a mão de qualquer jeito e com um sorriso abobado adentrou a estrutura, fascinada com as sensações que a música estava lhe causando e com a intensidade das cores dentro dos cômodos. Não demorou muito para que ela submergisse em um mundo só seu e fizesse daquela noite uma experiência particular inimaginável.

Lan já havia dançado e gritado tudo que tinha para gritar. Passou vergonha, caiu da mesinha de centro no salão principal, arrancou metade da roupa e bebeu mais que motor de carro antigo. Sempre que Cat tentava lhe parar, ela negava a ajuda, afirmando saber e ter consciência do que estava fazendo, mesmo que não fosse essa a impressão que estava passando para todos ao seu redor.
A euforia estava chegando ao fim. Lauren já não se sentia tão animada e excitada por estar no meio da farra, sua sensibilidade ao toque do som diminuía gradativamente e seus olhos já não fixavam em alguma coisa por muito tempo. Foi então que a jovem decidiu sair daquele rebuliço e ir para algum local mais silencioso onde pudesse se sentar e esperar pelo pior: a podridão pós-festa.
Claro, ela deixaria para pensar no que fez e causou no dia seguinte.
Não, ela não estava descontrolada, mas quase chegou lá.
Lauren percebeu estar se afastando da república quando o som alto se tornou apenas um zunido forte em suas orelhas e suas têmporas doíam levemente. Respirou fundo diminuindo o passo, pendeu a cabeça para trás e observou o céu.
- Droga… está amanhecendo - sussurrou, fechou os olhos e sorriu sentindo o vento fraco balançar seu cabelo. - Outch! Merda!
Bufou, indignada com sua falta de tato e noção, ao perceber que havia dado de cara na cerca do campo de futebol americano. Poupando esforços e sua voz, já rouca, se xingou mentalmente e entrou no campo, mantendo o mesmo passo vagaroso e a mente longe. Quis rir pensando nas caretas que viu Catherina fazer ao longo da festa, mas o susto que teve ao sentir o celular vibrando em seu bolso cortou todo o embalo.
No visor a palavra “mãe” se sobressaia, e ao observar a barra de notificações no topo da tela, pode perceber que essa com certeza não era a primeira ligação. Tentou atender ao telefonema apressada, prevendo a bronca enorme que receberia por não ter dado notícias, mas em vão. Seu celular travou, a vista escureceu e Lauren perdeu seu equilíbrio cambaleando para o lado e sentando desajeitada no gramado.
Mais um som frustrado saiu de sua boca, ao desta vez, ver seu smartphone desligando sozinho. A dor de cabeça e o enjoo pioraram só de pensar no sermão que estava para vir e em sua falta de sorte.
- A vida... – suspirou. - é uma cadela - resmungou se deitando.
No instante seguinte, Lauren apagou.

A414, Essex - Inglaterra
01:00 AM

Dougie dirigia com calma pela pequena estrada, deixando a pequena casa que a banda alugou, já sonolento e exausto. Mal podia esperar para chegar no seu apartamento, tomar um banho relaxante e cair com tudo na cama. A música que tocava na rádio local o ajudava a manter seus olhos cansados um tanto mais alertas. Suspirou pensando em sua família, em como sentia saudade de sua mãe e Jazzie. Faria uma visita na semana seguinte, quando terminassem os ensaios. Ou então na próxima, tinha certeza de que a estrada chamada “Álbum de 10 anos” não terminaria tão cedo.
Foram dias intensos, mesmo que fizesse o que amava, a exaustão chegava para todos. Em partes, se arrependeu de ter ficado para limpar toda a bagunça, mas Danny e Harry pareciam muito ocupados e apressados para sair, que não lhe sobrou escolha. Ou deixava tudo para Tom, ou o ajudaria como um bom amigo deve fazer. Seus braços doloridos e o corpo fatigado pareciam lembra-lo a cada piscar de olhos, o quão exausto estava.
Suspirou outra vez, já deveria estar acostumado com essa rotina, mas às vezes, um desânimo ruim o torturava. E sempre que isso acontecia, Dougie balançava sua cabeça negativamente e a erguia, agradecendo mentalmente por tudo, para então continuar e enfrentar todas as dificuldades que apareciam em seu caminho.
- Porcaria.
Reclamou e soltou um olhar confuso, estranhando o rádio do carro começando a falhar. Deu uma batida de leve no aparelho com a ponta dos dedos, mas não adiantou. Com o olhar fixo na estrada, pegou o controle e começou a mudar de estação, talvez fosse esse o problema. Mas a falha e os ruídos agudos continuaram. Dougie mordeu o lábio inferior e optou por desligar o aparelho, ao menos assim evitaria mais dor de cabeça, mas teria que redobrar sua atenção na via.
Poucos minutos se passaram, estava tudo tranquilo e seu sono já havia sido esquecido. Não demoraria muito para chegar em Londres, concluiu com um sorriso aliviado. Encostou a nuca no apoio do banco e respirou fundo, piscando lentamente e procurando relaxar, mas o susto que levou ao ver um animal na pista esvaiu qualquer chance que tinha para se acalmar.
Foi tudo muito rápido. Doug desviou do animal perdido e em seguida, avistou um carro vindo em sua direção, como reflexo jogou o automóvel para o lado evitando uma batida grave, mas que por azar, ou destino, resultou em uma bela batida. Com uma árvore no canteiro.
Uma grande e fixada, árvore.
- Cacete! - exclamou ao sentir sua testa arder e suas têmporas latejarem. - A vida é uma cadela, mesmo. Isso só pode ser brincadeira.
Frustrado e ainda incrédulo por ter batido em uma árvore e por sua falta de atenção, ligou para um guincho sem ter muito que fazer.

Nova Iorque, NY - Estados Unidos
11:40 AM

A dor de cabeça que sentiu ao despertar era, com toda certeza, bem mais forte daquela que sentia antes de dormir. Quis revirar os olhos e bufar, o mau humor matinal, que nem sempre aparecia, resolveu se instalar em todo o seu corpo.
Infelizmente, não seria apenas um mau humor matinal que lhe traria desconforto, a dor de estômago e o enjoo típico de uma ressaca lhe acertaram em cheio.
Enjoo.
Ressaca.
Que diacho estava acontecendo? Afinal, tinha certeza e se lembrava muito bem da noite anterior, principalmente da lataria do seu carro abraçando uma árvore, como um ativista do Green Peace faria.
- Lauren, para de gemer - disse uma voz desconhecida e feminina, ao seu lado.
Adeus dor de cabeça e enjoo, o susto que acabara de levar anestesiou seu corpo de um jeito sem igual e ao se sentar, nem suas pernas era capaz de sentir. O quarto branco e delicado, a colcha salmão, o ferro branco da cama de casal e a luz que irradiava o cômodo fez seu cérebro entrar em pane por alguns segundos.
- Cruzes garota, parece que viu uma assombração! – a jovem sentada ao seu lado devorava uma barrinha de cereal e mudava de canal sem parar. – Eu já estava pensando em como dar a notícia aos seus pais... “Oi querida família, aconteceu um acidente e a filha de vocês ficou mais louca que o batman em um looping infinito, frita e bêbada. Mas ela está em paz agora e descansa ao lado dos anjos” – ergueu sua sobrancelha sem entender com quem e sobre o que a estranha ao seu lado estava falando.
Gemeu ao sentir suas têmporas, mais uma vez, latejando como se um gigante apertasse seu cérebro sem dó nem piedade.
- Lauren? Amiga, olha aqui. Esse seu silêncio pós-farra está me assustando.
- Quem está me assust-
A resposta que formou e enviou para a ponta da língua morreu no ar. Alguém deve ter batizado seu café da manhã, ou o guincho o drogou antes de receber o pagamento... sua voz não era tão afeminada e doce como a que escutou ao abrir a boca.
Não fazia a mínima ideia de onde e com quem estava.
Olhou para baixo, em busca do próprio corpo, caçando os detalhes com um olhar apressado por respostas. A situação parecia cada vez pior.
- Mas que inferno...? – soltou ao puxar a colcha e ver um belo par de coxas femininas cobertas por um shorts azulado, unhas feitas e um volume familiar na altura do peitoral.
A companheira de cômodo falava com calma e num tom pacífico coisas relacionadas a “Não deixei você engravidar” e “Yohan só te carregou até a porta, eu juro!”.
- Meu celular, cadê? – perguntou ainda desnorteado, convencendo a si mesmo, com todas as suas forças de que não estava acordado, que aquilo era um sonho muito maluco e logo acordaria louco para mijar.
- Na mesinha, do seu lado.
Notou o peso do olhar da desconhecida sob sua face, mas desviou o olhar receoso. Ao achar um smartphone rose, metade de sua esperança já havia morrido.
Jamais produziria um sonho tão perfeitamente enganador como esse.
Ao apertar o botão no centro e encontrar a foto de uma mulher, de aproximadamente 20 anos, sorrindo de costas para o mar cristalino teve certeza de que foi drogado, estava alucinando e, provavelmente, estava preso em cativeiro.
Hesitante, abriu a câmera frontal e para seu total desespero encontrou o mesmo rosto que estava estampado na tela de bloqueio. Piscou. Piscou mais uma vez, de novo e uma vez mais. Ainda via a mesma mulher com uma expressão confusa e belos olhos verdes arregalados.
- Eu só posso estar na merda – sussurrou.
Dougie não sabia se pirava, tentava se acalmar ou enfiava os dedos na goela para expelir do seu organismo o que estava causando tamanha alucinação.

Continua...

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