Lies

Escrito por Danielle Aquino - Siga a autora no Twitter
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Parte do Projeto Songfics - 4ª Temporada // Música: Demi Lovato - Every Time You Lie

(Coloque para tocar Every Time You Lie – Demi Lovato)

Dirigir durante o amanhecer: aquilo era quase uma rotina, talvez algo que eu gostasse mais do que admitia para mim mesma. Fazer aquele caminho de poucos quilômetros por vinte minutos enquanto eu repetia para mim mesma que estava dando certo. Que estávamos dando certo. Eu menti tanto para mim quanto você fez isso.

Flashback On

As mãos de deslizam pelas minhas costas e repousam sobre a minha bunda enquanto nos beijamos calmamente – eu por cima dele. A iluminação dentro da sala de estar do apartamento dele estava perfeita: só o fogo queimando na lareira, nenhuma luz artificial, nossas sombras se confundindo no chão ao passo que nos movíamos sem pressa sobre o tapete felpudo. A garrafa de vinho que havíamos acabado de drenar juntos jazia em algum lugar por perto, assim como as nossas taças. Eu ainda me lembrava de nossas risadas se confundindo a cada vez que um dos dois soltava alguma bobagem e o outro completava com um comentário ainda mais bobo.
era tudo o que eu queria há muito tempo. Nós éramos amigos de infância – o típico caso em que um dos envolvidos confunde o tipo de amor que sente e acaba se apaixonando. Quem havia confundido tudo aos doze anos de idade havia sido eu, claro. Perdi as contas de quantas vezes chorei no travesseiro até dormir porque ele estava com alguma namoradinha nova e eu não tinha coragem nem de dizer o que sentia mesmo por ele, nem de me afastar e tentar minhas próprias experiências. Nenhum dos meus namoros deu certo então, porque havia demais na minha mente e na minha vida para competir com qualquer outro cara. Eventualmente, nenhum dos relacionamentos dele foi pra frente também, embora eu soubesse o quanto ele havia amado Claire. Estar com ele agora, daquele jeito, era quase um sonho realizado. Não era a primeira a vez – na verdade, estávamos ficando havia várias semanas. Mas cada sensação que eu tinha a cada vez que ele me tocava ainda era diferente, melhor do que eu imaginei. Milhões de vezes melhor.
Desci meus lábios para o pescoço dele e fiz um rastro de beijos até a sua clavícula, ainda tampada pela blusa. apertou forte a minha bunda, e agora eu não queria só beijinhos calmos mais. Cobri seus lábios com os meus novamente depositando ali um beijo muito mais animado, cheio de vontade. Ele levantou abruptamente, fazendo com que eu ficasse sentada com as pernas abertas sobre o seu colo. No instante seguinte, sua camisa já não estava cobrindo seu tronco perfeito mais, e eu já estava sem a minha blusa também. Aquela confusão maravilhosa de beijos, apertões, mãos e respiração ofegante durou mais alguns minutos até que ele soltou a frase que me doeu mais do um soco na cara:
- Eu amo você, Claire.
E foi assim que eu acordei do sonho.

Flashback Off

Eu sabia que a culpa era minha. Ok, não cem por cento minha, mas eu meio que pedi pelo que estava passando.
Havia menos de seis meses que e Claire haviam terminado porque ela decidiu estudar na Austrália e, bem, estava no quinto ano de medicina na Universidade de Londres. Não era o tipo de coisa que se joga pro ar pra ir atrás da namorada. E o fato de Claire ter escolhido parar a faculdade de direito no mesmo lugar que o namorado estudava para se tornar uma bióloga marinha quase que do outro lado do mundo dizia para qualquer pessoa que ela queria mesmo era se afastar. estava no relacionamento e sabia melhor do que ninguém que estudar não foi bem o motivo de Claire. Eu era a melhor amiga dele e sabia que, na verdade, ela só queria uma vida nova, diferente, que pensava que o relacionamento dos dois já estava desgastado demais para ser uma boa ideia continuar tentando. Talvez Claire estivesse bem agora, embora eu não duvide que ela sentiu falta dele. Às vezes, as decisões doem mesmo, mas você precisa tomá-las, e uma hora ou outra essa dor passa. O que eu achava que Claire foi egoísta demais para calcular foi o tamanho do estrago que isso faria no ex-namorado. E eu havia segurado a cabeça dele enquanto o coitado delirava de perturbação várias vezes, então eu sabia que ele sofreu. Muito.
Por isso, quando o encontrei cuidando da própria vida três meses depois que Claire foi embora, e ele próprio sugeriu que saíssemos para beber juntos, pensei que fosse uma boa ideia investir. Na minha mente, o fato dele ter namorado quatro anos com uma pessoa que amava e não ter dado certo, e o fato de eu ainda estar solteira aos 23 anos de idade também depois de vários namoros fracassados e tentativas inúteis de esquecê-lo fazia com que nós fôssemos perfeitos um para o outro e só podia significar que a felicidade estava ali, não em outro lugar. Além disso, tudo fluiu naturalmente – nós bebíamos e transávamos. Tivemos uma conversa depois da primeira vez que isso aconteceu, mas só chegamos à conclusão de que o negócio “amigos com benefícios” era uma boa ideia, por isso continuaríamos naquele ritmo. Então, disse várias vezes que estava esquecendo mesmo Claire, eu me apaixonei cada vez mais com a ideia de passarmos o resto de nossas vidas juntos... E de amigos que dão risadas e fazem sexo, nós viramos um casal que come brunch aos domingos e anda de mãos dadas no parque passeando com o cachorro de estimação.
Eu sabia que ele ainda amava Claire. Os sinais estavam lá – todos lá. Mas eu ignorava, porque era mais fácil. Porque eu não queria largar o osso. Porque era normal que ele ainda tivesse sentimentos por ela – foi um longo namoro e ele a amava... Mas, como tudo no mundo, eu tinha um limite. E noite passada quando ele disse aquilo, quando falou o nome dela no lugar do meu enquanto estávamos juntos, meu balde cheio transbordou.

xx

- Oi, mãe! – eu disse enquanto abria a porta de casa. Minha mãe provavelmente estava no jardim cuidando de suas plantas, e ela sempre se assustava se eu não me anunciava antes.
- Oi, querida! Entre! Eu estou aqui na varanda... – ela gritou de volta. Deixei a sacola com os doces que havia lhe comprado sobre a mesa da cozinha e fiquei observando da porta enquanto ela podava as flores ao pé da escada da varanda, que dava acesso ao pequeno quintal nos fundos.
Tentei manter meus olhos longe da cerca branca, que separava nossa casa em Middlesbrough da casa dos pais de . Quando éramos crianças, ele ou eu pulávamos aquela cerca todas as manhãs para brincarmos na casa um do outro... Balancei a cabeça de um lado para o outro como se isso fosse ajudar a tirá-lo da minha mente. Nos últimos dias desde que saí de seu apartamento dizendo que nunca mais queria vê-lo na vida, tudo o que eu havia feito fora afastá-lo dos meus pensamentos também. Eu estava com raiva. Raiva dele, mas principalmente de mim mesma. Porque eu só era vidrada em ainda porque era teimosa demais para tentar esquecê-lo de vez. Porque eu tentei forçar um relacionamento entre nós quando tudo do que ele precisava era de tempo para superar a carência pós-término e se abrir de novo pra outra pessoa – mesmo que essa outra pessoa não fosse eu. Porque eu estava machucada, mas quem abriu a ferida fui eu mesma.
- Como foi a viagem? – minha mãe perguntou acordando-me para a realidade daquele sábado.
- Tranquila. A estrada estava vazia.
- Que ótimo! Bom, acho que terminei aqui. Vamos colocar a mão na massa ou o almoço não fica pronto, né? – ela sorriu para mim tirando as luvas de jardineiro e deixando a tesoura de lado.
- E a saúde, mãe? Tudo bem? – perguntei embora estivesse mesmo preocupada com o fato dela ficar tanto tempo sozinha.
- Tudo ótimo, querida. Estamos com um novo projeto no grupo de costura agora, sabe?
- É mesmo? – incentivei-a a prosseguir.
- É. Vamos fabricar sweaters para crianças de um orfanato de Londres passarem o inverno com mais conforto. – ela completou e sorriu para o pote de cookies que tirou da sacola que eu levei. – Meus preferidos. Obrigada, querida! – completou.
Eu nasci quando minha mãe tinha 38 anos de idade, de modo que eu me preocupava tanto com ela não só porque já tinha 61 anos, mas também porque eu não tinha irmãos nem um pai (ele morreu em um acidente de carro quando eu só tinha três anos) que pudessem cuidar de seu bem estar. Meus avós já haviam falecido e meus tios que viviam mais próximos moravam em Madrid. Assim, todo mês, um dos meus finais de semana era dedicado à minha mãe. E eu sempre me divertia na companhia doce e amável dela.
- Agora me diga, o que está te aborrecendo? – ela questionou.
- Nada. Só preocupada com a faculdade, o estágio... Está tudo bem. – menti.
Minha mãe abriu a boca para falar alguma coisa – provavelmente dizer que me conhecia, não nasceu ontem e não me ensinou a mentir sobre meus problemas -, mas a campainha tocando lhe interrompeu.
Continuei na cozinha olhando para os alimentos sobre a mesa, e foi a voz de que chamou a minha atenção.
- A está aqui na cozinha... – minha mãe falou e sua voz aproximava-se do cômodo. Pensei em sair correndo pela porta dos fundos, mas antes que eu pudesse executar a ideia, e adentraram a cozinha.
- , olha só quem veio visitar os pais também! – ela disse quase empurrando para cima de mim.
- Oi, . Não sabia que você viria pra Middlesbrough esse fim de semana.
- Pois é, eu decidi de última hora. – ele respondeu.
- Bom, crianças, eu vou precisar de legumes para preparar o almoço, então preciso ir ao mercado. – minha mãe emendou pegando sua sacola de compras embaixo do balcão e catando as chaves do carro sobre a geladeira.
- Eu posso ir com a senhora, mãe...
- Não, de jeito nenhum. Eu me viro sozinha sem você aqui, pra quê vou te usar de muleta agora? – falou ofendida. Ela sabia só pelas nossas caras que havíamos brigado e agora estava inventando essa das compras pra nos obrigar a conversar e “fazer as pazes”. O problema era que não havia jeito de consertar as coisas dessa vez.
e eu ficamos em silêncio até escutarmos o barulho do carro no asfalto.
- O que você tá fazendo aqui? – cuspi.
- Precisamos conversar.
- Conversar sobre o quê? Sobre você enxergando a sua ex-namorada enquanto pega na minha bunda? Eu e a Claire não somos tão parecidas assim, . – soltei cruzando os braços sobre o peito.
- Eu sei que não são. Eu sei que eu fui um idiota com você, ok? – ele falou levando as mãos aos cabelos. – Eu estava bêbado, . Você sabe que em sã consciência eu nunca teria falado aquilo.
- Porque em sã consciência você mente! Você nunca ouviu falar que os bêbados e as crianças são as criaturas mais sinceras do mundo?! Pode não ser o caso de todas as pessoas, mas com certeza é o seu, ! – quase gritei porque agora a raiva estava transbordando.
- Ok, talvez eu ainda ame a Claire mais do que admito... Mas você precisa entender que não é tão simples assim apagar uma pessoa da sua vida.
- Eu sei que não é. Se fosse, você não seria nem uma lembrança pra mim mais. – falei e ficamos em silêncio nos encarando pelos próximos segundos. - Olha, me desculpe, ok? – suspirei, por fim. – Eu forcei muita coisa. Ou deixei que tudo chegasse nesse ponto em que eu estava num relacionamento com você enquanto você só estava tentando se recuperar de um que não deu certo.
- Você está se desculpando por me deixar te usar pra esquecer outra garota? – riu.
- Você tem razão. O filho da puta desgraçado aqui é você. Eu nem fazia ideia de onde estava me metendo. – respondi sarcasticamente. – Eu não vou me transformar em uma vítima porque eu não sou, . Eu sabia que você estava sofrendo pela Claire, que estava num momento em que a carência é quase uma necessidade física, e mesmo assim eu deixei que as coisas chegassem nesse ponto. Mas é bom que isso tenha acontecido. Acho que eu só teria paz na minha vida quando percebesse que nós não servimos como namorados. Nós somos amigos e é assim que deve ser.
ficou em silêncio ainda olhando nos meus olhos, provavelmente tentando entender em que ponto aquela conversa nos deixava agora.
- Mas nós não vamos ser amigos por enquanto. – ele concluiu.
- Não, nós não vamos. Eu preciso desintoxicar de você.
- Eu não sei se aguento te perder também, . – respondeu com o rosto contorcido pelo choro.
- Você nunca vai me perder, seu idiota. – falei reprimindo o impulso e desejo quase incontrolável de abraçá-lo. – Somos irmãos acima de tudo.
- Caramba, cometemos muito incesto então. – ele disse e eu ri alto.
Ficamos algum tempo calados enquanto eu pensava no quanto era melhor ser só amiga dele do que não ficar por perto de forma alguma. Pensei em como ele já estava enfrentando uma fase difícil... E então atravessei a cozinha de minha mãe, como a covarde que era, para abraçá-lo em conforto, do modo que eu tanto queria e ele tanto precisava.
- Chega de mimimi. Vamos ficar bem. – falei acariciando sua nuca.
- Eu amo você, .
- Eu também amo você, . – respondi sabendo exatamente o que ele queria dizer com aquilo. Ele estava sóbrio, afinal.

FIM

 

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