Lead me

Escrito por Fee Lemos - Siga a autora no Twitter
Beta-Reader: Natashia



Prólogo

Era mais um dia quente e o ar condicionado da sala parecia nem funcionar. O segundo horário começaria com uma aula de geometria, então todos os materiais necessários já estavam em cima da mesa de . Seus amigos faziam bagunça em cima das mesas, mas ela e outros poucos alunos permaneciam quietos à sua própria maneira. e apostavam uma queda de braços, enquanto trocava SMS com alguém e escrevia alguma coisa no caderno de .
Então tudo aconteceu rápido demais...
A porta da sala se abriu revelando o professor de geometria. Como sempre ele trazia o material a ser usado na sala de aula. Mas dessa vez um aluno novato o acompanhava. quase suspirou, como muitas outras fizeram, mas não teve tanta coragem. O novato era lindo, ela pode perceber em poucos segundos. O professor olhou em sua agenda e depois se virou para a classe, que finalmente se organizou em seus lugares. O aluno novo ficou ao lado do professor, mas um passo atrás.
- Bem, esse é o , como devem ter percebido ele é novo no colégio e foi transferido essa semana. Ele está um mês atrasado nas matérias, mas tenho certeza de que vocês o ajudarão. – O professor olhou mais uma vez em sua agenda, enquanto olhava para os alunos com um sorriso amarelo e sem saber exatamente o que fazer. – . Você pode se sentar ali, na frente da . Ela é uma boa aluna, poderá ajudá-lo. – E dizendo isso o professor de geometria sentou-se em sua mesa organizando seu material.
Restou a marchar até a única cadeira vazia diante a garota de sorriso tímido. Ele sorriu abertamente para ela, enquanto se acomodava.
- Prazer, .
- . – Ela mordeu o lábio inferior em uma clara demonstração de nervosismo.
A partir daquele momento, sabia. Estava apaixonada à primeira vista pelo garoto novato.

Capítulo 1

Durante o intervalo, só se falava sobre o novato. Quer dizer, as meninas falavam sobre ele. não era coisa de outro mundo, mas usava os cabelos bagunçados, um brinco em uma das orelhas, calças um pouco folgadas e tinha um sorriso fofo de derreter qualquer coração gelado. Inclusive o coração de . Agora ela sabia que não apenas ela, mas quase toda a parte feminina de sua classe, caíra de amores por a partir do momento em que ele pisara na sala, inclusive suas amigas de longa data. parecia ser a mais empolgada de todas, procurando-o com o olhar por todo o pátio do colégio, mexendo nos cabelos com a ponta dos dedos e falando sem parar com as amigas.
- Será que ele já notou alguém da nossa sala? Ou será que ele prefere garotas mais velhas? – Parecia desapontada. – Ele tem jeito.
- Calma, a gente mal conhece ele. – observou, enquanto fazia uma trança nos cabelos de . – , você foi quem mais falou com ele. O que ele te disse?
- É, o que ele te disse, ? – pulou e sentou no chão, entrelaçando os braços com a garota. – Ele disse de onde era antes?
- Ah, ele nem falou muito. Só repetiu o nome dele, depois disse que o pai sempre viajava, pois era gerente de banco e antes ele morava na Flórida. E então ele me pediu o último assunto de geometria e eu emprestei algumas folhas do meu fichário.
- Nerd! – acusou-a, novamente desapontada. – Podia ter perguntado a idade dele, se ele tem namorada, se já viu alguma garota interessante no colégio.
Muito depressa, cutucou e que se viraram para reclamar, mas deram de cara com e , acompanhados de .
- 17. Não. E, bem, sim... – sorriu de canto e coçou a nuca, visivelmente embaraçado.
ficou de pé em 3 segundos e seu rosto era quase uma amostra viva de um pimentão, mas como não era de sua personalidade ficar constrangida por muito tempo, ela apenas o encarou e sorriu mostrando todos os dentes perfeitamente alinhados e branquinhos.
- Meu nome é . E aquelas são e . – Apontou para cada uma. – A você já conhece.
- Já sim. – observou sentada no chão por cima do ombro de . – E aí? – apenas sorriu rapidamente e ficou de pé, batendo as mãos no uniforme para limpá-lo.
Estava visível agora, a turminha do barulho e do fundão, formada por e agregara o novato ao grupo. não saberia dizer se ela se sentia confortável ou não com aquela aproximação tão repentina. Todos os seus amores platônicos do colégio eram inalcançáveis, a maioria de outras classes. Agora aprenderia a conviver com uma delas perto demais. Era uma situação totalmente nova. Para piorar tudo, lá estava fazendo a íntima novamente e convidando os garotos para irem até a cantina...
- Eu vou até a biblioteca! Encontro vocês na sala. – gritou para os amigos e começou a se distanciar pelo pátio.
- Espera! – Era a voz de , fazendo com que ela virasse em sua direção. – Onde fica a biblioteca? – apontou o indicador para cima sinalizando o andar superior. – Posso ir com você? – Ela deu de ombros.
parecia decepcionada porque estava indo na direção contrária, mas nada, nem mesmo o novato lindo e gostoso, a faria ir até a biblioteca ainda tendo mais 15 minutos de tempo livre. Os outros amigos deram tchau para a dupla e dirigiram-se para a cantina. foi lado a lado de , com as mãos nos bolsos. Subiram o primeiro andar e logo estavam diante a biblioteca.
Ambos entraram juntos, mas ainda assim não disseram uma palavra. estava nervosa demais para formular qualquer frase que fosse. Sentia-se boba, mas ainda assim preferia não falar mais que o necessário. Já não sabia como começar a conversa. Por duas vezes naquele dia tentara puxar assunto, mas mal o respondera. Agora se sentia diferente, pela primeira vez sem saber o que dizer diante uma garota.
ainda não conhecia a biblioteca e também não se importou de ensiná-lo a achar o que procurava. Todos os corredores tinham plaquinhas no alto indicando o gênero dos livros que se encontravam naquelas estantes e todos eles estavam em ordem alfabética, então não era difícil aprender de primeira. foi para a sessão de romances e escolheu um livro com a capa preta, onde as letras eram pequenas demais para ler o título de longe, logo ficou sem saber de qual se tratava. Ele deu de ombros e procurou um livro de inglês na sessão de didáticos. Durante todos os 15 minutos de tempo livre, ficou absorta em sua leitura. Nem mesmo quando o sinal do fim do intervalo tocou ela se mexeu. já havia devolvido o livro para a prateleira quando viu a bibliotecária chamando a garota que se assustou de leve. sorriu e entregou o livro para a bibliotecária, enquanto seguiu seu próprio caminho.

Capítulo 2

Durante os dias seguintes, ainda foi à biblioteca mais duas vezes durante o intervalo do lanche, mas sozinha. já parecia amigo de longa data de e , andando com eles para todos os cantos. , e , claro, estavam sempre por perto também. Como no primeiro dia, ajudou emprestando suas anotações. Ele parecia se interessar pela matéria e fazia algumas perguntas, ao que ela respondia objetivamente. Ao final da semana, ele já havia copiado tudo e recebido dicas preciosas de . Todo aquele jeito de estudioso de só fazia com que ela se encantasse ainda mais pelo garoto. Ele era lindo e inteligente, mas sem ser chato. Ria bastante e vivia participando das palhaçadas dos garotos do fundão.
Ao final da última aula, na sexta-feira, percebeu que estava visivelmente nervosa. Como tinha passado os últimos horários prestando atenção na matéria, não sabia o que estava acontecendo com a amiga.
- Hey, o que aconteceu? Você está bem? – perguntou enquanto descia as escadas ao lado de .
- Mais ou menos.
- Nossa, é a primeira vez que eu vejo você assim tão nervosa e pálida. Conta logo o que houve.
- Eu... Mandei um bilhete para o . – engoliu em seco.
- E?
- E disse no bilhete que queria falar com ele no final da aula, lá no último muro, na saída do colégio. Mas disse que era a sós e que... Bem... Que eu estou interessada nele.
- Ah...
processou um pouco a informação. Estavam descendo o último lance de escadas. Último lance esse que dava bem para frente do muro do qual falavam. Os meninos haviam descido primeiro, ou seja, se estivesse lá é porque ele também queria falar com .
- Se ele estiver lá você tem sorte, ele pensa o mesmo.
- Ou não. Pode estar lá para me dar um fora. Você viu como ele é todo legal e trata bem as meninas, pode querer me dar um fora mais delicado. – No fundo, queria que aquilo acontecesse, embora se sentisse mal por isso, afinal a felicidade de estava em jogo, sua amiga de vários anos.
- Você só vai descobrir se falar com ele porque... Bem, ele está ali, ó.
apontou discretamente para o muro onde estava encostado , acompanhado de e . Eles estavam bem à vontade, rindo de algo que elas ainda não podiam saber, pois estavam a alguns metros de distância. sorriu timidamente e virou-se para a amiga.
- Eu já falei pra e pra que se tudo der certo eu vou almoçar com o , então não dá para vocês irem lá pra casa agora. Como temos retorno à tarde, se não der para você voltar para a sua casa, vai com o ou , almoça com um deles.
- Não se preocupa, amiga. A gente já aluga demais a sua casa e fila muito a comida da sua mãe. Eu dou um jeito, vou de ônibus para casa ou aviso o meu pai.
- Certo! – sorriu. – Deseje-me sorte.
- Você não precisa, mas... Boa sorte!
Dito isso, as meninas chegaram até onde os garotos estavam. Em um rápido movimento, ficou de um lado de e do outro, e ambos colocaram um braço por cima do ombro da garota. Ela sorriu, revirando os olhos, enquanto os dois garotos se despediam de e e a viravam para a direção da saída do colégio. Ela ainda teve tempo de olhar brevemente para trás, por cima do ombro, e pareceu ver de relance que a encarava, mas logo o momento se perdeu. suspirou. Era mais uma de seus amores platônicos, afinal.
Naquela tarde, teve o retorno ao colégio para mais uma sessão de aulas, mas nem ou compareceram, o que provou a tese de que passaram o dia juntos.

Capítulo 3

No domingo, o pai de fez um churrasco para a família, então a garota convidou , e . Depois de um bom banho de piscina, as garotas estavam trancadas no quarto, fofocando. , claro, era a que mais tinha novidades depois de seu encontro com no final da aula de sexta.
- Vocês não têm noção do quanto ele é fofo. A gente foi num restaurante perto do colégio mesmo e ele nem me deixou sequer ver a conta. Claro que não era chique, nem nada do tipo, mas ainda assim eu queria rachar e pagar a minha parte.
- Ai, eu preciso de um desses. – se jogou dramaticamente na cama de .
- E o que mais? No retorno da aula a gente queria saber onde vocês tinham se enfiado, porque perderam a aula, não é. – observou, encostada na imensa janela.
- Daí que quando a gente saiu do colégio fomos andando até o restaurante, de lá a gente pegou o caminho da praça até a minha casa, então... Meio que rolou um clima quando cheguei à porta de casa, e ele me beijou. Foi lindo!
Embora torcesse por , não conseguia se sentir 100% bem com toda aquela situação. Ele a beijara! Ele beijara ! Ele beijara uma de suas melhores amigas! Agora mesmo é que ele ficaria só em seus sonhos... Se dissesse que tinha simpatizado com ele também seria a maior traíra da história, a maior fura-olho do colégio, e ainda existia a possibilidade de rechaçá-la, então ela ficaria sem os amigos e sem o garoto. Tudo o que fez foi sentar na sua poltrona reclinável e escutar sobre o quanto era lindo, gostoso e beijava bem.
- Vocês acham que vão ficar de novo?
- Não sei, . No que depender de mim, fico com ele de novo, e de novo, e de novo... – deitou-se também na cama, suspirando. – A princípio, cheguei a pensar que ele não ia querer ficar comigo, que só estava sendo um cara legal me levando para almoçar e depois dizendo discretamente que não queria nada. Só que não foi isso que eu senti. Lembram do primeiro dia dele no colégio, quando eu estava conversando com a ... – se apoiou nos cotovelos e virou-se para na poltrona. – Lembra, ? Que eu disse “ah, , você devia ter perguntado a idade dele, se ele tem namorada, e se ele prestou atenção em alguém”? Daí ele disse que tinha 17 anos, nenhuma namorada e que sim, já havia ficado de olho em uma pessoa. Será que era de mim que ele falava?
- Acho que sim, ou ele não teria ficado com você sendo que está de olho em outra garota. – respondeu. – Ele é lindo. Se você não agarrar ele, eu agarro, hein.
- Ai, que vadia! – riu e jogou uma das almofadas em . – O que você acha, ?
estava imaginando “e se fosse ela a garota que ele prestara atenção?”. Se fosse, bem que ele podia ter dito algo. Ele não teria ficado com , sabendo que elas são amigas e que agora ele pertence ao grupinho. Era nisso que ela acreditava, embora seu coração bobo de menina apaixonada preferisse pensar com todas as forças que talvez fosse ela a tal que ele comentara no primeiro dia. Enquanto divagava, uma almofada rosa atingiu sua cara em cheio, bagunçando até seus cabelos.
- No que está pensando, hein, sua lesa? – ria descontroladamente da cara de . – Perguntei o que você acha? Será que falava de mim no primeiro dia?
- Acho que a está sonhando acordada com alguém. – gargalhou. – Hum... Será que é o Josh que habita seus pensamentos? Era dele que você falava ano passado, não era?
- Ai, gente, que bobagem! Josh é passado. – Respondeu, sem graça. – Ninguém habita meus pensamentos, obrigada.
- toda não me toques. Aposto que é o Josh mesmo. – Foi a vez de tirar uma onda. – Não se preocupa, a gente te arruma, te deixa bem linda, mais do que já é, e chama o Josh na hora do intervalo.
- PAREM! Isso nunca dá certo. Vocês me colocam em saia justa com todos os garotos lindos do colégio.
- Não temos culpa se você sonha com todos eles.
- Mas têm culpa de me deixarem embaraçada na frente deles, eu nunca sei o que falar.
- Você quem sabe, mas o Josh é gente boa, nunca ia deixar você embaraçada na presença dele.
Mesmo após alguns protestos, as três ainda ficaram chateando e provocando com o assunto. Sabiam o quanto ela ficava constrangida com esses encontros casuais que as amigas provocavam nos intervalos das aulas, mas não faziam por mal. Desde que se conheceram, ela só havia ficado com dois garotos por um curto período de tempo. Mesmo sendo linda e inteligente se negava a se aproximar dos garotos que lhe chamavam a atenção, e consequentemente rechaçava os que não lhe interessavam. Era uma garota de lua, nerd, mas considerada pegável, que nunca fazia nada para mudar sua insegurança e timidez, por isso as amigas se sentiam na obrigação de apresentar os lindinhos do colégio para ver se ela mudava um pouco. Era sempre em vão.

Capítulo 4

No mês seguinte, a professora de Química formou duplas para as aulas no laboratório e por uma coincidência do destino o escolhido de fora . A sensação de tê-lo sentado tão próximo era indescritível, fazia seu coração bater acima do normal. Com certeza a professora que explicava aquela matéria poderia explicar um pouco melhor aquelas reações. Só que junto daquelas sensações inexplicáveis, vinha a culpa. Culpa porque a quase uma semana atrás pedira em namoro. E ela fora a primeira a saber.

FLASHBACK ON

não sentou no fundão naquela segunda-feira, como o habitual. estranhou quando ele se sentou à sua frente, coisa que não acontecia desde a primeira semana que ele chegara no colégio. Quando todos estavam entretidos copiando a matéria para um primeiro teste na próxima semana, ela foi pega de surpresa por um papel cuidadosamente dobrado que pousara em cima de suas anotações. Ela o desdobrou e só pelas primeiras letras percebeu que era de olhou para frente, mas ele parecia entretido demais no que a professora ora falava, ora anotava no quadro. Voltou a ler o bilhete.
Aula chata, hein.
bufou. Só ele mesmo para tirar a atenção dela da matéria com um bilhete tão sem sentido.
Sim, e mais chato você que fica me distraindo. Olha pra frente e anota a matéria!
Morrendo de medo de ser pega, empurrou o bilhete pra mesa de por cima do ombro dele enquanto a professora estava de costas. Ninguém pareceu perceber. Depois de alguns segundos, escutou a risadinha abafada do garoto à sua frente, o que a fez sorrir levemente. Dali de onde estava, tinha uma visão privilegiada da nuca de seu amor platônico. A nuca branquinha, o cabelo sedoso e bem cortado, as orelhas pequenas... Ainda tinha um sorriso nos lábios quando se virou em sua direção, pegando-a desprevenida com aquela cara de bobona. Ele estava sério e só desviou o olhar quando reparou em na diagonal de , e sorriu para ela, que mandou um beijo de volta. Ele voltou à posição e mais uma vez tinha um bilhete em cima da mesa de .
Acho que vou pedir a em namoro...
Assim, rápida como uma flecha, aquela frase a atingiu fundo. Eles estavam juntos a pouco mais de um mês. Um mês! Não era tempo suficiente para pedir ninguém em namoro. Naquele curto espaço de tempo ele já amava ? As pessoas não deviam namorar só quando estivessem apaixonadas? sabia o quanto era exagerada e já tratava como um namorado, mais parecia uma obsessão do que amor. Mas para era assim também? Ele estava realmente apaixonado por sua amiga? Quis perguntar várias coisas no bilhete, mas não conseguiu formular nada coerente. Sua vontade era gritar.
A professora continuou copiando a matéria no quadro... O tempo continuou passando... não olhou mais para trás e mais rápido do que esperava o sinal tocou. Era intervalo das aulas, horário do lanche, os alunos começaram a se levantar. se levantou e logo depois o garoto fez o mesmo. Ao se verem de frente um para o outro, ele a questionou com o olhar.
- Ah, o bilhete está aqui, não tive chance de passar mais ele porque fiquei preocupada com a professora. – disfarçou seu jeito incoerente procurando algo na bolsa.
- Você acha que é muito cedo? – A voz dele estava mais baixa que o normal, para que somente ela o escutasse.
- Sinceramente? – Ela se virou para ele, olhando-o nos olhos. Queria dizer o quanto aquilo era uma loucura, que era sim cedo demais, mas ao invés disso apenas sentiu os ombros murcharem. – Só de estar indeciso não é uma boa ideia, mas se você gosta dela e ela de você, não sei por que não dariam certo.
Logo os amigos se reuniram perto deles e ela viu quando amassou o bilhete e o colocou no bolso da calça discretamente. Desceram juntos para o intervalo, lancharam juntos também como em todos os outros dias quando não estava na biblioteca, mas em algum momento entre o fim do lanche e o toque do sinal, e desapareceram de suas vistas. Aquilo só podia significar uma coisa. Suspirou fundo já esperando por mais uma parte do final feliz de sua amiga.

FLASHBACK OFF

- Cuidado, ! – a alertou, segurando o pulso da garota. – Está querendo explodir todo o laboratório?
olhou para suas mãos e viu uma substância que não poderia ser misturada a outra. Estava distraída.
- Desculpa.
- Onde você estava com a cabeça? Já falei várias vezes qual você deve usar. – Ele tomou de suas mãos o vidro que quase causava o acidente e entregou-lhe outro, encostando levemente os dedos nos dela durante a troca.
Por alguns segundos, ergueu o rosto e o encarou. Ele estava tão perto, debruçado sobre a bancada onde se encontravam os experimentos... O jaleco branco o tornava ainda mais lindo. Involuntariamente, ela entreabriu os lábios, e aquele simples gesto capturou a atenção de . Por alguns segundos, totalmente mudado e alerta, ele ficou ora olhando os lábios da garota, ora olhando-a nos olhos. Aquela mudança repentina na atmosfera só a deixou mais atordoada. Antes que tivesse um surto e beijasse o namorado de sua amiga no laboratório de química diante todos os outros alunos, incluso a namorada dele, se virou e começou a depositar a substância em outro vidro, como se nada tivesse acontecido. Nada podia acontecer, não entre eles dois.

Capítulo 5

Depois daquele momento de tensão no laboratório, nada mais significativo aconteceu entre e . Para falar a verdade, ele parecia muito mais disposto a dar atenção para . E assim foi até a semana seguinte, quando ele precisou ir à casa de fazer um relatório para a aula de química.
Ela ficara nervosa o sábado inteiro enquanto o esperava chegar, mas quando ele chegou todo o desconforto desapareceu. já chegou cumprimentando a mãe da garota e a chamando de “tia”, falando todo sério com o pai de (o que fez a garota quase engasgar de tanto querer rir), e agora até estava brincando com o cachorro da família, que rolava pelo chão da sala aos comandos de .
- Você não é normal, . Deixa o meu cachorro em paz e vamos estudar! – Ela puxou o amigo pela manga da blusa. – MÃE, PRENDE O LINGUADO!
- Você só pode estar de brincadeira... Esse é o nome do seu cachorro? Linguado?
- Ai, não enche. Eu amava A Pequena Sereia. Ainda amo, mas enfim. Fica ali na mesa da sala, - Ela apontou para a mesa onde estudariam. – enquanto eu pego o meu livro lá no quarto. – começou a subir as escadas quando escutou um barulho nos degraus debaixo. Era subindo também, a alguns metros de distância. – Você está louco? Meu pai está em casa, ele já odeia a ideia de me ver estudando com um garoto, dá pra imaginar o choque de ver um dentro do meu quarto?
- Eu quero conhecer o seu quarto. – Ele agora olhava descaradamente do rosto para as pernas da garota, pouco cobertas pelo short. Ao invés de se sentir incomodada, ela gostou daquela situação.
foi subindo lentamente degrau por degrau, virada de costas, de frente para . A cada degrau que ela subia, ele subia também. Foram fazendo esse jogo até que, quase no topo, escutou a voz de seu pai vindo pelo corredor do andar de cima. Alarmada, ela virou para e já ia mandar que ele descesse, mas nem foi preciso, o mesmo já estava descendo os degraus de dois em dois. Mais uma situação inusitada se instalara entre ambos e novamente sentiu-se extasiada.
Ela desceu com os livros que iriam necessitar para o desenvolvimento do trabalho e começaram a escrever um relatório aprofundado. Descansaram poucas vezes e só quando a mãe da garota lhes levava algum lanche ou água. De vez em quando as mãos de ambos se esbarravam quando iam pegar algo ao mesmo tempo, mas o que mais causava arrepios na garota eram as pernas deles se tocando ocasionalmente quando se aproximavam até o limite do permitido para lerem alguma explicação juntos.
Já havia escurecido quando finalmente terminaram o primeiro relatório de muitos que ainda fariam como dupla para as aulas de laboratório. A mãe de parecia ter gostado muito de , a todo o momento perguntava se ele queria algo. Quando ele se despediu, parece até que senhora havia murchado, o que fez rir e rolar os olhos.
- Até a minha mãe você já ganhou. – Ela disse enquanto o acompanhava lado a lado até a porta.
- E você? Eu já ganhei? – tropeçou no tapete que ficava no hall de entrada há anos, espantando . – Você está bem?
- Estou. – Ela chutou o tapete para longe. – Maldito tapete!
- Então, primeiro dia de relatório, foi bem aproveitado. – Ele parecia pensativo, ambos agora já quase na rua. – Foi bom a professora ter escolhido você como minha dupla. Desde o primeiro dia eu entendi e me dei bem com as suas anotações, aposto que conseguiremos boas notas. Se o meu par fosse a duvido que eu fosse tirar boas notas.
- Verdade. – rolou os olhos. – Ela odeia estudar, ainda mais química e física. Mas vamos esperar, ainda não recebemos nenhuma nota.
- Confio em você. – Ele sorriu maroto, e depois se aproximou para beijar o topo da cabeça dela. – Se cuida, . Segunda nós nos vemos na aula.
- Está certo.
Ela ficou dando tchau de sua porta até que ele sumisse de sua vista. Quando a professora o escolheu como sua dupla pras aulas de química no laboratório sabia que teria que levá-lo para sua casa e estudar com ele durante várias horas. Precisaria se controlar cada vez mais enquanto estivesse na presença dele. Estava ficando cada vez mais difícil após tanto proximidade.

Capítulo 6

Quando menos esperava, aquilo virou rotina. Duas vezes na semana a turma tinha aula de química no laboratório e todo sábado de manhã cedo ia fazer parte do relatório mensal na casa de . O que os amigos chamavam de “nerds” eles chamavam de “precaução”, era melhor fazer antes e tirar notas boas do que ficar de recuperação em uma matéria tão cansativa quanto aquela. Já haviam se passado dois meses e todos os sábados, antes do almoço, ia embora, para desespero da mãe de , que sempre preparava uma comidinha especial na intenção de fazê-lo ficar mais algumas horas. Só que os sábados também era de . Depois da sessão de estudos, ele ia para a casa da namorada passar o resto do dia até que o pai da garota o expulsasse de lá. Ao contrário do seu quarto, tinha certeza de que já conhecia o de bem demais até.
estava distraída em sua casa, já vestida em seus trajes de dormir, quando o celular tocou. Era o nome e a foto de no visor.
- Fala, amiga.
- , me diz que o está aí!
- Er... Não. Ele saiu antes do almoço. Ele não foi pra aí? – Agora estava visivelmente preocupada. – Ligou para o celular dele?
- Já sim. Só caixa postal, assim como o do e o do . Esses garotos estão tramando, eu sinto isso!
- Se acalma, . Não tire conclusões precipitadas. O celular dele pode ter descarregado. Liga pra casa dele.
- E você acha que eu não fiz isso? – estava realmente possessa do outro lado da linha. – Você está defendendo o , é isso mesmo, ?
- Claro que não! Só acho que ele não seria tonto de fazer nada de errado.
- Ok, você não está ajudando muito. Se conseguir falar com ele pede pra ele me ligar UR-GEN-TE-MEN-TE! Obrigada. – E assim como ligou, desligou.
- UAU! Tchau pra você também, .
ficou olhando para o celular até que o display apagasse. E se ela ligasse para ele? E se ele atendesse? Fechou a janela, pois já estava tarde, e ligou o ar condicionado. A pouca roupa de dormir que a cobria não daria conta de aquecê-la, portanto pegou seu edredom jogado em cima da poltrona e depois se jogou na cama, cobrindo-se com ele. Voltou a olhar para o celular e lentamente discou o número de , número esse que ela já sabia de cabeça. Como era mesmo de se esperar, caixa postal. Fez o mesmo com e com e obteve o mesmo resultado. Bem, ela tentara. Só esperava que tudo estivesse bem com os três garotos e que eles não fizessem nenhuma bobagem.
O sono chegou rápido. Sempre era assim nos últimos sábados. Depois de uma intensa maratona de estudos pela manhã, só o que ela queria à noite era sua cama, seu edredom e o frio de seu quarto. Teve sonhos engraçados, alguns psicodélicos demais, onde uma borboleta gigante e totalmente colorida a acompanhava por todo um caminho de flores ainda mais coloridas. Seu sonho tinha som. Um zumbido ininterrupto. Depois um “tec tec” com intervalos cada vez maiores. Só que aquele barulhinho estava lhe perturbando... E o sonho acabou. Droga! Ela realmente queria saber o que acontecia com a borboleta gigante e até mesmo assustadora. Novamente, escutou o “tec tec” e aquilo não era mais fruto de seu subconsciente. O som vinha da janela.
Com muito custo, ela conseguiu se desvencilhar do edredom que parecia não querer se separar de sua dona. O quarto estava frio, mas ainda assim agradável. Protegendo a vista da claridade das luzes da rua que refletiam no espelho de sua janela, espiou a rua. Havia uma silhueta lá embaixo, na direção de sua janela. Essa mesma silhueta já fazia menção de jogar algo para cima quando parou e fez um sinal para a garota. Após alguns segundos forçando a mente, teve um estalo. Era quem estava ali embaixo! Olhou para o relógio no criado-mudo. 1h30 da madrugada. O que ele estava fazendo na porta de sua casa àquela hora? Rápida como uma bala, abriu a janela e se debruçou sobre a mesma.
- ! Finalmente! – Ele gritou, visivelmente descoordenado, mal parando em pé na mesma posição por muito tempo.
- SHIU! – Ela colocou o indicador na boca indicando silêncio. – Não grita, por favor, você vai acordar os meus pais. O que você está fazendo aqui a essa hora?
- Desculpa, , eu devia ter ligado antes, mas a minha bateria descarregou. Eu... – Ele coçou a cabeça, olhando para os lados, para a rua deserta. – Vem aqui embaixo, abre a porta.
- Você está louco? Meus pais te matam e depois me matam.
- Não exagera, vai.
- Onde você estava? A estava te ligando feito louca.
- VOCÊ VEM AQUI OU NÃO? – De repente, ele elevou a voz de novo, já que antes conversavam aos sussurros.
- CALMA! – fechou a janela e começou a andar de um lado para o outro do quarto. – E agora, meu Deus, o que eu faço?
estava visivelmente bêbado lá embaixo. Aquela era a explicação mais plausível para ele estar ali àquela hora. Se descesse, se ele fizesse um barulho sequer, seus pais acordariam e ela estaria em maus lençóis. Mas também não podia deixá-lo ali sozinho. Àquela hora não passavam ônibus, táxis, nenhum ser vivo naquela rua. Bem, que Deus a ajudasse, ela desceria as escadas e abriria a porta de casa em plena madrugada, correndo o risco de seu pai com sono leve pegá-la no ato. Sequer calçou as pantufas, desceu sem nada nos pés para que não fizesse barulho algum. Foi difícil, mas finalmente conseguiu chegar no hall. Destrancou a porta e encontrou sentado no primeiro degrau da varanda.
- Achei que não ia descer. – Ele se virou, sem se levantar.
- E deixar o meu pai acordar e te pegar aqui, não mesmo. – Ela se aproximou e se abaixou um pouco. – Onde você estava? Eu te liguei, liguei pros meninos, a também...
- Nem me fala na . – revirou os olhos. – Hoje nós brigamos. Tudo tem que ser do jeito dela, se não é isso o ciúme doentio dela estraga tudo...
- Mas o que isso tem a ver com você sumir no mundo? Nem seus pais sabiam de você.
- Eu liguei ainda agora pra minha mãe, disse que ia dormir na casa do .
- E por que não foi pra lá?
- Bem, você sabe que nos finais de semana os pais do viajam pra casa de praia deles e o garoto fica lá sozinho. Quando saí daqui eu e fomos pra lá, depois fomos a uma festa, bebemos um pouco, e o cara saiu acompanhado. Eu não ia dar uma de empata-foda indo dormir na casa dele...
- Daí ao invés de ir pra sua casa você decidiu arruinar a minha vida? – cruzou os braços. – Se o meu pai te pega...
- Eu sei! Eu sei! – Ele se levantou rápido, quase cambaleando. – Desculpa, não devia ter chamado você. Só vou dar um tempo aqui e sei lá, depois vou pra portaria do meu prédio.
e ficaram frente a frente. Os cabelos do garoto estavam bagunçados, ele vestia um jeans folgado e surrado e uma camiseta mais justa branca. Era perceptível o cheiro do álcool quando se aproximava dele. Com certeza, ele levaria um esporro dos pais se chegassem em casa daquela maneira e de madrugada. Por mais que achasse errado o que ele havia feito, ainda assim não queria que fosse repreendido. Tinha que ajudar o amigo. Respirou fundo e o segurou pelo pulso, puxando-o pela varanda, tomando cuidado para que ele não tropeçasse em nada. Ao fechar a porta com a chave, percebeu o sorriso nos lábios de .
- Sabia que você ia me ajudar.
- Não sei como aturo você. – Ela revirou os olhos e o segurou pela mão, em seguida falando em um sussurro. – Agora, por favor, se comporta, a gente vai subir, mas para chegarmos ao meu quarto teremos que passar pela frente da porta do quarto dos meus pais, então silêncio.
Ele apenas concordou e fez um sinal com a mão como se fechasse a boca com um zíper. Os dois seguiram pela sala de mãos dadas, se não fosse a situação inusitada, estaria morrendo de vergonha. Quando estavam para subir as escadas, deu uma topada em uma mesinha de centro e por pouco não xingou alto. arregalou os olhos e ergueu a mão ameaçando dar um soco de mentirinha nele, para em seguida ficar na perspectiva no início da escada, esperando para ver se o barulho acordara seus pais. Dois minutos ali e nada. Ok, caminho livre.
Com o coração na mão conseguiram atravessar todo o corredor e entraram no quarto dela. trancou a porta com a chave e soltou a respiração enquanto apoiava as costas na porta. Aquela era a maior loucura que fizera em toda sua vida. Trazer um garoto para o seu quarto em plena madrugada, com os pais em casa. Só depois de lembrar-se disso, é que ela foi procurar . Ele estava parado no meio do quarto, observando tudo.
- O seu quarto é bem legal. Simples, mas ainda assim bem maneiro.
- Obrigada. – Ela deu de ombros. – Você pode dormir na minha cama, está em pior situação do que eu. Eu deito na poltrona, ela é reclinável e já dormi nela muitas e muitas vezes.
- Outros garotos vieram pra cá? – Ele arqueou a sobrancelha.
- Claro que não! – Não sabia se sentia-se ofendida ou alarmada. – É só que eu prefiro ler sentada nela, acabo esquecendo as horas, daí já viu.
percorreu o quarto de , tocando em alguns objetos e depois se virou para ela.
- Não conta pra o que aconteceu hoje. Ela vai ficar mais possessa ainda. novamente deu de ombros.
- Isso é entre vocês dois.
- Mas eu estou dormindo no seu quarto e, bem, você ainda é amiga dela, é de se esperar que conte tudo.
- Agora sou amiga dos dois. Parece que ainda não me conhece, eu odeio conflitos, , então você se resolve com ela. Eu não conto que você dormiu aqui, você não conta que veio pra cá, e estamos quites.
Foi a vez dele de deixar pra lá e dirigir-se para a cama da garota.
- Tem certeza de que prefere a poltrona? Eu posso muito bem dormir nela e...
- A poltrona é boa pra mim, você é maior do que eu, então ia ser um pouco desconfortável. Já não basta a ressaca que você vai sentir amanhã.
- Ah, nem me fala. – Ele fez uma careta sentando-se na cama e tirando os tênis. – Amanhã cedo vou pra casa, fico um saco quando estou de ressaca.
- E quem não fica. – riu, pegando outro edredom no armário e ajeitando-se na poltrona reclinável. – Só que quando você acordar, pelo amor de Deus, me chama! Não quero você trombando com os meus pais pelo corredor.
- Relaxa. – riu, aninhando-se na cama de , sentindo o perfume dela em cada parte do edredom. – Mais fácil você acordar primeiro do que.
Mas não foi assim. foi despertada no meio da madrugada (pelo menos ela achava isso, pode ver a janela de relance e ainda não tinha clareado completamente) por , que a carregava nos braços. Ela mal abriu os olhos. Sentiu a sua cama fofa e o edredom quentinho. Sorriu involuntariamente e se aconchegou em seu espaço. Ela sabia que ainda estava em seu quarto, mas o sono ainda pesava-lhe as pálpebras.
- Dorme bem. – Sentiu um selar em sua testa.
A pequena parte acordada de sua consciência lhe gritava para que ela despertasse completamente e ajudasse a sair de sua casa, mas a parte que ainda dormia nem ligou para isso. Ele já era grandinho o suficiente para se virar. virou de lado e voltou a dormir.

Capítulo 7

Durante as duas semanas seguintes, e mal se falaram. Ela havia brigado com ele por ter saído com os garotos sem avisá-la. Aquilo mexeu um pouco com o grupo e os garotos só se juntavam às meninas já no final do intervalo. e ficaram um pouco chateados com a reação exagerada de , mas não chegaram a falar nada diretamente, enquanto apoiava irredutivelmente. Existiam vários códigos entre os homens e este especificamente tratava sobre álibis. não podia dizer para ninguém onde havia passado aquela noite, mas combinou com de dizerem que ele tinha dormido lá. Como a casa de permanecera vazia até que o dono voltasse tarde da madrugada, fora o único local para onde não telefonara. era o álibi de , e como os homens são, sequer perguntou para o amigo onde ele realmente passara a noite. Aquele seria eternamente um pequeno segredo de e .
Para comemorar indiretamente os quatro meses desde a primeira vez que ficaram juntos e tentar juntar o grupo novamente e acabar com aquele gelo, a adorável resolveu organizar um churrasco em sua casa em um domingo à tarde. À contragosto, compareceu, sabendo que estaria lá e que ainda estavam brigados. Já estavam todos almoçando ou tomando banho de piscina quando ele chegou.
- Adivinhem quem finalmente chegou? – chegou no quintal fazendo um gesto exagerado e apresentando .
Como sempre, ele estava lindo de morrer, dessa vez usando bermuda jeans, camiseta branca exibindo os braços fortes e tênis Nike. Braços eram uma das primeiras coisas que reparava em um garoto, e os dele não lhe decepcionava. Sorriu quando ele depositou um beijo no topo de sua cabeça. Lera que beijos no topo da cabeça representavam respeito e sempre ficara maravilhada com aquele gesto, pois era o que ele fazia sempre que se cumprimentavam. Ao chegar em , ele deu um selinho, mas tão rápido que mal parecia que os lábios deles haviam se tocado. A partir daí foi só festa.
aumentou o volume do som em uma música animada e e começaram a infantil brincadeira de empurrar uns e outros na piscina. morria de vergonha de ficar em trajes de banho, sentia-se muito desconfortável usando biquíni na frente dos amigos, então os usava, mas por cima colocava uma blusa e um short. Ela sempre agradecia mentalmente quando os garotos começavam a fazer essa brincadeira, pois ela não teria desculpa para entrar na piscina toda vestida.
Quando chegou a sua vez, ela começou a se debater nos braços dos amigos tentando fazê-los parar, mas perdeu todas as forças conforme ria das palhaçadas de ambos. Eles a jogaram sem dó nem piedade, e em seguida se jogaram também. Ao voltar à superfície, ela viu que todos já estavam na piscina, exceto , que começava a tirar os tênis e a blusa.
A visão dele sem blusa era quase como estar no paraíso. Já o tinha visto assim daquela forma durante algumas aulas de Educação Física, quando, após os treinos, ele, e tiravam a blusa, para desespero das garotas da turma que só faziam suspirar com a visão. Reparou quando indicou com a mão onde ele deveria trocar de roupa e foi para lá que ele se dirigiu, para sair nem cinco minutos depois vestido com um bermudão. Ele deu uma corrida e depois fez um salto acrobático, jogando-se dentro da piscina e espalhando água para tudo quanto fora lado.
chamou a atenção dele jogando água em seu rosto, ao que ele retribuiu, e quando deram por si estavam todos em uma batalha generalizada para ver quem jogava mais água no rosto do outro.
O dia todo fora divertido, exceto quando e estavam mais próximos. Parecia que uma tensão pairava no ar. Em certo momento, já bastante tempo depois do almoço, quando o sol começava a se pôr e todos já haviam mudado de roupa, o casal sumiu. Curiosa do jeito que era, começou a rodear a casa de à procura deles. Encontrou-os sentados no primeiro degrau da varanda, lado a lado, conversando baixinho. Se seu coração não estivesse triste teria achado a cena encantadora. colocou sua mão por cima da mão de e entrelaçou seus dedos nos dela. A garota descansou a cabeça no ombro dele. Ficaram assim durante um longo tempo, até que ergueu a cabeça e selou seus lábios nos dela. A partir daí, engoliu seco e virou o rosto. Era uma cena doce demais. Quando pensava muito sobre o assunto só conseguia sentir inveja da felicidade de uma de suas melhores amigas. E aquele sentimento a deixava ainda pior.
Sem pensar muito, deu meia volta e se afastou por trás dos arbustos da casa de . Seu celular estava no bolso de trás do short, seus outros pertences que ainda estavam na casa, mas ela os pegaria com a amiga no dia seguinte. Sentiu uma lágrima teimosa cair, mas a enxugou no mesmo momento, talvez não querendo ceder tão depressa à sua própria solidão. Já estava na calçada, a alguns metros da casa, quando escutou passos logo atrás dela, como se estivessem correndo. Fingiu não escutar e nem se virou para ver quem era. Que fosse um assaltante, pelo menos a tragédia estaria completa. Um dia tão alegre terminar de forma tão triste era no mínimo trágico. Depois de duas semanas, pensou que finalmente o relacionamento de e chegara ao fim, mas agora pareciam estar mais conectados do que nunca. Ele provavelmente havia se arrependido de ter dormido na casa de . Talvez até contasse toda a verdade para a namorada. Era nessas coisas que pensava quando sentiu alguém tocar seu ombro. Virou-se a contragosto. Era .
- Já está indo embora? – A amiga perguntou, para logo em seguida notar a tristeza no olhar de . – O que aconteceu?
- Não foi nada. – a olhou, desconfiada. – É sério.
- É impressão minha ou você está assim por causa do casal? – Ambas se viraram em direção a casa no mesmo momento, e depois voltaram a se encarar. – Impressão nada. É certeza. Eu vi você parada ali os observando.
ficou um pouco alarmada, mas no mesmo momento segurou-lhe a mão e a puxou para a beira da calçada. As duas se sentaram no chão mesmo e ficaram olhando para o horizonte. Naquela rua poucos carros passavam àquela hora. Depois de alguns minutos, cortou o silêncio.
- O que está acontecendo com você, amiga? Eu não sei, tenho essa impressão de que a cada dia que passa você se fecha mais para as suas amizades. Por que você anda tão na sua? Quer dizer, mais reservada do que nunca.
- Eu tenho sentido essas coisas inexplicáveis que eu nunca pensei que sentiria. – começou a desabafar com voz chorosa. – Nem eu sei às vezes o que está acontecendo comigo. Eu sempre tive tanto controle de tudo, mas agora me sinto perdida. Eu não queria me sentir assim, sabe. Só o que eu sei é que junto de todos esses novos sentimentos eu sinto também culpa.
- Como assim? O que você fez? – arqueou a sobrancelha. Após o silêncio de , ela virou novamente o rosto em direção à sua casa, e depois voltou a olhar para a amiga, que agora não mais a encarava. – Não vai me dizer que... O ?
- Sim. Justo ele. – Seus ombros pareceram arriar, como se pesassem quilos. – Eu não sei o que fazer. Não quero mais me sentir assim.
- Não vai me dizer que você está gostando do ? – A face de era a descrença em pessoa. – Caramba!
- Sim, “caramba” mesmo!
- Desde quando?
- Desde o primeiro dia em que eu o vi.
- Nossa! – abriu a boca para dizer algo, mas depois a fechou. Repetiu o gesto novamente. Estava mesmo sem palavras.
- Mas não conta pra ninguém, por favor! – imediatamente se virou em direção à amiga, segurando-lhe as mãos. – Por favor! Por favor! Por favor!
- Calma, louca! Também não sou dessas, você sabe. Talvez se eu fosse a aí sim era para você estar preocupada.
- Verdade.
As duas permaneceram de mãos dadas, até que apertou com força a mão de .
- Olha, eu sei que essa é uma situação totalmente nova pra você. Você nunca ficou tão diferente antes como está agora. E realmente tudo faz mais sentido. Desde que o chegou você pouco lanchou com o grupo todo na hora do intervalo, prefere se trancar na biblioteca ou tirar dúvidas com os pobres professores que precisam te dar atenção até no intervalo deles também. – As duas riram apesar do drama. – E de vez em quando eu percebo essa sua cara toda pateta quando está perto dele, mas daí a você gostar MESMO dele... Nunca ia imaginar.
- Pois é, nem eu ia imaginar que gosto tanto assim dele. Chega a doer, por isso saí da sua casa. Vê-lo agora com a só me faz lembrar a minha infelicidade. Talvez se eu tivesse sido mais rápida, logo no primeiro dia de aula... Mas aí me sinto péssima por pensar nessas coisas. também é minha amiga, não merece que eu pense nessas coisas. Se eu estivesse com ele hoje talvez fosse ela agora no meu lugar se sentindo assim, e se eu não desejo isso nem para a minha inimiga, quanto mais para uma das minhas melhores amigas.
- Já pensou em conversar com ele? Ou com ela?
- E falar o que? “Olha, eu to afim do ?” – debochou, revirando os olhos. – Não dá, sou covarde demais para isso.
suspirou. Era um beco sem saída. Não podia bolar planos para conquistar , pois quem estava do lado dele era , uma das suas amigas de infância. Ficaram sentadas na calçada durante longos minutos, até que o sol já havia se posto por completo. Levantaram-se em silêncio e deu um longo e apertado abraço em , que retribuiu.
- Por isso gosto tanto de você, . – disse, ainda abraçada com a amiga. – Você não julga ninguém.
- Na verdade, eu julgo sim, de vez em quando. – Soltaram-se do abraço e ficaram se olhando. – Mas em certos momentos eu me coloco do outro lado. E me colocando agora no seu lugar, acho que nada mais justo do que você liberar tudo isso que guarda dentro de si. Uma hora você vai explodir, não vai ser legal.
- Você acha que é melhor contar para o ?
- Sim. Não pede nada em troca, só, sei lá... Fala com ele. Diz como você se sente. Talvez você se sinta mais leve depois. E ele gosta muito de você, duvido que não vai conversar seriamente contigo. É melhor extravasar e botar tudo pra fora agora do que continuar se sentindo assim. Não gosto de ver minhas amigas sofrendo.
- Vou tentar, mas não prometo nada. Ficar frente à frente com ele e colocar em palavras tudo que eu sinto... É assustador.
- Imagino. – sorriu.
As duas abraçaram-se mais uma vez, dessa vez despedindo-se.
- Agora eu vou para casa. Amanhã leva as minhas roupas pro colégio, eu as deixei secando em uma corda.
- Ok, amanhã levo tudo sim. Se cuida, ta? Amo você.
- Também te amo, amiga.
chutou uma pedrinha solta da calçada e continuou a pé o caminho para sua casa. Não seriam mais do que três quarteirões. Aquilo a faria pensar no que havia dito. Será que se ela colocasse tudo para fora as coisas não ficariam mais fáceis depois? Dizem que quando algo incomoda, a melhor coisa é se ver livre disso logo. Talvez se ela expusesse seus sentimentos para tudo ficassem mais fácil depois e ela pudesse superar essa paixão sem pé nem cabeça.

Capítulo 8

Era o último mês de aulas, finalmente! Só mais umas três semanas e se veriam livres para as férias do meio do ano. O clima na sala de aula já era só para fazer os últimos testes e receber a nota final do semestre. A nota dos relatórios de Química já havia sido lançada. e foram a melhor dupla, alcançado a média 9,5 nos dois bimestres.
Como tudo era mais brincadeira do que estudos, naquele dia especialmente o grupo de amigos estava mais disperso do que nunca. Até mesmo estava animada em plena segunda-feira e conversando ou trocando bilhetes fora de hora durante as aulas. Após a conversa com , tudo o que martelava em sua cabeça era a melhor forma de confessar seus sentimentos para e esperar que aquilo a deixasse mais leve e quem sabe até mesmo lhe desse uma solução para que aquele sentimento sumisse de uma vez por todas.
Durante horas e horas por dia, ela e conversavam no telefone de suas casas e o assunto vez ou outra chegava em . Como sempre, não se decidira pelo que fazer e também não opinava ou colocava mais minhocas na cabeça da amiga. Era uma decisão a ser tomada única e exclusivamente por , ela só havia dando a ideia inicial.
A professora de História já havia passado algumas questões para que a turma resolvesse, então decidiu sair um pouco da sala para tomar uma água. Os alunos só esperaram ela cruzar a porta e fechá-la para que começarem a conversar. Logo os burburinhos tornaram-se uma algazarra generalizada e agora a turma mais gritava como se estivessem em um campo de batalha do que resolviam os exercícios.
Só que tudo que é bom acaba cedo. No momento em que a professora abriu a porta, várias bolinhas de papel estavam voando dentro da sala de aula. Ao ver a cena, a professora ficou furiosa, pouco podendo ver os autores do “crime”. Dois ainda estavam com a mão na massa: e . Outras duas estavam no chão catando mais bolinhas: e . Não deu outra...
- DE-TEN-ÇÃO! Vocês quatro, AGORA! – Ela apontou para a porta enquanto olhava furiosamente para , , e . – Nunca ia imaginar você metida nisso, ! Espero que uma passagem pela detenção a faça rever as suas amizades.
arqueou a sobrancelha enquanto já se encaminhava para a porta junto de .
- O que quer dizer com isso, professora? – Ele perguntou. e seguiam em fila logo atrás dos garotos.
- Exatamente o que escutou, . Logo na primeira semana que você chegou ao colégio eu achei que você seria um aluno exemplar, mas estava enganada ao vê-lo se juntar à turma do fundão e participar das algazarras na minha aula. Agora até mesmo a vocês estão desviando do caminho. – bufou ao ouvir aquilo.
- Antes desviar do caminho do que empinar o nariz, ser metida e não ter nenhum amigo.
- O que quer dizer com isso, ? – apenas deu de ombros segurando a mão de e de e as levando consigo para fora da sala.
A turma toda assistiu àquilo em um silêncio absoluto, apenas a turma do fundão queria cair na gargalhada. A professora de História era conhecida por ser rígida demais, chata demais, metida demais. Rezava a lenda que nenhum professor ou professora da instituição se metia a conversar com ela nos intervalos. Pela cara vermelha e expressão furiosa no rosto, aquilo podia ser bem verdade. a descrevera bem no final.
Após saírem da sala de aula, soltou as mãos das garotas e foi se empurrando pelas paredes, rindo descontroladamente.
- Vocês viram a cara dela? – Ele falava entre as risadas. – Achei que ela fosse explodir ou dar um chilique na frente de todo mundo.
- Você é louco, . – o repreendeu. – Agora ela vai ficar de marcação com você, não esquece que ainda vamos ter mais um semestre inteiro de aulas com ela.
- Ah, relaxa, . – Ele apertou de leve o nariz da garota. – Você se preocupa demais. Eu sei me virar. Não sou tão ruim assim em História, ela vai ter que se contentar com as minhas notas razoáveis.
- Mas ela pode continuar te mandando pra detenção se você continuar desafiando-a em sala de aula. – Ela insistiu.
- E aí eu vou em direção ou supervisão e faço contra ela uma queixa de abuso de poder. Se eu quiser eu posso ser mais cuidadoso e não ser pego fazendo coisas erradas. – Ele piscou para ela. – Você sabe disso.
Sim, ela sabia. Ele dormira uma vez na casa dela. Fora errado, mas ninguém além dos dois sabia daquilo.
- Agora para de se preocupar à toa e vamos logo para essa sala de detenção. Quero ver se lá é mais divertido do que a sala de aula. Se for, vou querer freqüentar sempre.
- Eu já fui lá umas duas vezes ano passado. – deu de ombros. – É normal.
- Dificilmente fazem alguma coisa, né? Só te deixam por um tempinho além do término do horário de aulas. Às vezes, eles entregam alguns exercícios e você tem que trazê-los prontos na semana seguinte e entregá-los para o professor que te deixou na detenção. – Foi a vez de explicar, mas ela parecia bastante entretida no braço que agora pousara nos ombros de .
- Bem, então deve ser mais divertido do que ver aquela mal amada dando aula até 13h.
Os outros três tiveram que concordar enquanto subiam mais dois lances de escada que dariam certo na sala de detenção. Durante todo o trajeto foi apoiado em , o que atraiu os olhos curiosos de . percebeu isso e ficou visivelmente tímida. Ao chegarem à sala de aula, outros dois alunos de diferentes turmas também estavam lá, fazendo algumas anotações aleatórias, enquanto um inspetor estava sentado em uma mesa, mexendo em um notebook.
A sala de detenção não era nenhum bicho de sete cabeças. Tiveram que entregar suas carteirinhas de aluno para que o inspetor anotasse seus nomes e depois disso se sentaram e ficaram conversando em voz baixa. Durante todo o tempo que ficaram lá, não parou de fazer graça com , ora bagunçando o cabelo dela, ora mexendo na barra de sua blusa, ora revirando seu material. Só agora estava realmente reparando nas coisas com outros olhos. Conseguiu sorrir porque realmente imaginou aquele casal junto em algum momento no futuro.

Capítulo 9

parecia ter gostado demais da sala de detenção. No último dia de aula, conversou mais do que o normal com e e novamente a professora de História o mandou junto dos amigos para fora de sala. , , e perceberam que aquilo se transformaria em um hábito cedo ou tarde e só puderam suspirar.
nem podia acreditar que já era o último dia de aulas daquele semestre. No mesmo dia, logo após o almoço, viajaria para a casa de praia dos pais. Não era muito longe da cidade, no máximo 2 horas viajando de carro, mas sempre eram férias especiais, pois vários membros da família se reuniam no local. Pensou em levar uma das amigas, mas já era tarde demais. Todas tinham seus próprios planos.
Ela ficou batendo a caneta em cima do caderno. Já não havia mais matéria ou exercícios para anotar, a chata professora de História apenas avisava quais seriam os assuntos que estudariam no próximo semestre. Seriam mais uns cinco meses de tortura com aulas dela toda a semana, mas só iria pensar nisso quando as aulas retornassem. Assim que saísse do colégio iria para casa arrumar as malas e viajar. Foi quando, em um impulso, arrancou uma das folhas de seu caderno. Começou a rabiscar frases desconexas, até que elas começassem a fazer algum sentido.
Não era o tipo de sentimento que eu esperava ter por você, mas quando eu vi já havia se instalado dentro de mim.
Piegas demais. Só que era exatamente daquela forma que ela se sentia.
Você não precisa dizer nada, não precisa sentir o mesmo.
Respirou fundo algumas vezes.
A situação é mais delicada do que parece, eu sei que você namora uma das minhas melhores amigas.
Aquela ainda era a parte que a fazia se sentir tão mal e culpada. . Sentia como se estivesse a traindo da pior maneira possível, mas não conseguia evitar os sentimentos que cresciam dia a dia. Só de colocar aquelas palavras no papel já parecia que um peso imenso saía de seu coração.
Eu estou apaixonada por você, .

Capítulo 10

só havia ido àquela sala uma vez antes, a sala para onde eram enviados os que aprontavam no colégio. Ela sempre se mantivera na linha. Pela segunda vez estava naquele corredor. Seu coração batia descompassado, suas mãos suavam frio. Apertou o papelzinho com os dedos e o encarou uma última vez. Era agora ou nunca. Com a mão na maçaneta, respirou fundo e abriu a porta bem devagar, evitando que rangesse.
A visão que teve era um pouco cômica. e estavam em cima de duas mesas, jogando cartas, enquanto o inspetor lia um livro de capa bastante desgastada. Procurou por com o coração batendo cada vez mais forte e o encontrou em uma das mesas na direção da porta, com a cabeça encostada nos braços, tirando um cochilo. Imaginava que na sala de detenção todos ficavam fazendo exercícios ou no mínimo fazendo algo de produtivo, mas se enganara mais uma vez. Como no dia em que estivera lá, ninguém fazia nada.
Quando finalmente o inspetor viu parada atrás da porta entreaberta, fechou o livro e o bateu na mesa com tanta força que e pararam na hora de jogar cartas e o olharam espantados. pouco se mexeu.
- É a segunda vez que você vem para essa sala em tão pouco tempo, senhorita . Nunca pensei que veria isso, vindo de você. – O inspetor praticamente rangia os dentes enquanto falava, então finalmente e a olharam curiosos.
- Não, eu só... – pigarreou. Não sabia o que dizer, sequer conseguia raciocinar como seus pés a levaram até ali.
Assim que a professora de História parou de falar e liberou a turma, ela se despediu das amigas com abraços apertados, afinal viajaria no mesmo dia, e depois se trancou no banheiro a fim de organizar melhor suas ideias. Mas de organizada, naquele momento, suas ideias não tinham nada!
Sem muita cerimônia, abriu um pouco mais a porta, entrou e caminhou até a cadeira de , ainda alheio a tudo que acontecia. Ela reparou nos lábios dele, entreabertos. Ele ressonava baixinho. Um sorriso escapou dos lábios da garota. Então era daquela maneira bonitinha e despreocupada que ele estava passando sua estadia na detenção? O inspetor pigarreou, chamando sua atenção, fazendo-a se lembrar do por que estava ali. O bilhete. Ela o desenrolou de seus dedos e o colocou cuidadosamente na cadeira onde estava apoiado dormindo.
- Senhorita ? – O inspetor a chamou mais uma vez, sobressaltando-a.
- Eu já estou de saída. Sei que não posso ficar aqui.
- Pois bem. – Ele apontou para a porta tornando óbvio o caminho pelo o qual deveria seguir.
- Claro.
No entanto, por conta do rápido movimento que fez para se virar, acabou esbarrando em uma das cadeiras, fazendo com que esta se arrastasse e batesse em outra, provocando um barulho alto demais em uma sala praticamente vazia. Com o coração na mão, olhou para trás e viu que fazia careta, ainda de olhos fechados, enquanto se mexia. Ele estava acordando. Encontrá-la naquela sala, naquele momento, estava fora de cogitação!
Ela apressou-se em direção à porta e lançou um último olhar para e que ainda a encaravam curiosos. sorriu e deu tchau para eles, tensa demais, e saiu da sala de detenção como um raio, batendo a porta e lançando-se para o corredor. Correria o quanto precisasse para não ter que encarar nos próximos 200 anos, e foi isso o que fez. Correu pelo longo corredor do terceiro andar até ficar ofegante e logo alcançou as escadas. O bilhete estava entregue. Nunca imaginou que confessaria seus sentimentos para , menos ainda daquela forma tão significativa. Era como escrever uma carta de amor. Foi então que se sentiu boba e infantil, como uma garotinha de 10 anos quando descobre o amor.
Já estava no último lance de escadas quando escutou seu nome ser chamado bem de longe. Depois de muito prestar atenção, percebeu que era a voz de . arregalou os olhos e apressou o passo. Ele estava na detenção. Sair daquela sala antes do tempo era como pedir para ser punido durante todo o ano. Era nisso que pensava ao entregar o bilhete, mas obviamente não era nisso que pensava quando a seguiu. Ela decidiu não correr mais para não parecer uma idiota, mas não diminuiu o passo. A qualquer momento ele a alcançaria, pois sentia passos cada vez mais próximos...
- Espera! – segurou o braço dela, forçando-a a parar. – Por que está fugindo?
- Por que está me seguindo? – Ele soltou seu braço quando viu que ela tinha parado e não correria mais.
- Porque você me mandou isso. – Mostrou o bilhete.
- Ah...
- O que isso significa? É algum tipo de brincadeira ou...?
- Não! Eu não estava brincando!
- Então... Você gosta mesmo de mim? Dessa forma?
abaixou a cabeça para que ele não notasse seu rosto vermelho como um pimentão, e ficou encarando seus próprios tênis. Mordeu os lábios incontáveis vezes até que conseguiu se pronunciar, bem baixinho.
- Sim.
Sem mais nem menos, tocou seu rosto, obrigando-a a levantá-lo, e selou seus lábios nos dela. O choque foi tanto que sequer fechou os olhos. Quando finalmente tomou consciência e compreendeu do que se tratava, antes que o beijo se aprofundasse, ela empurrou para longe, afastando-se.
- Mas o que você está pensando?
- Não queria? – Ele parecia desorientado.
- Não assim! Você namora a minha amiga!
- Então por que escreveu aquilo?
- Porque eu não agüentava mais guardar aquilo pra mim. Quem sabe se eu não dissesse para você como eu me sinto o sentimento não diminuiria logo... Já vi isso acontecer.
- E aconteceu isso?
- Ainda é cedo pra saber. – Havia esperança em sua voz.
- Não quero que isso aconteça, .
- Você namora uma das minhas melhores amigas. Sinto-me cruel por traí-la dessa forma. Pensei em contar para ela como eu me sinto, quero contar, mas... Acho que sou um pouco covarde. É mais difícil do que eu pensava, não quero perder a amizade dela. Você devia saber primeiro.
- E o que espera que eu faça? – Ele bagunçou os cabelos, visivelmente contrariado.
- Não quero que faça nada. Eu viajo hoje, é bastante tempo para pensar na vida.
- Quanto tempo você fica fora?
- Durante todo esse mês, só volto na última semana.
- Não acha que é muito tempo? Você joga uma bomba para cima de mim, porque é o que aquele bilhete é, eu nunca ia imaginar que você se sentia dessa forma em relação a mim, talvez eu desconfiasse, mas... Você sempre foi tão reservada com esses assuntos. E agora me diz que vai ficar tanto tempo fora.
- Desculpa. Não queria te chatear ou te deixar confuso. Esse tempo todo eu só tenho pensado em você e na , por isso foi tão difícil escrever aquelas coisas, mas finalmente me sinto mais leve por fazer algo por mim também. Só que agora eu preciso ir. – Olhou o relógio de pulso. – Eu viajo logo após o almoço e nem fiz as malas ainda.
- Tudo bem. Acho. Pelo visto vamos ter que continuar nossa conversa quando as aulas voltarem.
- Ou não. – Ela sorriu, mas aquele sorriso não lhe chegou aos olhos. – Até lá tudo pode mudar, não sei.
Ele não discutiria com ela. No fundo não queria que ela mudasse seus sentimentos com relação a ele, só não sabia ainda explicar o porquê de querer tanto aquilo.
- Se cuida, ok? – Ele se aproximou, puxando para um abraço apertado, em seguida beijando o topo da cabeça dela como sempre fazia.
- Você também, vê se não apronta nada, se comporta. – Ainda abraçados, ela ergueu um pouco o rosto para que pudesse beijá-lo na bochecha.
Quem visse de longe poderia jurar que eram muito mais do que um casal de amigos, seus corpos pareciam não querer se afastar daquele abraço. não queria deixá-la ir embora durante aquelas quatro semanas. foi a primeira que, com muita dificuldade, separou-se dos braços dele. Ela deu um último sorriso e virou-se, fazendo o percurso até a saída. Ele a observou se afastar, sem que ela olhasse para trás. Só depois que ela já havia cruzado o portão de saída do colégio foi que ele se permitiu pensar com mais calma, em tudo que fora dito e no que ficara entalado em sua garganta. O bilhete que ela escrevera ainda estava em sua mão, queimando-a. Ele o releu incontáveis vezes enquanto fazia o caminho de volta para a sala de detenção. Depois daquelas palavras, do beijo pela metade e da inevitável ausência da garota por todo um mês começou a se sentir meio perdido.

Capítulo 11

Um mês depois...

Domingo. Último dia de férias. , diferente da maioria das pessoas de todo o mundo, estava ansiosa pela volta às aulas. Mas nada tinha a ver com as matérias ou os professores. Tinha a ver com um certo garoto que bagunçara sua vida desde o início do ano e a colocara de cabeça pra baixo. Escutou um “toc toc” na porta de seu quarto.
- Oi?
- Filha, é a . Ela está aqui e veio te ver.
franziu a testa, tentando lembrar em algum motivo para fazer ir vê-la em um domingo à tarde, quando provavelmente deveria estar hibernando até o dia seguinte quando voltariam à rotina.
- MANDA ELA ENTRAR, MÃE! – gritou.
Menos de dois minutos depois e lá estava sua amiga fechando a porta de seu quarto. estava deitada na cama, descansando, e bateu no colchão convidando para se deitar ao seu lado.
- Que milagre encontrar você por aqui a essa hora. Que bons ventos lhe trazem? – sorriu, mas logo ficou séria ao perceber a cara de . – Aconteceu alguma coisa?
- Não sei. – respondeu, tristemente. – Me diz você.
- Como assim?
- Parece uma eternidade desde a última vez que conversamos a sério, . Eu já nem consigo lembrar. – Pausa. – Desde quando você realmente ama o ?
- Como... Como você soube disso? – gaguejou, alarmada. Teria tropeçado nas próprias pernas tamanho o susto se já não estivesse deitada.
- Ele terminou comigo menos de uma semana depois que você viajou. Ele não disse o seu nome, acho que não quis te envolver, mas eu sempre soube, bem lá no fundo. Ele conversa mais com você, estuda mais com você... Não podia ser outra garota.
- Eu sinto muito mesmo, não era a minha intenção forçar ele a terminar com você. Eu só queria me declarar pra ele, e fiz isso por um bilhete, falei o que estava engasgado. Depois eu ia viajar, pensar, achando que assim podia esquecê-lo. Mas antes disso ele me viu e eu tive que confirmar o bilhete, confirmar o que sinto.
- Não... Não me conta os detalhes. Eu ainda gosto dele, isso é tudo muito recente. Só me diz uma coisa. Vocês nunca...?
- Ficamos? Não, nunca! – Não valeria à pena perder a amizade de ou brigar com ela por causa daquele selinho no susto.
- Ele me disse que não, e eu imaginava que era isso mesmo. Ele não fazia ideia do que sentia, foi preciso você se declarar para ele acordar. Eu devia ter percebido os sinais. Você estava acanhada no começo, mais do que o normal, quase não saía mais conosco. Era tudo por causa da presença dele ao meu lado? – confirmou. – Se você tivesse dito alguma coisa no começo, talvez eu tivesse aberto mão dele.
- Nem eu sabia o que sentia de verdade. Pensei que era mais um daqueles amores platônicos que logo passam. Fora que ele sentiu mais afinidade por você, não demorou para ficarem juntos.
- Não, vamos encarar os fatos. Foi a mim que ele beijou primeiro. – sorriu, triste. – Mas foi por você que ele se encantou. Ele adora a sua companhia nerd. Se ele tivesse ficado com você desde o início provavelmente estariam namorando desde o segundo dia.
- Isso ninguém pode saber. Ele também não me falou nada desde que me declarei.
- Ele estava esperando você voltar de viagem para conversarem, tenho certeza. Ele não é do tipo que faz tudo pela metade. Convenhamos que discutir esse tipo de coisa pelo telefone não é convencional.
- Eu não sei o que fazer. Você... Eu...
- Nesse momento, pensa só em você e no que você quer. Pensa nele também. Apesar das minhas crises com ele, é um cara especial. – virou-se para encarar . – Eu só queria te pedir uma coisa.
- O que você quiser!
- Se vocês ficarem juntos, pelo menos nos primeiros dias, evite ser um casal na minha frente. Não vou dizer que o amo, pois estaria mentindo. Como eu disse, ele é especial, encantou-me de várias formas, sempre foi gentil comigo e me mimou, só que ainda sinto que falta algo. De qualquer forma ele foi importante para mim. Essa história está passando, a ferida cicatrizando, quase um mês que nós terminamos, até estou saindo mais agora, conhecendo alguns garotos. – ensaiou um sorriso safado. – Mas ainda é muito recente. E além dele ser meu ex, você é uma das minhas melhores amigas.
- Acho que é o mínimo que eu posso fazer depois da reviravolta que eu causei na sua vida. Você não me odeia? Não sente raiva de mim exatamente por ser uma das suas melhores amigas?
- Não precisa se culpar, ninguém manda no coração. Se você o ama, aproveite, sinta isso ao extremo, ame e deixe ser amada. Se tem alguém que eu conheço que merece a felicidade esse alguém é você, então eu não te odeio, nem considero uma traição. Eu só esperava que você tivesse conversado isso diretamente comigo.
- Eu ia te contar antes das aulas começarem. Esse era o plano, contar que me declarei pra ele, mas que não ia interferir em nada, só precisava desabafar, não agüentava mais. Acabou que você foi mais rápida...
- Tudo bem, . Só fica bem. E se cuida, ok? – se levantou, assim como , e as duas se abraçaram forte durante longos segundos.
- Obrigada. Você é uma grande amiga e não sabe o quanto eu me sinto aliviada depois dessa nossa conversa.
sorriu enquanto se soltavam, e em seguida acompanhou a amiga até a porta, onde se abraçaram de novo e se despediram. Assim que entrou em seu quarto novamente, se jogou na cama e ficou pensando. Já era domingo, último dia antes das aulas começarem. Quando a segunda-feira chegasse, encararia depois de um mês sem vê-lo. Um mês desde que se declarara para ele. Só de ficar na expectativa daquele encontro parecia que seu coração ia sair pela boca, principalmente depois das palavras de ... “Ele não fazia ideia do que sentia, foi preciso você se declarar para ele acordar”. Aquilo significava mesmo que sentia algo por ela ou era apenas dedução de sua amiga? não conseguiria dormir direito naquela noite e nem na próxima...

Capítulo 12

A segunda-feira enfim chegou. No pátio do colégio o que mais se via eram beijos e abraços saudosos. Todos tinham novidades para contar. acordou atrasada, mesmo com o despertador ligado e com sua mãe a chamando de 10 em 10 minutos. Tudo culpa da noite mal dormida. Quando enfim pegara no sono, foi acordada. Fora necessária muita maquiagem para cobrir as olheiras recém adquiridas.
Primeiro, ela avistou as amigas. , e inda estavam no pátio fofocando, comentando sobre todo mundo que passava. se juntou a elas e as garotas lhe deram um abraço grupal.
- OBA! MONTINHOOO! – chegou pulando em cima das quatro, arrancando xingamentos. – Ah, desculpa, suas frescas!
- E aí. – cumprimentou uma por uma com um beijo na bochecha.
vinha logo atrás dos dois, com a mochila pendurada em apenas um dos ombros. Ele coçava a nuca, tão fofo como sempre. Ele deu um beijo na bochecha de cada uma, inclusive na de , que sorriu cúmplice para ele. Quando ele ficou de frente para , como era o esperado, beijou a testa da garota.
- Tudo bem? – Ele perguntou olhando para , mas visivelmente era uma pergunta para todos. – Aprontaram muito? – Antes que abrisse a boca, ergueu o braço. – As suas novidades eu nem quero saber, já sei que envolvem pelo menos umas cinco garotas diferentes.
Todos riram da cara de anjo dissimulado que fez, mas logo o toque do sinal indicando que a primeira aula começaria em dez minutos os fez despertar para a realidade. Ainda em clima de festa o grupo se encaminhou para as escadas. era a penúltima da fila e vinha logo atrás dela. Quando percebeu, a mão dele já estava por cima da sua, levando-a para outro caminho.
Eles se afastaram de todos sem que percebessem e reconheceu aquele lugar como sendo a parte de trás da quadra de esportes, um lugar bastante reservado onde dificilmente seriam incomodados por algum inspetor. Aquela situação começou a fazer seu coração bater descompassado. ainda estava de mãos dadas com ela, mesmo que estivessem parados de frente um pro outro.
- Como foram as férias? – Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio. – Foi muita gente pra casa de praia?
- Sim. – Ele começara a conversa com um assunto ameno, menos mal. – Acabou lotando, mas foi divertido, sempre é. Minha família realmente sabe como fazer festas quase todos os dias da semana.
- Da próxima vez você me convida. Tenho certeza de que a sua mãe aprovaria. – Ambos sorriram. – Foi chato demais ver você indo embora naquele dia.
- Desculpa ter ido daquele jeito.
- Tudo bem, foi melhor assim, tive mais tempo para pensar.
- Pensar em quê?
- Em tudo. Analisar a vida que eu estava levando e, principalmente, os meus relacionamentos. Não estava mais dando certo com a mesmo, não era o tipo de sentimento que eu esperava sentir por ela depois de alguns meses.
- E o que você sentia?
- Estava tudo cômodo demais. Eu gosto dela, não me entenda mal, mas só gostar já não é suficiente pra mim depois de quase alguns meses juntos. Fora que andávamos discutindo por bobagens. Eu queria sentir por ela o que eu sinto por... Você. Mas não dava pra forçar.
- O que você sente por... Mim.
- Sim.
- E o que você sente? – A curiosidade estava ali com ela de novo.
- Eu me sinto intrigado. Às vezes, você não desce para o intervalo só para ficar lendo Shakespeare na biblioteca. – Ela tinha uma interrogação no rosto. – Ah, pois é, depois de tanto ver você indo para a biblioteca eu descobri que aquele livro que você tanto lê contém os clássicos de Shakespeare. Enfim. Você nunca senta no fundão, sempre faz os deveres de casa, nunca tira nota baixa... No entanto, também vai para a detenção, não estuda em casa e vive conectada na internet. Gosto de sentir essa incerteza que sinto quando estou ao seu lado. Mesmo me sentindo inseguro também, prefiro o aleatório e o que foge do comum do que o previsível.
- Uau!
- É, uau! Nem eu sei como estou dizendo tudo isso.
- Eu sei. – Ele arqueou a sobrancelha, questionando-a. – Com a boca.
- HA HA, engraçadinha!
- Bem, eu disse o que sentia naquelas poucas palavras e nada daquilo mudou.
- Que bom, porque terminei com a exatamente porque gosto de você.
Se pudesse gravar um momento para todo o sempre seria aquele.
- Repete?
- Eu gosto de você, . Na verdade, sou apaixonado por você desde o instante em que entrei na sala pela primeira vez e você me emprestou suas anotações de nerd.
- Vai ver foi o mesmo momento em que eu me apaixonei por você. À primeira vista.

aproximou-se de derrubando de vez todas as barreiras que existiam entre ambos. Sem dúvidas, sem questionamentos, sem ... Só sentindo aquele frio na barriga tão gostoso que antecede um primeiro beijo de amor. Com a ponta dos dedos ele tocou as bochechas rosadas dela, para em seguida ajeitar uma mecha de cabelo que insistia em cair na testa da garota. Ao sentir a respiração de tão perto, fechou os olhos. Dessa vez não sentiu um beijo no topo de sua cabeça. Os lábios dele tocaram os seus, a língua dele pedia passagem, e pela primeira vez em todos aqueles anos um amor platônico de transformara-se em realidade. era agora a sua realidade e nada estragaria isso.

Fim.

 

Comentários da autora



Quando comecei a escrever Lead Me eu tinha uma algo completamente diferente em mente. Infelizmente, coisas aconteceram durante o percurso até o final dessa fanfic, coisas que me desanimaram bastante, pois a história era baseada em algo vivenciado por mim, e por isso só consegui escrever metade da fanfic e o final nos últimos dois dias antes de terminar o prazo do Amigo Secreto. Não era exatamente o tipo de fanfic que a Laura queria, peço desculpas, eu realmente não sei escrever com Harry Potter ou My Chemical Romance. ): Mas espero que goste um pouquinho pelo menos, é uma história bonitinha sobre amores platônicos, algo que a maioria das garotas sentem quando estão no colégio, e foi feita de coração.