Garota S

Escrito por Ideia por Julio Castro | Escrito por Game das Leitoras
Beta-Reader: Natashia Kitamura

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Há características sobre Harvard que são verdadeiras e outras que são fictícias para melhor adaptação da história.
História inteiramente escrita por Natashia Kitamura.

Introdução

- Hey, fique com a cama da janela, não consigo dormir com a claridade batendo em meu rosto.
Foi assim minha primeira relação dentro da universidade, há dois anos. Kendra, minha colega de quarto até hoje é tão sociável quanto eu. Com seus olhos escuros e a pele muito branca, às vezes sinto que ela sente mais frio do que eu apenas por facilmente poder confundir seu tom de pele com a neve. Temos uma relação limitada e obrigatória porque dividimos um quarto. Geralmente dizem que os alunos de direito são mais tagarelas que o normal, mas a verdade é que todos só querem mostrar que são melhores. Principalmente em Harvard. Desde que entrei aqui, não encontrei muitas pessoas senão egocêntricos inteligentíssimos, podres de rico ou os dois. Não posso dizer que sou feliz estudando na melhor universidade do mundo. Harvard é boa quando se põe em questão os estudos e conhecimento, contudo, em relação às pessoas, não sou a melhor a dizer que tenho bons amigos.
Me mudei para os Estados Unidos logo que recebi minha carta de aceitação de Harvard. A verdade é que queria sair da casa de meus pais para o mais longe que pudesse. Os dois são advogados. Sempre quiseram que eu seguisse suas carreiras e assim penso até hoje: se pais estão tão centrados em suas profissões e demonstram ser bons profissionais, qual a razão de você fazer algo diferente deles? Grande parte da dificuldade será anulada, como a falta de conhecimento básico ou experiência fundamental. Desde quando fiz quinze anos, tenho comparecido às reuniões com clientes ou jantares beneficentes. Tudo em prol da profissão e do meu futuro que eles achavam já estar decidido. Entretanto, foi com dezessete anos, no último ano do colegial que senti que estava prestes a explodir.
Qualquer um que esteja no colegial ou tenha uma noção do que é o vestibular sabe o tamanho da pressão que os estudantes brasileiros têm para entrar em uma boa universidade. Meus pais sempre deram duas opções para mim: São Francisco ou trabalhe para pagar qualquer outra faculdade. É bastante óbvio que a SanFran é a melhor e mais privilegiada faculdade de direito do país. O número de inscrições anuais e a concorrência por uma vaga podem dizer o suficiente para aqueles que duvidarem. Sempre soube que conseguiria passar no vestibular, porque tenho um adorável dom de memória fotográfica, que me permite decorar e lembrar com rapidez todas as questões e matérias estudadas para o vestibular. Além disso, para um advogado, este é um dom que facilita na hora dos processos e das legislações; sem nem mesmo terminar a escola, eu já havia decorado metade das leis brasileiras conforme orientado por meus pais.
Meus amigos diziam que minha vida era nada mais do que “perfeita”. Com o boletim repleto de notas azuis, dinheiro para pagar qualquer universidade do país, inteligência para estar segura de que não precisaria de uma segunda opção, pais preocupados com meu desempenho escolar e um namorado tão talentoso quanto eu, ninguém imaginaria que eu pudesse sair dos trilhos e ousar prestar uma prova a mais para a melhor universidade do mundo.
A ideia surgiu quando eu completava o meu formulário de inscrição para o vestibular da São Francisco. Eu tinha quase duas semanas para preenchê-la, mas era óbvio que eu não deixaria para última hora, já que todas as noites, durante o jantar, meus pais surgiam com a questão de quando teriam de pagar o valor da inscrição. Com os olhos no papel ainda em branco, ouvi Lucas, um garoto da minha turma, perguntar como faria para realizar a inscrição da prova de Harvard. Atentamente, ouvi todas as orientações dadas pela psicóloga que cuidava dos testes vocacionais da escola e guardei em minha memória o procedimento que deveria ser feito pela internet. Assim que cheguei em casa, antes mesmo de almoçar, preenchi todo o formulário em inglês e o enviei sem pensar na reação que meus pais teriam.
No dia da prova, dei a desculpa de que passaria o final de semana com minhas amigas para aproveitar as últimas semanas de aula antes de nos separarmos de vez pelas nossas carreiras. Peguei um táxi por não saber andar de transporte público e fui até o local da prova. Em minha cabeça, tudo o que eu queria era fugir de São Paulo e das ordens de meus pais em ter uma carreira perfeita. Assim que saí da prova, liguei para Gabriel, meu namorado de dois anos que cursava engenharia na Poli. Gabriel sempre foi, além de inteligente, bonito. Com seus cabelos de fios lisos e naturalmente loiros, os olhos caramelos e os lábios carnudos sempre chamaram a atenção das garotas da escola, inclusive eu. Infelizmente, porque sou tímida ou centrada o suficiente para não me distrair com problemas amorosos, nunca pensei na possibilidade de flertar ou trocar flertes com ele. Dessa maneira, no meio do primeiro ano, logo depois das férias de inverno, Gabriel veio em minha sala e me chamou para sair. Lembro-me de seus ombros largos tamparem o sol que batia na minha carteira, aquecendo sem grande sucesso, minhas mãos que estavam congeladas. O uniforme azul marinho e branco do colégio fazia-o parecer ainda maior; além disso, usava a roupa da Educação Física, fazendo dezenas de garotas enlouquecerem com a masculinidade exalando em minha frente. Ele foi direto quando disse que queria sair comigo e também não fez rodeios em me beijar durante o filme do cinema. Mesmo que os relacionamentos sejam feitos de troca de carinhos e palavras de afeto, eu e Gabriel sempre tivemos nossa própria maneira de nos amarmos sem exagerar em nossos toques. Encontrei com ele depois que fiz a prova de Harvard. Pedi para ele me buscar no shopping Pátio Higienópolis, que era perto do local onde fiz a prova. Demorou cerca de uma hora até avistá-lo subir as escadas rolantes com calma.
Lembro-me muito bem o quanto havia me preparado para falar sobre a prova com Gabriel. Achei, por meio de matérias de revistas, filmes e conversas com minhas amigas que a reação natural dele seria de nervosismo. Por eu não ter confiado nele meu segredo, por não ter pedido sua opinião e, principalmente, por ter decidido sozinha ir para o outro lado do continente e deixa-lo aqui sozinho num relacionamento à distância. Elas inclusive comentaram do fato de Gabriel poder me trair sem que eu soubesse, mas é claro que ele não faria isso. Gabriel abomina a infidelidade tanto quanto meus pais abominam que eu siga outra carreira senão a de um advogado. Seus pais o tiveram muito cedo, uma gravidez não planejada; isso, de alguma maneira, afetou diretamente Gabriel, tornando-o uma pessoa que se prende em um relacionamento apenas para sentir que não seguirá o mesmo caminho de seus pais. Além dele preservar nossa relação sem cobiçar outras mulheres, ainda se preocupa com questões importantes em um relacionamento sério, como o dia que terá de me pedir em casamento depois de se sentir seguro economicamente. Quando o vi se sentar em minha frente depois de me dar um beijo estalado de cumprimento, desencostei minhas costas da cadeira, ficando em uma posição ereta, atitude que não passou despercebido por seus olhos. Ele me conhecia melhor que eu mesma. Manteve-se calado durante todos os minutos que falei sobre a prova, meus planos de ir embora para os Estados Unidos e a possibilidade de vivermos cinco anos separados. Quando terminei, Gabriel apenas olhava para mim sério e não disse nada até suspirar e balançar a cabeça:
- Você está certa em procurar por algo melhor.
Gabriel nunca gostou dos meus pais. Mesmo os respeitando e tendo uma visão clara de que queria possuir tanto poder quanto os dois na vida e na sociedade, ele nunca foi a favor da maneira que os dois me criavam. Felizmente, meus pais nunca tiveram a mesma opinião por Gabriel, caso contrário, eu estaria solteira ou noiva de algum indicado de seus amigos. Mesmo que meus pais sejam constantemente presentes fisicamente em minha vida, eles nunca fizeram questão de estarem presentes em meus momentos de glória ou alegria. Meus aniversários eram comemorados com um simples jantar em um bom restaurante e meus presentes eram nada mais do que cartões de parabéns ou um novo livro relacionado à advocacia. Mesmo que eu e Gabriel não fossemos um exemplo de casal de afeto, ele sempre teve sua própria maneira em se preocupar comigo, sendo uma delas, o fato de estar presente em minha vida. Gabriel foi a favor da minha ida à Harvard; disse que tinha certeza que eu conseguiria e que ele iria também se não fosse tão pobre a ponto de ter de trabalhar nos finais de semana para pagar sua moradia e condução. O dinheiro que recebe dos pais utiliza somente para pagar os gastos da faculdade e guardar o resto em sua poupança, porque não quer ter em mente que tudo em sua vida é dependido deles. Em seu aniversário, dou-lhe algo que possa lhe ajudar a viver melhor, como dinheiro, carro ou um novo colchão.
Um mês depois me encontrei na lista de aprovados da São Francisco. A única pessoa que comemorou foi Gabriel. Me levou para jantar e então passamos o final de semana juntos; ter 48 horas inteiras para mim era uma dádiva, já que ele geralmente trabalhava 15 ou 16 horas por dia. Quando meus pais resolveram realizar minha matrícula na universidade, fingi estar doente para atrasarem dois dias até o resultado de Harvard.
A resposta veio em forma de carta. Em casa, todas as cartas são recebidas por meu pai através de uma bandeja de prata trazida por Ilda, a empregada. Nós estávamos no café da manhã quando ela veio com o envelope branco enorme com a inicial de Harvard cravada na frente. Meu pai olhou para os dois lados, perguntando-se silenciosamente o que o levaria a receber uma carta daquelas. Minha mãe desviou sua atenção do chá e observou com atenção a reação de meu pai quando leu as primeiras palavras da minha carta de aceitação. Eu e ela nos mantivemos caladas enquanto os olhos do meu pai percorriam de um lado para o outro as letras que formavam as boas vindas ao curso de direito. Quando ele terminou a leitura, achei que fosse meu fim; provavelmente a doença que havia fingido nos dois últimos dias finalmente chegou em meu corpo e eu não estava preparada para ela. Engoli seco ao vê-lo passar o papel para minha mãe, que leu o conteúdo, séria.
- Harvard? – meu pai disse, sem tocar em nada mais depois de entregue a carta às mãos de minha mãe. – Você quer estudar em Harvard?
- Quero. – minha voz transpassava segurança, mas eu estava prestes a desabar. Meus pais sempre me ensinaram que passar uma imagem de firmeza e certeza fazia com que os juízes e opositores se sentissem intimidados e recuassem perante tamanha segurança. Contudo, meus pais eram melhores do que eu em analisar comportamento e sabiam que mesmo eu tendo feito uma prova às escondidas, quem ainda daria a última palavra eram eles.
Ouvi a risada enorme de minha mãe; uma que nunca havia visto até então. Quando ela abaixou a carta para olhar para mim, pude entender que já estava decidido. Pelo pequeno sorriso que meu pai colocou em seus lábios, soube que consegui acrescentar nas duas opções que eles haviam me dado para escolher sobre meu futuro, uma nova: ir para Harvard.

É claro que eu sabia que minha vida aqui não seria fácil. As pessoas do estrangeiro não são calorosas como os brasileiros e dividir o quarto com Kendra não foi a melhor coisa que me aconteceu desde quando cheguei no país. Meus pais, obviamente, tiraram uma semana de folga de seus clientes para me acompanharem até meu novo lar. Um quarto que era menor que o tamanho do meu banheiro na cobertura que morava em São Paulo e uma colega de quarto que passava muita maquiagem durante o dia inteiro. Meus pais não pareceram se preocupar com a companhia, apenas me disseram que era melhor que eu fizesse logo o cartão da biblioteca para passar minhas tardes livres estudando.
Depois que nos despedimos no final do sétimo dia no país, não esperava que nunca mais fosse ver meus pais... Ou pelo menos pelos próximos dois anos e meio.

Muita coisa aconteceu nos dois anos e meio que se passaram desde minha vinda para os Estados Unidos. A única coisa que posso seguramente garantir que não mudou, foi meu relacionamento com Gabriel e o fato de Kendra continuar sendo uma péssima colega de quarto. O Brasil sofreu um grande baque na economia, de modo que muitos milionários perderam grande parte de suas fortunas e estão entrando em problemas de processos. Meus pais deveriam estar ganhando mais dinheiro por serem advogados, mas parece que os processos estão voltados contra eles, que a cada vez mais perdem clientes por não conseguirem vencer no tribunal. O caso chegou a mim na última sexta-feira, quando eles, pela primeira vez, me ligaram para dizerem que era possível que eu tivesse de trancar Harvard até que eles conseguissem se estabilizar economicamente e voltar a pagar a faculdade.
- Garanto os meses até Janeiro, contudo, depois disso, será difícil agregar o preço e os gastos em dólar com nossa situação financeira. – meu pai dizia. Ele era muito menos orgulhoso que minha mãe, que obviamente não diria nunca que estava passando por uma dificuldade com dinheiro. Em seu tom de voz, senti o cansaço e a derrota em ter de se remeter à vergonha de dizer à própria filha que não conseguirá cumprir com seu dever de pai e pagar os meus estudos.
Não respondi nada. Não sabia o que dizer. Queria confortá-lo, mas nunca soube como fazer. Nunca precisei e nunca me ensinaram. As coisas são diferentes quando são com nossos pais. Apenas fiquei o ouvindo falar e então dizer que precisava sair para uma reunião com um de seus clientes. Achei que fosse desligar, algo que estava loucamente querendo fazer, entretanto, minha mãe me surpreendeu ao tomar conta do fone, dizendo:
- Arranje um trabalho durante seu tempo livre.
- O quê? – ela estava louca? Estudo em Harvard, uma universidade que não oferece programas de estágio, porque estamos loucos demais estudando para as provas finais. É claro que minha memória facilita minha vida em 50% durante as provas, mas isso não quer dizer que posso me dar ao luxo de diminuir minhas horas diárias de estudo. – Não posso fazer isso.
- Não é questão de poder, . É questão de ter. Seu pai... Ele não está raciocinando direito. Está se sentindo derrotado e isso está fazendo com que ele tome atitudes erradas. – pausou por alguns instantes e então voltou a falar: - Você não pode trancar a faculdade, sabe o quanto isso irá refletir em seu currículo? Arranje um trabalho enquanto é cedo e comece a juntar dinheiro. É para seu próprio bem. – e sem dizer para me cuidar ou que me ama, desligou o telefone.
Não pude evitar ficar com raiva. Meus pais deveriam ter sido mais cautelosos com o dinheiro. São advogados, lidam com problemas assim todos os dias! Fizeram da minha vida, um mundo preto e branco somente para conseguir que eu realizasse suas vontades e agora que estou no caminho certo, agora que me acostumei, estragam tudo! Andei de um lado para o outro, chutei minha cama e senti uma dor imensa ao me lembrar que estava descalça. Realmente não queria ter essas reações, mas meu corpo não estava reagindo à minha razão e sim às minhas emoções. Não falei de meu problema para Gabriel; conhecendo-o bem, ele diria que eu fizesse o que minha mãe disse para eu fazer. Quer tanto quanto meus pais que eu me forme para trabalhar e conseguir meu próprio dinheiro.

Agora, estou deitada em minha cama uma semana depois de ter recebido a ligação. Minha vontade de estudar está relativamente menor do que antes de saber da situação de minha família. Olho para o teto descascado, algo que só vi aqui já que em casa meus pais nunca deixaram aparecer qualquer defeito. Ouvi o barulho da chave destrancando a porta do quarto e então Kendra entrar:
- Você parece uma ameba, jogada nessa cama. Não sabia que S passava mais que cinco minutos deitada na cama durante a tarde. – como sempre, anuncia sua chegada com um elogio. Em Harvard, as salas são nomeadas com letras do alfabeto. Meu ano tem salas de A a J. Os melhores alunos estão nas salas A e B. Cada vez que a letra do alfabeto muda, o nível dos alunos também muda, fazendo com que os alunos da sala J sejam considerados os piores do ano, pegando dependências em matérias e reprovando por falta. Entretanto, acima de todas as salas, há a sala S. S de Special. A sala dos prodígios. Constam nessa sala os 10 melhores alunos da turma inteira. As 10 melhores mentes, 10 melhores cabeças e, futuramente, os 10 melhores advogados do mundo. Alunos S têm recompensas que os alunos das salas A a J não têm, como bolsas de estudos e participações em Congressos importantes e caros. Como as salas, os alunos da sala S também são presenteados pela universidade de acordo com seus desempenhos, ou seja, o aluno número 1 ganha muito mais privilégios que o número 2, e assim por diante. Estou em quarto lugar; entrei na sala S ainda no primeiro semestre, logo no segundo mês e nunca mais saí. Minha colocação varia de quarto a sétimo, mas nunca chegue nos três primeiros colocados. A avaliação de todos os alunos é feita a cada quinze dias com provas de análise em que os professores criam. As provas são todas de um mesmo nível, difícil o suficiente até para os S. Assim, é bastante raro um aluno da sala C para baixo chegar na S depois do primeiro semestre de curso. Nestes dois anos e meio que estudei, apenas houve a troca de dois alunos S para uma sala A; um A e um B entraram em seus lugares. Com toda a dificuldade em manter nossas colocações e não perder nossos privilégios de S, como os dormitórios gratuitos para todos nós, é normal encontrarmos um alto nível de rivalidade entre dezenas de alunos na universidade.
Viro meu rosto para Kendra, que olhou novamente para mim ao sentir meu olhar lhe seguir por onde ia dentro do quarto.
- O que foi?
- Como você consegue viver sem saber quanto dinheiro terá no mês seguinte? – as palavras saem sem serem filtradas antes. Geralmente tenho cautela em direcionar a palavra às pessoas, mas algo dentro de mim simplesmente decidiu desligar este filtro.
Vi Kendra levantar sua sobrancelha tatuada. Disse-me em uma das noites que estava bêbada que ela havia depilado suas sobrancelhas com laser para em seguida tatuá-las e não ter de lidar com depilação escultural nunca mais. Um dinheiro que seria gasto em grande quantidade, mas uma vez só na vida. Na época, achei uma loucura, mas vendo agora, não me parece uma má ideia ter uma sobrancelha perfeita sem ter de mexer nela toda semana.
- Você precisa pensar melhor antes de falar. As pessoas costumam se ofender ao serem indiretamente chamas de pobres.
Ela tem razão. Indiretamente a chamei de pobre, um status social que ambas sabemos ser real. Mas como poderia julgá-la, se em breve estarei praticamente em condições até piores que as dela? Kendra costuma dizer verdades sobre sua vida quando está bêbada, fator que ocorre todos os finais de semana, a partir de sexta-feira de tarde e às vezes durante alguns dias da semana. Mesmo sendo uma aluna de direito, ela é muito mais relaxada que a maioria dos alunos; posso dizer que somos polos opostos. Enquanto ralho de estudar para manter minhas notas altas, ela apenas conta com sua qualidade de ser naturalmente inteligente. Nas aulas de jurisdição, é uma das melhores da sala sem nem mesmo abrir um livro. Poucas foram as vezes que a vi de cara nos estudos e mesmo assim, sua colocação nas notas nunca está inferior à média, por isso consegue se manter na E, uma sala mediana.
- Desculpe. – foi o que decidi falar para demonstrar meu arrependimento em ter dito palavras da boca para fora.
Nos mantivemos caladas por um longo tempo. Se não fosse tão normal, seria até constrangedor, mas eu e Kendra nunca nos falamos senão para necessidades pessoais de extrema urgência, como um absorvente interno ou o livro de direito penal para a prova de quinta-feira. Durante o tempo que ficamos caladas, a vi fazer o que viera até o quarto fazer; retirou sua camisa social que trajava para as aulas práticas de julgamento e a saia que ia da altura do umbigo até os joelhos, ficando somente com suas roupas de baixo pretas em minha frente. De vez em quando conseguia ver seu olhar em minha direção, como se quisesse se certificar que eu não estava mais a encarando.
- O que foi? Até parece que você nunca viu meu corpo. Descobriu que sou gostosa?
- Não. Não estou dando atenção à sua forma, apenas estou olhando sem intenção nenhuma. – explico, vendo-a soltar um riso nasal e colocar uma leggin preta com uma camiseta branca estampada com o logo de uma banda qualquer. – Não sabia que você se preocupava tanto com o corpo a ponto de utilizar a academia da universidade.
- Eu não frequento estes tipos de lugares, é óbvio. – foi até a frente do espelho e passou a mexer no cabelo, finalmente decidindo prendê-lo em um coque frouxo. Desistiu de me ignorar e se voltou para mim, colocando a mão esquerda na cintura. – O que foi, afinal?
- O quê?
- Você nunca foi uma pessoa que fica à toa. Podemos não nos falar, mas continuamos dividindo um quarto. – bateu a mão livre na perna. – O que aconteceu? Tirou uma nota baixa?
Talvez tenha sido seu tom irônico ou a tentativa de fazer pouco caso do interesse em minha vida. Pode ser que eu esteja muito desesperada em conversar sobre meus problemas com alguém que não fosse Gabriel ou meu diário. Tudo o que sei, é que surpreendentemente, minha boca falou novamente algo que minha mente disse para não falar:
- Minha família está falida, minha mãe disse para eu arranjar um emprego aqui e não sei nem no que sou boa para tentar fazer o que me mandou.
Kendra parece tão surpresa com minha confissão quanto eu. Não o fato de eu estar falida, mas sim por eu ter me aberto para ela, quando nestes dois anos e meio que passamos juntas dentro deste quarto, tudo o que fizemos foi ignorar a presença uma da outra.
- Que droga. – foi o que ela falou. Mesmo sua sentença sendo limitada e sem intenção de se preocupar em me ajudar, seu tom de voz foi claro o suficiente para me fazer entender que ela estava, no mínimo, sentida com minha situação. – Quer dizer que terá que trancar?
- Meu pai disse que consegue pagar até o final do semestre. Faltam quatro meses, mas mesmo assim, como poderei juntar grana para pagar os próximos dois anos?
Kendra não me respondeu. É claro, o que ela tinha a ver com minha vida, afinal? Não sei nem por que estou me dando ao trabalho de desabafar com ela, quando é óbvio que ela não tem o menor interesse na minha vida pessoal, assim como não tenho na dela. Sempre fui indiferente com sua situação e nunca mostrei interesse em me esforçar em me aproximar dela durante o tempo desde quando nos conhecemos até agora. Foi exatamente por isso que me senti surpresa ao vê-la continuar nossa conversa:
- Seja o que for, você não deve ficar aí parada se lamentando. Se fosse eu, estaria procurando algo para fazer.
- Para você é fácil. – resmungo. – Tem tanta facilidade em se comunicar com as pessoas. Ser simpática e tudo mais não é o meu forte, sabe?
- Claro que sei, moro com você faz dois anos e meio, lembra? – se sentou em sua cama para colocar os tênis de ginástica. Olhou em seu relógio de pulso e então procurou por sua mochila com os olhos, encontrando-o pendurado no cabideiro ao lado da porta do quarto. Se levantou, caminhando até à porta e então parou, hesitando alguns segundos e voltando até meu lado. – Se você quiser vir comigo, não garanto que será legal, mas pelo menos irá te distrair.

Capítulo 1

Não sei o que tem de divertido nessa área da cidade; dizem que é mais pobre e durante a noite, um perigo sair sozinha. Quando Kendra disse que não seria divertido, pelo menos achei que a parte do “distrair” fosse verdade, mas até agora tudo o que pensei foi que teria de enfrentar mais destes cenários, já que estou decaindo em minha situação financeira. Olhei para os lados duas vezes mais antes de atravessar a rua até o outro lado, onde havia um beco formado por dois prédios de cerca de sete andares. Kendra seguiu reto em direção ao prédio da direita do beco, tocando a campainha e ouvindo o som do interfone ser ligado.
- Quem é?
- Kendra. E conhecida.
Conhecida. Nosso status de relacionamento é “conhecidas”. Não posso reclamar, tenho certeza que eu sei mais da vida dela do que ela da minha, já que eu não passo grande parte do meu tempo bêbada. O máximo de relacionamento que mantemos até hoje são a troca de diálogo durante a hora da emergência ou o fato de eu ter de cuidar dela quando chega alterada em nosso quarto, me impedindo de dormir com o som de seu vômito.
A porta se abriu depois que Kendra se identificou. Parecia leve, mas mostrou-se muito pesada. Ao passar por ela, deixei que se fechasse sozinha atrás de mim. Olhei para os lados e vi um hall mediano e sujo, como se fizesse muito tempo que alguém não limpasse aquele lugar. Achei que Kendra fosse pegar o elevador, mas a placa de “interditado” fez com que minhas pernas doessem ao subir quatro andares. Tentei acompanhar o ritmo de Kendra, mas ao chegar no quarto andar, estava sem ar e arrependida de ter concordado em sair do campus.
Vi que no corredor onde estávamos havia diversas pessoas encostadas nas paredes conversando entre si. Ao passarmos por elas, algumas cumprimentavam Kendra e outras soltavam alguma gíria que prefiro não entender o significado. A maioria das pessoas usavam roupas de ginásticas e tênis que pareciam ser maiores que os próprios pés. Havia pessoas de todos os tipos, negras, brancas, asiáticas e ruivas. Foi como se estivesse em um dos comerciais culturais que dizia não haver preconceitos étnicos.
Fui somente ouvir o som de música agitada quando estava no meio do caminho até a porta por onde Kendra entrou sem bater. Abri a boca ao ver que era uma sala de dança, com parte das paredes da sala encapadas por espelhos e barras de segurança onde homens e mulheres se aqueciam. O lugar não era nada organizado, tampouco limpo, seguindo o mesmo esquema de poeira que havia no hall. Contudo, ninguém ali parecia se preocupar com a falta de higiene. Todos pareciam mais dispostos a... Dançar.
- O que é aqui? – pergunto para Kendra boquiaberta.
- Aqui é um estúdio de dança. – ouço uma voz atrás de mim e pulo com o susto. Ao virar para trás para ver o perfil da pessoa que me assustou, vejo um garoto muito mais alto do que eu, com uma camiseta regata preta grudada ao corpo e uma calça cargo preta. Seus tênis eram enormes, provavelmente o dobro do tamanho de meus mocassins. Com seus olhos enormes e , olhou para mim dos pés à cabeça, os lábios nem finos, nem grossos apertaram-se e então desviou sua atenção para Kendra atrás de mim. – Quem é a garota?
”A garota está na sua frente.” Penso, ofendida por estar sendo ignorada. Por outro lado, usei do tempo que não estava olhando para mim para ver que ele era forte; possui ombros largos com uma tatuagem no ombro direito. A tatuagem segue para as costas, me deixando curiosa sobre como seria seu conteúdo completo, mas sabendo sobre minhas condições e o fato óbvio de que ele não foi com a minha cara, preferi me manter calada.
- Minha colega de quarto. – Kendra disse.
- A mesquinha? – uma garota gritou do outro lado da sala, tirando risadas de algumas pessoas. – Achei que ela fosse rica demais para vir até aqui.
- Bem, a situação dela mudou.
De alguma maneira, as palavras de Kendra não estavam me ajudando a me sentir melhor. Aposto que a maioria das pessoas interpretou sua expressão da maneira que ela é, informando que estou pobre agora. Olhei para Kendra, que já não me dava mais atenção.
- Bem, mesquinha – o cara em minha frente começou a falar. -, Kendra te trouxe para um estúdio de dança, você dança?
- Não.
- É o que imaginei. – ele disse, completando seu diálogo com um olhar analista sobre meu perfil que não gostei nem um pouco. Seu tom deboche exalando não somente na voz, mas através de seu corpo também são fatores que não são do meu agrado. – Já que você não irá participar da dança, você pode se sentar ali no canto ou aguardar no corredor. – apontou para trás, em direção à porta onde mais pessoas entravam, como se não soubessem que a sala tem um limite de número de pessoas que comporta.
Não falei nada ao cara. Não gostei da maneira que me chamou, muito menos como dirigiu sua palavra a mim. Infelizmente, não posso retrucá-lo, pois ele e os amigos dele podem me expulsar daqui e se for jogada na rua sem saber como voltar, provavelmente serei raptada por alguém. Caminhei, sem escolha, até o canto onde ele indicou. Olhei ao redor e não havia cadeiras para sentar, somente mesas empoeiradas. Uma mulher com sua pele escura e brilhante se aproximou de mim e disse:
- Não tenha medo, guria, você é muito leve para fazer essa mesa quebrar. – seu sotaque era diferente dos que já ouvi falar. Agradeci tão baixo quanto minha altura perto dela e olhei para os lados à procura de algum pano para limpar o local que gostaria de sentar. Não encontrei nenhum, então tateei meus bolsos, encontrando um lenço de papel que costumo deixar nos bolsos porque minhas mãos soam muito durante os estudos. Com o lenço, limpei a mesa encostada na parede que não havia espelho e ouvi risadas atrás de mim.
- Ela anda com lenços de papel no bolso para limpar os locais que irá sentar? Sério? – olhei para trás vendo os dançarinos unidos do outro lado da sala me encarando com expressões de riso. Desviei meu olhar para tentar ignorar minha sensação de humilhação por ser higiênica e fiquei o mais encolhida possível, achando que assim não chamarei tanta atenção.
A música mudou para uma batida mais forte quando o cara que me chamou de mesquinha gritou para todos se posicionarem. Kendra estava na segunda fileira; pela primeira vez a vi dedicada a algo por vontade própria. Abri a boca ao vê-la dançar sem se importar em estar sendo observada por dezenas de pessoas, então era verdade o fato dela não fazer parte das pessoas que frequentam a academia; ela mantém seu físico saudável e formado através da dança. De algum modo, parecia mais divertido, mas menos saudável que as máquinas de exercício. Aqueles que estavam no corredor agora se encontravam espalhados pela sala ou próximos à porta, acompanhando o ritmo da música com batida de palmas, balanço com a cabeça ou batuques nas mesas espalhadas pela sala.
Mesmo que não pertença a esse lugar, não consigo deixar de sentir no quão divertido é somente observá-los dançar. Ter toda a elasticidade com o corpo para fazer esses movimentos rápidos e complicados... É muito mais do que decorar passos, é preciso de concentração e... Pelo que vi nos olhos de cada dançarino, tem que amar a dança. Amar o que faz. Abro um pequeno sorriso sem tomar consciência de minha ação. Por incrível que pareça, é confortável assistir pessoas que gostam do que fazem. Não parecem ser obrigados a estarem aqui e se moverem de acordo com a batida agitada. O sorriso em seus rostos, a expressão de determinação... Olho meu reflexo no espelho sujo que havia à frente do grupo de dança; mesmo estando longe, pude ver que perto de todos ali dentro, eu era pálida e sem vida demais.
A música dura menos de cinco minutos, mas pareceu bem mais longa devido aos longos passos que todos fazem sincronizados. As mulheres abusam de seus quadris para conseguirem um gingado que pareceu belo em meus olhos e os homens utilizam as forças de seus braços, troncos e pernas para realizarem manobras bruscas no chão e no ar, como rodopios ou pulos absurdamente altos. Ouço os assobios, palmas e elogios quando a música acaba e o grupo se inclina para agradecer. Em seguida, um novo grupo se posiciona no lugar dos que acabaram de dançar e uma nova música, mais lenta, é iniciada.
Durante toda a minha vida fui privada de ouvir muita música. Meus pais nunca me proibiram ir a festas ou baladas em São Paulo, principalmente porque os filhos de seus clientes ou amigos importantes eram meus companheiros usuais; contudo, nunca tive aparelhos eletrônicos para música e meus fones de ouvido foram comprados somente para ouvir os audiobooks dos livros de direito. De alguma maneira, assistir a este enorme grupo dançar livremente me fez sentir que finalmente saí do Brasil. Não sei mais o que esperava fugindo de meus pais ao vir para cá, quando mantive exatamente a vida que tinha em São Paulo.
Aos poucos, me peguei balançando a cabeça conforme a música e somente quando fui pega no flagra por Kendra e suas amigas que senti as maçãs de meu rosto corarem por estarem rindo de mim, de novo. Mesmo gostando da sensação de liberdade que os passos das danças faziam e do som que nunca havia ouvido na vida, não consigo me sentir confortável tendo todas essas pessoas me julgando sem nem me conhecerem. Na universidade, aprendemos que se quisermos julgar uma pessoa, devemos primeiro saber mais sobre elas, principalmente seus pontos fracos. Não me importo de ser motivo de piada, se há algo para se rir sobre mim. Mas estou passando por uma crise e nunca fiz mal para Kendra, para ela me trazer em seu clubinho de dança e fazer com que todos riam de mim.
Assim, sem pensar, desisto de me manter submissa aos comentários e às risadas. Coloco meus pés no chão, descendo da mesa e sigo em direção à saída da sala, sendo ignorada pela maioria das pessoas. Com dificuldade, cheguei ao corredor que agora se encontrava vazio. Olho para meu relógio e vejo que ainda faltam duas horas para anoitecer. Retiro meu celular do bolso do meu blusão de Harvard e vejo que estou sem sinal. Grande. Não consigo sequer pensar em chamar um táxi ou abrir o mapa da cidade para saber como faço para voltar ao campus. Olho para os lados, mas ninguém me dá atenção ou demonstrar um pouco de boa vontade em ajudar a garota “mesquinha” a voltar para seu lugar de origem. Suspiro e sigo em direção às escadas, vendo que a altura até o térreo é bem maior do que imaginava. Desço os primeiros degraus de mármore, mas estou sem reação. Como poderei voltar se não prestei direito atenção no caminho até aqui? Por que diabos fiquei pensando no lugar que Kendra me levaria para me distrair ou me ajudar a encontrar um trabalho? Por que sequer pensei que ela poderia me ajudar?
- Você não gosta tanto assim da música? – ouço ao meu lado e se não fosse por uma forte mão segurar minha cintura, teria rolado diversos lances de escada até o terceiro andar. Olhei para o dono da voz e do meu susto e vi mais uma vez o cara que me chamou de “mesquinha”, agora usando um moletom cinza de zíper. – Você se assusta muito fácil.
- Apenas tenho facilidade em me concentrar. – respondo, vendo-o soltar uma risada. – Vocês gostam de rir. Das pessoas. – observei, vendo-o desfazer o riso em seus lábios. - Nunca julguei nenhum de vocês e não sei por que Kendra me chamou de “mesquinha” se sou a única pessoa que se dá ao trabalho de cuidar dela ou copiar a matéria da aula nos dias que ela falta.
- Hey, hey, você está descontando na pessoa errada. – ele levanta as mãos voltando a rir. – Não estou rindo de você particularmente, mas sim de suas reações. Você tem expressão de uma advogada, mas age como uma garota indefesa.
- Bem, não estou em meu habitat natural, então é normal que eu esteja parecendo indefesa. – mais uma vez deixo meu tom irônico transparecer em minha voz. Ele deve estar acostumado em ter as pessoas falando nesta tonalidade com ele, pois não demonstrou aborrecimento ou surpresa quando lhe retruquei. – Como faço para ir embora daqui?
- Desça as escadas. – apontou para baixo com um sorriso. Revirei os olhos, impaciente com tamanha infantilidade. – Você precisa seriamente melhorar o seu humor.
- Disse isso a pessoa que me mandou me sentar no canto e ser apontada pelos amigos. Olha, eu sei que não faço o tipo de pessoa que vem a esses lugares; é verdade, eu nunca vim para esses lados, mas estou aqui e quero voltar, então você não poderia, por gentileza, me informar qual o caminho de volta para Harvard?
- Qualquer pessoa que me peça um favor com a palavra “gentileza” não deve saber que não sou tão gentil a ponto de ajuda-las. – ele coloca as mãos no bolso do moletom e começa a descer as escadas. – Você, aluna de Harvard “mesquinha”, deve interpretar melhor o caráter das pessoas antes de se expor dessa maneira.
Sinto minhas bochechas corarem. Ele estava brincando comigo? Está se aproveitando da situação apenas porque sabe que está em condições melhores do que a minha? Observo-o se afastar de mim enquanto desce as escadas e procuro desesperadamente por uma alternativa de sair dali.
- Você é mesmo um idiota. – falei, descendo as escadas atrás dele e ignorando seus passos cessarem e seus olhos me observarem passar por ele. – Um verdadeiro imbecil. – murmuro, chegando rapidamente ao terceiro andar.
Antes mesmo de começar a segunda leva de degraus para chegar ao segundo andar, sinto uma mão apertar meu braço e me virar bruscamente. Seus olhos estavam com as pupilas dilatadas e vi que sua pele era muito mais lisa do que imaginava.
- Do que você me chamou? Repita.
- Você quer que eu fale qual adjetivo primeiro? Idiota? Ou imbecil? – falei, me sentindo melhor por saber que consegui atingi-lo de alguma maneira. – Você é um idiota e um imbecil.
- Garota, você...
- . – o corto, fazendo-o olhar confuso para mim. – Meu nome é , não “mesquinha” ou “garota”. – soltei meu braço de sua mão e lhe dei as costas, voltando a fazer o caminho para fora do prédio. Dessa vez, demorei menos, parte de mim esperando que ele me impedisse novamente apenas para ver seus olhos mais uma vez. Mas era claro que ele não veio atrás. Era claro que eu nunca mais o veria novamente.

Demorei três horas para chegar em meu dormitório. Logo que pus meus pés no campus, fui até o escritório das relações públicas afim de pedir que me trocassem de dormitório. Entretanto, encontrei com o escritório fechado por ter passado das seis da tarde. Suspirei, triste por saber que somente poderei fazer a solicitação na segunda-feira, já que amanhã teremos feriado e no dia seguinte, ponte, fazendo com que os alunos sejam dispensado das aulas nos dois dias.
Peguei um jornal gratuito na banca. Poderia procurar algum lugar para trabalhar durante a tarde, quando não tenho aula ou reposições. Os finais de semana também seriam livres; ouvi dizer que bares e restaurantes contratam mais pessoas jovens para trabalhar porque temos mais disposição, tempo e necessidade de dinheiro.
Kendra entrou no quarto somente na manhã do dia seguinte, usando uma roupa diferente da que foi para a aula ontem. Eu estava em minha cama anotando todos os lugares que iria para procurar um lugar para trabalhar.
- Você poderia ter me avisado que foi embora. Fiquei como uma retardada procurando você no meio de todo mundo.
- Achei que fosse óbvio para todo mundo que eu não ficaria mais um segundo ali, já que ninguém sã gosta de permanecer em um lugar onde claramente não é bem-vindo. – retruquei, desviando os olhos para ela, que não soube o que dizer. – Você se esforçou em me humilhar. Não sei por que fez isso, mas se foi para se vingar de algo que eu te fiz, seria ao menos justo saber por que estou sendo punida, já que não me lembro de alguma vez ter feito algo de ruim a você.
Não recebi nenhuma resposta. Kendra não pensava bem durante a manhã, mas parecia estar sóbria suficiente para entender minhas palavras e pensar nelas como meio de punição por ter me feito de boba.
- Eu não te levei lá para te humilhar. – ela começou a falar e não ousei cortá-la. O problema de algumas pessoas que fazem direito, como eu, é que temos o dom de ouvir as pessoas para então retruca-las, mesmo se não queremos ouvi-las. – Eu te chamei de mesquinha uma vez, quando pedi para me emprestar dinheiro para pagar uma conta e você disse que não podia. Estava com raiva e acabei falando mal de você para a turma. Aparentemente, foi a única vez que mencionei você para eles, mas parece que a imagem fixou e eles decidiram se vingar por me fazer passar por aquela dificuldade.
Isso foi há mais de um ano. Kendra realmente me pediu dinheiro emprestado, mas havia me dito que precisava “resolver uns negócios”, por isso, devido ao perfil dela, achei que estivesse ligado às drogas e resolvi tirar minha imagem da reta, dizendo que não poderia emprestar porque estava com o dinheiro contado para pagar minhas contas do mês. Me senti bastante mal depois disso e tentei recompensar com outras atitudes, mas pelo visto, ela já havia se vingado de mim de uma outra maneira.
- Desculpe pela reação deles ontem. Quando estou com eles, sinto que finalmente pertenço a uma turma e acabo não retrucando em suas ações, mesmo que elas sejam erradas. Agi errado com você e admito. Minha intenção de te levar lá, é que , o líder de nós, precisa de ajuda para arrumar o prédio e deixa-lo apresentável para os novos alunos. Ele disse algo sobre pagar a pessoa que o ajuda-lo, mas como você deve imaginar, ninguém está muito afim de limpar 7 andares de pura poeira parada.
- ? – perguntei, confusa. Quem era ?
- O cara que falou com você. Fiquei sabendo que vocês se falaram depois. – ela se jogou em sua cama e virou o rosto para mim assim que sua cabeça tocou o travesseiro.
- O idiota? – perguntei. – É, nos falamos. Ele foi um completo imbecil e acabei sendo honesta demais com ele.
- To ligada. – ela falou. Levantei uma sobrancelha e vi um sorriso em seus lábios. – é uma pessoa muito centrada. Ele dificilmente perde a paciência com algo, mas ontem parecia querer matar o primeiro que lhe perguntassem o que você falou para ele para deixa-lo naquele estado.
- Bom saber que o que eu disse causou tal efeito. – abri um sorriso de vitória, feliz em saber que quebrei a barreira daqueles olhos . – De qualquer maneira, não acredito que ele queira que eu vá ajudar. Estou separando alguns lugares para visitar amanhã e ver se consigo alguma coisa. – apontei para o jornal.
- Você está errada. – Kendra disse, me fazendo parar de rabiscar o jornal com minha caneta esferográfica vermelha e dar-lhe minha inteira atenção. – Está enganada sobre . – levantei uma sobrancelha sem entender nada. – Ele pediu para eu levá-la para o prédio hoje.
- Não acho que gostaria de voltar para lá. – falei, voltando minha atenção para o jornal.
- Foi o que eu disse, mas ele insistiu. Teremos uma festa depois do ensaio na casa de um dos integrantes. Na verdade, ele é um dos sócios, mas não quer ter o peso da responsabilidade, então deixa que seja o dono integral do negócio.
- Negócio? Vocês ganham dinheiro?
- Com as aulas? Sim. Todo mundo que está lá paga para estar lá. Nada é de graça, eles apenas cobram um valor que varia de acordo com a situação econômica da pessoa. Além disso, participamos de competições e já vencemos dezenas, ganhando os prêmios em dinheiro para o estúdio.
Abro a boca, surpresa por saber que toda a organização não é somente um encontro casual de amantes da dança. Saber que é um negócio levado a sério e que há pessoas dispostas a pagar o preço torna o lugar muito mais respeitado.
- Sairemos às cinco. Veja se coloca uma roupa melhor hoje. Você sabe, sem estampas demais. – disse olhando para meu mocassin com estampas de onça que sempre adorei usar com minha skinny jeans. Suspiro e levanto meus ombros. Não sei o que me levou a aceitar o convite insistido por ; talvez seja minha vontade de encarar novamente aqueles olhos .

Capítulo 2

São cinco e meia e Kendra ainda está se arrumando. Disse que dormiu mais que o necessário, de modo que seu corpo parecia ser feito de chumbo, impedindo-a de levantar no horário que seu despertador tocou. Tive de desligar o som para ela voltar a dormir; quando despertou, às cinco, brigou comigo por ter desligado o alarme a pedido dela, mas em seguida se desculpou, porque sabia que era sempre assim.
A pedido dela estou vestindo algo “melhor”. Uma skinny preta com meu snicker vindo da mesma cor, de modo que Kendra disse que parece que estou usando um macacão, já que as cores são praticamente da mesma tonalidade. Coloquei uma camiseta cuja barra é mais curta, indo somente até a altura do umbigo, deixando parte de minha barriga à mostra quando levanto os braços. Optei por deixar meus cabelos soltos, porque estão limpos e não gosto de deixa-los marcados com o elástico; contudo, coloco um em meu pulso para caso necessitar mais tarde. Quando fiquei de frente para meu armário me perguntando qual casaco deveria usar, Kendra disse que eu não precisaria de um, já que haveria gente demais para dividir o calor humano. Com essa afirmação, me pergunto mais uma vez se deveria ir ao lugar; penso no meu diploma e nos dois anos de curso que deveria tentar pagar e quanto mais cedo conseguir dinheiro, melhor para mim.
No início, achei que iríamos pegar o ônibus, como fizemos ontem para ir até o bairro do estúdio de dança; entretanto, assim que saímos das pendências de Harvard, uma enorme picape preta com algumas pessoas que reconheci do estúdio aguardavam Kendra.
- Eles são... Daqui?
- Daqui, você diz, Harvard? – Kendra diz depois de ter acenado para o grupo, confirmando ser ela a pessoa vindo com a acompanhante. – Sim, há bastantes pessoas daqui que vão para lá; a maioria eu quem apresento, mas agora já há tantas pessoas que só pode ter sido uma propaganda boca-a-boca.
Olhei para o grupo que cumprimentou Kendra com um movimento que envolvia as mãos e o resto do corpo; algo que eu não saberia fazer nem com treino. Olharam para mim desconfiados até Kendra dizer que estava com ela.
- Ah, é a “mesquinha”. – um garoto com o cabelo loiro escondido pelo boné virado para trás disse entre risos.
- . – olhei séria para ele, que desfez o sorriso e levantou as sobrancelhas. – Meu nome é , “mané”. – retruquei o elogio, vendo Kendra rir antes de entrarmos na picape. Atrás de nós, todos aqueles que ouviram nossa troca de cumprimentos começou a tirar com a cara do loiro, chamando-o de “mané”. Abri um pequeno sorriso, entendendo um pouco como as coisas funcionavam ali.
Devido à algazarra intensa dentro do carro, não consegui prestar atenção no caminho que fizemos. Sei que entramos na rodovia e quando perguntei à Kendra onde era o lugar, ela apenas disse que era em um condomínio afastado da cidade. Mesmo todos sabendo sobre mim, depois de minha resposta ao loiro, ninguém mais mexeu comigo. Não reconheci nenhum dos rostos dos estudantes que dividiam a mesma universidade que eu, Harvard é imensa e eu nunca prestaria atenção nessas pessoas; não se elas se vestirem como Kendra, ao invés de usarem as roupas sociais que devemos vestir.
A picape logo se uniu a um grupo de outros carros. Percebi que havíamos nos unido ao grupo de automóveis quando eles começaram a aumentar a velocidade e trocar buzinadas. Mesmo ainda não ter anoitecido foi possível ver a troca de luzes em meio à intenção de cegar quem está dirigindo. As pessoas que estavam em nossa picape abriram as janelas para começar a gritar com as pessoas dos outros carros, que respondiam em mesmo tom e até tacavam objetos como rolos de papel higiênico ou latas de bebidas vazias. Me mantive encolhida no meio do banco, a única pessoa que não estava interessada em colocar metade o corpo ou a cabeça para fora do automóvel afim de brincar com os outros carros. Demorou meia hora para os carros formarem uma fila indiana em frente à uma recepção que indicava a entrada do tal condomínio. “Sunville” era o nome do lugar. De início, me pareceu normal, as casas eram como as dos condomínios da região de São Paulo: cerca de dez a quinze casas por quarteirão; contudo, de acordo com que fomos andando e passando por mais cancelas de segurança, as casas foram se tornando maiores, até serem chamadas de mansões. Demorou mais vinte minutos até chegarmos em uma rua onde haviam somente três ou quatro casas por quarteirão. Antes mesmo da picape parar em algum lugar, as pessoas da frente abriram as portas e começaram a saltar para fora do carro. Olhei para Kendra, que riu quando viu meu olhar de desespero. Não vou pular de um carro em movimento.
A rua estava lotada de carros de todos os tipos. O que antes achei serem pessoas humildes, acabo de perceber que aquele era um grupo muito mais poderoso que os alunos prodígios da sala S de Harvard. Desci da picape quando ela estacionou e vi que eu, Kendra e mais duas garotas que usavam um salto enorme fomos as últimas a sobrar no carro. Arrumei minha jeans e tentei arrumar meu cabelo, mas ele já estava naturalmente bagunçado; bagunçar mais poderia piorar a situação.
Kendra me levou para a mansão que ficava logo no meio do quarteirão. Por não ocupar todo o espaço do lote, pude ver que ao fundo havia um imenso lago. Me perguntei desde quando haviam condomínios deste tipo nos Estados Unidos, mas considerando os americanos, não deveria estar tão surpresa assim. Caminhei pelos pedaços de pedra cortados perfeitamente quadrados, formando um caminho até a entrada da mansão. A porta estava fechada, mas destrancada; assim, as duas garotas que saíram do carro comigo e com Kendra foram as primeiras a empurrar a porta vermelha imensa pelo corrimão na vertical que ficava no lugar de uma maçaneta.
O som estava absurdamente alto e havia pessoas dançando com copos nas mãos para todos os lados. Cumprimentaram Kendra e olharam para mim da cabeça aos pés, provavelmente estranhando uma nova pessoa estar no pedaço deles. Engoli seco, me arrependendo imediatamente de ter aceitado. Deveria estar procurando empregos temporários para estrangeiros, não em festas de grupos de dança. Olhei para a escada de mármore que levava até o segundo andar. Havia mais um lance para um terceiro andar, mas este ninguém estava encostado, sentado ou deitado. Olhei para meu relógio de pulso e me perguntei se não estava muito cedo para as pessoas começarem a entrar em coma alcoólico.
- A festa está rolando desde ontem, mas me pediu para voltar para te chamar e também para me encontrar com a turma que estava com a gente na van. – Kendra gritou à minha frente, me fazendo concordar com a cabeça para mostrar que havia ouvido. Agora fazia mais sentido todas aquelas pessoas caídas. Então isso é uma verdadeira ‘rave’ americana, uma festa que dura mais de vinte e quatro horas. Passamos por um corredor ligeiramente estreito onde duas pessoas andariam lado a lado confortavelmente, mas devido o excesso de pessoas sentadas e encostadas na parede conversando ou se beijando, tornou a passagem um pouco mais desconfortável. O corredor nos levou até uma cozinha imensa tomada por pessoas, garrafas de álcool de todos os tipos, pilhas de copos de plástico e engradados com latas de energéticos. As cinco geladeiras enfileiradas em uma parede eram abertas a cada 3 segundos por pessoas diferentes, que retiravam bebidas de dentro ou reabasteciam o estoque. Agradeci mentalmente à Kendra por não ficarmos ali por muito tempo; atravessamos o ambiente e saímos da mansão por uma porta de vidro de correr que estava inteiramente aberta com as cortinas penduradas em algum lugar que não consegui enxergar. O lado externo primeiramente parecia somente uma sacada; ao atravessar o pátio até as pedras que formavam a sacada, vi um jardim imenso com uma piscina enorme. Ali estavam torres de luzes coloridas, máquinas de bolhas de sabão e fumaça, dando um verdadeiro ar de balada. As pessoas se espalhavam entre a área concretada da piscina e a grama do jardim, não se importando em pisar em algo mais fixo ou maleável. Achei interessante o modo como elas dançavam, soando tão profissionais com músicas tão alternativas; talvez as aulas realmente tivessem conteúdo; talvez elas realmente fossem dançarinos profissionais. Segui Kendra pelas escadas, descendo até o local da “balada”. Minha visão se tornou mais turva com o cheiro forte de droga rolando junto com o cigarro e a bebida. As pessoas riem muito alto e algumas chegam a se jogar na piscina. O DJ dançava detrás da mesa de som repleta de máquinas profissionais, rodeado por garotas com biquínis.
Kendra deu a volta na piscina, indo em direção a um grupo que estava deitado em camas de piscina com os narguiles apoiados em mesas ao lado. Vi sentado em uma das camas, , com várias garotas ao seu redor. Parecia estar se divertindo e assim que seu olhar avistou Kendra e eu, o sorriso se desfez.
Com a reação de , me pergunto se Kendra havia falado a verdade sobre ele ter insistido em fazê-la me trazer até essa festa. Talvez ela apenas tenha feito isso para me humilhar mais uma vez, mas de uma maneira épica. Olhei para os lados e as pessoas pareciam estar pouco se importando com a nossa chegada. Kendra mal se sentou em uma das camas e um cara a colocou em seu colo para iniciar um amasso. Arregalei meus olhos, espantada por ela ter deixado facilmente ser agarrada assim e parei, sem saber como reagir.
- Hey, “mesquinha”. – ouvi a voz de . Ele poderia estar em vantagem, na casa de seu tal sócio, mas eu não iria atender ao seu chamado, principalmente por estar me chamando por um adjetivo tão ofensivo. Além do mais, havia dito meu nome ontem para ele; poderia ser mais educado em pelo menos iniciar o plano da humilhação me iludindo achando que irá me tratar melhor e me chamar pelo meu nome. Olhei para os lados e tentei não dar atenção à Kendra e seu companheiro de amasso. Os dois pareciam estar bem entrosados e ninguém parecia se importar. Se estivesse no Brasil, alguém gritaria “vá para o quarto!”, somente para fazer as outras pessoas rirem, mas aqui, olhando ao redor, acho que é normal se agarrarem em público.
Olhei o lado que havia visto do lado de fora da mansão. Parecia mais calmo vendo de lá, assim como a mansão parecia menor também. Quem iria desconfiar que este lugar teria tanto espaço para caber todas essas centenas de pessoas? Logo depois do jardim havia uma praia; acho que é artificial, já que a grama do jardim da mansão se torna, de repente, areia branca. Havia pessoas nadando no lago e um tipo de um píer onde mais pessoas se jogavam para dentro da água; olhei para as mansões vizinhas, mas as luzes estavam todas apagadas. Será que todo esse barulho não atrapalhava o condomínio?
- Estou te chamando há cinco minutos. – senti uma mão segurar forte meu antebraço e ao olhar para o lado, me perdi nos olhos cuja muralha derrubei ontem. – Você deveria cumprimentar o dono da festa.
- E onde ele está? – olhei para os lados. – Porque Kendra me disse que não é você.
- E você acha que Kendra, só porque faz direito sempre dirá a verdade?
Fiquei calada, vendo-o tão próximo a mim. É claro que a proximidade se deve ao fato do barulho estar alto demais e não queríamos gritar como todo mundo em nossa volta.
- Por que pediu para ela me trazer? – perguntei, finalmente, vendo um pequeno sorriso se formar em seus lábios, indicando que eu havia perdido a nossa primeira discussão.
- Você é muito direta. Por que não aproveita a festa? – sorri, mostrando dentes retos e brancos. Não queria desviar meu olhar do seu e não foi tão difícil, já que facilmente me perco nos seus olhos.
- Porque não quero ficar aqui. – respondi, séria. Minha direta pareceu lhe deixar sem reação. – Vim aqui porque Kendra disse que você está procurando alguém para arrumar aquele prédio onde fica o seu estúdio de dança.
- Você está aqui pelo dinheiro?
- Estou. Por que mais viria? Para me divertir trocando facadas com você?
Não sei se ele queria rir ou estava nervoso por não demonstrar nenhum interesse em seu corpo que admito ser uma beldade, ou na mansão que definitivamente é fabulosa. Meu orgulho não me permite querer aproveitar que estou em uma festa desse tamanho, além do mais, não me sinto bem-vinda aqui.
- O que te leva a achar que irei te contratar?
- Você é realmente um grande idiota por fazer Kendra me trazer até aqui para simplesmente dizer que não irá me contratar. – cruzo meus braços, sentindo o sangue subir até meu rosto. Eu não posso acreditar que ele está realmente disposto em se vingar. Vi um riso sair por seus lábios e para mim, foi o fim. Balancei a cabeça e lhe dei as costas, dando um chute de leve no pé de Kendra que interrompeu o amasso com seu companheiro. – Estou indo.
- Acabamos de chegar.
- Eu disse que eu estou indo. Você pode ficar. – dei-lhe as costas e comecei a fazer o caminho de volta para a saída da mansão. Pelo menos esse caminho sei fazer.
Não pude dar muitos passos sem antes ter a mão de novamente pegando meu braço e me virando.
- Você é bem nervosinha para uma “mesquinha”, Mesquinha. – com o impacto de ter me virado, nossos corpos estavam absurdamente colados. Olhei para os lados e vi o grupo de garotas que antes estavam ao seu redor não me olharem com sorrisos. – Eu te convidei para a minha festa, você deveria estar agradecida por considerar sua presença mesmo depois de ter me chamado daquilo que me chamou.
- Idiota? É, porque você é um idiota. – tentei me soltar dele, mas é claro que não consegui. Não com os braços dele me prendendo. – Escuta, não sei se você já percebeu, mas você é só o dono da festa. Você não significa nada para mim, então não tenho a obrigação de te tratar como um rei como as outras garotas fazem com você. Eu já falei que vim aqui só para saber do trabalho e se você não quer me dar, então procura outra pessoa para atormentar com esse seu ego inflado.
Pisei em seu pé e ouvi seu urro de dor. Provavelmente me xingou, mas não me mantive por perto muito tempo para ouvir o que era. Tento andar o mais rápido que posso em direção às escadas, mas novamente, ele tentou me parar. Cansada de ser segurada de maneira brusca por ele, virei com a intenção de lhe dar um soco, mas ele é muito mais ágil que eu e facilmente desviou. Contudo, nossos movimentos foram tão rápidos que só fomos perceber que estávamos à beira da piscina, quando já estávamos dentro dela.

- Tome. – vi uma toalha felpuda branca em minha frente e nem meu orgulho me deixou recusar. Enxuguei meu rosto e meus braços e tentei secar os cabelos, mas eles estão úmidos demais para conseguir.
Olhei ao redor para o quarto que me trouxe depois que saí da piscina. Por sorte, não uso tanta maquiagem e o pouco que tenho em meu rosto é a prova d’água. O quarto fica dentro da mansão logo no segundo andar. Utilizando um elevador que havia dentro de um salão cuja porta ficava entre as duas escadas que davam para a piscina, subimos até o segundo andar que estava repleto de pessoas. achou um dos quartos vazios e não me importei de entrar com ele lá, porque sei que não acontecerá nada, já que nossa atual condição não exala nem um pouco de tesão. Ajoelhei no tapete para não tentar molhar muito mais do quarto. Torci a barra da minha camiseta e vi que ela havia encolhido devido à umidade, deixando exposta uma parte muito maior de minha barriga. Suspirei, descrente por estar nesta situação.
se enxugou em minha frente e não se importou em tirar a camiseta preta para colocar uma regata branca seca. Este deveria ser seu quarto, já que os armários que abriu mostravam roupas masculinas que ele escolheu vestir depois de seco.
- Pegue uma camiseta. – disse entrando no banheiro e não se importando em fechar a porta.
- Não, obrigada. Já vou embora. – disse, enquanto tento secar o máximo que posso qualquer parte que ainda esteja encharcada, ou seja, tudo.
- Não seja tola e pegue logo.
- Eu disse que não quero.
Levantei para poder enxugar a parte de trás de minhas pernas. A skinny estava grudada em meu corpo como se fosse minha pele e, por sorte, a cor preta não muda mesmo molhada. Tirei meus sneakers para enxugar a área interna do tênis e assim que terminei, saiu do banheiro e pegou uma camiseta qualquer, jogando em minha direção.
- Que parte do “eu não quero” você não entendeu? – deixei a camiseta na poltrona que havia perto de mim.
- Sua camiseta está praticamente transparente.
- As pessoas não irão se importar, já que há mulheres bem menos vestidas que eu aqui. – voltei a enxugar meus cabelos. – Obrigada pela toalha. – falei, pendurando-a na mesma poltrona que deixei a camiseta que ele jogou em mim.
- O que você tem, garota? – ouvi sua voz enquanto me virava para ir em direção à porta. – Por que você não aceita a ajuda das pessoas?
- Não é que eu não aceite ajuda. Eu só não aceito ajuda de pessoas que brincam comigo e acham graça em me ver nervosa. Além disso, eu odeio a palavra “mesquinha”. – tento sair, mas ele coloca um de seus braços na maçaneta, impedindo a porta de se abrir. – Por que está tão interessado em me atormentar?
- Não gosto de ser chamado de idiota por pessoas desconhecidas.
- Digo o mesmo sobre ser chamada de mesquinha.
- Bem, se você se desculpar, eu me desculpo.
- Não fui eu quem comecei essa brincadeira idiota.
Seus olhos fixaram-se nos meus. Essa batalha eu não iria perder, sei muito bem ganhar jogos de olhares.
Não nos conhecemos. Não sei nada sobre ele. Não sei qual a intenção dele comigo, mas sei que não é boa. Ele não deve ser chamado de idiota por muitas pessoas, para ter se ofendido tão intensamente quando o chamei. Se não tivesse me tratado com tanta grosseria ontem, eu poderia ser da maneira que eu sou com as pessoas; educada e formal. Poderia até fingir que estou confortável próxima dele. Mas ele foi grosseiro comigo sem nem me conhecer. Perguntei a mim mesma se ele trata as outras pessoas assim, pois se sim, devem ser um bando de masoquistas que se preocupam mais com dinheiro do que eu. Se este for o caso, ele não deve ficar surpreso ou ofendido por eu ter vindo até aqui só por causa dos valores. Além do mais, eu sequer sei quanto ele está disposto a pagar pela tal ajuda.
- Eu não gosto de mulheres que se impõem demais para os homens.
- Bem, então você deveria me dar licença para que eu possa me retirar.
Trocamos olhares mais alguns segundos até ele mover-se para o lado, deixando que eu saia sem olhar para trás. Estou nervosa. Como diz Kendra, puta. Estou puta. Poderia estar estudando para os exames que estão se aproximando ou procurando mais opções de trabalhos. Ao invés disso, estou aqui, saindo de dentro do quarto do dono da festa e sem saber como voltarei para a cidade, já que é óbvio que a pé não irei conseguir.
Ignorei todas as cantadas e mãos na bunda que recebi durante o trajeto até a entrada da mansão. Mesmo a festa ter começado no dia anterior, ainda há pessoas chegando. Olhei para os lados afim de encontrar algum cara bêbado que possa dar em cima e fazê-lo me levar para a cidade, mas aparentemente, todos os bêbados estão dentro da mansão, um lugar que não quero voltar a entrar. Penso então em alguma maneira de voltar. Não posso ligar para Kendra, porque ela não me atenderia de qualquer jeito. Não conheço mais ninguém e o motorista da picape que nos trouxe entrou na festa também. Talvez se eu for a pé até a portaria, algum funcionário poderia ligar para uma agência de táxis, já que não tenho nenhum gravado em meu celular e o sinal da internet não funciona nesta área.
Cruzo meus braços ao sentir o vento gelado da noite. Olho em meu relógio e vejo que ainda são oito horas. Não faz nem uma hora inteira desde quando entrei na mansão e já estou enrascada. Me arrependo levemente por não ter aceitado a camiseta seca de ; o arrependimento não fica muito tempo em mim, já que não iria querer dever uma para ele depois do modo como me tratou. Começo a andar na direção contrária que a picape que vim fez. Olho para o céu e a lua está muito maior do que o normal. Me pergunto se irei me meter em enrascadas tipo essa novamente, agora que terei de procurar emprego para arranjar dinheiro. Meus músculos doem só de pensar no esforço que terei de fazer; sempre gostei só de estudar. Não deveria trabalhar até realizar a prova da OAB no Brasil. Esse não é meu plano, eu não deveria estar me sujeitando a essas situações.
Por um segundo, sinto a raiva pelos meus pais retornar. É culpa deles. Por que não mantiveram minha poupança intacta? Por que a criaram se estava claro que não usariam o dinheiro que estava lá dentro comigo? Onde está a responsabilidade e segurança que passaram para mim quando me permitiram vir para cá? Como conseguiram falir em tão pouco tempo? Por que eu tenho de pagar pelos erros deles?
Senti uma lágrima percorrer meu rosto e esquentar por onde passou. Limpei meu rosto e continuei andando, encolhendo meu corpo cada vez que sinto uma nova brisa bater contra mim. Se Gabriel estivesse aqui, daria um jeito de nos tirar daqui rapidamente. Mesmo que ele tenha as mesmas atitudes que as minhas, sua linha de raciocínio é muito mais rápida, fazendo com que ele tenha soluções muito mais rápido do que eu. Conseguiria pensar, mesmo com as emoções abaladas, como sair deste lugar e voltar para meu dormitório. Um dos fatores que mais gosto no nosso relacionamento, é que não preciso fingir que sou forte perto dele, porque ele sempre quis me proteger. Gabriel cresceu com a decisão de que faria a pessoa com quem iria se casar feliz durante toda a vida, ao contrário de seus pais. Mesmo que não seja bom em demonstrar afeição ou carinho, sempre consegui enxergar em suas ações, a intenção em me deixar confortável ao seu lado. Agora que estou sozinha e abalada, queria que ele estivesse aqui para que eu não precisasse ser forte.
Assim que cheguei à primeira portaria de muitas, vi o guarda me olhar com surpresa. Abriu a porta da cabine ao me ver.
- Está perdida? – perguntou.
- Não, estou saindo da festa da mansão de , mas não tenho carona para voltar. Você sabe se há alguma empresa de táxi que venha até aqui e me leve de volta para a cidade?
O interfone tocou no momento que ele deveria me responder.
- Só um momento, por favor. – disse, levantando seu dedo indicador informando que retornaria. Espero que possa me ajudar, não quero andar mais vinte minutos ou meia hora até a próxima portaria. Além do mais, não sei se me lembro do caminho daqui para frente. Vi o guarda voltar em meu campo de visão e se dirigir a mim: - Seu nome, por gentileza?
- É . – falei. Dessa vez, ele não se preocupou em pedir para aguardar, voltando a falar no interfone. Será que era de outra portaria? Será que ele já estava se adiantando para me ajudar? Esperei ansiosa por seu retorno e assim que o vi novamente, um fio de esperança surgiu dentro de mim. – Senhorita, estou proibido de permitir a sua saída. Você deve voltar para a mansão.
- O quê? Você está brincando, não é?
- Não estou. Acabei de receber o recado de que você está devendo uma quantia para o senhor Elgort e deverá retornar para quitar a dívida.
Não. Posso. Acreditar.
Soltei uma risada e passei a mão no cabelo.
- Foi ele quem falou isso? – apontei para dentro, onde provavelmente estava o interfone. O guarda não me respondeu. – Quem quer que seja, está mentindo. Não estou devendo nada para ninguém. O dono da festa me jogou na piscina! – abri os braços para mostrar meu estado, mas ele não pareceu se importar com minha situação. – Você só pode estar brincando.
- Já disse que não estou senhorita. Você deve retornar para a mansão.
- Você sabe que posso processar você por me manter em cativeiro, não é? – olhei para o guarda, que arregalou os olhos. – Sei de cor todas as leis de denúncia, estudo direito na Harvard. Proibir minha saída sem provas significa que você está me sequestrando indiretamente.
Sei que consegui assustá-lo, pois finalmente considerou me deixar sair. Entrou na cabine e retornou depois de alguns minutos.
- Senhor pediu que esperasse aqui.
- Mas que... – fechei meus olhos. Assim que os abri, li o nome do guarda na placa de identificação grudada em seu uniforme. – Álvares Perez. Tudo bem. Não tem problema, já gravei seu nome. Turno noturno. Vou aguardar o , sim. Ali atrás. Enquanto isso, penso nos argumentos que usarei contra você. É bom que tenha um advogado que tenha decorado todas as leis direcionadas a sequestro, porque irei fazer questão de usar todas elas.
Dei-lhe as costas sem esperar resposta e fui até a parte de trás da cabine, onde ele não conseguiria ver que fui para o lado oposto do caminho em direção à mansão do sócio de . Não quero ter de vê-lo novamente.
Andei até encontrar um parque infantil vazio devido ao horário e me sentei em uma das balanças que ficava escondida entre algumas árvores. O lugar seria muito mais sombrio se eu não estivesse tão nervosa. Nervosa comigo. Nervosa com meus pais. Nervosa com Kendra e com . Nervosa com a vida, por me testar dessa maneira, quando fiz tudo certo até agora. Olhei para o chão pensando como poderia sair daqui; minha razão, a parte que me ajuda durante as aulas práticas da faculdade me deu um tapa na cara ao me fazer entender que eu não conseguiria sair sem a ajuda de . O guarda que ameacei não iria me ajudar, principalmente depois de tudo o que disse. Sabe-se lá quando Kendra sairia com seus amigos da festa e meu celular estava sem sinal. Como sempre, minha razão está certa e eu, errada. Não posso deixar meu orgulho me domar assim; eu não sou assim. Sou uma garota centrada, com um foco. Costumo chegar onde eu quero com ética, assim fui educada.
Deixei meus ombros caírem, me lembrando do frio assim que um vento mais forte bateu contra minha roupa ainda úmida. Só um milagre irá me fazer acordar saudável amanhã, mesmo assim, não vejo a hora do amanhã chegar. Olhei para trás e quase caí do balanço ao ver parado atrás de mim calado e com seus braços cruzados.
- Eu pedi que você ficasse na portaria.
- Por isso mesmo que saí de lá.
É isso. Seu jeito rude desperta meu lado grosseiro. Eu não preciso tanto assim da ajuda dele. Consegui sair de problemas piores, como da vista e do controle de meus pais. Posso lidar com ele, um cara desconhecido que não fui com a cara, mesmo achando seus olhos hipnotizantes. O problema deles, não era como todas as garotas sempre disseram que enxergam coisas bonitas ou uma parte dele que ele não quer mostrar. Os olhos de não me lembram nada dele, apenas me faz perder dentro de mim. Um lugar dentro de mim que não tenho preocupações, responsabilidades ou medos. Um breu bom.
Infelizmente, a escuridão não colaborou com seus olhos, mas o formato de suas pálpebras me mostrou que ele estava bastante nervoso. Não se moveu um centímetro depois que joguei minha resposta; ficou me encarando, sério, como se não acreditasse que o respondi dessa maneira.
- Eu não vou voltar para sua mansãozinha. – falei, voltando a dar-lhe as costas, olhando para as árvores que formavam uma sombra escura no meio da noite. Se estivesse em uma situação normal, estaria morrendo de medo, imaginando que tipo de monstro poderia sair de lá; contudo, um monstro pior estava atrás de mim.
- Imaginei que não voltasse. – falou. – Por sorte, entendo sua linha de raciocínio o suficiente para saber que você faria o caminho oposto da mansão e viria até um parque infantil para se esconder.
Seu tom de voz era irônico, como se estivesse rindo de mim por estar sentada em um balanço que somente crianças até 12 anos sentariam. De alguma maneira, esse comentário não me atingiu do modo que esperava e não lhe dirigi uma resposta. Lembrei do que meu pai disse durante uma reunião com uma cliente que havia entrado com um pedido de divórcio e não queria falar a verdadeira razão do pedido: deixe-o falar até perceber que está errado.
- Uma pessoa na sua posição não deveria tratar assim a única pessoa que pode ajudar a sair daqui e voltar para sua universidade de ricos.
- Eu poderia tratar melhor, se a pessoa não fosse você. – ouvi sua risada.
- Você é mesmo bem esquisita.
- Tanto quanto sou “mesquinha”.
Ficamos calados por um tempo. Infelizmente, tenho um problema de que quando estou impaciente, meu corpo fica irrequieto, atrapalhando minha vontade em me manter séria. Me levantei e me virei para ele, cruzando meus braços mais por vontade de me proteger do frio do que para parecer forte.
- Você vai me deixar chamar um táxi e parar de mandar seus porteiros me trancarem dentro desse condomínio ou o quê?
- Perez está com medo de que você vá processá-lo de verdade. – ele parecia se divertir com a situação do porteiro, algo que me deixou ainda mais aborrecida, já que o porteiro não estava nada calmo, pensando como faria para sair da situação que um morador o colocou. – Entre no carro, preciso ir até a cidade para retocar os energéticos e as cervejas. – deu-me as costas e caminhou em direção a uma Range Rover. Pensei em recusar, mas estou cansada demais e pode ser minha única oportunidade de chegar à cidade.
O carro, ao contrário do que imaginei, não cheirava a cigarro, droga, suor ou qualquer odor que não fosse bem-vindo às narinas de uma garota. O cheiro de lavanda de um material grudado em uma das grelhas do ar condicionado impregnava e dava a sensação de que o carro nunca esteve sujo; os bancos de couro claro pareciam novos e não estavam grudentos por alguma bebida que poderia ter caído ali por alguma das garotas que estava o rodeando na piscina. Além disso, não havia roupas ou pedaços de papel ou plásticos espalhados, algo que vemos com frequência em carros de homens, tampouco um penduricalho que as pessoas costumam colocar no retrovisor central. O som tocava músicas pop e eletrônicas da atualidade e o ar quente amoleceu meu corpo gélido assim que fechei a porta. Coloquei meu cinto calada e não ousei olhar para seu lado, onde somente acelerou o carro que deixou ligado enquanto foi me convencer a aceitar sua carona.
Deu a volta no condomínio dentro da velocidade permitida; não parecendo ter pressa de se livrar de mim ou de voltar logo para sua algazarra. Me pergunto o que ele faz para ter tanto dinheiro ou o que seu sócio fazia para permitir que ele organizasse eventos tão exagerados assim. Álvares Perez abriu o portão automático assim que reconheceu o carro de e olhou para mim com receio.
- Ela disse que não irá te processar, Perez. Está na TPM.
- O quê? - desencostei do meu banco, vendo o porteiro agradecer e acelerar em direção ao próximo portão que levaria a condomínios menos luxuosos. – Eu não estou na TPM!
- Não desconte sua raiva nele, “mesquinha”. – riu, dirigindo somente com sua mão direita enquanto a esquerda ficava apoiada na janela que não fechou depois de saído do condomínio onde estava sua mansão. – Além disso, ele estava desesperado com a ideia de ser processado. Acabou de conseguir seu visto para permanecer nos Estados Unidos.
- Deveria pensar no visto dele antes de me negar uma saída. – resmunguei, ouvindo mais uma vez sua risada. Meus olhos doíam cada vez que um carro passava por nós; por terem acostumado com a escuridão, receber a luz noturna da lanterna do carro era como acordar de manhã e as cortinas estarem abertas. – E agora você é o herói dele. – resmunguei mais uma vez, mas mais baixo, como se não tivesse a intenção de fazê-lo ouvir, mesmo querendo que ele ouvisse. Dessa vez não houve risada nenhuma de reação, me deixando na dúvida se ele ouviu ou não o que disse.
, ao contrário do motorista da picape que nos trouxe para a festa, não dirigia loucamente, como se estivesse louco para chegar logo ao destino final. Respeitava as placas de velocidade e quando passava por uma lombada, só faltava parar e colocar o carro no ponto morto. Contudo, sua velocidade era compreensível, já que pude perceber dezenas de crianças brincando nas ruas que devem ser seguras para elas, uma vez que seus pais devem pagar uma fortuna com os aluguéis dos lotes. Bolas quicam em frente ao carro de repente, fazendo crianças gritarem para parar, ação que ele faz sem reclamar. Ele obedece crianças, mas me trata com ironia, grande.
O tempo que ele levou para sair do condomínio completo foi o dobro que levei para entrar com o motorista da picape. Com a velocidade de até 40km/h e o fato de agora estar sentada na janela, pude prestar mais atenção no condomínio que mais parecia uma cidade. Carros de autoescola andavam dentro da velocidade permitida com alunos na direção e instrutores no banco passageiro; madames indo com seus carros de luxos até uma galeria que mostrava ter lojas de todos os tipos para os moradores e restaurantes lotados. Antes de sairmos da terceira portaria, pude ver posto de gasolina e posto de saúde privada; pistas de kart e paintball. Mal posso imaginar quanto é por mês para viver ali confortavelmente.
Uma vez na rodovia, não pensou duas vezes em pisar no acelerador. A velocidade que antes estava dentro dos conformes e não passava dos 40km/h, agora podia ver no velocímetro o ponteiro chegar a 160, 170km/h. Nunca fui fã de velocidade, por isso, aproveitando o ar quente vindo em minha direção e secando minha roupa, fechei meus olhos e sem perceber, acabei adormecendo.

Meus olhos se abriram o que parecia ter sido 10 minutos depois; contudo, ao olhar para o lado, vi o prédio dos dormitórios de Harvard. Limpei meus olhos, ignorando parte da maquiagem ficando nos meus dedos e olhei para o lado, onde lia algo em seu celular.
- Por que não me acordou? – perguntei, retirando o cinto e começando a arrumar o cabelo.
- Porque não quis. – respondeu, virando seu rosto para mim, encontrando seus olhos nos meus. Desviei antes que pudesse me perder novamente e saí e tirei do bolso traseiro da minha jeans, meus documentos embrulhados em um envelope de plástico transparente que costumo levar comigo. De dentro, retirei uma nota de cinquenta dólares e depositei no painel do carro. – Obrigada pela carona.
- Não precisa pagar. – empurrou a nota em minha direção, mas não aceitei. Abri a porta do carro e, antes de sair, disse de costas para ele.
- Eu não gosto de dever nada para ninguém.
Sem olhar para trás, fechei a porta e me afastei do carro confortável de . Cruzei meus braços ao sentir o vento gelado da noite bater no meu corpo quente; apressei meus passos e tentei não pensar nos olhos me encarando afastar. Por um milésimo de segundo, desejei que ele me parasse, então descartei essa hipótese, me achando uma completa idiota.

O dia seguinte, um sábado, estava ensolarado. Mesmo eu chegando à meia-noite no dormitório e só dormindo à uma da madrugada, meus olhos automaticamente abriram quando o relógio bateu às 7 da manhã. Olhei para a cama de Kendra ao lado da minha e ela estava vazia. Claro. Deve estar na mansão se divertindo entre as drogas, a orgia e o álcool. Balancei minha cabeça, me surpreendendo ao não sentir febre, indisposição ou cansaço. Sentei na cama e mexi em meus cabelos, deveria aproveitar o dia livre para sair à procura de um emprego, mas não estou com vontade de ir. Na verdade, não quero seguir as regras de minha mãe, mas como Gabriel concordou que era uma boa alternativa, automaticamente considerei fazer o que ela mandou. Fui até a mesa de minha escrivaninha e abri o Skype, esperando ver Gabriel online, mas era óbvio que ele não estava. Aos sábados, ele trabalhava em uma fábrica, como se fosse um estágio de sua profissão. Só ficava disponível para conversar comigo de madrugada, quando voltava para dormir.
Olhei para nossa foto em meu mural e senti a saudade tomar conta do meu corpo. Sinto falta de ter um par de braços me rodeando em proteção; lábios para tocar os meus e a sensação de tranquilidade com relação ao meu futuro. Desde quando decidi prestar Harvard, soube que se Gabriel estivesse de acordo com meus planos, eu iria me formar aqui, retornaria para o Brasil para prestar a OAB, passaria sem ser reprovada e então começaria a atuar na área, finalmente ganhando meu próprio dinheiro para me mudar para um lugar meu e de Gabriel. Ele já estava juntando o dinheiro e dividia um quarto em uma república para não precisar ter gastos abusivos. Agora que meus pais gastaram todo o dinheiro que havia em minha conta, parece que meus planos estão mais longe de se concluírem. Não sei se conseguirei me formar, não sei como farei se tiver de voltar para o Brasil sem um diploma e não poderei casar antes dos 27 como esperava.
Meus pais arruinaram minha vida.
Olhei para o jornal jogado ao lado de meu notebook e meu corpo se levantou, pronto para receber roupas decentes para procurar um trabalho de meio período. Vesti uma jeans escura com uma camisa pólo branca. Vesti um sapatênis branco confortável, pois sei que terei de andar muito. Em seguida, prendi meu cabelo em um rabo alto e passei o protetor solar ao ver o sol quente do lado de fora.
O campus estava vazio, as aulas começaram há apenas pouco mais de um mês, por isso, é normal que muitos alunos faltem no início ou aproveite a pouca quantidade de trabalhos para sair para festas. Encontrei com Kendra e um grupo de amigos assim que coloquei os pés para fora do campus e eles pareciam totalmente acabados. Kendra deu um berro ao me ver e apontou seu dedo longo para mim, fazendo as pessoas rirem.
- Você me deixou lá sozinha, sua “mesquinha”. – seu tom estava embargado e as pessoas riam exageradamente ao seu lado. – Você deveria ter se divertido. – suas mãos apoiaram em meus ombros e ao tentar andar, seus passos cruzados a fizeram quase cair em cima de mim. – Ops. – voltou a rir.
Olhei para as pessoas ao seu redor e nenhuma parecia disposta em ajuda-la a chegar até o nosso dormitório, por isso, resolvi voltar apenas para garantir que ela não faria algo que pudesse chamar a atenção dos inspetores e trazê-los até nosso quarto, principalmente com o número de garrafas de álcool que havia no armário de Kendra; não estou afim de ser acusada de cúmplice. Ignorei as pessoas amigas de Kendra ao redor rindo e passei um braço seu por meus ombros, auxiliando-a subir as escadas, algo que demorou três vezes mais que o normal. Me senti sortuda do campus estar vazio.
Ajudei Kendra a se despir e a levei até o banheiro feminino, que tinha somente duas garotas escovando os dentes com olheiras no rosto, provavelmente resultado de uma festa que foi até mais tarde ontem. Talvez elas sequer tenham dormido. Kendra começou a tagarelar com elas, mas as duas ignoraram e pedi desculpas quando me mandaram um olhar para controlar minha colega de quarto. Coloquei meu roupão de banho para proteger minha roupa dos respingos de águas. Mesmo bêbada, não foi muito difícil dar banho em Kendra, que depois de receber a ducha gelada no rosto, manteve-se parada, deixando que eu ensaboasse seu corpo e massageasse sua cabeça ao lavar seus cabelos que fediam álcool e cigarro.
Voltamos para o quarto, onde a coloquei em sua cama e fechei a veneziana e cortinas para deixa-la dormir melhor. Enquanto tirava o meu roupão para pendurá-lo em frente à porta, para receber o vento e secar mais rápido, ouvi Kendra me chamar:
- Yoooo... – sua voz estava tão difícil de entender do que antes. – , o líder, lembra? Você tem que lembrar, ele é um exemplo do que nos aguarda lá no paraíso – deu uma risada que mais parecia um resmungo e continuou a falar: -, ele te mandou uma mensagem. – tocou em sua bunda, mas não conseguiu encontrar nada. – Está no bolso da minha calça... hic. – em seguida, deixou sua cabeça cair no travesseiro, derrotada pela embriagues.
Olhei em direção à pilha de roupas que havia em um canto do quarto; passei longos minutos em uma batalha entre ignorar e sair do quarto para procurar um trabalho e acabar com minha curiosidade em saber por que ele insistia em manter contato. Achei que depois de ontem, nunca mais o veria. Mordi o canto de meu lábio inferior, sentindo o local arder ao perceber que puxei pele demais e acabei me machucando. Suspirei, desistindo de resistir e indo até a calça de Kendra, tateando o bolso traseiro da jeans até achar um pedaço de papel dobrado e amassado.
”Venha até o estúdio antes do almoço.”
Era isso. Isso? Não era um pedido de desculpas ou arrependimento por ter me tratado ridiculamente ontem? Amassei o papel e taquei-o no lixo com raiva. Peguei minha bolsa e saí do quarto depois de me rearrumar. Enquanto saía do campus, milhares de dúvidas surgiam em minha cabeça. O que ele poderia querer comigo para me chamar até o estúdio? Será que ele queria me cobrar algo que devo ter estragado? Eu paguei a gasolina de ontem, mesmo ele tendo de vir para a cidade de qualquer maneira. E desde quando ele sabia que Kendra chegaria no dormitório antes do meio dia? Olho em meu relógio, que marcavam 10:00. Se eu me recordo bem, até chegar no estúdio, demoraria cerca de uma hora pegando o metrô e então o ônibus até o ponto perto da rua, mais alguns dez minutos de caminhada. Por que eu deveria gastar uma hora para ir e uma hora para voltar somente para satisfazer um pedido dele? Porque estou curiosa, óbvio.
Desço as escadas do metrô tentando me decidir se vou ou não até o estúdio. Se eu não for, ele fará algo ou irá fingir que nada aconteceu e não me procurará mais? Será que ele mandará Kendra me convencer de ir a algum lugar como ontem? Ou ainda tem planos de se vingar de mim por chama-lo de idiota? Olho para as placas que apontavam onde cada lado da bifurcação à minha frente levava. Centro, procurar emprego ou leste, no estúdio?
Deixei meus ombros caírem ao sentir a curiosidade, mais uma vez, tomar conta de toda a situação, e de minha vida. Apertei a alça de minha bolsa no ombro e virei em direção à placa que indicava o lado que me levaria até o estúdio.

Capítulo 3

Conforme calculado, cheguei à frente do estúdio às 11:13 da manhã. Claro que estava adiantada. Desde que ele almoce como uma pessoa normal ao meio-dia, eu estava praticamente 45 minutos adiantada, o que me dá tempo para me perguntar mais uma vez se quero realmente fazer isso. Quero encontrar ?
Olho para os lados e a rua estava bem mais cheia do que da última vez que vim, na sexta. Talvez fosse o fato de ser sábado e as pessoas saírem cedo para fazerem as compras necessárias para o mês ou semana; reconheci que o bairro é bastante comercial, com lojas e mercados diversos, além de restaurantes e lanchonetes. Morar nos andares acima das lojas, para estudantes era um privilégio, com tanta coisa ao redor.
Balanço a cabeça a fim de parar de me distrair com minhas próprias observações e aproximo minha bolsa mais perto de meu corpo, como se aquilo fosse a razão de me segurar ali na calçada. Imitei a ação que Kendra fez na quinta-feira quando vim aqui pela primeira vez e toquei a campainha. Ouvi a mesma voz perguntar “quem é?” e eu responder somente um “”. A porta demorou a ser aberta, mas ouvi o ‘clank’ indicando que ela havia sido destravada. Empurrei a porta pesada de metal e vidro, fechando-a atrás de mim. De costume, olhei para o elevador, mas ele continuava com uma faixa amarela escrito “interditado” em toda sua extensão. Vi um homem negro e alto, forte o bastante para me quebrar em quatro sair por uma das portas que havia em conexão com o hall.
- pediu para você ir até o primeiro andar. Última porta à direita. – apontou para as escadas. Agradeci em voz baixa, ainda intimidada por seu tamanho e a expressão pouco amigável que dirigia a mim. Em passos apressados, fiz o caminho indicado por ele, tentando ao máximo não olhar para trás para verificar se ele me seguia.
Ao chegar no primeiro andar, ousei dar uma bisbilhotada e vi que ele já não estava mais no hall, provavelmente voltando a seu posto de porteiro e segurança. Suspirei, mais aliviada e olhei para o corredor que era idêntico ao corredor do quarto andar, onde ocorriam os treinos de dança. Andei em passos lentos e olhei em meu relógio mais uma vez, vendo que marcavam 11:24. Quanto tempo fiquei no lado de fora tentando me decidir se entrava ou não? A última porta à direita do corredor estava aberta porque não havia porta para fechá-la. Uma música da Jennifer Lopes tocava ao fundo; coloquei uma cabeça para espiar e vi sentado em uma cadeira de couro de rodas imensa atrás de uma imensa mesa de carvalho escuro polido, provavelmente fino demais para o prédio abandonado. Ao lado, uma TV de plasma estava instalada na parede, onde um clipe de Jennifer Lopes tocava alto. Hoje ele não estava com regata ou camiseta; estava vestido normal, com uma pólo azul marinho. Vi seus olhos me encararem quando dei duas batidas no batente da porta. Perdemos cinco segundos nos encarando até pegar o controle da TV e apontar em direção a ela, colocando o som no mundo.
- Sente. – apontou para a cadeira de couro à sua frente.
- Antes – disse, entrando na sala, mas não o obedecendo. Minha ação o fez voltar a olhar para mim antes de dar atenção por completo em seu trabalho. -, quero saber se você irá demorar, pois tenho compromisso.
- Que tipo de compromisso?
- Do tipo que você não precisa saber.
Vi um sorriso se formar em seus lábios e ele encostar na cadeira, que deve ser nova, pois não soltou ruído algum quando ele se mexeu em cima dela.
- Você não deveria falar assim com seu futuro chefe, “mesquinha”.
Não pude evitar demonstrar surpresa com sua afirmação, vendo-o soltar uma risada nasalada, provavelmente se divertindo ao me ver, pela primeira vez, sem saber o que responder. Minha cabeça processava a mensagem: Chefe?
- Eu disse para se sentar. – sua voz não soou grosseira, mesmo a sentença parecer prepotente. Sem dizer mais nada, me sentei na cadeira indicada e continuei calada esperando ele se explicar: - Kendra disse que você está em uma situação ruim e que precisa de dinheiro urgente para pagar sua faculdade de ricos. – o vi esperar alguma reação, mas não o retruquei por dizer uma verdade. – Imagino que o valor da universidade inclui o quarto que você dorme?
- Não. Tenho desconto no valor do dormitório por estar entre as 10 melhores do meu ano. – aquilo pareceu pegá-lo de surpresa, mas para mim não era novidade. Me esforcei todos os anos até agora para manter minha colocação entre os cinco primeiros e garantir o dormitório. Se tudo der certo, consigo subir ao menos três colocações para estar entre os três primeiros e começar a receber algum tipo de bolsa na mensalidade.
ficou me encarando como se eu fosse uma débil mental. Não me importei em parecer uma nerd. Tenho apenas uma boa memória fotográfica e leio muito para mantê-las frescas em minha mente.
- Eu preciso de alguém que me ajude a organizar este prédio. Vou transformá-lo em uma escola de dança, mas não posso fazer tudo sozinho, mesmo que eu queira. Isso significa que há determinadas coisas que alguém terá de fazer para mim.
- Achei que você tivesse dinheiro ou as pessoas que dançam aqui estivessem dispostas a ajudar.
- Eu não tenho dinheiro. Meu sócio tem, mas gastou uma boa grana neste prédio e quero dar meu próprio jeito aqui dentro. Não gosto de envolver os alunos que pagam mensalmente para entrarem aqui, por isso, estou disposto a pagar um bom valor para uma única pessoa me ajudar com tudo. Kendra disse que você é boa com organização e é meticulosa com negócios. – seus braços se apoiaram na mesa e os olhos encontraram os meus. – Minha proposta é que você trabalhe para mim; pago um valor de trabalho integral mesmo você realizando cinco ou seis horas por dia, mas irei exigir alguns finais de semana.
- Quanto é o seu valor integral?
- Cinco mil está bom para você?
- Transporte está incluso?
- Transporte à parte. Nos finais de semana que vier antes do meio-dia...
- Terá de me avisar com antecedência; gosto de usar as manhãs para estudar e preciso manter minha colocação para não perder a minha moradia. – expliquei diretamente. Aquilo não pareceu agradá-lo, mas se Kendra falou bem o suficiente de mim, ele saberia que sou bem mais responsável que ele. Provavelmente.
- Há finais de semana que você terá de vir mais cedo. E isso inclui a parte da manhã, mas avisarei com antecedência conforme você pediu. Há mais alguma coisa que eu devo saber? – sua voz foi irônica, mas não pude perder a oportunidade.
- Quero que você me chame pelo meu nome. Meus pais não me nomearam para no final, ser chamada de mesquinha.
Ouvi sua risada e vi sua cabeça balançar.
- Tudo bem, posso fazer isso. Mas serei mais exigente com seu trabalho.
Levantei meus ombros, mostrando que não me importo. Ele retirou de dentro de uma pasta, um tipo de contrato onde completou os dados de nosso acordo e o valor que combinamos de eu receber. Em seguida, me passou o papel para receber minha aprovação; não reclamei. Nunca encontraria um emprego de meio período que me pagaria cinco mil. Com isso, conseguirei pagar todo mês os gastos totais da faculdade e relacionados a ele, e poderei ainda ter um lucro de cerca de mil dólares que poderei guardar para emergências. colocou nosso contrato assinado em sua impressora, onde scaneou e então olhou para mim.
- Estamos concordados então. – finalizou a conversa e levantou uma sobrancelha ao ver que não me movi. – O que foi?
- Não devo começar de imediato? – perguntei, como se ele fosse idiota por não começar a me passar um trabalho. Desta vez, eu o peguei de surpresa, vendo sua boca abrir levemente. A fim de evitar maiores constrangimentos, retirei de dentro de minha bolsa, meu tablet, abrindo a pasta de documentos e então o arquivo com o horário de minhas aulas. – Aqui marca o calendário de todas as minhas aulas até o final do semestre, incluindo as aulas extras que tenho em alguns finais de semana do mês. Me diga seu e-mail para eu encaminhar uma cópia a você para que saiba os dias que definitivamente não poderei vir nos finais de semana ou durante a parte da tarde. Os dias que não puder vir durante a semana, pago as horas durante o final de semana. Em época de prova, costumo estudar de segunda a segunda, por isso, você pode diminuir meu salário durante a época ou passar os trabalhos que poderei fazer em remoto. – vi seus olhos percorrerem o calendário.
- Tudo bem. – pegou um post it e escreveu seu e-mail e número de telefone celular. – Preciso que o prédio esteja pronto para ser inaugurado no dia 22 de Dezembro, quando teremos nossa apresentação anual de dança com todas as salas veteranas. Será uma boa oportunidade para divulgar as aulas e convencer as pessoas que não dançam de começar as aulas.
Concordei com a cabeça, pegando o post it amarelo e grudando-o na tela de meu tablet. Devolvi o aparelho à minha bolsa, criando um alarme em meu celular para me lembrar de enviar meu calendário para ele.
- Envie junto do seu calendário, os dados de sua conta bancária para que possa realizar as transferências de seu salário. Você possui o cartão do transporte? Ótimo, irei depositar o valor todo final do mês. Me envie seu itinerário com valores para eu calcular a soma total. Você pode começar na segunda-feira. Vi que sua aula acaba às 11. Venha às 13:30.
Concordei com a cabeça, finalmente me levantando. Vi que se levantou comigo e desligou a TV com o controle que havia depositado em sua mesa há pouco. Pegou as chaves do carro que estavam ao lado do controle e desligou o computador onde estava trabalhando.
- Já almoçou? – olhou para seu relógio de pulso.
- Não, mas não estou com fome. – olhei para o horário, que marcavam 13:15. – Vou voltar para o campus e estudar. Há alguns trabalhos também que devo finalizar.
Descemos juntos as escadas até o primeiro andar e ao sair na rua, percebi que seu carro estava estacionado um pouco à frente da entrada. Percebi então que deveria me despedir dele de modo decente, diferente das outras vezes que achei que não o veria nunca mais. Vi que não sei como reagir. Esperei que ele dissesse algo, mas não aconteceu nada, então somente levantei a mão:
- Então tchau. – e o vi mexer a cabeça retribuindo meu cumprimento. Dei as costas, andando no lado oposto em direção ao ponto de ônibus. Entretanto, não me senti bem em ir embora assim. – ? – o chamei, vendo-o parar e olhar para trás durante o trajeto até seu carro. – Obrigada. – e sem mesmo esperar uma resposta, voltei a andar com a consciência mais limpa.

Durante a tarde, encontrei com Gabriel que por estar horas à frente por causa do fuso horário, estava online. Não tive coragem de dizer que estava trabalhando em um estúdio de dança, por isso, disse que arranjei um trabalho numa cozinha de uma lanchonete e que passaria menos tempo disponível para conversar com ele. De alguma maneira, ele não pareceu triste, apenas surpreso por eu ter conseguido um trabalho tão rápido.
- Teremos que controlar melhor nossas agendas e horários. – ele disse, mastigando seu jantar, já que sempre comia durante o tempo que conversávamos, já que era o único momento que ele tinha para falar comigo. – Acho que passaremos alguns dias sem nos falar.
- Também acho. – concordei. – Mas é por uma boa causa, não é? Estou mais aliviada em saber que até lá conseguirei juntar dinheiro para mais alguns meses. Não é possível que meus pais não possam pagar mais nada até o final do meu curso. – também não tive coragem de dizer que estava ganhando cinco mil mensalmente, então apenas disse que a cada dois meses conseguiria um valor pouco mais acima de uma mensalidade da faculdade.
- Eles devem se esforçar o triplo que você está se esforçando. – disse, rancoroso. – Você já os avisou?
- Ainda não. Estou evitando falar com eles, porque estou nervosa demais. Meu pai me ligou mais cedo, mas ignorei seu telefonema, mas irei atendê-lo antes da minha mãe.
Vi sua cabeça concordar comigo. Desde quando estávamos no colégio ele manteve o mesmo corte de cabelo porque eu dizia gostar. Quando entrou na faculdade e rasparam-lhe o cabelo, brigamos porque eu disse para ele não ir no trote; mas sabia que estava sendo puramente egoísta. Suspirei e o vi olhar para mim assim que ouviu meu cansaço:
- O que foi?
- Queria que você estivesse aqui. – resmunguei, apoiando a cabeça na mão. Vi um sorriso se formar nos seus lábios. – De alguma maneira, você sempre soube dizer as coisas certas no momento certo.
- Você quem acha que tudo o que digo está sempre certo. – ele se explicou e soltei uma pequena risada, murmurando um “é verdade”. De fato, é uma verdade. Gabriel tem um tom tão sereno de me consolar que mesmo que ele esteja errado e eu certa, sou capaz de admitir meu erro somente porque seu tom de voz me fez sentir que ele estava certo e eu não. – Já estudou?
- Estou estudando agora. – levantei meu livro para ele. – Pesquisei quais matérias devo melhorar para conseguir subir de colocação. Meus colegas da sala S ficarão bravos, mas preciso de mais desconto para garantir minha estadia.
- Faça isso. – Gabriel disse. – Roube o primeiro lugar do prodígio. – riu comigo. – Fui chamado para ir a uma festa hoje. Da poli.
- Festa da Poli? – levantei as sobrancelhas, lembrando bem como são as festas organizadas pela turma da faculdade dele. O problema não é ele ir, mas sim o ambiente. Mesmo que Gabriel seja fiel, não posso evitar sentir insegurança ao vê-lo a milhares de quilômetros de distância, livre para qualquer garota agarrá-lo. Em sua expressão, ele não parecia estar me pedindo uma permissão, mas sim me informando. – Achei que não gostasse dessas festas.
- Eles vão dar prêmios bons nesse, como aparelhos eletrônicos. – levantou os ombros.
- Bem, então você deve ir. – disse contra minha vontade. Não gosto de demonstrar ciúmes para Gabriel, mesmo de vez em quando não tendo sucesso no disfarce.
- Irei desligar então. – ele olhou para o lado. – Gabriel me disse que iremos sair em alguns minutos e ainda não tomei um banho.
- Tudo bem. – disse, abrindo um pequeno sorriso. – Então divirta-se. Se puder, me envie uma mensagem no Whatsapp dizendo que chegou em casa.
- Não demorarei tanto lá, você ainda estará acordada.
- Mesmo assim. – insisti. Conhecendo Gabriel e Caio, seus colegas de quarto na república, eles não deixariam Gabriel voltar para casa sozinho e sóbrio.
- Ok. Eu te amo.
- Eu também te amo. – disse, vendo-o acenar para mim e então sair do Skype. Suspirei, batendo minha cabeça na mesa. Por que eu posso ir a festas e ele não? Não é como se eu gostasse de ir às festas e sexta o caso foi diferente; eu não queria estar lá. Era pura questão do dinheiro. Mas Gabriel não tinha tanto tempo para se divertir e até hoje me sinto mal por abandoná-lo no Brasil apenas para fugir de meus pais; ele merece um momento de diversão com seus amigos, mesmo que o compromisso envolva álcool e amigos má influência.
Ouvi a porta do quarto se abrir e Kendra entrar enxugando os cabelos. Acordou há algumas horas, mas decidiu tomar um novo banho, já que a aspirina ainda não surtiu efeito e ela se sentia nauseada com o odor do cigarro impregnado em seus cabelos.
- Você já comeu? – olhou para nosso relógio de parede, que marcavam sete horas da noite. Neguei com a cabeça. – Então vamos comprar algo. – abriu o armário que dividíamos devido ao quarto ser pequeno demais para comportar mais de um; de dentro, retirou uma jaqueta de couro.
- Estou bem. – falei, voltando minha atenção para a matéria de quarta-feira. – Preciso estudar.
- E de uma vida social, anda. – senti respingos gelados dos cabelos que ela propositalmente jogou em mim, manchando um pouco minhas anotações em meu caderno. Olho feio para ela, que deu uma risada, achando divertido me importunar. – Não demoraremos mais de duas horas.
- Não acredito em você. – digo, sincera, voltando a olhar meu caderno e rapidamente lembrando em qual parágrafo havia pausado minha leitura para dispensar o pedido de Kendra.
- Você tem toda razão em não acreditar. – ela disse, se sentando ao meu lado, em sua parte da escrivaninha, onde as coisas eram jogadas sem qualquer noção de organização. Maquiagem e anotações se misturavam, os post its estavam colados nas paredes ao lado e atrás da escrivaninha, não seguindo nenhuma regra de cor. Além disso, pacotes de doces e salgadinhos abertos e fechados jaziam em cima e entre os livros e o único caderno que ela levava para as aulas desde o nosso primeiro ano. – Sabe o que eu acho? – estando dentro do meu campo de visão, pude perceber que virou seu corpo em minha direção, fazendo com que automaticamente desse atenção à ela. – Nós somos colegas de quarto e agora que eu ajudei você a arranjar um emprego e você parece mais humana, poderíamos criar um tipo de laço.
Não entendi se o que ela disse é para soar ofensivo, mas decidi considerar somente a intenção dela se tornar minha amiga. Nunca tive amigas como ela, digo, irresponsáveis, despreocupadas e sem responsabilidades. Mesmo estando em salas diferentes – eu estou na sala S, onde apenas se encontram os 10 melhores alunos do nosso ano e Kendra está na sala E, considerada mediana, já que está no meio da colocação das salas A-J -, nossas matérias são quase que as mesmas, mas a sala S e A ganham mais créditos por termos melhores notas. Minhas anotações para Kendra nos dias que saio do quarto e ela ainda está na cama servem muito mais do que os ensinos que ela mesmo retiraria de suas aulas, sozinha. Me mantenho calada, pensando no que ela havia dito. Ter uma aliada no meio de todas aquelas pessoas que claramente me odeiam não é uma má ideia, principalmente considerando o fato de que minhas visitas e meus encontros com eles serão frequentes e não possuem prazo de validade menor que dois anos e meio.
- Você quer ser minha amiga?
- Quero que nós sejamos amigas. – especificou. Entendi que não queria jogar na cara que ela gostaria de ser minha amiga, mas sim que o sentimento e a vontade deveria ser mútua. Suspirei, girando a caneta marca texto entre meus dedos, mania que tenho quando quero pensar.
- Tudo bem. Podemos tentar. – aquilo, de alguma maneira, pareceu satisfazê-la. Se levantou depois de contornar seus olhos com lápis preto e rímel e retirou um casaco qualquer meu que combinasse com a roupa que usava. Desde que cheguei da rua no início da tarde não troquei de roupa. Aceitei o casaco e fechei meu caderno de anotações da matéria de quarta no centro do meu lado da escrivaninha. Peguei minha bolsa e troquei os chinelos Havaiana por um tênis snicker.
Acompanhando Kendra pelo corredor, percebi que ela conhecia muito mais pessoas do que imaginava. Sempre ouvi dizer que os alunos das salas C para baixo eram mais amigáveis entre si do que com os alunos das salas A e B, e, principalmente, da sala S. Olhavam para nós duas como se eu estivesse no lugar errado. Por sorte, nunca dei atenção às opiniões alheias, por isso, me mantive atrás de Kendra com as mãos no bolso de meu casaco. Com o final do verão batendo à porta, a primavera transforma as noites abafadas em mais refrescantes, nos deixando mais confortáveis ao colocarmos um casaco para nos proteger dos ventos que passam por nós.
Ao sairmos do campus, viramos à esquerda e caminhamos alguns quarteirões até chegarmos a uma praça onde vários carros estavam estacionados com dezenas de pessoas ao redor.
Como se fosse um ponto de encontro.
- Kendra. Não há lojas de conveniência para esse lado. – falei, vendo-a olhar para mim com um sorriso enquanto caminhava. Assim que vi seu olhar cruzar com o meu, pude entender que sua intenção nunca foi conversar comigo em uma forma de criar um laço de amizade; talvez a intenção da amizade seja verdade, mas não seria essa noite que trocaríamos intimidades e segredos como as amigas de verdade fazem.
De acordo com que nos aproximávamos dos carros, pude perceber que alguns deles possuíam imensas caixas de som em seus porta-malas, tocando uma música alta de modo a atrapalhar os residentes locais. Por ali ainda haviam algumas repúblicas para os estudantes que não podiam pagar o valor dos dormitórios ou que não encontravam vagas a tempo. Mesmo assim, o número de pessoas era tão densa que não havia ninguém que ousasse se aproximar para manda-los diminuir o volume; além disso, hoje é sábado. Pouco mais à frente, vi o grupo de rodeado por pessoas do estúdio de dança. Olhei para as costas de Kendra, esperando que ela dissesse algo, mas tudo o que fez foi rapidamente se atracar com seu ‘peguete’ assim que chegou ao grupo. , para variar, estava rodeado de garotas e álcool. Sua roupa voltou a ser aquela que o conheci, uma regata preta com uma jeans escura. Estava encostado em uma SUV imensa, diferente do carro que usou para me dar carona ontem. Seus olhos se encontraram com os meus no momento que eu parei de andar, me mantendo um pouco afastada do grupo.
Senti o peso de um braço pousar em meus ombros. Olhei para o lado e um homem negro com um sorriso enorme que mostrava perfeitamente seus dentes brancos e retos ria.
- Então você é a nossa nova mascote?
- Não sou um animal, não biologicamente falando, já que...
- Wow! Wow! Calma aí, nerd! – se afastou de mim entre risos. – Bem que disseram que você não consegue ter uma conversa normal com um aluno da S. – seu comentário trouxe muitas risadas das pessoas ao nosso redor. Me pergunto se devo me sentir ofendida ou não. – Meu nome é Ace. Nome mesmo, não apelido. – explicou. – Você acha que consegue responder perguntas ou conversar sem citar nomes difíceis ou palavras científicas? Pode não parecer, mas não gosto de me sentir burro em frente às pessoas.
- Posso tentar. – falei, vendo-o levantar uma sobrancelha, como se dissesse que esperava mais de mim. – Hum... Tudo bem? – disse, incerta se minha resposta o satisfaria. Pelos dentes brancos aparecendo em seu sorriso, parece que acertei. – Eu sou...
- , to ligado. – Ace disse. – A guria que estressou . – se abaixou bastante por ser muito alto e espichado. – Qual o segredo? – olhei para ele e vi seus olhos castanhos serem muito mais escuros que os que normalmente vejo. Ace tem uma pele bastante lisa, como a maioria dos negros que conheci. Sua expressão é inocente, como uma pessoa que não tivesse pudores e sim valores. Imagino que tenha achado que não entendi sua pergunta, já que veio explicar: - não costuma se estressar com facilidade, principalmente com brancas bonitas como você.
- Acredito que...
- Acho que. - ele me corrigiu com um olhar de alerta, como se fosse meu professor e estivesse me ensinando a falar da maneira correta, neste caso, desensinando minha educação.
- Acho que... – me corrigi, vendo seu olhar de aprovação. – Não devo dizer.
- Isso é egoísmo! – apontou para mim em meio a uma risada alta. - Todo mundo está curioso para saber o que você fez para deixa-lo tão estressado. As garotas querem descobrir o segredo do sucesso. – enviou uma piscadela. Não sabia o que responder, mas ele não pareceu se aborrecer por isso. Levantou os ombros e voltou a apoiar seu braço comprido em meus ombros, me levando para mais perto do grupo de . – Vou lhe apresentar nosso grupo. Ele é, na maioria, composto por professores do estúdio. Eu dou aulas na parte da tarde. Você sabia que estudo aqui também? – apontou para trás, onde o campus de Harvard se localizava. Levantei minhas sobrancelhas, surpresa. – Você poderia fingir saber; alunos do S geralmente não tem sensibilidade com os sentimentos mesmo. – balançou a cabeça fingindo um pesar e logo que murmurei um ‘desculpe’, o sorriso voltou a seus lábios. – Estou na mesma sala de Kendra, na E. Na verdade, eu quem a apresentei ao grupo. – informou com um tom de orgulho em sua voz. – Aquele ali que você acha ser o namorado de Kendra é Hans. Ele veio da Alemanha e dança melhor do que aparenta. Dá aulas só aos finais de semana. – apontou para o homem que não desgrudou os lábios da extensão do corpo de Kendra desde quando chegamos. – Aquele outro ali, o Bob, é da J. – se referiu à sala. Bob não me parecia ser um aluno aplicado. Com seus cabelos compridos, usava o mesmo tipo de roupa de , só que o número de tatuagens nos braços fazia parecer que estava com uma blusa. Imagino qual a opinião dos nossos professores e juízes ao vê-lo parte da pele do braço durante nossas aulas práticas. – O pai dele é advogado e exigiu um diploma de Harvard, então para receber uma grana boa todo mês da família, ele se mantém na universidade. Desde que esteja dentro, está tudo bem. – seu dedo pulou ao lado de Bob e todas as garotas que os rodeavam. – Tan e Cori são os professores da parte da manhã. – apontou para um casal de asiáticos que estavam sentados no capô de um dos carros. Mesmo estando em um momento íntimo, acenaram para mim quando Ace nos apresentou. – Ali é Pietro, o italiano sabe como rebolar. Cuidado com a baba quando vê-lo se movimentar. – Ace brincou, apontando para um homem com o nariz comprido e o rosto quadriculado. A barba estava por fazer e havia uma franja caída no rosto, fazendo-o parecer um italiano legítimo. Seu corpo era enorme, de modo que poderia ser facilmente confundido com um gangster. Seu olho direito piscou, acompanhado de um sorriso malicioso. Preferi não me pronunciar. – Ele trabalha aos finais de semana com Hans. Finalmente, a Violet. De início ela pode parecer bastante brava, mas sabe como conduzir um grupo grande. – apontou para uma garota que se aproximava de nós. Usava uma calça preta larga e uma regata bege, como se aquele estilo fosse um uniforme dos dançarinos. Contudo, o salto alto dava um tom mais feminino à roupa, além das pulseiras e colar de prata que brilhava com a luz do luar. Seus cabelos estavam ondulados e eram loiros, quase brancos. Estavam ondulados e mesmo os fios estarem descoloridos, não pareciam nem um pouco ressecados ou prejudicados pela falta de pigmentação. Por um segundo, invejei as curvas densas de seu corpo. Quando sorriu ao se unir ao grupo, mostrou um objeto de conquista muito eficaz: era um sorriso bonito e misterioso.
- Podemos ir, Alec disse que está tudo pronto. – a ouvi dizer para o grupo, que aguardou uma decisão de .
- Guardem tudo, vamos partir. – ele disse, desencostando do carro. As garotas ao seu redor rapidamente entraram no carro que provavelmente pertencia a ele. Olhei para Kendra, que entrou no carro sem teto de Hans e o viu, junto com os outros professores, se espalhar para anunciar a partida de todos para algum lugar. Suspirei e me virei, pronta para fazer o caminho de volta ao campus.
- Hey, aonde você vai? – Ace me segurou pelo ombro.
- Voltar para o campus. Achei que ia jantar, por isso vim com Kendra. Preciso terminar de estudar.
- Estudar? Você está brincando? – ele pareceu achar que estava fazendo uma piada. – Não, semana que vem não haverá aula, por isso, você pode esquecendo essa história de estudar.
Sem aula? Não fiquei sabendo de tal informação. Meu olhar pareceu expressar bem minha desconfiança e confusão com o que ele havia dito. Ace riu e balançou a cabeça, como se fosse um erro eu não estar a par.
- Você é uma aluna S e não recebeu o aviso?
- Talvez os alunos da S tenham aula. – falei, de certo modo, insegura.
- Essa é a semana da feira social, lembra?
Oh. É mesmo.
A semana da feira social se resume em várias barracas com estudantes de todo o mundo vindo nos visitar para saber mais e se certificarem de que querem mesmo estudar em Harvard. Além disso, é uma das únicas épocas do ano que a administração permite a entrada de visitantes. A semana é chamada de “saco cheio” pelos alunos, já que vem depois da onda de testes iniciais que temos de iniciação das aulas. Mesmo depois de um mês iniciado as aulas, alguns alunos já se encontram entediados ou cansados dos estudos. Agora me lembro de todos estarem animados com viagens de volta para seus lares; eu ficaria estudando em meu quarto, se meus pais não tivessem estragado todos os meus planos acabando com o dinheiro reservado para meus estudos.
- Você vem conosco. – Ace disse, apontando para seu carro parado ao lado do carro de . Era uma SUV enorme também, a diferença é que a cor chamava bastante atenção e havia barras de luz neon que mudava de cor a cada 3 segundos em baixo do carro.
- Não posso. Preciso aproveitar o tempo livre para começar a...
- O que nós combinamos sobre você se enturmar? – ele colocou as mãos na cintura e somente com meus olhos, olhei ao redor, tentando me lembrar.
- Nós não...
- Eu lhe apresentei o grupo, então quer dizer que estava inserindo você nele. Agora, você precisa passar pela prova de iniciação. – girou seu corpo no mesmo lugar; talvez seja um passo de sua dança. Levantei uma sobrancelha. – Iremos para uma festa na praia. É a alguns quilômetros daqui, mas será divertido à beça. Estamos reunindo os alunos que quiserem ir conosco; onde está sua mala?
- Mala? Não, eu não vou. – dei um passo para trás e o vi rir.
- É claro que vai! Deixar de estudar por alguns dias não fará você sair da sala S, . – aquilo não me convenceu. Eu preciso, sim, estudar. Quero subir de colocação para pelo menos o terceiro lugar se quisesse ganhar uma bolsa que não pagasse somente minha moradia, mas também me desse desconto na mensalidade. Ir a festas não está dentro dos planos no momento. – Tudo bem. havia me avisado que você é barra pesada. – barra pesada? falou de mim para Ace? O que mais ele falou? Procurei por ele com os olhos, mas não o encontrei, claro. Seria impossível, vendo tantas pessoas se dirigirem para as dezenas de carros espalhados pelo local. – Escuta, isso faz parte do contrato; pode não estar explícito, mas é um senso comum que você deve interagir com as pessoas que irá trabalhar. Além disso, sua imagem no grupo não é tão legal. Se quiser que elas colaborem com você, precisa deixa-las conhece-la.
Olhei para Ace, que agora não parecia estar se divertindo. Enxerguei sua boa vontade em me ajudar, mas não devo me dar o luxo de me divertir quando minha vida está sendo puxada para um abismo. Contudo, ele tem razão em tudo o que diz: as pessoas ali não gostam de mim e se eu não me esforçar em fazê-las me aceitarem, talvez seja mais difícil durante o tempo que estiver trabalhando com todos. Olho para o lado, pensativa. Decido então, analisar o caso melhor, pensando em minha prioridade. Ganhar dinheiro para pagar os estudos. Conseguindo minha terceira colocação ou não, manter-me em Harvard dependia, principalmente, do dinheiro que eu conseguiria neste emprego. Além disso, eu nunca conseguirei encontrar algo que me ofereça cinco mil, mais benefícios. Talvez não chegue nem a encontrar algo que me ofereça metade desse valor. Deixo meus ombros caírem, me desanimando com a ideia de ter de me socializar com pessoas que não gostam de mim.
- Tudo bem. – respondo, sentindo o braço de Ace novamente em meus ombros e começando a dizer o quão divertido será e como geralmente são essas festas nas praias que eles organizam.
- Você pode ir na frente, vou chamar alguns novatos para irem no meu carro, já que nós precisamos lotá-los para mostrar a Alec que haverão bastante iniciantes preenchendo o prédio em Dezembro.
- Alec? – perguntei tarde demais, pois Ace rapidamente se virou e correu em direção às pessoas que ainda estavam fora dos carros. Suspirei e olhei para Kendra, que conversava com um grupo de garotas dentro do carro de Hans. Ele já estava sentado no banco motorista e arrumava os retrovisores, pronto para partir. Olho ao redor e grande parte das pessoas já estavam dentro dos carros, que se encontravam ligados e com as janelas abertas para que todos pudessem manter a conversa, mesmo tendo fosse entre berros. Vi o carro de Ace ser o único vazio e fui em direção a ele. Conforme havia me dito, dei a volta ao carro para entrar no banco passageiro, ao lado do motorista. Para isso, fiquei ao lado da porta do motorista do carro de . Ele estava com o vidro aberto e conversava com todas as garotas que estavam dentro de seu carro. Havia muito mais garotas do que o número permitido de passageiros, mas ninguém pareceu se importar; os outros carros também estavam superlotados e o número de reclamações era nulo.
Tentei evitar olhar para , mas não obtive sucesso, já que sua cabeça virou para mim assim que me coloquei entre a porta dele e a do carro de Ace.
- Estudou bastante, ? – sua voz parecia desgostosa em dizer meu nome. Aposto que preferia me chamar de “mesquinha”, mas de acordo com nosso contrato, ele já não poderia mais ter esse luxo.
- Você compra Kendra para ela me convencer a me trazer nos lugares? – perguntei, vendo-o soltar uma risada, mostrando seus dentes brancos. Com o escuro, não pude enxergar seus olhos , mas o braço nu parecia bem mais forte apoiado na janela do carro.
- Kendra é uma boa aluna. – ele concorda, sorrindo. – Mas você não deve culpá-la; tenho certeza de que veio por vontade própria.
- Fui enganada. – expliquei, não vendo onde estava a graça para ouvir sua risada. – Se você quiser que confie mais nas pessoas, deve parar de pedir para elas mentirem para mim.
- Você é uma aluna de Harvard, deve ter uma noção mínima de sinceridade das pessoas.
- Tem razão. – falo, vendo-o levantar uma sobrancelha. – Minha noção mínima não confia em você, um enganador idiota. – minha voz não estava de brincadeira e fiz questão de demonstrar, vendo-o diminuir o sorriso. Ace chegou com mais alguns garotos e garotas, que não pareceram se importar em terem de se espremer no banco de trás, contanto que tivessem carona de graça para a festa. Vi retirar o cinto para sair do carro, mas Ace não percebeu nossa “conversa” como as garotas do carro que se calaram para prestar atenção ao verem a ação de e falou para eu entrar no carro. Coloquei um pequeno sorriso de vitória no rosto e entrei no banco passageiro do carro de Ace, ainda sentindo o olhar de em mim. – Posso fechar a janela? – pergunto para Ace, que diz não se importar. Satisfeita, quebro o contato com , aliviada por não estar mais em seu campo de visão.
- Então, deixe-me apresentar vocês. – Ace disse depois de colocado o cinto. Virou seu corpo em nossa direção e apontou para mim. – Esta é , ela está responsável por cuidar de toda a burocracia do prédio. Está na sala S, então não mexam com ela. – olhei para ele, surpresa com a intimidade que ele já havia adquirido. – Estes são Emily, Elton, Garrett, Kurt e Blanda. Eles ainda não fizeram a matrícula no estúdio, então temos quarenta minutos até a primeira parada para convencê-los, . Dê o seu melhor.
- Acredito que minhas palavras não serão muito incentivadoras. – olhei para Ace, que deu risada.
- Tem razão. Mantenha-se calada. – abri um pequeno sorriso ao vê-lo ser tão simpático comigo. Ouvi a primeira buzina vinda do carro de e então todos os outros carros se uniram, formando uma sinfonia que ouvindo de dentro do carro, não parecia tão irritante quanto se estivesse no dormitório tentando estudar. Ace, junto com a buzina ritmada que tentava fazer, berrava e balançava a mão para fora da janela. Seguiu o carro de assim que ele se moveu, nos levando para longe da praça e passando por Harvard, onde vários estudantes observavam a algazarra. Pelo retrovisor do carro, pude ver alguns correndo e pulando para dentro das caminhonetes que possuíam a caixa traseira aberta.
- Ace, quem é Alec? – me lembrei de minha dúvida antes de ser deixada por ele há pouco.
- Alec? É o sócio de . – ele disse enquanto dirigia. Os novatos, talvez por estarem animados demais com toda a animação e agitação vinda dos outros carros não prestaram atenção na conversa que iniciei com Ace. – Ele passa grande parte do tempo fora do país com seus negócios.
- Que negócios? – pergunto.
- Você não vai querer saber, aluna S. – ouvi sua risada e, pelo tom de voz, preferi não insistir. – Alec e são melhores amigos desde pequenos, junto com Violet, sabe? – aponta para trás para um dos carros que nos seguia na fila indiana. – Os três eram da mesma escola; e Violet entraram para a dança e Alec iniciou seu negócio. Mas ele parece querer algo novo, por isso, falou para que estaria disposto a investir no estúdio de dança, já que estava reconhecido o suficiente na cidade e redondezas para exigir um espaço maior para as aulas. Comprou o prédio, mas tivemos umas complicações há um ano e não pudemos reforma-lo de imediato.
- Vocês estão há um ano lá? – me surpreendi, pois o prédio parecia ter acabado de ser aberto e não ouvi movimentações nos outros andares.
- É. – ele concordou, com sua careca brilhando pela luz da lua. - não quis dar um passo maior do que podia. Alec é muito seletivo com seus investimentos e mesmo sendo melhores amigos de infância, não deu muita grana para a reforma. Assim, ele só conseguiu reformar o quarto andar e criar uma planta com uma agência de arquitetura. Estivemos nos unindo no último ano para juntar uma grana para a reforma. Agora que conseguimos, ele estava em falta com a mão de obra, e é aí que você entrou.
- Ele disse que não precisaria colocar a mão na massa. – falei, me lembrando da conversa que tivemos mais cedo.
- Sim, mas você quem irá organizar parte desses afazeres. Mesmo que seja responsável e tudo mais, ele ainda é péssimo com organização. Quando Kendra mostrou seu armário e sua mesa de estudos, todos concordamos que você seria perfeita para ajuda-lo.
- Kendra mostrou o quê? – meus olhos se arregalaram ao ouvir que minha vida estava sendo exposta para eles antes mesmo de os conhecerem. Ace riu, como se fosse normal acontecer esse tipo de coisa. – Ela está passando dos limites.
- Ela apenas estava tentando te ajudar. – Ace explicou. Olhei para ele, como se ele estivesse querendo brincar comigo. – É verdade! – riu. – Como você sabe, ninguém foi muito com a sua cara, como você acha que seria contratada com 100% das pessoas não querendo sua presença aqui? Kendra disse que você precisava da grana, então arranjou provas de que você daria conta do recado quando pediu. Admito ter gostado de você a partir do momento que vi sua gaveta de calcinhas organizadas por cor e suas tonalidades. Sempre quis fazer isso com meus sambas-canções.
Senti minhas bochechas corarem. Até a gaveta de roupas íntimas. Foi o que consegui pensar. Kendra estava encrencada. Mesmo me ajudando, ela estava encrencada. Não irei mais criar caderno de estudos para ela no final do semestre. Irei criar um lembrete para mim.
Olhei para fora do carro e vi que já estávamos na estrada. A algazarra parecia estar mais baixa, mesmo com os carros brincando entre si, ultrapassando e fechando os outros. Alguns, como Ace, fechavam o retrovisor dos carros e acelerava para fugir de uma vingança. Assim foi até os carros entrarem no estacionamento de uma rede de supermercados.
- Muito bem, cada carro está responsável por comprar uma determinada quantia de bebidas. Nós demos sorte, ficamos com os energéticos. Cada um deve dar 150 dólares.
- Só nosso carro irá gastar 1050 dólares de energético? – arregalei meus olhos, vendo os cinco no banco de trás abrirem suas carteiras sem questionar Ace, que riu.
- Gata, veja quantos carros estão nos acompanhando. E somos somente uma parcela da festa. Há milhares de pessoas comprando muito mais que mil dólares em energético e outras bebidas, mas estou com os novatos menores de idade, por isso, vocês consumirão menos do que os outros, porque não quero passar a noite em hospitais acompanhando criança com coma alcoólico. – olhou para os cinco, recebendo suas notas que somavam a quantia solicitada. Os cinco murmuraram respostas, mas não ouvi nada. Eles provavelmente iriam ignorar as regras de Ace assim que saíssem do carro na praia. – Vamos , me dê sua parte. – estendeu a mão em minha direção.
Ter meu apelido pronunciado pela primeira vez desde quando cheguei nos Estados Unidos há dois anos e meio me fez sentir obrigada a colaborar. De alguma maneira, me senti um pouco melhor em ter alguém que estivesse confortável ao meu lado a ponto de me chamar pelo meu apelido. De dentro da minha bolsa, retirei minha carteira e dei três notas de cinquenta para Ace. Minhas únicas três notas de cinquenta.
- Tudo bem, vamos sair. É bom estarem de olho em mim, novatos. Não vou esperar ninguém depois que der partida no carro. – Ace disse, desligando o motor e saindo do carro. O acompanhei, pois preciso encontrar um caixa eletrônico para tirar mais dinheiro. Mal comecei a trabalhar e minhas dívidas estão começando a surgir. Mesmo minha conta nos Estados Unidos possuir uma boa quantia de dinheiro que economizo todos os meses quando meus pais depositam para mim, pretendia usá-lo para pagar as primeiras parcelas da mensalidade no ano que vem, quando meu pai não poderá mais pagar. Contudo, parece que terei mesmo que depender do dinheiro do trabalho, já que fazer parte dele significa gastar tanto dinheiro quanto receber.
Vi as cabines do caixa eletrônico no final do corredor quando entramos no supermercado. Com outras pessoas, fui até o local depois de avisar Ace, que concordou em encontrar comigo no corredor das bebidas. Parece que muitas pessoas não vieram com dinheiro em mãos, pois assim que me coloquei atrás de um garoto com o moletom cinza de Harvard, uma fila extensa se formou atrás de mim.
- Sou Jonathan. – o garoto do moletom disse para mim. Abri um pequeno sorriso. – Vi você saindo do carro de Ace, está com ele?
- Ele está responsável por mim, na verdade. – expliquei.
- Que bom.
Não entendi seu comentário, mas não procurei questioná-lo, principalmente porque sua vez de se dirigir ao caixa chegou. Fiquei olhando ao redor dezenas de pessoas caminharem em grupos pegando alimentos e bebidas para a festa. Não sei se deveria colaborar somente com o valor pedido por Ace, por isso, quando a garota ao lado de Jonathan saiu e minha vez de sacar dinheiro chegou, retirei pela primeira vez, quinhentos dólares da minha conta.
- Você faz que curso? – Jonathan perguntou depois que saí do caixa. Ele parecia estar esperando alguém, que descobri ser eu assim que se pôs ao meu lado, não se importando de fazer o mesmo caminho que eu.
- Direito.
- Uau. Sou de administração, mas penso em mudar para Economia. Mais fácil. – se ele tinha a intenção de flertar comigo, dizer que queria mudar de curso por sua facilidade não era a maneira correta. Resolvi não responder nada e me limitei a apenas sorrir. Olhei para os lados a procura de Ace; Jonathan continuou falando e não se importou de eu não procurar estender nossa conversa. Ele era bem mais alto que eu, talvez mais baixo que e Ace; sua magreza o fazia parecer um pouco desengonçado, mas o fato dele falar demais era o que mais me perturbava. Me senti aliviada ao vê-lo ser chamado por seu grupo de amigos. Rezo que durante todo o momento que a festa estiver acontecendo, eu não precise me deparar com ele. Não aguentaria tê-lo falando sobre si mesmo o tempo inteiro.
- Achei que estaria cheio o caixa. – Ace disse com um carrinho com cerca de seis a oito engradados de energético. – Você poderia pagar esses e levar para o carro? – empurrou o carrinho e colocou em minhas mãos toda a quantia de dinheiro que juntou das pessoas de nosso carro, mais sua chave. – Vou ajudar Violet com as vodcas. Ela deu azar de pegar um grupo de folgados. – apontou para algum lugar qualquer e sem nem esperar eu responder, saiu correndo.
Sem escolha, empurrei o carrinho até o caixa mais vazio, mesmo assim, demorei cerca de quinze minutos esperando até ser atendida. O valor deu pouco menos que juntado e resolvi acrescentar alguns tabletes de chicletes para dar para cada um. Ouvi dizer que todo mundo que vai à festas gosta de ter um chiclete ou bala na bolsa para que mantenha seu hálito refrescante. Com os engradados ensacados e colocados de volta no carrinho, saí do supermercado e fui em direção ao carro de Ace. O estacionamento estava cheio, mas não tanto, já que grande parte das pessoas do grupo entraram para colaborar com as compras. Achei interessante o modo como eles ajudavam, mesmo tendo uma educação diferente. Talvez exista uma regra de convivência. Seja o que for, está dando certo.
O carro de Ace estava, para variar, ao lado do de . As garotas que vieram no carro dele estavam do lado de fora do carro fumando e senti seus olhares me analisarem da cabeça aos pés. Eu não vestia minissaias, tops ou sandálias de salto como elas, tampouco usava maquiagem ou tinha arrumado meu cabelo. Perto delas eu não era nada atraente, por isso, não vi razão delas estarem me olhando tão feio. Abri o porta-malas da SUV de Ace e comecei a colocar as sacolas de engradados com dificuldade, já que são pesados demais para uma fracote como eu. Assim que terminei, enxuguei o suor que se formou em minha testa e empurrei o carrinho para longe do carro, junto a outros. Vi então a oportunidade de ficar em paz dentro do carro, aguardando todos saírem e voltarmos à estrada. Contudo, assim que minha mão tocou a maçaneta do carro para entrar em meu lugar, ouvi um som que não ouço há tempos. Olhei em direção ao carro de e arregalei os olhos ao ver o carro se mover, mesmo estando parado e desligado.
Uma sensação de nojo surgiu dentro de mim ao imaginar transando com uma das garotas dentro do carro, enquanto as outras apenas fingiam não se importar e aguardavam pacientemente sua vez na fila. Olhei para elas, que conversavam, falavam com a outra ou tiravam fotos pelo celular sem se importar de ter duas pessoas transando dentro do carro em que estavam apoiadas.
- Que grande idiota. – falei, com raiva por estar sendo obrigada a me inserir neste tipo de ambiente. Abri a porta do carro de Ace e entrei, trancando-a em seguida. Agradeci mentalmente pelos vidros possuírem insulfilme escuro, impossibilitando das pessoas do lado de fora de me verem, a não ser que estejam na frente do carro. Afim de evitar pensar no que estou ainda presenciando, liguei o carro para o ar correr e retirei meu celular de minha bolsa, vendo que Gabriel tinha razão quando disse que não demoraria muito para voltar. Me mandou uma mensagem pelo Whatsapp dizendo que havia chego em casa. Não percebi quanto tempo havia passado desde quando desligamos nossa ligação. Não tive tempo de me preocupar como uma boa namorada. Respondi sua mensagem perguntando se ele havia se divertido, mas é claro que ele não me respondeu de imediato. Deveria estar dormindo, já que no dia seguinte passaria a parte da tarde trabalhando na fábrica. Suspirei, fechando o aplicativo e pensando qual o verdadeiro status de nosso relacionamento. Somos namorados, claro. A única vez que meus pais não se opuseram a alguma decisão minha, foi quando Gabriel pediu permissão de me namorar. Desde então, fazemos algumas programações de namorados, como sair de mãos dadas, nos preocupar com o outro e pensar em nosso futuro juntos. Contudo, vendo minhas amigas de colégio falar sobre seus relacionamentos, senti que havia algo que estava faltando. Gabriel e eu nunca transamos.
Talvez fosse meu medo. Não sou uma pessoa boa com emoções e sempre ouvi falar que para transar, você precisar estar no “clima”. Acho que nunca estarei no clima exigido; estremeço ao pensar na possibilidade de ser virgem para sempre. Sei que sou uma pessoa muito conservada, mas nunca fiz força para me manter pura. Apenas nunca imaginei fazer “por acaso”. Gabriel nunca me forçou a nada e quando anunciei meu voo para ele, achei que fosse tomar alguma iniciativa, já que passaríamos os próximos cinco anos longes um do outro. Entretanto, não falamos sobre o assunto e na última noite que passamos juntos ele estava tão cansado por ter vindo de uma jornada de quase quatorze horas de trabalho que não tive coragem de exigir qualquer coisa.
Quando conversei com a Helena há alguns meses, ela falou sobre a possibilidade uma traição, seja por parte dele ou por parte minha. A verdade é que, como qualquer garota ou pessoa normal, também já pensei sobre o assunto. Sempre tive certeza de que Gabriel nunca me trairia. Com a experiência traumatizante que seus pais lhe fizeram passar, ele sempre foi bastante determinado a ser o oposto de seus progenitores. Mas eu... Eu não tive essa mesma educação. Meus pais, por serem pessoas que sempre fizeram parte da alta sociedade em São Paulo sempre souberam de vários casos de affair. Posso dizer que os dois não têm um relacionamento que se trata de confiança e lealdade. Por causa deles, nunca achei que fosse errado uma pessoa, quando em um relacionamento, se envolver com outra, desde que o casal esteja ciente. Meus pais possuem uma grande proximidade de idade entre eles; os dois sabem que querem pessoas mais jovens ou mais experientes ainda para satisfazer seus desejos. Assim, era comum desde quando eu fiz doze anos, vê-los saírem separadamente para viagens ou encontros noturnos. Mesmo com o múltiplo affair, nenhum dos dois nunca trouxeram estranhos para dentro de casa. Tenho esperança de que seja uma consideração por mim.
Olhei para o carro ao lado, afim de pensar mais sobre o assunto de traição, contudo, tomei um susto ao ver parado do lado de fora do carro.
- Abra a porta. – ordenou. Honestamente, seu tom de voz não estava agradável e o que eu havia acabado de presenciar não me fazia sentir mais vontade de colaborar com ele. – , abra a porta.
- Não. – respondi, vendo atrás de si, uma garota sair do carro arrumando a saia que usava colada ao corpo. – Volte a transar com suas garotas e me deixe em paz. – falei, séria. Vi seu olhar se voltar para a garota que saiu e então me encarar. - Você está me observando?
- Não, você apenas é descarado demais por transar em um local público.
- Meu carro não é público.
- Qualquer carro neste evento é público.
Aquilo pareceu calá-lo, mas não o suficiente para fazê-lo ir embora.
- Abra a porta. – mandou novamente.
- Eu já disse que não. Vá embora. – meu tom de voz aumentou e o vi se afastar de perto do carro. Achei que ele havia ido embora. Cerca de vinte minutos depois, ouvi o vidro da janela do lado de Ace se estilhaçar, me fazendo dar um pulo com o susto. Vi do lado de fora com uma chave de fenda em mãos.
- VOCÊ ESTÁ MALUCO? COMO PODE QUEBRAR...
- Eu mandei você abrir, você não quis, então dei meu jeito. – jogou a chave de fenda fora e colocou o braço para dentro do carro, destravando e abrindo a porta do lado do motorista.
- Ace irá...
- Ace permitiu que eu quebrasse o vidro dele, desde que eu pague depois. – falou, como se já tivesse feito isso várias vezes. Olhei para os lados e as pessoas nos observavam curiosas.
- Vá embora. – falei, envergonhada por estar perto dele.
- Por que iria? – ele olhou para mim, encostado no banco. Mexeu na rádio, mudando a faixa do CD que tocava.
O observei com raiva. O que mais odeio é a falta de tato que uma pessoa tem em perceber que não é bem-quista por outra. Cada vez mais odeio por ser tão irritante. Faz as coisas como quer e está acostumado a ter todos obedecendo suas ordens. Afim de não querer discutir, destranquei minha porta e saí do carro, tentando me afastar o mais rápido possível. Poucos minutos depois, senti uma mão agarrar meu antebraço.
- O que tem de errado em você? – sua voz estava nervosa. Ele agora parecia duas vezes mais alto que eu. Soltei meu braço de sua mão com uma expressão de nojo.
- O meu problema é você, ! Quero me manter longe, mas você fica me perseguindo! – grito, nervosa, vendo-o parar para me ouvir. Ao perceber que ele não gritaria de volta e que as pessoas estavam nos olhando, baixei meu tom de voz, envergonhada por chamar tanta atenção. – Você me contratou para trabalhar; concordei em vir porque Ace disse que eu devia me esforçar com as pessoas para facilitar meu trabalho futuramente. Mas isso não quer dizer que quero falar com você. Eu não gosto de você, você não gosta de mim. Tudo o que você faz é para me provocar e eu odeio pessoas assim! Odeio que acham que podem brincar comigo e odeio quando fazem pouco caso de algo que para mim é importante! Você é o chefe, e por isso não digo muitas coisas que gostaria de dizer, mas gostaria que tivesse pelo menos um pouco de respeito por uma funcionária sua, porque mesmo precisando muito do dinheiro, não sou forte o suficiente para aturar suas brincadeiras para sempre!
Ficamos calados por um tempo, até ouvi-lo dizer:
- Acabou?
Aquilo foi a gota d’água. Ele não ouviu nada do que eu disse. Com uma única palavra, destratou toda a raiva que havia colocado para fora e ignorou minhas emoções, como se cuspisse em cima da minha indignação. Apertei meus lábios, nervosa demais para manter nossa conversa. Não preciso passar por isso. Não preciso ser perseguida pelo meu chefe, porque ele acha que pode me tratar como quiser. Balancei a cabeça, desistindo de tudo e passei por ele, que voltou a segurar em meu braço, mas me soltei antes que pudesse firmar sua força.
- Me deixa em paz. – foi tudo o que eu disse antes de me afastar.
Comecei a procurar por um taxi. Pagaria todos os meus quinhentos dólares para que ele pudesse me levar de volta para a cidade. Não estávamos longe. As pessoas começaram a sair do supermercado e se dirigir para os carros. Ace veio até mim quando todos estavam instalados e prontos para partir:
- Hey, estamos indo! – seu sorriso se desfez ao olhar para mim. – Ah, ele não foi muito gentil. – observou. Suspirou e se sentou ao meu lado. – Ele é assim... - Não, ele não é assim. Ele não é assim com você, com Kendra ou com todo mundo que está aqui. – olhei para Ace, que não soube me responder, porque sabe que tenho razão. – Ele só é assim comigo e não sei por quê. Desde o primeiro dia ele me trata como se eu estivesse invadindo seu mundo e quando vou embora, dá um jeito de me trazer de volta. Eu não sou um brinquedo e tenho problemas maiores para me preocupar do que ter de lidar com as atitudes mimadas dele.
Ace passou sua mão gigante em minhas costas, procurando me consolar. Quando assisti em filmes as pessoas fazerem isso nas outras, não imaginava que fosse tão eficiente. Rapidamente senti meus ombros relaxarem, de modo que uma pequena dor incômoda se instalou no lugar da tensão.
- não é dessa maneira que você acha que ele é. – começou a falar. – Tem razão quando diz que ele a trata diferente de todos. Também não sei por que ele é assim com você; na verdade, nunca o vi tratar alguém assim antes, mas para ser sincero, é até bom vê-lo querer manter alguém perto dele. Pode não parecer, mas ele nunca foi muito bom em manter as pessoas ao redor dele. Elas facilmente se aproximam por causa da posição dele no grupo, mas a única pessoa que realmente está do seu lado é Violet.
Ace me parece mais um amigo do que Kendra, com suas mentiras e ações clandestinas sobre minha vida pessoal. Abri um pequeno sorriso, não conformada com a situação, mas sim agradecida por vê-lo tentar me fazer sentir melhor. Se levantou, anunciando que deveríamos ir, pois estávamos atrasando o grupo.
- Na verdade, não vou. – falei. – Não quero mais ir, perdi o pouco incentivo que tinha. As pessoas podem continuar me odiando até a próxima oportunidade que me surgir. Só quero voltar para meu quarto e estudar.
Ace não pareceu ficar bravo ou demonstrar estar aborrecido por perder tempo comigo e meus problemas.
- Não é seguro ficar aqui. – olhou para os lados.
- Vou ligar para algum táxi me buscar. – falei.
- Eles não vêm até aqui, . – Ace explicou. Suspiro, me vendo mais uma vez perdida. – Por que você não vai até a praia e então pega o primeiro grupo que voltar para a cidade?
- Ninguém irá voltar antes de segunda-feira. – comentei, vendo que ele não me contrariou. – Pode ir, ficarei dentro do supermercado aguardando algum táxi aparecer ou conseguir uma carona com alguma família de turistas. Não se preocupe comigo; pode não parecer, mas sou mais forte do que imagina.
- Não duvido, gata. Qualquer pessoa que odeie o é forte o suficiente. – soltou uma risada. – Bem, pegue meu celular, se chegar seis da manhã e você ainda estiver aqui, me ligue e vejo no que poderei ajudar. – seus dentes brancos apareceram novamente com o sorriso que deu e logo depois de gravar seu número, se afastou de mim.
Vi o grupo de carros se afastarem em algazarra e me dirigi para dentro do supermercado, onde o segurança disse que havia uma agência de táxi que trabalhava de madrugada, mas que custava bastante caro. Liguei para a tal agência, que me informou que o táxi mais próximo demoraria cerca de duas a três horas para chegar. É minha única alternativa, então pedi que viessem. Enquanto isso, me sentei no banco que havia dentro do supermercado e fiquei esperando.

Duas horas e meia depois, nenhum sinal do táxi. Olhei em meu relógio de pulso pela milésima vez para me certificar de que estava fazendo as contas certas. Talvez devesse ligar para a agência de táxi para verificar se ele estava chegando. Por sorte, a loja de conveniência era grande e movimentada, de modo que várias pessoas em grupos ou em família, passavam para esticarem seus músculos ou irem ao banheiro. Revezava entre ficar dentro com o segurança ou fora com meus pensamentos.
Nunca imaginei que algum dia poderia me encontrar na situação em que estou. Jamais precisei andar de transporte público em São Paulo; fazia por puro capricho de tentar me sentir uma garota normal, mas não com frequência, já que nunca soube me adaptar à população. Quando se nasce em um berço de ouro, tudo o que você aprende deve servir somente para pessoas de classe social igual à sua ou superior, caso exista alguém mais poderoso. Por causa disso, sempre tive dificuldades em ir a festas de pessoas estranhas ou bares que não conhecia. Preferia pagar um jantar caro nos Jardins a ter de sentar em uma cadeira de plástico na Lapa. Há quem diga ser preconceito; às vezes me pergunto se sou mesmo preconceituosa, então me convenço que, na verdade, eu só não sei lidar com esse tipo de vivência. Ninguém que deita em um bom colchão quer deitar em um chão; se tivesse a opção de não fazer, eu não faria.
Entretanto, minha situação agora era diferente. Conversando comigo mesma dentro do rápido banho que tinha de tomar na sexta-feira quando recebi a notícia de meus pais, concluí que não deveria sofrer desde agora, quando há mais três meses que não precisava me preocupar, pois meu pai disse que daria um jeito. Contudo, não sou uma pessoa fã de surpresas e prefiro começar a sofrer mais cedo, do que sofrer o dobro depois. No entanto, a situação agora me deixa em uma posição delicada. Ter de aguentar me tratando como sua boneca, me jogando e pegando quando bem quer... Não suporto esse tipo de pessoa. Arranjaria uma maneira de processá-lo, se não dependesse tanto de sua ajuda. Agora entendo a posição dos subordinados dos meus pais que aguentavam seus desaforos todos os dias sem retruca-los. Eles não se mantêm calados porque querem, mas sim porque precisam.
Aperto meus lábios e abraço minhas pernas, trazendo-as para perto de mim. Bato minha testa nos meus joelhos em meio à punição de algo que não fiz errado. Meus pais deveriam estar passando por esse sofrimento, não eu. Eu deveria continuar somente focando em meus estudos para me tornar uma profissional tão boa quanto eles. Foi o que me disseram. Desde que eu me formasse com méritos, não precisaria me preocupar com questões financeiras, algo que os pais deveriam ser obrigados a se responsabilizar. E agora estou aqui, sentada no meio fio em frente a uma loja de conveniências à uma hora e meia da cidade de Cambridge esperando um táxi que desconfio não vir. Levanto a cabeça para observar o movimento; depois de um tempo morando nos Estados Unidos, você aprende a confiar nas pessoas ao seu redor e acreditar nas taxas de criminalidade baixa – com relação ao Brasil – que eles têm. Mesmo assim, o fato de estar sozinha em um lugar desconhecido me faz sentir como se estivesse perdida no centro de São Paulo. Estou com medo.
Vejo dois faróis fortes em meu rosto. O carro que estacionou do outro lado do estacionamento, a cerca de vinte a trinta passos de onde estou sentada não se importou de manter as luzes desligadas depois de parado. Mesmo com uma careta em meu rosto, o motorista foi somente desligar o carro depois que desviei meu olhar para voltar a acostumar com a claridade natural de onde estava. Demorou um minuto inteiro para os flashes saírem de minha vista e eu poder olhar para os lados sem semicerrar os olhos. Assim que virei meu rosto de volta para o carro afim de ver o rosto do legume insensível que o dirigia, me deparei com um par de pernas parado em minha frente. Reconheci a calça jeans escura logo que meus olhos cruzaram com o tecido.
- Você é bem corajosa para uma estrangeira mimada. – disse ainda parado em minha frente. Preferi me manter calada. O medo e a insegurança que senti até então acabaram com minha força de vontade de retrucar suas ironias. Abaixei a cabeça, encostando minha testa em meus antebraços. Com a presença de , meu corpo rapidamente relaxou por haver conhecido me fazendo companhia, mas é óbvio que eu nunca admitiria para ele. – E uma garota bem orgulhosa. Não irá me pedir carona de volta para Cambridge?
- Seria contraditório pedir ajuda a você, quando há algumas horas disse para que me deixasse em paz.
- Tem razão. – seus pés se moveram um pouco, mas não o suficiente para fazê-lo sair do lugar. – Mas sua situação agora não é das melhores.
- Vai embora, . – pedi, a exaustão estampada em minha voz. Ele pareceu perceber e não disse nada. Apenas se virou e se afastou. Soltei um riso nasalado baixo e balancei a cabeça, olhando o relógio mais uma vez e confirmando que o táxi não viria. Três horas de espera. Eu definitivamente nunca mais acreditarei em nada do que Kendra dizer.
parou o carro a poucas distâncias de mim e abriu a porta do carro. Mesmo sentado no lado do motorista, seu braço era longo o suficiente para alcançar a maçaneta do lado passageiro.
- Entre. – falou.
Pela primeira vez, meus pés não obedeceram minhas ordens e rapidamente me fizeram levantar, entrando dentro da SUV de e fechando a porte. Tão surpreso quanto eu, ele não disse nada até estarmos de volta na estrada.
- Estou aguardando um pedido de desculpas.
- Não tenho com o que me desculpar. – falei, finalmente sentindo que poderei fechar meus olhos sem me preocupar em ser roubada ou raptada. Ouvi sua risada; percebi que dessa vez, o som do carro estava desligado. O silêncio também me fez lembrar de que há algumas horas, o lugar onde estou sentada provavelmente foi base para sua transa com uma das garotas que se insinuou durante todo o tempo na praça. Sem me importar com sua atenção em minhas ações, retirei meu casaco e cobri o assento, me sentindo melhor por não estar em contato com o local. Mais uma vez ouvi o riso de :
- Não transamos aí.
- Não me importo, continua sendo dentro do seu carro. – respondi grosseira, me virando de costas para ele e voltando a fechar meus olhos, afim de dormir. Foi quando pisquei para me preparar para descansar que vi a placa de retorno passar e ignorar a entrada. – Você passou o retorno.
- Eu sei.
Olhei para ele. Havia um sorriso em seus lábios.
- Por que voltou se não iria me levar para Cambridge? – minha pergunta soou mais alto do que imaginava. Ele olhou para mim rapidamente e voltou a encarar a estrada.
- Ace estava com peso na consciência, mas bêbado demais para conseguir distinguir o carro dele do meu. Disse que me pagaria mais tarde se viesse lhe buscar, nem que fosse para deixa-la isolada no meio de todos na festa.
Claro. Ace quem pediu para me ajudar, porque era óbvio que ele não faria por conta própria. Resolvi não questionar mais nada e me deixei adormecer no carro.

Quando abri meus olhos, o som no lado de fora era abafado pelos grossos vidros da SUV. não estava mais no carro, que se encontrava desligado e com frestas da janela aberta para o ar circular. Me perguntei se poderia me manter aqui até a festa acabar, mas sei que demorará alguns dias para ela ser encerrada. Decido então sair e procurar alguém que esteja voltando para Cambridge. Olho em meu relógio, que marca cinco da manhã. Talvez algumas pessoas estejam se preparando para voltar, já que alguns fazem bicos em restaurantes aos domingos, dia da semana que melhor pagam os estudantes.
Destravo minha porta e saio do carro, sentindo a brisa fria da manhã. Abraço meu corpo e saio andando até chegar a um tipo de morro abaixo; no final dele estava a praia. Vi muitas pessoas jogadas pelo chão dormindo ou desmaiadas. Outras ainda aproveitavam as bebidas e o DJ que ainda tinha energia para tocar a música. Mesmo nessa hora da manhã sendo normal das pessoas começarem a se cansar e se dispersar para seus próprios relacionamentos, ainda havia muita gente na pista de dança ou caminhando por aí. Vi em um canto com seus amigos, rindo e se divertindo; na verdade, todos estavam se divertindo, como se não se importassem com a garota que estava adormecida dentro do carro. Abro um pequeno sorriso; eles não se importam, .
Fecho os olhos ao sentir o vento com a brisa do mar bater em meu rosto. Meu corpo imediatamente me fez querer deitar e adormecer sob a brisa. Ouvi risos altos próximos a mim e vi um grupo de garotos subirem. Os primeiros do grupo possuíam chaves de carro em suas mãos e percebi que era o momento certo para arranjar uma carona. Caminhei até eles, que não pareceram me reconhecer como a garota que odeia.
- Oi garotos, para onde estão indo?
O grupo se entreolhou e voltaram a me encarar, sorrindo.
- Para onde você quer ir? – o da frente perguntou, me fazendo dar um passo para trás. Então é isso. Qualquer coisa que eu diga será interpretado com malícia. Abro um pequeno sorriso, achando toda a situação ridícula.
- Cambridge.
- Bem, estamos indo para o lado oposto. – um deles disse, mas foi impedido para o garoto à sua frente, que havia me perguntado para onde queria ir.
- Se você quiser, posso leva-la até Cambridge, gata. Meu carro está logo ali. – apontou para um conversível, como se achasse que fosse me impressionar. – Mas o pagamento não vem em dinheiro, se é que me entende.
- Hey, Tom! – ouvi um garoto se aproximar de nós. Olhamos para o dono da voz, que arfava devido à correria ao subir o morro. – A garota é acompanhante do . – apontou para trás, onde olhamos na direção e vimos o ‘dono da festa’ nos encarando.
- Eu não estou com ele! – protestei para o garoto que levantou os ombros. Olhei para o tal de Tom, que olhava de mim para em um ponto muito longe. Tampei sua visão: - Seja o que for, pago.
Aquilo pareceu fazê-lo considerar, contudo, poderia saber que ele não aceitaria, já que o nome de foi posto em jogo.
- Desculpe, gata, mas não posso te ajudar. Não hoje. – Tom disse, dando uma leve piscadela e se distanciando com seus amigos.
- É só uma carona! – grito, mas eles não me ouvem. Fecho meus olhos em meio a tentar conter a raiva que estou sentindo. Olho para o lado e vejo que o garoto dedo-duro não está mais presente. Quando viro para olhar para , ele já não olhava mais em minha direção. – Idiota. – murmuro, virando meu corpo e indo em direção de volta ao estacionamento, onde poderia aproveitar a carona de alguém.
Depois de vinte minutos esperando e sendo ignorada, vi que não adiantava ficar ali. Fui em direção ao morro e desci as escadas que levava à praia tão rápido que mal percebi a linda praia que recebia a festa. continuava no mesmo lugar e parou de falar com as garotas e seus amigos assim que me viu me aproximar:
- Pare de mandar as pessoas me ignorarem. – pedi, vendo-o levantar as sobrancelhas.
- Nunca fiz isso.
- É? Então por que ninguém quer me dar carona de volta para Cambridge? Por que alguém menciona seu nome quando vão me negar o pedido?
solta uma risada e olha para os amigos, que o acompanham.
- Veja bem, você chegou no meu carro. Teria sido melhor se tivesse vindo no de Ace. – apontou para o lado, onde vi Ace e uma garota se atracarem em meio à areia.
Foi quando eu vi, atrás de Ace e a garota, Jonathan com um grupo de amigos e algumas garotas que fugiam dele. Olho para à minha frente e ele parecia estar se divertindo com meu nervosismo. Sem dizer mais nenhuma palavra, me afastei e fui em direção ao grupo de Jonathan. Ele retirou o moletom de Harvard e se permitiu ficar somente com uma camiseta branca, o que o fez parecer menos débil do que antes. Na verdade, ele meio que me lembrava um pouco de Gabriel.
- Hey, estive procurando você a festa inteira. – segurei o braço de Jonathan, que se surpreendeu ao ver alguém tomar alguma iniciativa consigo. Ao ver quem sou, abriu um grande sorriso.
- Procurei por você também; Ace até me disse que você havia desistido de vir.
- Mudei de ideia. – um pequeno sorriso se formou em meus lábios sem minha permissão. Me lembrei do tratamento que estava seguindo com Tom. Malícia, é disso que preciso. – Então. – comecei a falar. – Você está ocupado? – olhei para seus amigos e as garotas que os acompanhavam. Ele seguiu meu olhar e riu:
- Estou agora. – colocou o braço direito em meus ombros e abri um sorriso para mostrar que ele havia feito a escolha certa. – O quão bêbada você está?
- Estou totalmente sóbria. Ninguém me serviu nada até agora. – falei, aparentando pesar. Jonathan pareceu cair na minha brincadeira e começamos a caminhar em direção a um quiosque onde dezenas de pessoas estavam amontoadas para conseguirem uma bebida.
- Vamos conseguir algo para nós então.
Aguardei chegarmos próximo ao quiosque e então vê-lo pedir para mim esperar ali para ele se infiltrar entre as pessoas para pegar nossas bebidas. Assim que me deu as costas, virei meu corpo em direção ao mar, pensando no plano que deveria seguir para fazê-lo conseguir um carro para me levar de volta para Cambridge. E então pensei em Gabriel. Será que ele ficaria nervoso por eu estar me insinuando para um estranho? O que ele faria em meu lugar? Será que essa é uma das maneiras de iniciar o processo de traição? Não quero trair Gabriel, não quero me tornar uma pessoa como a mãe dele, a quem odeia. Na verdade, até agora, Gabriel é a única pessoa que posso confiar em dizer que me ama. Olho para o céu que se tornava escarlate pelo nascer do sol e peço desculpas mentalmente a ele, esperando que possa sentir meu arrependimento caso algo pior aconteça hoje.
Jonathan voltou alguns minutos depois com uma garrafa de vodka e alguns copos de plástico. Sorriu, vitorioso, levantando as duas mãos com a bebida e os copos, como se tivesse ganho uma batalha. Sorri, mostrando estar animada.
- Escuta... – olhei para ele, enquanto arrumava o moletom amarrado à cintura. – Não sei se você percebeu, mas não sou uma pessoa que gosta de ficar sob os olhos dos outros. – comecei meu plano, feliz em vê-lo concordar comigo. – Não sei se você está com carro, mas... O que quer que seja, não farei em público. Beijar ou abraçar está na lista.
- Você está falando sério? – seu tom de voz me fez recuar. Olhei para o lado afim de pensar em uma saída, mas minha atitude pareceu mostrar que estava sem graça. – N-não, quero dizer. Bem, não tenho um carro, mas posso conseguir um. Meu colega de república, David, viemos no carro dele, mas acho que ele não irá usá-lo até quinta-feira, então...
Abri um sorriso, respondendo às suas dúvidas.
- Tudo bem. Vamos fazer assim. Você vai indo para o estacionamento com a bebida e eu vou pegar as chaves com David. Nos encontramos lá. – ele criou o plano e eu apenas concordei. Com um sorriso no rosto por finalmente estar prestes a voltar para Cambridge, fiz o caminho até o morro com as escadas que me levaria até o estacionamento, rezando para David não estar sóbrio e entregar sem pestanejar as chaves de seu carro para Jonathan.
Encostei em um carro cor berinjela. Os americanos gostam de carros com cores extravagantes, percebi. Alguns carros balançavam, mostrando que alguns casais ou grupos se divertiam de suas próprias maneiras. Me servi de um gole de vodka, cuspindo logo em seguida por ter um gosto tão ruim. Olhei para a garrafa com uma careta, como as pessoas poderiam gostar tanto disso?
Foi quando ouvi passos perto de mim e abri um sorriso esperando que fosse Jonathan, mas não era. Para minha não surpresa, estava se aproximando.
- Você não demorou para pensar em um plano, não é? – parecia nervoso.
- Você deveria saber que sou responsável o suficiente para conseguir arranjar minha própria maneira.
- Esse garoto, Jonathan, ele só quer te traçar.
- Assim como você faz com suas garotas. Mas ao contrário delas, eu não tenho a menor vontade de ter uma transa casual. Agora vai embora. Vai aproveitar suas amiguinhas e me deixa em paz.
- Você não é nem um pouco sensata, . – sua voz se tornou sombria. – As coisas seriam mais fáceis se você não visse em mim alguém que só quer te provocar.
- Mas é exatamente isso o que você faz. – respondo. – É a única coisa que você sabe fazer comigo, todo mundo sabe. Você me trata diferente das outras pessoas porque me odeia, mas quer saber? Eu não me importo. Você não é a primeira pessoa que me odeia aqui, é só mais um.
- Por que tudo o que você diz é para me atacar, garota?
- Porque assim como você não faz as coisas que eu peço, também não obedeço aos seus desejos. Você precisa ficar me perseguindo? Acha divertido me ver nervosa?
- Você...
- Hey, consegui as chaves... Ah, oi .
- Kennedy. – sequer olhou para Jonathan. Manteve seus olhos em mim por um tempo e percebi que sua posição era tão grande e forte, que Jonathan não ousou atrapalhar nosso contato até se mexer. – Kennedy, você se importa de nos dar cinco minutos?
É óbvio que ele se importa. Olhou de para mim, confuso por estarmos tão próximos um do outro. Esperou que eu dissesse que estava com ele, mas não disse nada. Não podia demonstrar em sua frente que não tenho o mesmo respeito por que todos têm.
- Claro, vou indo para o carro. – Jonathan falou para mim e apontou para trás, onde vi um jipe. Concordei com a cabeça e o vi se retirar tão lentamente quanto uma lesma.
esperou que ele estivesse longe o suficiente para dar um passo à frente. Segurou meu braço quando fiz menção de me afastar; seu aperto era tão forte que não tive coragem de me mexer, tampouco fiz careta para deixar aparecer a dor que senti.
- Eu vou falar uma vez só, então é melhor você prestar bastante atenção – seu hálito era uma mistura de álcool com tabaco. Não suporto cigarro, o odor ataca minha sinusite e me dá dor de cabeça, contudo, não posso mexer meu rosto e desviar o olhar dele. Não posso perder. -, eu te contratei exatamente pela razão de você não ser como as garotas com quem transo. Pouco me importa se você me odeia ou eu não te suporto; enquanto eu for o chefe, você terá de obedecer às minhas regras, sejam elas agradáveis a você ou não. – olhei em seus olhos. Pela primeira vez, não me perdi no azul. Estou tão absorta em suas palavras e no sangue subindo à minha cabeça, que não pude encará-lo profundamente. – Se você entrar naquele carro, considerarei seu pedido de demissão. Eu não preciso de vagabundas no meu negócio, lutei muito por ele para que mulheres desse tipo venham diminuir o nível do trabalho.
Foi o limite. Senti meus olhos se arregalarem e o choro chegar à minha garganta. Nunca fui tão humilhada em toda a minha vida. Vagabunda? Quem ele pensa que é para falar assim comigo? Por que me remeto a esses tipos de comentários? Por que preciso ouvi-los, quando deveria estar em meu quarto estudando para finalizar logo a universidade e voltar para o Brasil?
Apertei meus lábios tão forte que a dor rapidamente começou a fazê-lo adormecer. Não sabia o que lhe responder, porque minha mente está entorpecida com suas palavras. Vagabunda. Será que é esse o comportamento que estou tendo? Será que entendi errado quando analisei o ambiente e vi que somente conseguiria algo agindo como todos eles? Será possível que tenha razão quando disse que eu não sei analisar as pessoas?
Movi com toda a força que tive meu braço, mas ao observar meus movimentos, vi que foi tão fraco que ele mal percebeu.
- Tudo bem. – falei, sentindo sua mão afrouxar meu braço; provavelmente haveria uma marca roxa ali no dia seguinte. – Não vou entrar no carro dele. – expliquei, minha voz fraca. Ele concordou com a cabeça.
- É o cer...
- Mas também não vou mais trabalhar com você. – seus olhos se arregalaram com meu aviso. – Não vou mais lhe causar incômodo e não vou mais me aborrecer com suas grosserias. – juntei um pouco mais de força para soltar meu braço de sua mão; sucesso. – Não sou uma vagabunda. Não sou uma pessoa que inferioriza uma empresa apenas por estar nela. Estudo em Harvard para não ser tudo isso. Vim de outro país para não ser tudo isso. – comecei a me afastar, cada passo dado, uma nova vontade de choro entala em minha garganta. - Prefiro cancelar minha matrícula por não conseguir pagar uma mensalidade, do que trabalhar em um lugar onde me rebaixam a esse nível. – respirei fundo. – Você pode mandar o contrato de demissão pela Kendra. – lhe dei as costas para ir embora.
Enquanto andava o mais rápido que conseguia afim de me distanciar de , senti um frio extra no rosto. Ao colocar minha mão em minha bochecha para sentir a temperatura da minha pele, senti o rastro úmido de uma lágrima. Fecho os olhos, arrependida por não ter percebido antes. Agora minha imagem é de uma coitada que chora quando é chamada de vagabunda. Ótimo. Minha vida está ótima.

Capítulo 4

Não esperava que o clima fosse tão gelado durante a noite em Massachusetts. Abracei meu corpo enquanto andava na estrada que me levaria de volta para Cambridge; isso é, se eu chegar viva.
Não sei de onde surgiu a loucura de voltar a pé, mas até então, parece ser a melhor solução, já que não posso voltar atrás e esperar que alguém me desse uma carona. É bastante óbvio que ninguém me ajudaria, pelo simples fato de que não permite que eu me aproxime de ninguém, ou melhor, ninguém se aproxime de mim.
Sinto as lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas e funguei o nariz. A voz de continuava a ecoar em minha mente, como se estivesse berrando.
“... Eu não preciso de vagabundas no meu negócio, lutei muito por ele para que mulheres desse tipo venham diminuir o nível do trabalho.”
Nunca imaginei que uma palavra tão usada comumente pela sociedade fosse me afetar tanto. Ouço e vejo o xingamento ‘vagabunda’ em tantos lugares: na internet, nos programas, nas novelas, até na sala de reuniões com os clientes dos meus pais... Mas nunca, jamais imaginei que poderia um dia ser chamada de uma. Estudei minha vida inteira, fui a primeira da sala e entrei em Harvard para chegar agora e ser chamada de “vagabunda”. Limpo mais uma vez as lágrimas que escorrem pelo meu rosto e olho para o céu, enxergando-a parcialmente por minha vista ainda estar borrada pelas lágrimas. Solto o ar que está preso em meus pulmões. Quem eu deveria odiar mais? Meus pais, por me colocarem nessa situação? Gabriel, por não estar ao meu lado para me consolar e ter me incentivado a procurar um trabalho? , por ter sido quem utilizou essa palavra repugnante para me descrever? Kendra, por me enganar a pedido de ? Ou eu mesma, por ser estúpida suficiente para ouvir todos eles?
Olhei em meu relógio, que marcavam quase seis da manhã. Cada passo que dou mais perto de Cambridge me faz me sentir mais e mais estúpida. Chamei de idiota, mas pelo jeito, a idiota de verdade sou eu. Eu quem fui burra de ouvir as pessoas. Eu que achei que poderia me tornar mais sociável. Eu que tive esperança de fazer algo melhor que não fosse somente estudar. Mas aparentemente, a única coisa que sei fazer bem é estudar; até porque minha memória fotográfica me auxilia, caso contrário, seria completamente inútil.
- , entre no carro. – ouvi sua voz falar ao meu lado. Olhei de relance e vi com sua SUV dirigindo devagar no acostamento, tentando acompanhar meus passos. O que ele espera? Que eu o obedeça? Que eu esqueça suas palavras? Que eu finja que nada aconteceu? Mesmo que eu quisesse, que minhas pernas e meus pés protestassem que eu pensasse mais neles, que tanto doíam por estar a mais de uma hora andando eu não cederia. Meu orgulho está tão ferido que mal consigo ouvir os sons dos carros passando em alta velocidade, ou que minha razão me dê socos no estômago por estar tão indefesa e aberta a ser morta ou estuprada no meio desse nada que estou.
acelerou e jogou o carro em minha frente, fechando meu caminho. Abracei meu corpo com mais força e comecei a dar a volta no carro; ouvi a porta se abrir e rapidamente meu corpo ser virado em sua direção.
- Você não está me ouvindo? – chacoalhou meu corpo, como se quisesse me fazer acordar. – Entre no carro.
- Eu já disse. – minha voz saiu fraca. – Me deixa em paz.
Me mexi, desconfortável, e senti suas mãos me largarem. Dei-lhe as costas mais uma vez e comecei a andar.
- Me desculpa! – ele gritou atrás de mim. – Pelo modo que falei. Eu estava com minha cabeça quente e acabei falando tudo o que me vinha à mente. – sua mão novamente agarrou meu braço, me impedindo de caminhar. O vento parecia mais forte agora, mesmo com o sol nascendo atrás de mim. – Se você quer se matar, arranje outra oportunidade. Não quero viver com peso na consciência.
- Claro. – falei, finalmente olhando em seus olhos. – É por isso que está aqui. Porque acha que se acontecer algo comigo, é porque eu fui embora depois do que você falou; mas veja só, eu iria embora de qualquer maneira, então não precisa se forçar a fazer isso.
- Você não vai chegar em Cambridge antes do meio dia. Estamos a duas horas e meia de lá de carro.
- Você não precisa se preocupar com isso. – ameacei começar a andar, mas ele não deixou. Suas mãos, ainda fortes, seguravam meus braços e a ausência de força me impedia de tentar me soltar. – Me solta.
- Não. – falou. – Não quero ter de falar palavras duras para você novamente, mas você está sendo irracional.
- Eu sei. Meu comportamento tem sido irracional desde um tempo atrás. – penso em como minha vida mudou depois que meus pais falaram sobre a falência deles. – Mas vou frisar mais uma vez: Você não...
- Eu tenho tudo a ver com a situação. Se você quer ser forte, então aguente o que as pessoas têm a dizer, mesmo que isso a machuque! Sabe quantas vezes irão te xingar durante uma sessão no tribunal ou em um fórum? A vida não é fácil, Sophia, e você tem de parar de achar que poderá ficar em seu mundinho de estudos e notas altas para sempre! Deus do céu, como pode ser tão teimosa?
Levanto meus olhos para . Gabriel já havia me falado isso antes. Ele também me chamou de teimosa quando insistia em algo que ele tentava me convencer. Também disse que meus pais me colocaram em um mundo onde só eles têm permissão de me dizer o que fazer. Finalmente senti minhas pernas falharem; se não estivesse tão próximo de mim para me segurar, eu provavelmente cairia de joelhos no chão. Não fiz barulho ao voltar a chorar, mas percebi que estou chorando porque senti muitas lágrimas saírem de meus olhos como se fizessem uma competição sobre quem chegaria mais rápido até o chão.
Não tentei me afastar de quando ele me abraçou em forma de consolo, tampouco briguei com ele quando senti suas mãos apoiarem minhas costas e minhas pernas, me levantando com facilidade e me levando para dentro de seu carro. Deixei que colocasse o cinto em mim e não ligou o som ou discutiu quando encostei minha cabeça no vidro da janela e fechei meus olhos, exausta.

Antes mesmo de acordar já conseguia sentir a dor dos músculos das minhas pernas me punirem por tê-los feito se esforçar tanto. Minhas mãos tocaram um colchão macio que não parecia ter fim. Espreguicei meu corpo sem querer abrir os olhos; até a razão me dar um tapa na cara. Não estou na minha cama, porque ela não é grande, nem macia como esta, tampouco possui travesseiros que afundam com o peso de minha cabeça e a coberta não é de plumas de ganso como a que está me cobrindo.
Abri os olhos e eles logo doeram com a claridade do sol que penetra o quarto sem vergonha. As cortinas estão abertas e os pássaros cantam do lado de fora. Olho pela extensão do quarto que não reconheço. Ele é enorme com as paredes brancas. Os móveis são em tons de marrom escuro e os detalhes, como maçanetas ou dobras são todas de aço. Forço meu corpo a se sentar, mas além de estar completamente dolorida, gosto dessa cama o suficiente para querer usufruí-la mais um pouco. Achei interessante o modo como uma janela ocupa praticamente uma parede inteira, dando uma visão panorâmica da vista afora; deitada, só consigo ver o céu azul e sem nuvens. Que horas são? Não deve ser de manhã mais. Virei meu corpo para o outro lado com dificuldade e a porta do banheiro aberta, onde pude só enxergar o box do chuveiro bastante afastado da entrada; imagino quão grande o banheiro é.
Assim, a porta que restou só pode ser a entrada e saída do quarto. Está fechada e não ouço nenhum ruído fora dela. Volto a deitar meu corpo para cima, observando o teto branco sem falhas. Fazia tempo que não me encontro em um cômodo tão pacífico. Uma saudade de meu quarto no Brasil surge; exceto pela janela, não é tão diferente desta. Também possuo uma cama de casal e também tenho um banheiro incluso, formando uma suíte. Em São Paulo o céu também é bonito na maioria dos dias, mas há bastante barulho de carros, pessoas falando e buzinas. Mesmo morando em um condomínio nos Jardins, morar em uma casa não muda nada o ambiente externo que vemos da cidade. São Paulo é uma cidade caótica, mas isso faz somente que eu não me sinta tão sozinha. Procuro ouvir algo que não fossem os pássaros, mas não consigo. De certo modo, a paz diminuiu um pouco, dando espaço à minha solidão. Ser filha única e ter pais conservadores sempre fez de mim uma pessoa antissocial. Não podia ir à casa das minhas amigas ou chama-las para me visitar. Não ia a muitas festas, nem saía para as noitadas. Mesmo mais velha, meus pais continuaram insistindo de que tais atividades não eram tão importantes quanto estudar para entrar na São Francisco.
Estudar. Me perder nos cálculos e nas histórias de pessoas que já estão mortas. Descobrir como funciona o corpo humano e saber como criar textos perfeitos. Sempre achei os estudos fascinantes, por isso, nunca protestei contra meus pais ou invejei minhas amigas quando elas saíam para as festas. Claro que queria viajar com elas ou participar dos programas noturnos; mas não o suficiente para odiar meus pais por terem tirado isso de mim. Na verdade, até a algumas semanas eu estava bastante feliz com a minha vida. Estudar, ser apta a falar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa de qualquer idade, receber o meu diploma e poder voltar para o Brasil. Lá, prestaria a OAB e então iniciaria minha experiência como advogada. Quando tivesse dinheiro o suficiente, moraria com Gabriel e então um dia nos casaríamos e teríamos filhos. Uma vida tranquila e feliz.
Completamente diferente do que estou vivendo agora.
Viro meu corpo, arrastando um travesseiro para mais perto de mim de modo que pudesse abraça-lo. Fiquei encarando o chão encapetado; até ele parecia macio para se deitar. Por um segundo, gostaria que o mundo parasse para que eu pudesse continuar deitada, onde somente respirar fosse o suficiente para me manter viva. Suspiro ao lembrar que devo voltar para o campus e que não faço ideia de onde estou. Demoro alguns minutos para juntar força para me levantar e me arrastar até o banheiro, que é muito maior do que eu imaginava. Olho para a banheira que estava escondida atrás da porta e uma vontade imensa de enchê-la de água e espuma toma conta do ambiente. Dou-lhe as costas para tentar não prolongar meu sofrimento de não ter permissão de usá-la; assim, me deparo com meu reflexo no espelho e vejo o estado que me encontro. Meus cabelos parecem um ninho de pássaros recém-nascidos que não conseguem ficar parados, meus olhos estão tão inchados como as de um peixe japonês kingyo e meu rosto, pálido como a areia da praia. Minha roupa está amassada e fedendo tabaco. Com o sabão da pia, faço o que posso para melhorar minha imagem, mas não consigo fazer um milagre. Me retiro do banheiro o mais rápido possível, querendo fugir do meu reflexo. Vou até a janela a fim de enxergar melhor o lugar onde me encontro.
Eu deveria ter imaginado e não deveria abrir a boca em um ‘O’ gigante, demonstrando surpresa. Logo que cheguei à janela, reconheci a área externa da mansão de , onde aconteceu uma festa imensa há alguns dias. O lugar agora parecia muito melhor aos meus olhos; limpo e vazio. De repente, senti uma urgência em ir embora. Era verdade, eu deixei que me colocasse dentro de seu carro e acabei adormecendo durante o caminho de volta para Cambridge. Corro até meu casaco e no bolso encontro meu celular sem bateria. Fecho os olhos em pesar. Como posso ser tão burra? Olho para os lados sem saber o que fazer. Coloco meu tênis snickers e sigo para a porta; ao mesmo tempo, antes de tocar na maçaneta, a vi vir em minha direção, causando um grande estrago em meu rosto com relação à dor que senti. Caí de bunda no chão e ouvi a voz de preencher o quarto:
- Você está bem? – sua voz parecia preocupada. Abri meus olhos e através dos meus olhos lacrimejados, o vi agachado em minha frente. – Desculpe, acabei entrando sem bater, achei que ainda estivesse dormindo.
- Tudo bem. – falei, me levantando.
Ficamos parados um de frente para o outro; não sabia o que falar. Talvez agradecer pela carona? Por ter me dado um bom lugar para dormir? Não... Pode ser que ele ache que estou querendo me redimir por ter pedido demissão.
- Preparei o almoço. – ele falou, dando-me as costas e saindo corredor afora. Dei alguns passos para ver a direção que ele fez e o segui:
- Na verdade, eu vou embora. – vi seus pés pararem de andar no meio da escada.
- Você pode ir depois de comer.
- Não estou com fome, obrigada.
- Você sabe que estamos a mais de uma hora de seu dormitório, não é?
- Bem, sobre isso... Será que você poderia me emprestar seu telefone? Meu celular acabou a bateria e parece que ele não tem sinal aqui... Eu pago!
olhou para mim por mais alguns instantes, como se avaliasse a possibilidade de eu pagar uma ligação de menos de 10 minutos. Enfim, balançou a mão e apontou para uma das salas que havia no andar térreo. Depois, terminou de descer as escadas e sumiu de vista.
Desci devagar devido minhas pernas estarem doloridas ainda. Fui até o cômodo indicado e encontrei com facilidade o telefone. Liguei para a empresa de táxi cujo número decorei e eles me informaram que um carro chegaria em mais ou menos vinte a trinta minutos. Rezei para que dessa vez táxi venha mesmo e coloquei o telefone de volta na base. Com tempo de sobra até o táxi chegar, olhei ao meu redor. Agora que não havia som alto ou centenas de pessoas espalhadas, podia ver melhor o interior da mansão. Mesmo vivendo em um lugar de alto luxo em São Paulo, não posso comparar ao que é realmente esse lugar.
Se tinha tanto dinheiro assim, por que precisou de ajuda de um sócio para comprar um prédio naquele bairro isolado e claramente mais pobre que o centro da cidade? Caminhei pelo corredor onde ele sumiu e andei devagar, observando cada cômodo que passava por mim, até chegar a uma cozinha onde ele estava sentado em um banco em frente à uma bancada repleta de coisas para comer. Imediatamente meu estômago reclamou de fome, mas disse a ele que não tinha fome.
- Eu, hum, vou indo então. – falei da porta. Não queria ter de entrar e diminuir o espaço entre nós. – Obrigada por... Hum, pela carona.
Ele não respondeu. Continuou comendo e assistindo à TV, me ignorando. Soltei o ar, me lembrando com quem estava falando e balancei a cabeça, dando-lhe as costas e, agora mais rápido, fazendo o caminho de volta até o hall, onde encontrei a porta destrancada, pronta para me deixar ir embora e nunca mais olhar para novamente. Nunca mais me perder em seus olhos . Nunca mais ser feita de boba ou humilhada.
Está tudo bem. Mesmo sem dinheiro, estou bem. Estou tranquila. Claro. Posso conseguir outro trabalho. Mesmo não ganhando a quantia que ganharia com ele ou não podendo conseguir bons empregos por não ser americana, eu tinha dinheiro na minha conta e conseguiria juntar mais para pagar mais um semestre da faculdade. Consigo me virar.
Quando sento no meio fio, já estou desesperada.

Resolvi não procurar um novo trabalho até a volta às aulas. Na verdade, meu psicológico me fez lembrar de tudo o que passei nos últimos dias e travou meu corpo de sair do meu quarto senão para ir ao vestuário feminino tomar banho ou comprar algo para comer.
Kendra chegou era quarta-feira. Usava roupas diferentes, mas não parecia ter tomado muitos banhos desde sábado. Seu cabelo estava oleoso e a pele mais bronzeada. Não falou comigo quando entrou, nem quando saiu para tomar banho, muito menos depois de voltar limpa. Soube que retornou quando senti o odor de flores do sabonete que usa. Espreguicei em minha cadeira; consegui me por em dia com os estudos que havia deixado de lado para ir à festa no sábado. Olho para o lado e a vejo me encarar séria enquanto enxuga os cabelos sentada em sua cama.
- Por que pediu demissão?
- Por que invadiu minha privacidade sem minha permissão e expôs para todo mundo?
Ela não respondeu. Tampouco pareceu se abalar com o fato que eu não deveria saber.
- Você sabe o quanto me esforcei para colocar você lá dentro?
- Porque você quis ou porque alguém pediu? – mais uma vez ela não respondeu minha pergunta.
- Você é uma egoísta mimada, !
- Desculpe se eu não fico em um lugar onde me tratam mal e me chamam de vagabunda! – me levantei, sem querer, elevando meu tom de voz de modo que finalmente a surpreendi. – Eu não sou uma vagabunda! Eu não dou meu corpo para as pessoas para conseguir o que eu quero! Sabe o que eu passei naquela festa? Sabe o que eu tive de ouvir até finalmente sair de lá? Não, você não sabe! Porque você está enturmada, transando com seu querido sei lá o quê seu! Eu achei que você realmente quisesse ser minha amiga! – apontei para ela. – Saí do quarto no sábado à noite achando que finalmente havia conseguindo firmar um relacionamento com alguém! E então descubro que você foi mandada me convencer a ir até lá e que, além disso, mostrou todas as minhas coisas para eles, inclusive minha gaveta de lingeries! Me desculpe se eu não quero ter de olhar para todo mundo que sabe as cores das minhas calcinhas ou que acham que sou careta demais porque não transo com desconhecidos!
Sem olhar para trás, pego minha bolsa e saio do quarto.

Não sei o que está acontecendo comigo. De acordo com os estudos, nossos corpos mudam somente até os dezoito anos. Estou quase fazendo vinte e um e mesmo assim consigo me surpreender. Eu não costumo gritar com as pessoas ou retruca-las de modo grosseiro. Não sou uma pessoa irônica.
Desço as escadas da entrada dos dormitórios e vejo milhares de grupos de pessoas espalhadas pelo campus. Claro, era a semana da feira social e as pessoas aproveitavam o máximo que podiam do campus, a fim de juntarem inspiração e força de vontade para entrarem aqui no próximo semestre. Saio rapidamente do campus e vejo, do outro lado da rua, a SUV de Ace com ele à frente chupando um pirulito. Acenou para mim quando me viu e não pude ignorá-lo; de todas as pessoas que conheci daquele grupo, ele era o único a quem eu não poderia ignorar.
- Como vai, baixinha? – me deu um longo abraço. Ace cheirava a perfume francês e usava uma camiseta cinza por cima da jeans. – Está com fome?
- Muita. O que está fazendo aqui?
Ele abriu um sorriso. Ah.
Viro as costas para ele, que solta uma risada.
- Ah, baixinha, me dá uma chance! – correu até mim enquanto me afastava em passos pesados, nervosa. – Eu juro que não vim por ordem de ninguém.
Paro de andar e olho para ele.
- É verdade, eu apenas fiquei sabendo das coisas hoje de manhã e achei que deveria vir aqui bater um papo. Sem compromisso. – levantou a mão esquerda como se fizesse uma promessa na língua dos escoteiros.
- Sem me convencer a voltar?
- Bem...
- Tchau, Ace.
- Qual é, você sabe que eventualmente eu iria tentar alguma coisa, não sabe? Confia no careca aqui, baixinha! – apontou para sua cabeça que brilhava à luz do sol. Não pude evitar soltar uma risada e concordei. Precisava disso, rir mais.
Entrei em seu carro que tinha o mesmo odor de sábado; sua janela continuava quebrada, mas ele não parecia se importar.
- O que quer comer?
- Qualquer coisa saudável. – falei, vendo-o soltar uma risada e acelerar.
- Você quem manda!
Durante o caminho, Ace falou como havia sido a festa, que a propósito, ainda acontecia. Quando perguntei como eles conseguiam manter uma festa rolando tanto tempo, ele disse que as pessoas que participavam devem pagar um valor todos os dias para que o estoque e o aluguel do local fossem pagos. Além disso, eles recebiam patrocínios por e seu sócio terem contatos, então não era tão difícil assim. Paramos em frente a um restaurante no centro; ele parecia conhecer algumas dessas pessoas que cuidavam do carro e deixou uma nota de vinte para um, falando sobre a janela quebrada.
Depois de pedido uma salada e um grelhado, Ace apoiou as mãos em cima da mesa, cruzando seus dedos e abrindo seu sorriso branco brilhante.
- Como você está, baixinha?
- Bem. – respondi. – Estou com meus estudos em dia.
- Sei... Talvez eu me inspire em você para conseguir subir algumas salas, você sabe. B ou C... Falam que o tratamento muda neles.
- Deve mudar. – levantei meus ombros. Ele soltou uma gargalhada.
- Não seja má só porque está na S. Eu sei que vocês estão no topo do pedestal, mas para um E como eu, estar na B ou C é um evento muito importante.
- Espero que consiga. – falei, vendo-o continuar sorrindo. – De verdade, não estou sendo irônica. – concertei, vendo-o rir.
- Ta bem, ta bem. Veja, voltei hoje com Kendra, estou sóbrio e falei com , então eu meio que sei sobre tudo o que está rolando.
- Imaginei. – dei um gole no meu chá, vendo-o se mexer em sua cadeira.
- Você quer me contar a sua versão da história?
- Como você vê depois do que ele te falou?
- Insensível? Exagerado? Talvez... Homem? – rimos juntos.
- Então não acho que você saiba de alguma versão falsa. Ele me ofendeu, eu me cansei e pedi para sair.
- Achei que fosse mais forte, baixinha.
- Eu sou forte. Mas não gosto de viver em um ambiente onde as pessoas não gostam de mim ou me tratam mal.
- Mas ninguém senão te tratou mal.
- Ace. Ele é o chefe.
- É, faz sentido. – disse, pensativo. – Mas veja, , você precisa da grana, ele precisa de ajuda. Faltam praticamente dois meses para nossa apresentação e nada começou a ser feito.
- Isso já não é mais problema meu, Ace. Além do mais, ele não pareceu se opor ao meu pedido. Não vou até ele revogar meu direito e parecer uma idiota.
- Parece até que estou falando com um casal recém-separado. – o ouvi resmungar. Levantei uma sobrancelha e ele riu sem graça. – Tudo bem. Você não vai voltar. Então o que você vai fazer?
- Procurar um novo emprego.
- Você sabe que Harvard não permite que os alunos trabalhem em lugares renomados sem obter um diploma, não é? Você não irá conseguir nada mais do que uma lanchonete classe baixa ou ficar na cozinha de um restaurante lavando louça e ganhando seis dólares a hora.
Fico calada. É claro que eu sei. É claro que eu sei que não vou conseguir nada igual, mas não quero mais me sentir pior do que já estou. Não quero sentir que não tenho escolha, quando eu tenho escolha.
- Baixinha, olha só. Sei que eu sou amigo de todos eles, mas veja bem, desde que você entrou para o grupo, se tornou minha amiga também. Então eu estou, sim, preocupado. Pode ser que você fique mal algumas vezes, mas na maioria nem ficará no mesmo ambiente.
Suspiro e desvio meu olhar do seu. Não quero ter de dizer não para Ace; mas não quero voltar. Na verdade, pode ser que eu queira, pelo dinheiro, mas meu orgulho está ferido demais para ter de passar por mais uma humilhação em pedir para reconsiderar meu contrato. Olho para o lado e, ao fundo, vejo sua figura entrar pela porta e parar assim que me vê sentada com Ace.
- Você o chamou. – falei. Ace olhou na direção que meus olhos apontavam e então voltou a olhar para mim. – Achei que de todo mundo, pelo menos você não me enganaria. – me levantei e ele me acompanhou.
- Tudo bem, eu te enganei! Mas não foi por mal! – parei para ver seu olhar de arrependimento. – Se te alivia, também enganei para vir até aqui.
- O quê?
Ace suspirou e abriu a boca para falar algo, mas foi impedido por :
- O que ela faz aqui?
- Sente, .
- Não. Quero saber o que ela faz aqui. – apontou para mim, como se ele não suportasse a minha presença. Não vou negar que acho que ele não suporta mesmo, mas a recíproca é verdadeira.
- Se você se sentar, terei o prazer de explicar. – Ace apontou para uma cadeira entre ele e eu na mesa quadrada em que sentávamos. – Se não se importa, pedi o seu prato favorito, .
- Comece a falar. - falou e Ace me obrigou a sentar de volta em meu lugar.
- Sabem que dia é hoje? Vinte e sete de Outubro. Para o dia 22 de dezembro faltam cinquenta e seis dias. Sabem por que eu sei? Porque meus alunos estão fazendo contagem regressiva; e sabem por que eles estão fazendo contagem regressiva? Porque nós, professores, prometemos aos nossos alunos que teríamos um grande evento e um palco para eles se apresentarem para seus amigos e familiares. Estão todos ensaiando de segunda a segunda, seja no estúdio ou fora dele para a apresentação. E o que nós vemos no prédio? Nada. Sim, porque ninguém começou a organizá-lo. – Ace olhou para , que desviou o olhar sentindo o peso de sua responsabilidade pesar. – Você disse que está com tudo sob controle, mas a cinquenta e seis dias da apresentação, não temos nem convites ou folders para distribuir. Por outro lado – olhou para mim. -, Harvard não é barata. Mesmo sendo uma S e ganhando privilégios, como o dormitório, manter-se lá não é fácil, não é somente estudar. Além disso, você não está entre os três primeiros, , então quer dizer que você não tem desconto nenhum na sua mensalidade. Querendo ou não, são quase três mil dólares por mês e que eu me lembre, a moeda do Brasil não é em dólar, o real não é mais caro que nossa moeda americana e sua família está falida. – apertei meus lábios, querendo lhe dar um tapa na cara. – Sei que estou sendo duro com vocês, mas preciso que vocês abram os olhos para a realidade, ao invés de ficarem se preocupando em provocar e atingir um ao outro. Não são somente vocês que estão nessa jogada, há centenas de pessoas no meio disso. Se quisermos que todas aquelas pessoas que foram ou estão nas festas entrem para o estúdio, precisamos de um estúdio pronto. Se você quiser continuar em Harvard, nota alta não será o suficiente para isso, você precisa de dinheiro e a maneira mais rápida é trabalhando para o .
Nem eu, nem falamos nada. Ficamos calados, com o peso da realidade pairando em nossas costas. Ace tem razão. Estou sendo infantil. Kendra tinha razão quando disse que sou mimada. Não estou acostumada a ser criticada, por isso não sei lidar com as críticas. Apenas fujo. Fecho meus olhos me sentindo estúpida por ter enxergado depois que alguém jogou verdades em minha cara. Olho para , que parecia perdido em seus próprios pensamentos.
- Será que... – comecei a falar. – Bem, Ace tem razão, eu preciso mesmo do dinheiro. – falo baixo. Vejo me encarar.
- Você não pareceu se...
- . – Ace o olhou, sério. Preferia ele sorrindo. Vi que seu humor é cativante independente de ser bom ou ruim. – Ela está deixando o orgulho dela de lado, será que você pode fazer o mesmo? Ou você já arranjou alguém como ela para nos ajudar?
O vi apertar os lábios. Claro que não havia. Deveria estar se divertindo nas festas durante todo esse tempo, comendo garotas que ele denomina serem “vagabundas” e bebendo tudo o que pode com seus patrocínios.
- Precisamos começar pelas salas de dança. Retirar todas as mesas e arranjar um lugar para deixa-las. – começou a falar, de modo que Ace abriu um sorriso. – Os espelhos também devem ser polidos. Faz tempo que alguém não...
- Espere! – levanto uma mão, vendo os dois olharem para mim. – Você não vai me pedir desculpas?
- Por que deveria?
- Por ter me xingado? Por ter me tratado mal?
- Você irá me pedir desculpas por ter sido rude comigo? Me chamado de idiota? – retrucou.
- Inacreditável. Inacreditável!
- , deixe isso para lá... – Ace começou a falar, suplicante. – Vamos apenas focar no negócio, pode ser? Sem assuntos pessoais?
- Se ela conseguir, é claro. – comentou, me fazendo semicerrar os olhos. – Olhe só, eu posso conseguir alguém para ficar no seu lugar. Eu apenas não o fiz, porque me pediram.
Ace olhou para e então voltou a olhar para mim. Meus lábios tremiam. Mais uma vez humilhada. É isso. É por isso que os pobres não gostam dos ricos; é isso o que chamam de abuso de poder. Mal posso esperar para começar a atuar na minha área e processar cada um que vier tentar me humilhar.
Não disse mais nenhuma palavra, de modo a esclarecer que havia ganho a discussão. Cruzei meus braços e ouvi com o máximo de atenção que conseguia dar, mas não era muita já que não consigo suportar ouvir a voz de por muito tempo.

Depois do almoço, Ace seguiu o carro de até o estúdio, onde me deixou e disse que levaria o carro no mecânico para arrumar o vidro que quebrou no sábado passado. Assim que o vi ir embora, me senti ainda pior por estar sozinha com .
- Esta é a planta do prédio. – ele abriu um tubo e de dentro tirou uma enorme folha enrolada, esticando-a na mesa. – Este é o térreo. Se você quiser os outros andares, poderá pegar os outros tubos, está escrito em cada um a qual andar se refere. Minha ideia é que as salas e o térreo estejam prontos no dia da apresentação. Há várias coisas que precisam ser reformadas, mas não sei se dará tempo, então estipulei prioridades.
Pelo celular, anotava tudo calada. Não queria lhe dirigir a palavra. Não queria ter de questioná-lo, pois ele poderia me responder novamente com o abuso de seu poder.
- O primeiro andar será destinado à secretaria, escritórios, sala dos professores e de reuniões. Vamos focar toda a administração nele para que não haja problemas de comunicação depois. – apontou para um segundo tubo. – Aqui no térreo, vamos manter as aulas infantis e sala de apresentação. Há três cômodos deste lado que transformei em um para termos um grande salão. Conversei com alguns arquitetos e eles o planejaram assim. Quebrei as paredes e fiz o acabamento, mas ainda não há pintura. A lanchonete será no último andar; chamarei de Roof. Os pais de alguns alunos concordaram em pagar a mensalidade com os alimentos e bebidas, então não será difícil mantê-lo; apenas precisamos de pessoas para fazer os salgados e servir. Você está entendendo tudo?
- Estou.
- Não está com nenhuma dúvida?
- Não.
- Nem sobre qual material usar?
- Está escrito na legenda das plantas. – apontei, vendo-o perceber o mesmo.
- Bem... Os escritórios precisam ter um design moderno e descolado. As salas devem possuir pelo menos uma parede inteira espelhada para os alunos, além de lugares para as caixas de som; uma TV para cada sala e cortinas blackouts para os ensaios com roupas noturnas. As paredes já foram equipadas com materiais antissom, por isso não há com o que se preocupar. Tudo o que é relacionado à construção já foi feito. Os banheiros precisam somente ter os azulejos trocados e um design melhor. Vou cuidar da parte dos materiais de dança, já que você não deve ter muita noção do que deve ser comprado.
falou por mais um tempo sem parar novamente para perguntar se eu tinha alguma dúvida. Foi somente quando ele parou de falar e olhou para mim na esperança que eu lhe perguntasse algo, que abri minha boca:
- Como vou fazer os pagamentos?
- Alec me deu um cartão de crédito para fazer todos os pagamentos, mas há coisas que irei pagar do meu bolso mesmo. Além disso, há uma conta com os valores doados ou juntados das festas que fazemos. Poderemos gastar com conforto, desde que não haja exageros. Você deve fazer um documento com tudo o que gastar e seus valores para que eu possa aprovar e lhe dar o cartão para fazer os pagamentos. Se houver uma segunda mão de obra, tenho que saber quem entrará aqui e quanto tempo ficará.
- Tudo bem. – respondi e o aguardei me dispensar. Contudo, apenas suspirou e colocou os braços em cima da mesa, cruzando os dedos e se inclinando para falar:
- Eu sei que não começamos bem. Se está disposta a fazer o trabalho, teremos que nos dar melhor para haver uma comunicação melhor. Estou falando isso como dono desse estúdio, não como .
- Tudo bem, desde que você se desculpe por ter me chamado de vagabunda.
- Eu já me desculpei... – começou a falar, nervoso, mas, ao me ver indiferente, fechou os olhos e respirou fundo. – Me desculpe por ter me referido a você como vagabunda. Eu não quis dizer que você é uma, porque sei que não é. Satisfeita?
- É o que tenho para hoje. – falei, cruzando minha perna. Fiquei satisfeita ao vê-lo tentar se conter mais uma vez. – Posso começar por o que eu quiser, desde que seja da lista de prioridades?
- Sim. – sua voz parecia travada. Abri um pequeno sorriso por vê-lo bravo comigo. – Comece por onde quiser.
- Ok, então vou dar uma olhada nos cômodos priorizados. – peguei a planta do térreo e o bloco de caderno que ele me mostrou com a lista de prioridades e me retirei sem pedir permissão.
Quando voltei para o campus, Kendra não estava mais no quarto. Deve ter saído com seus amigos para voltar à festa. Trouxe a planta do andar térreo comigo e abri meu notebook, afim de ver lugares para comprar os móveis e materiais da reforma. Pela primeira vez desde minha vida passada, não pensei nos meus estudos ou nas notas que terei de manter nos testes de avaliação que virão na semana depois dessa imensa folga. Mantive a mim mesma acordada por várias horas, os olhos grudados no meu notebook; sem perceber, estava aguardando o carregamento de um vídeo do Youtube. O vídeo era uma gravação caseira de uma das apresentações do estúdio de dança. Logo que o som preencheu meu quarto, pude ver parado no meio de um palco improvisado. Ele não parecia se preocupar com a falta de estrutura do palco ou da iluminação; a música parecia estar boa no ambiente e as pessoas demonstravam sua ansiedade e animação em vê-lo dançar através de gritos, palmas e assobios.
Parecia um pássaro voando livre acima da selva. Um imenso pássaro, com asas largas e penas negras e brancas cobrindo sua extensão. Os olhos, fechados, completava a expressão sofrida da música dramática que tocava. Mesmo sozinho, não era necessário muito mais para satisfazer toda a performance. mexia seu corpo em um ritmo além do normal. A sensação era de estarmos somente eu, ele e a música. Quando pedi para reproduzir novamente o vídeo, pude perceber que as pessoas no vídeo mantinham-se caladas, provavelmente tendo a mesma sensação que eu. Abri a boca, chocada com sua delicadeza e na maneira como deslizava de um lado para o outro como um pássaro.
Continuei olhando para a tela mesmo depois da música ter finalizado e o vídeo parado. Eu nunca poderia imaginar que ele dançasse tão bem. Claro que sei que ele é bom ou ótimo, afinal, ninguém pior do que todos os dançarinos do estúdio seria qualificado para ser o líder; entretanto, o que vi no vídeo era algo próximo à perfeição. Não entendo muito de música e dança, mas ser leiga não justifica negar que ele é um ótimo dançarino. Uma pessoa que ama a dança. Que ama o que faz.
Aperto os lábios, sentindo uma ponta de inveja apertar meu peito. Amar o que faz. Olho para o lado, onde os post its coloridos e organizados por ordem de importância estavam intactos pela primeira vez por mais de um dia seguido. Jamais imaginei que elas fossem significar tão pouco agora. Suspirei e espreguicei meu corpo, tentando acordar daquele transe. Achei que ficaria perdida somente nos olhos profundos de , mas me enganei. Solto uma breve risada, ligeiramente irritada comigo mesma; , de repente, se tornou uma pessoa interessante. Insuportável, mas interessante.

Capítulo 5

Os dias que se seguiram foram tão insuportáveis quanto os dias anteriores. Até quinta-feira dividi meu tempo entre meus deveres no trabalho e meus estudos; corri pela cidade com o mínimo de dinheiro que conseguia economizar à procura de mão de obra e materiais para a reforma solicitada por . Se na época próxima aos testes meu sono era limitado apenas algumas quatro ou cinco horas, deveria me acostumar a ter esta quantidade de sono por um bom tempo se quisesse continuar na sala S e receber dinheiro para pagar meus estudos.
Kendra voltou ao dormitório no final do dia. Jogou sua bolsa de couro em sua cadeira, na escrivaninha ao lado da minha e se jogou de cara em sua cama. Ignorei sua presença, pois estou focada demais em terminar de estudar direito civil. Deveria criar um bom argumento para a próxima aula prática, na segunda-feira depois da semana do saco cheio. Se fosse uma aluna normal, poderia esperar que os estudantes ainda estivessem de ressaca e não poderiam elaborar bons argumentos contra os meus, mas todos sabem que os alunos S não são os 10 melhores por puro dom. Nós nos esforçamos muito para nos mantermos aqui. Enquanto alguns passam as manhãs e parte da tarde estudando, nós perdemos as noites, madrugadas, finais de semana e, no caso de Gillian, o primeiro lugar, as férias. Por sorte, senti que estou conseguindo manter meu fluxo sem exagerar; o fato de não precisar ir até o estúdio nos dois últimos dias me ajudou a economizar o tempo da viagem para me dedicar mais aos estudos. Além disso, diminuí o tempo do meu banho e alimentação para ler mais. Uma hora de sono não fez muita diferença depois de um dia cheio, por isso, a partir de amanhã testarei diminuir mais uma hora e acrescentar mais carboidratos na minha alimentação para conseguir me manter saudável.
- Fiquei sabendo que retificou sua demissão. – a voz de Kendra saiu abafada pelo edredom. Não respondi, preferi me manter calada a expressar mais uma vez minha inimizade com o meu chefe. – As pessoas andam perguntando quando você irá aparecer no estúdio. – continuei a ignorando. Não tenho o menor interesse no que todas as pessoas daquele lugar pensam. Dinheiro. Preciso do dinheiro. Ele deve ser meu foco para conseguir suportar toda a humilhação. – Hey, estou falando com você, sabia? É má educação ignorar uma pessoa quando ela está falando.
- É mais mal educado atrapalhar alguém que está concentrada em seus estudos. – retruquei, finalmente virando minha cadeira para olhá-la. Kendra havia virado o rosto e olhava para mim. Solto o ar e balanço a cabeça, voltando minha atenção para meus estudos.
- Vamos jantar juntas.
- Não, obrigada. Não caio na mesma duas vezes.
- Estou falando sério agora. – ouvi se mexer. – Sei que você tem memória fotográfica e só estuda para ter certeza de que não irá esquecer nenhuma informação possivelmente importante para o teste de avaliação.
- É verdade. Eu tenho memória fotográfica. – voltei a girar minha cadeira, vendo-a agora sentada. – Pode não parecer, mas nós do S queremos chegar ao primeiro lugar. Não queremos ter ninguém à nossa frente.
Kendra soltou uma risada.
- Tudo bem, sei que você está empenhada a conseguir uma bolsa na mensalidade. Mas estou sendo sincera quando digo que gostaria de jantar com você como uma companheira de quarto de verdade; sabe, falar sobre nós.
- Foi mandada a se aproximar de mim? – perguntei, levantando uma sobrancelha. Pela sua expressão, vi que se sentiu ofendida; contudo, como uma boa aluna, pensou antes de se expressar:
- Tudo bem. Eu mereci essa. E provavelmente mereço também não ter sua confiança, mas gostaria de tentar mais uma vez.
Não a respondi. Olhei em seus olhos e me lembrei sobre dizer que sou uma péssima pessoa em analisar outra pessoa. Me pergunto se devo concordar com ele. Pode ser que minha falta de contato com outras pessoas ou o fato de não ter um círculo de amizade seja prova de sua hipótese. Enfim suspiro:
- Não desistir é uma qualidade importante para um profissional da área de direito. – falei baixo, vendo-a abrir um pequeno sorriso.
- Saber quando investir em algo também. – concordei com sua afirmação. – Gosta de comida asiática? – se levantou ao ver-me fechar meu livro e colocá-lo de volta à pilha de livros em pé em minha mesa. Levantei os ombros, mostrando que não havia problema para mim. – Ótimo, então vamos.

Olhei para o ambiente do restaurante que estávamos. Não me parecia estar de acordo com as leis atribuídas pela Vigilância Sanitária, mas não devo questionar as escolhas das outras pessoas, a não ser que elas me solicitem opinião. Contudo, o lugar realmente não me parece dos melhores, mesmo estando cheio.
Localizado em um beco, não há placa para identificar o local como um restaurante. A porta de ferro fechada espanta qualquer pessoa que gostaria de comer um lugar calmo, tranquilo e higiênico. As luzes estavam tão baixas que era difícil ver os rostos das pessoas sentadas às outras mesas; não há ninguém para nos receber e nos direcionar a uma mesa. Kendra pareceu já estar acostumada e não demorou a andar até um canto mais vazio do restaurante, uma mesa próxima ao bar. Sentei no banco estofado da mesa de quatro pessoas e aguardei o cardápio que nunca veio. Kendra pediu minha refeição por mim, confirmando antes se tinha alergia a algo em específico.
- O lugar não é dos mais arrumados, mas a comida é muito boa. O preço também vale a pena. – explicou ao me pegar analisando o locar de cabo a rabo. Assenti, sem saber se deveria confiar nela.
- Como encontrou este lugar?
- É um dos points da galera. Você sabe. Que tem menos condições financeiras.
Ela estava me mostrando os lugares que terei de comer futuramente. Não poderei me dar o luxo de comprar as comidas congeladas das lojas de conveniência no qual estou acostumada, ou comer no refeitório do campus. Teria de sair e vir a restaurantes escuros e sujos, localizados em becos perigosos para me manter nutrida. Estar nos Estados Unidos não me pareceu nada vantajoso com relação à São Paulo agora.
- Então – ela voltou a falar, chamando minha atenção de volta para ela. -, acredito que faz parte do processo da amizade, nos conhecermos melhor. Tudo o que sei de você é que não é daqui, é uma escrava dos seus pais e está prestes a se unir à maioria da população mundial, tornando-se uma classe baixa. Ah, e é uma obsessa por estudar, mesmo tendo memória fotográfica.
Ouvindo-a falar, não me parece uma vida boa. Mesmo que as palavras sejam rudes, o pouco que conheço de Kendra me faz saber que ela não tem a intenção de me ofender. Se tivesse, ela não me machucaria com palavras.
- Eu tenho um namorado. – falei, como se aquilo fosse mudar sua opinião sobre mim. A vi levantar uma sobrancelha, ligeiramente surpresa. – Vamos fazer cinco anos no começo do ano que vem.
- Cinco anos? Você tem um namorado a cinco anos? – ela perguntou, descrente da possibilidade. – Ele não vem te visitar?
- Bem, ele não possui a mesma situação financeira que a minha. Está ocupado finalizando os estudos para poder ser efetivado e ganhar mais no seu estágio. – falei. – Ele é uma pessoa muito centrada.
- Quero ver a foto dele. – apontou para meu celular guardado em minha bolsa. Sem pestanejar, peguei o celular da bolsa e abri a única foto que tinha dele e mostrei para ela. – Uau. Estou chocada. – ela disse. – Não tem fotos de vocês dois?
- Não somos muito de tirar fotos juntos.
- Mas nenhuma foto? – por um segundo, pensei que ela fosse estúpida. Estou com o celular aberto em sua frente e me viu selecionando a imagem dentro do álbum. Não havia outra foto de pessoa ali dentro, só aquela. Entretanto, pensando melhor, me lembrei sobre Helena dizer sobre nós dois não parecermos um casal. Não transamos e não tiramos fotos juntos. Depois de cinco anos de namoro, é normal que pelo menos tivéssemos uma foto para me lembrar do quão feliz sou ao seu lado. Aparentemente, estar solteira e estar com Gabriel me parece a mesma coisa. – Seus relacionamentos são tão esquisitos quanto você. – Kendra quebrou meus pensamentos, ao ver que eu não respondia seu choque. – Me fale sobre ele.
- O nome dele é Gabriel. – comecei, vendo-a concordar com a cabeça e receber nossas bebidas por mim. – Ele estuda engenharia e trabalha tanto quanto eu estudo para conseguir juntar um bom dinheiro.
- Pare! – ela levantou uma mão. – Que-chatice! – exclamou. – Sem ofensas, mas seu namorado parece tão chato quanto você! Quais são seus hobbies? O que se dão de dia dos namorados e Natal? Quantas vezes transavam por dia?
Corei ao ouvir a última pergunta e desviei meu olhar dela para um grupo de asiáticos que falava em alguma língua oriental. Riam e bebiam goles de cerveja sem parar.
- , vocês transam, não é? – Kendra perguntou, receosa pela resposta. Assim que voltei a encará-la, sabia que ela saberia a resposta. – Não acredito! Nenhuma vez? Você é virgem?
- Fale baixo! – coloquei a mão em sua boca, olhando para os lados. Ninguém pareceu se importar ou ouvir sua surpresa, mesmo assim, me senti exposta demais. Kendra estava boquiaberta e seus olhos muito arregalados. Eu sabia que sua reação seria exagerada, mas não tanto. – Nós só...
- Você tem medo?
- Não! – exclamei. – Não tenho medo, é só que, bem, somos pessoas conservadas.
- Ah, entendi. Vocês têm aquela promessa de só transarem depois de se casar...
- Não! Não fizemos uma promessa, não uso anel da castidade! – levantei minha mão e a vi voltar a ficar surpresa. – Eu não sinto que devo transar sem estar no clima, só isso!
- . Vocês vão fazer cinco anos. Tem noção de quanto tempo é isso? Cinco anos? É tempo pra caralho! – arregalei os olhos ao vê-la falar o palavrão. – Cinco anos é tempo o suficiente para você saber pelo menos se quer ter filhos dele! Você acha que ficará grávida por trocar olhares com seu marido? Precisa de um pau e uma vagina para fazer acontecer!
Não disse nada. O nível da conversa está baixo demais para eu saber retruca-la. Não estou acostumada a ouvir tais palavras rudimentares e não sei como ela está acostumada a ser respondida, mas o melhor para mim é me manter calada observando sua inconformidade. Kendra continuou falando sobre sexo até nosso jantar chegar; admito ter perdido um pouco da fome que tinha depois de saber detalhes sobre suas relações com Hans, mas o fato de estar tendo essa conversa com uma garota me fez sentir como se estivesse de volta na época da escola. Estava sentindo falta de ouvir garotas falando sem parar de seus relacionamentos.
- Seus pais não te ligaram mais? – ela perguntou durante a janta. Concordei. – O que eles falam?
- Eu não atendo. – respondi. – Não acho que estou preparada para falar com eles. Não quero ter de ouvi-los inventar desculpas para se justificarem ou ignorar meu sofrimento e perguntar se eu já encontrei um novo emprego.
- Isso justifica sua frieza com as pessoas. Caramba , veja bem, eu não venho de uma família de pessoas boas, mas nem por isso elas são tão filhas da puta como os seus pais. Tenho a intenção de ofendê-los, porque eles não me parecem nada legais.
- A verdade... – comecei a falar, tomando um gole do meu chá gelado. – A verdade é que não discordo de você. Meus pais não são bons exemplos de pais; vim para cá para ter um pouco mais de liberdade. Você pode achar que estudo por obrigação, mas eu gosto. Quando no Brasil, eles me obrigavam a fazer aulas de aeróbica e etiqueta; eu odiava. Queria voltar para casa e ler livros. A única coisa que os fazia parar de mandar em minha vida, era quando inventava que tinha de estudar para alguma prova. Eles não sabem da minha memória fotográfica, por isso, nunca me repreenderam quando fingia querer estudar mais.
Ficamos caladas sentindo o luto da falta de carinho familiar que recebi durante minha infância e adolescência. Quando penso em quantos momentos de alegria tive, posso somente dizer com certeza que foi quando recebi minha carta de Harvard. Saber que poderia viver uma vida sem limites era minha alegria, contudo, mesmo mudando para os Estados Unidos, continuei com a mesma rotina que meus pais impuseram desde quando eu era criança. Vindo para outro país descobri que estou velha demais para querer sair da minha zona de conforto; ninguém nunca diria que meus próprios pais me fariam sair dele por obrigação. Mesmo tendo aumentado meu círculo de amizade de zero para um e meio – Kendra ainda não conseguiu conquistar 100% da minha confiança e Ace é melhor do que qualquer amiga que tive durante a época do colégio -, ainda sinto repugnância pelos meus pais. Não estou feliz com amizades novas como deveria; tampouco estou feliz de estar nos Estados Unidos. Talvez se estivesse no Brasil, teria observado de perto os problemas que eles enfrentaram e conseguiria ter se precavido com Gabriel.
- Você bebe? – Kendra balançou uma garrafa preta em minha frente. Nego com a cabeça, mas ela ignora. – Beba um gole disso. É amargo no começo, mas depois fica doce; faz bem pro coração. Você sabia que as mulheres devem beber uma taça de vinho por dia?
- Você bebe bem mais do que uma taça de vinho por dia. – falo, bebericando um gole do álcool e fazendo uma careta logo em seguida. Quem diria que uma pequena quantidade de líquido fosse tão forte ao paladar?
Ouvi a risada de Kendra.
- Uma mulher prevenida vale por duas. – faz um ‘v’ com os dedos indicador e anular e serve a si mesma com uma quantidade que era o triplo do que havia em minha taça. Por uma fração de segundo, agradeci mentalmente pela sua consideração, mesmo achando que não irei ingerir tudo o que me colocou na taça. – Agora vamos falar sobre coisas felizes. – ela sorriu, apoiando seus braços na mesa. – Você acha que conseguirá finalizar o prédio até o dia da apresentação?
- Hum, há uma grande possibilidade de atrasar, mas estou analisando alguns profissionais que estão interessados em dinheiro, principalmente porque estamos no final do ano e todos começam a pensar no extra para os presentes natalinos. Consegui alguns pintores, mas os vidraceiros estão bastante caros.
- Achei que não tivesse limites.
- É o que ele diz, mas se há uma possibilidade de pagar mais barato, por que não?
A comida era extremamente gordurosa; não sei como conseguirei digerir toda essa gordura a partir de agora, mas irei procurar na internet, maneiras de ser saudável com pouco dinheiro. Não deve ser difícil, afinal, para se fazer uma salada não é necessário energia, tampouco gás. Pedi um chá verde assim que senti meu estômago reclamar do excesso de porcarias; disse que estava satisfeita quando Kendra perguntou se eu não iria mais comer. Sempre tive vontade de ter estômago forte, mas há algo nele que me faz ser uma pessoa saudável sem exatamente querer.
- O que você acha de ? – Kendra surgiu com o assunto de repente e não pude evitar de lhe mandar um olhar feio, como se ela já não soubesse minha opinião sobre meu chefe. – Não é possível que você não o ache nem um pouco, nem um pouquinho – fez um tamanho minúsculo com os dedos e até chegou a fechar um dos olhos para se expressar melhor. – atraente. Quero dizer, todas as mulheres e gays presentes ali já sonhou em dividir uma cama com ele, nem que fosse por uma noite.
- Há várias garotas que conseguem dividir um carro com ele por alguns minutos. – falei, me lembrando da terrível cena que presenciei indiretamente há alguns dias. Por sorte havia parado de comer; a combinação da cena com a comida gordurosa não me faria bem.
- Quem? Me fale! – Kendra se inclinou para cima da mesa. Levantei meus ombros, demonstrando que não sabia. – Você definitivamente deve começar a se enturmais mais, pelo menos para decorar o nome das pessoas. É uma pena que ainda não tenhamos uma ficha com fotos e nomes para você; seria de grande utilidade. Sempre quis saber qual o tipo de .
- É fácil. – falei, vendo-a levantar suas sobrancelhas, surpresa. – As vagabundas.
Kendra riu.
- Você fica bastante cômica falando ‘vagabunda’, mas até que pegou bem. De fato, o sempre teve mal gosto para as garotas. Ele sempre pega as que são mais fáceis para ele, por isso é difícil saber se ele tem um tipo específico. Algumas pessoas falam que ele namorou Violet por alguns anos, mas o fato dos dois serem machos alfas em um relacionamento, acabou fazendo-os rapidamente se separar.
- Machos alfas?
- Quando duas pessoas querem mandar num relacionamento. Geralmente os homens tomam atitudes, as mulheres decidem, mas quando os dois querem fazer as duas coisas descaradamente, acabam se separando. – ela mexia seus pauzinhos ‘hashis’ encenando uma relação. Concordei com a cabeça, entendendo seu ponto. – Mas diga, você nunca pensou no quão bom ele deve ser, hum, beijando?
- Não. Não tenho o menor interesse nele. Estaria muito melhor se não o tivesse conhecido. Ele dança bem, é um fato, mas não gosto de homens que acham que são os donos do mundo. Não é porque sou mulher que preciso indefesa e ingênua.
- Você é bastante ingênua.
- Não assim. Você me entendeu. – revirei os olhos e ela riu mais uma vez. – Não entendo como uma pessoa pode ficar com outras a ponto de transar sem compromisso.
- Você é mesmo bastante quadrada. Até Gillian transou com mais pessoas que você, e ela não é nem um pouco atraente. Não é nem ‘bonitinha’, sabe? Uma feia, arrumada.
Ri com sua expressão. Bonitinha se tornou uma ‘feia, arrumada’. É interessante e tem cabimento. Na época do colégio, quando alguém não queria machucar a amiga logo que ela apontava para sua nova paixão escolar, falava-se que ele era ‘bonitinho’; imediatamente todo mundo sabia que ele não era lindo.
- Gabriel é um cavalheiro. – protegi meu namorado, vendo Kendra fingir que estava vomitando. – Isso foi rude. Algumas pessoas não se importam de serem virgens para seus companheiros.
- Sim, as pessoas que possuem promessa de castidade. Que eu saiba, você não tem essa promessa, o que faz de você uma tola vivendo no século 21. Pode ser que você não esteja errada em guardar sua virgindade para o Gabriel – ela disse logo que me viu fechar a expressão. -, mas nada muda o fato de ser uma grande careta.
- Você está querendo me dizer que traição não é mais um pecado?
- Bom, grande parte da sociedade acha que sim, mas para aqueles que possuem valores mais liberais, a traição não é visto como uma traição em si, mas sim uma maneira de renovar as energias, não se desgastar no relacionamento, se sentir mais à vontade sexualmente com o parceiro...
- Pare! Isso é... Repugnante! – levantei minha mão para ela. – As pessoas se relacionam e se casam pensando que serão felizes para sempre. Fomos criados para dedicar nossa lealdade com um companheiro, por que esse conceito mudaria apenas porque mudamos de centenário? Não é errado ver casais de idosos que se casaram e dedicaram-se um ao outro. Todos dizem que querem ter alguém com quem possa envelhecer junto, mas acabam traindo seus companheiros na primeira oportunidade que existe. Trair machuca nossos sentimentos, nosso orgulho. Não é uma coisa boa, não é uma renovação de energia. Isso é ridículo!
- Tudo bem, temos opiniões opostas. Não vamos falar mais sobre isso. Você não vai perder sua virgindade com alguém que não seja Gabriel e eu não vou transar somente com Hans pelo resto da vida. Fim.
Mesmo querendo retruca-la, o fato dela ter posto um ponto final da discussão me fez entender que ela não queria brigar. Eu devo ter me exaltado um pouco, mas me lembro de todo o sofrimento estampado no rosto de Gabriel quando seus pais se separaram e toda a dor que causam até hoje com affairs não confirmados e filhos ilegítimos. É horrível. Traição só traz dor.

A quinta foi agitada com relação à quarta. Mesmo eu não correndo pela cidade à procura de mão de obra barata para a reforma dos primeiros andares e o Roof, o fato de ter combinado encontro com os profissionais que toparam dar uma olhada no prédio me fez ter menos tempo para estudar e mais tempo para gastar conversando com eles e tentando negociar um valor justo. se intrometeu no meio de minha negociação, mas como o dinheiro veio de seu bolso, não expus minha opinião ao ver dois dos oito homens saírem insatisfeitos e sem acordo algum.
- Você devia saber pelo perfil deles que eles esperavam lucrar mais de dois mil com uma simples pintura.
- Bem, eu disse que não pagaria mais de 1.000, porque não era o prédio inteiro. – entrei atrás de si em sua sala, observando-o dar a volta em sua mesa e sentar em sua cadeira.
- Até 1.000 dólares é muito para esses caras que ganham 200 por um trabalho de final de semana.
- Bem, então talvez seja melhor você correr atrás da mão de obra, porque está bastante claro para mim que não sei distinguir quem concorda em receber 600 reais para pintar um andar inteiro ou não. – cruzei meus braços.
- Você irá sempre discutir comigo? Não consegue tomar como aprendizado?
- Talvez se você soubesse como usar sua tonalidade de voz, eu poderia interpretar que está tentando me ajudar; no entanto, atrapalhar minha negociação e pedir para eles se retirarem quando não aceitaram 600 dólares não é a melhor maneira de demonstrar ensinamento.
Nos calamos, encarando um os olhos do outro. Suspirei, exausta.
- Se você irá reprovar tudo o que faço, por que quer que eu corra pela cidade procurando opções para você? Gastei três dias correndo atrás e selecionando profissionais que possuem currículo—
- Eu não preciso de pessoas com currículo. Preciso de pessoas que façam um bom trabalho por um valor baixo.
- E onde você acha que encontrará essas pessoas? Quer importar chineses ou mexicanos? Há milhares deles loucos para pisar em terras americanas! – apontei para trás. – Se você quer pagar pouco por um trabalho, então não me diga que poderei gastar com conforto! Diga que tenho um limite! Diga que um trabalho de pintura de um andar vale 600 dólares!
Me senti envergonhada ao não vê-lo me retrucar. Manteve-se calado, me encarando sério, como se pensasse em uma boa resposta para me dar. Mas ele estava errado; estava errado desde quando não me orientou com limites de valores. Ao ver que ele não diria mais nada, pedi licença e saí de sua sala, indo até o quarto andar, onde uma música tocava extremamente alta. Não sei por que colocaram paredes antissom se todos deixam suas portas das salas de aula abertas.
A terceira porta mostrava uma sala mediana, onde duas paredes eram cobertas por espelhos recém-polidos. O piso estava encerado, mas possuía diversos riscos das solas que pisavam e rodopiavam em cima. Um grupo enorme de homens e mulheres se aqueciam ao som de Christina Aguilera. Ace estava ali em um canto conversando com algumas garotas, mas não ousei interrompê-lo. Não sei os horários de aula, mas sei que ele trabalha na parte da tarde.
Encostei na parede oposta da porta para observá-los dançar. Assim que Ace anunciou o início do treino, as pessoas o obedeceram rapidamente, colocando-se em seus lugares em posições iguais. Quando a música iniciou com uma forte batida e o primeiro dançarino pulou como um canguru de tão alto, vi que eles eram um grupo mais experiente. A música era rápida, fazendo os passos parecerem impossíveis de serem feitos por uma pessoa como eu. Fechei minha boca ao ver de longe meu reflexo surpreso no espelho.
Sempre achei que quem dançasse fizesse porque gostava. Não há muitas pessoas no mundo que não goste de música, muito menos que não arrisque dar alguns passos, mesmo desengonçados. Contudo, assistindo o movimento de seus corpos e me lembrando de algumas lições aprendidas na aula de etiqueta, quando aprendíamos a nos portar em conversações públicas, palcos ou na mesa de jantar, a professora sempre insistiu em firmar em nossas cabeças que a mensagem corporal era fundamental para o sucesso. Aquelas pessoas se movimentando juntas em passos iguais e sincronizados não pareciam gostar de dançar. Elas parecem amar.
Escorreguei encostada na parede até me sentar. Observei o grupo treinar a mesma música cerca de seis ou sete vezes seguidas para então pausarem para beberem algo ou beliscarem algum lanche que alguém havia trazido.
- Olha só, a mesquinha está aqui. – uma garota anunciou meu apelido ao me ver levantar e limpar minha jeans.
- O que você achou, mesquinha? – uma das garotas se aproximou de mim com o grupo de amigas ao redor.
- Vocês dançam extraordinariamente bem. – concordei com a cabeça e as vi rirem de mim.
- Extraordina, o quê? – alguém disse dentro do grupo. – Ela é escrota.
“Escrota?” Pensei. Escrota não é uma boa palavra para se dirigir a uma ‘pessoa’, principalmente a uma que acabou de elogiá-la.
- Eu sei que nós mandamos bem, mesquinha. Para alguém como você, qualquer um nesse grupo dançaria bem, mesmo com a Laurie errando o mesmo passo todas as vezes. – ela olhou para uma garota mais alta, parecendo mais desengonçada, que revirou os olhos e lhe falou um palavrão.
- Qual o papo com a minha amiga? – Ace se intrometeu na conversa, passando o braço por meus ombros. – Tania? – ele sorriu para uma das garotas. As vi se entreolharem.
- Amiga? Ace, você precisa filtrar melhor suas amizades, cara. – uma morena com os cabelos curtos e vermelhos disse.
- Ela acha que falando como os ricos irá nos inferiorizar, mas essa guria está muito errada! – a tal de Tania disse. Abri a boca, chocada por ter sido mal interpretada.
- Eu não...
- não machuca sequer uma formiga e olhem só vocês, todas ofendidas. Aposto que não entenderam bulhufas do que ela disse e acham que foi um xingamento de alguém da S. – Ace riu. – Mesmo sendo S, qualquer xingamento que não seja ‘energúmeno’ seria facilmente compreendido por vocês, meninas. Não a levem tão a mal.
- Não a levar a mão, ‘cê tá brincando, Ace. Se quiser comer a garota, precisa primeiro da permissão do .
- não tem nada a ver com a minha vida. – achei bom deixar claro, mas pela reação de Ace e as risadas das garotas, não deveria ter aberto minha boca. Elas se afastaram entre risadas e olhei para meu ‘amigo’, que me olhava sem graça. – Por que elas riram?
- Você acabou de dizer que nós estamos em um relacionamento aberto.
- Somos amigos. – disse, ainda não compreendendo seu pesar. Talvez ele tivesse dito para apenas espantá-las de perto de mim?
- Não, . Você concordou quando elas disseram que eu quero te comer.
Arregalei meus olhos, abri minha boca e pensei em correr atrás delas para me corrigir, mas ele riu.
- Não se preocupe, elas sabem que não é verdade. Não me leve a mal, mas você não faz muito meu tipo. Eu gosto de curvas, entende? – faz o formato de um violão com as mãos e solto uma risada. – E como vão as preparações?
- Não vão. não aprova nada do que faço. Me pergunto se ele realmente precisa de mim ou se só me quer aqui para me humilhar em cada oportunidade que encontra. – volto a me encostar na parede e Ace suspira.
- Ele só está sentindo a pressão de começar a colocar a mão na obra.
- Mas ele não está colocando a mão na obra. O trabalho dele até agora é me interromper e dispensar todo mundo que eu tento trazer para fazer a reforma.
- Vou ver o que posso fazer para te ajudar. Ultimamente o humor dele anda tão negro que nem Violet consegue suportá-lo.
Solto o ar, mostrando exaustão em ter de lidar com ele por muito mais tempo que Violet. Observei as pessoas entrarem e saírem da sala cumprimentando Ace, mas me ignorando.
- Por que todo mundo me odeia? Só porque sou ou era rica?
Ace colocou as mãos na cintura, pensando em como poderia me responder a pergunta. Ele mesmo não parecia saber como se expressar, até que me chamou com um dedo para dentro de uma sala vazia. As paredes antissom seriam uma boa agora.
- Não é que elas não gostem de você, algumas realmente tem preconceitos contra pessoas ricas, assim como ricos possuem preconceito contra os menos afortunados, mas você não tem culpa de nada, é só que elas passaram por maus momentos com pessoas ricas e a imagem acabou generalizando. Os alunos de Harvard entendem melhor sua posição, mas não tentam ajudar porque também estão tentando se enturmar; você deve entendê-los. – ele colocou uma mão em meu ombro.
- Não entendo por que simplesmente não me ignoram então.
- – ele suspirou mais uma vez. -, a verdade verdadeira, não me corrija, porque falei de propósito. – ele me olhou sério ao sentir me mover, perturbada pelo “verdade verdeira”. – A verdade verdadeira é que o fato de você estar sempre com as faz te odiarem. Não sei se Kendra já falou, mas as garotas são loucas por . Todo mundo é. Alguns sexualmente falando e outros não, mas ele é adorado aqui dentro. E você o trata mal, ele está sempre mal humorado depois de falar com você e mesmo assim, traz você de volta, quando todos tentam demonstrar serviço para ele, entende?
- Mesmo entendendo, eu não tenho culpa de nada; talvez de trata-lo mal e ser o motivo de seu mau humor, mas... Eu não estaria aqui se você não tivesse vindo falar comigo.
- Não deixe as pessoas saberem disso! – ele brincou, me fazendo rir. – Essa é uma verdade, mas você não deve se preocupar; as pessoas logo esquecem e com o tempo você começa a se dar melhor com elas. Kendra está se esforçando em limpar a imagem que criou de você aqui dentro. Os professores gostam de você e todo mundo acha que também, por isso não fazem maldades. – abri a boca para tentar interrompê-lo, mas ele foi mais rápido. – Acredite, elas conseguem ser muito piores. Mas como eu disse, você não deve se preocupar. Apenas dê tempo ao tempo. – recebi dois tapinhas em meu ombro como incentivo e concordei com a cabeça para mostrar que aceitei sua sugestão.

Depois de minha conversa com Ace, decidi continuar assistindo aos treinos do grupo que havia dado um tempo para descansar e o grupo seguinte de Bob. Ele me pareceu ser uma das pessoas que me atura porque precisa, mas duvido que sua razão em não gostar de mim seja porque tenho um relacionamento próximo de ódio com .
- Então, S, como você se sente se tornando pobre? – sua primeira fala me chamou a atenção. Quando me deparei com seu olhar, vi que ele estava propositalmente tentando me tirar do sério. Levantei meus ombros e respondi de forma simplória:
- Da mesma maneira que você se sente quando entra na minha sala de aula. Aquilo pareceu calá-lo. O vi soltar uma risada nasal e cruzar os braços, apoiando-se na mesa em que eu estava sentada dentro da sala de dança. Não olhou para mim, mas pude sentir que sua atenção ainda era minha.
- Você sabe por que está aqui? – ele perguntou.
- Porque eu e precisamos de coisas que somente eu e podemos fazer um pelo outro. – olhei para ele com minha péssima mania de achar que devo encarar as pessoas para demonstrar respeito a elas, mesmo não tendo respeito algum. Bob riu e balançou a cabeça: - Não pense besteiras.
- Você viu a maneira que se explicou? Como quer que não pense besteiras?
- Bem, mesmo sendo um J, é inteligente o suficiente para estar em Harvard. – levantei meus ombros, vendo-o finalmente virar seu rosto para mim com um sorriso malicioso no rosto.
- Até que para uma S, você é bem engraçada.
- Então este será meu apelido? S? Uma letra?
- Achei que os S gostassem de ser chamados assim. Uma maneira simples e eficiente de falar que vocês são melhores e mais inteligentes que o resto de nós.
- Desculpe, não estou sabendo desta teoria do egocentrismo pairando sobre minha imagem e de meus colegas de sala. Estamos ocupados demais tentando roubar ou manter nossas colocações. – Bob riu mais uma vez e deu um tapa em meu braço, de leve, como se estivéssemos nos divertindo como bons amigos.
- Sabe, sempre achei que J e S se dariam melhor do que as outras salas entre si, porque mesmo estando tão longe, somos a letra mais próxima de vocês.
- Faz sentido. – comentei. – Infelizmente, nunca conheci um J antes de você para poder lhe afirmar, mas aparentemente, você já encontrou com algum S para achar que somos tão ruins assim.
- Minha ex é S. Você deve saber quem ela é.
- Desculpe, acho que não deixei claro que fora Kendra e agora Ace, eu nunca tive nenhum contato pessoal com alguém dentro de Harvard. – olhei para Bob, que cruzou os braços e colocou um sorriso nos lábios.
- Isso me faz gostar de você um pouco mais. – apontou para mim. Não pude evitar levantar uma sobrancelha. – Gillian. Namoramos por dois anos até ela tomar a primeira colocação e achar que somos incompatíveis demais para ficarmos juntos.
Isso explica sua intenção em odiar qualquer S. Gillian não é a garota mais delicada e gentil que já conheci. Na verdade, durante os julgamentos, odeio contra argumentar com ela, porque ela sempre ganha. Há algo em sua voz que a faz sempre ter razão, mesmo sendo claro para todos que o oponente tem o favor do caso. Gillian não é o primeiro lugar de Harvard porque é uma mente geniosa; ela é a primeira porque ela é, mesmo, a melhor aluna de direito. Minha relação com ela talvez seja a mais agradável entre todas as outras 2 alunas mulheres da nossa sala. O fato de nós mantermos um contato somente para comparar respostas, discutirmos sobre a prova com os professores e sermos as únicas garotas nas cinco primeiras colocações nos faz, indiretamente, considerarmos a outra como contato relevante depois de nos formarmos.
- Eu sei que está surpresa, Gillian não é uma garota que parece que um dia teve um namorado.
- Na verdade, ela me parece bastante ter um namorado. – falei, chamando-lhe a atenção. – Gillian é muito mais sociável do que eu, por isso, do meu ponto de vista, não é impossível que ela não tenha jamais se relacionado.
Bob ficou me encarando por um tempo até seus alunos voltarem e tirarem sua atenção de minha conclusão. Nossa conversa foi finalizada ali. Até o final da aula, ele não falou mais comigo e quando foi embora, apenas disse para eu limpar a sala para deixa-la pronta para Cori no dia seguinte.
Parada no meio da sala com o rodo depois de tê-la varrido por completo, encarei meu reflexo no espelho. A essa hora, já não há mais alunos, nem professores no prédio, já que a festa na praia ainda acontece e os carros que haviam vindo para trazer os alunos de lá, voltaram. Com pelo menos o quarto andar para mim, liguei o som e não me importei de mudar o CD que agora tocava Pixie Lott. Não sei por que, mas minha memória fotográfica me fez guardar alguns passos que acho serem fáceis para minha inexperiência com a dança. Fecho os olhos e balanço a cabeça de acordo com que vou me lembrando dos passos feitos pelos alunos de Bob. Talvez eles sejam mais novos que os alunos de Ace, já que os passos eram muito mais fáceis até para pessoas péssimas como eu.
Com a mão firme no cabo do rodo, movi, com vergonha, meu pé direito, formando um semicírculo para trás. Joguei minha mão livre para o lado com leveza, sentindo cortar o vendo estagnado da sala. De acordo com que a música se tornava mais rápida, meu corpo pareceu formigar para eu aumentar meu ritmo. Mesmo errando alguns passos, não parei. Também não abri meus olhos, porque sentiria vergonha do meu corpo desengonçado se mover; o importante é achar que estou dançando como os alunos. Ouvindo a música, é como assisti-los dançar. Estou hipnotizada, meu corpo se mexe sem minha permissão e tudo o que tenho em mente é a voz de Pixie cantando com seu sotaque britânico, parece até que grita para mim “Dance mais! Dance mais!”.
Respiro o ar abafado que se formava na sala. Abro um pequeno sorriso ao imaginar a mim mesma no meio de todas aquelas pessoas, me divertindo como elas e me sentindo parte do grupo. Recebendo elogios ou até mesmo bronca por ter errado algum passo. Nunca dancei em minha vida; não uma dança coreografada. Ter meus pés seguindo uma regra é muito mais divertido do que não ter regra nenhuma em uma balada. Saber que há uma coreografia torna a música mais interessante, saber expressar a letra que é cantada faz com que me sinta como uma personagem da história da música.
Quando me lembro que na estrofe seguinte os dançarinos deveriam fazer uma pirueta em torno de si mesmo para dar então um passo de ballet, tento fazer o mesmo, mas obviamente não consegui, escorregando no chão encerado já que meus sapatos não são apropriados para a dança, mas, surpreendentemente, não caio no chão. Abro os olhos com o susto em sentir um par de mãos segurarem minha cintura e arregalo-os ao ver sério muito próximo de mim. Tão próximo que sinto o ar saindo de suas narinas. Tão próximo que me perco facilmente em seus olhos .
Ele não precisou dizer uma palavra para me fazer enrubescer ao ser pega de surpresa. Não consegui desviar meu olhar do seu, mas estou envergonhada demais para falar qualquer coisa. Esperei a ironia de suas palavras bater em meu rosto, mas não foi o que aconteceu.

Capítulo 6

- Você deve esquecer o peso de seu corpo. – explicou, sério. – O pé esquerdo deve continuar fixo no chão sendo somente a base da pirueta, a força do impulso deve vir da perna direita. – tocou minhas pernas, tirando de meu transe e me fazendo rapidamente empurrá-lo para longe de mim. Segurei o rodo que usei para encerar a sala e arrumei meu cabelo completamente embaraçado. – Você não é—
- Foi sem querer. – o cortei, desesperada para sumir de sua frente. – Não danço.
- Não é o que parece. – sua voz é calma demais. Prefiro vê-lo me debochar a ter sua compreensão. – Você dança bem.
- Não minta. Na verdade, não quero saber. Eu não danço. – repito novamente, dando-lhe as costas por estar muito envergonhada e indo desligar o som da rádio. Assim que o fiz, voltei a passar o rodo no chão com mais força e rapidez.
- , dançar não é uma vergonha. – o ouvi dizer. Não o respondi. – Você pode dançar e estudar, sabia?
- Não diga besteiras. – resmunguei. Senti sua mão agarrar meu antebraço e então me virar para encará-lo.
- Dançar não é uma besteira. Tampouco estudar. – sua voz era grave e o hálito de hortelã era uma novidade para mim. – Se você quer dançar, pode vir nas aulas...
- Não. Eu... – não sabia o que falar. Comparecer às aulas como uma aluna é impossível. Não tenho todo o talento; além do mais, as pessoas me odeiam, como iriam querer fazer qualquer trabalho em conjunto comigo? Não preciso de mais preocupações em minha vida. – Eu não danço. – foi o que consegui falar.
- Você parece estar dizendo um mantra para si mesmo. É claro que você não dança, você nunca dançou. Mas o que eu vi agora não é nada do que você está falando. Você dança, sim. E muito bem.
- Eu dancei aqui, mas não significa que eu dance. Eu. Não. Danço! – bati o rodo no chão, enervada por tê-lo me elogiando pelas qualidades erradas. Como pode uma pessoa que nunca se mexeu na vida receber elogios de um profissional, quando há centenas de pessoas loucas por ter sua aprovação?
- Prove.
- O quê? Como posso—
- Se você não sabe dançar, então prove. Quero que faça os mesmos passos que fez agora.
- Isso é ridículo, não irei fazer nenhum passo—
- Então você sabe dançar. – ele sorriu. Me calei, brava e nervosa. Ele estava fazendo isso de propósito.
- Fale o que quiser. – não havia terminado de encerar o piso, mas não o faria mais. – Eu não danço. – terminei nossa discussão, me retirando de perto dele o mais rápido que consegui. Por sorte, ele não me impediu de ir embora, tampouco pareceu se importar de eu estar fazendo hora extra.
O caminho de volta para a universidade não foi das melhores. Entre odiá-lo por querer me arrastar para o mundo da dança e me sentir envergonhada por ter dançado, nenhuma das duas situações me faz sentir melhor.

- Você dançou. – ouvi Kendra retirar meus tampões de ouvido que comprei no primeiro mês de aula, porque ela tinha costume de ouvir música do celular alto o suficiente para até a vizinha de nossa vizinha conseguir escutar. Desviei meu olhar para si, que agora se sentava em sua cama para poder me enxergar de uma maneira confortável. Não respondi, porque não queria que as palavras “eu dancei” saísse de minha boca, mesmo sua afirmação sendo verdadeira. – Você sabe o quanto está me amolando para fazê-la dançar?
- Agradeço se pelo menos desta vez você tomar meu lado como partido e me deixar em paz. Não se se você se lembra, mas o teste de avaliação é amanhã e se quiser chegar pelo menos na sala C até o final do curso, deve começar a se esforçar mais com seus estudos.
- Olha , não é por nada. – ouvi sua voz, mesmo tendo lhe dado as costas para voltar a gravar as leis fundamentais apontadas pelo professor Otler. – Mesmo você estudando, sendo uma S e tendo várias facilidades que eu não tenho aqui dentro, me sinto uma pessoa muito mais sortuda do que você pelo simples fato de eu ter uma vida social e você não.
- Bem, eu vejo exatamente o contrário. – respondi, escrevendo algumas leis sem olhar no livro para confirmar se decorei todas.
Ouvi seu suspiro, em que tenho certeza ter sido proposital para eu ouvir e vi que, como parte da lei da amizade, devo desviar minha atenção para ela por alguns segundos, até que se sinta satisfeita em falar com alguém para que então possa retornar aos meus estudos.
- Dançar faz bem para o corpo, você sabia? Conversei com Illa Winea da turma de medicina e ela disse que o corpo libera toxinas com o suor. Quando se estuda, as toxinas preenchem nosso corpo, fazendo com que percamos a fome ou nos esqueçamos de nos alimentar ou hidratar. Com a dança, podemos eliminar grande parte dessas toxinas e ter uma vida mais saudável.
- Você está inventando o nome da estudante e as vantagens de dançar.
- E daí? Faz sentido. – ela sorriu. Tenho certeza que deu essa desculpa aos pais para que eles não a atormentassem por gastar tanto dinheiro com ela e no final, tê-la ligada mais no grupo de dança do que nos estudos arduamente pagos. – Veja bem, se você dança, seu corpo não se torna sedentário.
- Achei que quisesse ser minha amiga.
- Quero mais continuar pegando Hans, você sabe, ele é um gato. E é rico. Se nada der certo aqui, ele é minha caixa forte.
- Como pode imaginar que algo dê errado, com você estudando em Harvard? - Harvard é só um nome. Claro que se você o tem em seu currículo, é facilmente colocado na primeira colocação das entrevistas; mas isso não quer dizer que você vá ser um bom profissional, que sairá empregado ou que terá uma boa vida. Mesmo que eles façam propagandas positivas sobre os alunos, esse sucesso não é referente a 100% dos graduados.
- E você acha que eu não sei? – falei, como se ela fosse tola. – Você acha que eu estudo arduamente para ser uma fracassada?
- Estou pensando com prevenção.
- Está pensando como uma perdedora. – falei séria, vendo-a levantar as sobrancelhas. Suspiro e balanço a cabeça: - Se você gosta de dançar, não a julgo, mas eu não danço.
- Não é o que disse, e não sei se você se lembra, mas ele é profissional.
Bati minha caneta em cima do caderno, como sempre faço quando erro alguma resposta que deveria decorar corretamente. Viro minha cadeira na direção de Kendra e digo, rude:
- Estou cansada de você e e todos ali acharem que sou uma tola que pode ser facilmente manipulada. Estou cansada de ter uma opinião e não ser aceita porque ela não condiz com as crenças e opiniões de vocês. Eu estou trabalhando pelo dinheiro; minha intenção é de dar o fora e me afastar de todos assim que terminar o curso. Eu não danço. Não gosto de dançar e estou começando a odiar todos que dançam!
Kendra não soube o que responder por alguns segundos, provavelmente surpresa por finalmente me ver demonstrar algum tipo de aborrecimento. Não gosto de explodir assim, mas ela e todos estão sendo injustos demais comigo. Posso não ser tão sensata com relação à vida, mas estudo muito para saber quando as pessoas estão abusando de minha boa vontade. Ouvi o ar pesado sair por seus lábios e soltar um riso nasal, pegando sua bolsa de retalhos e se retirar do quarto.
Fecho os olhos, tendo a única possível amiga de minha vida sair sem olhar em minha cara. Não posso me sentir mal por perdê-la, não estou errada. Estou certa. Lembro o que o doutor Richie disse sobre meu desempenho nas aulas práticas: devo ser mais firme em minhas decisões se quiser me convencer e convencer aos outros sobre minhas hipóteses.

Achei que falando aquilo para Kendra, as coisas voltariam a ser como eram, mas, aparentemente, ela não me pareceu se aborrecer e continuou a falar comigo como se nada tivesse acontecido. Além disso, parecia mais fácil de se lidar; se manteve longe de mim durante todo o momento que trouxe profissionais para apresentar o espaço depois de fechado acordo para o trabalho; fiquei feliz em saber que o térreo ficaria pronto em uma semana e meia.
No campus, procurei criar laços de contato com alguns alunos que fossem ligados à arte. Reconheci alguns que dançavam no estúdio e todos se demonstraram interessados em ajudar a decorar as salas e corredores do local. Criaram desenhos que levei para no final da sexta-feira seguinte, depois de ter recebido o resultado de que não desci nenhuma colocação, tampouco subi, apesar de minha nota ter aumentado, fazendo crescer o espaço de pontos entre eu e Jason no quinto lugar. A novidade na colocação foi Gillian ter perdido a primeira posição para Yang, um chinês americano que há meses a pressionava durante as aulas técnicas e práticas.
Depois de entregue os desenhos para selecionar os que mais lhe agradar, encontrei com Bob encostado na parede oposta à sala do chefe, com os braços cruzados e um pé apoiado na parede atrás de si. Achei que ele gostaria de falar com , por isso, ignorei sua presença e me afastei dele.
- Você é bem grosseira, S. – ouvi sua voz atrás de mim e me assustei ao vê-lo vir até onde estou. – Esperei você sair e sou ignorado.
- Achei que fosse falar com .
- Nós, advogados, prezamos muito a comunicação. – reviro os olhos ao sentir sua primeira facada de nossa conversa. – Está voltando para o campus?
- Tenho algumas coisas para fazer.
- Você sabe que mesmo sendo relativamente aceita pelos alunos e pessoas do bairro, não faz do lugar menos perigoso, não é?
Começamos a descer as escadas até o térreo, onde comecei a encerar o chão do palco do anfiteatro. As cadeiras chegariam no dia seguinte para preencherem o salão com 700 cadeiras e o chão deveria estar limpo para os funcionários pregarem os móveis no chão.
- Pegarei um táxi. A empresa irá pagar. – apontei para cima, onde estava cuidando de escolher os desenhos da decoração. Vejo Bob sorrir e encostar em uma parede. – Se irá ficar, por que não me ajuda?
- Não sou pago para limpar chão.
- Nem eu. – olhei para ele, que mantinha seu sorriso irritante nos lábios e se desencostou, pegando o rodo com o pano que estava apoiado no balde. – O que você quer falar comigo?
- Sabe, conversar com você está me incentivando a tentar estudar. Se uma tola como você consegue se manter em terceiro, talvez não seja tão difícil chegar em segundo.
- Sabe, me ofendendo não fará você descobrir a razão de Gillian descer uma colocação. Principalmente depois que eu já disse que eu não sou próxima a ela. Isso mostra que mesmo sendo menos tolo que eu, ainda não é mais esperto para estar acima de mim. – olhei para Bob, que abriu um pequeno sorriso. – Seja o que for, a resposta é “não sei”, por isso, não perca seu tempo e vá embora.
- Mulheres sempre acham que nós, homens, achamos que elas são melhores amigas. – ele suspirou, cruzando o braço. – Sabe, , no seu mundinho você até pode ter razão em achar que sabe tudo sobre nós, mas na verdade, você não sabe de nada. Não vim aqui para saber a razão de Gillian descer uma colocação. Se você prestou atenção nos último ano, ela desceu de colocação várias vezes.
Revirei os olhos. Como poderia não saber, estou de olho em Gillian desde quando ela me derrotou nas aulas práticas pela primeira vez. Não tenho o costume de perder, muito menos de esquecer do rosto e do nome da pessoa que me derrotou.
- Vim aqui lhe propor uma parceria onde você fica amiga de Gillian e eu te ajudo com essa reforma.
- Você quer ajudar na reforma independente de eu estar no meio ou não. Apenas seja mais corajoso em dizer que ainda tem sentimentos por sua ex e precisa de minha ajuda. – ouço a risada de Bob.
- , ... – ele balança a cabeça. – O que eu disse sobre você achar que você conhece os homens? – devo dizer que seu corpo está tão próximo ao meu que consigo ver parte de uma tatuagem vindo de seu peitoral e subindo pela lateral do pescoço. – Quando eu disse “parceria”, quer dizer que tanto eu, quanto você precisamos da ajuda do outro para suceder o plano. Você pode achar que está tudo bem agora, mas as pessoas aqui não estão muito mais felizes em ter de te ver todo dia. – semicerro os olhos, querendo saber até onde ele chegaria com essa história. Eu sei que não sou benvinda, mas enquanto meu chefe precisar de mim e deixar isso claro, ninguém ousaria retruca-lo. – Na frente de eles podem demonstrar algo, mas por detrás de , você pode se machucar. Por isso, convenhamos – ele sorri o sorriso que meu pai intitulou de “sacana”. Via muito essa expressão no rosto dos clientes presos que ia visitar com meu pai e eles pediam para ele “dar um jeito”. -, você precisa de mais aliados senão Ace.
- E o que te faz pensar que eu quero você como aliado meu?
Bob levantou os ombros e colocou parte do cabelo que fugia do rabo preso e caía em frente ao rosto, atrapalhando sua visão sobre mim. Seus lábios continuavam curvados no sorriso “sacana” e deu um passo para trás, me dando visibilidade sobre seus braços tatuados.
- Na posição em que está, é lucro.
De fato, ele está certo.
Ace nunca teve medo de dizer a todos que gosta de mim como sua amiga, mesmo assim, ele sempre foi amigo de todos o suficiente para não estar em uma má situação quando precisava me proteger; contudo, sei que ele não pode fazer com frequência, ou as pessoas poderão começar a se afastar dele e fazê-lo perder seu posto de professor favorito do estúdio. Já Bob, as garotas gostam dele por causa do ar badboy que ele tem. Acredito que seja o efeito dos cabelos compridos e, quase sempre, sedosos. Além disso, quando fora do estúdio, ele sempre está com um cigarro preso entre os dentes, fazendo-o parecer Ben Barnes em As Crônicas de Nárnia e o Príncipe Caspian. Parando para pensar, ele se parece bem com Ben, mas com um ar muito mais rebelde.
- O que foi? – perguntou, vendo que demorei mais que o normal observando-o. Pisquei, sem graça e desviei o olhar de seu rosto. Gosto bastante de Ben Barnes, compará-lo foi um erro. Agora Bob me parece muito mais respeitoso.
- O que você quer exatamente de uma amizade minha com Gillian?
- Que ela volte para mim.
- E por que você não tenta você mesmo falar com ela?
Ouço um breve riso saindo de sua boca e ele joga os cabelos para trás com uma única mão.
- Gillian não quer ser vista perto de mim. Você já viu algum S andar com um J?
- Você poderia usar este aviso antes de falar comigo. – murmurei, mas ao vê-lo levantar as sobrancelhas, limpei a garganta. – Bem, não sou boa com amizades.
- Diga a novidade.
Me calei, vendo-o mais uma vez ser rude comigo. Pegou o rodo de minha mão e começou a me ajudar a limpar o salão.
- Tudo bem, posso tentar. Mas devo avisá-lo que se quiser minha ajuda, as coisas terão de ser da minha maneira. Gillian e eu não somos próximas senão na época das provas, por isso, pode levar um tempo para que eu consiga me aproximar dela fora dessa época sem levantar qualquer suspeita.
- Faça como quiser. – ele disse, me dando as costas e se afastando para limpar o outro lado do salão.

Eu provavelmente era a última pessoa a sair do estúdio. Suspirei, exausta ao pensar que ainda teria de ler a matéria de hoje antes de dormir, se quisesse me manter em dia com os estudos. Violet havia passado mais cedo por mim para me entregar o cartão de débito com um valor moderado dentro para pagar o táxi que viria me buscar. Agradeci mentalmente por não precisar falar com antes de sair. Olhei em direção ao segundo andar e as luzes estavam apagadas, por isso, interpretei que estava sozinha e me despedi dos seguranças, sem obter uma resposta.
No lado de fora, e uma garota loira conversavam de maneira expressiva. Tentei não ouvir a conversa, mas os seguranças pareciam não querer liberar a porta para que eu pudesse sair, por isso, fui obrigada a ser um espectador na cena dos dois:
- Achei que estivéssemos em algo, ! Estou cansada de vir até você e ao dar as costas, ver você se atracando com alguma aluna!
- Vivian, eu nunca disse que nós estávamos em algo.
- Você disse, sim! Na festa na semana passada. Caramba, , não é possível que depois de um dia inteiro transando na praia, você possa se esquecer de tudo!
Olhei para trás, achando que estava demais para eu ficar ouvindo uma conversa tão pessoal. Balancei o braço em direção à cabine de segurança, mas me arrependi assim que ouvi o barulho da porta sendo destravada. Imediatamente, e Vivian olharam para mim.
- Desculpe. – murmurei, encostando com a maior discrição possível a porta e dando as costas para fugir rapidamente de levar algum sermão por ter ouvido seus problemas de casal.
- Espere aí, , tenho algumas coisas para falar para você. – a voz de surgiu e parei, não me virando e rezando para que ele estivesse brincando. – Entre no carro.
- Vou pegar um táxi.
- Eu disse que tenho que—
- O quê? ! Estamos no meio de uma conversa! Vá embora, Mesquinha. – balançou a mão, como as pessoas geralmente fazem para pássaros e cachorros se retirarem de perto de si.
- Vivian, a questão é simples. Não existe “nós”. Nós transamos, sim. Foi bom? Foi. Mas nem toda transa resulta em compromisso. Eu não estou em um compromisso com você, nem ninguém, por isso, posso me “atracar” com quem eu quiser. Agradeceria se você parasse de se martirizar, pois só você está se machucando entre nós dois. É para seu próprio bem. – lhe deu as costas e começou a andar em minha direção, tirando a chave do bolso e apertando o botão que destravava o carro. – Anda, , achei que fosse eficiente. – disse, irônico, pegando em meu antebraço e me empurrando para dentro do carro antes que pudesse protestar.
Vi Vivian reclamar e gritar alguns xingamentos antes de virar a esquina, indo em direção ao caminho para Harvard. Aguardei pacientemente ele iniciar o que deveria falar para mim, mas não houve nenhum diálogo até depois de dez minutos eu iniciar a conversa:
- O que quer falar?
- O quê? – olhou para mim de relance enquanto dava atenção à rua.
- Você disse que havia algo para me dizer.
- Não era nada. Foi para Vivian me deixar em paz.
Dei um riso nasalado, descrente que pudesse existir, no mundo, uma pessoa tão cara de pau quanto ele. Balanço a cabeça e começo minha missão de evitar, ao máximo, ter qualquer tipo de contato visual com ele; principalmente seus olhos .
- Estou aliviada. – comento.
- O quê?
- Não sou a única que você trata como um objeto.
- Como é que é? – sua voz saiu em um tom de riso, como se não pudesse acreditar no que eu dizia. – Desde quando eu te trato como um objeto?
- Não seja tolo, , você acha que não trata, mas trata. Você não se preocupa com as pessoas sentem, apenas percebe depois que já as machucou. Só porque está em uma posição privilegiada, acha que as pessoas são obrigadas a tolerá-lo.
- Você está mesmo começando a me dar sermão porque coloquei você dentro do meu carro ao invés de fazê-la voltar a pé?
- Não, , a questão não é essa? Viu como você não se importa? Deixe para lá. – falei, exausta demais para ter de discutir com ele. Tenho que poupar o máximo de energia possível, pois tenho que estudar para a prova de desempenho que teremos daqui a duas semanas. Sempre que Gillian cai uma colocação, tenho de me esforçar mais em não me esquecer das leis que possuo mais dificuldade em gravar. Todos na sala S veem seu fraco desempenho e começam a estudar mais para que na próxima prova, tenham uma oportunidade ainda maior de subirem de colocação ou não deixarem que outros passem em sua frente.
Pela primeira vez, não me respondeu nada. Manteve-se calado, o que me deixou surpresa a ponto de arriscar encará-lo. Ele encarava o trânsito sério, parecendo um pouco pensativo. Sua testa estava enrugada, provavelmente pensando no que eu havia acabado de dizer, o que é muito bom, já que de todas as coisas que discutimos até agora, ou eu perdi ou tive de fingir que perdi para o agrado dele.
- Não vou perguntar se você está livre hoje. Mesmo sendo sexta-feira, você é a única pessoa do mundo que conheço que não tem hora para descansar ou se divertir, por isso, diga, esperneie ou faça o que quiser, mas estou te raptando. – ouvi o som de seu carro acelerar com mais força e arregalei meus olhos, vendo-o se desviar do caminho para Harvard.
- Você só pode estar brincando. – mencionei, grudando minhas mãos em seu vidro ao ver a rua que estava acostumada a visualizar quando pego carona com Ace passar em um segundo. – Isso é algum tipo de castigo por eu ter lhe dito verdades? Você viu que estou certa e está tentando se vingar de mim? !
- Eu já disse, esperneie o quanto quiser, eu não me importo. Quero que você veja uma coisa.
- Veja o quê? O que tem aberto a essa hora da noite, senão casas de dança repletas de luxúria e...
- Você já parou pra pensar que seu linguajar é um tanto ultrapassado ou avançado demais para alunos da sua idade? – parei de falar, somente porque seu comentário foi aproximadamente o mesmo que Ace fez no dia em que nos conhecemos. – Sabe o que é isso? Excesso de estudo. Não é ruim estudar o máximo que conseguir, mas você deve entender que às vezes, as pessoas só querem manter um diálogo normal, sem ter de pensar em palavras difíceis. Porque você tem essa memória boa, acaba decorando as palavras que precisa usar nas suas provas ou alunas, não sei.
Mantive minha boca fechada, porque não queria lhe dar o luxo de me ver concordar. O que ele disse é uma grande verdade. Devido minha leitura e ser toda relacionada ao curso, tenho problemas em falar gírias contemporâneas. Desvio meu rosto, dando uma chance a de me levar a um lugar que não possamos discutir mais uma vez. Hoje está sendo um dia atípico. Não discutir com ele torna o dia incomum, mas ligeiramente mais agradável.

O caminho foi tão quebrado que me perdi depois da terceira curva à esquerda. parece conhecer a cidade com a palma de sua mão. Paramos em um estacionamento praticamente lotado. Ele jogou as chaves de seu carro para o manobrista que parecia já conhecê-lo e então o vi retirar um blaser do porta-malas antes de seguir à minha frente até a saída do estacionamento. A rua onde estávamos estava muito movimentada com carros populares, mas em sua maioria, de luxo. Luzes de holofotes faziam as ruas brilharem tanto quanto a Times Square em Nova Iorque. Tentei seguir seus passos, mas ao me sentir ofegante, obriguei-o a diminuir seus passos e me esperar alcançá-lo para atravessarmos a larga avenida juntos.
- Onde estamos? – perguntei pela primeira vez. Achei que não me ouviu, por isso, perguntei novamente. – , onde estamos?
- Você logo verá. – percebi em sua tonalidade que ele parecia ansioso sobre onde quer que estejamos indo. As pessoas começavam a aparecer mais próximas umas às outras devido à quantidade que se amontoava à frente de uma casa específica. Olhei os cartazes espalhados pela parede do local e arregalei os olhos ao ver a foto de um casal de bailarinos em uma pose típica do Cisne Negro. Meus avós me levaram em meu aniversário de quinze anos para assistir a uma peça do Cisne Negro; na época, disse que queria ser bailarina, mas minha mãe acabou com meu sonho dizendo que eu deveria ter me decidido mais cedo, pois somente fazem sucesso, as bailarinas que começam desde a época infantil.
Não falei nada quando me pus no meio de todas aquelas pessoas bem vestidas. Eu, com uma jeans, alpargata e larga camisa de linho preso metade dentro da minha calça não parecia nada fina perto dos vestidos de paetê e saltos Loubotin que passam ao meu lado. Olhei para , que estava de acordo com os homens que estavam para participar do evento; uma calça social preta com uma camisa que era grudada em seu tronco. O blaser dava um ar mais esportivo, de modo que deixou claro que o evento não exigia muito dos convidados.
- Eu acho que não posso...
- Você está comigo, relaxe. – seu tom de voz me dá a intenção de que está se divertindo. Enquanto encontra com seus conhecidos, observo ao redor com atenção. Todas as luzes espalhadas pela entrada, chamando a atenção até de quem está passando à frente do local dentro do carro. Vi, assim que cheguei à porta, que o local se trata de um teatro. O espaço irá apresentar grupos de dança desde o hip-hop até o tango. Nunca havia imaginado que pudesse haver um evento de classe média-alta que trouxesse tanta diversidade em tipos de dança.
Enquanto me perdia em observar todos os detalhes do teatro, colocou a mão em minha cintura para me direcionar à entrada, onde conversou com o segurança, mostrando sua identidade e sendo facilmente permitido entrar comigo como sua acompanhante.
- Você possui mesmo um ingresso para acompanhante? – perguntei assim que passamos a porta da entrada. Ele abriu um pequeno sorriso.
- Sempre compro dois ingressos, mas na maioria das vezes chamo um dos professores, porque não tenho ninguém em especial para convidar.
Não consigo evitar corar com seu comentário. me explicou que o evento é um jantar beneficente que os clubes e grupos de dança da região se reúnem para ajudar crianças carentes. Por alguns dos clubes fazerem parte da alta sociedade, é normal que os integrantes dessa classe compareçam ao evento para mostrar à todos que eles estão contribuindo com algo. O evento começa com um jantar com música ao vivo, tempo o suficiente para se divertir e conversar. Depois de uma hora e meia, as apresentações começariam e então não seria mais possível trocar qualquer palavra – anseio por esse momento.
Caminhamos até o primeiro andar do teatro, onde surpreendentemente me vi adentrando a porta do camarote. cumprimentou alguns outros indivíduos que já estavam acomodados em suas mesas iluminadas por candelabros folheados a ouro e velas já meio derretidas apoiadas em si. Grande parte das mesas era composta por casais. Me pergunto quantas mulheres já trouxe para jantar com ele e assistir mais dança além do que já viram durante o dia e a tarde inteira no estúdio. Ao me pegar pensando tal baboseira, balanço a cabeça, espantando o pensamento inútil.
- Você deve estar acostumada a participar destes tipos de evento. – ele comentou quando sentamos na mesa. Encare-o, confusa. Se ele queria dizer que eu estou acostumada a presenciar apresentações de dança, está bastante enganado. As únicas apresentações que assisti, foram as de ballet que meus avós me levavam quando mais jovem; mesmo assim, as casas de espetáculos em São Paulo são diferentes desta.
- Na verdade, nunca vim em algo assim antes. – respondi, observando com atenção o cardápio entregue assim que me sentei. O garçom rapidamente nos serviu de um vinho branco para começar. Levantei meu rosto e vi seu olhar surpreso para mim. – Quero dizer, fui à apresentações de ballet...
- Ballet... – ele riu. – Não sei como estou surpreso.
Devido ao milagre de não estarmos discutindo com tanta frequência hoje, decidi me esforçar em não retruca-lo para não correr o risco de ser deixada sozinha neste lado da cidade, que apesar de claramente mais seguro de onde o estúdio se localiza, é mais desconhecido para mim. O garçom se apresentou a nós como Lou e disse que serviria a nós nesta noite. Ele explicou como funcionava o menu do jantar, que possuía três opções de entrada, principal e sobremesa, em que nós deveríamos escolher um de cada para nossa janta. Fiz meu pedido antes de , já que a lei da etiqueta exige que a mulher seja atendida antes.
Assim que Lou se afastou com nossos pedidos, olhei ao redor, interessada em observar o ambiente e as pessoas que passavam por nós. Percebi que somente aqueles que se encontram no camarote possuem o privilégio de jantarem antes do início da apresentação, por isso, grande parte dos outros setores se encontravam praticamente vazios. Algumas pessoas que pareciam ser importantes paravam em nossa mesa para cumprimentar e, consequentemente, eu, que tentei ao máximo não envergonhar meu chefe, algo que fiz com sucesso, já que sou graduada na turma avançada de etiqueta de São Paulo.
Durante o jantar, e eu conversamos sobre a reforma. O que já havia sido feito e que deveria de uma atenção extra por não estar da maneira que ele queria; a satisfação de determinados espaços terem gasto menos do que o orçamento oferecido e outros que precisarão de um dinheiro a mais se quiser ser deixado ao gosto de . No geral, nas duas últimas semanas finalizamos 19% do programado. A fachada externa do prédio estava em processo de reforma e combinei com que iria apressá-los para finalizarem antes do final de Novembro. Terminamos todas as combinações quando finalizamos a sobremesa. O tempo de Lou retirar nossas taças de tiramissu foi suficiente para as luzes serem apagadas e a introdução da apresentação ser feita.
A apresentação era diferente do que eu imaginava que seria. Com tantos tipos de dança apresentados no panfleto com a programação, achei que seriam somente apresentações seguidas uma das outras com um intervalo de vinte minutos para os dançarinos descansarem, o cenário ser trocado e as roupas serem rapidamente colocadas sem amassar. Contudo, assim que a primeira cena foi iniciada, me vi assistindo uma peça de teatro, onde clãs de dança disputavam sua atenção com seus movimentos ousados e sensuais. Danças com personalidades diferentes onde tinham seus dançarinos tentando demonstrar, com o poder do corpo, que eram superiores aos outros. Não consegui disfarçar minha fascinação em gostar da apresentação, de achar belas as pessoas, suas maquiagens, expressões e danças. Minha animação em assistir a peça foi tão grande, que minhas costas se desencostaram do encosto da cadeira para visualizar melhor aquele imenso grupo no palco. A história que os envolvia era impressionante; tanto que me peguei presa durante o intervalo e todo o caminho até de volta no carro de , onde o silêncio se manifestou.
- O que você achou?
Esperava que ele não me fizesse essa pergunta. O que poderia dizer? Não poderia mentir e ferir seu ego. Olhei para ele, que dirigia tranquilamente, como se não tivesse pressa de me levar de volta para meu dormitório em Harvard. Engoli seco, pensando sobre quais palavras utilizar.
- Interessante. – escolhi, mostrando que estou contida em minha fascinação, mas que meu orgulho não permitiria que cedesse às suas expectativas de encontrar uma garota que disse não dançar, adorando a dança.
- Ano passado eu fazia parte desse grupo que se apresentou. – a informação me surpreendeu mais do que a descoberta de que a apresentação não era ordinária. Virei meu rosto, boquiaberta.
- Como?
- Quis sair no início do ano passado, assim que a temporada de apresentações se acabou, para abrir meu próprio estúdio. Eu já tocava ele antes, mas achei que dedicar mais do meu tempo poderia ser melhor para todos.
- Você sacrificou sua carreira pelos seus alunos?
- Seu modo de pensar é engraçado. – ele riu. – Se apresentar aí é, de certo modo, o ápice da dança aqui no estado, mas eu já fui para outros lugares antes. Para um dançarino profissional, depois que você chega ao ápice de seus sonhos, mantê-lo e passá-los para outras pessoas é um bom futuro. Além disso, você deve saber quando sair. Esperar decair para desistir da carreira não garante nada.
Fiquei calada, pensando em seu ponto de vista. Não acredito que haverá um dia que eu desista de advogar porque acho que estou no ápice e não há mais nada que possa conquistar. Enfim, percebo que não posso comparar nossas profissões. Um dançarino é diferente de um advogado, que possui centenas de pessoas penduradas em seus pescoços para ajudá-las a ter uma vida melhor, enquanto quem dança deve se esforçar para entreter todos aqueles que entendem ou admiram a dança.
- Todos os dançarinos têm suas próprias profissões. – decidiu continuar a me surpreender. – Alguns são médicos cirurgiões, chefs gastronômicos, professores... Advogados. – olhou para mim. Engoli seco, receosa pelo caminho que ele está direcionando a conversa. - Trouxe você, porque queria te mostrar que dançar não é somente um hobby. De fato, grande parte dos dançarinos começaram suas carreiras pelo hobby, mas viram que a dança é muito mais que isso. Há pessoas de todas as classes sociais que quebram essas barreiras para usufruírem de um mesmo gosto. Ser rico ou pobre quando se dança não faz a menor diferença; o que conta para nós são os movimentos que seu corpo consegue fazer. Não estou querendo te obrigar a nada, porque sei quão teimosa você é. Mas você dança, ; não é uma dançarina caloura. Eu entendo de dança e tenho certeza que não estou enferrujado ao identificar um bom corpo maleável. – reviro os olhos e me mexo em meu lugar passageiro. – Preste atenção. Não vou insistir se você não quiser, mas você poderia tentar. Sozinha, comigo ou com Ace. Seja por hobby ou para desestressar. Isso não irá atrapalhar seus estudos. Troco horas de trabalho pela dança, se quiser.
- Você só pode estar brincando. – soltei uma risada, cruzando meus braços.
- Você acha mesmo que eu suportaria um jantar inteiro com você por uma brincadeira? Você acha que dança é uma brincadeira para mim?
Seus olhos capturaram os meus. Me arrependi assim que os encarei. não parecia estar brincando e eu não estava levando a sério seu discurso. Foi como quando estávamos no estacionamento na semana do saco cheio e ele fez pouco caso de meu desabafo. Deveria pensar que ele apenas está pagando na mesma moeda o que senti, mas sou boba demais para deixá-lo nessa posição.
- Eu não danço. – falo baixo.
- Você dança, sim.
- O que você viu em mim? Eu só imitei alguns passos que vi, não é como se houvesse qualquer sinal de profissionalidade...
- Não está perfeito. – ele concordou. – Mas esses “alguns passos” que você deu depois de ficar algumas horas assistindo os alunos dançarem são mais perfeitos do que os que eles mesmos fazem. , o que você fez os alunos demoram meses para aprender. Meses. Não estou falando de três meses, estou falando de doze, quinze, dezoito meses. Aquela sala está com Bob há dois anos e meio.
Não soube o que responder. Dois anos e meio? Para aprender uma dança? Ou um passo? Senti meu ego começar a crescer e a possibilidade de fazer alguns passos, mas logo a imagem de meu diploma apareceu em minha frente. Minha prioridade é minha formação. Nunca tive um hobby. E se não soubesse controlá-lo a ponto de atrapalhar meus estudos?
- Não posso... – murmurei. Ouvi o som de sua respiração pesar e, sem dizer nada, acelerou o carro, voltando a dirigir como um louco como sempre faz.
Quando abri meus olhos de verdade, vi que estávamos de volta ao estúdio. estacionou à frente e desligou o carro, saindo e mandando fazer o mesmo. Os seguranças que eram pagos para ficarem durante a noite e a madrugada abriram a porta automática antes mesmo de tocar a campainha eletrônica. Com um bip, o carro foi trancado atrás de mim.
Subimos até o terceiro andar, onde as salas prontas estavam sendo mais utilizadas que as do quarto andar como no primeiro dia que entrei aqui. Estávamos reformando o quarto e quinto andar, por isso, pedimos aos alunos que utilizassem as novas salas com espelhos melhores, ar condicionado e toda a estrutura perfeita para as aulas. retirou o blaser e a camisa, mostrando a regata de algodão branca cobrindo seu tronco aparentando ser formado somente de músculos. Depois de vê-lo tanto nessa vestimenta, já não me sinto mais perturbada ou sem graça. Vi mais pedaços de pele de do que de Gabriel.
ligou o som e escolheu uma música, que logo identifiquei ser aquela que dancei sem querer. Dei passos para trás até encostar na parede.
- Venha. – ele disse. Neguei com a cabeça. – Venha, .
- Não. – respondi. – Me deixe em paz.
- Você vem ou eu precisarei te buscar?
Olhei para ele, duvidando que ele pudesse fazer tal ação. Me dirigi em direção à porta da sala, mas ele rapidamente se apressou a pôr-se à frente, fechando-a e trancando.
- . Não quero.
- Você quer. – ele falou. – Você só está com medo de que isso se torne mais importante do que seus estudos. Não a culpo de estar receosa em ter suas crenças alteradas, mas você precisa saber o que gosta de verdade.
- Eu não danço. – falo novamente, tentando, uma última vez, me desfazer do aperto de sua mão. Obviamente sou fraca demais para conseguir, por isso, quando vi, estávamos no meio do salão e a música tocava como se não tivesse um final. – ...
- Se você não gostar, não irei mais insistir. – sussurrou perto de mim, devido à proximidade de nossos corpos. – Você se lembra dos passos. Feche os olhos.
Eu poderia dizer mais tarde que estava atordoada por seus olhos. Culpá-los por me fazer obedecê-lo. Fechei meus olhos e deixei que a música penetrasse em meus ouvidos e tomando conta de minha mente, de modo que meu corpo amoleceu aos poucos e senti tomar a iniciativa, segurando em minha cintura para que pudesse dar o primeiro passo.
Como antes, parecia que já fizera isso dezenas de vezes. Que meu corpo já estava preparado e acostumado com os movimentos, realizando-os sem hesitar. Às vezes, me pegava presa entre as mãos de , que me ajudava a fazer os movimentos mais arriscados, onde era necessário um parceiro que aguentasse seu peso para levantar e leva-la até o chão. Alguns passos pareciam ser os mesmos que vi na apresentação de ballet há anos. Mesmo visto a apresentação pela última vez quando tinha 15 anos, foi como se tivesse assistido ainda hoje a dança, imitando os pés firmes e empinados das bailarinas, ombros eretos e rosto erguido. Mesmo com os olhos abertos, não enxergava nada senão qual seria o próximo movimento a realizar. finalizou a dança, segurando-me pela cintura e me inclinando, de modo que dependi de seus braços fortes para não me deixar cair de costas no chão. Pisquei, finalmente enxergando seus olhos e o rosto muito próximo ao meu. Sua respiração é forte e descompassada. Não parecia achar que sou pesada, pois não fez nenhuma careta para me provocar e dizer que preciso emagrecer.
Olhei para o lado e ao ver nossa posição pelo espelho embutido à parede, limpei minha garganta e rapidamente me afastei de si, voltando a ficar em pé e me afastando, um pouco tonta, de perto de seu corpo. Tentei arrumar os cabelos bagunçados e me esforcei o máximo que podia para não encarar seus olhos; mas sei que está me encarando. Está parado onde nós dois paramos, esperando que eu diga que ele tem razão, que gosto de dançar e que se me esforçar, serei uma dançarina boa como ele. Quer que eu o obedeça e troque horas de trabalho por horas de ensaio; que me una com todos os que me odeiam para ajudar a deixar a dança ainda mais cheia e bonita.
Empurro o cabelo que caía em meu rosto para trás da orelha. Olhei para a porta, tentando mostrar para ele que quero ir embora. Começo a pensar na desculpa que darei para não vir trabalhar no dia seguinte. Sempre achei que nunca precisaria pensar em uma mentira, mas estou tão envergonhada, que não quero ter de encará-lo amanhã.
- Você dança. – ele falou. Fechei meus olhos, tentando não ouvir o que ele diz, mas é impossível. Sei que ele está certo. Eu danço. Descobri algo que não seja estudar que eu faço bem. Algo que minha memória fotográfica pode me ajudar a aperfeiçoar, como me auxilia nos estudos. Dou-lhe as costas, me esforçando em não deixá-lo ver minha vontade de concordar com ele. “Eu não danço.” Digo mentalmente para mim mesma. Não danço. Eu estudo. Tenho de ser uma advogada. Tenho um plano que fiz há dois anos, não posso desistir dele porque algo novo apareceu. Preciso subir uma colocação na faculdade, é uma responsabilidade que tenho comigo mesma. Não posso mais esperar que meus pais possam resolver as coisas para mim. Gabriel me espera no Brasil para nos casarmos e termos nossa vida tranquila e feliz. Dançar nunca esteve nos meus planos. Não é agora que deve estar.
Senti suas mãos em minha cintura e foi como se todos meus pensamentos sumissem em um piscar. Tê-las ali, seus dedos pressionando minha pele... Quero dançar. Quero mexer meus pés e ser melhor em algo além dos estudos. Quero ser impressionante como ele é e que haja pessoas que se sintam fascinadas por seus movimentos como eu estive hoje durante o jantar.
- Pare. – peço, minha voz fraca demais por estar dizendo algo que não quero que aconteça. Quero muito que ele insista mais um pouco.
Sinto sua respiração em minha nuca. Meu corpo estremece com a proximidade. Gabriel nunca esteve próximo assim de mim. Nos beijamos, mas nunca estivemos próximos o suficiente para me arrepiar dessa maneira, senão nas primeiras vezes, quando ele ainda me conquistava. Esforço minha mente em fazê-lo aparecer para que tome alguma atitude contra atrás de mim. Não consigo. Gabriel não está sendo minha prioridade agora; minha fidelidade foi quebrada ao substituí-lo de meus pensamentos por . Ele era quem estava me provocando agora, portanto, ele quem tomava conta de minha mente.
Senti seu braço direito erguer e me engano ao achar que ele fará algo. Apenas destrancou a porta e a abriu à minha frente.
- Se você não quer dançar, pode ir embora.
Meus olhos se arregalaram olhando o breu do corredor. A única iluminação vem da sala onde estamos, por isso, é mais fácil encará-lo do que ir de frente à escuridão. Engoli seco, meu corpo pronto para se mover para longe de ; o problema foi minha mente. Dentro de mim, uma voz dizia que eu deveria me manter parada com . Ali era meu lugar. Com todas aquelas pessoas. Pela primeira vez, tenho a oportunidade de participar de algo que me convidam por eu ser boa, não por serem obrigados por haver uma voz autoritária mandando. Mesmo que haja pessoas que chegam a me odiar, há mais pessoas que gostam de mim do que na época escolar. Helena é o único contato que tenho e mesmo assim, não sei se ela é alguém que posso chamar de colega como Kendra ou Ace.
Dei um passo para frente, sentindo soltar o ar em um riso nasal. Segurei a porta e, para sua surpresa, fechei-a antes que pudesse mudar minha ideia de querer sair dali e voltar a ser tratada como um objeto ou uma bactéria indesejada. Encostei minha cabeça na porta, me perguntando que tipo de loucura se passa por minha cabeça para querer fazer algo assim. Aperto os olhos, tentando voltar à realidade, mas ao voltar a abri-los, nada mudou.
Viro meu corpo e me deparo com me encarando com um pequeno sorriso. Levantou seu braço esquerdo com a mão aberta, pedindo para que eu depositasse a minha ali.
- Venha, vou te mostrar o que precisa melhorar.

Capítulo 7

Quando mostrou minha dança para os professores e os alunos veteranos, senti que todos passaram a me tratar melhor e com mais respeito. Saber que a mesquinha dançava até melhor que alguns deles fazia com que o ódio de alguns se esvaísse e de outros se intensificassem por haver mais um obstáculo na realização de seus sonhos – ou de chamar a atenção do chefe.
- Você tem mais força no seu pé direito, então tente dar os rodopios apoiados nele. – Hans disse no final da sexta-feira seguinte, depois de ter feito algumas horas de treinamento com ele a pedido de . Como esperado, Hans era ousado em seus movimentos, mas não deixou de se ver surpreso por minha facilidade em aprender a imitá-lo. Infelizmente, não entendo de dança o suficiente para arriscar passos novos por mim mesma; tudo o que faço é limitado ao que assisto-os fazer.
- Tudo bem. – falei, memorizando o aviso e olhando para minhas pernas, que parecem iguais a olho nu. Olhei no relógio, que marca o fim de meu expediente no trabalho; me despeço com um agradecimento do namorado de Kendra e saio correndo para o vestiário, onde um grupo de garotas conversavam sentadas, trajadas somente em suas toalhas. Cumprimento, sendo respondida por algumas – a minoria.
- Então, desde quando dança? – Patricia, que me lembro, se apoiou no batente do meu chuveiro, me deixando sem graça, já que seu corpo cheios de curvas bem delineadas e a pele em um tom bronzeado muito bonito, deixava o meu corpo sem graça.
- Na verdade, comecei semana passada. – falo, me ensaboando. Ouço sua risada.
- ‘Tá falando sério? – concordei com a cabeça ao vê-la não acreditar no que digo. – Como?
- Como?
- Como consegue surpreender sem nunca ter dançado?
- Não sei.
- Você não acha que isso é ofensivo para todos que treinam duro há anos?
- Acho. Não quero pegar o lugar de ninguém.
- Isso não tem nada a ver. – Patricia olha para meu corpo. – Você está em algum relacionamento com ?
- Ele é meu chefe...
- Você me entendeu. – sua voz parecia agora irritada. Inclinei minha cabeça para o lado direito, pensativa, até entender que ela deveria estar se referindo a um affair.
- Ah! Não, não temos nada! – levanto meu braço. – Não nos damos bem, vivemos brigando.
- Exatamente. – Patricia apontou para mim. – Você já viu brigar com alguém? Ele nunca provoca nenhuma mulher. Ele jamais correu atrás de alguém ou pediu para todos assistirem a uma apresentação. Nunca pediu para Hans, um dos melhores professores, dar aulas particulares a alguém.
Abro a boca, não me importando com a água que entra por causa do chuveiro aberto. Ele nunca havia feito nada disso? Sei que ele não tem o costume de brigar e ser uma pessoa pacífica, mas não vejo sua personalidade agressiva como um aspecto positivo. Preferia ser tratada como todos se fosse possível.
- Estou apenas te avisando, porque há uma das alunas que está de olho em você. – ah, então ela estava tentando me ajudar. Preciso treinar melhor minha análise corporal das pessoas. Patricia não parecia estar disposta a ser alguém próximo a mim. As pessoas deveriam sorrir quando tivessem a intenção de ajudar. – Enquanto você não é ninguém, é bom, . Mas a partir do momento que você se torna alguém aqui dentro, e um alguém que se mostra interessado, você corre mais risco do que uma pessoa normal andando na rua às duas da manhã.
Sou deixada sozinha com meus pensamentos quando Patricia sai sem se despedir ou esperar que eu agradeça por tentar me ajudar. Ao terminar de tomar meu banho, me arrumo rapidamente para voltar para o dormitório antes que anoiteça. Mesmo estando nos Estados Unidos, ainda não me sinto segura em andar sozinha e pegar transporte público depois de escurecido. Desço as escadas até o térreo rapidamente e me deparo com conversando com um grupo de alunas que pareciam ter sido retiradas direto da caixa de bonecas Barbie. Olhou para mim e então para seu relógio.
- Você não disse que faria a hora extra hoje?
- Semana que vem. – anuncio, esperando que a segurança, ainda atrasando somente para mim, abrisse a porta automática. – Estou na semana véspera do teste de desempenho. – explico, ao vê-lo levantar sua sobrancelha.
- Você não deveria ter marcado esse horário no seu calendário de trabalho? – olhei para ele, com uma expressão “mesmo?” Ele estava discutindo comigo na frente das alunas porque eu estava saindo em meu horário normal para estudar?
- Eu deveria seguir o calendário que você fez, se não quisesse tanto que eu fizesse as aulas com Hans. Deveria ter saído há quarenta minutos.
- Hey, estamos em uma conversa aqui, se você não percebeu. – a garota loira à frente disse. Murmurei um pedido de desculpas, mas não pareceu se importar, voltando a falar:
- Venha à minha sala, precisamos discutir esse seu horário. Se toda vez que você tiver prova de desempenho, sair mais cedo durante a semana anterior inteira, teremos problemas. Os pedreiros e vidraceiros ainda estão no prédio, quem está de olho neles?
- Violet. Volte para sua conversa, não quero mais atrapalhar.
- Não está, nós já tínhamos terminado.
Vi as garotas olharem para ele boquiabertas e então para mim, nervosas. Fechei meus olhos, clamando por paciência. Será que ele não percebe?
- Vamos. – ele deu as costas às garotas e subiu à minha frente.
Respirei fundo e corri para não ser pega pelas garotas, que estavam prontas para me pegarem pelos cabelos.
- , será que você poderia me ignorar quando estamos aqui dentro? Não sei se você percebeu, mas suas alunas não gostam quando você desvia a atenção delas para falar comigo.
- Não há motivo, eu já havia terminado, já disse. – tirou seu computador da hibernação e clicou em uma janela já aberta que mostrava meu calendário de trabalho. – Não posso ficar te pagando o que pago para você sair mais cedo.
- Mas estou chegando mais cedo. – falei. Ele não pode me retrucar, porque não chegava mais cedo que eu. Quando entrava no estúdio, já estou com o grupo de pedreiros orientando-os em seu trabalho. – Eu sei sobre meu banco de horas e não pretendo não cumpri-los se é isso o que lhe perturba. Será que você não poderia confiar mais em mim? Estou fazendo tudo o que manda, até decidi dançar.
- Agora a culpa é minha por você querer dançar?
- Eu sempre disse desde o início que não queria. Você me convenceu, agora deve enfrentar comigo minhas dificuldades.
sentiu a responsabilidade. De um tempo para cá temos discutido com menos frequência, mesmo nos encontrando sempre dentro do estúdio. Mesmo assim, algumas vezes, como agora, é impossível deixarmos nossas diferenças de lado. Nossa relação já virou piada entre os professores do estúdio, que depois de me verem dançar, se sentem mais confortáveis perto de mim; principalmente para criticar meus passos e exigirem melhores performances em meus ensaios.
Kendra e eu também estamos mais próximas. Ela faz parte do grupo que fala comigo querendo que as ajude a melhorar. Quando estou estudando, de vez em quando ela põe uma de suas músicas e pede que eu dance o que aprendi para que ela possa pegar também os passos. No início me sentia nervosa, porque queria estudar, mas depois de um tempo, passei a acompanhá-la sem pestanejar. No entanto, tenho sentido decair nos estudos. Algumas aulas passo sonolenta e um de meus professores mencionou minha desatenção em sua aula, algo anormal para uma aluna S. Assim, decidi que me esforçaria mais para estudar, manter meu nível e não perder a imagem que criei durante os dois anos e meio para os professores.

Durante o final de semana, pediu que eu pagasse as horas que devia, pois deveria sair da cidade para encomendar alguns materiais para as salas de vídeo. Concordei, desde que pudesse levar meu material de estudo para repassar a matéria da prova que aconteceria no domingo de manhã. Os testes de desempenho ocorrem sempre aos domingos, dia raro de feriados caírem. Os alunos da J geralmente não vão realizar a prova, como Bob mencionou quando perguntei se ele não estava estudando para o teste. Ao invés de preocupado, ele riu, dizendo que nunca havia feito uma prova desde quando entrou no curso.
- Dê uma pausa, eles querem confirmar se precisa de mais uma mão de tinta nas paredes do quinto andar.
Deixei meu material na sala de Violet, que permitiu, subindo comigo para uma de suas aulas matutinas. Conversei com os pedreiros, que mostraram fazer um ótimo trabalho. Achei que não conseguiriam finalizar até a quarta-feira seguinte, mas fiquei satisfeita ao verem que fizeram perfeitamente o que havia pedido, finalizando quatro dias antes. Passamos para o sexto andar e ofereci o almoço, de modo a animá-los para se esforçarem a finalizarem mais cedo. Ganhar mais por menos dias de trabalho é sempre um bom prêmio. Anotei seus pedidos para fazer o pedido por telefone e quando voltei à sala de Violet, encontrei meu material de estudo despedaçado pelo chão.
Todo meu material. Tudo o que eu havia anotado na última semana de aula, durante a revisão cotidiana que os professores fazem na semana da véspera do teste de desempenho. Ajoelhei, pegando o monte de papéis picotados no chão e na mesa de Violet, meu caderno estragado com tinta vermelha e a palavra “mesquinha” pintada em preto à frente.
- O que diabos... – Violet começou a falar quando adentrou à sala na companhia de Ace.
- Baixinha, o que aconteceu? – o ouvi perguntar, mas estou descrente demais para responder. – Não acredito que chegaram a esse ponto. Você tem uma cópia delas? – neguei com a cabeça. – Merda...
Eu não havia terminado de revisar. Com o desespero, não me recordo bem das últimas aulas. Fecho meus ohos esperando que seja um sonho, mas ao abri-los, os papeis continuam espalhados em pedaços pequenos pelo chão.
Violet me dispensa para poder voltar à universidade e tentar recuperar o material. Ace me deu uma carona. Começou a falar dezenas de coisas. As pessoas podem me roubar; seria mil vezes melhor do que perder minhas anotações. Como poderei subir de colocação?
Na universidade, corro até a área dos dormitórios. Ao passar pelo banheiro feminino, vejo Gillian saindo com os cabelos molhados. Gillian. É isso.
- Gillian, boa tarde. – a chamo, vendo-a me olhar séria. Engulo seco.

- Nesta pasta contém as anotações das aulas de Brooklin. – ela me entrega a última pasta verde com o nome da matéria e do professor Brooklin escrita à mão em cima de um adesivo.
- Não sei como te agradecer. – falei com minha voz trêmula. Gillian não respondeu, tampouco se moveu, como achei que faria. – Você precisa deles para agora?
- Não, já estudei tudo.
- Não irá revisar?
- Não forço minha mente. Ela pode defasar com mais rapidez que o normal.
Parece fazer sentido. Me sinto envergonhada por parecer que estou fazendo as coisas de última hora. Sinto minhas maçãs do rosto corarem e concordo com a cabeça, voltando a encarar suas anotações e abrindo meu bloco de anotações com o nome da matéria e de Brooklin como Gillian fez com sua pasta. Começo a anotar tudo o que leio, ao mesmo tempo em que memorizo a matéria.
Ficamos vários minutos calada; eu, anotando e ela me observando. Acho que ela não confia em mim o suficiente para me deixar sozinha com suas anotações. Ela tem toda a razão, sou uma concorrente. Posso querer prejudica-la e destruir suas anotações, como fizeram com as minhas. No desespero, não pensei em suspeitar de ninguém, até porque os alunos presentes ali são todos da sala D para baixo. Mesmo se quisessem elevar seus níveis e mudar para salas superiores, não conseguiriam entrar na S e acima do quarto lugar de imediato.
- Você está saindo com Bob? – sua voz surgiu tão de repente que por um segundo pensei se ela quem havia feito a pergunta. Levantei meu rosto para encontrar seu par de olhos verdes depositados em mim com tanto interesse quanto eu via durante nossas aulas práticas.
- Não. Frequento o mesmo local que ele, mas...
- Você dança? – perguntou, surpresa. Engulo seco e confirmo com a cabeça, mas rapidamente tentando me explicar:
- Eu não sabia que sabia dançar. Na verdade, fui até lá porque Kendra, que mora comigo no dormitório tentou me ajudar, já que estou passando por alguns problemas. – decido não mencionar sobre meu problema financeiro. Assim como Gillian não me confia suas anotações, não lhe confio meu segredo. Se algum professor souber que trabalho como assistente do dono de um estúdio de dança, é bem capaz que não me respeitem o suficiente para confiarem em meus diálogos e argumentos. – Sem querer, vi que danço.
- Você tem aulas com Bob?
- Não. Eu só faço... Bem. Tenho memória fotográfica, lembra? – aponto para minha cabeça, vendo-a concordar com a cabeça. – Sei que vocês foram namorados.
- Ele falou sobre mim?
Concordei com a cabeça, porque me pareceu melhor do que falar em voz alta. Tenho a mania de falar demais quando começo a soltar a voz. Gillian não pareceu querer estender a conversa, mas vejo em seus olhos que está bastante curiosa para saber mais sobre o assunto.
- Você ainda gosta dele? – pergunto, tentando me entrosar com ela. Em meus olhos, lhe permito ver que é uma pergunta superficial, feita por obrigação, quando, na verdade, estou muito interessada, me lembrando do trato que fiz com Bob há uma semana e pouco.
Gillian olha para os lados, pensativa. Não sei se algum dia ela já chegou a conversar sobre amor com alguém, assim como nunca havia acontecido comigo até Kendra decidir ser uma boa amiga de verdade. Ainda estamos treinando nosso relacionamento, estreitando-o quando possível, mas me sinto mais confortável e disponível a ajuda-la quando precisa. Vejo Gillian morder o canto do lábio, como se estivesse se decidindo se deveria me falar ou não. Se fosse há um mês e meio, teria dito que não precisava me falar, mas também não teria minhas anotações picotadas e tido a oportunidade de ter esse momento mais íntimo com a segunda colocada da S.
- Não somos compatíveis.
- Dizem que polos opostos se atraem com mais facilidade. – retruco. Ficamos caladas, esperando que Gillian mesma tomasse a iniciativa. Olhou para mim e, como uma boa S, pude entender o que seus olhos diziam. Parte de mim ficou surpresa por conseguir compreender com tanta rapidez Gillian; sempre desejei uma amiga que pudesse se comunicar comigo através do olhar, mas nunca estive perto demais de uma pessoa para poder trocar um olhar longo como este.
Permanecemos caladas enquanto eu terminava de anotar o que precisava para refrescar minha memória sobre a aula. Me senti mais aliviada ao finalizar e me recordar de todas as palavras ditas pelo professor e suas caminhadas de um lado para o outro; um tipo de ‘tique’ por não conseguir ficar parado.
- Obrigada por me ajudar. – falei, empurrando de volta para ela sua pasta verde. Gillian pegou a pasta e a colocou em terceiro lugar na pilha que havia trazido para mim. Nos levantamos e arrumamos o lugar da cadeira de volta para seu lugar inicial. Caminhamos juntas até a área do dormitório feminino, onde deveríamos nos separar; eu morava no segundo andar e ela, no quarto. Nos encaramos quando chegamos em meu andar e ela me mandou um olhar antes de voltar a caminhar para subir os lances que faltavam para seu andar.
- Gillian. – chamei-a, vendo seu corpo virar e seus olhos castanhos me encararem, como se não tivesse interesse no que direi. – Saio todos os dias às 13:30 pelo portão B.
Sem dizer mais nada, demos as costas para a outra e seguimos nossos caminhos, separadas; eu, ligeiramente mais feliz de estar conseguindo firmar minha terceira amizade.

Milagrosamente, consegui me comunicar com Gabriel aquela noite. Geralmente ele passava a parte da noite estudando as matérias da faculdade ou criando seus trabalhos. Ele preferia não deixar nada ligado, como a internet, TV ou radio, porque possui déficit de atenção. Desde quando começamos a namorar, sempre foi difícil de mantermos uma conversa fixa por mais de quinze minutos. O máximo que conseguimos foi meia hora, quando estávamos dentro da sala da psicóloga escolar para fazermos a sessão anual. Mesmo que, ao contrário de mim, ele não tenha avaliações a cada duas semanas para a análise de seu desempenho, Gabriel não possui memória fotográfica para ajudá-lo, assim, vive se esforçando para fazer dar certo seu esforço em se formar no final deste ano. A época do TCC sempre foi um pesadelo para todos os alunos brasileiros; sei que é pressão atrás de pressão, e para uma pessoa como ele que trabalha de segunda a segunda, acabaria me tornando um martírio em sua vida se não o compreendesse.
- Seus cabelos estão longos. – ele observou assim que liguei a câmera. Toda vez que ligávamos a câmera do Skype, Gabriel observava alguma diferença em mim; mudanças positivas. Nunca ousou dizer que estou mais gorda, inchada ou com uma péssima cara pelo cansaço das provas finais. – Como estão as coisas?
- Melhores. Acho que já me acostumei à rotina. Hoje foi um dia muito estressante para mim. – comecei a falar, vendo-o desviar sua atenção do que fazia para olhar para mim preocupado. Em nossas conversas, não precisávamos parar o que fazíamos para nos falar. Ele fazia seus projetos, já que funcionava melhor dando atenção a várias coisas ao mesmo tempo, enquanto eu estudava enquanto ouvia-o falar sobre o trabalho, a faculdade ou algum momento de relaxamento que teve com seus amigos. Quando comecei a trabalhar, Gabriel me deu muitas dicas de como me manter nutrida e focada para que nada atrapalhasse meus estudos, na época, minha maior preocupação. Depois que comecei essa rotina, respeito-o ainda mais por conseguir aturar tanto trabalho todos os dias da semana incessantemente. – Estava no trabalho e levei minhas anotações que fiz durante a aula para revisar a matéria das provas de desempenho. Deixei na sala da sócia do meu chefe e quando voltei, estava tudo picotado no chão e sujo com tinta. Eu não havia terminado de fazer a revisão, então me desesperei porque não tive tempo de fazer uma cópia das anotações. Por sorte, a Gillian, se lembra? Ela foi gentil o suficiente para me auxiliar, emprestando suas anotações.
- Achei que vocês não se falassem. – ele comentou, ligeiramente mais relaxado ao saber que deu tudo certo no final.
- Nós não nos falamos. – confirmo. – Mas temos um relacionamento próximo, se posso arriscar a dizer. Nós sempre recorremos à outra quando temos alguma dúvida ou achamos que estamos corretas sobre algum caso nos apresentado. Ela é uma boa cúmplice quando quero recorrer sobre alguma resposta que o professor declarou errado, mas que sei que está certo.
- Bem, então que bom que ela pode te ajudar. Você não pode se deixar relaxar, . – sua voz foi dura, mas sei que foi devido ao susto. Gabriel é o único que sabe que sou um pouco desastrada quando se trata de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Ao contrário dele, acabo me atrapalhando e me esquecendo de algum detalhe importante, como aconteceu agora. – Se você aderir ao costume de sair da sala de aula e ir até à gráfica tirar uma cópia, não sofrerá mais este tipo de apuro.
- Farei isso. – sorri, feliz por vê-lo preocupado e tentando me ajudar com costumes para não me prejudicar novamente. – E você? Quando terminará seu TCC?
- Nós estamos finalizando a quinta revisão. Nosso orientador é extremamente exigente e quer que o projeto seja perfeito. Estou gastando uma grande grana com ele. Nunca imaginei que criar um alarme fosse tão trabalhoso.
- Mas não é um alarme qualquer. Ele poderá ajudar idosos com Alzheimer a viverem tranquilamente quando sozinhos. – falei, orgulhosa. O projeto de Gabriel com seus colegas de sala era impressionante e totalmente sustentável. Acho incrível como eles podem criar algo fascinante como o projeto deles. – Não se contente com nada menor que um dez.
- Não irei. – ele mandou um sorriso para mim enquanto digitava no computador. – Fora o vandalismo, como anda o trabalho?
- Estamos um pouco atrasados, mesmo adiantando algumas coisas. – começo a falar devagar, pensando se seria certo falar sobre meu momento com , minha decisão em dançar e as aulas particulares com vários homens.
- Seu chefe continua a atormentando?
- Não... Bem, um pouco, sim. – admito, vendo-o concordar com a cabeça. Ficamos calados por um tempo enquanto a dúvida que seguro dentro de mim desde minha conversa com Helena no início do mês passado martela minha mente. – Gabriel? – o chamo, ouvindo-o murmurar ‘hum’, mas não desviando seu olhar para mim. – Você não sente... Hum... Ciúmes?
Vi seus olhos finalmente procurarem por mim na tela, mas não tive coragem de ficar em seu campo de visão, olhando minha tela para saber se estava no alvo da câmera. Ele abriu um pequeno sorriso ao ver minha reação infantil e deixou o computador de lado, prestando atenção em mim.
- Sinto ciúmes desde quando você foi embora, mas não posso deixar que isso atrapalhe seus planos, não é? O seu futuro é brilhante, quero que se suceda. – abro um sorriso, aliviada por vê-lo ter uma reação positiva sobre minha dúvida. Helena disse que se ele não sente ciúmes, é porque está desencanado de mim. Saber que ele tem essa preocupação me deixa muito mais segura sobre nosso relacionamento. – Além do mais, nós iremos nos casar, lembra? De acordo com a minha programação, seis meses depois que me formar, poderei começar a procurar um apartamento para nós. Não será como a cobertura onde vive, mas será suficiente para ficarmos finalmente juntos. – abriu o sorriso com dentes brancos que sempre gostei. Sorri, feliz por vê-lo falar sobre nosso futuro. Ele quase nunca falava, já que não tínhamos muito tempo de discutir sobre isso e usávamos o pouco tempo disponível para atualizar o outro da atualidade.
- Gabriel, eu não tenho mais...
- , desse jeito você me ofende. Você acha mesmo que estou me esforçando tudo isso para ainda depender da fortuna que você tinha? Acho que estou até mais rico que seus pais agora. – demos nossa primeira risada juntos. Ele parece mais alegre hoje, fazendo piadas que raramente vêm. – Preciso sair, estou finalizando a monografia para enviar para o nosso orientador e em seguida terei de ir até a casa de um dos integrantes do grupo para dar uma olhada no projeto.

- Tudo bem. – digo. – Eu vou estudar mais um pouco e dormir.
- Boa sorte no seu teste. Terceiro lugar amanhã.
- Terceiro. – sorrio. – E... – antes de terminar minha frase, vejo-o acenar e desligar nossa ligação. Fico encarando a imagem da imagem desligada e suspiro, triste por mais uma vez não ouvir sua declaração de amor ao nos despedirmos.

Sábado seguinte chegou rapidamente. Acordei mais cedo, como sempre faço, para correr até o mural do rank e descobrir que lugar estou no desempenho da turma de 2015. Como sempre, há um espaço reservado para alunos S verificarem primeiro suas posições; um local privilegiado para os melhores alunos não se misturarem com os outros. Ter as melhores notas garantem bons privilégios, como a própria instituição menciona no início de todos os anos letivos.
Vejo um grande burburinho entre os alunos e estranho a discussão que acontece ao lado do mural. Mostro meu crachá para o segurança que guarda a entrada da área S e vejo meus colegas de sala com os rostos vermelhos. Não ouso abrir a boca para questionar o que pode ter acontecido; faz parte de nosso relacionamento, não nos relacionarmos uns com os outros. Passo por todos e chego ao mural, onde vejo meu nome salvo no quarto lugar. Parte de mim se sente mal por não ter conseguido subir uma colocação, contudo, o peso rapidamente se esvai ao ver o nome seis colocações depois de mim. Em décimo lugar vinha uma aluna da sala H – Una Parker. Procuro por Joseph Burke, até então dono da décima colocação por sessenta semanas seguidas, mas não o encontro. Volto a encarar a lista, vendo se há alguma surpresa maior que essa, mas a única diferença que tivemos na S, é Gillian voltando ao primeiro lugar.
Sempre que um novo aluno entra na S, somos obrigados a comparecer à sala para nos encontrarmos frente a frente com o novo concorrente. Tenho certeza que todos os meus colegas de sala estão tão apreensivos quanto eu sobre Una Parker. Estamos no penúltimo ano escolar e acostumados em variarmos nossas colocações entre nós; uma competição considerada saudável para os professores. Contudo, com a entrada de Una Parket, a harmonia foi quebrada. Não sabemos como ela é, o que mais acertou no teste, qual foi seu desempenho comparado ao de Joseph e, o mais importante, como ela conseguiu vir da sala H para a S de uma só vez.
A sala S não é como as outras salas do nosso ano. Ao invés de carteiras para caber mais alunos dentro da sala, nós possuímos um balcão que poderia ser utilizado espaçosamente por três ou quatro alunos. Com dicionários, os cinco livros mais importantes do curso, luminária para as aulas de fim de tarde e tomadas para nossos eletrônicos, nossa sala foi especialmente criada para alunos especiais. Há cinco balcões ao lado da janela e cinco ao lado da parede que agrega a porta da sala. Somos posicionados de acordo com nossa posição no rank e, consequentemente, posições pares ao lado da janela e ímpares ao lado da porta. Por ser a quarta colocada, me sento no segundo balcão atrás de Alden, o segundo colocado. Nos posicionamos em nossos lugares aguardando a chegada de Una Paker. O reitor da universidade entra, acompanhado do professor responsável por nossa sala e a coordenação. Sempre que um aluno entra na S, é motivo de quase uma festa para os perfis autoritários.
- É um enorme prazer observar o nível de nossos alunos se elevarem. Fazem oito anos que não encontramos uma turma tão dedicada e geniosa como esta. – o reitor inicia seu discurso, esbanjando orgulho a cada palavra dita. – Como já devem ter visto, esta semana tivemos uma grande surpresa com o resultado do teste de desempenho. Uma aluna H conseguiu quebrar todos os obstáculos para chegarem até vocês, S. Deem boas-vindas à Una Parker, décima colocada no ranking geral da turma de 2015.
Ao contrário do que imaginava, Una Parker não me parecia uma garota estudiosa. Com a saia mais curta do que as que eu, Gillian e as outras alunas usamos, maquiagem exagerada e os seios imensos, até o corpo docente presente ficou sem graça com sua imagem, mas aturando seus costumes por ter sido um caso extraordinário na universidade. Una não disse nada para nós quando o reitor pediu, tampouco respondemos as boas vindas quando chegou nossa vez de a cumprimentarmos. O coordenador do curso apresentou a ela seu lugar, no último andar dos balcões ao lado da janela, antigo local ocupado por Joseph Burke. Assistimos subir até o balcão e, calada, se sentar da maneira que lhe convinha.
Não costumo julgar as pessoas de primeira vista, mas não pude evitar não gostar de Una. Seu comportamento não condiz com sua inteligência e sua presença atrapalha a harmonia da sala. Me mantive calada ouvindo as palavras do reitor e coordenador; assim que fomos liberados, nós, um a um fomos saindo calados, com um grupo imenso de alunos do lado de fora gritando e pulando feito macacos quando Una saiu, celebrando a quebra do muro entre alunos S e o resto. Mesmo que não me importe com essa diferença, estou me sentindo um pouco perturbada por ver tantas pessoas sendo rudes apenas porque alguém que antes diziam que nunca conseguia entrar em nossa sala, acabou ingressando. O preconceito surgiu por alunos de A à J, não nós da sala S. Nunca falamos para ninguém que somos melhores que os outros, apenas focamos em continuar em nossa colocação.
Com o discurso, acabo me atrasando para ir até o estúdio. Para ajudar, uma das estações da linha que pego está interditada e tenho de pegar um táxi até o estúdio, já que não sei pegar ônibus e deve estar nervoso o suficiente para aturar uma desculpa minha, uma vez que já me ligou sete vezes desde quando saí da universidade.
- Está uma hora e dez atrasada.
- Desculpe. – falo.
- Sua desculpa é...
- Hoje saiu o resultado de nosso teste de desempenho e uma aluna da sala H entrou na minha sala. Sempre que entra um novo aluno em minha sala, o reitor e seu corpo docente faz um discurso de boas-vindas especiais para nós. Não pude sair antes. E a estação da linha 3 está interditada, tive de pegar um táxi de lá até aqui.
pareceu compreender meu atraso. Resmungou algumas palavras e me mandou até o sétimo andar, onde alguns pedreiros começavam a reforma do Roof, lanchonete do estúdio. Passei minha manhã inteira com eles, verificando até coisas que não fazia a menor noção de como deveria ser feita. Ao terminar o trabalho com os pedreiros e deixando-os sob a supervisão de Cori e Tan, desci até o primeiro andar, me encontrando com , Kendra, Hans, Bob e Ace em sua sala.
- E aí, S? Fiquei sabendo que hoje foi dia de milagre em Harvard? – Ace sorri animado; parecia feliz do carma ter sido quebrado. – Quem saiu? Quem entrou? Como está se sentindo? Qual foi sua colocação?
- A pessoa era de qual sala? – Kendra perguntou, sentada no colo de Hans na poltrona localizada ao canto da sala. Olhei para todos e então para , que levantou a mão, permitindo que eu tivesse esse tempo para “fofocar” com todos.
- O nome dela é Una Parker, veio da...
- UNA? – Ace, Kendra e Bob gritaram, me fazendo dar um pulo com o susto. Olho confusa para todos e vejo inclusive Hans e trocarem olhares.
- Espere. – Kendra sai de cima do colo de Hans e tira Ace de sua poltrona, empurrando-a de frente para eles e fechando a porta atrás de mim depois de me fazer sentar na mesma. – Una Parker? Uma ruiva com os olhos muito ? – concordo com a cabeça.
- Ela é uma H. – Bob falou. Concordei mais uma vez. – Para que lado este mundo está rodando...
- Vocês a conhecem? Ela é uma boa estudante? Tem boa memória? – me ponho no canto de minha poltrona, interessada em saber tudo sobre Una Parker. Preciso unir o máximo de informações que puder para que não seja pega de surpresa na próxima prova de desempenho que acontecerá na semana seguinte.
- . Ela é uma H. – Ace explica, paciente. – Uma H não é inteligente. Nem esforçada. Como ela conseguiu?
- Se ela conseguiu, é porque ela é inteligente E esforçada, Ace. – Kendra olhou para todos.
- Mas por que ela decidiu entrar na S agora? Estamos no final do ano, ela não deveria estar treinando para o solo? – Hans pergunta para Ace, que parecia pensativo sobre o assunto.
- Qual colocação ela entrou? – Bob perguntou, provavelmente preocupado com Gillian.
- Décima. Mas esperem! – levanto minhas mãos. – Vocês conhecerem-na é compreensível. – apontei para Bob, Kendra e Ace. – Mas vocês...
- . – Kendra me chamou. – Una é dançarina. A melhor, na verdade. Ela tem um solo na apresentação do final do ano e apenas não aceitou ser professora, porque não sabe se relacionar com as pessoas.
- Uma característica boa para se adaptar ao S. – Ace brinca, mas ninguém ri.
Arregalo os olhos. Ela dança. Ela dança muito bem. Aqui. Aqui neste estúdio. Terei de encontrar com ela todos os dias durante o horário de aula e também no trabalho. Pensando na situação, minha mente dá um nó ainda maior. Como ela conseguiu estudar tanto para chegar à S e ter seu solo na apresentação de final de ano? Ela não deve ser nada menos do que genial. Estremeço com a chance de perder lugar para ela. Não posso.
- , mantenha a calma. – finalmente se pronuncia. Pisco, saindo de meu transe. Com seu comentário, os outros quatro me deram mais atenção e à minha situação.
- Ela está em décimo, você em quarto, relaxa, baixinha. – Ace sorri, mas não retribuo.
- Ace, cara. Una estava na H. H. A antepenúltima pior, se lembra? Sabe quantas pessoas ela ultrapassou até chegar à décima colocação? não pode subestimá-la. Você precisa estudar se quiser chegar aos três primeiros. – Bob disse, olhando para mim sério. Encosto no sofá, derrotada. Ela conseguiu ultrapassar mais de 250 pessoas em duas semanas. Duas-semanas.
Sinto meus olhos enxerem de lágrimas. Como poderei competir com uma garota que é tão especial quanto qualquer um dos 9 colocados da sala? Somos geniais, mas sua colocação essa semana mostrou que ela pode deixar os outros de nós no chão. Solto o ar, quase sufocada depois que me lembrei que parei de respirar.
- , pare de se desesperar. Isso não faz muito sentido. Continue a estudar, irei investigar isso. – Kendra disse, colocando a mão em meu ombro. Olho para cima, encontrando seus olhos repletos de segurança. – Conheço Una Parker e se meus instintos estão certos, há alguma falcatrua aí.
- Vou ajudar Kendra, baixinha. – Ace sorri.
- Obrigada... – respondo, minha voz fraca.
Ace, Kendra e Hans se retiram da sala assim que veem que o assunto acabou. Bob olhou para mim esperando por um update sobre Gillian.
- Estamos todos assim. Pensar nessa situação era inimaginável. Mas se você quer ficar mais tranquilo, Gillian não te odeia e ainda se preocupa com você. – falei, vendo-o se satisfazer com minha resposta e se levantar, colocando a mão no meu ombro e apertando-a antes de sair sem dizer mais nenhuma palavra.
Assim que Bob se retirou, deixei meu rosto afundar em minhas mãos. Havia me esquecido de o telefone tocar e ele atender. Fiquei sem graça de mostrar minha fraqueza em sua frente. A verdade é que estou desesperada porque sei quão genial Una pode ser. Tenho me esforçado 110% para conseguir manter o ritmo de estudos e satisfazer os gostos de meu chefe. Se Una consegue ser a melhor dançarina e também entrar na décima colocação com facilidade, eu não deveria descansar e sim me esforçar ainda mais.
Me levantei e, sob o olhar de , anunciei minha saída para continuar o trabalho, afim de tirar todos aqueles pensamentos de minha mente.

O som era Madonna. A balada estava remixada, mas parecia original aos meus ouvidos. Hans havia me ensinado essa coreografia no início da semana dizendo ser uma boa alternativa para soltar os maus fluídos do corpo, depois de um dia de estresse das provas. , que tinha deixado as câmeras internas por último na lista de prioridades, pediu para que eu cuidasse de que todas estivessem instaladas e funcionando na sala de segurança até o fim desta semana, de modo que hoje me sinto mais segura de deixar minhas costas na sala de Violet ou dos professores. Nesta dança há vários rodopios, movimentos clássicos do ballet e agitados da dança de rua. Sinto minhas pernas mais fortes e meu fôlego durar mais. Depois de um tempo treinando, consigo manter meu foco em outras coisas, como meu reflexo no espelho, para me policiar melhor sobre meus passos. Com isso, vejo parado com os braços cruzados e encostados na parede ao lado da porta, observando meus passos.
- A raiva está sendo um bom fator para a sua dança agora.
- Não estou com raiva.
- Achei que sua percepção estava melhor. – se aproximou de mim, oferecendo uma garrafa de água. Aceitei depois de enxugar meu rosto suado. – Consigo ver através de seus movimentos, . O seu medo se transformou em raiva.
Pensei sobre sua análise. De fato, consigo sentir um rastro de raiva dentro de mim. Olho para meu reflexo no espelho e encontro uma diferente. Minha raiva antes era mantida dentro de mim e agora podia descontá-la na dança. Suspiro, desligando o som que não parava de tocar.
- O que você acha de dançar uma dupla? – ele pergunta.
- Dupla?
- Com um parceiro. – ele falou. Levanto meus ombros e bebo mais um gole da água.
- Não vejo alguém que queira fazer dupla comigo em uma apresentação e os professores já possuem seus solos.
- Não mencionei o nome de alguém, mencionei? – perguntou. O encarei, confusa. – Estou falando de mim.
- Não brinca.
- Pareço brincar? – levantou uma sobrancelha. Suspiro e nego com a cabeça.
- Não quero me apresentar.
- Não me faça ter de convencê-la novamente.
- Não me obrigue mais essa vez. Você não viu o que aconteceu? Não tenho mais tempo para me dedicar à dança, preciso garantir minha colocação e me sentir segura nele para conseguir ao menos a terceira colocação. Os testes a partir do próximo mês será mensal ao invés de quinzenal, por isso, meus concorrentes terão mais tempo para se dedicarem aos...
- Dance comigo. Agora.
- O quê?
- Estou pedindo para você...
- ! Estava te procurando. – olhamos para trás e vimos minha nova concorrente se aproximar. – Precisava combinar melhor com você o uso da sala do quarto andar, agora que estou me dedicando mais aos estudos, terei menos tempo para treinar... Ah, oi .
Assinto com a cabeça ao vê-la me encarar com um pequeno sorriso no rosto.
- Não fiquei surpresa em ver que a sala S é tão diferente da H. Na verdade, estou me sentindo bem melhor na S. Receber privilégios é ótimo, não acha? Como é o quarto lugar? Estou pensando nos meus planos de estudo, acho que agora que entrei na décima, o primeiro está próximo. – soltou uma risada, fazendo com que minhas bochechas corassem com a raiva anônima vista até agora somente por . Ele ficou encarando a nós duas e não reclamou quando anunciei minha saída.
Durante o banho, fiquei pensando no que Una Parker disse. Ela tinha a intenção de roubar o lugar de Gillian e me mandar para o quinto lugar. Não posso permitir, devo começar a planejar melhor meus horários para conseguir subir uma colocação o mais rápido possível. Próxima semana será a última prova quinzenal e então estarei marcada.
Não sei por que não tentei me afogar no chuveiro.

O teste seguinte foi feito repleto de nervosismo. O ápice, foi ver Una Parker receber a prova e, uma hora e meia depois, levantar e entregar a prova inteira feita. Esforcei ao máximo minha mente para que não desviasse a atenção para o fato dela ter batido o recorde deste ano em rapidez ao realizar a prova. Depois de finalizado a prova, me pergunto se o fato dela ter terminado tão rápido se deve a saber toda a matéria com facilidade ou não saber de nada.
Posso afirmar que nenhum dos alunos da sala S estão confortáveis com a presença de Una. Geralmente, quando um novo aluno ingressa, vemo-lo como um novo concorrente saudável vindo da sala A ou B. Una veio da H e mostra que não faz a menor questão de agir como nós, ganhando popularidade na universidade por ser a única aluna S que conversa com todos de igual para igual. É o que dizem, pelo menos. Acho impressionante a maneira como as pessoas julgam pessoas como nós, o restante da sala S que é tímido e antissocial o suficiente para não arriscar um contato físico com outra pessoa que não seja o professor ou outros de nós. Por convivermos mais com o outro, é normal que conversemos mais; o mesmo ocorre com o fato de não sermos festeiros.
O resultado veio como na vez passada. No último teste de desempenho quinzenal, Una Parker ultrapassou Kentin Yohan, indo para o nono lugar. Minhas mãos tremeram assim que a vi virar para mim depois de ver, com satisfação, sua nova posição. Antes de se retirar da área especial para os alunos S entre a gritaria e alforria dos alunos da F abaixo celebrando sua conquista, Una olhou para mim com um sorriso e fez o número cinco com a mão direita, mostrando que faltam apenas cinco colocações para me derrubar.

- Eu vi. – Kendra falava na sala de , onde fui obrigada a me sentar por estar distraída demais e acabei cortando minha mão durante a decoração que realizava com Cori, Tan, Violet e Pietro. – Ela definitivamente fez o número cinco com a mão.
- Então é pessoal. – Ace disse, pensativo. – O que você fez para Una, baixinha?
- Até sua décima colocação, não sabia quem ela era. – comentei, vendo Bob revirar os olhos, não gostando de minha resposta por confirmar que alunos S não se misturavam com outra turma. – Não é por mal, eu só não...
- Ele sabe, bella. – Pietro olhou feio para Bob. – Apenas está sendo inoportuno.
- Então ok. Você não fez nada. O que será que ela pode achar que você fez, para querer tanto te tirar de sua posição? – Ace cruzou os braços, pensativos.
- Não é óbvio, Ace? – Kendra disse. – Una está se vingando por ter roubado dela.
- O quê? - falei, descrente que uma situação tão séria pudesse ter sido causada por um engano tão chulo. – Não pode ser, há um equívoco.
- Ela tem razão. – se pronuncia, sentado em sua cadeira. - Não é possível que Una tente descer a este nível por causa disso.
- Não acho que seja uma descida de nível, . – Violet finalmente falou, depois de terminado o curativo em minha mão. – Todos sabemos que Una entrou no estúdio por causa de você, que faz tudo para chamar sua atenção, inclusive quebrou meu pulso há dois anos e meio. – levantou seu pulso ruim. - Além disso, foi ela quem acabou com todas as anotações de há algumas semanas.
- Como você sabe?
- Você acha que sou tola? – Violet colocou as mãos na cintura. – Tenho documentos importantes nessa sala, não posso deixa-la sem uma câmera escondida como precaução.
Ficamos todos surpresos com a novidade de Violet. Agir fora dos planos de é atípico, fazendo com que ele se calasse.
- A novidade é saber como ela conseguiu ficar tão inteligente, quando não sabia fazer contas matemáticas durante a época das raves. – apoiou o queixo em uma das mãos enquanto cruzava os braços.
Olho para minha mão machucada, pensando o que farei se chegar ao quinto lugar. Não consegui subir para terceiro, mesmo a diferença de pontos entre eu e ele diminuir consideravelmente. O quinto lugar não possui descontos na compra de materiais, algo solicitado com frequência pelos professores. O valor integral é sempre extremamente caro para um aluno bolsista, por isso, é importante recebe-lo, se não quiser depender de anotações ou digitalizações malfeitas.
O nervosismo com a situação também acabou por atrapalhar meus ensaios. Caía com frequência, trombava com o vidro e errava os passos. Durante as duas horas cedidas para meus ensaios, mais me machuquei que me concentrei, me fazendo sentir ainda mais nervosa. Apoiei meus braços no chão ao cair pela terceira vez seguida no mesmo momento da música; encarei o chão, ofegante, pensando o que poderia fazer para melhorar. Estudar mais não era a solução, sei tudo facilmente, tenho tudo decorado. Durante as aulas de dança, Una estava presente nas mesmas que eu, me empurrando e ficando em minha frente sempre que podia, atrapalhando minha performance. Quando estava presente, era tudo pior. Seus pés com frequência apareciam em minha frente e diversas vezes recebia tapas durante rodopios muito próximos.
- Você não está limpando a mente. – disse, encostado no batente da porta semiaberta. levanta o rosto para encará-lo, mas volta a olhar para o chão ao vê-lo parado. – Você não disse que a dança serviria de relaxamento? Não me parece relaxada.
- Não estou com vontade de discutir hoje, . Apenas me deixe aqui. – falei, exausta demais para ter mais essa discussão com ele. – Além do mais, já terminei. – me levantei com dificuldade por meu corpo estar mais dolorido que o normal e peguei a toalha pendurada na cadeira próxima à caixa de som, enxugando meu suor.
- Pensou sobre minha proposta? – ouvi sua voz se aproximar mais de mim. Virei meu corpo para ele antes que me pegasse de surpresa.
- Sim. A resposta é não, e não dançarei com você agora. – finalizei ao vê-lo abrir a boca. Desliguei o som e tirei o fio da tomada para que não houvesse nenhum estrago. Enquanto bebia um gole de minha água, senti suas mãos prensarem minha cintura e puxar-me para perto.
A surpresa foi tão repentina, que quando percebi, estávamos dançando sem nenhuma música. Não posso negar que temos encaixe. Tenho lido livros sobre dança e assistido a vídeos de profissionais ensinando e criticando outros dançarinos menos experientes; por isso, tenho uma noção melhor do que é uma boa dança ou não. tem um forte poder de liderança até na hora dos movimentos; mal vejo se mexer e já estou fazendo algo que é aprovado por sua expressão corporal.
Não sei quantos minutos nos movimentamos. Finalizamos a dança quando ele segura minha perna, na altura de minha coxa e empino meu pé para ficar mais alta e sentir a ponta de meu nariz tocar a dele, que tinha seu rosto abaixado para me fazer perder-me em seus olhos mais uma vez. Respiramos com nossas bocas abertas; não pude sentir mais nenhuma dor perturbante dos tombos e tapas que tomei durante o dia. Encarar os olhos de sempre me deixa em transe dentro de mim mesma. Sem perceber, desci meus olhos para seus lábios, que estavam entreabertos devido a respiração. Nunca os vi tão avermelhados e carnudos como agora. Não tive tempo de ceder à ideia de que estava curiosa em saber como seria tocá-los, pois tomou a iniciativa antes de mim.
É diferente de Gabriel. Sinto meu corpo inteiro estremecer quando sua mão solta minha perna e me ergue, carregando-me em seu colo, indo até a porta e trancando-a atrás de mim, evitando que fossemos atrapalhados como as vezes anteriores. Percebo que estamos no canto oposto da sala, quando ele apoia meu corpo sentado na mesa ao lado da caixa de som. Minhas mãos estão apoiadas em seus antebraços feitos de músculos; eles parecem muito mais rígidos do que as primeiras vezes que nos encontramos. Seus lábios são muito mais carnudos do que aparentam; durante o beijo, consigo me perder nele, na massagem que minha língua recebe de sua, algo que Gabriel dificilmente fazia – pelo menos não com tanta intensidade. A ‘mão boba’, como Kendra intitulou depois de ter comentado sobre as ações de Hans serem imprudentes demais para serem realizadas em público, agora estava deslizando pelas laterais de meu corpo como se seus olhos, fechados, fossem cegos de verdade e estivesse tentando descobrir qual a forma meu corpo tem. Arrisco subir minhas mãos para seu rosto e nuca, como vejo nas séries e filmes de romance; ao contrário dele, não consigo passar tanta emoção com meus toques, por isso, em contraste e para garantir que seu fogo não se apague, dá um passo a mais para perto de mim, como se fosse possível, e aprofunda ainda mais nosso beijo, começando a me deixar sem ar. Mesmo assim, não quero parar. A ideia de estar sendo infiel a Gabriel não é forte o suficiente para minhas mãos tomarem a atitude de me separar de . Seu corpo se encaixa tão perfeitamente com a minha, que sinto como se Gabriel nunca tivesse existido.
Nosso beijo acaba, quando a falta de ar começa a nos atrapalhar. Como nos filmes, Gabriel não se separa completamente de mim, me deixando sentir seu hálito de pasta de dente enquanto suas mãos acariciam minha cintura e minha mão, sua nuca. Distribui beijos estalados em meus lábios, como se não quisesse finalizar nosso breve romance. Fecho meus olhos, não acreditando que fiz minha primeira loucura em um país estrangeiro; Kendra tinha razão quando disse que um romance proibido é muito mais excitante que um romance de quatro anos como o que eu e Gabriel temos.
- Não posso... – falo, me lembrando de Gabriel e seu sorriso cativante.
- Esqueça-o. – estremeci com sua ordem tão séria e direta. Não ousei retruca-lo, pois ainda estou inserida demais na emoção atual para quebrar o encanto. Arrisco encarar seus olhos e a vontade de beijá-lo faz com que meus lábios formiguem.
- Eu poderia... – começo a dizer, mas não consigo finalizar. Estou sem graça demais para perguntar se poderia beijá-lo mais uma vez. levanta meu queixo de forma que meus olhos encontram os dele para que pudesse entender minhas vontades. Abre um pequeno sorriso e acaricia minha bochecha com o polegar da mão que segurava meu rosto.
Lentamente, seus lábios grudaram nos meus; diferente da primeira vez, ele não parecia ter urgência. Suas mãos ficaram estacionadas em minha cintura e rosto, enquanto tinha meus braços apoiados em seus ombros, que parecem bem mais altos que imaginava. Estando assim tão de perto, vejo como sou tão pequena, comparada a ele. Meu corpo estremece mais uma vez ao sentir sua mão passear por minhas costas; um carinho gostoso.
Quando nos separamos pela segunda vez, decido abraça-lo, ao invés de encarar seus olhos novamente. Sinto seus lábios passearem pelo dorso de meu pescoço, me deixando sem graça por estar suada; contudo, ele não parece se importar e se mantém junto a mim. Calados ficamos até decidir que precisava ir embora. Não neguei sua vontade quando disse que aguardaria tomar meu banho para irmos embora juntos. Achei que durante meu banho, a consciência de ter realizado uma traição tomaria conta de minha mente e corpo, fazendo com que me sentisse pesada, como se meu mundo fosse desmoronar, como acontece nos filmes e seriados. Não me vi péssima, apenas perturbada em pensar que terei de encará-lo algum dia. Daqui a um ano e dois meses.
Enquanto me enxugo, olho meu reflexo no espelho e vejo um pequeno sorriso em meus lábios. Uma expressão que não vejo há anos; talvez nunca tenha visto. A animação de sair e ter um homem me esperando para sairmos juntos me trás borboletas no estômago, como minhas colegas falavam quando contavam suas experiências em encontros com amados. Me sinto mal por estar apenas com uma jeans, pólo e um Ked’s vermelho. Desde quando entrei aqui, percebi que não poderia me vestir como me vestia antigamente, ou continuariam se dirigindo a mim como “mesquinha”.
Com os cabelos ainda molhados, saio do vestiário feminino com a mochila em meu ombro direito. está encostado na parede oposta à saída com os braços cruzados. Pela primeira vez, não reclama de minha demora, já que se ofereceu para ficar por vontade própria. Pegou a mochila de meu ombro para colocar na sua, uma gentileza que jamais imaginei vê-lo fazer comigo. Quando ameacei andar em direção à saída, sinto sua mão segurar a minha, atrasando minha meus passos para olhar em sua direção. Um sorriso, mesmo que pequeno, jazia em seus lábios, mostrando que sua intenção é que saíssemos com nossas mãos dadas, como se estivéssemos em um relacionamento sério. Sinto minhas bochechas corarem ao me imaginar sendo vista nesta situação com ele, ao mesmo tempo em que me sinto feliz por receber o carinho que esperei de Gabriel durante anos.

O mês de outubro foi finalizado com a festa de Halloween praticada pelos estabelecimentos das lojas do bairro. Por haverem muitos negócios de família onde há crianças, o bairro, todos os anos, se une para enfeitar a rua e fazerem brincadeiras costumes do feriado, com direito a fantasias, doces, travessuras, e claro, dança.
quis que este ano, como a estrutura do prédio estava praticamente finalizada, com exceção de alguns detalhes, que o estúdio fosse responsável pela casa dos horrores. Os alunos e professores pareceram se divertir, enquanto rapidamente me ofereci para ficar à porta da porta enfeitada macabramente, controlando o número de pessoas a entrar. Com o evento e a cobrança da entrada, arrecadaríamos mais dinheiro para investirmos na decoração para o evento principal em dezembro.
Depois do dia em que nos beijamos, tem estado bem mais tolerante comigo, apesar de continuar me tratando da mesma maneira, como se não quisesse que todos soubessem de nosso deslize. No começo, achei que deveria me preocupar; enfim me achei uma tola por pensar em ter qualquer tipo de relacionamento com ele enquanto namorando Gabriel, que está se esforçando tanto no Brasil. Assim, passei a trata-lo da mesma maneira de antes; na universidade, me preparei com mais facilidade para os testes. Ter minha mente livre de problemas por ver Una ter dificuldades em continuar a se dar bem com os professores me trouxe mais segurança em saber que ela não iria subir cinco colocações, tampouco que eu descerei. A prova seria no domingo do Halloween; Bob já anunciou sua ausência rotineira no teste. Como eles não reprovam, Bob diz que não há necessidade de realizá-lo. Gillian e eu estivemos mais próximas desde quando Una entrou na sala; na verdade, sinto que todos os nove de nós estamos mais próximos. Há claramente uma barreira entre nós, e ela.
Una tem estado a cada dia pior. Durante meus ensaios solitários, invade o espaço dizendo que reservou, mesmo sendo uma grande mentira. Passa o tempo inteiro conversando com seu grupo de amigas. Nas aulas de dança, continua a me empurrar e distribuir tapas. Pietro até me afastou dela, mas mesmo assim, nas poucas vezes que nos cruzamos, sempre paro no chão ou com alguma parte do corpo dolorida por ter sido acertada. disse querer falar com ela, mas se ela realmente tem essas atitudes por causa dele, não quero dar mais razão para ela fazer coisa pior, como quebrar meu pulso, como fez com Violet.
Deixo o próximo grupo de sete pessoas entrarem e olho para meu relógio, que marcam onze e meia da noite. Pedi o dia seguinte de folga para , que demorou a conceber meu pedido, mas concordou quando disse que chegaria mais cedo durante toda a semana seguinte, principalmente porque não haveria aula durante a semana por este ano o campus ser sede de um congresso importante da área de Direito; infelizmente, somente os três primeiros lugares têm direito de comparecer gratuitamente e como não posso gastar meu dinheiro com nada, não poderei ir, sobrando tempo para me dedicar aos estudos e ao trabalho. Pelos testes terem passado para mensal, tenho mais tempo de realizar horas extras e receber por eles, tendo um dinheiro a mais em minha conta. Suspiro, deixando-me aceitar que preciso ir embora, mesmo me divertindo em ver crianças e adolescentes saírem correndo pela porta de saída do “castelo”, alguns com lágrimas nos olhos e outros com as bochechas vermelhas da correria e dá risada.
- Patricia, você poderia continuar sem mim? Preciso voltar para a universidade. – aponto para o relógio. Como já havia combinado minha saída às onze horas e estava meia hora a mais que o esperado, Patricia, com quem tenho conversado com mais frequência agora, negou sem fazer nenhuma reclamação, o que é um verdadeiro milagre.
Deixei meu posto de porteira e adentrei ao castelo, passando pelo meio dos panos para chegar até o pé das escadas, onde subi até o primeiro andar e fui em direção ao escritório de avisá-lo sobre minha saída. Não havia o visto o dia inteiro e, desde quando nos beijamos, sinto que preciso vê-lo para me sentir mais motivada. Uma infantilidade ou ingenuidade que acho engraçado sentir. Dou duas batidas na porta e abro a maçaneta. Empurro-a com delicadeza, já que é difícil vê-la fechada; assim que terminei de abri-la, entendi a razão de estar fechada. Arregalei meus olhos ao encontrar Una deitada em sua mesa nua e antes mesmo de dizer meu nome, fecho a porta ouvindo-o me chamar de dentro da sala. Saio correndo sem esperar qualquer explicação.
No meio do caminho, encontro Kendra e Hans saindo aos risos, fantasiados de vampiros. Os dois pareciam formar um casal. Me pergunto se Hans transa com outras garotas dias depois de beijar Kendra e se ela sabe ou se importa.
- Achei que fosse aproveitar a festa, . – Kendra disse, sentindo as mãos de Hans contornar sua cintura. Nego com a cabeça.
- Já estou indo. Até logo. – anuncio, terminando de descer o lance de escadas. Saio do prédio e, ainda fantasiada, vejo um grupo de alunos de Harvard se prepararem para voltar. Um deles, Jonathan, o garoto que encontrei na festa da praia, estava prestes a entrar no banco da frente. Penso se seria correto pedir carona a ele, já que deixei-o sozinho sem avisá-lo de que voltaria.
Vejo-o olhar em minha direção e fechar seu sorriso, desviando seu olhar por um breve momento, voltando a me encarar. Limpo minha garganta e me aproximo lentamente, rezando para que ele não seja uma pessoa rancorosa.
- Oi. – falo, as mãos para trás, meus dedos cruzados, pedindo por sorte. Jonathan me responde com um aceno de cabeça. – Será que... Bem. Acho que devo antes me desculpar sobre aquele dia.
- Você ficou com . – ele afirmou. Neguei com a cabeça.
- Na verdade, nós discutimos e com minha cabeça quente, fui embora com outra pessoa, me esquecendo de meu compromisso com você. – minto com tanta facilidade, que parece que faço isso todos os dias. – Fiquei com vergonha de lhe procurar; quando o fiz, acho que já havia mudado de curso. – olho para o lado. Ficamos calados; eu, aguardando que ele dissesse algo, pelo menos alguma sentença de rejeição. Me senti extremamente aliviada quando o vi se mexer à minha frente, depois de ouvir seu amigo na direção chama-lo.
- Estou indo para o campus agora, está indo embora? – apontou para o lado. – Mas o carro está cheio, então você terá de vir em meu colo. Sem segundas intenções. – levanta as mãos ao me ver levantar uma sobrancelha.
Olho para o lado e não vejo aparecer para se explicar. Talvez não houvesse o que explicar. Nossa situação era clara, apenas nos beijamos uma vez e saímos andando como namorados fazem. Jantamos juntos e nos beijamos mais dentro de seu carro, mas é o que sempre me disseram sobre ele: somente fica com as garotas que são fáceis para ele.
- Tudo bem. – digo, vendo-o entrar e permitir que entre logo em seguida, me acomodando em seu colo. Cumprimento o colega de Jonathan, que encarava-o com um sorriso maroto e viro o rosto em direção à rua para evitar ver qual foi a expressão que Jonathan mostrou em resposta.
O caminho não foi rápido, tampouco longo. Me vi acomodada com a presença de seus amigos, pois eles falavam tanto que não tinha tempo de falar também; para mim, era o suficiente. Não estou afim de falar. Olho para o cenário externo do carro que parecia um borrão. Penso na cena de com Una, o fato dele não ter mudado seu comportamento comigo e não ter mais falado nada sobre o que aconteceu comigo depois. Tudo fazia bastante sentido agora, por isso, meu orgulho me dá facadas no meu peito, fazendo-o doer por parecer uma tola por tanto tempo.
Assim que chegamos ao campus, agradeci Jonathan pela carona e dei-lhe um fora, dizendo que estou cansada, pois cheguei bem cedo para trabalhar, mas que estaria livre no dia seguinte, caso ele quisesse. Fui embora antes dele me perguntar o número de meu quarto.
Tomei um banho com minha mente presa à . Como poderia me comportar em sua frente agora? Durante esse tempo entre nosso beijo e a transa dele com Una, achei que estivéssemos no início de algo. Conversando com Kendra, ela me disse que ter um relacionamento aberto com enquanto namorando Gabriel não é uma coisa ruim, principalmente quando Gabriel não me dá a menor atenção há uma semana e meia e nem responde nenhuma de minhas mensagens. No momento de nossa conversa, achei como se o mundo conspirasse para eu e , contudo, agora, vejo que foi só mais uma ilusão minha, como acontece com todas as mulheres ingênuas do mundo.
Assim que deito em minha cama com o livro de estudos em mãos para a prova de domingo, ouço meu celular vibrar ao meu lado, no criado-mudo. Pego-o com a maior rapidez que meu corpo cansado consegue, pensando que fosse ser , mas não é. O nome de meu pai aparece no identificador eletrônico e penso se esse é um bom momento de atendê-lo. Todavia, ele está me ligando incessantemente há um mês; mesmo que esteja nervosa com ele, não consigo odiá-lo tanto a ponto de não lhe dirigir nunca mais uma palavra.
- Achei que me ignoraria por mais alguns meses. – sua ironia trouxe o arrependimento imediato em ter atendido. – Estou ligando com a intenção de saber como está e você não se dá ao luxo de me atender?
- Não estou nada diferente de quando me disse que não teria dinheiro para pagar minha universidade. – sinto que soei grosseira, mas a esta altura, não estou preocupada em ser polida com ele.
- Um comportamento justo. – seu comentário esfriou nossa troca de ofensas. Meu pai sempre foi um homem de língua afiada; melhor que minha mãe, se posso arriscar, mas sempre soube admitir quando estava errado ou quando a pessoa com quem discute está certa, uma qualidade admirável e que sempre procurei aderir, mesmo tendo puxado minha mãe. - Sua mãe comentou comigo sobre você estar trabalhando, é verdade?
- Alguém precisa conseguir dinheiro para eu receber meu diploma. – a ofensa saiu sem minha permissão. Paro para ouvir sua respiração e vejo que ele estava mais perturbado do que o normal. Não o culpo, na verdade, gostaria muito que ele se arrependesse. Sei que meu pai não é uma pessoa que se arrepende de suas atitudes e o fato de atrapalhar a formação de sua filha não é algo grandioso o suficiente para fazê-lo se sentir assim; contudo, sempre tenho a esperança de que ele cometa um erro e consiga se arrepender por ele. Me faz vê-lo mais como um pai, não um mero tutor.
- É uma boa ideia que você tenha experiências da vida nesta idade. Os adultos estão mais tolerantes com pessoas da sua idade e aceitarão melhor os erros que cometer.
- O que os adultos diriam do seu erro então, pai? – é impressionante como ele não consegue enxergar quão impertinente está sendo. Ele está em um processo de desvalorizar todo o esforço que fiz durante toda a minha vida e ainda tem audácia suficiente para tentar me passar alguma lição de moral?
- , você precisa de mais humildade em seu...
- Humildade? – meus olhos se enchem de lágrimas enquanto olho para a tela de meu computador, vendo Gabriel entrar no Skype, mas logo sair, sem me dar tempo de enviar uma mensagem. – Estou cansada de ser humilde, pai! Minha humildade me fez seguir os passos que o senhor e a mamãe queriam! E olha onde estou? Sendo humilhada na frente de centenas de pessoas por não conseguir pagar meu último ano da faculdade, quando estive entre os 10 melhores desde o início! Gostaria que o senhor e sua lição de humildade não me ligassem novamente senão para falar que tudo foi um mal-entendido e que não preciso mais ir para aquele lugar horrível fazer algo que eu não gosto!
Não consegui enxergar o botão de desligar do celular, então somente taquei-o longe, aonde não pudesse ouvir meu pai tentando cortar minha fala. Onde não pudesse tentar ligar para Gabriel pela milésima vez. Onde não me permitisse esperar por uma ligação de que sei que nunca virá.

Capítulo 8

No dia seguinte, acordei mais cedo para ir à sala de aula ler o material uma última vez, mais com a intenção de me distrair, do que de estudar. Noite passada não dormi cem por cento, principalmente depois que Kendra voltou e tentou falar comigo sobre algo que não consegui entender devido o excesso do choro que saía de dentro de mim. As pessoas costumam dizer que quando temos uma péssima noite, a tendência é que o dia seguinte seja pior. Não posso me dar ao luxo de pertencer a este grupo, porque tenho a prova de avaliação para realizar. Não posso perder meu quarto lugar senão para uma das três colocações acima de mim; assim, acordei três horas mais cedo para dar tempo de, caso haja qualquer resquício de dor da noite passada, acabar com todo o vestígio até o horário da prova.
A prova estava mais fácil do que imaginava. Dizem que a mente carregada de preocupações faz com que o dever tenha menos espaço na cabeça, contudo, as questões me pareciam muito mais fáceis de serem respondidas do que jamais esteve. Ao contrário das provas anteriores, terminei com duas horas de antecedência e, mais feliz, me dirigi em direção aos dormitórios para planejar meu domingo de folga para repassar o conteúdo dos três últimos dias de aula, além de praticar com mais afinco, meus argumentos para a aula prática da próxima semana; fazer dentro do transporte público me fez perceber que as pessoas têm uma opinião diferente de mim, como se fosse alguém com uma sanidade falha falando sozinha.
- . – Gillian sempre foi conhecida por possuir uma presença única nos lugares. Mesmo com a voz baixa, qualquer um facilmente conseguia ouvi-la. Olhei para trás, onde ela, que havia terminado a prova antes de mim, estava parada com sua pasta de estudos em mãos. Parei de caminhar, esperando ela se aproximar e, quando o feliz, olhou para os lados, sem saber exatamente o que fazer em seguida. – O que você achou?
- Estranhei como achei fácil responder.
- Foi o que imaginei. – ela concordou. – Talvez tenham modificado o método de avaliação para que os outros alunos tenham mais mobilidade entre as salas. Professor Ollenz havia mencionado que a reitoria gostou quando Una Parker ingressou em nossa sala. Disse que sentiu que os alunos das salas abaixo se sentiram mais motivados a estudar, elevando ainda mais o método de ensino dos professores com relação às outras universidades, causando quase um abismo entre as comparações.
- Pode ser. – concordo facilmente em um linguajar moderno demais ao que estamos acostumadas; percebi logo que as palavras saíram de minha boca. Gillian arregalou os olhos por eu ter usado um termo geralmente dito pelas pessoas para demonstrar desimportância no assunto. Limpo minha garganta, sem graça: – Talvez tenham facilitado a prova para darem mais uma razão de motivação para os alunos.
O silêncio voltou a reinar entre nós duas. Vi Gillian colocar os cabelos louros para trás da orelha e me encarar, como se eu fosse a responsável por dar o próximo passo em nosso diálogo. Limpei minha garganta e olhei para os lados, vendo algumas pessoas encararem a nós duas com surpresa, mesmo já não sendo um milagre trocarmos palavras em público.
- Você tem planos para o almoço? – pergunto, vendo sua expressão suavizar.
- Não. Não costumo estudar aos domingos. – abre um pequeno sorriso, me deixando sem graça. A melhor aluna do terceiro ano de Harvard não estuda aos domingos, enquanto eu pratico repetidamente em todas as minhas horas livres. Surpreendentemente, seu comentário foi bem melhor aceito por mim do que o rápido estresse que tive com meu pai ao telefone na noite passada.
Acompanhei Gillian até seu dormitório e vi que sua colega de quarto era como Kendra, só que mais... Caseira. Gillian havia me dito em uma das nossas rápidas conversas que sua roomate era da sala H e não gostava de sair do quarto nem para comer. Ela quem tinha de levar os alimentos para a garota, se quisesse paz durante as horas de estudo. Me senti um pouco melhor por ter Kendra como colega de quarto, mesmo tendo de cuidar dela quando volta bêbada das festas. Ela dificilmente ficava mais de uma hora livre – enquanto acordada – dentro do quarto, por isso, tenho liberdade de fazer o que eu quiser, pois o espaço todo é meu.
Depois que passamos em meu quarto para pegar minha bolsa, caminhamos em direção à saída do campus; nesse meio tempo, houve a novidade de conversarmos enquanto caminhávamos. Isso me deu uma forte certeza de que estávamos em uma relação mais íntima de amizade. Devo me lembrar de perguntar a ela se tenho permissão de chamá-la de amiga. Estava tendo um bom momento enquanto nos decidíamos onde iríamos comer, pois temos gostos parecidos; o que é de se esperar de duas pessoas que se preocupam em manter o bom hábito alimentar para os estudos não serem prejudicados.
Uma surpresa aconteceu quando vi parado com seu enorme carro em frente à porta do campus, como se soubesse que eu fosse sair por ali em algum momento. Paro, boquiaberta e sinto Gillian parar ao meu lado, terminando nosso diálogo para observar a pessoa a quem eu desviava minha atenção. usava uma de suas camisetas regatas de algodão que moldurava seus músculos para quem quisesse observar. A jeans preta grudada às pernas tão definidas quanto o tronco; era óbvio que todas as pessoas, principalmente femininas, encaravam com curiosidade o cidadão que claramente não fazia parte do grupo de alunos de Harvard. Olhei para os lados e vi Ace mais à frente com alguns amigos da E; devo me lembrar de perguntar como ele foi na prova, já que na semana anterior veio tirar algumas dúvidas comigo sobre a matéria, dizendo que não seria mal até o final do nosso curso, dele chegar até a B, pelo menos.
- Há algo errado? – Gillian perguntou ao meu lado, interrompendo meu transe. Olhei para ela e em seguida para , que continuava encostado em seu carro, como se esperasse que eu fosse até ele.
- Nã...
- Achei que você não viria! – a voz de Una Parker soou atrás de nós duas. Virei meu corpo para observá-la passar por entre eu e Gillian, empurrando-nos para o lado e então chegando até , que abria um pequeno sorriso, desencostando do carro e deixando-se beijar por ela.
Arregalei meus olhos, compreendendo a razão de estar ali. Ele foi buscar Una na prova. Perguntar como ela foi, levá-la para almoçar e repor suas energias. Aperto os lábios ao vê-los tão à vontade em trocar carícias ousadas em público. Sinto minhas bochechas queimarem e olhei para Gillian, que olhava de mim para eles.
- Devemos ir? – ela perguntou, apontando para o lado. Limitei-me a concordar com a cabeça e segui seus passos, passando por Ace e seu grupo, que me olhavam calados. Fechei os olhos em pesar, me sentindo ainda pior por estar sendo relacionada ao casal puro amasso. Apertei os passos e Gillian, calada, me acompanhou até decidirmos pegar um táxi para o centro de Cambrige.
Durante o caminho não conversamos sobre qualquer assunto por minha culpa. Minha mente estava perdida em devaneios com a cena da noite passada e a que presenciei há pouco. Não consigo compreender a atitude de . Por que pareceu tão interessado em mim àquela noite, se me trataria dessa maneira no dia seguinte? Como não foi sensível em saber que não sou como Una e todas as garotas que ele se relaciona abertamente? Pouco a pouco, o arrependimento de ter traído Gabriel começa a tomar conta da minha mente, fazendo meu corpo se encolher com a vergonha e o medo de passar a notícia para ele.
Gillian me chamou quando o táxi chegou ao restaurante que ela acabou por se decidir sozinha. Não reclamei quando vi que era comida grega. Sempre tive interesse em experimentar uma culinária diferente e devido ao dinheiro que recebi no último mês das aulas extras, tenho confiança que posso gastar mais com alimentação sem me preocupar em sair da quantia estipulada para gastar diariamente.
O ambiente é aconchegante, como se estivéssemos entrando em uma das casas gregas, com as paredes de pedra informal, o chão aparentando ter partículas de areia espalhadas, como se o local fosse próximo à praia. O cheiro de maresia programada pelo aromatizante e os integrantes da equipe do restaurante vestidos com roupas típicas do país me fazia sentir em outro lugar.
- Fantástico. – murmuro, maravilhada.
Gillian e eu somos colocadas em uma mesa mais afastada e silenciosa, para que pudéssemos conversar sem elevar nossas vozes e poupá-las para as aulas práticas. Pedimos nossas bebidas e depois de decidido o que comer, encaramos uma a outra, aguardando uma iniciativa.
- Aquela pessoa que estava na porta da universidade... – Gillian começou a falar. – É seu companheiro?
Aperto os lábios, sem saber o que responder. Olho em seus olhos e sinto segurança em poder falar sobre meus assuntos pessoais com ela, afinal, sei sobre seu ex relacionamento com Bob; o mais justo seria retribuir, falando sobre minha traição e tolice em confiar em uma pessoa como .
- O nome dele é . – começo a falar. – Ele é meu chefe no lugar onde eu trabalho. É um dançarino profissional, muito bom. Foi ele quem viu meu talento com a dança e me convenceu a dançar. – olhei para o lado, envergonhada sobre como iria abordar o início do meu pseudo-relacionamento com ele. – Nós... Bem. Hum. Nós nos beijamos e na hora me pareceu sério, já que ele se comportou como um namorado. Então ontem, sem querer, o peguei, hum, em uma situação constrangedora com Una Parker.
- Una Parker? – concordei com a cabeça, vendo-a se encostar em sua cadeira. – Bem, isso não foi muito leal.
- Acredito que ela não seja uma pessoa leal, de qualquer maneira. – cocei atrás de minha orelha, começando a me arrepender por ter tocado os lábios macios de . O peso de ter achado que havia encontrado uma pessoa que sabia como me tratar começou a aparecer mais, me deixando ainda pior. Suspiro e bebo um gole da bebida que chegou.
- Bob... – ela limpou a garganta ao sentir meus olhos nela. Sei que não há uma maneira de nos comunicarmos sobre garotos, quando a única coisa que entendemos bem tem relação com os estudos. Contudo, meu coração pareceu esquecer o rosto de e focou em Gillian e Bob. – Ele... Hum, também tem momentos... Constrangedores?
Não soube como responder. É claro que Bob esteve em todas as festas que eu fui obrigada a comparecer e é claro que sempre esteve rodeado de garotas, contudo, em todas elas, não me recordo tê-lo visto de fato tendo algum relacionamento além da sensualidade dividida entre ele e as garotas. Na dúvida, resolvi que era melhor negar para que ela e Bob, caso um dia viessem a reatar, conversassem sobre isso entre eles.
– Tirando a questão de achar que você e Bob não são compatíveis, há outra razão de você ter terminado sua relação? – perguntei, mexendo o canudo com os dentes. Gillian olhou para o lado, seus olhos vazios. Será que é assim que pareço quando me falam de Gabriel? Nunca terminei com ele e, na verdade, o amo o suficiente para nunca tomar essa iniciativa. Ele provavelmente ficará muito bravo quando lhe contar sobre o que eu fiz. Irá me comparar com sua mãe, a quem tanto odeia. Parei de tentar entrar em contato com ele fazem alguns dias, porque não sei o que farei quando nossa comunicação acontecer, assim como sei que não conseguirei omitir o fato.
- Bob e eu nos conhecemos desde pequenos. Ele sempre foi mais alegre que eu; também sempre teve mais facilidade de fazer amizades do que eu, por isso, todos os amigos que eu tinha apenas falavam comigo porque estava sempre junta dele. Devido minha ingenuidade, ele sempre se encontrou na posição de achar que devia me proteger de tudo e o fato de estarmos sempre colados nos ajudando, acabou fazendo-o pensar que pertencíamos um ao outro para sempre. Eu não queria vir para Harvard. – levantei as sobrancelhas, surpresa com a novidade. – Meus pais não tinham dinheiro para pagar, mas o pai de Bob sempre havia dito que ele deveria entrar na melhor universidade do mundo, por isso, quando Bob disse que iria para onde eu fosse, o pai dele me pediu que entrasse em Harvard e ofereceu pagar meus estudos. Porque eu não tinha muito dinheiro para pagar uma boa universidade e a maioria apenas oferecia bolsas de estudos a partir do segundo semestre, decidi aceitar. Nós terminamos no final do primeiro semestre e o pai dele parou de me financiar; estava tudo bem, eu já havia me planejado por um tempo o que fazer, por isso quis o primeiro lugar.
- Você já sabia que terminaria com Bob? – arregalei meus olhos. Surpreendentemente, saber a razão de Gillian estar sempre em primeiro lugar não era nada, comparado à minha surpresa em vê-la prever o término de seu relacionamento com tanta frieza.
Gillian negou com a cabeça.
- Achei que poderia dar certo, mas então nos deparamos com essa burocracia de divisão de alunos por méritos. No início, Bob disse que estava tudo bem eu estar em primeiro e ele quase em último. Ele não se importava muito com os estudos e se acomodou. Mas as pessoas não são muito gentis e começaram a afetá-lo ao invés de mim. Ser um S... É um título de prestígio, você sabe. As pessoas preferiam caçoar de Bob à mim. Vendo-o sofrer tanto... – e deixou a frase no ar.
Apertei os lábios, compreendendo a razão do término. Gillian estava poupando Bob do sofrimento. Visualizo a expressão que Bob sempre tem em seu rosto quando Gillian surge no assunto entre eu e Kendra. Na maneira como pergunta sobre ela quando estamos sozinhos e ele quer saber sobre ela, ao mesmo tempo que não quer deixar transparecer todo seu interesse. Abro um pequeno sorriso, vendo-a me encarar, séria.
- Eu gostaria de expor minha opinião. – levantei a mão até à altura do peito, como faço durante as aulas práticas. Com um aceno, Gillian permitiu de me expressar. – O ser humano possui um erro comum de tomar lados, achar que o que ele faz para o outro sempre será melhor do que o outro diz ser bom para ele mesmo. – lembro-me de tentando me convencer sobre a dança. Até um ponto é irritante; aos poucos, com a repetição, acabei considerando sua opinião, cedendo e concordando com sua ideia maluca. – Contudo, você não tem conhecimento de como Bob está depois do final de sua relação. Como uma pessoa que era presença constante em sua vida, se extinguir dela o deixou, de certa maneira, perdido.
- Como pode ter certeza?
Levantei meus ombros.
- Eu apenas tenho.

Almoçamos com calma, como se não estivéssemos preocupadas com os estudos que nos ocupariam a mente na semana que estava para começar. Durante a refeição, parecia que havíamos entrado em um acordo onde não falaríamos sobre estudos, leis ou professores. Me surpreendi com o número de interesses em comum que temos; as vontades que desejamos realizar, mas que não há coragem suficiente para realiza-las.
Voltamos para o campus a pé, parando em uma loja ou outra, comprando alimentos para deixarmos no quarto e entrando em papelarias para renovar nossos estoques de material de anotação. Enquanto isso, tagarelamos sem parar sobre nossas preferências e discutíamos sabiamente quando achávamos que a outra não estava certa. No final, foi uma tarde mais divertida do que imaginava.
- Até amanhã. – falei, assim que chegamos no andar do dormitório de Gillian, que ficou me encarando.
- ? – ela perguntou quando eu estava na metade do lance de escadas para o andar de cima. – Será que... Um dia desses... Eu poderia, hum, acompanhá-la em seu ambiente de trabalho?
Abri um pequeno sorriso e fiz o sinal de positivo com o dedo.
- Saio todos os dias às 13:30.

Quando Kendra entrou, achei que estava bêbada por ter feito tanto barulho e estar tão atrapalhada com os pés a ponto de cair no chão.
- Hans, deixe de ser chato! – gritou, me fazendo tirar os fones de ouvido e olhar para trás, vendo Ace e Hans acompanhando-a.
- Como ele conseguiu entrar? – apontei para Hans, que se sentou na cama de Kendra, enquanto Ace fechava a porta atrás de si tão rápido quanto uma cheetah.
- Baixinha, qualquer um consegue entrar aqui quando tem um crachá. – Ace apontou para o cartão entre os dedos, que identifiquei ser de seu colega de quarto belga. – O problema foi entrar neste quarto sem levantar suspeitas. Mas enfim – abriu um sorriso e se aproximou de mim. -, falemos de você: Como foi na prova?
- Achei extremamente fácil.
- Você não tem um pingo de sensibilidade mesmo, não é? – bagunçou meu cabelo entre risos, deitando em minha cama.
Na universidade, não há problema em garotas e garotos invadirem o quarto do outro enquanto está em horário de livre circulação. O problema é identificado quando o horário de retirada das onze da noite soa e os inspetores passam para verificar todos os quartos. Kendra nunca esteve em nenhuma das inspeções e quando estava, se encontrava desmaiada pela embriaguez.
- Você não achou? – olhei para Ace, que cruzava as mãos atrás da cabeça e murmurava quão melhor minha cama era que a sua.
- Baixinha, nunca pergunte a alguém que não seja da A se achou fácil. Nessas horas, é melhor ser ignorado pelo S do que alvo de sua atenção. – mandou uma piscadela para mim, não respondendo minha dúvida.
- , você viu minha calcinha de renda vermelha? – Kendra gritou do espaço onde estava a pia instalada. Olhamos em direção à Hans, que estava com a calcinha em mãos e um sorriso malicioso nos lábios, fazendo minhas bochechas corarem e voltar a colocar os fones de ouvido, desesperada para não dar mais atenção a este tipo de cenário.
- Baixinha, estou falando com você! – Ace tirou um dos meus fones, me fazendo tirar o outro, desviando os olhos do material da professora de quinta-feira. – Você não faz nada além de estudar? Mesmo? Até aquele chato do Binghan vai à festas e consegue manter o sexto lugar dele.
- Eu não quero manter meu lugar, Ace, quero estar entre os três, lembra?
- Bem, se há um dia para você estudar, domingo definitivamente não é um deles.
- Para S, todos os dias é dia de estudar.
Ace solta uma risada e balança a cabeça, resmungando:
- E eu um dia achei que ser um S era legal. Enfim, vim lhe perguntar como está sua coreografia.
- Bob disse que...
- Não, não. – Ace levantou a mão. – Sua coreografia. Para a apresentação.
Ficamos calados. Olhei para Hans, que me olhava com interesse; em seguida para Kendra, que não dava atenção para nossa conversa, ainda focada em terminar de arrumar suas coisas.
- Não compreendo. Não irei me apresentar.
- Acho que irá, sim. – Ace riu depois de trocar um olhar com Hans. – nos deu os horários das apresentações e ali, às nove da noite, há uma apresentação sua e dele. – retirou do bolso, a programação em um papel dobrado.
Peguei o papel e o coloquei abaixo do abajur de minha mesa a fim de ver melhor o conteúdo. Passeis os olhos até o horário informado por Ace e confirmei o que disse. Meu nome. Ali. Com a de .
- Eu disse que não dançaria com ele. – murmurei.
- Até parece que você não o conhece. – Ace riu. – Sua opinião não vale muito para ele, sabe?
- Você parece estar se divertindo.
- Ah, estou sim. – Ace pegou o papel de minhas mãos, entre risos. – Porque sei que você não vai me desapontar, baixinha. – deu uma piscadela. – Além disso, sei onde ele está agora, quer uma carona? – tirou a chave de sua picape do bolso e abriu o enorme sorriso branco que se destaca sempre em sua pele escura.
Estou para responder que ‘sim’ e reivindicar minha vontade de não participar da apresentação, quando me lembro da cena que presenciei mais cedo dele com Una Parker.
- Não, obrigada.
O quarto ficou em um completo silêncio, enquanto ouvia Kendra tentar fechar sua mala.
- Não? – Hans perguntou. – Por que não?
- Eu só... Não quero falar com ele. – respondi, sem saber criar uma boa desculpa.
- O que aconteceu? – Kendra se colocou na conversa, encostando em nossa escrivaninha com seus braços cruzados. Virei meu rosto para encará-la. – Te conheço, , sei que quando você não quer encará-lo, é porque aconteceu alguma coisa.
- Não aconteceu nada. Eu só quero ficar treinando para...
- Achei que amigas não mentissem uma para a outra. – ela me cortou, me fazendo sentir as bochechas queimarem com a vergonha de ter ido contra minha própria crença.
- Ele está com Una Parker.
- E o que tem? – Hans perguntou. Levanto os ombros.
- . Você, por acaso, está tendo algum rolo com o ? – Ace se sentou à beira de minha cama, que era ao lado da escrivaninha que estou sentada. Limpo a garganta. – Vocês se pegaram?
- Não! – virei minha cadeira para ele. – Bem, não assim.
- Assim como? – ele abriu um pequeno sorriso. – Vocês se beijaram?
Não respondi.
- ACHEI QUE FOSSEMOS AMIGAS! – Kendra berrou, virando minha cadeira em sua direção.
- Mas eu contei pra você! Eu contei!
- Que grande merda! – ela me empurrou e então parou. – Quando me contou?
- No dia... Bem. No dia. Você disse que no dia que mais precisava de mim, eu não estava e falou que eu deveria dar uma boa razão para não estar aqui.
Ficamos caladas por um tempo, até suas bochechas perderem a cor vermelha e ela acalmar os nervos. Eu havia mesmo dito, um pouco, mas ela estava bêbada, sabia que não ia prestar atenção em nada, então apenas omiti algumas partes. Fico feliz que ela não tenha se lembrado disso.
- E você está afim dele.
- Eu não estou. Foi um erro.
- Um erro? , nunca é um erro pegar . – Kendra solta uma pequena risada de ironia, colocando uma mão em meu ombro.
- Respeito, a gente vê por aqui. – Hans levanta a mão, recebendo um beijo quente como desculpa. Vejo os dois não finalizarem o beijo no que deveria durar alguns segundos e quando eles chegaram a cair na cama de Kendra para continuar os amassos, decidi que não daria mais atenção aos dois e olharia para Ace, que estava com uma expressão de riso no rosto.
- Você acha engraçado. – falei.
- Claro que acho engraçado. Eu sabia que você era única, baixinha, mas não uma peça rara! – me deu um tapa no braço, me deixando confusa. Ele estava feliz ou surpreso? – Você então está bravo com ele, porque ele está trepando com Una Parker? – o sangue voltou às minhas bochechas quando o ouvi falar a palavra de baixo calão, causando mais risadas. – Nossa, se eu soubesse que vocês estavam em um rolo, nunca teria dado a ideia para ele.
- Ideia? Que ideia?
- Estou me sentindo mal agora. – Ace balançou a cabeça. – Achamos estranho Una Parker entrar na S do nada, por isso, a única maneira que encontramos de tirar a verdade dela foi fazendo com que retribuísse as investidas que ela dava. Ele me pareceu um pouco relutante no início, mas acabou concordando tempo depois.
Não sei o que pensar. A maneira como as pessoas resolvem ou solucionam problemas está muito além do que eu imaginava. Meus pais sempre falaram que a sedução, quando você o tem, é uma boa arma e uma ótima defesa. A sedução acompanha o pecado e pecado é tudo o que advogados querem descobrir da pessoa que querem incriminar. Parte de mim compreende a tática, mas a outra não quer aceitar. Ele se deixou ser um boneco para descobrir uma verdade? Para o bem dos alunos de Harvard, que ele não gosta? Para mim?
- Você pode ver isso como um ponto positivo. É melhor para a saúde. – Ace comentou. Concordo com a cabeça.
- Tem razão. – olho para ele, que inclinou seu corpo para trás, estranhando minha rápida concordância com sua sugestão.
- Uau. – coçou a nunca, sem graça. – Bem que disseram que vocês da S não são humanos.
- Não compreendo.
- Se fosse eu, estaria maluco. – riu, sem graça. – Mas você realmente ouviu a razão e pensou com sensatez. Uau. – repetiu. – Se um dia acontecer algo comigo, chamarei você para ser minha advogada. – levantou o dedão em um positivo, me fazendo desta vez, rir com ele. – Arrume suas malas, baixinha, temos que ir antes que presenciemos um filme pornô aqui. – apontou para o lado, onde Kendra e Hans continuavam se amassando.
- Ir? Para onde?
- Para onde mais? Viajar!


Olhei a estrada escura passar rapidamente pelo carro. O clima lá fora parecia estar frio, mas sei que está muito calor. O termômetro instalado no painel do carro de Ace mostra que está em 32ºC. Uma temperatura bastante elevada, mesmo estando às sete da noite. Assim que Ace disse que nós estaríamos saindo dos Estados Unidos para festejar o aniversário de , arregalei os olhos, surpresa por estar sendo convidada para uma programação tão íntima.
- É para os amigos mais próximos. – Hans disse.
- É. São quase 100 amigos próximos que ele tem. – Kendra disse, irônica. Arregalei os olhos por haver tantas pessoas que receberiam passagens gratuitas para fora do país. – Relaxa, não é o que está pagando.
- É Alec. O sócio. disse que ele surgiu ontem com a ideia de irmos até Ibiza aproveitar sua nova mansão. – Ace disse, abrindo meu armário e pegando minha mala. – Vamos, baixinha, voltaremos no sábado para usarmos o domingo para lidarmos com o jetlag e o hangover.
- Preciso...
- Não, você não precisa estudar, porque você não tem aula essa semana e as provas não são mais semanais. Anda, , levanta e vem socializar. Aproveita que o ódio das pessoas estão em Una para fazer amizades. – Kendra ajudou Ace a preparar minha mala. De acordo com ela, se sentiu surpresa em ver tantas peças “boas”, quando eu não fazia boa coisa escondendo-as. Não posso deixar de me surpreender ao entender que “boas” foi causa de minhas lingeries.
Ace deixaria o carro estacionado no estacionamento do aeroporto; Bob disse que pagaria o valor, porque não queria pegar táxi. Encontramos com ele na saída do campus. Pela primeira vez, a saída para uma festa não era barulhenta e cheia de pessoas. Fiquei animada em saber que de todas aquelas pessoas, eu era uma das poucas que foi selecionada para ir até Ibiza e a ideia de deixar o país por alguns dias para festejar não me pareceu tão ruim. Talvez conseguiria arranjar tempo para fugir do grupo e fazer uso do espanhol que nunca usei direito com os nativos.
O aeroporto estava lotado. Muitos alunos de Harvard estavam ali, prontos para sair de Massachussets em direção às suas casas aproveitar a semana de folga ou viajar com amigos e amantes. O grupo que iria para Ibiza era realmente grande. Quando vi com Una grudada em seu pescoço, suspirei, tentando não prestar atenção e me manter longe dos dois. Bob, como parte de nosso trato, ficou me fazendo companhia enquanto não surgia algo melhor para ele fazer.
- Vi você saindo com Gillian hoje. – começou a falar, enquanto esperávamos nossa vez de sermos chamados por Violet para pegar nossas passagens.
- Fomos almoçar.
- Estreitar os laços? – levantou uma sobrancelha, enquanto olhava para mim com os braços cruzados. Concordei com a cabeça. Violet o chamou.
Durante o tempo que esperei Bob ir e voltar, meu olhar acabou voltando-se para e Una. Fui pega de surpresa ao me deparar com me encarando. Ao contrário do que eu faria, ele não desviou o olhar. Continuou me encarando sério, como se eu tivesse feito algo de errado, não ele. Bob voltou rapidamente, provavelmente curioso em saber sobre o que conversamos, mas Violet foi mais rápida ao me chamar assim que ele estava prestes a abrir a boca para me fazer alguma pergunta.
Caminhei até Violet, passando pelas pessoas que me encaravam curiosas por quererem saber o que eu fazia ali. Senti a diferença de não ser o alvo do grupo. Una deveria ter feito algo bem pior para todos, para que esquecessem a “mesquinha” e partissem para, de acordo com o que ouvi do grupo de Patrícia, “vadia”.
- Tudo bem, ? – Violet tinha mania de chamar as pessoas por seus sobrenomes. Quando nos conhecemos oficialmente, ela se apresentou por seu próprio sobrenome, mas acho seu nome tão bonito que prefiro chamá-la de Violet. Abri um pequeno sorriso ao receber minha passagem. – Seu check in é em uma fila diferente. – mencionou mais baixo. – Quando for a hora de entrarmos na fila, me siga. – e sem dizer mais nada, chamou o próximo nome.
Confusa, voltei até Bob, que me encarava de volta à sua posição de negação, com os braços cruzados e as pernas abertas. Vi que seus pés eram gigantes, porque estava trajando os chinelos. Não gostaria de receber um chute dele, por isso, decidi que o que ele me perguntasse, iria responder sem reclamar.
- Ela falou sobre mim? – veio a pergunta clássica.
- Falou.
- E...?
Olhei para os lados, dando um passo mais perto de Bob.
- Você tem certeza que ela não gosta de você?
O que disse causou-lhe uma reação interessante. O fato de tê-lo pego desprevenido o fez pular para trás, como se esperasse qualquer resposta, menos essa. Abri um pequeno sorriso ao ouvir Violet anunciar que podíamos caminhar para as filas do check in. Olhei para ela, que balançou a cabeça para que fosse em sua direção.
- Você não ache que se livrará de mim, . – Bob disse, colocando a mão em minha cintura e me levando em direção à Violet. – Também estou na executiva, então é melhor se preparar para me contar essa história direito se quiser paz na viagem.
Por um segundo, entendi a posição de Gillian com relação à colega de quarto dela. Sem dizer nada, caminhamos os dois até Violet, enquanto eu pegava minha passagem para confirmar a minha classe. Enquanto a maioria das pessoas iam para a fila da classe econômica, os tutores, eu e Kendra caminhávamos para a fila do executivo, juntos.
- Ela voltou a ser mesquinha? – ouvi alguém perguntar, mas Ace logo gritou que eu deveria pagar a outra metade da parcela até o final do mês. Ao ouvirem-no gritar, as pessoas passaram a ignorar minha presença na fila dos ricos. Interessante o modo como prestam atenção nestes detalhes. Eu e Kendra ficamos juntas, enquanto Bob se mantinha próximo à mim para tirar alguma informação sobre meu almoço com Gillian e Hans de Kendra, pelo óbvio.
Assim que Una viu minha presença na fila executiva, se exaltou. Disse que não poderia permitir que eu fosse com eles para Ibiza, já que pessoas como eu não fazem parte do estilo deles. Não sabia que as pessoas estavam odiando-a tanto a ponto de tomarem parte de meu lado, me protegendo e dizendo coisas que antes eram direcionadas à mim. Não me senti bem por Una, mas o fato dela querer me tirar minha colocação na universidade me fez sentir só um pouco mal por ela.
Durante o tempo que fizemos o check in até o momento do embarque, permaneci com Kendra e às vezes Ace, que estava com uma nova garota nos braços, Khyra, uma negra muito bonita. A pele tão lisa quanto a de Ace e os dentes tão brancos quanto os dele. Pareciam um casal de modelos.
- Você tinha que ver Una tentando mudar a passagem dela para executiva. Mas não há mais lugares. – Kendra disse, rindo, durante nosso passeio pelo Duty Free depois de toda a burocracia com o raio-x das malas de mão. – Depois ela correu até o e pediu que ele ficasse com ela na econômica. Ele a chamou de maluca na frente de todos. Tipo, todo-mundo! – trocou risadas com Ace e Khyra. Não fiz parte do grupo, mas admito ter achado cômico a cena que ela criou em público para ficar com .
Assim que o portão foi anunciado para os viajantes do voo para Ibiza, o grupo começou a seguir em direção ao portão de embarque. Com respeito aos outros integrantes que não estavam na classe executiva, desistimos da sala VIP para ficar em companhia dos outros. Assim que a comissária de bordo anunciou o início do embarque para os passageiros da executiva depois de ter permitido o ingresso de pais com crianças de colo, idosos e cadeirantes, acompanhei o grupo de Kendra e Ace, em último lugar.
- Qual é o número da sua poltrona? – ela perguntou. – Sou B9. – se inclinou para mais perto de mim quando peguei minha passagem e apresentei à ela, para me ajudar a procurar pelo número. – A1? Grande sorte! – me deu um tapa no braço. – Melhor-cadeira-ever! Primeira a escolher a comida. – não me senti muito confortável por ficar longe dela, mas achei uma boa ideia em seguida, quando pensei que poderia ler os livros que trouxe para terminar.
Fui recebida com champanhe, suco de laranja e água pela comissária de bordo perfeitamente arrumada. Agradeci sem aceitar nada e caminhei até o lugar apontado pela comissária que se ofereceu para me ajudar. Assim que chegamos à primeira cadeira, próximo à cabine do piloto, não agradeci a comissária que se retirou, por estar congelada ao ver sentado no lugar ao lado do meu. Olhou para mim ao perceber minha presença e não pareceu surpreso. Limpei minha garganta, querendo ignorar meu choque e deixei minha passagem com o passaporte na poltrona da janela, a número 1.
se levantou para me ajudar a colocar minha mala no compartimento ao perceber que não estava conseguindo arranjar força nos braços o suficiente para aguentar o peso de minha mala. Quando fomos nos sentar, deixou que eu passasse. Por sorte, o primeiro banco possui um espaço muito grande para esticar as pernas, o que garantiu que eu não precisasse realizar qualquer contato físico ao entrar; seria demais para mim, além do esforço que já estou fazendo de não cruzar nossos olhares.
Ao me sentar, comecei a me arrumar. Sempre andei de primeira classe, por isso, tenho meus próprios hábitos ao me preparar para uma viagem longa. Primeiro, tirei os sapatos e os troquei pelas meias descartáveis que a primeira classe sempre oferecia aos passageiros. Em seguida, tirei o edredom e o travesseiro de plumas do saco de plástico que os protegia do pó; estendi o edredom em meu colo e apoiei o travesseiro em minha lombar até ter permissão de inclinar o banco. Deixei o headphone dado pela comissária assim que me sentei na cesta à frente, logo abaixo da pequena tela de televisão onde eu poderia colocar algo para assistir ou somente ouvir.
Eu e não trocamos nenhuma palavra durante momento algum. Nunca fui de iniciar diálogos, principalmente com ele. Se ele planejou seduzir Una propositalmente por mim, então meu plano de fazê-lo sofrer com minha indiferença daria certo. As duas primeiras horas foram silenciosas entre nós. Comemos a primeira refeição calados e ao terminar, peguei meus próprios fones de ouvido, conectando-o ao celular que estava em modo avião.
- Até quando pretende me ignorar? – ele murmurou entre a conversa que rolava entre os passageiros da primeira classe.
- Não estou te ignorando. Nós só não temos o hábito de nos falar desnecessariamente. – falei. Quando li na revista que nós devemos nos fazer de difícil para tornar o ambiente mais divertido, nunca pensei que poderia estar nessa posição e me divertindo tanto.
- Não brinca, , você sequer me cumprimentou. Desde quando a educação te abandonou? – sua voz parecia irritada, fazendo com que a ironia fosse falha. Olhei para , que me encarava. – Você sabe que foi tudo um plano, não sabe?
- Não sei de plano algum. – seus olhos se fecharam em pesar. Sua mão massageou as têmporas e o ouvi respirar fundo. – Não se preocupe, , não irei estragar a comemoração do seu aniversário. – e, sem dizer mais nada, inclinei minha poltrona até chegar a deitar. Virei de costas para ele com os fones de ouvido e abri um pequeno sorriso por vê-lo tão vulnerável a mim.
Nosso voo foi tranquilo, sem turbulências, mas com um atraso de uma hora. Uma hora a mais enfrentando a presença tão perto de de mim. Para ajudar, a refeição que me deram não estava me fazendo bem, de modo que ia ao banheiro com muita frequência, até o ponto de fazer se virar para mim assim que voltei a me deitar:
- O que você tem? – esticou sua mão para medir minha febre, mas não permiti. – Deixe de frescura, , só verei sua temperatura. – no meio da escuridão e do silêncio do voo, sua voz saiu ríspida, me lembrando que não deveria exagerar na dose do “se fazer de difícil”. – Acho que está começando a ter febre. Fique deitada. – me empurrou e terminou de cobrir a parte do meu corpo que estava descoberto até o pescoço. Senti se afastar de mim e voltar depois de dez minutos com um comprimido e um novo edredom. A comissária de bordo me trouxe água sem gelo e um novo travesseiro. – Tome isso.
- Não gosto...
- Apenas tome. – a preocupação em sua voz me fez abrir a boca e beber a água que a comissária havia trazido. Assim que o copo foi esvaziado, a dispensou, pedindo que fechasse a cortina do corredor que levava ao banheiro, pois a luz era muito forte. Voltei a me deitar e, no escuro, enxerguei seu semblante próximo ao meu. – Você acha que eu a traí?
- Não temos um relacionamento para você me trair. – falei um pouco aborrecida por me fazer lembrar da cena da noite de Halloween.
- Nós temos um relacionamento, .
- Meu relacionamento é com...
- Esse cara. Gabriel. Ele não te ama. – disse. – Você ainda não percebeu? Há quantos dias não fala com ele? Ou meses? Sei que você o procura, porque você está de cabeça no relacionamento, mas uma relação não funciona com apenas um dos lados se esforçando.
- Você não é ninguém para me dar lições amorosas, um mulherengo.
- Eu fiz aquilo por você! – seu sussurro começou a se tornar mais alto.
- Claro. Para ajudar uma garota que você beijou, praticou o cavalheirismo e a levou de volta para casa; transar com outra na frente dela e não correr para se explicar. E o melhor! Buscar a outra na faculdade que a garota também estuda! Esplêndido, , você é realmente um exemplo!
- Pare com ironia, eu sei que não deveria ter transado com ela, mas se não fosse isso, eu não conseguiria saber a razão dela ter conseguido entrar na sua querida e preciosa sala S.
Virei meu rosto para ele, mas não pude enxerga-lo por causa da escuridão. Ficamos calados por um tempo; por alguma razão, a raiva que eu havia exterminado pela razão voltara. Queria que ele deixasse a poltrona ao meu lado e fosse se sentar na C22, exatamente o oposto da minha, mas era claro que isso não iria acontecer. Eu não era tão sortuda assim.
Foi então que senti seus lábios nos meus e foi como se minha raiva nunca tivesse surgido. Gosto tanto dos lábios de por serem extremamente macios; como a primeira vez que você se deita em uma cama king size plus com edredom e travesseiros de plumas. Você se acomoda em meio a tanta maciez que se esquece do mundo e deseja nunca mais sair dali. Desejo não precisar separar meus lábios dos dele. Sua mão direita surge em meu rosto, fazendo um delicado carinho em minha bochecha.
- Eu organizei essa viagem, porque sabia que se você tivesse para onde fugir, não teria a oportunidade de fazê-la enxergar minha intenção. – seu sussurro me fez vontade de beijar-lhe novamente.
- Eu sei falar em espanhol e sair de perto de você.
- Durante o dia, sim, mas aqui dentro do voo e no hotel, você não terá escolha.
Hotel? Hotel?
- Eu não...
- A reserva já está feita. – posso sentir o sorriso em seus lábios pelo tom que sua voz saiu. Me remexi, claramente desconfortável.
- Posso trocar de quarto.
- Quero ver alguém querer.
- Una Parker irá querer.
- Dei um jeito em Una Parker já. Ela não irá atrapalhar você. Nunca mais.
Por alguma razão, me senti segura de que ele estava falando a verdade. Se for mesmo, não me importarei de dividir o quarto do hotel com ele, já que provavelmente será grande o suficiente para dormirmos bem separados.


O quarto é, de fato, grande. Exceto pelo fato de ser um apartamento dividido com Hans e Kendra, que dormirão no outro quarto e Ace e Bob que dizem ficar com o sofá da sala e o colchão extra fornecido pelo hotel. Olhei boquiaberta para , que me olhou com um sorriso vitorioso.
- Não se preocupe, não há quem não saiba entre nós sobre eu e você.
- Não há eu e você. – falo, rancorosa.
- Isso é o que você acha, baixinha. – Ace se intrometeu, colocando-se ao lado de . – Como pode resistir a este pastel de carne com ovo? A este sashimi de salmão? A este cupcake de blueberry? – apontou para , que cruzou os braços, se divertindo com os apelidos. – Você, minha baixinha favorita, sairá deste país de mãos dadas com o big boss. Ou eu não me chamo Ace!
- Cala a boca, Ace. Deixe eu bater um papo com minha amiga. – Kendra me puxou para seu quarto e fechou antes de Hans reclamar que tinha de pegar a troca de roupa para sairmos para jantar. Chegamos no fim da tarde e até passarmos pela alfândega, pegar nossas malas, chegar no hotel e realizar o check in foram exaustivas quatro horas. De acordo com a recepção, a janta havia sido encerrada e a cozinha fechada, mas havia uma rua paralela a do hotel que possui restaurantes que ficam abertos até a madrugada, afinal, estamos em Ibiza. – Tome. – senti um plástico em minha mão e assim que olhei para ela, taquei de volta para Kendra.
- Não vou fazer isso!
- Você vai, , confia em mim. E mesmo que não faça, antes prevenida, do que grávida, anda. – e empurrou o pacote de volta para mim, que empurrei de volta para ela. Não transarei com ! Isso não faz parte dos meus planos, eu espero há anos por Gabriel! Anos... Quatro anos. – , veja só, este lugar... Ele é mágico. Mesmo que você não queira agora, o ambiente entre você e ele poderá mudar e eventualmente pode acontecer. Não vou apontar o dedo na sua cara dizendo que eu avisei, prometo.
- Kendra, eu não vou fazer isso, eu não sou esse tipo...
- Você não é uma vagabunda, eu sei, se fosse, seríamos amigas desde o primeiro dia de aula há dois anos e meio. – abri um pequeno sorriso. – Mas ele gosta de você. Todo mundo sabe que ele está planejando essa viagem, porque sabe que você pegou mal todo esse negócio de plano; de alguma maneira, ele descobriu sozinho, já que todo mundo descobriu hoje desse rolo já existente de vocês.
Ficamos caladas enquanto eu encaro o pacote de camisinha em minhas mãos. Nunca havia tocado em um, mal sei abri-lo.
- Esqueça o Gabriel. Você pode recomeçar sua vida aqui. Longe dele, dos seus pais, de todas aquelas pessoas que julgam sua vida superficialmente. A vida é mais divertida com riscos. Fala a verdade, você está se divertindo muito mais desde quando começou a se enturmar em nosso grupo, não está?
Abri um pequeno sorriso e não pude negar. Por causa disso, acabei concordando em ficar com pacote. Mesmo que não fosse usá-la, é o símbolo de que alguém já se preocupou comigo de verdade. Uma amiga de verdade.
Saímos do quarto e, sem reclamar, entrei no quarto que eu dividiria com . A cama, como imaginava, era de casal. O quarto possuía chão estofado e uma varanda enorme com duas cadeiras de sol e uma mesa entre elas. A vista para o mar de Ibiza era fantástica mesmo à noite. colocou minha mala no sofá que havia no quarto, enquanto a dele ficou jogada no chão ao lado do armário.
- Você quer tomar uma ducha? – ele perguntou, apontando para a porta do banheiro aberta. Concordei com a cabeça e, sem perceber, deixei o pacote de camisinha que Kendra havia me dado em sua frente. Ele olhou para o pacote e então para mim. Droga. Droga! Droga! Droga! – Isso...
- Não pense errado! Foi só... Kendra. Ela veio com essa ideia ridícula e me pareceu tão amiga que não pude negar, mas...
- Aham. – seu modo estúpido voltou a reinar. O sorriso irônico no rosto e a expressão de quem não acreditava. – Se você quiser...
- Eu disse que não! – dei alguns passos para trás, peguei a troca de roupa e saí correndo para o banheiro, trancando-a bem trancada logo em seguida. De dentro, pude ouvir sua risada e vi pelo meu reflexo no espelho que foi a maior vergonha de minha vida até então.

Por ser uma ilha, não é muito difícil saber o ponto de alimentação e o point de ‘saideiras’, como disse Ace, de Ibiza. Caminhamos um pouco somente até encontrarmos uma extensa rua de paralelepípedo muito lotada, com as portas quase todas abertas. Centenas de pessoas se espalhavam pelos bares e restaurantes com música ao vivo que havia no lugar. Caminhei por último com Bob enquanto todo o resto procurava algo para beber, comer ou nativos e nativas para paquerar. Enquanto via o grupo de quase cem pessoas diminuir a cada porta que passávamos, por alguma razão eu e terminamos sozinhos caminhando em direção de volta ao nosso hotel à beira-mar.
- Vindo para cá vi um tipo de quiosque aberto na praia. Devem servir algo para comer lá, tudo bem? – ele perguntou. Assenti em resposta, olhando para trás para ter certeza de que nós dois estávamos mesmo sozinhos. De acordo com Violet, nós não sairíamos para a noite noturna famosa por ser, como disse uma das pessoas que veio em nosso grupo, “sem fronteiras”.
Caminhamos lado a lado silenciosamente, ouvindo ao longe as risadas das pessoas que ficavam para trás na rua das pedras, como era chamado. Enquanto andava, observava, absorta, o mar calmo e escuro. De vez em quando o movimento de um peixe que vinha à margem onde há mais oxigênio fazia a água estremecer, mas era em questão de segundos. Conforme dito por , havia mesmo um quiosque moderadamente cheio de turistas e com um som ao vivo até que agradável. Percebi quando , em um ótimo sotaque espanhol, pediu uma mesma para dois que o local estava sendo frequentado, em sua maioria, por casais. Apertei os lábios, incerta se deveria deixá-los compreender que eu e somos um casal, já que não somos. Quando sentamos, o vi olhar para o cardápio para escolher nossa refeição e não pude deixar de pensar em Gabriel. Há algum tempo atrás eu sonhava em estar num lugar desses com ele, não com um suposto amante. Queria dividir uma refeição, falarmos sobre nossos pontos de vista sobre o lugar e então admirar essa linda paisagem juntos. Mas não estamos juntos; não reclamo por , ele é tão bonito que parece até estarmos gravando um filme de tão bela minha visão fica quando adiciono o cenário de Ibiza atrás dele. Contudo, ele não é meu namorado. Por outro lado, no momento tenho mais afeições por ele que por Gabriel.
A verdade é que estou há semanas, quase um mês tentando falar com Gabriel, que não me responde. Nossa última conversa não foi das melhores e tudo o que ele gosta de dar atenção, é sobre minha relação com meus pais. É claro que ele se preocupa, porque também foi decepcionado pelos pais dele e quer evitar que eu sinta o mesmo, mas só por um instante gostaria que ele falasse sobre nosso futuro além do meu retorno e nossa moradia. Durante minha conversa com Gillian esta tarde, vi que não tenho metade das experiências que ela teve com Bob. Não me lembro sequer da sensação de ter sua língua massageando a minha, como me lembro claramente de , mesmo depois de duas, três semanas sem beijá-lo. Me pergunto se é assim que meus pais se sentem com relação ao outro; se é essa a razão deles praticarem a infidelidade com tanta frequência. Sempre achei que os compreendia, porque eram adultos e sabiam mais das coisas do que eu; Gabriel mudou minha mente depois que começamos a namorar, mas agora parece que estou voltando às minhas raízes, protegendo as crenças e atitudes de meus pais.
Olho para , que falava os ingredientes do prazo que iria pedir. Concordei com a cabeça por não estar prestando a mínima atenção no que dizia. Vejo seu cabelo em um tom de castanho claro que tanto gosto de mexer durante o beijo, os braços de fora tão fortes que acredito um deles ser maior que minha coxa. Os lábios... Não me lembro de ter dado tanta atenção aos lábios de alguém como os de . Oh meu Deus! Kendra tem razão! Este lugar é mágico!
- ? – balançou a mão à frente de meu rosto, tirando do meu transe. – Estou perguntando o que quer beber.
- Ah, o mesmo que você. – ainda avoada, respondi. Concordei quando ele me perguntou se eu tinha certeza e me arrependi ao ver ser uma bebida alcoólica.
- Não sabia que você bebe álcool.
- Regularmente, mas não isso. – apontei para a imensa taça à minha frente. – Vinho. Eu gosto de vinho.
- Vinho? – vi sua sobrancelha formar um arco abaixo de sua testa. – Aconteceu alguma coisa?
- Una. – a imagem de Parker repentinamente surgiu em minha frente. – Não me lembro tê-la visto saindo do avião ou no transfer até aqui.
Ouvi o pequeno riso de enquanto engolia sua bebida.
- Una sequer chegou a embarcar no avião, .
- O que aconteceu?
- Não sei se você sabe, mas Una é colombiana. – levantei minhas sobrancelhas, surpresa. – Bem, ela é. O visto dela estava expirado fazem alguns meses, por isso, quando ela foi passar pela imigração para sair do país, os policiais a interceptaram. Provavelmente a exportaram de volta para a Colômbia. Pelo que Ace disse, pegará um bom tempo sem poder entrar nos Estados Unidos.
Não sabia o que dizer. Eles foram bastante espertos. Eu demoraria algumas horas para pensar nessa solução, mas nunca cogitaria realizá-la. Entre meus devaneios, senti sua mão em cima da minha. Desviei meus olhos para a ação e então ousei observar , que tinha um sorriso nos lábios.
- Posso lhe fazer uma pergunta? – ele voltou a falar. Assenti, permitindo que perguntasse sua dúvida. – Por que me tratou com indiferença na semana depois que nos beijamos?
- Porque você me tratou com indiferença.
- Eu não tratei, não.
- Bem, foi o que eu senti. – falei, acabando a discussão.
- Imagino sua situação quando me viu com Una.
- Foi extremamente desagradável. – fiz uma careta, fazendo-o soltar uma risada. – Tenha o hábito de trancar sua porta quando realizar uma ação daquelas.
- Não preciso me preocupar, porque você poderá fazer isso por mim. – e com um sorriso repleto de malícia, fechou sua expressão que rapidamente compreendi. Automaticamente, minhas bochechas começaram a corar, de modo que ouvi sua risada soar mais uma vez.
A comida chegou e parecia maravilhosa. O gosto era espetacular, bom demais para um simples quiosque. Gostaria de jantar neste lugar todas as noites. e eu comemos em conversa sobre o que faltava para finalizar a reforma. Foi quando o assunto que me voltou à tona surgiu:
- Por que você colocou meu nome no horário?
- Alguém deveria cobrir o espaço que Una deixou. É uma boa apresentação.
- Você não me perguntou se eu estou de acordo ou não.
- Você está?
- É claro que não!
- Por isso mesmo. – levantou sua taça em forma de brinde. – , é só uma apresentação, você não precisa ficar com medo.
- Eu não estou com medo! Eu só estou... Irritada. Não quero dançar para as outras pessoas.
- Não se preocupe, eu estarei com você. Além do mais, dançamos bem juntos, lembra? Você pisca e a música acaba.
- Não.
- Você quer parar? – ele disse, exausto. – Você irá dançar e ponto. Não dá tempo de mudar a programação.
- , eu disse que não dançarei. Nem com você, nem sozinha, nem com ninguém! Você não pode, pelo menos agora, respeitar minha vontade?
Enquanto terminava sua bebida, o vi levantar os ombros. Soube exatamente o que ele queria dizer com esse movimento. Queria dizer que não importava minha vontade, eventualmente ele me fará dizer ‘sim’.

Capítulo 9

- Caramba, esse é o recorde. – Ace dizia enquanto eu terminava de beber meu copo d’água na cozinha.
Eram quase duas horas da manhã e todos estavam exaustos da viagem. Como o dia seguinte seria cheio a partir das dez horas para o tour que faremos pela cidade, quase todo mundo decidiu retornar para a comodidade de seus quartos e usufruir das belas camas que o hotel cinco estrelas oferecia para seus hóspedes. Contudo, assim que Ace, Kendra, Bob e Hans entraram no quarto, me flagraram na sala sentada lendo um livro e no quarto assistindo à TV.
- Nunca vi um casal novato se aborrecer tão rapidamente. – Ace continuou, olhando em minha direção, para dentro do quarto. – Isso quer dizer que...
- Hans dormirá com hoje. – falei, olhando para Kendra que abriu a boca para retrucar, mas pensou melhor.
- Pegue suas coisas. – empurrou Hans, que a olhou transtornado.
- E nossa noite?
- Teremos muitas noites em Ibiza, Hans. Agora eu tenho uma amiga, preciso me dedicar à ela. Anda. Enquanto você troca, eu e iremos até a loja de conveniências que há ali no térreo para comprar algumas guloseimas para comermos.
Sem dizer nada, apenas obedeci as ordens de Kendra. Eu não gostaria de dividir qualquer lugar com no momento. Ele acha que está certo, eu estou certa. Fim. Simplesmente não consigo acreditar na infantilidade dele achar que só porque aceitei ficar com ele que farei tudo o que ele quer. O que custa me respeitar um pouco? Por que as coisas sempre devem ser da maneira dele?
- Porque ele sempre mandou em tudo, oras. – Kendra falou, sentada na cama de casal que dividiria comigo essa noite. Acabei me expressando para ela, que foi completamente compreensível com minha posição. Se ouvir sem interromper e prestar atenção no problema para depois dar a opinião é ser amiga, acho que não terei problemas em ser uma boa melhor amiga para ela e Gillian. – , veja só: é um cara que sempre teve tudo o que quis, não porque ele é um almofadinha, mas porque ele sempre deu um jeito. Ele tem essa maneira cativante que ninguém sabe da onde vem, mas ele é assim. Cativante. E ele cativa mesmo. Seja pela dança ou pelo papo. Desde quando o conheci, você é a primeira pessoa que diz verdades que ele nunca ouviria se não te conhecesse. De verdade, te admirei ao ouvi-lo chamar de idiota.
- Qual o problema dele com a palavra? – a lembrança de sua reação quando o chamei assim pela primeira vez me chamou a atenção. Ninguém fica tão nervoso como ele ao ser chamado de ‘idiota’.
- Você não sabe? – Kendra perguntou e tive de lhe mandar o meu melhor olhar para que entendesse que era claro que eu não sei. Se ela não me contar, não saberei de nada sobre ele. – Bem, o pai de faleceu fazem alguns anos. Deixou algumas dívidas, o que o fez ser um garoto rebelde quando mais jovem. Foi quando ele fez amizade com a turma da zona onde está localizado o estúdio. A mãe de sempre foi namoradeira e como queria arranjar um novo marido, acabava tratando como se fosse um estorvo e o chamava de ‘idiota’. Não sei bem sobre os detalhes da relação com a mãe dele atualmente, apenas sei que ele não pode ser chamado de ‘idiota’. Aparentemente, você é a única pessoa que o chamou assim que não saiu com qualquer parte do corpo roxa ou quebrada.
Fechei meus olhos, pensando no transtorno que lhe causei ao desenterrar memórias indesejáveis. Não gosto de machucar as pessoas inconsciente da dor que estou causando. Olho para a parede que divide o quarto que estou com Kendra, do quarto que Hans e estão. Continuo firme achando que estou correta quando ele deveria ter me perguntado antes se eu gostaria de participar da apresentação de final de ano, contudo, também sinto o peso de tê-lo feito relembrar os momentos de aflição que passou com sua mãe. Olhei para Kendra, que me encarava com o olhar “você sabe o que fazer, não sabe?”
- Continuo nervosa por ele ter me colocado na lista de apresentação. – falei, ao me lembrar que este era um compromisso que não poderia ser cancelado facilmente e que ele não teria força de vontade de fazê-lo mesmo assim.
- Entendo. – ela cedeu mais fácil do que estou acostumada a ver alunos de direito fazer. – Dentre as duas situações, qual é a pior?
Pronto. Isso é o que um aluno de direito de Harvard faz. Ao invés de nos dar uma resposta e abrir a possibilidade de haver discussão, nos faz refletir sobre a situação, enviando mensagens subliminares que possam ativar nossa sensibilidade. Suspiro, da maneira que ela gostaria que eu fizesse, cedendo à ideia de que era claro que o fato de eu tê-lo chamado de idiota e lembrar de um passado ruim era muito pior do que minha vontade de não dançar na apresentação.
- O que irá fazer? – Kendra perguntou, comendo mais um punhado de Doritos. Olhei para os outros pacotes lacrados e então a memória do olhar de raiva que expressava ao ouvir ser chamado de “idiota”. Como ele podia não me odiar depois de tê-lo chamado dessa maneira tantas vezes? – É a semana de comemoração do aniversário dele e ele está sozinho num quarto com o colega de trabalho.
Meu peito diminuiu ainda mais. Era verdade. Havia dito que não atrapalharia sua comemoração, mas até agora, tudo o que fiz foi deixa-lo infeliz. Mesmo que esteja nervosa com ele, não posso evitar sentir a culpa e responsabilidade de sua programação ter dado errado. Também me senti infeliz por tê-lo deixado imune ao fato dele ter tido relações sexuais com Uma e agora ser tão arduamente punido por ter colocado meu nome na lista de apresentações, uma situação, de fato, possivelmente controlável. Mexo meus pés até a porta, parando nela mais uma vez, lembrando que se for até o quarto de , não poderei voltar atrás sobre a dança. Acredito que com ele não haverá a possibilidade de substituição. Ele não irá me tirar da lista somente porque fui me desculpar por chama-lo de “idiota”. Deixei meus ombros caírem e bati a cabeça na porta. Por que ele não veio até mim se desculpar até agora? Fez coisas piores para me ajudar e até então não apareceu. Será que gostava tanto assim da dança? Será que...
- Kendra. – virei meu rosto, vendo-a me encarar, curiosa. – Você acha que ele está demonstrando querer ter este tipo de relacionamento comigo somente porque quer que eu dance no final do ano?
Não pude evitar me sentir um pouco desconfortável com a risada que veio em seguida. Kendra levou a mão à boca e com a outra, balançou na frente enquanto mexia a cabeça de um lado para o outro.
- , pode conseguir qualquer parceira que quiser. Ele não escolheu você porque estava com dó ou dispersa do grupo.
Concordei com a cabeça e voltei a encarar a porta, fechada. Pensei mais uma vez se deveria ir me redimir com ele. O que me impedia de agir era o fato de achar que ele poderia vir até mim primeiro.
- Apenas vá. – Kendra falou da cama, me encorajando a sair e encontrar Bob sozinho no sofá.
- Demorou. – ele disse. – Sabe quantas vezes a porta do lado foi aberta e fechada? – apontou na direção do quarto onde estava. - Você não se sente mal?
- Ele teve a intenção de vir para cá? – arregalei meus olhos, surpresa, mas somente recebi uma risada como resposta.
Olhei para a porta do quarto onde e Hans estava e me perguntei se já estavam dormindo. Caminhei para mais perto e encostei o ouvido na porta, tentando ouvir qualquer tipo de som ou ruído que desse sinal de que um dos dois estavam acordado. Obviamente, não ouvi nada. Talvez ele estivesse dormindo. É melhor conversarmos no dia seguinte, quando estaremos descansados e com um humor melhor...
- Apenas vá. – a voz de Hans atrás de mim me deu um susto; não tive tempo de reagir, pois sua enorme mão me empurrou pelas costas enquanto a outra abria a porta para me fazer entrar no quarto de . Então ele não estava lá dentro?
- Espere! – virei para a porta, já fechada. Tentei abri-la, mas, de alguma maneira, ele conseguiu trancá-la pelo lado de fora. Ouvi Hans resmungar com Kendra sobre ela não ter peso na consciência por fazê-lo dormir com outro homem e Bob manda-los se calarem para que pudesse dormir.
Virei meu rosto para trás, não encontrando com no quarto. Ele não está, então. Caminhei até a porta do banheiro, tentando ouvir o som da água do chuveiro, mas a porta se abriu assim que a toquei, mostrando que não havia ninguém ali dentro. Ele não estava mesmo. Suspirei, exausta por ter me preocupado à toa. Ele deve ter ido se divertir com as garotas locais ou que vieram conosco. É a comemoração de aniversário dele, afinal, não há razão para se aborrecer e trancafiar dentro de um quarto somente porque discutiu comigo mais uma vez. Pensando melhor, Ace também não estava no quarto e sempre os vi saírem juntos para paquerar.
Não sinto sono para dormir. Pego um livro para estudar durante o tempo em que estou sozinha e sigo para a sacada, grande o suficiente para possuir mesa e cadeiras de sol. Sinto a maresia bater em meu rosto suavemente e sigo até uma das cadeiras, me sentando e abrindo o livro. Pela primeira vez, encontrei dificuldade em ler um parágrafo; não porque não entendo o conteúdo, mas sim porque não me sai da cabeça. Apoio o livro em minhas pernas e olho para o mar à frente. Por que penso tanto nele? Por que não me sinto culpada por trair Gabriel? Será que a educação que meus pais me deram me faz ter uma mente mais aberta com relação a relacionamentos? Ou será a raiva de tê-lo me ignorando por mais de um mês inteiro?
Pego meu celular e vejo o horário. Estou a seis horas à frente do Brasil, então ele poderia estar em casa. Se aqui são duas da manhã, ele deve estar jantando antes de se preparar para dormir ou ir para alguma confraternização que sempre tem nos finais de semana. Nas duas últimas vezes que nos falamos, ele tem estado mais sociável com seus amigos; Helena, minha colega do Brasil, comentou achar estranho eu não me sentir insegura ou ciumenta. Na verdade, achei bom que ele finalmente tivesse um tempo para se divertir, achei que quando voltasse, ele estaria acostumado e me levaria para suas programações.
A ligação chamou, chamou, chamou até cair na caixa postal. Ele não ouviu minhas mensagens? Tentei não deixar tantas quanto gostaria e mesmo assim não me retornou nenhuma. Queria falar que vim para Ibiza, mas ele não me atendeu e não estou com vontade de lhe deixar um recado dessa vez. ainda está em minha mente e, por incrível que pareça, estou mais nervosa com ele do que com Gabriel, que tem sido como um fantasma em nossa relação.
Desisto de tentar e deixo o celular com o livro em cima da mesa ao lado da cadeira. Cruzei meus braços e passei a observar o céu estrelado com o som das ondas do mar ao fundo. É realmente o paraíso. Nunca imaginei, quando assistia à TV, que pudesse haver algum lugar tão maravilhoso. Meus problemas parecem estar tão longe de mim neste momento. Abro um pequeno sorriso por estar tão à vontade. Gostaria que não estivesse brigada com . Ele poderia me fazer companhia, segurar em minha mão, falar sobre minhas qualidades, olhar em meus olhos... Espere.
Pisco e meu corpo está sentado ereto. Meus pensamentos estão errados. Como posso ter tantos pensamentos íntimos com ? Não posso simplesmente me dar ao luxo de, toda vez que me deparar com uma sensação boa, relacioná-lo à mim. Ter esse tipo de sentimento por um homem é... Errado. Kendra uma vez disse que é assim, conquistador. Entra na cabeça das mulheres e nunca sai.
- Talvez ele saiba me dizer como fazer para tirá-lo de minha cabeça... – murmuro para mim mesma, resolvendo me levantar e voltar para o quarto para dormir.
Tomo um susto ao vê-lo encostado de pé na parede ao lado da porta de vidro que ligava a sacada com o quarto; seus braços estavam cruzados e trajava somente uma bermuda de dormir, mostrando seu tronco formado e trabalhado.
- O que faz aí?
- Estou aqui desde antes de sair.
Como não pude vê-lo? Senti-lo? Ele então esteve me observando todo este tempo. Vendo minha tentativa de falar com Gabriel e me concentrar nos estudos. Sinto minhas bochechas esquentarem e pego o livro e o celular da mesa.
- Você poderia ter falado comigo.
- Foi você quem veio primeiro, não é?
Fiquei calada. Ele tinha razão. Eu quem tomei a iniciativa, mas isso não queria dizer que eu deveria falar primeiro. Pode haver a possibilidade de ter vindo para ouvir suas desculpas.
Desculpas.
Fecho meus olhos, lembrando a razão de ter-me feito vir até o quarto.
- Bem. – comecei a falar, sem graça. – Vim, porque soube a razão da palavra “idiota” lhe aborrecer tanto. – olhei para o chão, querendo cavar um buraco para enfiar a cabeça.
- O que você soube?
- Sua mãe, hum, o chamava assim depois que... Hum, você sabe. Seu pai...
- Depois que meu pai morreu? – ele finalizou. Concordei com a cabeça. – O que tem minha mãe a ver?
- Ela não... Te chamava? – ergui minha cabeça, confusa.
- De idiota? – ele levantou as sobrancelhas. Assenti e ele riu. – Claro que não.
- Então... Por que...
- Não gosto dessa palavra, porque sempre ouvi as pessoas falarem que dançar é idiota. Dançar não é idiota. As pessoas que dançam não são idiotas. Minha família não tem nada a ver com minha opinião sobre a palavra.
Eu. Vou. Matar. Kendra.
Concordei com a cabeça e apertei os passos em direção ao quarto. Não acredito que me deixei levar por mais uma mentira. Será que não aprenderei nunca? Não tenho a opinião que se pode mentir para amigas. Se ela queria ter uma relação sexual com Hans essa noite, não haveria problema para mim dormir na sala com Ace e Bob. Ou somente Bob, seja lá onde Ace esteja no momento.
Entrei com a intenção de sair do quarto para realizar a façanha que pensei a alguns segundos, pegando um dos travesseiros da cama. Não olhei para trás, por estar extremamente envergonhada em ter sido claramente enganada por Kendra. Contudo, quando toquei na maçaneta da porta para abrir, a mão de apoiou na mesma para me impedir de finalizar a ação.
- Aonde você vai?
- Dormir na sala com Bob.
- E por que você dormiria com ele?
- Porque ele, até então, é o único que não me aborreceu.
Ouvi soltar uma pequena risada e encostar sua testa em minha cabeça. Travei ao sentir sua respiração tão perto de mim, praticamente em minha nuca. Olhei em direção à porta em pânico, sem saber se deveria agir ou reagir.
- Você não deve falar para o cara com quem está se relacionando, que irá dormir com outro.
- Não estamos nos relacionando.
- Quer dizer que você é uma garota de programa? Somente elas beijam homens sem estarem em um relacionamento.
Virei meu corpo ao ouvir a palavra que tanto desgosto. Pensei em empurrá-lo, mas ele se encontrava tão perto, mas tão perto, que acabei travando.
- Você entendeu por que não gosto da palavra “idiota”? É a mesma coisa que você sente ao ouvir a palavra “prostituta” e seus derivados. Não gostamos que nos chamem de algo que não somos.
- Mas você é idiota... – resmunguei, sofrendo com sua respiração tão próxima à minha. Seus lábios parecem tão macios vendo-os de perto. Formaram um sorriso de repente.
- Desse jeito, vindo de você, começarei a interpretar como um elogio. – sussurrou, me deixando sentir o aroma da parta de dente que usou. – Você quer esquecer nossa discussão?
- Se você concordar em não me fazer dançar na apresentação... – falei de volta. fez o som de um estalo com a boca e negou com a cabeça.
- Você pode tentar me convencer, se quiser, mas raramente volto atrás com minhas decisões.
Não pude evitar fechar meus olhos durante suas palavras. Relaxei meu corpo e encostei na porta; logo, senti os lábios de no dorso de meu pescoço, distribuindo pequenos beijos estalados que me dava cócegas, mas não me fazia querer que parasse. Suas mãos se mantiveram longe de meu corpo, mas não pude fazer o mesmo com as minhas. Aos poucos, automaticamente levantei as mãos até o cós de sua bermuda, sentindo o osso de sua bacia frontal. Deslizei-as para cima, passando por todo seu abdômen definido; o ar começava a faltar em meus pulmões, estava tão focada em dar atenção aos lábios de passeando por meu dorso, que acabei me esquecendo que preciso respirar para viver.
Em conversas com Kendra, ela sempre me falou que todas as garotas com quem já teve uma relação sexual disseram que tentaram se fazer de difícil, mas que seus toques são tão convidativos, que é impossível manterem-se sóbrias e relutantes. Agora entendo por que. Quando suas mãos finalmente enlaçaram minha cintura e seus lábios foram de encontro aos meus, sabia que simplesmente não tinha mais saída. Queria tanto aquele beijo que me esqueci de qualquer discussão que tivemos há pouco. Estar prensada entre a porta e o corpo enorme de não me pareceu ruim, principalmente quando seus lábios voltaram para meu dorso e suas mãos passeavam por minhas costas, massageando-as com a força que utilizava durante a trajetória.
Suas mãos seguiram para a área abaixo de minhas axilas e, com a maior facilidade, seus braços me levantaram, fazendo minhas pernas enlaçarem em sua cintura. Parecia até que estávamos dançando juntos. Apenas soube nosso rumo quando senti a cama em minhas costas. A ideia de transarmos me despertou:
- ... Não... – murmurei, arfante, ouvindo seu resmungo. – É sério...
Seus lábios pararam antes que pudesse descer mais para um lugar que ninguém jamais havia tocado antes. Levantou sua cabeça e olhou em meus olhos.
- Você não quer?
Desviei seu olhar. Não sei o que eu quero. Na verdade, eu quero. Ao mesmo tempo, não quero. Não quero achar que me arrependerei amanhã. Não quero pensar que minha falta de experiência fará que ele tenha a pior relação sexual de sua vida. Não quero decepcioná-lo. Ele já transou com tantas mulheres, será que sabe que eu nunca fui tocada por alguém antes?
Percebi minha demora para lhe responder, quando ele se retirou de cima de mim, pronto para se levantar. Segurei em sua mão e achei que ele fosse brigar, mas somente arregalou levemente seus olhos ao me encarar. Manteve seus olhos em mim por um longo tempo até soltar uma risada e balançar a cabeça.
- Kendra havia me dito. – murmurou. – Me desculpe. Não quero assustá-la.
- Não estou assustada. Apenas... Sem rumo. Querendo ou não, ainda estou em um relacionamento com outra pessoa. Eu não... Traição é errado.
- Você já o traiu, .
- Eu sei. O fato de não me sentir culpada está me matando. – sento meu corpo, afastando-me de , que me olhava, sério. – Eu... Quero... Hum, com você. Sabe? Mas não quero machucar Gabriel. Ele, apesar de distante, é uma pessoa importante.
- No momento, quem está sendo mais importante para você? Eu ou ele?
Que pergunta desnecessária! Como posso responder? Se disser ele, estaria ignorando minha relação com Gabriel e todo o amor que sinto por ele desde a época do colégio. Se responder Gabriel, corro o risco de não poder me perder novamente nos olhos de .
- Você deveria pensar melhor nisso, . Assim como as mulheres, os homens também não gostam de se ver em um impasse. Honestamente, eu nunca estive deste lado da relação, então acho que você deveria se decidir logo ou alguém sairá machucado. – ele pegou seu travesseiro e se levantou. Porém, antes de sair, disse: - Não se preocupe comigo, tenho certeza de que não me deixarei cair muito alto.

As festas em Ibiza sempre me pareceram coloridas e repletas de pessoas alegres. Quando li matérias e vi fotos dos eventos que ocorrem durante toda a madrugada em hotéis e mansões próprias para a algazarra, tentei me preparar psicologicamente para enfrentar toda animação e êxtase que há no local; as festas daqui são muito piores que as da mansão de . As pessoas não se importam de nunca terem se visto na vida. Com o teor alcoólico em alta, apenas trocam um olhar antes de se beijarem como se já se conhecessem.
Como sempre, fui deixada para trás por Kendra, Hans e Ace. Bob conheceu uma garota chamada Eva, no qual está sempre em sua companhia fazem alguns dois ou três dias. Eu e conversamos casualmente, mas não nos beijamos desde nossa conversa no quarto. Dividimos a cama, mas dormimos e acordamos em momentos diferentes, de modo que não há nenhuma troca de olhares ou vontades. Na última noite, sequer voltou para o hotel, dando o sinal de que deve ter passado a noite com alguma garota. Por alguma razão, me senti incomodada com sua ausência.
Aproveitei o tempo matutino e vespertino para conhecer a cidade. Como todos gastam bastante tempo nas festas, não tenho companhia para conversar ou me acompanhar nos passeios. Tentei fazer o máximo de programações que não requereram dinheiro e descobri que é possível fazer muitas coisas. Por sorte, encontrei um casal de idosos que estavam dispostos a me incluírem em suas programações, no qual foram muito divertidas. Entretanto, esta noite, Kendra disse que eu não poderia perder a festa que eles iriam. Não pude dizer ‘não’, porque não tive tempo, mas me senti na obrigação de acompanha-los, já que não me uni a eles nos últimos três dias.
- Você está sozinha? – Patricia gritou, tentando soar mais alto que o som da música. Concordei com a cabeça, depois de olhar para os lados e não ver nenhum rosto conhecido. – Parte do grupo está indo para uma festa menor. Afim?
Era a primeira vez que Patricia me chamava para acompanha-la em uma festa. Acredito que se ela me chama, é porque as garotas de seu grupo concordaram e eu estava dentro. Abri um pequeno sorriso, feliz por estar finalmente sendo mais aceita pelo grupo e concordei. Segui ela por um longo caminho, passando por Bob e Eva, Kendra e Hans e Ace com uma nova garota loira. Mais uma vez, não vi ; é o dia do aniversário dele e não nos encontramos. Achei que poderia falar com ele para desejar os parabéns, mas ele deve estar ocupado, proporcionando seu próprio presente com as nativas de Ibiza. As vi várias vezes tomando sol na praia com o topless que entendi por que os homens gostam tanto daqui.
A festa no qual Patricia se referia era restrita. Aparentemente, o grupo chamou atenção porque possuíam mais mulheres que homens, por isso, alguns organizadores chamaram somente as mulheres para participar. Uma festa de garotas organizada por homens? Não me pareceu normal, mas não as questionei. Elas pareciam gostar da minha presença, então apenas acompanhei, recebendo uma pulseira amarela antes de entrar gratuitamente em um ambiente fechado com a música alta e a visão obstruída pela fumaça que era constantemente lançada no espaço. Quando passei pela segurança do local, logo desejei sair.
Era uma festa swing. Uma orgia, na verdade. Dezenas de homens nus passeando pelo local, à procura de uma mulher que possa satisfazê-los. Aqueles que estavam acompanhados, não tinham vergonha de transar publicamente, sendo alvo de câmeras gravadoras e celulares. Estava apavorada. Me encostei na parede, tentando evitar contato visual com qualquer homem ou mulher que tivesse a intenção de ter uma relação com outra mulher. Não tenho preconceitos, mas não quero ser tocada por outra mulher. Mal fui tocada por um homem.
Peguei meu celular para ligar para Kendra, mas obviamente, ela não me atendeu. Tentei Ace e Bob, mas eles deveriam estar ocupados com suas companheiras. Procurei por Patricia ou as meninas do grupo e elas estavam entretidas com três dos homens que caminhavam com o pênis de fora, fazendo coisas que jamais imaginaria ver na minha vida. Sem ar, saí do local correndo.
- Hey, gata, não achou ninguém para satisfazê-la lá dentro? – um latino com o sotaque muito forte segurou meu braço assim que saí. Dei alguns passos para trás, mas ele não pareceu entender minha vontade de ser deixada em paz. – Posso fazer uma rápida para você, se quiser. – o modo como me olhou me deu náuseas.
- Não, obrigada. – tento me soltar, mas ele não parecia querer me soltar.
- Vamos lá, gata, você irá gostar, garanto.
- Eu disse que não.
- Você irá soltá-la ou terei que chamar a polícia? – a voz de surgiu atrás de mim.
O latino não disse nada, apenas soltou uma risada e levantou as mãos, como se provocasse , mostrando que estava o obedecendo. Não pensei duas vezes antes de virar as costas e sair andando apressada, afim de me afastar daquele homem o mais rápido possível.
- Você já está fora da festa, . – a voz de dizia atrás de mim depois de um longo tempo.
Parei de andar e vi que estava na rua a caminho do hotel. Soltei o ar, aliviada e encostei no muro de pedra que separava a rua da beira mar.
- O que fazia ali? Você entrou?
- Patricia me chamou... – comecei a falar, mas não terminei. Lembrar do ambiente, me fez passar mal. – Como pode existir um lugar daqueles...
- Você somente não está acostumada, mas aquilo existe em qualquer lugar.
Neguei com a cabeça, certa de que acabaria com toda essa ilegalidade quando fosse uma aluna formada e profissional. Há leis que impedem que exista essas casas de sexo. O número de doenças sexualmente transmissíveis que deve ser passada diariamente...
- Você parece que vai vomitar.
- Eu acho que vou vomitar. – digo, nauseada.
- Vamos, vamos de volta para o hotel. – ele começou a caminhar ao meu lado.
De acordo com que fomos andando, a sensação de bem-estar começou a voltar. Estar livre de toda aquela poluição sonora e visual me fazia querer continuar observando a baía de Ibiza. A ilha, mesmo sendo relativamente pequena, possuía muitos lugares para conhecer. O casal de idosos sempre vêm até o local para aproveitarem juntos suas férias. Disseram que se conheceram aqui, quando as festas eram ainda mais proibidas, devido ao ceticismo de antigamente. Por serem tão dóceis e animados, não me pareceu que um dia eles foram como aquelas pessoas dentro da festa.
Olhei para , que caminhava com as mãos nos bolsos da bermuda. Achei que ele estaria com alguma garota, afinal, era o dia do aniversário dele. O aniversário!
Dei uma olhada no relógio, que marcava quase três horas da manhã. Seu dia já havia acabado.
- Feliz aniversário atrasado. – encolhi os ombros ao vê-lo virar a cabeça para me encarar. – É muita tolice viajar para uma ilha para comemorar seu aniversário e acabar dando os parabéns atrasado.
- Obrigado mesmo assim. – ele respondeu, voltando a colaborar com o silêncio que paira entre nós.
Durante os dois últimos dias, achei que ele estivesse bravo comigo por não tê-lo respondido sua pergunta com agilidade. Observando suas reações agora, não acho que ele esteja tão nervoso quanto aparenta. Com o pensamento de que ele poderia estar me evitando até dar-lhe uma resposta, me obriguei a pensar mais no assunto, principalmente quando prestava atenção na troca de carinho do casal de idosos que acompanhava nos passeios. Ibiza, mesmo sendo uma ilha repleta de festas e atividades proibidas, também era cheio de família e casais felizes. Durante a parte do dia, quando o sol toma conta da ilha, tenho vontade de passear de mãos dadas com alguém como as outras garotas que passaram por mim com seus namorados ou maridos.
Minha resposta à pergunta de veio durante estes pensamentos. A pessoa que eu mais gostaria de ter ao meu lado dividindo toda a vista e aproveitando o local.
Chegamos ao quarto ainda calados. entrou no banheiro para tomar uma ducha, enquanto eu trocava a roupa por um pijama de verão. Pensei em tomar uma ducha também depois que ele saiu, mas seu corpo umedecido me fez querer falar com ele mais uma vez.
Caminhei até a porta do quarto que dava para a sacada, onde ele se mantinha em pé com os braços cruzados à frente do peitoral, observando a vista. Fiquei calada apenas vendo suas costas nuas e os ombros largos subirem e descerem de acordo com a respiração.
- Você é a pessoa mais especial para mim agora. – disse, sem pensar que estava realmente falando em voz alta. A cabeça de girou, olhando em minha direção. – Quero passear com você de dia e de noite, não com Gabriel.
Quando terminei de falar, não se moveu. Continuou me olhando, sério. O vento passou e ele continuou parado à frente da sacada. Depois de longos minutos, caminhou lentamente até mim e, sem dizer uma palavra, segurou meu rosto com suas duas mãos e me fez, novamente, me perder em seus olhos . Senti seus lábios grudarem nos meus e, brevemente, as mãos rodearem minha cintura. Toquei seus braços como se tivesse ainda medo, mas assim que ele sussurrou meu nome em meu ouvido, foi como se eu soubesse que ele era meu.
Abri os olhos enquanto sentia sua língua deslizar por meu dorso. Minhas mãos estavam apoiadas entre seus braços e ombros e eu observava o mar durante o carinho que recebia de . Que união perfeita de visão com sensação. Estremeci ao sentir seus dedos deslizarem com cautela por minha barriga. A cada minuto, subia alguns centímetros até chegar à borda de meu sutiã. Minhas mãos apertaram seus braços, como se avisasse-o para parar, atitude que ele tomou assim que sentiu minha reação.
- Se você não quiser, apenas me diga. – falou, ainda me abraçando.
Minhas mãos permaneceram em seus braços. Olhei para o mar, o céu azul marinho com pontos brancos que piscavam fracamente. A brisa passou, levando consigo qualquer insegurança sobre o que eu queria de verdade.
- Eu quero. – sussurrei à altura de seu ouvido. – Quero muito. Com você.
Em um simples estalo, senti meu sutiã afrouxar em meu corpo. Por ser tomara que caia, um modelo que para mim era mais confortável, senti a peça cair em cima de meus pés, enquanto levava suas mãos para a barra da peça de cima que usava e, com um ágil puxão, retirou-a, me deixando com o tronco nu.
Desviei os olhos quando ele deu um passo para trás para me olhar.
- Tire os braços da frente. – ele tocou em minhas mãos, que formavam um ‘x’ à frente de meus seios, fazendo uma leve pressão para volta-las ao lado do corpo. – Você é linda... – sussurrou em um tom admirado. Um tom que Gabriel nunca usou comigo.
Tirou sua própria camiseta e segurou em minha cintura, colando seu corpo no meu e me dando um longo abraço. Fiquei surpresa com seu toque tão sensível. Ficamos na posição por um longo tempo, nossos troncos nus se tocando sem nenhum pudor. Durante nosso abraço, senti que poderia confiar nele para minha primeira vez. A energia que recebia de seu corpo me dizia que ele sabia o que estava fazendo e sabia que eu era virgem. Saber que ele tinha essa consideração por meu corpo jamais tocado antes me fez feliz.
- Você tem certeza? Não irei mais perguntar depois de agora. – ele sussurrou em meu ouvido.
- Eu tenho certeza. – falei, tentando meu melhor para passar a mensagem de que era isso o que eu queria agora. Kendra tinha razão, o lugar era mágico e é um conquistador.

Seu primeiro toque foi um beijo em meu ombro nu. Abracei-o em sua cintura e encostei minha cabeça em seu peitoral, sentindo, aos poucos, os estalos se tornarem um beijos e então sua língua começar a passear. De acordo com que os toques acima ficavam mais ousados, suas mãos decidiram acompanhar o movimento. A primeira vez que meu seio foi tocado ele estava tão inchado que me deu orgulho de ter proporcionado algo para ele tocar. Soltei um pequeno gemido com a sensação de prazer ao tê-lo massageando meu seio direito, que sequer me lembrei do que poderia acontecer daqui a pouco. Pouco tempo depois, sua outra mão cobriu meu outro seio.
- ... – falei, com o susto. Senti seus lábios formarem um sorriso enquanto beijava meu dorso. Nos dirigimos até a cama, onde, lentamente, me deitei e o observei acima de mim com um brilho nos olhos.
- Irei beijá-la agora, apenas relaxe. Se quiser, feche os olhos e somente sinta o prazer. – tocou em meus olhos, de modo que senti a obrigação de lhe obedecer.
Suas mãos percorreram meu tronco novamente. Contudo, a surpresa foi, de repente, a boca de cobrir um de meus seios, me fazendo arquear o corpo com o susto e suspirar ao sentir suas mãos se firmarem em minha cintura, como se quisessem me manter deitada. Não pude evitar gemer ao sentir sua língua dançar no bico do seio. Sem ter conta de meus atos, minhas mãos agarravam a colcha e os cabelos de . Aos poucos, seus movimentos se tornavam mais rápidos, fazendo meus gemidos aumentarem pouco mais. Como era bom. Por isso as pessoas gostam tanto do sexo?
Dei um pequeno sobressalto ao sentir sua mão em cima de minha virgindade. Mesmo com a calcinha e o pijama impedindo de termos o contato direto, não pude evitar sentir um espasmo estranho com o toque. Seus lábios desceram até minha cintura, enquanto sua mão que continuou em meu seio massageava-o, ainda me proporcionando prazer. Aos poucos, as mãos se dirigiram até a bermuda do meu pijama de verão e, em um rápido movimento, retirou tanto o pijama, quanto a calcinha de mim.
- Nossa... – ele disse, ajoelhado à minha frente.
- Não olhe muito... – falo, sem graça. Nunca havia tido um par de olhos tão vidrados em meu corpo. A vergonha rapidamente tomou conta de minhas bochechas, que queimavam forte sob os olhares de .
Abriu um sorriso e me deu um longo beijo. No meio dele, senti seus dedos tocarem minha virgindade intacta, me fazendo separar nossos lábios.
- Shhh... Calma, gata. – ele falou em um sussurro. – Relaxa, lembra?
Não respondi. Comecei a tentar relaxar conforme havia me pedido. Contudo, não pude fazer o que mandou por muito tempo, principalmente quando seus dedos começaram a percorrer desde os lábios de minha virgindade, até o clitóris já inchado. Nunca imaginei que um pré sexo assim traria espasmos tão fortes em um corpo sem vida como o meu.
- Vou me preparar, irá doer um pouco. Quanto mais relaxar, mais rápido a dor passará. – ele disse, se separando de mim e pegando o pacote de camisinha que Kendra havia me dado. Assim que vi o pedaço de silicone, não pude evitar olhar o volume em sua bermuda. Corei mais uma vez ao ver o que jamais imaginei ver senão de Gabriel ou na noite de núpcias. Retirou sua própria bermuda e quando a cueca foi retirada, virei o rosto para o teto. Ouvi sua risada. – Sua vergonha é um charme, você sabia?
- Não estou me esforçando em ser charmosa. – falei, sem graça.
- Relaxe... – ele sussurrou. – Vou aos poucos, mas não me peça para parar, tudo bem? Eu não irei parar.
- Tudo bem.
Ele cobriu sua boca na minha. Suas mãos encostaram nas minhas, nossos dedos se entrelaçando. Aos poucos, a primeira mão percorreu meu braço até meu ombro, passou pela lateral do meu corpo até se apoiar na cama de modo que seu corpo ficou muito próximo do meu. O outro somente foi até meu rosto, acariciando durante o beijo, garantindo que estava relaxada. Quando senti essa mão parar de tocar meu rosto, não tive tempo de pensar muito até sentir a ponta de seu membro deslizando por minha entrada. Minhas mãos seguraram em seu braço e na lateral de seu corpo, tensionadas. Achei que ele diria algo, mas somente continuou a me beijar, passando para meu pescoço. Fechei meus olhos e senti seu corpo começar a se mexer acima do meu. Mesmo que tentasse relaxar minha entrada, não conseguia. Seu ombro tocando ali me deixava sem graça. Então, aos poucos, senti-o fincar dentro de mim.
Por ter ido devagar, não dei um grito, como achei que faria. Apenas suspirei alto, cravando minhas unhas em seu corpo nu. Sei que não fincou seu membro inteiro, mas parou o corpo mesmo assim, para que me acostumasse com a abertura. Aos poucos, o membro foi entrando mais e mais, me fazendo começar a ofegar alto e gemer.
- ...
- Calma, gata, calma. – ele sussurrou, aparentando também estar se segurando. Sei que queria aumentar a velocidade, mas realmente, como ele havia dito, estava doendo. – Feche os olhos e apenas tente relaxar. Se eu não romper você, não conseguirá gozar.
Não respondi, indicando que faria o que ele quisesse. Seu corpo estava tão quente, a respiração tão perto. Fechei meus olhos e tentei relaxar meu corpo, enquanto ele saía de dentro de mim para entrar com um pouco mais de força que da primeira vez. A cada vez que saía de dentro de mim, a velocidade para retornar aumentava, fazendo com que a dor também crescesse.
- Pare... – murmurei, quando a velocidade já estava alta. Nossos movimentos era um só. Ele parecia querer me rasgar ao meio, mesmo assim, a dor era boa, tolerável e viciante. Ao fundo, sentia que queria que fosse mais forte e mais rápido. – ...
- Relaxe, relaxe... – ele dizia.
Abri meus olhos, sentindo seu membro sair e entrar de dentro de mim com força. Meus gemidos cresciam, ouvi-lo gemer junto era sensacional. O som de nossos corpos se unindo era tão bom que aos poucos a dor foi cessando.
- Oh... – gemi, sentindo seu lábio grudar ao meu.
Como se soubesse de minhas vontades, ele finalmente grudou seu corpo bem próximo ao meu e aumentou a velocidade, me fazendo gemer tão alto que provavelmente qualquer um no hotel teria ouvido. Era tão bom, tão viciante. Como pude viver sem isso durante mais de vinte e um anos da minha vida? Como Gabriel pode não ter vontade de fazer isso? Não irei mais fechar as casas de sexo; se elas proporcionam este prazer, eu não irei acabar com isso.
- Acho que vou explodir. – disse, pedindo em seguida que fosse mais rápido. disse que se prepararia para acabar, então somente aumentou suas estocadas para dentro de mim, até eu estremecer em seus braços e vê-lo cair ao meu lado, exausto.
Depois de alguns minutos, nossos corpos virados de frente para o outro, senti sua mão percorrer a lateral de meu corpo em forma de carinho. Fiquei observando seus olhos , minha mão em seu rosto, fazendo carinho em sua maçã, tão avermelhada.
- Esse foi o melhor presente de aniversário que já recebi. – ele disse com um sorriso. Abri um sorriso de volta.
- Esse foi o melhor presente de aniversário que já dei. – finalizei nossa conversa, ouvindo sua risada e em seguida seus lábios junto aos meus.
Fiquei com vergonha de pedir por mais depois que meu corpo parou de tremer. Contudo, parece que nossos corpos estão conectados de alguma maneira, pois tão rápido quanto terminei de sentir os espasmos dentro de meu corpo, voltou para dentro de mim, me fazendo enlouquecer mais uma vez naquela madrugada.

O dia seguinte foi diferente de todos os outros dias que já vivi em minha vida. O fato de ter acordado nua ao lado de um homem me fez encolher em baixo das cobertas, com vergonha de que ele me veja no estado deplorável que sempre me encontro durante as manhãs.
- Eu já vi tudo, , você não precisa se esconder. – a voz de soou grudado em minha nuca, fazendo meu corpo repentinamente estremecer.
Apoiou seu braço na lateral de meu corpo e beijou meu ombro nu assim que teve uma oportunidade. Ficamos calados, comigo de costas para ele, apenas sentindo a presença do outro e prolongando nossa estadia na cama, ao invés de nos levantarmos e nos unirmos ao resto do grupo, que sabe-se lá se estão acordados ou aqui no hotel.
- O que faremos hoje? – perguntou ainda perto de mim.
- Vou passear mais e depois estud...
- Você não irá estudar nesta viagem, . Você estudou nos últimos três dias? – parte de seu tronco se ergueu, cobrindo meu corpo de modo que pude visualizar seu rosto e peitoral. Encolhi meus ombros e o vi soltar uma risada irônica. – Você é mesmo surpreendente.
- Eu gosto. – desviei o olhar de si, apertando o lençol branco contra meu corpo.
- Bem, então como estamos aqui com a finalidade de comemorar o meu aniversário, faremos o que eu quiser.
- Justo. – falei, depois de um tempo.
- Ótimo. Então levante-se e vá tomar um banho enquanto peço nosso café da manhã. – sorriu, levantando e não se importando em me deixar ver seu corpo completamente nu.
Sem graça, desviei o olhar e esperei que ele se retirasse do quarto depois de colocar a cueca e sua bermuda, mas apenas ficou me encarando com uma expressão divertida estampada no rosto.
- Você não irá se levantar?
- Pode sair primeiro. – abanei uma mão, ouvindo sua risada.
- Irei te perdoar hoje. – comentou, se retirando antes que pudesse ouvir minha reclamação.
Assim que a porta fechou, encarei o teto. Era uma mulher completa agora. Abri um pequeno sorriso de acordo com que relembrava a noite passada. O corpo de , meu corpo, suas expressões, seus beijos... Tudo me pareceu perfeito. Me levantei e, afim de obedecer , peguei minhas roupas para coloca-las depois do banho. Ao olhar minha expressão no espelho do banheiro, vi meu rosto corado, o sorriso nos lábios. Não pude me reconhecer; a verdadeira eu nunca havia sorrido assim. Mordi o lábio, descrente que pudesse estar tão satisfeita com a minha vida, mesmo em uma situação tão precária.

e eu passamos todo o tempo em Ibiza juntos. O clima do fim de verão não era razão suficiente para nos fazer desistir da roupa de calor. Ele não se importou em se unir à mim e ao casal de idosos para fazer a visita durante o horário claro do dia. Pelo contrário, pareceu tão confortável quanto eu na presença dos dois. Durante as refeições, preferíamos ficar sozinhos, conversando e nos conhecendo mais. Falei sobre a razão de ter vindo a Harvard e ele me explicou sobre sua família.
- Meu pai pegou AIDS. Ele era dono de um restaurante em Atlanta; na época me disseram que a doença era pneumonia. Aparentemente, mais tarde minha mãe achou que seria melhor que eu soubesse a real causa de sua morte. Ele era bissexual e em uma das escapulidas que deu dos olhos de minha mãe, acabou pegando a doença. Como eles não tinham uma vida sexual ativa entre eles, minha mãe não correu o risco de receber a doença. Eu tinha quinze e já sabia que queria dançar. Em uma das conversas com minha mãe, falei sobre meus planos em entrar no mundo artístico e, ao invés de se preocupar como qualquer pai sobre as instabilidades que os profissionais enfrentam em suas vidas, acabou por animar-se, pois poderia encontrar um novo parceiro rico e famoso para satisfazer todas as suas vontades. Nos mudamos para Los Angeles, onde me separei dela depois que consegui um trabalho fixo na dança. Quando completei 26 já havia recebido dezenas de prêmios e ido centenas de vezes ao redor do mundo. Todos os meus sonhos, eu já havia realizado. Violet falou comigo sobre um grupo de adolescentes que me viram dançar e estavam importunando-a para que lhes ensinasse. Vi neles uma oportunidade de espalhar a arte da dança para todos os lugares. Foi quando tive a ideia de criar um estúdio.
- Violet te ajudou a criar. – comentei, sentindo um pingo de ciúmes. Ela esteve com ele desde o início, apoiando-o e dando-lhe o devido suporte.
- Somos bons amigos. Ela é a única pessoa, até você chegar, que me diz verdades que não sou capaz de enxergar e aceitar sozinho.
Aperto os lábios, indecisa sobre meu repentino ciúme sobre . Ele sempre foi e sempre será o homem mais cobiçado pelas mulheres. Além de ser o exemplo de dançarino, é o chefe e muito bonito. Não percebi que me perdi em meus pensamentos até tê-lo balançando sua mão direita em minha frente.
- Está cansada? – pergunto, apoiando seus braços de volta à mesa. – Se quiser, podemos voltar.
- Não, estou bem, apenas saí um pouco de órbita. – abri um sorriso e virei minha cabeça para observar a paisagem.
- Eu estava dizendo, nós poderíamos fazer algo só nós dois amanhã.
- Já não estamos fazendo? – perguntei, voltando minha atenção para ele.
- Tecnicamente. – o vi concordar. – Com um casal de idosos que quer nos falar sobre a história de tudo o que vemos, inclusive do asfalto. – apontou para o chão, fazendo com que risse. Era verdade. Mesmo sendo bastante gentis e animados, não pude deixar de perceber no quão tagarelas eram. A vida conjugal, depois de vários anos, me parece ser um tanto pacata, a ponto de quando aparecer uma nova pessoa com quem conversar, era uma festa. – Enquanto esperava você se aprontar de tarde, vi com a recepção sobre o aluguel de um barco para descansarmos e aproveitarmos o tempo bom.
Um passeio de barco pelas águas de Ibiza não era uma má ideia. Durante a viagem para cá, quando ainda tinha internet em meu celular, pesquisei lugares turísticos que pudessem me agradar e fugir de e Una; contudo, não esperaria que as coisas acontecessem do modo como aconteceu. A vista de Ibiza era uma das questões a favor da ilha. Mesmo não sendo uma ilha pequena, o local era mais frequentado pela fama de suas festas noturnas e, às vezes, diurnas. Não imaginava que a razão das visitas fossem praticamente todas ligadas a elas, por isso, foi difícil encontrar turmas para sair em passeio.
- Não quero desapontá-lo, mas creio que não tenho dinheiro para pagar um passeio de barco. – olho sem graça para o lado, a fim de fugir de seus olhos.
- Mas eu não disse nada sobre você pagar. Irei arcar com tudo, apenas seja uma boa companhia.
- Você não pode pagar tudo, já estou vindo nessa viagem sem custo algum! - , você está aqui porque eu quis que estivesse. Irá passear comigo também porque quero; não estou pagando por obrigação, mas porque quero que esteja comigo, entende?
Solto o ar, um pouco aborrecida por ter alguém pagando tudo. Não que não estivesse acostumada, Gabriel sempre tentou pagar tudo o que eu queria, mas nunca foram viagens ao exterior em primeira classe, hotéis cinco estrelas e passeios de barco. Tudo me parece um pouco... Exagerado. Fico vendo-o falar em espanhol com o garçom do restaurante onde jantávamos; me parecia alegre enquanto pedia dica sobre qual o melhor lugar para se assistir a uma dança local. Ele deve ser o tipo de pessoa que, independente de onde esteja, se o local for novo aos seus olhos, irá procurar a dança local para aprender mais sobre as culturas artísticas do povo nativo.
Seu sorriso branco era bonito. Charmoso. Como Christopher Egan em ‘Cartas para Julieta’, na cena em que passeia por uma cidade da Itália. Eles formavam um casal tão bonito. Assisti ao lado de Gabriel e imaginei como seria viajar com ele para algum lugar bonito, que se encaixasse a nós como aconteceu com o casal da história, fazendo com que as pessoas nos encarassem e achassem-nos perfeitos um para o outro. De alguma maneira, não encontrei nenhum lugar senão São Paulo para viver com ele; o fato de estarmos preocupados com sua situação econômica sempre me fez pensar que o melhor lugar para Gabriel era onde ele pudesse trabalhar menos e ganhar mais, para então passar mais tempo comigo. Agora, sentada nessa mesa em um restaurante de uma ilha da Espanha com um americano, vejo que meu mundo sempre foi pequeno demais. Gabriel é apenas uma parcela da minha vida controlada pelos meus pais. Mesmo que esteja acomodada na relação, tive mais momentos únicos e marcantes com em dois meses, do que Gabriel, em cinco anos.
Assim que soube o local apropriado para se assistir a uma dança, eu e nos retiramos dos restaurante para fazermos o caminho de volta ao hotel. A caminhada não era comprida, mas com passos lentos a fim de observar mais a vista noturna do lado calmo da ilha, nos levaria cerca de 40 minutos até chegarmos ao hotel. segurou em minha mão, cruzando nossos dedos, uma atitude que Gabriel praticamente nunca tomava. Olho para nossas mãos unidas e vejo que pareço muito mais um casal com do que com meu verdadeiro namorado. Suspiro, pensando quão ruim é ter de comparar todas as ações de com Gabriel. São pessoas completamente opostas, mas com visões parecidas sobre o futuro. Desejo que, aos poucos, pare de compará-los, pois cada vez que faço, Gabriel me parece menos apropriado para mim, mesmo brigando e discutindo menos com ele que com .
- Depois que meu contrato acabar em Dezembro... – começo a falar, mas ele logo me corta.
- Seu contrato é de um ano, . Depois que terminarmos a apresentação daqui a menos de um mês, começaremos a pensar na publicidade e marketing. Preciso de alguém que continue organizando a criação dos folders e a distribuição pela cidade. – paramos à beira mar, onde uma grade bonita nos separava da água bastante calma. parou logo atrás de mim, seus braços rodeando minha barriga. – Podemos não falar sobre nada senão nós dois aqui? – sussurrou em meu ouvido.
Encaro o mar, hipnotizada. O que viu em mim? De onde surgiu todo esse interesse? Não acredito que seja uma diversão sua, pois nunca o vi ser carinhoso com as garotas com quem transava casualmente. Viro meu corpo para observar melhor seu rosto e ele pareceu surpreso ao identificar a expressão em meu rosto.
- O que foi? – perguntou.
- O que você sente por mim?
Minha pergunta pareceu pegá-lo de surpresa. Deu um passo para trás com o susto, de modo que pude ver melhor seu rosto.
- Por que a pergunta?
- Não sou uma pessoa sensual. Não tenho o charme que todas as garotas do estúdio têm. Honestamente, sou apenas inteligente por esforço. Durante esses dias, tenho pensado o que você viu em mim para se dedicar assim. É só por causa da dança?
- Claro que não.
- Então por quê? Não sou seu tipo de mulher.
- Com você sabe?
Levanto os ombros. Talvez seja porque eu vi os tipos de mulheres com quem ele se envolve? Não há uma explicação plausível sobre nossa relação. Gosto de porque me sinto segura com ele, às vezes discutimos por um capricho individual, mas nunca deixei de admitir que ele é bom no que faz. Com nossa relação sexual ativa, é claro que me deixei gostar dele um pouco mais, mas, realmente, quando penso sobre a razão dele gostar de mim, não consigo compreender de onde surgiu todo o interesse.
- Você...
- Tudo bem. – ele disse, trocando o peso de perna, como se estivesse impaciente. – Irei dizer. Amanhã. No barco.
Abri a boca, chocada com sua esperteza. Ele sabia que eu não aceitaria ir ao passeio, a não ser que algo muito importante acontecesse para que eu fosse obrigada a ir. Sou uma pessoa curiosa que gosta de sanar minhas dúvidas a todo custo. Claro que iria ao passeio. Quero saber a razão de gostar de mim.


Guaco, o capitão do iate que estávamos, explicava como funcionava o barco para . Assim que chegamos na marina, abri a boca o máximo que consegui ao ver que, ao invés do que imaginava, o barco não era do estilo catamarã, como são utilizado para passeio no Brasil. Um iate grande o suficiente para servir de casa estava atracado no píer 17, o número indicado para nós dois. Coloquei a mão no chapéu que usava para que o vento não o levasse para longe e um dos marinheiros que ajudaria no serviço do iate me ajudou a entrar sem que precisasse me equilibrar.
Ficamos na área do ‘hall’ até o iate estar em alto mar, próximo a uma ilha menor, onde outros barcos como o nosso estavam atracados; Guaco disse que ali havia um bar para aqueles que não gostam de comer sob o balanço da água parassem para se alimentar. Como nem eu, nem temos este problema, a equipe responsável pelo automóvel prestou o serviço pago mais caro com a alimentação completa até o final do dia, quando retornaríamos à Ibiza. A área de cima do iate era pequeno, mas grande o suficiente para nós dois. Nos acomodamos no sofá de couro que nos proporcionava uma vista perfeita do mar. Enquanto bebericamos champanhe, depositou seu braço apoiado no sofá, logo atrás de minhas costas. Aguardei pacientemente até o horário do almoço, quando voltamos para dentro do iate e fomos servidos pelo garçom com a entrada e uma taça de champanhe cada um. Olhei para ele e logo fiz minha pergunta:
- Você me deve uma explicação prometida ontem à noite.
Ouvi sua risada e então o observei terminar o champanhe de sua taça em um gole só, finalizando com uma leve careta.
- Irei considerar que você segurou sua curiosidade até a hora do almoço. – comentou, enquanto levantava a taça para o garçom servi-lo mais um pouco. – Eu conheço você muito antes de você começar a trabalhar no estúdio. – apoiou os dois braços na mesa.
Não pude evitar arregalar meus olhos. Até onde soube, foi Kendra quem me apresentou para todos os seus amigos, quando reclamava de nossas diferenças, na época em que elas eram maiores. Encostei em minha cadeira, disposta a esquecer a alimentação para não perder a explicação, não me recordo em ter conhecido antes de encontra-lo no estúdio.
- Foi há pouco mais de um ano. Fui até Harvard porque tinha assuntos pendentes com um dos alunos de lá. Estava perdido por causa do tamanho do campus e ninguém parecia ter tempo para ajudar; você foi a única que se aproximou de mim.

Flashback
- Precisa de ajuda? – uma voz soou logo atrás de , depois de dez minutos parado no mesmo lugar sem saber como chegar até o local onde queria. Por causa deste imprevisto, estaria atrasado.
Olhou para trás, encontrando com uma garota claramente estrangeira. Ela vestia roupas sociais, dando a entender que era uma aluna do curso de direito. Seus cabelos estavam impecáveis e pode perceber em suas mãos, uma agenda gorda, repleta de anotações. Colocou as mãos no bolso, com a sensação de suspeita; olhou para os lados para verificar se queria fazer alguma boa ação na frente de algum professor, mas não havia pessoas velhas o suficiente para serem tutores de Harvard.
- Gostaria de chegar no prédio E, sala 88.
- Você estava indo para o lado oposto. O prédio E é para lá. – a garota esticou o braço fino coberto pelo terno que usava na direção oposta para onde se dirigia. – Venha, irei te levar lá ou se perderá novamente.
poderia ter se ofendido, se a garota não parecesse ser honesta enquanto falava à sua frente. Abriu um pequeno sorriso ao encontrar uma pessoa ingênua à sua frente. Geralmente, odiava esse tipo de gente, fáceis de serem enganadas e perdidas na vida. Contudo, durante o percurso, teve a oportunidade de ouvir mais sobre sua ingenuidade; ela achava que ele era um aluno novo e dava dicas de como sobreviver à universidade. Ele achou engraçado a maneira como ela mostrava os lugares, parecendo uma verdadeira profissional. Percebeu que sua presença chama a atenção de alguns alunos, fazendo-o se perguntar se ela fazia parte de algum grupo popular de alunos.
- Não é nada demais. – ela respondeu, quando ele perguntou durante o caminho. – Aqui há uma sala nomeada ‘S’ em cada turma. Somente os 10 melhores alunos do ano conseguem entrar nela.
- E você faz parte?
- Desde o primeiro semestre. – ela concordou com a cabeça. Mesmo parecendo, seu tom não dizia que estava se gabando. – Os outros alunos criaram um abismo entre eles e nós, porque acham difícil manter um diálogo conosco.
- Bem, dá para perceber. – soltou um pequeno riso, chamando a atenção da garota. – Digo, você fala como se tivesse quarenta anos e uma firma.
- Não é assim que advogados devem se portar? – ela perguntou, calando-o.
achou interessante a maneira como ela achava que tudo era uma novidade interessante. Durante os vinte minutos de caminhada até o prédio B, a garota de direito não demonstrou desinteresse em qualquer assunto abordado pelo dançarino.
- É aqui. – apontou para a entrada. – Os alunos devem subir pelas escadas, é o quarto andar. Até logo. – levantou uma mão, fazendo o retorno e iniciando o caminho de volta.
- Sua sala não é aqui? – perguntou, apontando para trás.
- Não, as salas ‘S’ são no prédio A. – ela respondeu, antes de estar longe o suficiente para não ouvi-lo mais.
abriu a boca enquanto observava a garota que fez o caminho inteiro de boa vontade, quando estava perto de seu destino final. No final das contas, não são todos os alunos de Harvard que são uma perda de tempo.
Fim do flashback

não se lembrava de há mais de um ano. Ajudou muitas pessoas até então, por isso, não conseguia gravar exatamente o semblante de todas.
- Bem... – falou, sem graça.
- Não me sinto ofendido que você não se lembra. Uma pessoa que faz isso com alguém, dificilmente não fará com outras. – sua voz suave me fez começar a sentir as maçãs do rosto queimarem ainda mais. Não conseguia lidar muito bem com elogios partindo de , havia algo em suas palavras que me deixa sem reação. – Depois daquele dia, passei a vê-la com mais frequência ao redor da universidade. Sempre sozinha, geralmente em uma caminhada de saúde ou para compras na loja de conveniências. Quando Kendra me mostrou uma foto sua, não pude evitar ficar surpreso em relacioná-la com as características que ela me passou.
- Nós não éramos o exemplo de boas colegas de quarto.
- Não é muito difícil saber por que. – ele riu. – Posso dizer, que durante minha vida inteira, você foi a única mulher que conseguiu me passar uma boa impressão.
Abri a boca, chocada. é o tipo de homem que já conheceu milhares de mulheres. Ele provavelmente sabe mais sobre nós do que eu mesma. Penso em uma resposta apropriada para sua afirmação. “Obrigada”? Eu estaria me gabando. “Ah... Bem...” Não. Seria muito superficial. Fui retirada de meus pensamentos com sua risada.
- Você não precisa responder. – senti sua mão pousar em cima da minha, esquentando meu corpo inteiro. – Nós começamos errado. Acho que meu preconceito contra os alunos elitistas falou mais alto.
Assim que ouvi sua indireta de pedido de desculpas, rapidamente me lembrei sobre as desculpas que devo a ele por tê-lo chamado de “idiota” e que nunca vieram. Engoli seco, observando o horizonte sem fim. Eu não deveria ser tão orgulhosa ou medrosa sobre sua reação. Respirei fundo, chamando sua atenção.
- Há algo errado? – perguntou.
- Bem... – limpei minha garganta. – Eu... Hum. É só que, acho que devo desculpas por tê-lo chamado de “idiota”.
- Eu já disse...
- Sim, eu sei. O problema é que eu insisti mesmo sabendo que você não gostava. Na verdade, foi um golpe baixo ter usado esse ataque como meio de proteção. – apertei minha mão que estava ainda abaixo da sua. – Me desculpe.
Olhei para meu colo, com medo de encará-lo. Uma advogada não deveria ter medo de aceitar a culpa, caso estivesse errada; mesmo assim, olhar em seus olhos seria condenador demais para mim. Nunca havia feito algo ruim com alguma pessoa antes, por isso, nunca precisei pedir desculpas por nada. Ter de fazer agora era muito difícil.
O sol foi tampado pelo corpo de quando ele se levantou e veio até meu lado, não separando nossas mãos. Inclinou de pé ao meu lado e, sem dizer nada, apenas uniu seus lábios nos meus. Fechei meus olhos depois do susto e retribuí o beijo que tanto gosto de sentir. Sua língua massageou a minha por alguns minutos até nos separarmos com beijos mais rápidos.
- Está desculpada. – sussurrou, automaticamente me fazendo sentir meus ombros relaxarem com a tensão. Nunca me senti tão aliviada desde quando meus pais permitiram que viesse para os Estados Unidos estudar em Harvard. Encarei seus olhos afim de me perder e não sabia mais se eram seus olhos ou o mar que observava.

Nosso último dia de passeio foi em grupo. Depois de muito saírem para se divertirem e percebendo que eu fui a única que passou a semana com , os tutores e Kendra decidiram que não podiam deixar a comemoração com o chefe passar despercebido. Nós iríamos a um luau que o hotel havia preparado a pedido de . Não sei de onde sai tanto dinheiro para pagar viagens caras, hotéis cinco estrelas, passeios de iate e luau de aniversário, seja o que for, duvido que seja algo fora da lei. Eu, Kendra, Violet e Cori estávamos em meu quarto e de nos preparando para o luau.
- Violet, você não namora? – Kendra perguntou enquanto assistíamos Violet arrumar a enorme flor no topo de seu coque. Por não ter cabelos grossos, tampouco lisos, não era tão difícil prender o cabelo no penteado desejado. Sua agilidade em mexer com os fios descoloridos me deu um pouco de inveja, já que meu cabelo é tão liso que não há produto que permita que os cachos durem mais de trinta minutos.
- Tenho meus casos. – ela abriu o sorriso conquistador perfeito. Violet possui os lábios finos, assim como seu rosto. As mãos possuíam os dedos longos que quando deslizavam pelo cabelo, pareciam penteá-los.
- Violet joga no mesmo time que . – Cori falou, me tirando do transe para encará-la confusa. – Ela fica com homens e mulheres. – sorriu.
Abri a boca, chocada com a novidade. Violet não tinha jeito de ser bissexual, por isso, nunca suspeitaria que ela, longe dos olhos das pessoas, beija mulheres.
- Mas você somente as beija? – perguntei. Ela é a primeira pessoa que beija alguém do mesmo sexo com quem tenho algum tipo de relacionamento próximo. Sempre tive muitas perguntas a fazer para pessoas assim, porque nunca imaginei o tipo de preconceito que elas sofrem por vivermos ainda em uma sociedade muito quadrada. Como resposta, ouvi a risada das três juntas.
- Da mesma maneira que ela se relaciona com homens, ela relaciona com as mulheres, . – Kendra, parecia se divertir com minha ingenuidade sobre o assunto.
- Para ser mais específica, eu transo com mulheres sim, . – Violet virou o tronco de seu corpo para trás, afim de me enxergar ao invés de somente me olhar pelo reflexo do espelho. – Algumas mulheres possuem uma pegada muito melhor que vários homens.
- Mas por que decidiu gostar dos dois lados? Por que não ficar somente em um? – me sentei. Já que ela não se importava em responder minhas perguntas, não fazia mal fazê-las, desde que fosse sensível.
- Hum, há prazeres que somente os homens podem oferecer e outros que somente as mulheres conseguem. Gosto dos dois igualmente; acredito que o dia que me decidir qual gosto mais, me decidirei qual lado quero seguir.
- Que tipo de prazeres?
- Ah, querida, isso você só poderá saber se sentir. – enviou-me uma piscadela. – Se estiver disposta a saber, me diga.
- A-ah... N-não, não, obrigada. – ri, sem graça.
Nossa arrumação perdurou até Bob bater na porta impaciente, pedindo para que saíssemos logo se quiséssemos chegar antes da meia noite no luau.

O local estava decorado com tochas espalhadas pela areia, além de pequenas velas que finalizava a iluminação, ambos ajudando a lua. O céu estava sem estrelas, por isso, era necessário que o hotel fornecesse mais luz para os hóspedes que participassem da festa. Um DJ local tocava em um palco improvisado; haviam dançarinos com a menor quantidade de roupa possível, mesas de frutas e petiscos e dois quiosques da praia, mais próximas do local, estavam abertas para servirem os hóspedes.
Os visitantes se dividiam entre conversar perto do bar, sentado afastados na praia ou dançando perto do palco. Como não sou fã de dançar na frente de muita gente, optei por ficar mais longe do som, sentada na praia observando as ondas quebrarem perto de meus pés.
- Achei que a intenção da festa era passar um tempo com o aniversariante. - sentou atrás de mim, colocando suas pernas cada uma de um lado meu, enlaçando minha cintura em seus braços e encostando seu queixo em meu ombro. – Por que então sinto que estou sendo ignorado pela minha convidada de honra?
- Porque a sua convidada passou as últimas setenta e duas horas com o convidado e achou que seria egoísmo dominá-lo durante sua festa de aniversário.
- Bem, deixe que o aniversariante decida isso. – ele sussurrou em meu ouvido, chamando minha atenção para em seguida grudar seus lábios nos meus.
- Ahhh, qual éé! – Ace fez uma chuva de champanhe com a garrafa que tinha em mãos. – Vocês nasceram juntos? Não dá para se separar... Baixinha, venha cá! – puxou meu braço para me levantar tão rápido que não houve tempo para agir. – Ela está confiscada comigo até você dar atenção para todas as pessoas que vieram para te parabenizar! Se quisesse passar um tempo só com ela, deveria ter me falado antes de dizer que queria fazer uma festa na praia!
Sorri, me deixando levar por Ace, que me fez dançar alguns passos improvisados na área onde o grupo de dançarinos faziam suas performances, como se já estivessem na apresentação de final de ano. Pedi para sair depois de dez minutos e ele não reclamou em ter de fazer uma caminhada comigo pela praia.
- Onde está sua companheira?
- Ah, esta é uma festa para o meu amigo, não vou trazer estranhos. – Ace sorriu, com as mãos nos bolsos. - Você está feliz, baixinha?
- Me sinto livre. – concordei, vendo-o soltar uma risada.
- Isso se chama viver. – parou à minha frente e apontou para um ponto invisível ao meu lado. – Vida, . , vida.
Enquanto caminhávamos e ríamos, não percebi o momento em que nos calamos e passamos a ouvir o som da festa longe e o mar mais alto.
- O que você fará quando voltar? – ele perguntou. Encarei-o, confusa. – Sobre seu relacionamento e .
Olhei para o mar, sem saber o que responder. Não havia pensado nisso até então. Estava tão preocupada em não parecer uma completa idiota na frente dele que não me lembrei de Gabriel e nosso relacionamento de anos.
- Eu...
- Pela sua expressão, é difícil não saber que acabei de surgir com um assunto que não havia passado pela sua cabeça antes. – colocou as mãos nos bolsos. Assinto, sem graça. – Bem, eu não a culpo. Sua vida nunca foi tão agitada como os três últimos dias. Eu diria a você para esquecer essa questão somente até amanhã de manhã, quando a magia realmente irá acabar e aproveite esta noite com , porque é o que ele espera; mas veja só, sou apenas um E tentando dar uma lição a uma S.
Abri um pequeno sorriso com sua brincadeira, mas não pude deixar de levar a sério. Talvez eu precisasse um pouco de um estilo de vida E.

Estava sendo um sonho bom. A praia de areia branca, o mar de águas transparentes e os pássaros cantarolando, felizes com o clima fresco. Geralmente, meus sonhos são repletos de ambientes escuros das salas de aulas práticas, Gabriel pedindo que eu termine logo a universidade e volte para o Brasil ou meus pais pressionando meus estudos para que me torne uma boa advogada. Ao ouvir o som do despertador, me remexi, descrente que meu sonho já teria de acabar. Gemi, preguiçosa e sem vontade alguma de me levantar.
De repente, me lembro do que vi pela última vez antes de dormir. Abri um dos olhos para ter certeza de que não foi ilusão minha. Assim que minha vista se fixou, pude ver com um sorriso nos lábios, sorrindo para mim em seu lado da cama. Estava sem a camisa; mais tarde, vim a descobrir que tanto ele, quanto eu, não vestíamos nada devido à noite passada. Suspirei, espreguiçando meu corpo.
- Bom dia. – sua voz saiu rouca, provavelmente por ter acabado de acordar. - ‘Dia... – respondi, bastante preguiçosa. Haviam meses que não me dava o luxo de dormir até depois das seis e meia. Olho no relógio e ele marcava quase dez da manhã.
- Se você quiser, podemos tomar o café da manhã aqui. – sua voz estava muito próxima de mim e um de seus braços, depositado em minha lombar.
- Podemos mesmo? – senti minha voz rouca, exatamente na tonalidade que eu não gostava de me ouvir. não pareceu se importar com minha voz alterada pelo sono, meus cabelos desgrenhados ou a provável remela no canto do olho que sempre há quando abro os olhos, abriu um sorriso e se aproximou mais, encostando sua testa na minha.
- Podemos fazer tudo o que nós quisermos. – sussurrou, finalizando nosso diálogo.
Nos mantivemos calados apenas sentindo a presença um do outro. Conforme ele havia dito, eu poderia tomar o café da manhã ali com ele em privacidade, ao invés de encarar as brincadeiras que Ace e Kendra, principalmente, fariam. Nossos momentos juntos foram feitos somente pelas nossas presenças; vi que não é muito de falar, apesar de seus olhos dizerem muito. Como ele não tomou a iniciativa de manter um diálogo entre nós dois, não me esforcei e apenas me limitei a comer, em seguida caminhar para o banheiro para enfim me arrumar e ficar pronta para descermos até o hall, onde o check out seria feito para irmos ao aeroporto.
Como esperado, Ace e Kendra não nos deixaram em paz por um segundo sequer até estarmos no conforto de nossas poltronas da classe executiva. Mesmo durante o voo sermos atormentados por comentários brincalhões e risadas maliciosas, assim que as luzes se apagaram para melhor conforto dos passageiros, todos se emudeceram.
Durante este tempo que tinha para mim mesma, passei a pensar no que significava para mim. Será que isso é o que dizem ‘trair’? Será que é isso o que meu pai e minha mãe sentem quando passam uma semana ou os finais de semana na casa de seus amantes ou em companhia deles em suas viagens? Parando para analisar o caso, nenhum dos dois me pareceu agir com cautela para que não ofendesse seu parceiro ou parceira; na verdade, não posso concluir muito, porque nunca conheci nenhum dos affairs de meus pais. Eles, querendo sempre ser perfeitos para servirem de exemplo para mim, não admitiam errar em minha frente; no início achava que traição, de uma certa maneira, era crime, já que era razão o suficiente para levar casais a entrarem em recurso contra seus enteados. Contudo, com o tempo conheci o ‘outro lado da moeda’, onde os casais não têm uma vida feliz como esperavam ser quando responderam, perante Deus e a lei, que aceita amar e respeitar em quaisquer circunstâncias do casamento.
Enquanto saía com ao meu lado, acabei sentada em seu carro com Kendra e Hans junto. Ele nos levaria até o campus; Bob e Ace nos acompanhariam no carro de trás com mais alguns alunos que foram na viagem e o resto se espalharia em direção às suas residências. Kendra e não paravam de falar sobre as apresentações, conversa que não tinha vontade alguma de participar, já que fazer qualquer comentário significaria ceder à vontade de em dançarmos uma apresentação juntos no final do ano. O caminho foi rápido, já que depois de um tempo, a discussão terminou em piadas. Chegamos à Harvard, que não mudou absolutamente nada na semana que estivemos fora; o campus ainda se encontrava vazio, muitos alunos chegavam de noite, madrugada ou somente no dia seguinte para seguir direto para a aula.
retirou nossas malas do porta-malas enquanto eu terminava de arrumar minha bolsa, já que com o freio, vários objetos foram parar ao chão. Kendra e Hans ajudavam entre um beijo e outro. Assim que saí do carro, tinha a intenção de me dirigir até o trio e minha mala, mas não tive sucesso; tão rápido quanto coloquei o segundo pé no chão, meu nome foi anunciado:
- !
Olhei para trás, surpresa por alguém estar chamando meu nome. Achei que fosse engano, já que há outras alunas com o mesmo nome que o meu e poderia coincidentemente estar passando por algum local perto de mim; contudo, tive certeza absoluta de que a chamada era para mim, porque, ali, parado em frente à estátua da entrada, Gabriel acenava, sorridente.

Capítulo 10

Pisquei uma vez. Duas vezes. Três.
Achei que era uma ilusão, que pudesse estar doente, qualquer hipótese menos a verdade de que Gabriel estava logo à frente com um sorriso no rosto e a roupa de verão que costuma usar quando vai à praia com os amigos. Abri a boca, chocada com sua repentina aparição. Que tipo de surpresa é essa? Como ele conseguiu comprar as passagens? Da onde surgiu a ideia de deixar o TCC de lado para vir em época de aula vir me visitar?
- , qual é... Ah. – senti o toque de Kendra em meu braço, mas logo sumir. Olhei para o lado com minha boca ainda aberta e ela olhava com a mesma expressão na direção de Gabriel. – Por acaso... Ele... – apontou para ele e ao perceber que não responderia, virou seu rosto para mim. Concordei com a cabeça. – Porra.
- O que eu faço? – olho para , que ainda tirava as malas de Kendra, exagerada, com a ajuda de Hans.
- Vou distraí-los, você pega ele e vai descobrir o que diabos ele veio fazer nos Estados Unidos, se não tem nem aonde cair morto. – sussurrou. Como não tinha plano melhor, concordei rapidamente, sentindo-a se afastar de mim com rapidez.
Sem pensar mais uma vez, saí em disparada em direção a Gabriel, que usava os óculos de sol que lhe dei no aniversário antepassado. Tentou me abraçar, mas fui mais rápida, puxando-o e arrastando-o atrás de mim até a área dos dormitórios. Caminhamos por alguns minutos calados; minha atenção estava dirigida ao caminho até meu quarto e de Kendra, enquanto ele provavelmente gostaria de receber uma explicação, já que há alguns meses eu estaria chorando de felicidade por tê-lo aqui do meu lado.
Entramos no dormitório e fechei a porta, me lembrando de não aderir à minha impulsão e trancar para Kendra não entrar, mas como o quarto também é dela, logo tirei essa ideia da cabeça. Olhei para Gabriel, que encarava curioso a diferença do meu lado de nossa escrivaninha e o lado de Kendra.
- É maior do que eu imaginava. – falou, virando seu corpo em minha direção enquanto colocava as mãos dentro da bermuda. - Você não parece feliz.
- Hum? – virei meu rosto para ele. – Ah, claro que estou feliz, você está aqui. – sorri, sem graça, esperando que ele considerasse como minha costumeira timidez. – Aliás, como conseguiu vir para cá? Achei que estivesse tendo dificuldades em juntar o extra para a poupança.
Seus ombros se levantaram, fazendo-o parecer mais alto do que já era. Observei Gabriel em pé à minha frente, tentando descobrir o que havia de errado comigo. Pela primeira vez, não gostei do quão bem ele me conhece, a ponto de saber quando estou perturbada ou quando simplesmente não quero falar. Seus olhos percorreram toda minha extensão enquanto procurava uma desculpa para lhe dar; penso em olhando para trás e não me encontrando para nos despedirmos. No lugar dele, Gabriel surge, sentando à minha frente, na minha cadeira da escrivaninha.
- Você quer falar sobre isso?
- Isso o quê?
- ... – ele soltou uma pequena risada, descrente por estar me fazendo de tão tola, quando sabe que sou mais que isso. – Se você não quiser falar, tudo bem.
- Não é... – iniciei e não finalizei. Gabriel levantou uma sobrancelha; eu dificilmente interrompo uma frase quando começo a argumentar. Só acontece quando estou receosa sobre o assunto. – Eu fiz uma amiga. Quero dizer, duas. – faço o número com o dedo, vendo-o se calar para me ouvir pacientemente. – Uma delas é da minha sala e em uma conversa privativa, me disse que ainda gosta do ex, a quem conheço por trabalhar no mesmo local que eu; coincidentemente, ele também gosta dessa minha amiga, mas os dois são, hum, inibidos demais para falar com o outro, devido aos conflitos que tiveram no passado. Só estou avoada, porque ambos me pediram para ajuda-los, mas não sou boa, quero dizer, não tenho experiência em conciliar pessoas. Sou ensinada a fechar negócio para a separação.
Assim que terminei de falar, encarei seu rosto, de modo que me causou grande alívio, já que ele pareceu engolir minha desculpa. Falou o que sempre disse quando algo tão trivial me perturbava, que não deveria me preocupar, já que não é um problema meu; se eles precisam de ajuda, eventualmente o tempo fará com que se encontrem novamente. Se fosse há três meses, quando vivia sozinha, dependendo de seu contato pelo Skype para ter qualquer tipo de diálogo que não fosse sobre as aulas, aceitaria sua sugestão; entretanto, agora, com dezenas de pessoas com quem conversar, vejo que ele apenas está arranjando uma desculpa para não ter que aprofundar mais nossa conversa. Mesmo demonstrando interesse durante meu monólogo, ao chegar sua vez de opinar e tentar me ajudar como um bom namorado, apenas pediu para que eu não me intrometesse, mas de um modo polido e carinhoso.
Fiquei encarando Gabriel enquanto ele voltava a observar meu quarto. Durante todo o tempo da entrada até aqui, a traição começava a piorar minha gastrite, causando mal estar em meu estômago. Agora, vendo-o apenas querer conhecer este novo espaço e falar sobre si, apenas consigo visualizar eu e mais cedo acordando em Ibiza sem qualquer peça para cobrir nossos corpos e o aroma da maresia tomando conta do quarto enquanto a brisa toma conta das cortinas, esvoaçando-as.
- Você não vai me abraçar? Ou perguntar como estou? – perguntei, chamando sua atenção de volta.
- E tive tempo? Tão logo quanto cheguei, você me puxou para vir até aqui. Afinal, qual a pressa?
- Como está o seu TCC?
- Por que desviou de assunto?
Nos calamos. Gabriel colocou as mãos nos bolsos de sua bermuda enquanto eu estava em pé à sua frente, observando sua expressão séria ao perceber que mais uma vez estava agindo de maneira suspeita.
Fui salva por Kendra adentrando no quarto com Hans ao alcance e nossas malas. Os dois nos encararam, pedindo por uma explicação, principalmente Hans, que não sabe que aquele era Gabriel.
- Amiga? – Gabriel apontou para Kendra, que levantou uma sobrancelha, provavelmente ofendida por não ter sido devidamente cumprimentada.
- Sim.
- Amante? – Hans apontou para Gabriel, me fazendo arregalar os olhos e Kendra, rir.
- O nome dele é Gabriel. – falei. – Meu, hum, namorado.
- Ah. – Hans balançou a cabeça, compreendendo. – O namorado.
- Pelo jeito, já me conhecem. – Gabriel abriu um pequeno sorriso. – E pelo jeito, ela não é a amiga da sua sala. – apontou para Kendra.
- Escuta aqui...
- Vocês são namorados. – ele apontou para ela e Hans. Kendra olhou para mim, descrente de que Gabriel seja tão insensível. Para mim ele nunca foi, seu comportamento estava me surpreendendo. – disse que a amiga da sala dela está em um conflito com o ex-namorado e quer voltar para ele, por isso, se vocês são um casal, logo, não é a amiga da sala.
Kendra fechou a boca. O raciocínio fazia sentido. Ao contrário do que achou ser, Gabriel não estava tentando ofendê-la, mas sim teve um fluxo de interpretação diferente da de nós três.
- Você tem razão, não sou da sala de , ela é um nível especial.
- Claro. – Gabriel concordou, olhando para mim, orgulhoso. Mal percebeu Hans dando um passo à frente, como se quisesse bater nele. Limpo minha garganta antes que um desastre pudesse acontecer.
- Bem, vou leva-lo para conhecer o campus. Já que está aqui, irei, hum, passar um tempo com ele.
- Antes, vamos ali no banheiro rapidinho, coisas de garotas. – Kendra me puxou antes que qualquer um pudesse reclamar. Caminhamos apressadamente até o vestiário, onde nos colocamos no último box do chuveiro. – O que diabos está acontecendo? O que ele faz aqui?
- Eu não sei! Estou tão surpresa quanto você! – olho para ela, desesperada. Talvez muito desesperada, levando em conta que a posição de ataque dela mudou para uma mais compreensiva. – Acabei de voltar de uma viagem com , no qual eu traí Gabriel, e então ele está aqui e me parece tão estúpido que mal consigo me arrepender! Não sei o que pode estar acontecendo, o certo seria me arrepender, contar-lhe a verdade e sofrer as consequências!
- Não é por nada, , mas, honestamente, quem é que se arrependeria de trair aquele cavalo? Principalmente quando a pessoa com quem se traiu foi o . Você sabe minha opinião sobre esse assunto de “traição”; tendo em vista esse diálogo com seu “namorado”, pode ter certeza de que a farei traí-lo muito mais.
- Kendra, você não está ajudand—
Toc toc.
- Está ocupado, não está vendo? – Kendra falou alto, mas mais uma vez tocaram na porta, de modo que tivemos de abrir uma fresta e ver Gillian com os cabelos molhados e a roupa de final de semana.
- Porque seu namorado não se aproxima de um cavalheiro não significa que pode livremente trair sua confiança em um relacionamento.
- Isso é porque você ainda não o conheceu. – Kendra resmungou, encostando na parede do box e permitindo que Gillian entrasse e fechasse a porta atrás de si.
- Conhecê-lo não mudaria o fato de que infidelidade é errado.
- O cara é um mala, não sabe controlar a boca e olha que passei somente cinco minutos na companhia dele!
Enquanto as duas discutiam sobre Gabriel, comecei a pensar sobre nós dois. Gabriel sempre me pareceu a pessoa perfeita, que me compreendia e se preocupava comigo; pensando agora, tudo o que eu conhecia sobre um romance, era porque Gabriel me apresentou. Com a experiência com , ser tratada com mais carinho, seus olhares me fazendo perder o raciocínio e seus toques como se eu fosse um vaso de cristal faz com que Gabriel pareça um, como Kendra disse, cavalo. O fato de ter tido bons momentos com ele me faz querer ser honesta e falar sobre a traição; contudo, não quero que ele dirija as palavras que chamava sua mãe. Seria o fim para mim. Não compreendo a razão de não me sentir mal; uma pessoa que trai deveria até adoecer com a culpa, não é? Por que não me sinto mal por Gabriel? Por que continuo pensando em , como se Gabriel não tivesse significado algum?
- , estamos falando com você!
Pisquei os olhos e Gillian e Kendra me encaravam, aguardando uma reação. Por um momento, ficamos as três caladas dentro daquele box.
- Você não ouviu nada sobre nossa conclusão, não é? – Kendra perguntou. Não pude fazer nada senão concordar com um aceno de cabeça. Enquanto Kendra bufava, Gillian desviou o olhar, uma atitude que reconheci de nossas aulas práticas ser de desapontamento. – Nós concluímos que você está perdendo tempo com Gabriel.
- Huh? – foi o que consegui dizer. Estou surpresa, há pouco Gillian discordava de Kendra falando sobre o erro de minha traição e agora ambas concordam contra Gabriel. Inclino a cabeça levemente para a direita, deixando claro que não compreendi nada sobre suas conclusões.
- Você gosta de , . – Kendra começou a dizer. Antes que pudesse resmungar, ela rapidamente começou a falar: - Vamos por fatos, já que você entende melhor quando falamos assim: Gabriel está com você há três anos, já , três meses. Entretanto, te proporciona muito mais prazer, seja para seu espírito, modo de vida ou, hum, sexualmente falando. Gabriel não te dá a mínima, enquanto faz de tudo para te ajudar.
- Gabriel veio do Brasil para me ver. – falei.
- De fato. – Kendra concordou. – Mas programou e pagou uma viagem de uma semana inteira para Ibiza só para se reconciliar com você. – não pude dizer nada. Achei que aquele era um fato que somente eu e sabíamos, já que ele me contou em um momento de nervosismo. – , mesmo que Gabriel esteja com você há tempos, nunca me pareceu que vocês fossem um casal de verdade; você não tem lembranças com ele como qualquer casal! Quem nunca beijou dentro do cinema? Quem, no início do namoro, nunca ficou tão grudado que parecia chiclete mascado debaixo da carteira? Quem passa semanas sem ter notícias do outro, não se preocupa em mandar ao menos um e-mail?
- A nossa conclusão é que o fato de você estar em uma zona de conforto com Gabriel, que demonstra garantir através de seu esforço com os estudos e o trabalho, um futuro certo e feliz, já não é uma alternativa tão boa quanto viver uma vida com alguém que demonstra estar interessado em você. – Gillian falou e não pude deixar de abrir a boca. Fazia sentido. Estou em uma zona de conforto, foi nisso que acreditei quando fiz o teste de aceitação da universidade, era essa a razão de me esforçar em tirar as melhores notas, para que pudesse voltar para o Brasil com méritos e orgulhar Gabriel para que ele não tivesse a sensação de que estava se casando com alguém inferior a ele.
Suspiro e olho para o ralo logo abaixo do chuveiro. Levemente, bato minha testa na parede, tendo as mãos de Kendra e Gillian em meus braços, como se quisessem evitar que a próxima pancada não existisse; de certo, nunca existiu. Virei meus olhos para as duas, que me pareciam mostrar que a questão era bastante simples. Meu namoro não é nada mais que dois bonecos de jogos RPG sendo controlados pela força de vontade ou a falta de alternativas.
- Não posso terminar com ele assim. – falei, vendo Kendra revirar os olhos e Gillian deixar seus ombros caírem. – É só que... Me parece desrespeitoso.
- , não quero trazer isso à tona dessa maneira, mas caramba, você já foi desrespeitosa o suficiente trepando com e gostando. Qual é! Não foi uma ou duas vezes, eu sei! Se ele chegar aqui agora, você não irá dizer “olha, espera, preciso falar com Gabriel”, não! Você irá trepar e então falar que deve falar com aquele cavalo!
- Eu não estou dizendo que vocês estão erradas! Eu só acho que preciso pensar em uma maneira de lidar com ele, já que veio todo o caminho até aqui me ver!
- Bem, pense o quanto quiser, mas você continua trabalhando para o e ele ainda não sabe que seu namorado está aqui, então é melhor você aproveitar e pensar também no que dizer a ele quando o Gabriel decidir conhecer o seu ambiente de trabalho.
E sem um segundo para eu poder retruca-la, Kendra e Gillian me deixaram sozinha dentro do box, perturbada com meus pensamentos e mais encrencada do que nunca.

Como sempre desde quando saí pela última vez com Gabriel, nossas saídas eram repletas de sons. Dos carros, dos pássaros, dos ventos e até de outras pessoas que passavam por nós; contudo, nós dois nos mantínhamos em completo silêncio. Era como se três anos, ou quase, não tivesse nos separado. Como se tivéssemos nos visto ontem e hoje fosse apenas mais um dia ordinário de nossas vidas rotineiras.
- Como está o seu TCC? – perguntei, as mãos cruzadas atrás de meu corpo, depois que saímos do campus para ir em direção ao MIT, local que ele adoraria estudar. – Está com problema porque decidiu vir para cá?
- Está tudo bem, obrigado por perguntar.
“Obrigado por perguntar?” Me perguntei, certa de que essa expressão é cafona demais para nós.
Aguardei mais alguns minutos um complemento para sua resposta curta, mas nada veio. Ele estava bastante interessado em olhar para a paisagem; não o culpo, estar em um lugar novo traz esse tipo de comportamento. Só acredito estar um pouco decepcionada, porque se ele veio para me ver, o normal seria que me desse pelo menos um pouco mais de atenção para mim. Olhei para seu pulso, ligado à mão que estava escondida dentro de sua bermuda; ele não a tirou dali desde quando começamos nossa caminhada, me pergunto quando irá tomar a iniciativa de unir nossas mãos para parecermos um casal.
- Irá ficar quanto tempo? – perguntei.
- Quatro dias apenas. Me desculpe por não poder ficar muito mais, mas os outros dias da semana estavam absurdamente caros.
- Não, não! Não quero que se prejudique vindo me visitar. Estou surpresa.
- Está feliz? – olhou para mim, curioso.
- Que você veio? É claro. – menti. Ou talvez não.
Na verdade, sei que gostaria de estar com agora. Olho para Gabriel e penso como poderia iniciar minha conversa para dizer-lhe a verdade.
- Que bom que está acabando o curso. Você falou com seus pais?
- Tive uma breve discussão com meu pai; ele começou a falar sobre minha mãe estar certa em me dizer para começar a trabalhar, já que os dois não têm como pagar a faculdade depois do mês que vem. Não sei o que irei fazer, achei que eles tivessem uma poupança; seria o mais sensato.
- Geralmente os pais possuem uma poupança no nome dos filhos, é verdade. Acredito que seus pais sempre foram egocêntricos o suficiente por achar que nada de mau lhes aconteceria. Nunca imaginaria que pudesse afetar você ou teria planejado algo para que pudesse lhe sustentar nesse momento.
Abro um pequeno sorriso. Seu primeiro comentário para o meu bem. Mesmo com todo o relacionamento que tive com , não consigo evitar sentir meu coração saltitar ao ouvir doces palavras de Gabriel. Sempre esperei muito por elas, por isso, toda vez que as ouço, sinto como se fosse a primeira vez.
Sem querer, olho para o relógio e vejo que duas horas se passaram. Fazem três horas desde quando encontrei Gabriel e somente agora ele me demonstrou afeto. Tão rápido quanto a alegria veio, se foi.
- O que você quer fazer?
- O que você quiser. Vim te ver, podemos fazer o que você quiser que eu faça. - Bem, que tal, hum, irmos ao cinema? – abri um pequeno sorriso. Poderia ir com ele como se fosse um encontro e beijá-lo. Assim poderei mostrar para Kendra que somos um casal, sim.
Vejo seus olhos percorrerem toda a paisagem; por causa disso, não me respondeu. Não prestou atenção em qualquer coisa que disse. Queria conhecer o local, claro. Não faria mal leva-lo para conhecer os arredores e então jantarmos juntos.
Se ele me desse atenção, seria bastante agradável. Desde quando decidi leva-lo a um tour, ele tem se afastado de mim para ler algo ou ir ao banheiro. Vi que seu inglês estava muito bom, como sempre. Ele sempre foi bom em aprender e decorar, por isso, não me surpreendi ao vê-lo ter facilidade com os estudos. Assim como eu e minha memória fotográfica, Gabriel tem um dom de decorar com rapidez; mesmo assim, nunca imaginei que o fato dele saber bastante o faria manter-se longe de mim durante nosso passeio.
Enquanto ele ia comprar algo para bebermos, tirei meu celular do bolso e vi que haviam duas mensagens não lidas de :
”Kendra me disse que estava com cólica. Espero que esteja melhor, amanhã você trabalha e como deve saber, sou um chefe muito exigente e não quero desculpas da viagem para não vir ou se atrasar. - .”
Abri um pequeno sorriso, agradecida à Kendra por ter quebrado meu galho durante minha fuga depois que saí do carro e avistei Gabriel. Abri a segunda mensagem e rapidamente arregalei os olhos.
”É claro que minha mensagem anterior foi uma desculpa. Quero que você venha sem atrasos para eu poder te ver. Pela primeira vez estou disposto a almoçar no bairro para chegar antes que você. – .”
Olhei para os lados e não avistei Gabriel. Apertei o aparelho em mãos, a sensação de que precisava ser honesta com meu namorado voltando a me massacrar. Olhei novamente para as mensagens e as apaguei assim que Gabriel se sentou ao meu lado.
- Suas amigas?
- Sim, queriam saber se você iria jantar conosco hoje. – abri um pequeno sorriso. Segunda mentira do dia, talvez eu devesse tentar me conter antes que vire um vício.
- Posso ser honesto? Acho que elas não gostaram muito de mim. A nerd da sua sala não me pareceu muito, hum, confortável em me conhecer.
- Ela não parece confortável na presença de ninguém, mas aos poucos acaba se acostumando e não é tão mal quanto você imagina.
- Seus outros amigos também não pareceram gostar de mim.
- Não diga besteira, por que eles não gostariam de você? Além do mais, nunca expus muito nossa relação, por isso, não há razão para eles desgostarem de você.
Por um breve momento, achei que nossa conversa havia acabado aí. Foi aí que percebi que Gabriel já não caminhava mais ao meu lado. Ficou parado alguns passos de distância de mim, boquiaberto, como se estivesse chocado com algo que falei. Parei para pensar e não consegui identificar o problema em minha vontade de fazê-lo se sentir mais confortável perto das minhas amigas.
- Acho que precisamos conversar. – ele falou.

“Precisamos conversar” nunca me pareceu um bom assunto para iniciar um diálogo com a namorada que não vê há anos – literalmente. Durante a caminhada até uma lanchonete para bebermos algo enquanto “conversamos”, dezenas de perguntas martelavam em minha cabeça: “Será que ele desconfia?”; “Ele está nervoso comigo?”; “Está desconfiado que Kendra ou Gillian não sejam boas pessoas?”; “Irá terminar nossa relação?” A última sentença me pos a pensar. Meu coração encolheu por alguns minutos, mas tão breve quanto a pergunta surgiu em minha mente, a sensação ruim foi embora. Eu e Gabriel estamos afastados há anos. Não nos tocamos, não fazemos nada senão dialogar, sendo que várias das vezes sequer vemos um ao outro porque estamos focados demais em nossas próprias vidas. Gabriel não me ligou durante meses e não pareceu se importar em me enviar mensagens como fazia no início de minha vida acadêmica nos Estados Unidos. O fato de estar do outro lado do continente não era o suficiente para fazê-lo se dedicar mais à mim. Helena disse que isso significa que ele se desapegou de mim, ou havia outra garota em sua vida. Não posso dar muitos créditos à ela, porque qualquer razão é razão de traição. Talvez seja um trauma dela o algo, o que sei, é que desde quando pude conhecer um novo lado do “romance”, consegui enxergar que o que eu e Gabriel temos não passa de uma conveniência. Contudo, vê-lo aqui nos Estados Unidos e saber que sou a razão de sua visita me faz ter a esperança de que ele está se dedicando tudo o que não se dedicou nos dois últimos três anos.
- O que você quer? – ele perguntou assim que sentamos. Levantei os ombros e, como sempre, acabou fazendo o pedido por mim. No Brasil, sempre achei essa ação um cavalheirismo; agora apenas acho que deveria ter mais voz em nossa relação.
- Achei que não soubesse falar bem em inglês. – comentei, vendo-o se comunicar tão bem com a garçonete. Não é todo mundo que sai pela primeira vez do Brasil sem saber falar inglês direito e aparenta ser um cidadão americano quando chega nos Estados Unidos.
- Tive de treinar para fazer conferências do trabalho. Eles estão expandindo e, pelo que vi, inglês é a nova língua natal deles. Ouço mais do que o próprio português no meu dia a dia. – ele arruma o cabelo. – Mas foi bom. Consegui passar na imigração, pegar um táxi, fazer o check in no hotel e chegar até você. – abriu um pequeno sorriso. Deixei minha mão apoiada em cima da mesa, pela minha experiência, este era o momento certo para ele segurá-la e passar um pouco de conforto. – Achei que vi seu pai antes de vir para cá no aeroporto. – ele mencionou. Soltei uma risada nasal. Meu pai.
- Impossível, ele está mais pobre que eu agora. E olha que tenho somente alguns milhares de dólares, porque juntei e estou trabalhando. Não sei como eles não conseguiram juntar nem o mínimo para pagar metade da minha mensalidade. – encosto na cadeira vendo sua expressão séria. – Estou muito aborrecida, mal consigo pensar em encará-los.
- E precisa? Achei que as pessoas erradas fossem eles, não você. Em uma regra geral, a pessoa que erra quem deve entrar em contato primeiro se desculpando.
- Acontece que eu não quero falar com eles, Gabriel. Meu pai já me ligou dezenas de vezes e me sinto tão brava que tenho vontade de mudar meu número.
- Você precisa ser mais paciente com eles.
Parei para encará-lo. Esta afirmação me pareceu muito esquisita. Gabriel nunca disse nada que parecesse estar ao lado de meus pais, quando estava claro que eles estavam errados. Pelo contrário, ele era sempre a pessoa que me fazia sentir melhor, como se simbolizasse a sociedade e todos concordassem que eu estava certa. E agora, de repente, ele está me pedindo para ser mais paciente?
- Não compreendo. – falei. – Você está me pedindo para ser mais paciente?
- Às vezes eles têm algo de importante para dizer.
- É mesmo? E o que seria? Ganharam na mega-sena e estão dispostos a pagar todas as mensalidades de uma vez antes que percam tudo novamente? Gabriel, você os conhece tão bem quanto eu que mesmo que isso acontecesse, pagar o resto de meu curso definitivamente não estaria em suas listas de prioridade.
- Não estou dizendo que eles estão certos, apenas que eles não tem o que fazer. Veja só, eles perderam tudo, perder você não estava nos planos também. Claro que eles estão errados, mas isso não faz da situação menos grave.
- Por que está do lado deles?
- Eu não estou do lado deles, , estou do seu lado.
- Então por que está pedindo que me reconcilie, quando é claro que eu não quero?
Nos calamos assim que a garçonete chegou com nossas bebidas. Olhei para o chá de capim cidreira à minha frente, a fumaça saindo, provando que a bebida estava pelando.
- Estamos a quase trinta graus lá fora e me pede uma bebida quente... – resmungo, baixo o suficiente para ele não ouvir.
Gabriel permaneceu me encarando por um longo tempo. Enquanto esperava que ele dissesse algo, olhei para a rua pela parede de vidro que separava o lado interno da lanchonete, do lado externo. Por ser domingo, a rua estava vazia, a maioria das portas fechadas e pessoas caminhando calmamente, como se não tivessem pressa de chegar aonde devem chegar.
- Você mudou. – ele falou.
Virei meu rosto para ele ao ouvir seu comentário. Estamos longe a dois anos, ele esperava que eu permanecesse igual?
- Bem, várias coisas aconteceram na minha vida.
- Não quis dizer neste sentido. – mexeu sua mão, como sempre fazia quando estava sem paciência em me explicar algo. Sempre não me importei, porque eram vezes que eu me exigia demonstrar interesse em seus estudos ou trabalhos enquanto estávamos em sua moradia. Não era como se eu quisesse ter sua atenção. Mas agora era diferente. Estávamos em uma situação diferente e ele agia como se eu fosse tão desinteressante quanto suas pesquisas. – Você está mais... Argumentadora.
- É o que se ensina em um curso de Direito. A saber argumentar.
- Com ironia?
Aquilo obviamente me calou. Sempre acusei as pessoas de falarem ironicamente quando comecei a frequentar o estúdio de dança e agora Gabriel está praticamente me dizendo que estou igual a eles. Olho para o lado e vejo o grande lago que há perto do campus. Muitas pessoas passavam ao lado sem dar atenção à beleza exposta, mesmo que estivéssemos em pleno outono e a cor da água e das plantas não fossem a mesma que vimos nas duas estações passadas.
- Para onde você foi na última semana? Tentei falar com você, mas nunca estava online.
Era agora. Senti, aos poucos, minha barriga começar a tremer com o nervosismo de lhe contar sobre eu e . Eu quero contar, mas não sei como o fazer. Como casais normalmente falam ou admitem? Geralmente quando são pegos, não? Talvez eu devesse esperar Gabriel nos pegar no flagra. Ou quem sabe chamar para que seja mais fácil de ser pega e iniciar um assunto? Não é idiota de minha parte, é?
- Viagem de trabalho. – menti. – A área administrativa do estúdio teve de ir à Europa realizar alguns trabalhos em campo sobre apresentações e tive de acompanhá-los para garantir que nenhuma apresentação importante fosse perdida. Nunca imaginei o número de espetáculos que havia em um único lugar.
- Nunca imaginei que fosse vê-la deixar seus estudos de lado para viajar, mesmo que fosse trabalho de campo. Quem pagou suas passagens?
- Por que está falando comigo nesse tom?
- Seus pais pagaram, não é?
- Por que está trazendo eles de volta à conversa? Gabriel, qual é o problema? Você os viu no Brasil, não foi? Você encontrou com eles esbanjando em riqueza enquanto estou aqui comendo o pão que o diabo amassou? Gostaria que me falasse de uma vez.
Não entendi a razão dele hesitar ou não querer me dizer. Logo que voltou a falar, foi sobre um assunto completamente diferente. Durante todo o dia que passamos juntos, ele sempre dava um jeito de colocar meus pais em nossa conversa, como se quisesse dizer algo para mim ou seguir um fluxo de conversa que o levasse a dizer o que queria. O deixei em seu hotel depois de lancharmos em um local que ele definitivamente não gostou. Nunca o vi reclamar tanto.
Quando cheguei em meu quarto, Kendra não estava. Achei bom, porque poderia pensar mais em mim e no relacionamento inexistente que estou vivendo com Gabriel. Vi que ao invés de ter um bom momento com ele como tinha quando estávamos no Brasil, eu estava exausta. Cansada de ter de lidar com suas perguntas sobre minhas mudanças e reclamações sobre como a vida ali era pior que em São Paulo. É claro que a vida aqui é melhor que São Paulo, primeiro que as pessoas são mais civilizadas. Bem, não todas, mas em um geral. A verdade é que depois de um tempo me vi discordando de tudo o que ele dizia, mesmo que estivesse correto. Será que ele sempre foi assim, reclamão?

O dia seguinte parecia atípico. Estudar era como se não fizesse mais parte do dia-a-dia. Nunca imaginei que parar era tão fácil e me adaptar a uma vida sem estudos integrais fosse tão tranquilo. A consequência também não era boa. Ficar sem estudar me fez perder as matérias extras que os professores passaram durante o tempo que estive na Espanha e deixasse os professores aborrecidos por haver uma aluna que não sabia sobre o que eles estavam comentando. Gillian me emprestou as matérias do segundo tempo para eu ler durante o intervalo; ajudou um pouco, mas não foi o suficiente, pois qualquer matéria extra necessitava de uma breve pesquisa e interpretação qualificada para o debate ter qualidade. Assim, quando o sinal do fim das aulas soaram, me senti pela primeira vez, aliviada.
- Hey, S! – ouvi atrás de mim. Antes que pudesse me virar para ver quem era, Ace apareceu ao meu lado, colocando um braço ao redor de meus ombros. Seu sorriso branco, como sempre me fazia sorrir em retorno. – Estou indo para o estúdio logo mais e o chefe mandou trazer você comigo.
- Eu sei pegar transporte público agora.
- É, mas se eu não chegar com você a tiracolo, é bem capaz dele me mandar de volta. Aproveite as regalias, só quem namora o chefe consegue. – me deu uma piscadela e antes de sair, disse: - Vinte minutos no portão C.
Vinte minutos era o suficiente. Assim que cheguei no quarto, peguei todo o material extra que perdi para poder estudar melhor as lições e não ser deixada para trás. Mesmo me adaptando à vida de um estudante E, não tenho os mesmos privilégios deles em poder me manter aqui sem um desconto. Arrumei minha bolsa e quando saí do quarto, Gillian estava parada à frente. Nos encaramos por um pequeno tempo, o suficiente para saber que ela gostaria de ir até o estúdio. Um pequeno sorriso surgiu em meus lábios e passei a caminhar com ela ao meu lado.
- Vejam só! Até uma S consegue arrastar outro S para o estúdio! – S apontou para Gillian e eu enquanto nos aproximávamos do grupo que estava pronto para partir. – Podemos usar vocês duas para a propaganda dentro da universidade? Sabe o quanto lucraríamos? Quem são o segundo e terceiro lugares?
- Ace. Essa é Gillian. – olhei para ele, que parou as risadas com os amigos para encará-la.
- Gillian, Gillian? – apontou para trás. Encarei de soslaio e observei Bob com duas ou três garotas encostados no lado oposto do carro. Fechei os olhos em pesar; olhei de lado para Gillian, que se manteve calada e séria. Ace limpou a garganta. – Erm. Seja, hum, bem-vinda. Você dança?
- Não.
Abri um pequeno sorriso, me divertindo com a situação de Ace. Ele me encarou desesperado por alguns segundos e ao ver que não lhe ajudaria, suspirou:
- Não perca as esperanças. Nós achávamos que ela também era um caso sem saída. – apontou para mim, fazendo Gillian abrir um pequeno sorriso enquanto o encarava séria. – Vamos! Quem vai comigo, ingressar já!
Obedientes, todos os alunos entraram nos carros que iriam para o estúdio. Ace deu a volta no carro e deu um tapa na cabeça de Bob, afastando as garotas de perto dele. Eu e Gillian observamos ele sussurrar algo em seu ouvido, o fazendo se virar para trás tão rápido quanto o Flash, o herói que corre muito rápido. Assim que seus olhos encontraram Gillian, não pode mais desgrudá-los dela. Eu e Ace trocamos olhares cúmplices que dizia somente uma coisa: Ele era outro Bob. A tarde seria divertida.

- Então, Gillian, como consegue manter o primeiro lugar? – Ace perguntou assim que deu partida no carro. Ela e Bob dividiam o banco traseiro do carro, já que Ace deu um jeito de mandar as duas outras pessoas que viriam conosco para outros carros. Não conseguia prestar atenção na paisagem, porque estava compenetrada demais em dar atenção à conversa. Sempre me perguntei como seria quando os dois se reencontrassem. Gillian me parece tranquila, mas Bob...
- Eu mantenho minha mente limpa e estudo boa parte do meu tempo. Alimentação também é uma boa fonte de energia.
- Deus é pai, a menina me fala igual você, S. – Ace olhou para mim quando parou no primeiro farol vermelho. O olhei, séria. – Não é por nada, mas vocês tem uma maneira de falar, que parece até uma nova língua. Veja só, baixinha dois – olhou para Gillian. -, qualquer um que seja amiga dessa baixinha aqui – apontou para mim. -, é minha amiga. Como amigo, devo ensiná-la que não é qualquer um que gosta de ser taxado de burro perto de uma S, então você deve se adaptar à maneira como nós falamos.
- Por que deveria?
- Bem... Hum, boa pergunta. Explica para ela, baixinha.
- Se você fala muito inteligentemente, as pessoas podem achar que está tirando proveito da falta de raciocínio e se ofenderem. Existem pessoas que fingem serem inteligentes para poderem minimizar outras.
- Não é irrelevante? As pessoas deveriam dar atenção às expressões e tonalidades com que falamos para compreenderem nossa real intenção, não se atentar somente às palavras.
- As outras pessoas podem não compreender. Estão acostumadas a se agarrar à primeira ideia que captam.
- Chega, é sério. – Ace levantou uma mão. – Vocês conversam assim toda hora? Como conseguem sobreviver? São tão infelizes?
Gillian ficou observando Ace confusa. Não conseguia entender por que alguém poderia ser infeliz em ser culta. Olhei para ela e disse:
- Ele está dando atenção às palavras.
- Ah, sim. Desculpe. – disse a Ace, que resmungou algo que não pude entender.
Antes de voltar a me virar para frente, olhei para Bob que nunca esteve tão calado. Por segundo, quis saber o que se passava em sua mente e quando tomaria a iniciativa de falar com Gillian; logo desisti, quando pensei que fiz minha parte de nosso trato, trazendo-a para perto dele. Daqui para frente, ele deveria caminhar sozinho.
- Mas voltando ao assunto inteligência, e deixe que somente eu fale, já que se deixar vocês abrirem a boca, será como Matrix e todas aquelas codificações malucas que ninguém que não seja S nunca entenderá. – Ace não desviou os olhos da direção e manteve-se bem-humorado, uma característica que admiro. – O coordenador Willis foi desligado do cargo hoje pela manhã.
- Por quê? – perguntei, assustada. O senhor Willis sempre foi uma peça importante para o curso de Direito em Harvard. Um dos melhores mestres que já vi, suas aulas eram espetaculares e seguia uma linha de debate incrível.
- Aparentemente, até os deuses cedem ao pudor. – Ace riu sozinho, já que eu e Gillian não compreendemos seu comentário e Bob deveria estar concentrado demais em sua companhia no banco de trás para dar atenção à nossa conversa. – Ele foi descoberto ter relações sexuais com alunas no campus.
- Não! – coloquei as mãos na boca, vendo-o sorrir.
- E sabe com quem? Una.
- Una? – minhas mãos caíram em meu colo tão cedo quanto ele mencionou o nome da garota com quem tinha uma briga de presença com relação a . – Mas...
- Ela foi deportada, você deve ter sabido por . Por isso, tentou contato com a universidade, que investigou a razão dela ter sido deportada com tanta facilidade e acabaram, de alguma maneira, chegando à conclusão que ela havia se remetido à prostituição para conseguir subir até a sala S.
- Prostituição? – Gillian perguntou.
- Ela dormia com Willians e ele garantia que ela estivesse na S em décimo lugar. A câmera dos corredores da ala D flagraram os dois em um dos poucos dias que estavam ligados. Foi muito azar.
- Uau. – murmurei. Então uma pessoa chega a esse ponto para conseguir o que quer. Vende seu corpo. Nunca desconfiei da existência, apenas não cheguei a imaginar que encontraria um caso tão próximo a mim. – E agora?
- Agora ela passará por um longo processo contra deus e o mundo e não poderá retornar futuramente para cá. Nem ela, nem seus ancestrais.
- Foi uma punição justa. – Gillian concordou. Assim que mencionou sua satisfação, passei a pensar como uma advogada. O caso era simples, principalmente com todas as evidências, os advogados de Una terão muito trabalho em entrar em um acordo razoável para ela.
- Está feliz, baixinha? Sem mais concorrência para você? – Ace me deu um cutucão com um sorriso branco. Encarei-o, séria. Não queria dizer para ele que estava aliviada, sim, mas havia outro problema tão grande quanto Una, e ele se chamava Gabriel.

Capítulo 11

Ao chegarmos no estúdio, Gillian se manteve ao meu lado e, consequentemente, Bob se acomodou perto de nós. Desde a primeira vez que o vi, achei que ele fosse o tipo de homem que gostasse de tomar a iniciativa, porque era seguro o suficiente para fazê-lo. Contudo, assistindo sua performance perto de Gillian, não me parecia que ele era tudo o que eu imaginava. Seus olhos demonstravam ansiedade, como os adolescentes fazem durante a época escolar e seus paqueras estão por perto; observa de lado para saber se está sendo o alvo da atenção de Gillian. Por um lado, acho extremamente engraçado o modo como ele fica na retaguarda, apenas esperando que ela dê o primeiro passo, porque ele ainda é inseguro demais para puxar qualquer assunto com ela. Do outro lado, me sinto incomodada, pois achei que encontrando com ela em seu habitat natural, seria capaz de agir normalmente.
Enfim percebi que talvez essa fosse a característica dele com ela. Mesmo com a fama de machão dentre suas alunas e pegador entre os alunos do estúdio, Bob na verdade é um homem de coração puro quando se trata da pessoa por quem tem sentimentos verdadeiros. Mais uma vez me pego comparando a situação com Gabriel; sempre achei que ele fosse tímido. Acredito que me confundi, pois se fosse tímido, mesmo que estivesse fingindo não prestar atenção em mim, seu mundo seria onde estava, contudo, tudo o que fazia era digitar coisas em seu celular enquanto fora de casa e no computador dentro de casa. Bob sequer presta atenção quando as pessoas lhe dirigem a palavra, porque está compenetrado demais em não perder Gillian de vista.
Antes de entrar no estúdio, não me sinto me preparada para encontrar com , porque sei que terei de lhe dizer a verdade. Sua mensagem no dia anterior me fez sentir as borboletas no estômago que Helena uma vez disse que era normal ter, mas que nunca havia sentido de verdade com Gabriel; ele estava feliz e falar que Gabriel está aqui não é a melhor maneira de se começar uma semana após seu aniversário.
- Ace? – o chamo a tempo de vê-lo parar antes de entrar. – Eu... Hum... Gostaria de conversar, será que teria um tempo?
Vi sua expressão divertida ao ouvir minha pergunta, mas ao ver algo em meu rosto, suponho que tenha visto que não é uma insegurança, mas sim preocupação.
- Claro, vamos comprar algo para beber. Hey, Bob, leve a baixinha número dois para conhecer o estúdio, encontramos com vocês lá dentro.
Foi como se o botão de “start” tivesse sido apertado em algum lugar de Bob. Rapidamente, corrigiu sua postura e olhou para Gillian, como se esperasse que ela negasse sua companhia. Depois de eu e ela trocarmos um breve olhar, Gillian apenas concordou e olhou para Bob, que limpou a garganta e o suar das mãos na bermuda.
- Bem, então vamos. – segurou a porta para ela, que agradeceu em um tom abaixo do normal.
Eu e Ace ficamos observando os dois entrarem acanhados e trocamos um olhar cúmplice. Assim, passamos a caminhar até o mercado mais longe para dar tempo o suficiente para os dois iniciarem um diálogo que não seja falar sobre o tempo ou a estrutura em reforma do prédio.
- Fala aí, não foi por causa dos dois que me chamou, não é?
- Também. – disse. – Mas há um assunto que acho que deveria falar com um... Hum, amigo. Digo, do sexo oposto.
- Ahh, acho que sei do que iremos falar, essa segunda não pode ficar melhor! – seu sorriso branco apareceu em seu rosto e não pude deixar de sorrir junto, vendo-o me dar toda sua atenção.
- Não é tão bom assim. – encolho meus ombros durante nossa caminhada. – É só que... Ontem. Hum, me mandou uma mensagem. Me senti feliz, acho que estamos em um tipo de relacionamento.
- Baixinha. Vocês estão namorando. – Ace sorriu e bagunçou meu cabelo. – pode não falar, mas sabe muito bem agir. Ele não é de ficar com uma mesma pessoa por mais de dois dias, acredite. Conheço-o bem o suficiente para saber quem é namorada e quem não é para ele.
- Tudo bem. Isso não me fez sentir melhor. – levantei a mão para calá-lo ao se sentir confuso sobre minha afirmação. – A questão não é nossos sentimentos. Estou confiante sobre eu e , somos, bem. Somos um casal. Estamos felizes...
- Mas... – ele balançou a mão, me incentivando a ir direto ao ponto. – É o sexo? Foi ruim?
- Não! Não... Ace! Claro que não! – minhas bochechas rapidamente começaram a queimar e sua risada ecoou pela rua. – Não tem a ver com ele!
- Então o que é? Una não foi deportada de verdade? Ela apareceu no campus?
- Não! Deixe-me dizer. Só preciso saber como...
- Baixinha, seja direta.
- Tudo bem. – parei de andar quando chegamos à frente do pequeno mercado de uma família de asiáticos. – Gabriel está aqui.
Não consegui esperá-lo associar os personagens de nosso diálogo. Antes que pudesse demonstrar algo, adentrei à loja, sendo seguida somente alguns minutos depois por Ace.
- Você está falando sério?
- Por que brincaria com um assunto desses? Estou desesperada!
- Caraca... – o vi passar a mão pela careca brilhante. – Baixinha... Você está em uma enrascada.
- Achei que você poderia me ajudar mais do que apenas dizer o que eu já sei. – reclamei, o vendo se desculpar e colocar-se a pensar. – Tenho que falar para o . Não consigo mentir.
- Você tem certeza? Digo, falar é o certo, já que não gosta quando descobre verdades por outras pessoas; mesmo assim, essa verdade em específica não me parece que ele tem vontade de saber.
- Mas ele irá eventualmente descobrir. Não posso não passar meu tempo livre com Gabriel e ele virá me buscar no estúdio alguns dias.
- Ele sabe onde você trabalha?
- Ace, você sabe que não sou a melhor pessoa com mentiras. – jogo algumas latas de bebida coreana na cesta.
- Sei, precisamos trabalhar nisso. Não sei como não pensei nisso antes, uma pessoa não sobrevive neste mundo sem saber blefar.
Fiquei calada ouvindo seus comentários sobre a mentira. Mas não poderia mentir. está sendo sincero com seus sentimentos e tudo o que eu faço é me manter na dúvida. Tenho que tomar uma decisão. Preciso avaliar a situação e chegar a um consenso.

Como ele havia dito no dia anterior, quando cheguei, estava atrás de sua mesa, digitando algo em seu notebook. Desviou o olhar para mim assim que bati na porta e depositei as latas de bebida em sua mesa, deixando entender que trouxe para ele. Sem esperar qualquer troca de palavras, se levantou e foi até a porta do escritório, fechando-a para que pudesse me beijar. Foi então que descobri que não tenho o poder de negar seu carinho.
- Preciso falar com você sobre algo sério. – me sento na cadeira em frente à sua mesa assim que nos separamos. soube que era grave, por isso, fechou a expressão e sentou-se ao meu lado.
- , se você quer falar sobre nós, acho que é tarde demais. Nós estamos...
- Eu sei. Estamos em um relacionamento. Mas preciso ser sincera, você sabe que não posso mentir para você.
O vi engolir seco. Não me parecia nervoso, mas sim, ansioso. Manteve-se calado e pensei na melhor maneira de anunciar Gabriel.
- Achei que sabia sobre o amor. Vivi uma vida tranquila quando se tratava sobre o relacionamento amoroso, achei que estivesse certa sobre meus sentimentos por Gabriel; é claro que agora tudo mudou. Você chegou e foi como um furacão que destrói tudo e nos faz recomeçar uma nova vida, como se estivesse em um novo lugar, mesmo estando no lugar de sempre. Tudo o que eu achava que soubesse, não era nada do que imaginava.
- ...
- Deixe-me terminar, por favor. – levantei uma mão, calando-o. – Não estou dizendo que é algo ruim. Claro que prefiro o seu modo de amar. Sinto borboletas no estômago, penso em você quando não estou com você e minhas mãos formigam sempre que andamos de mãos dadas. Se isso é amor, então eu gosto desse sentimento. Acontece, que não posso simplesmente ignorar o meu passado com Gabriel. Mesmo que o seu amor seja diferente do dele, eu pus sentimentos ali e dediquei anos da minha vida a ele. – era agora. Não posso travar. Tenho que falar. – O que quero dizer, é que... Bem. Sei que não gostará, mas não tenho como evitar. Não quero mentir para você. – arrisquei olhar em seus olhos e fiquei em receio quando os encontrei. Suspirei e, com os olhos fechados, disse: - Gabriel está aqui.
Esperei alguns segundos para ouvir sua reação ao invés de enxergá-lo. Não estou pronta para ver sua expressão de desapontamento ou saber que tudo o que passamos na semana passada foi somente algo momentâneo. Achei que estivesse pronta para ouvir as ironias de quando nos conhecemos, mas a verdade é que estou morrendo de medo. Não quero vê-lo bravo comigo. Estando perto de si, vejo que não tenho que pensar na situação, quando ela é tão clara. é a pessoa. Não Gabriel.
Imediatamente, assim que chego à minha conclusão com meus olhos fechados, me arrependo de ter-lhe dito a verdade. Deveria ter treinado o blefe com Ace ou pensado mais antes de vir correndo lhe dizer, achando que amenizaria minha dor ou dúvida. Agora estou pior que antes. Não quero abrir os olhos e vê-lo prestes a terminar nossa relação. Quero continuar recebendo mensagens de texto de noite e receber suas caronas imprevisíveis a locais novos.
Antes mesmo que pudesse unir a coragem para abrir meus olhos, ouvi sua voz, séria, dizer:
- Eu sei.


Abri a boca.
Eu ouvi direito? Não estou sonhando? Ele está falando sério?
Abri os olhos e pude vê-lo sério, sentado de frente para mim com os braços um apoiado no encosto da cadeira e outro em cima de seu colo. Não se movia, nem parecia estar me testando. Fiz uma careta, confusa.
- Você... Sabe?
- Sei. – suspirou e se levantou, dando a volta na mesa e se sentando em sua cadeira de chefe. – Achei que fosse mentir, por isso, fingi que não sabia. Não esperava que fosse ser tão sincera assim comigo.
- E isso é ruim?
- Em partes. – encostou. – Preferia viver fingindo que está tudo bem e esperar que você terminasse logo com o seu ex.
Abri a boca para dizer algo, mas a voz não saiu. Ele está agindo como se eu já tivesse me decidido. Talvez eu não devesse ter feito a minha declaração. Ele agora está todo pomposo, como se fosse meu rei.
Limpei minha garganta:
- Bem, ainda preciso confirmar...
- , mesmo que eu saiba e esteja levando numa boa, não quer dizer que minha tolerância é infinita. Para ser sincero, ela só vai até aqui. O próximo passo é entrarmos em uma briga, então seria bom que você me dissesse que irá terminar com ele hoje.
- Hoje?
- Você quer continuar com ele? – ouvi seu tom de riso. – Não sou eu quem me julgou quando transava com duas garotas ao mesmo tempo.
- Não comece... – semicerro os dentes. – Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
- É quase igual, sim. – Você quer ficar com nós dois ao mesmo tempo enquanto não se decide qual é o melhor para você. – levanta uma mão. – Eu queria transar com as duas, porque não sabia qual delas era melhor na cama. – levanto a outra mão. – No final, um dos lados sairá machucado e você sairá ganhando. Apenas jogue direito e faça as escolhas certas, assim a satisfação tem longo prazo.
Eu não acredito que ele está me comparando a ele e comparando meus gostos com duas... Garotas de programa. Estou ofendida. Em minha atual posição, não deveria estar, mas estou.
- Por que você sempre dá um jeito de parecer um canalha? – me levanto, vendo sua expressão se tornar escura.
- Você preferia que eu terminasse com você? Estou sendo compreensivo!
- E eu, sincera! Eu sei que você pode brincar com os meus sentimentos, porque sabe muito mais sobre o amor do que eu! Mas isso não quer dizer que o que eu sinto por você e sentia pelo Gabriel, é o que você sente com as garotas com quem só quer transar! – apontei, fazendo-o enxergar o erro que cometeu com suas palavras.
- Você sabe que eu não quis dizer isso...
- Mas você disse! Sabe, , você precisa pensar mais antes de falar. Você não sabe o tanto que me preparei psicologicamente para dizer tudo aquilo para você; se você não quer aceitar meus sentimentos, tudo bem! Mas não os inferiorize apenas porque você é melhor do que eu! – e sem dizer mais nenhuma palavra e não afim de ouvir nada dele, me retirei de sua sala em passos pesados.

Durante o resto do dia no trabalho eu e permanecemos longe um do outro. Enquanto Kendra e Gillian conversavam comigo sobre , Ace ficou do lado dele, conversando e tentando melhorar seu humor.
- Bob, será que por um segundo você não pode nos deixar em paz? Dessa maneira é óbvio que Gillian não irá mais voltar. Você está a sufocando.
Ao ouvir Kendra ser tão direta, Gillian corou e tentou consertar, mas era tarde demais. Nervoso, tudo o que Bob fez foi voltar a entrar no estúdio, deixando nós três do lado de fora. Olhei para Gillian esperando que ela fosse atrás de Bob, mas tudo o que ela fez foi agradecer Kendra.
- Não há de quê. Ele estava me irritando já.
- Ele só está tentando se aproximar de Gillian novamente.
- Parecendo um stalker é que não irá conseguir. – Kendra disse, entrando no carro de Hans. – Ele foi viajar para ver o figurino que está sendo feito em Seattle. Enquanto isso, irei garantir que o carro dele não quebre por ficar muito tempo parado. Dá para acreditar que faltam só duas semanas para a apresentação? Você fez um trabalho e tanto com a reforma, !
De fato, não posso negar, fiz um milagre. Achei que era boa somente com os estudos, mas também me supero nessas reformas. Com uma boa equipe de profissionais e alguns novatos com bastante força de vontade, conseguimos completar o trabalho com uma semana de antecedência. Agora o acabamento final estava para ser finalizado e a lista de convidados confirmados já estava grande o bastante para ganharmos um bom dinheiro com o que vendermos dentro do evento.
- Que tal jantarmos juntas e você se livrar do Gabriel amanhã?
- Eu não pretendia terminar com ele hoje... – falei, sem graça.
- O quê? Você só pode estar brincando, irá ficar com os dois ao mesmo tempo?
- Não! Claro que não! Eu só... Bem. Ele veio de lá até aqui...
- , não. Não, não, não e não!
- Isso não está certo. – Gillian concordou.
- Está vendo este milagre? – Kendra apontou para ela mesma e Gillian. – Pela primeira vez, concordamos em algo sem precisarmos discutir. Precisamos beber, você precisa cair na real.
- Hoje ainda é segunda...
- E mesmo assim você age como se estivéssemos na sexta-feira! Acha que a vida é um oba-oba! Você não pode criticar as pessoas por elas terem um relacionamento duplo e decidir manter o seu relacionamento duplo!
Resumindo: Kendra falou exatamente a mesma coisa que , só que sem as garotas de programa.
Não pude discutir. Apenas me mantive calada, olhando para a rua enquanto Kendra dirigia para o lado da cidade onde não havia dia da semana para criar festas. As luzes dos postes eram amarelas, dando um aspecto mais escuro; nunca havia estado ali antes, as garotas vestiam lingerie por debaixo dos grossos casacos que as protegiam do frio do inverno que estava para chegar daqui a algumas semanas. Os homens fumavam e usavam roupas escuras com correntes de ouro e prata.
- Kendra...
- Relaxa, frequento esse lugar desde os treze anos. São gente boa com quem é do local.
- Olha só quem voltou às raízes. – um homem com os braços maiores que minhas coxas das pernas se aproximou e apoiou o braço na janela aberta de Kendra assim que ela estacionou. – Trouxe amiguinhas, é? Achei que harvardistas não viessem para esses lados.
- Só os bonzinhos. – Kendra sorriu, realizando um tipo de toque sincronizado, mostrando que a relação deles era mesmo muito antiga. – Hoje só vim pegar uma sala e beber muito.
- Com o carro do seu homem? – o homem se desencostou para que ela pudesse sair. Olho para Gillian e ela sentia o mesmo medo que eu de sair e ser raptada por algum maluco. – Onde está esse filho da puta? Está me devendo cem paus.
- Eu sei, eu sei. – Kendra tirou uma nota de cem dólares da carteira. – Ele deu para o Clint, mas parece que ele se esqueceu de te dar. Foi há cinco meses, Bruce.
- Aquele branquelo filho da mãe... Fique com os cem, não é certo o alemão gastar cem a mais por causa de um ladrãozinho mirrento. Vá para a sala 12, estava reservada até agora, mas ninguém apareceu. Vou mandar que cuidem do seu carro. – deu dois tapas no capô do carro de Hans. - Mas não conte para o alemão. Só estou fazendo isso porque é você quem está dirigindo.
- Você sempre foi demais, Bruce. – Kendra deu um beijo em sua bochecha, vendo o homem mexer as mãos para que seus companheiros se aproximassem. – Venham, meninas. Outro dia apresento ele para vocês.
Sem dizer uma palavra, eu e Gillian nos mantivemos quase grudadas a Kendra. Quando olhei para trás para ver o carro, o grupo do tal do Bruce formava um tipo de barreira ao redor do carro.
- O Bruce é o dono de toda a rua. – Kendra disse depois que estávamos seguras na sala com várias garrafas de álcool ao nosso dispor. – Quando eu cheguei, ele ainda era um dos comparsas; a rua era controlada por um grupo de traficantes italianos. Mas aqui, quando você faz parte de um clã e esse clã cresce mais do que o grupo principal, as leis podem mudar de acordo com a coragem do líder. Bruce foi preso sete vezes e já matou muita gente. Agora ele só fica encarregado das permissões. Já que a rua é dele, não há quem ouse difamá-lo. Depois que ele percebeu que não haveria ninguém que pudesse enfrenta-lo, decidiu formar laços mais pessoais com algumas pessoas. Foi quando eu cheguei e ele me adotou como uma irmã mais nova.
- Você morava aqui? – Gillian perguntou.
- Não oficialmente, eu tinha uma casa, uma família. Mas eu gostava daqui. Se não estava na escola, era aqui onde podiam me encontrar. É ele quem paga minha faculdade, sabiam? – abrimos a boca. – Eu sei, ele era contra, mas achou que seria bom uma advogada formada em Harvard em sua equipe. Alguém tem que proteger estes vilões aqui de uma pena de morte. – ouvi sua risada, mas não achei o assunto muito legal. Kendra seria praticamente a advogada do diabo. Talvez nós brigássemos em uma corte real, já que sempre pretendi ser promotora. – Mas bem, vamos falar sobre algo mais importante do que minha vida já encaminhada. – serviu meu primeiro copo. – Fala, , o que te impede de terminar com o mala?
- Consideração, talvez. – suspiro. – É só que não posso deixar de me lembrar de tudo o que senti por ele durante os últimos anos. Ele deixou sua vida de lado para vir me visitar, como posso simplesmente chegar no segundo dia dele aqui e dizer que quero terminar?
- Achei que você fosse a favor da sinceridade. – Gillian falou. – Fingir que está tudo bem com ele não fará das coisas melhores quando decidir ser honesta. Quanto mais cedo falar, melhor.
- Eu sei... Só não tenho coragem o suficiente. Como pode ser tão difícil?
- Não é difícil, você só nunca fez isso antes. – Kendra falou. – Veja só. Não é complicado. Você vai até ele, diz que de um tempo para cá viu que sua vida poderia ser muito mais aqui do que no Brasil. Você conheceu esse cara e está apaixonada por ele...
- Nós discutimos hoje.
- O quê? Já?
- Ele se expressou erroneamente. – pus a explicar toda nossa discussão.
- Como ele já sabia? – Gillian perguntou.
Passamos um tempo caladas até eu e ela termos a mesma reação: Olhamos para Kendra.
- Tudo bem! Eu disse! Falei que o mala estava aqui, achei que isso deixaria ele puto e disposto a lutar por você e ir ele mesmo falar com Gabriel, de modo que você não precisaria tomar nenhuma iniciativa, porque sei que você é medrosa. Não esperava que ele fosse agir como se não soubesse de nada, muito menos que a primeira coisa que você faria ao chegar no estúdio, seria contar tudo para ele. Mas que droga, estamos numa segunda-feira! O que acontece com o sentido das pessoas? – olhou para a parede, onde o som de garotas gemendo realmente estava perturbador. Gillian não conseguia parar de desviar o olhar toda vez que uma gritava mais alto; ela realmente ficaria assustada com os tipos de festas que a turma fazem em épocas de feriados.
- Por que ele não pode ser mais carinhoso como estava sendo em Ibiza? – retorno ao assunto antes que Kendra decida ir comprar briga com a turma da sala ao lado. - Por que eu tenho que sofrer tudo sozinha? Por que ele tem que piorar?
- Porque homens acham que devem fazer assim para compreendermos a dor deles. O orgulho dele está ferido, é claro que está. Qualquer um se aborreceria, mas se ele decidiu fingir que estava tudo certo porque se preocupa com você e não quer te perder, poderia se esforçar mais em te ajudar ou resolver logo o problema de uma vez. Homens não pensam.
- Eles só pensam depois que perdem. – Gillian concorda.
- Por isso eu e Hans damos certo. Ele tem a opinião dele e eu tenho a minha, mas ele sabe que estou fazendo direito não porque eu gosto da profissão, mas tenho um dom de sempre querer ganhar as discussões. Mesmo que eu esteja errada, eventualmente saberei que errei porque a consequência cairá sobre a minha cabeça, mas não será ele a pessoa que irá brigar comigo e correr o risco de ficar sem sexo por semanas. – Kendra sorri, mas logo a expressão volta a escurecer. – Agora chega. – bate as mãos na mesa e se levanta, abrindo a porta para ir até a sala ao lado.
- Kendra, não, deixa para lá! – me levanto e vou atrás dela com Gillian atrás de mim.
Assim que saímos de nossa sala, Kendra já estava abrindo a porta do lado entre gritos, no entanto, parou assim que seus olhos puderam enxergar entre a fumaça que tomava conta do local.
No início, meus olhos arderam. A fumaça estava muito espessa e o número de garotas seminuas ou nuas ali dentro era aterrorizante. Com a porta aberta, o ar foi se dissipando até eu poder ter uma visão mais clara do que estava acontecendo ali. Não pude evitar o choque ao ver Gabriel no meio de todas aquelas garotas, seu corpo nu grudado ao de uma, os cabelos bagunçados e o rosto vermelho.
- Cara, ela só precisava de um incentivo maior para terminar com você. – Kendra abriu um pequeno sorriso ao meu lado. – Parabéns, você conseguiu. – bateu palmas.
- , não tire uma conclusão ainda. – ele levantou uma mão para mim. – Estou bêbado.
- Ninguém chega nessa rua bêbado, seu mala. Você veio aqui querendo comer garotinhas, isso sim. Fala aí Krystal. – encaramos uma garota que fumava calada em seu canto enquanto nos observava. Pela sua expressão, parecia um tanto acostumada a vivenciar esse tipo de cena.
- Faz cinco dias que ele vem aqui. – a tal de Krystal respondeu. – Já se tornou um de nossos clientes VIP’s.
- Deixa eu explicar para a , que é a primeira vez que vem aqui, o que é um cliente VIP.
- Cale a boca. – Gabriel era outra pessoa. Ele não era ele. Ele nunca falou palavrão. Nunca teve aquela expressão sombria no rosto. – Cale a sua boca ou terei de calá-la para você.
- Tente e amanhã não existirá para você, branquelo. – a voz de Bruce apareceu atrás de nós. – Qualquer um que mexa com essa garota aqui pode se considerar carne moída.
Uma briga estava acontecendo, mas não pude raciocinar muito bem. Gabriel estava nos Estados Unidos há mais de um dia, como disse ontem que estava. Ele vinha aqui todos os dias desde quando chegou. Tem mentido para mim todo esse tempo?
- Se não se importam, gostaria de falar com minha namorada em paz. – nunca senti tanta vergonha de ser chamada de sua namorada em minha vida. Ele ali, no meio das mulheres nuas, colocando sua roupa e falando que sou sua namorada mesmo tendo sido pego no flagra... É nojento.
- Acho que ela não quer ficar sozinha com você, mala. – Kendra falou, ao me ver dar um passo para trás. – O que quer que tenha para falar para ela, diga agora.
- Você mentiu para ela sobre quando chegou aqui. – Gillian se colocou ao lado de Kendra.
Gabriel abriu um sorriso.
- Eu já menti muito mais do que um simples prazo de chegada, nerd. – senti meus lábios estremecerem com o choro preso. – Quer que eu seja honesto? Serei honesto então. Para facilitar, irei falar na língua deles para que vejam o quão idiota você foi e quão ruim é ser ingênua demais. – se sentou no sofá de couro preto, pouco se importando em ter sido ameaçado de morte pelo dono do estabelecimento e da rua. - É verdade, estou aqui faz um tempo; para ser preciso, vinte e três dias. – seus olhos encontraram os meus e foi como se eu nunca tivesse o visto antes. Ele não me parecia o garoto que conheci no colégio e que possuía um sonho de se tornar um grande engenheiro. – É melhor você se sentar, , descobrir que nosso relacionamento foi uma farsa não será fácil.
- Seu... – Kendra começou a falar, mas segurei em sua mão. Eu queria ouvir. Se ele queria ser honesto, eu gostaria de ouvi-lo. Quero saber quão enganada eu fui nos últimos anos.
- Eu não sou aluno da turma de engenharia. Nunca fui. Forjei minha entrada para que você e seus pais achassem que sou uma pessoa boa. Tive que gastar muito dinheiro para conseguir. – suas mãos começaram a mexer no maço de cigarro para prepara-lo. – Você sempre foi conhecida na escola como a garota do berço de ouro, com os pais em um sucesso inimaginável na carreira de direito. Era normal que qualquer maluco tivesse vontade de casar com você só para herdar essa boa grana. A história de que eu odeio meus pais? – soltou uma risada enquanto acendia seu cigarro. – É claro que foi mentira. Eu não tenho pais, fui “adotado” por um casal que me ensinou a viver minha vida. – abriu os braços, orgulhoso de estar no meio de tantas prostitutas. – Decidimos que você seria nossa fonte de riqueza. No começo foi fácil, conquistar uma garota boba como você era como tirar doce de criança. O problema foi que não esperava que você fosse tão mão de vaca. Tirar um carro de você foi um sacrifício. Tudo estava conforme os planos, até seus pais me inventarem de fazer a maior burrada e falirem. No começo, achei que fosse um golpe, porque eles estavam chamando a atenção demais das pessoas, mas então vi que era verdade. Os dois estavam no limbo, você estava vendendo sua alma para conseguir pagar o último ano da faculdade e eu não estava ganhando nada com isso. Decidi vir para cá me divertir um pouco e então terminar com você antes do Natal. O plano principal seria pegar a grana que você recebeu até agora. Sei da sua poupança e ela não é pequena aqui, , só que esses americanos são bons com segurança. Não pude pegar o dinheiro e você me descobriu cedo demais. Antes que você pergunte, vou lhe responder: Não, eu nunca te amei. Nunca percebi nada novo em você e nunca senti sequer tesão pelo seu corpo magrelo. Todo meu comportamento era feito pela Helena. Você é tão burra que nem as amizades consegue escolher direito. – soltou uma risada. Olhei para os lados esperando ver Helena, mas ela não estava lá. – Ela está ocupada com uma outra pessoa. – arregalei os olhos ao me lembrar de Paulo, seu namorado. – Fiquei chocado com sua lerdice. Você mal percebeu nossa real intenção. Os meses que ficamos sem nos falar, meus horários péssimos de adaptar ao seu, Helena ligando de tempo em tempo para saber como você estava. Não é de impressionar que seus pais estejam pouco se importando com você.
- Você está sendo o típico cliente que gostaria de conversar em particular. – Bruce se aproximou de Gabriel com um bastão. Não conseguia me mexer. Minha boca estava aberta e meus pés, presos ao chão.
- Você não vai querer fazer isso. Conversamos ontem, lembra? Tenho muito mais do que aquilo escondidos nas mangas. Qualquer passo errado e você perde a sua rua.
Bruce riu.
- Eu acho que não fui claro o bastante. – ouvi o som de uma arma carregando. – Eu não preciso dar passo nenhum para acertar sua testa.
O sorriso de Gabriel se desfez. Mesmo que sua situação estivesse bastante delicada, certamente eu estava pior. Ouvi seu suspiro e então seus passos até minha direção. Vi seus pés tamanho 42 próximos aos meus 36. Era assim como eu me sentia perto dele, pequena. Antes que pudesse dizer algo, vi seus pés caírem no chão e o grito de dor ao ter sido acertado na cara por alguém.
Olhei para trás, com medo de que fosse os funcionários de Bruce, mas era . Seu rosto estava vermelho de raiva, o sangue subia aos olhos e só pude entender que ele ouviu toda a verdade quando já estava chutando Gabriel, que jazia no chão gemendo de dor.
- Venha, . – Gillian e Kendra me puxaram para fora da sala, Ace esperava de fora do estabelecimento com os braços cruzados.
- Você está bem, baixinha? – desencostou de sua pick-up. – Esperava que você não visse tudo aquilo.
- Ela ouviu muito mais do que viu, Ace. – Kendra falou. – É melhor você tirar de lá ou o mala morre com o tanto de chutes que está recebendo.
- Seria bom para ele sofrer. Ninguém faz a nossa baixinha de idiota e sai imune. – Ace se virou e tirou uma garrafa de cerveja de dentro do carro. – Não é por nada, mas se me permitem desviar o assunto, queria saber se você ainda está perturbada com o Bob, porque ele se recusa a sair do carro. – Ace olhou para Gillian, que arregalou os olhos.
- N-não... – gaguejou.
- Ótimo. Saia daí, seu mijão. – Ace deu dois socos na porta do carro, de modo que Bob saiu depois de alguns segundos.
apareceu depois de dois minutos com os cabelos bagunçados e o rosto ainda vermelho. Era acompanhado por Bruce e alguns de seus funcionários.
- Já que vocês estavam à vontade demais imaginando a cara do idiota deformado, tive que separá-los antes que eu tivesse de me explicar à polícia sobre o óbito que teríamos. Hoje ainda é segunda, não quero ter dor de cabeça pelo resto da semana. – empurrou , que veio até a mim e, sem dizer uma palavra, me puxou para um forte abraço.
Sentir seus braços ao redor de mim me fez sentir como se estivesse caindo de um abismo, mas no final uma camada de travesseiros fofos me esperasse para suavizar a queda. Apertei minhas mãos na barra de sua regata e não me mexi, já que minhas pernas estavam moles demais para sustentar meu próprio peso.
- Eu levo ela. – o ouvi dizer, me levando em direção ao seu carro, que estava logo entre o de Kendra e Ace. – Se você puder fazer um favor e inventar uma boa desculpa para ela amanhã...
- Claro. – Gillian respondeu.
O carro de estava gelado, mesmo ligando o ar quente, senti como se estivesse no meio de uma nevasca.
- Você pode chorar, se quiser. – ouvi sua voz serena.
Quando finalmente decidi enxergar o caminho que ele estava fazendo, vi que estávamos na estrada a caminho de sua mansão no condomínio fechado. Tudo o que eu precisava agora era de seu consolo; estou disposta a esquecer nossa discussão como se nunca tivesse ocorrido.
Na mansão, fomos direto para o seu quarto, onde ele me deitou confortavelmente em sua cama. Enquanto olhava para o teto, sentia sua mão acariciar minha cabeça e meu rosto.
- Você já sabia que ele estava a mais de um dia aqui? – virei meu rosto para ele. Vi, através da luz da lua, seus lábios pressionarem um contra o outro. A resposta era clara. – Por que não me contou?
- Você me ouviria? – era claro que não. – Minha primeira reação depois que soube foi querer te contar. Estava pesquisando sobre ele para que soubesse quem teria de enfrentar se realmente quisesse brigar por você; no meio das buscas, descobri que ele já estava aqui no país fazia um tempo, mas longe de encontrar com você. Tenho contato em todos os lugares por causa das turnês que fazia na minha carreira. Não é muito difícil encontrar um cara como ele, que gosta tanto de se mostrar para os outros. No início, achei que estava enganado. O perfil dele não coincidia com o que você havia dito, mas ele ficou com Jessica, um dos meus contatos e ela é boa em tirar verdades depois de uma noite de álcool e sexo.
- Por que tudo é resolvido com dinheiro, álcool e sexo?
- Porque é melhor do que trabalhar e ser honesto.
Eu estava errada sobre esta tarde. Ele não era um canalha. Gabriel era um canalha. Um idiota. Mal consigo pensar nos xingamentos que aprendi no estúdio para caracterizá-lo. Nunca pude imaginar que minha ingenuidade fosse tão ridícula. Mais do que raiva dele, sinto uma raiva infinita sobre mim; e vergonha. Como posso ser tão vergonhosa?
- Pare de se martirizar. – ouço a voz de no meio do escuro. – Ele foi um filho da puta, qualquer um diria. Você apenas acreditou nele.
- É ruim acreditar nas pessoas.
- É ruim quando elas nos decepcionam. – sua correção foi correta. Podemos correr esse risco, mas nada evita que eu continue me envergonhando de ser tão ingênua. Achei que não fosse grave, mas como posso atuar no Direito, quando sequer consigo identificar um mentiroso?
- Obrigada por bater nele. – murmurei e ouvi sua risada. – Eu realmente queria que ele apanhasse.
- Eu sei. Você sempre iria querer que a pessoa que odeia fosse machucada fisicamente, porque não consegue machuca-la verbalmente. – seu tom era incrivelmente simpático, fazendo com que me sentisse melhor gradativamente. A intenção de estar ao meu lado não era somente me consolar, mas sim me sentir à vontade novamente.
- Você não...
- Se você me comparar a ele, aí ficarei puto.
- Desculpe. Eu só estou... Bem. Me desculpe.
- Tudo bem. Vou considerar que você não está psicologicamente sã neste momento e qualquer homem ou mulher podem ser filhos da puta.
Abri um pequeno sorriso, feliz por tê-lo tão descolado ao meu lado.
- Posso dizer uma coisa? – sua voz veio baixa depois de um tempo.
- Hum?
- Estou aliviado por finalmente ter você só para mim e ser o único para você.

Capítulo 12

Não sei como me caracterizar. Solteira? Traída? Ingênua? As três opções? Toda vez que me olho no espelho, vejo o rosto de uma garota que mesmo morando fora do país e estudando na melhor universidade do mundo faz três anos, ainda não amadureceu o suficiente para ser uma profissional, ou pior, viver nesse mundo. Achei que lidando com todas aquelas pessoas do estúdio que um dia me odiaram seria o maior obstáculo que enfrentaria; não é nada fácil não ser bem-vinda em um lugar, muito menos sofrer bullying de pessoas que acham que você as acha inferior. Quando o final de semana chegou, achei que um ano havia se passado. Gabriel não apareceu mais na minha frente, deixou que eu trabalhasse do meu dormitório na faculdade e eu pude tentar esquecer de tudo o que vivenciei na segunda-feira estudando para a avaliação mensal que se aproximava.
Com o fim de novembro, as coisas começavam a se tornar um pouco exigentes para mim. As provas de final de semestre se aproximavam, assim como os debates práticos; esse ano teríamos uma grande banca de jurados constituídos de profissionais da área tributária. Trabalhar com política nunca foi meu foco, mas a matéria não me pareceu tão difícil, já que com minha memória fotográfica, foi fácil decorar qualquer lei ou adjacentes do tribunal. Além da universidade, faltavam pouco menos de duas semanas para a apresentação final e inauguração do novo estúdio. Os andares estavam prontos e tudo o que precisávamos finalizar agora era as iluminações nas salas de vídeo, encher o estoque da cantina do último andar e realizar a decoração para tornar o ambiente mais pessoal e próximo aos alunos.
Cuidar de tudo sozinha não estava sendo uma missão fácil, por isso, quando chegamos na sexta-feira, Gillian se ofereceu para me ajudar tanto nos estudos, quanto no trabalho. Ter alguém com quem compartilhar todo o serviço foi bom, mas possuir uma amiga para que não ficasse no tédio fazia com que o tempo não passasse tão devagar, nem tão rápido, além de não ser uma atividade tão cansativa quanto deveria ser. No início, achei que ela não fosse dar conta ou se encaixar no grupo do estúdio como aconteceu comigo, porém, me surpreendi quando a vi acompanhar o estilo de conversas das garotas que eram alunas, além disso, Bob estava mais próximo dela, garantindo que não sofresse nenhum tipo de agressão física, verbal ou psicológica como aconteceu comigo no começo do meu trabalho.
- Não ache que ela é melhor que você, baixinha. – Ace se colocou do meu lado quando parei para observar Gillian conversando com um grupo de alunas que eram do estúdio. Vê-la falar com alguém que não fosse da sala S já era um grande feito, com integrantes da J então, era como um evento para os alunos da A e B. – Você causou uma boa impressão em todo mundo, então o paradoxo de ‘S’ foi ligeiramente quebrado, por isso ela não está tendo a mesma dificuldade que você para se adaptar. - Que bom que servi para alguma coisa. – abri um pequeno sorriso, vendo-o soltar uma alta risada com seus dentes excepcionalmente brancos.
- Não fique brava, mesmo que ela entre para o nosso grupo, você sempre será a baixinha número um. – deu dois tapinhas amigáveis em minha cabeça. – Então, está sabendo do evento que vai rolar nas Bahamas?
- Bahamas?
- É. É a comemoração de final de ano. Como foi a de volta às aulas e tal...
- Um evento daqueles nas Bahamas? – me recordo da festa que durou dias e mais dias enquanto eu tentava me adaptar ao tratamento das pessoas do estúdio. Se eu me desentender com alguém nas Bahamas, não poderei voltar a pé para Harvard.
- Não fale como se fosse uma coisa ruim. Bem, talvez tenha sido ruim para você, mas as circunstâncias mudaram, baixinha. – encostamos em uma árvore enorme que ficava próximo à entrada. Haveria, para variar, uma festa que aconteceria na mansão de e todos foram convidados. Como das outras vezes, o ponto de encontro foi na praça próxima ao campus, já que a maioria das pessoas que possui carro se encontra na região. – Agora você é a acompanhante oficial do dono, ninguém irá brigar com você.
- Quando uma pessoa não está sóbria, você pode ser o senhor presidente e ela ainda assim o chamará de palavras racistas. – resmungo, vendo-o concordar com meu ponto de vista. – Não me importo com as festas, eu só não sei se poderei ir.
- E por que não?
- Bem, meu contrato de serviço acaba assim que o evento do estúdio acabar. Tenho que procurar outros meios de me sustentar até o final do ano que vem se quiser continuar receber o meu diploma. Além disso, estou confiante depois dessa semana que irei subir para o terceiro lugar nessa última avaliação do semestre.
Olhei para ele com um sorriso de satisfação no meu rosto e não entendi quando o vi boquiaberto. Por estar com os óculos escuros, não foi nada fácil decifrar sua expressão:
- O que foi?
- Baixinha. Você acabou de passar por uma situação que poderia ter sido a pior da sua vida e mesmo assim conseguiu ter cabeça para estudar e se colocar em dia com a matéria?
- Minha vida pessoal não tem nada a ver com os meus estudos. – respondo, achando que ele estava confundindo demais meu relacionamento trágico com Gabriel e meu futuro como advogada.
- O que você é?
- Uma garota, claro. – Kendra se aproximou com Hans logo atrás. – Às vezes você faz cada pergunta que eu fico surpresa sobre sua posição na ‘E’, Ace.
- Você pegou a conversa no meio, quer parar de achar que é melhor que eu?
- Ace. – a vi colocar sua mão em seu ombro. – Eu sou melhor que você. Dezesseis vezes, lembra?
Ouvi a risada impaciente de Ace; dessa vez eu sabia sobre o que eles falavam, porque Kendra comentou comigo há algumas semanas. Na avaliação mensal, Ace ficou dezesseis colocações abaixo de Kendra, que está prestes a se tornar uma D. Ela disse que conviver comigo e Gillian acabou a tornando mais inteligente, mas nós sabemos que ela já não tem tanto preconceito com os integrantes da sala ‘S’, por isso não importa de subir de colocação. Eu e Gillian achamos que ela consegue chegar até a ‘C’ se decidir se dedicar bastante até o final do ano que vem.
- Mudando da água para o vinho. – Kendra fez o sinal de rotatividade com os dedos indicadores, mostrando que mudaria de assunto. – Quando é que o Bob vai deixar de ser passivo? No começo achei engraçado, porque ele sempre foi muito machão, mas agora estou começando a me sentir irritada.
Com o início do assunto direcionado à Gillian e Bob, nós quatro passamos a encarar o lugar onde os dois estavam. Gillian conversava timidamente com algumas alunas da sala H e I, enquanto Bob, sozinho, estava encostado na parede que encerrava as pendências da faculdade. Ele não parecia estar aborrecido em ter de ficar sozinho e qualquer garota que aparecia para conversar era rapidamente ignorada.
- Ele está agindo como se fosse o segurança dela. – Hans disse em seu sotaque forte e um tom de riso. – Eu apenas dou atenção à uma pessoa. - cruza os braços e imita ridiculamente Bob, fazendo todos nós rirmos.
- Talvez ele esteja se certificando que ela está à vontade para poder discutir sobre o relacionamento deles. – arrisco dar minha opinião, vendo os três virarem seus rostos para mim e colocarem o sorriso automático de quem não quer ser grosseiro na frente de alguém que é ridículo.
- . – Kendra colocou a mão em meu ombro e disse, calmamente: - Bob pode ser qualquer coisa, menos cauteloso.
- Eu adoro como você sempre enxerga as coisas de uma maneira graciosa, baixinha. – Ace diz entre risadas.
Preferi abrir um pequeno sorriso e me manter calada. De fato, minha positividade às vezes é desnecessária, mas acho que não faz mal a ninguém possuir alguém no grupo que tenha uma visão mais alegre da situação.
- Já está treinando seu número com ? – Kendra perguntou assim que passamos a caminhar em direção à praça do ponto de encontro, quando Hans anunciou que estava na hora de irmos.
- Eu não vou dançar em público. – falei, ainda decidida a não ceder. – não comentou mais nada sobre o assunto, acho que ele desistiu.
- Eu estou ouvindo e desistir em uma mesma frase? – a voz de Violet preencheu nossa caminhada. Ela parecia ainda mais bonita... E lésbica. A companheira ao seu lado estava exageradamente tentando parecer um casal. – Esta é Sonia, minha, hum, amiga.
- Namorada. – a tal de Sonia levantou a mão em um aceno. Achei que imediatamente Violet fosse reclamar ou lhe mandar um olhar feio como sempre faz quando alguém toma uma atitude que ela reprova, no entanto, tudo o que vi foi uma Violet sem graça, mas que não negou o status anunciado pela companheira.
- Você está mesmo namorando? – Kendra olhou boquiaberta para as duas. – Nunca imaginei que alguém fosse namorar Violet na vida. Sem ofensas, mas você sempre foi muito exigente.
- Tenho melhorado. – Violet resmungou. Abri um pequeno sorriso, pois é a primeira vez que a vejo sem o controle da situação e não querer colocar um ponto final na conversa. – Mas o que desistir tem a ver com ? Isso não é do feitio dele.
- acha que ele desistiu de fazer o número com ela na apresentação do final de ano. – Kendra falou.
- Ah, sim, conversei sobre isso com ele. – Violet balançou a cabeça. – Parece que ela ganhou a briga.
Sem perceber, eu, Violet e Sonia estávamos andando sozinhas. Paramos ao ver que todos os outros três haviam parado repentinamente.
- Você está falando sério? – Ace, com suas pernas de negro longas veio até nós a simples três ou quatro passos. – Sério?
- Sério. – Violet respondeu simploriamente.
- Sério, sério?
- É sério, Ace. – ela revirou os olhos.
- Não. Violet. Estamos falando do agora. É sério? – Ace segurou nos braços de Violet e não pude me sentir um pouco desrespeitada. Ele não ganhava todas as nossas brigas, apenas algumas.
- Ace, estou falando sério. pediu para colocarmos Cori e Tan no lugar, eles têm treinado faz uma semana já.
- Ok. Tudo bem. cedeu. Agora, o mais importante. – Ace corrigiu sua postura e olhou sério para Violet: - Você gravou?
- Gravei o quê?
- Ele voltando atrás na decisão. Deixando o orgulho de lado. Admitindo que errou... Violet! Garota, você conhece o cara há anos e ainda não consegue enxergar uma boa oportunidade de possuir material para chantageá-lo?
Kendra e Hans começaram a rir, enquanto Violet dava um tapa na cabeça de Ace por ele fazer alarde com um caso tão pequeno. Na verdade, eu estava um pouco curiosa para saber se Violet havia gravado porque adoraria ter em meu celular um vídeo de dizendo que tenho razão. Sem perceber, abri um pequeno sorriso que foi motivo de piada para Kendra até chegarmos à praça e a encontrarmos abarrotada de pessoas.
- Estamos no final do semestre... – ouvi Gillian sussurrar ao meu lado assim que pediram para nós esperarmos próximo ao carro. Bob não havia vindo com seu carro porque, de acordo com Ace, era óbvio que não teria coragem de chamar Gillian para ir com ele e não poderia correr o risco de ir sozinho ou deixá-la ir sozinha sem ele em outro carro.
Olhei para a expressão espantada de Gillian, que nunca havia vindo em um evento antes. Abri um pequeno sorriso me perguntando se essa foi a cara que fiz quando vi todas aquelas pessoas fumando, bebendo e conversando animadamente enquanto espera o sinal de partida de Violet.
- Eu sei, mas eles não ligam. Nem levam livros para leitura; os tablets são utilizados para tirar fotos e gravar vídeos.
- Uau... – Gillian murmurou enquanto encarava um grupo de garotos e garotas fumando narguilé. – Eles são maiores?
- É melhor não saber. – se pôs atrás de nós. – Vocês demoraram.
- Você tem certeza de que haverá pessoas que voltarão hoje de noite? – olhei para ele, que levantou uma sobrancelha. – A avaliação final de desempenho é no final da semana que vem e eu e Gillian precisamos começar nossa revisão.
- Vocês duas puderam estudar o suficiente essa semana. – ele olhou para mim e Gillian, que balançou a cabeça.
- Seis horas por dia além das aulas não é o suficiente para uma avaliação mensal. Além disso, também temos de nos focar nas provas que começarão na primeira semana de Dezembro. Estamos tentando fazer com que suba uma posição e comece a ganhar desconto no valor da mensalidade.
- Achei que o dinheiro do salário estivesse sendo o suficiente para cobrir esse gasto. – olhou para mim, que levantei os ombros.
- Estou me precavendo para o ano que vem. Terei de começar a pagar em Janeiro e meu contrato como funcionária sua acaba mês que vem.
- Você está fazendo contagem regressiva para o fim do trabalho? – cruzou seus braços feito somente de osso, pele e músculos e semicerrou os olhos. Limpei minha garganta, sem saber como respondê-lo, quando teve uma interpretação tão ruim do que acabei de falar.
- Ela não quis dizer isso. – Gillian falou.
- Eu sei, estou apenas diminuindo o ego dela, senão começará a retrucar tudo o que eu falo. – colocou sua mão em minha cabeça. – Bob está te chamando. Vocês vão no carro do Ace. – com a outra mão, apontou para trás, onde Bob estava encostado na imensa picape roxa de Ace com mais alguns estudantes que provavelmente iriam junto.
Gillian olhou para mim e ligeiramente acenei com a cabeça para que ela fosse até Bob. Sem dizer mais nada, decidiu ir até ele. Em uma conversa que tivemos durante o tempo de descanso que criamos durante nossas horas de estudo, Gillian disse que está à vontade na presença dele, mas ainda não sabe qual será sua reação quando ele começar a falar sobre o relacionamento dos dois. É claro que ela é esperta e já entendeu que ele quer reatar ou que ainda tem sentimentos por ela; ela também ainda tem sentimentos por ele, afinal, alunos da sala ‘S’ dificilmente se apaixonam por muitas pessoas em um curto período de tempo, além disso, o fato dos dois se toparem na universidade todos os dias dificultava a missão de se esquecerem. A minha opinião é que Gillian deveria limpar a mente de qualquer problema familiar que estivesse envolvido. Quando vejo ela em um impasse sobre a família rica de Bob não querer aceitá-la, fico pensando o que será dos meus pais quando descobrirem que estou em um relacionamento com alguém como . Se for a questão do dinheiro, não terão muito o que reclamar, mas se for sobre sua profissão, poderão iniciar a terceira guerra mundial.
- Achei que você soubesse que seu contrato comigo só termina quando eu quiser. – falou quando entramos em seu carro e rapidamente trancou as portas para que mais ninguém pudesse entrar. Olhei para ele surpresa, principalmente pelo fato dele estar tão próximo de mim quando há centenas de outras pessoas espalhadas. Mesmo com o insulfim impedindo qualquer um de observar o que acontece dentro do carro dele, o fato de eu poder enxergá-los já era perturbador o suficiente.
- Não, eu me lembro bem, ele era até...
- . Eu não me importo com o que está escrito no contrato. – ele abriu um pequeno sorriso. – Por que você tem de levar tudo ao pé da letra?
- Porque são fatos comprovados.
- Bem, então aceite este fato: Enquanto você estiver comigo, darei um jeito para que consiga ter esse seu tão sonhado diploma, por isso, é bom se preparar para me aturar pelo próximo ano inteiro.
- Você não pode pagar todos os meus gastos o ano inteiro, , é muito dinheiro.
- Para quem nasceu em berço de ouro, se preocupar com o dinheiro em tão pouco tempo depois da quebra, você até que é bem consciente, “mesquinha”. – seus lábios grudaram nos meus antes mesmo de eu pensar em me sentir ofendida por ter sido chamada pelo apelido que iniciou nossa rixa.
Como todas as outras vezes que me calou com seu beijo, não pude evitar deixar que ele fizesse o que queria, principalmente porque ainda não tenho segurança ou tempo de experiência o suficiente para tomar qualquer iniciativa. Quando senti sua mão tocar minha barriga por debaixo de minha blusa, a imagem do carro se balançando na primeira vez que saí em viagem com o grupo veio à minha cabeça e me afastei dele bruscamente.
- O que foi? – perguntou, confuso.
- Aqui... Hum... – olhei para os lados. – Não é nada. Eu só não quero fazer nada aqui. – me arrumei em meu banco passageiro e coloquei o cinto, indicando que não mudaria mais de posição nem para beijá-lo.
Ouvi sua risada.
- Se você quer saber, sexo no carro, apesar de parecer desconfortável é até que bom. – me mantive calada, tentando não pensar em suas intenções sujas de me despir praticamente em público. – Eu andei pensando esses dias, que faz uma semana desde a última vez que nós fizemos. – senti minhas bochechas queimarem com a vergonha. Ele estava mesmo falando sobre sexo? – Quando vi você entrando no meu banheiro na terça-feira para tomar uma ducha, não pude deixar de ter alguns tipos de pensamentos que gostaria bastante de coloca-los em prática hoje.
- ! – olhei para ele, chocada.
- Você precisa entrar mais no clima, . Sei que ainda não sabe lidar com essas coisas, mas sexo é sexo. Você não pode negar que achou ruim e muito menos pode me deixar sem...
- Pare! – coloquei as mãos em meus ouvidos. – E-eu não quero falar sobre isso.
Ouvi sua risada e então um beijo em minha bochecha.
- Está na hora de você aprender a deixar essa sua ingenuidade de lado e usar sua sensualidade. Assim como você faz na dança, seu corpo é maravilhoso dançando.
Virei meu rosto em direção à janela sentindo meu rosto queimar. Como ele podia não ter vergonha ou sensibilidade de falar com uma garota com quem está começando um relacionamento sério? Olho para meu reflexo no espelho e vejo uma garota com os olhos arregalados de vergonha, sem saber o que falar, mas curiosa sobre como seria se eu deixasse a razão um pouco de lado e aproveitasse a falta dela para realizar delinquências. Gillian uma vez me falou que perder o controle de vez em quando trazia uma sensação de liberdade. Por não fazer com frequência, as consequências não eram tão duras, mas o fato fazia com que sempre continuássemos a sermos inconsequentes porque trazia uma sensação boa e deixava com gosto de ‘quero mais’ quando acaba.
Será que deveria experimentar?

A casa estava exatamente da maneira como na primeira vez: lotada, razoavelmente suja com copos de festa espalhados pelo chão e escadas, as peças de vidros que vi no início da semana haviam sido guardados e as geladeiras estavam repletas somente de bebidas que eram repostas por responsáveis a cada dez minutos. Gillian não me parecia muito surpresa; quando lhe perguntei se ela não estava assustada com o comportamento das pessoas e o ambiente de luxúria, ela disse que já estava acostumada da época que namorava Bob. Sumiu depois de um tempo e procurei não ficar preocupada; pelo jeito, nós não voltaríamos para Harvard essa noite.
estava rodeado de garotas, enquanto Ace se encontrava em um canto, prensando alguém na parede, alguém que não sei quem é. Kendra e Hans, para variar, dividiam uma espreguiçadeira. Tentei desviar meus olhos diversas vezes, mas o fato dos dois estarem quase tendo uma relação sexual no meio de todo mundo fazia com que fossem o centro das atenções.
- Ouvi dizer que você estaria aqui. – ouvi uma voz ao meu lado e me surpreendi ao ver Jonathan, o garoto da primeira festa, parado com um sorriso e dois copos de bebida. – Achei que não gostasse dessas festas.
- Eu não gosto, mas Ace disse que se eu quiser a amizade das pessoas, tenho que me esforçar em comparecer em algumas. – abro um pequeno sorriso, aceitando o copo com o líquido transparente. – Isso não vai me fazer vomitar ou entrar em coma, não é?
- Depende da maneira como toma. Pode ser que tenha uma leve tontura, mas é só porque está puro. Ainda não chegaram com os sacos de gelo e o que tinha já acabou.
- Tudo bem. – bebi um gole e minha garganta queimou com a vodca descendo. Eu nunca gostei muito de bebida, mas gostaria de testar a teoria da liberdade que Gillian criou. – Como anda seu novo curso?
- Bem. Achei que gostaria mais, mas é melhor do que o outro. – balançou a cabeça.
Ficamos calados, esperando que o outro dissesse algo, mas apenas nos limitamos a ficar lado a lado observando as pessoas dançarem, rirem, gritarem, espernearem ou se agarrarem nas pendências da mansão. Olhei para as residências ao lado e, como sempre, estavam vazias, aparentando estarem vazias.
- Escuta, é verdade que você está com o ?
- Como? – olhei para ele, curiosa sobre essa fofoca.
- Estão falando que você terminou com seu antigo namorado e agora está com ele.
- Pela primeira vez se importaram em fazer uma fofoca correta. – apareceu atrás de mim. Vi os olhos de Jonathan arregalarem e dar um passo para trás. – Se você me der licença, preciso da para tratar alguns assuntos pendentes. – senti sua mão em minha cintura e então, de repente, estávamos indo em direção ao elevador, direto para o terceiro andar, onde se encontrava somente o quarto de . O quarto de verdade.
Eu nunca imaginaria que uma pessoa seria rica o bastante para fazer do terceiro andar de uma mansão, um quarto com direito até a hidromassagem dentro. Aquilo ultrapassava o limite da riqueza; me senti um pouco bem dele querer investir um pouco de seu dinheiro em meus estudos, já que tenho certeza de que não conseguia usufruir tudo aquilo que estava no quarto sozinho.
- O que você estava fazendo com ele? – perguntou assim que fechou a porta atrás de mim.
- Ele só veio me servir uma bebida.
- Você sabia que quando se está com uma pessoa, não deve aceitar bebida de outra?
- Como eu saberia, nunca saí enquanto namorava... Bem. – olhei para o lado quando fui mencionar o nome de Gabriel. Ainda não consigo pensar nele. Sinto mais vergonha do que raiva, às vezes, a raiva sobrepõe a vergonha, mas as duas sempre estão presentes. não diz nada, provavelmente por achar que ainda estou sensível com o caso. É claro que estou. Contudo, o fato de tê-lo comigo e estar, hum, interessada nele faz com que a dor de ter sido enganada não fizesse tanto efeito.
- Sobre ele, acho que você deveria saber que está preso.
- Preso? – abri a boca. Ele foi espancado por uma boa causa, mas frequentar um prédio de strip e ter relações sexuais com prostitutas licenciadas não faz dele um bandido. – Por quê?
- Parece que ele e a tal Helena estavam envolvidos em alguns casos de tráfico de crianças. Não sei exatamente, mas Bruce me ligou falando que se a polícia ligar para você, era para mentir dizendo que nunca ouviu falar de nenhum dos dois.
- Ninguém me ligou.
- Eu sei. Por alguma razão eles não mencionaram você. Talvez achassem que você pudesse aumentar a punição deles com uma denúncia sobre o plano de roubo deles; o companheiro da tal de Helena assim que descobriu tudo deu um jeito de eliminar os dois. Eles estão sendo deportados de volta para o Brasil e irão sofrer punições de acordo com as leis do seu país.
- Bem, lá as leis não são tão rigorosas quanto aqui, mas tudo bem. Não me importo mais com ele.
- Mas se importa em perder tempo de papinho com Jonathan?
Olho para ele, descrente.
- Você está mesmo com ciúmes?
- É claro que estou com ciúmes. O que é meu, é meu. – seus lábios foram de encontro com meu colo, de modo que não pude deixar de fechar os olhos. Tenho arrepios quando ele roça seus lábios ali e ele pareceu já saber, porque ficou minutos perdendo tempo ali. – Você está no clima?
- Humm...
- Podemos falar sobre sexo?
- Não, é constrangedor.
- Estamos no escuro, não enxergo seu rosto e estou louco para fazer uma proposta indecente para você.
- Não irei fazer sexo em público. Nunca. Jamais.
- Eu não tenho interesse em deixar o mundo conhecer partes de seu corpo que só eu vi. – ele soltou um pequeno sorriso. – Eu já falei, você é minha, . E você pode até achar que não, mas seu corpo... Gata, você é muito mais linda do que qualquer mulher que já vi nua na vida.
- Para com isso... – pedi em um resmungo.
- Com o quê? Tentar te seduzir? – sinto uma pitada de humor em seu tom de voz.
- Sim! E de me chamar de “gata”.
- E por quê? Você é uma gata.
- Não, sou humana, agora pare. – tentei me levantar da cama, mas pude ver seu sorriso torto de quem estava gostando da situação. Brincar com garotas era uma diversão, claro que ele não poderia deixar de ser... Ele.
- Você prefere ficar aqui comigo ou lá fora com todo mundo?
- Gillian precisa...
- Gata, ela deve estar fazendo exatamente o que eu estou tentando te convencer a fazermos.
- Não, não está. E pare de me chamar de gata! - com uma força que retirei não sei de onde, empurrei para longe.
- , você não pode simplesmente me provocar vindo com um short desse tamanho e querer que eu fique parado.
- E você não pode me chamar de apelidos que usava com as garotas de programa com quem tinha relações!
- Ah... Então o problema dela é com minhas ex’s? – ouço mais uma vez seu tom de riso, me deixando ainda mais nervosa. Eu não gosto desses joguinhos, não me sinto mais... Excitada em vê-lo tentar me fazer perder a cabeça. – Você tem ciúmes.
- Eu não tenho ciúmes de você, eu só não quero ser chamada por nomes que garotas de programa são chamadas.
- Isso me parece preconceituoso. – ele suspira, me calando. De fato, meu comentário foi bastante preconceituoso, mas não consigo deixar que ele descubra que sua suposição é verdadeira. Eu não quero que ele se lembre de ninguém com quem já transou enquanto está comigo.
- E mais, ainda não superei Gabriel completamente, então gostaria que você respeitasse meus sentimentos.
- - seu tom de voz me fez entender que ele estava me chamando por meu nome propositalmente ao invés de me chamar de “gata”. -, qualquer coisa que envolva aquele imbecil não é digno do meu respeito.
- Mas são meus sentimentos.
- Ainda mais os seus sentimentos. – sem ter tempo de reagir à sua ação, ele estava com seu rosto muito próximo ao meu. Conseguia enxergar seus olhos mesmo na escuridão, por causa da luz lunar que entrava por causa da janela aberta. Sua expressão não me parecia de alguém que estava fazendo brincadeiras; dessa vez ele estava falando sério. – Eu sou a única pessoa por quem você deve ter sentimentos. Sejam eles bons ou ruins, tudo o que você sente deve pertencer somente à mim.
Sinto seu hálito de álcool. Aperto os lábios, mais feliz do que nervosa por vê-lo tão manipulador. Desde quando Gabriel saiu de minha vida no início da semana, tem sido mais possessivo sobre mim. No início, achei que não iria gostar, porque sempre ouvi garotas reclamarem de namorados que não as deixam sair com amigas ou amigos, até mesmo sair de casa para ir até o supermercado. No entanto, o estilo de posse de não era tão exagerado e obsessivo, ele apenas gosta que eu lhe dê atenção. Quando eu, Gillian e Kendra sentamos no restaurante oriental que Kendra me levou em nossa primeira refeição sincera, falamos sobre meu desapego a Gabriel. Antes minha dúvida era relacionada à confusão dos amores que sentia por e por Gabriel, assim que soube da farsa, vi que o amor que eu sentia por Gabriel sumiu assim que deixei o Brasil. Na verdade, desconfio que apenas senti uma paixão por alguém apresentável e carinhoso que foi uma das únicas pessoas a expor seus sentimentos para mim – mesmo eles sendo falsos. Durante nossa conversa, Kendra falou que , na verdade, quer que eu fale dele como falava para si de Gabriel no início de nossa relação chefe-funcionário. Quando disse que não me lembrava de como eu falava, ela falou que ele enxergava a mim falando com um brilho no olhar, como se tivesse orgulho de namorar um homem como Gabriel; contudo, no ponto de vista de Kendra, eu parecia um robô colocado no automático para falar que possui um namorado. Não soube muito bem como reagir, porque não sei o tipo de relação que eu e temos. Durante a semana que se passou, porque eu estive em casa me recompondo da situação de Gabriel, e eu apenas nos encontramos para jantar, quando ele me levava a restaurantes com comidas no qual descobri sentir muita falta. No começo, ainda comparava Gabriel com , como lembrar que Gabriel nunca me levou para jantar fora, nós sempre ficávamos no shopping em algum bar nas redondezas do apartamento onde eu morava; depois de um tempo, vi que a comparação não era para , mas sim Gabriel. Comparava, porque Gabriel nunca teve nenhuma iniciativa que teve até então. Jantares, caronas, apresentações de dança, um novo hobby.
Encaro seus olhos enxergando o azul agora bem escuro. Estava com uma ligeira falta de ar, me causava várias sensações esquisitas e pouco saudáveis. Formigamentos no estômago, falta de ar, desatenção, paralisação... Ansiedade. Assim que cheguei à conclusão que eu nunca senti falta de Gabriel, apenas mantive uma responsabilidade porque estava em um relacionamento com ele, não me saía da cabeça. Todos os dias da semana até hoje acordo com ele em minha mente. Me pergunto onde está, se já acordou, se tomou seu café, se está trabalhando seguro em seu escritório, e de preferência sem xavecar alguma aluna. Agora, olhando em seus olhos, hipnotizada como todas as vezes que me deparo com essas duas circunferências , finalmente entendo o que todas aquelas personagens dos filmes que assisti sentiam quando estavam prestes a se declarar.
- Eu... – começo a falar. Desisto. Não tenho coragem. Não posso tomar essa iniciativa.
- O quê? – droga. O que posso dizer? “Eu gosto de seus olhos?”; “Eu te adoro?” De acordo com os filmes, isso estragaria tudo.
Em minha memória, começo a recordar todas as cenas de todos os filmes de romance que assisti nos últimos anos. Não foram muitos, mas algum deles, pelo menos um deve servir de referência para o que fazer agora.
Já sei.
Fechei meus olhos e me inclinei, grudando meus lábios nos seus. Pode ser que seja porque é a primeira vez que tomo uma iniciativa de um beijo, não tentou saber o que eu iria falar; apenas senti seus braços enlaçarem minha cintura enquanto me inclinava em direção à cama.
Mesmo com os olhos fechados, não pude deixar de apagar o que vi em seus olhos .
Eu.

Capítulo 13

- Baixinha, acho melhor você correr! – Ace apareceu em minha frente duas semanas depois da festa na casa de . O exame final havia passado e a próxima seria a última semana de aula antes da pausa para o feriado de festividades. Seria também o final de semana de apresentação da abertura do novo estúdio. Estava quase tudo pronto, o som era testado todos os dias, a iluminação estava para ser finalizada entre hoje e amanhã e então teríamos dois dias corridos para acabar com a decoração do palco. , como sempre, estava tranquilo, esperando que tudo ocorresse da maneira que ele planejou desde o início.
Olhei para Ace em uma mistura de assustada com confusa. O que ele fazia no andar dos dormitórios femininos, eu não sei, mas o que mais me surpreendeu foi o fato dele estar na frente da porta do meu quarto e de Kendra ao invés de outra garota com quem poderia estar em um relacionamento aberto. Por ser quinta-feira, a sala S estava com uma janela – que geralmente usávamos para fazer uma revisão da semana ou adiantar alguma matéria que achássemos interessante em comum -, então saíamos sem pressa e depois de todos os alunos, ao invés de antes como sempre fazemos.
- Por quê? – apresso os passos ao vê-lo se por atrás de mim e me empurrar para agilizar minha velocidade. – Hoje minha aula começa às nove. Preciso tomar café da manhã ainda. – olho para meu relógio de pulso e vejo o ponteiro menor na casa dos sete e o maior, do trinta.
- O que tenho para te mostrar é muito mais importante do que sua alimentação, baixinha. – a voz dele era preocupada, o que me fez compreender que era uma urgência e não insistir mais em ser uma lerda à sua frente.
Assim que saímos do prédio dos dormitórios, olhei para o lado para saber se estava acontecendo algo de anormal no campus, mas não vi nada diferente do usual. Mesmo assim, Ace parecia apressado e ansioso; o fato dele estar calado e não iniciar nenhum diálogo me fazia sentir ainda mais nervosa com o que ele teria para me mostrar.
Enfim chegamos ao prédio onde o curso de Direito toma lugar e então pude perceber a tal anormalidade. O corredor da entrada estava lotado de alunos conversando, alguns rindo, outros parecendo desapontados.
- Ah, até que enfim! O que você ficou fazendo ontem para acordar esse horário? – Kendra surgiu do meio da multidão com os cabelos desarrumados, como sempre, e a roupa do dia anterior. Ela deve ter passado a noite com Hans. – Vem. – pegou em minha mão e, com a ajuda de Ace, empurraram os alunos que tentavam chegar aonde os dois queriam me levar.
De repente, a multidão pareceu ter se dissipado, mas foi somente o fato de eu estar na fileira dos alunos da sala S em frente ao quadro de avisos.
- Parabéns, . – ouvi a voz de Gabriel. Identifiquei um sinal de amargura, mas não o respondi, já que não sabia a razão de seu mau humor em plena quinta-feira. – Parece que você finalmente conseguiu.
- Consegui o quê? – olhei em direção ao quadro, vendo Gillian à frente com um pequeno sorriso no rosto.
- Acho melhor ver por você mesma. – apontou para o quadro.
Gabriel saiu da minha frente com Anthony. Os dois não pareciam felizes e foi somente quando observei o título “COLOCAÇÃO FINAL – EXAME AVALIATÓRIO” que me lembrei que hoje era o dia que os resultados da colocação mensal aconteceria. Rapidamente meus olhos desceram para a quarta colocação, em que estou acostumada a estar desde o final do ano retrasado e vi o nome de Gabriel no lugar. Arregalei meus olhos, assustada com o fato de estar em uma posição ainda pior, mas era claro que eu não estava. Não com o comportamento que Gabriel teve agora à pouco. Meus olhos então subiram até o topo da folha, onde, surpreendentemente e inacreditavelmente, meu nome estava no lugar do de Gillian. - Uma salva de palmas para a baixinha ali que finalmente conseguiu ser a melhor aluna dessa universidade! – ouvi a voz de Ace berrar e todos os alunos que faziam parte do estúdio e dos eventos dele gritarem junto.
Olhei para baixo, atordoada. Primeiro lugar. Como eu poderia ter conseguido pular do quarto para primeiro, quando estive estudando condenadamente durante os últimos dois anos? Pode ser que seja Gillian. Ela me ajudou a estudar nos últimos dias, mas não poderia ter sido o suficiente para subir três colocações. Além do mais, todo conteúdo que estudamos foi algo que eu já possuo conhecimento. Admito que achava que pelo menos manteria minha colocação.
- Senhorita . – ouço a conhecida voz de nosso reitor ao meu lado. Virei para encará-lo e dei-me de cara com um sorriso orgulhoso. – Não compreendo a expressão surpresa em seu rosto, você mereceu sua colocação.
- Mereci? – olhei para o corpo docente atrás dele, que mantinham sorrisos estampados em seu rosto. – Bem... Hum... Obrigada.
- Acreditávamos que o nível de dificuldade deste exame estava alto o suficiente para incentivar um esforço maior de todos os nossos alunos e aqueles que pretendem ingressar em nossa universidade no próximo semestre. Contudo, creio que devamos reavaliar nossas questões, já que a senhorita nos deu o prazer de gabaritar todo o teste.
Abri a boca. Eu gabaritei. Não que fosse incomum eu gabaritar algo, mas estamos falando do exame de avaliação. Aquele exame em que todos os milhares de alunos de direito desta universidade fazem e dedicam a vida estudando durante semanas para conseguirem uma boa colocação.
- Esperamos que continue se tornando um grande desafio para seus colegas de sala. – apontou para as pessoas atrás de mim que permaneciam parados e calados no espaço especial para os alunos da sala S. – Chegar ao topo é muito fácil, já que sempre temos alguém para usar de parâmetro; entretanto, agora não há mais ninguém acima da senhorita, o que significa que o único movimento que poderá ter nessa colocação, é se tornar inferior ao que já é.
- Me esforçarei para que não aconteça. – rapidamente digo, expressando meu desejo. Vi a satisfação com minha pequena resposta e então um aperto de mão forte, mostrando que ele estava confiante de que eu não o decepcionaria.
Assim que demos as costas, pude observar os alunos da sala S parados com suas expressões nulas de sempre. Gillian era a única que parecia feliz por mim.
- Parabéns. – ela falou.
- Desculpe. – murmurei. Assim que vi seu nome em segundo lugar, me perguntei se era certo tirar-lhe a posição. Eu estaria bem em segundo ou terceiro; além do mais, Gillian não está se preparando para pagar uma mensalidade e pelo que sei, ela não tem condições de pagar o último ano, assim como eu. Talvez eu devesse dar o dinheiro que consegui para ela. Ou na avaliação de Janeiro deixar-me cair uma colocação. Sessenta por cento de desconto é um bom desconto para quem está se preparando para pagar os cem por cento.
- Não se desculpe, você mereceu. Gabaritou. É o justo. Tudo o que temos fazer agora é estudarmos mais para tentarmos voltar às nossas colocações. – sei que ela falou isso mais para Gabriel e Anthony, que estavam em terceiro e segundo lugar. Gabriel parecia mais nervoso que Anthony, já que ele naturalmente é uma pessoa inteligente.
- Como você conseguiu gabaritar a questão setenta e quatro? – perguntou, um tanto rancoroso. Ele não gostava quando alguém passava-lhe à frente. Estava acostumado com Anthony e Gillian, inclusive, tinha mais contato com os dois do que qualquer outra pessoa da universidade e assim foi durante todos estes anos. Compreendo que ter alguém ultrapassando a si um ano antes do final do curso não era o que ele esperava de estabilidade.
- A resposta era praticamente idêntica com o que o professor Clint passou em uma de suas aulas revisionais na semana anterior à prova. – falei, descrente que ele não conseguisse ter feito a relação.
- É verdade. – Anthony concordou. – Parabéns, . Vejo que você, além de ter conseguido realizar uma proeza que praticamente ninguém conseguiu, ainda tem o respeito dos alunos ordinários.
- Sabe, S, eu não gosto dessa palavra e faço parte de uma das salas ‘ordinárias’. – Ace falou, parado próximo à faixa que indicava que alunos que não eram da sala S não poderiam entrar. – Se você não teve a intenção de nos ofender, não irei me importar, mas como tem a terceira colocação da universidade, seria melhor você escolher as palavras com mais cautela.
- Hey – ouvi a voz de Kendra aparecer atrás de Ace e lhe apertar a orelha. -, foi a quem ganhou o primeiro lugar, não você, então abaixa esse seu ego antes que consiga estragar o pouco contato que ela tem com os colegas de sala dela. – ignorou os resmungos de dor e reclamação de Ace. – Desculpa aí, Narlow, esse cara acha que só porque é negro tem crédito com as pessoas devido a cota racial. Nos vemos no horário de saída, .
- Tudo bem. – falei, durante a saída dos dois e o resto da turma para suas salas de aula. – Obrigada pelas palavras, Anthony. – me virei para ele, que ainda não acreditava que um aluno da sala E falou com ele com tanta falta de respeito. Alguns alunos da sala S estão acostumados a serem tratados como algum tipo de ser sobrenatural divino; às vezes acho engraçado, outras vezes, irritante. O fato deles se comportarem assim faz com que o resto de nós ‘normais’ recebamos uma fama parecida.
Me retirei com Gillian para tomarmos um rápido café da manhã, já que toda essa agitação nos custou 40 minutos.
- Como fará para custear o último ano?
- Não será tão difícil. – ela sorri, indicando que não falaria nada mais que isso. Decidi não insistir, já que não costumo gostar de me intrometer nos assuntos pessoais das pessoas, muito menos quando elas são tão explícitas em suas preferências. Posso arranjar outra maneira de tentar abordar o assunto com ela sobre eu lhe dar o meu dinheiro.
- Ainda não consigo acreditar que ultrapassei vocês. Sem ofensas.
- Bem. Não quero fazê-la se sentir mal, mas este foi um mês muito atípico para o TOP5 da sala S. – Kendra surgiu com uma bandeja de café da manhã. Deveria estar em aula, mas já não me surpreendo mais com o fato dela pular horários apenas pelo prazer de não estudar. Assim que se sentou na mesa redonda que eu e Gillian estávamos ocupando, arrastou uma cadeira da mesa vazia ao lado para apoiar os pés e pegar o pote de yogurt para tomá-lo. – Gabriel está no início de um suposto relacionamento com uma garota da sala A. Lembram de Kim Lowner?
Kim Lowner é uma garota da sala A que sonha desde sempre em estar na S, mas nunca conseguiu sair da décima sétima colocação. Ela é filha de um casal que possui uma advocacia renomada aqui na cidade e por isso consegue entrar em vários eventos que somente alunos da sala S poderiam entrar. Contudo, o fato de o título de ‘S’ trazer mais privilégios para ela, acabou-se espalhando o boato na faculdade que ela apenas estuda porque não conseguiu seguir a carreira de modelo por ser “gorda” demais. Kim possui apenas um quadril mais avantajado, mas é mais magra do que Gillian, que pesa menos de 55kg.
- Não é uma surpresa. – Gilian comentou, comendo seu cereal. – Haviam me dito para tomar cuidado, porque Lowner estava planejando algo para entrar na S até o final deste ano. Achei que fosse me atacar diretamente, não a Gabriel.
- Os homens tem uma facilidade para serem enganados. – Kendra sorri. – Eles se mostram todos inteligentes e sem interesse em garotas que não possuem nada senão capa, mas na verdade, não resistem a um bom charme e um bom corpo. Já Anthony Narlow nunca fez questão de estar na sala S. – isso era verdade. Anthony deve ser algum gênio que está fazendo faculdade somente porque quer ter um bom futuro em sua carreira, e também porque para advogar é necessário possuir um diploma. – Ele começou a modelar.
- Modelar? – eu e Gillian perguntamos.
- Não sejam assim. Eu nunca diria que você dançava bem – apontou para mim, que encostei em minha cadeira, sem graça. -, e que você fosse a ex-namorada-de-Bob-por-quem-ele-ainda-é-apaixonado. – apontou para Gillian, que fechou a boca. – Além do mais, Anthony é alto e tem esse ar latino que só me lembro de ver em Antonio Banderas ou o Gael García. – roubou um pedaço de meu sanduíche que estava sobrando. – E nossa ex-primeiro lugar – apontou para Gillian -, está ocupada demais reatando com Bob.
Olhei para Gillian surpresa e ela mesmo parecia se surpreender com o fato de que Kendra tinha conhecimento de sua vida.
- Vocês voltaram?
- Mais ou menos... – Gillian murmurou.
- Uh... Isso faz você parecer ainda mais safada, Gillian. – Kendra sorriu, se divertindo com a situação. – Devo dividir com a a cena que presenciei no carro do Ace no dia da festa na casa do ?
Olhei para Gillian, que corou tão rápido quanto as aulas de leis tributárias. Era claro que eu não perguntaria nada, mas estou louca para saber o que era. Nunca havia visto esta expressão no rosto da garota mais inteligente de Harvard antes.
- Parece que ela tem uma vida sexual mais ativa que a sua, . Isso porque eles voltaram a se ver faz apenas um mês.
- N-não é bem assim! – Gillian levantou as mãos. A situação toda me parecia nova, já que nunca a presenciei perder alguma discussão. Abri a boca para demonstrar meu choque sobre o andamento do reatamento de Bob e Gillian. Será que eles eram como Hans e Kendra antes de entrarem em Harvard? – Nós apenas, hum, foi de momento.
- Não se transa com um ex dentro de um carro por “coisa do momento”, Gillian. Eu sei que você ainda tem sentimentos por ele e não a julgo, nem aponto que é errado. Se quer saber mesmo, nunca achei que você combinava com a sala S. – ela apontou com a colher para Gillian. Olhei para ela com um resquício de ofensa; por que Gillian não combina com a sala S e eu sim? Se me recordo, a fama da sala S para os alunos das salas C para baixo não é muito boa. – Geralmente garotas nerds não são bonitas.
- Quer dizer que sou feia? – não pude evitar perguntar. Gillian soltou um risinho ao ver a expressão de Kendra ao ter sido pega de surpresa.
- É claro que não, sua boba! – me deu um tapa no braço. – Estamos falando de Gill aqui, não quer dizer que eu ache que você é diferente. Para dizer a verdade, ultimamente temos andado tanto juntas que até me esqueço que você, de fato, continua sendo a S com quem convivi os dois primeiros anos e meio no dormitório.
Balancei a cabeça, concordando com ela. Eu também não a via mais como a garota inconsequente que não se preocupa com as leis ou regras da universidade. Antes, nós mal nos víamos e quando acontecia, eu sempre tinha o dever de acudi-la e cuidar de seu mal-estar. Agora, continuo cuidando dela quando chega bêbada das festas, mas pelo menos ela me ouve quando peço para se mexer e não briga comigo quando ligo o chuveiro com água fria em sua cabeça.
- O que eu queria dizer com meu comentário pouco estruturado para duas S’s, é que parece que o mundo finalmente está girando da maneira correta e as pessoas já não se sentem obcecadas por serem as mais inteligentes do mundo.
- Para o ponto de vista ético, isso está completamente errado. – Gillian diz e eu concordo. – O ser humano deve estar em constante evolução, não pausar sua vida com atividades que não irão agregar nada em suas vidas.
- E quem disse que ir em festas não significa agregar algo em suas vidas? Você se sentiu muito bem com um orgasmo de Bob, ou não teria passado a noite inteira dentro daquele carro abafado. – abri um pequeno sorriso ao ver Gillian voltar a corar. – Estamos falando de memórias. Quando você estiver lá na frente, velha e com a pele flácida, olhará para trás e ficará feliz de ter transado em um carro com o cara que gosta ao invés de estar em uma cadeira desconfortável olhando para um livro de legislação ou ética. Você pode estar pensando em seu futuro quando estuda, mas não se preocupa com o passado que terá quando estiver lá na frente.
Eu e Gillian nos entreolhamos. Kendra tinha um ponto que descartou qualquer possibilidade de argumentação de mim ou Gillian. Pela primeira vez, uma aluna da sala E deixou duas alunas da sala S de mãos atadas de uma vez só.

- Achei que você não viesse mais essa semana. – senti os braços de enlaçarem minha cintura. Com o susto, tentei me desvencilhar, mas ele já não caía mais nessa reação. Sempre que ele me deixava ir, eu fugia para que ele não fizesse isso de novo. Depois de um tempo ele aprendeu a me prender com firmeza, de modo que não conseguia me soltar. – Ficou com saudades de mim?
- Também, mas isso está em segundo lugar. – faço o número dois com o dedo, vendo seu sorriso sair dos lábios e uma de suas sobrancelhas levantar. – Temos de terminar de recortar as fichas do Roof para o caixa. Será péssimo se chegar um momento em que as pessoas quiserem comprar coisas para comer e beber e não tiver fichas.
- Você pode fazer isso em qualquer lugar. – olhei para o lado ao sentir seu nariz encostar em meu dorso. Não me sinto confortável quando ele tenta fazer algum tipo de contato físico amoroso em público. Mesmo a maioria das pessoas do estúdio agora tendo um respeito maior por mim e me considerando mais parte do grupo deles, ainda há garotas que não simpatizam comigo por causa de .
- Não posso, não. – retruco. – Na universidade devo estudar e em qualquer outro lugar que não seja aqui ou lá, você está me arrastando para algum lugar. Como posso trabalhar? Isso é antiético e você é o chefe que deveria estar dando exemplo. - Eu nunca fui um exemplo de bom exemplo. – ele sorriu, seu rosto muito próximo ao meu. – Falando em universidade, fiquei sabendo que você é oficialmente a pessoa mais inteligente de Harvard.
Não pude deixar de abrir um pequeno sorriso, ainda tentando conter minha satisfação. Eu realmente sou uma das pessoas mais inteligentes de Harvard. O curso de Direito é um dos mais difíceis de ser aceito e estar em primeiro lugar no quadro de honra é um feito muito importante.
- Você sabia que Harvard é a melhor universidade do mundo? – se moveu, ficando de frente para mim, mas não desfez o laço ao redor de minha cintura com seus braços.
Olhei para ele com uma expressão óbvia. É claro que eu sei que Harvard é a melhor universidade do mundo. Como eu poderia não saber? Confiro mensalmente a avaliação que as entidades educacionais fazem sobre as universidades ao redor do mundo.
- Isso quer dizer que você é uma das melhores estudantes do mundo.
Oh-oh. Ele tem razão.
Mordo o lábio e olho para o lado, alegre com a novidade. Fico imaginando o tanto de sucesso que terei no futuro e acabo me desligando de todo o resto.
- Você fica muito sexy com essa expressão. – sussurra em meu ouvido, tirando-me de meu transe e me fazendo, mais uma vez, tentar me desvencilhar de seus braços. – Vamos para minha sala.
- De jeito nenhum! – empurro ele com toda força que tinha, de modo que ele não pode continuar me forçando a ficar grudada a ele. – Nós não vamos fazer isso aqui.
- Qual problema? Minha cadeira é a mais confortável deste estúdio. – ele segurou em minha mão e começou a me puxar em direção às escadas, mas me soltei rapidamente.
- Não! – olho para os lados e justamente agora não há ninguém ao redor para me socorrer. – Eu só faço, hum, de noite!
- Já são quase seis, , se eu fechar as cortinas, será como se estivesse de noite. – ele sorri, querendo dar de esperto para cima de mim.
- Mas não há uma cama lá! – tento um novo argumento, vendo-o não me responder de imediato. A-há. O peguei. – Eu não gosto de, hum, desconforto. É isso. Não gosto de desconforto. Deixa para outra hora, . – começo a me afastar dele com pressa e ouço sua risada com o som de sua voz ecoando no hall de entrada:
- Você não pode fugir por muito tempo, ! – fecho os olhos, envergonhada ao ver um grupo de alunos sair do anfiteatro e olharem para mim curiosos.

Gillian estava comigo em meu quarto estudando para os exames finais que aconteceriam na próxima semana. O nível de dificuldade deles eram a metade do exame de avaliação que fazíamos, pois eles não tinham a intenção de melhorar o nível da universidade, mas sim comprovar que os alunos entenderam o conteúdo que estudaram durante o semestre. Por já saber de tudo decorado devido à minha habilidade de memória fotográfica, estava entediada. Gillian não era diferente de mim. Estávamos seguras que nossas notas se manteriam as melhores da nossa turma e que não precisávamos realmente de uma revisão para garantir.
- Agora entendo por que você não estuda em vésperas. – digo, espreguiçando meu corpo na cadeira. Ela abre um sorriso e faz o mesmo, deixando a lapiseira de lado. Estava sentada na cadeira de Kendra, porque esta não tem o costume de estudar antes da prova e prefere ficar no estúdio treinando incessantemente a dança da performance que fará no próximo final de semana. O caderno de revisão das matérias dela já estavam prontos, dessa vez Gillian se responsabilizou por fazer metade, então gastei a metade do tempo para finalizar.
Este era um dos primeiros sábados desde quando comecei a trabalhar que não havia festa ou eventos do estúdio para ir. Todos estavam muito ocupados em treinar até seus pés doerem e o ar lhes faltar para a semana que vem. comentou ontem em uma reunião com todos os dançarinos e envolvidos no evento, que pessoas importantes virão para assistir às apresentações e que é possível que alguns alunos consigam bolsas em cursos renomados no país com eles. Devido a esse fator, todos sentiram ainda mais o peso da responsabilidade em realizar uma boa apresentação. Me identifiquei um pouco com a determinação de todos os alunos, de quando eu estudava no Brasil ou no tempo em que estive aqui e não trabalhava. Agora, depois que aprendi a perder o interesse excessivo em ser a melhor – irônico finalmente ser depois que desencanei -, em um momento tedioso como este, sinto que algo está faltando.
- Você quer jantar fora? – ouço a voz de Gillian.
- Podemos ir naquele restaurante vegetariano que há no centro? – rapidamente sinto minha energia voltar e a vontade de sair e respirar um ar que não seja todas as matérias que já estou cansada de ler.
- Claro. – ela pega a bolsa e arruma o material em cima da minha mesa, deixando tudo organizado como eu antes de sairmos.
Assim que abri a porta, não pude dar um passo a mais, já que e Bob estavam parados à frente com os braços cruzados. Olhei para os lados para ver se algum inspetor passava; eles raramente passavam, porque já sabiam que vários garotos vinham à ala feminina e vice-versa, contudo, às vezes a direção os obrigava a realizar uma ronda apenas à procura de drogas ou álcool nas pendências. Geralmente, nessa ronda, os garotos pegos no quarto de garotas recebiam uma advertência e punição, como estudar as aulas extras de sábado. Quem não se importa em receber tais punições nunca comentem este tipo de gafe.
Até agora.
- Então quer dizer que enquanto estamos pensando que vocês estão estudando, na verdade, ficam conversando e decidem sair para jantar sozinhas? – passou por mim, assim como Bob, entrando no meu quarto. – Imaginava que ele fosse maior, você divide mesmo com Kendra?
Não me dei ao trabalho de responder, porque a pergunta foi muito desnecessária. Olhei para Gillian, que olhava sem graça para Bob, que agora fechava a porta atrás de si.
- Vocês não deveriam estar aqui. – comentei.
- Relaxa – Bob disse. -, os inspetores estão no campus B e hoje não é dia de ronda. – suspirei, desistindo de tentar tirá-los do quarto. – Vocês não estavam estudando? – olhou para minha mesa, onde todos os nossos cadernos de anotações e apostilas pessoais estavam fechados.
- Nós estávamos, sim! – reclamei, ofendida. – Só acabamos de estudar tudo e... ! – corro até o armário, onde ele abriu a porta para olhar minha gaveta de lingeries.
- Estava apenas me certificando que aquela foto da Kendra não era montagem. Não é frequente hoje em dia encontrar alguém que separe as roupas íntimas por cores em degrade. – se retirou de perto do armário assim que gritei seu nome. – É bastante perceptível o seu lado do quarto e o da Kendra. – se pôs no meio do quarto e olhou para a cama de Kendra desarrumada e repleta de roupas amassadas e toalhas úmidas, e a minha, arrumada e sem nada senão uma almofada que havia ganho do meu ex.
Estou em uma fase de superação de Gabriel. Não que seja necessário ou que eu precisasse me esforçar em esquecê-lo. Eu apenas acho que agora seu nome se tornou um carma ruim para mim. Quando penso nele e em seu nome, algo de ruim acontece comigo e não posso me dar ao luxo de permitir que minha vida piore. Suspiro e vejo Gillian e Bob parados à porta.
- E então – Bob olhou para nós duas. -, onde iremos jantar?

Todas as vezes que ouvi minhas colegas do Brasil falar sobre seus encontros de sábado à noite, imaginava algo como nos filmes. O homem aguarda a mulher no restaurante ou a busca de carro em sua casa. Então ele abre a porta do carro para ela e eles têm um jantar muito agradável, em que falam sobre programações do futuro, o que fazem atualmente e quais pontos têm em comum. Em seguida, passeiam a pé de mãos dadas até um parque onde veem quão felizes são juntos; ele a beija e lhe dá o casaco ou cashmere para evitar que ela pegue uma gripe. Ele a leva de volta para casa e os dois pensam mais uma vez no outro antes de adormecer.
Sempre esperei, durante toda a época de meu relacionamento com meu ex, que pelo menos uma vez tivéssemos uma programação como essa. No entanto, ele sempre foi muito econômico e sempre tínhamos de ir até o shopping para comer alguma comida rápida. Agora, com , não tive tempo de pensar em algo assim. Nossa primeira vez em Ibiza chegou perto, com a exceção de que nos encontramos em uma festa de orgias.
- Você realmente quer comer comida vegetariana? – me pergunta mais uma vez antes de chegarmos ao centro. Eu sabia que ele não queria comer esse tipo de alimento, mas é o preço que tem de pagar por ter atrapalhado minha programação e de Gillian. Viro meu rosto, mostrando quão aborrecida estou por ter de responder pela quarta vez que ‘sim’, eu quero comer comida vegetariana. – Tudo bem, tudo bem. Vamos neste restaurante.
Eu e Gillian estávamos confortáveis lendo o menu, ao contrário de e Bob que faziam comentários desagradáveis sobre o que poderiam comer que saciasse suas fomes.
- Se vocês não querem comer aqui, têm a total liberdade de ir à lanchonete na rua de trás. – Gillian, aborrecida, disse. Eu estranharia seu comportamento impaciente se não tivesse feito tantas aulas práticas argumentando contra ela. – Mas se quiserem ficar aqui, nós exigimos um pouco de respeito.
Bob rapidamente se desculpou, dizendo que comeria o que ela pedisse para ele. Fiquei olhando para , que limpou a garganta e voltou a olhar para o cardápio calado. Abri um pequeno sorriso, achando graça de seu momento embaraçoso. Mesmo não dizendo, sabia que ele queria se desculpar, mas era orgulhoso demais para pronunciar.
No jantar, conversamos sobre a apresentação que estava para vir. falou quem influente de sua lista de contatos viria para assistir a seus alunos e o que esperava do dia.
- Estou estranhando muito não ter acontecido nada de errado até agora. – disse. – Pode ser que vá acontecer somente no dia da apresentação.
- Isso é porque você não está acompanhando a organização. – falei, dando um gole em meu suco. – Não se preocupe, já aconteceram várias coisas de errado para compensar o dia da apresentação. Não dará nada errado.
- É verdade – Bob concordou. -, deu tanta coisa errado que só de corrigir, já chegamos à perfeição.
olhou para nós dois, como se fossemos cúmplices de uma cena de assassinato, mas então deixou o que quer que estivesse passando em sua mente de lado. Depois do jantar, não fomos caminhar como em minha imaginação; deixou todos nós na universidade, mas não me deixou sair quando fiz menção.
- Agora é hora dos casais. – ele colocou a mão na trava do meu cinto de segurança. Olhei para fora e Gillian tentava olhar para trás, mas Bob havia passado um braço ao redor do pescoço dela em um modo de me intimar a não chegar perto dos dois. Enquanto eles se afastavam, observei alguns alunos apontarem para os dois; vi que eles realmente pareciam um casal caminhando juntos.
Me distraí por tanto tempo com Gillian e Bob que não tive tempo de protestar a sobre ir embora. Não reclamei em seguida porque sabia que não tinha nada para fazer quando chegasse no quarto. Me mantive calada observando o caminho que ele fazia, esperando que ele fosse para a casa dele, mas não foi o que aconteceu.
- Aonde estamos indo? – perguntei.
- Passear. – foi sua resposta.
Pensei por alguns minutos qual lugar estaria aberto para realizarmos um passeio. Talvez fosse um encontro? Mesmo tendo jantado em casais, não seria exatamente como se não pudesse considerar a partir de agora um encontro, certo?
pegou a rodovia até a autoestrada. Olhei para ele, mas pela sua expressão, parecia saber exatamente o lugar que devemos ir, assim, para não parecer inoportuna, continuei ouvindo o som da música pop que passava na rádio. Ficamos na estrada por uma hora e meia, às vezes falando algo, outras calados observando a paisagem no escuro. Sem perceber, adormeci durante uma música do Coldplay antiga; no meio de todas as músicas desconhecidas, fiquei tão alegre de ouvir uma que conhecia que acabei deixando-me levar pela batida tranquilizante dela.
- Está na hora de levantar, querida. – o ouvi sussurrar ao meu lado, me despertando calmamente. Olhei para os lados e limpei a remela dos olhos por ter dormido por muito tempo. Vi as horas em meu relógio e duas horas haviam passado desde quando saímos da cidade.
- Onde estamos? – perguntei, vendo outros carros parados por ali.
- É um local para casais namorarem. – ele sorriu e vi que estava preparado. Carregava uma sacola de tecido grande e uma bagfreezer bem lacrada. Segurou as duas em uma só mão e com a outra livre, trancou o carro e em seguida pegou em minha mão para caminharmos juntos.
De acordo que chegávamos mais perto do destino final, fui compreendendo o tipo do lugar que estávamos. me trouxe em um desses cinemas ao ar livre, onde as pessoas vêm para se sentar no chão, fazer um picnic à luz da lua e aproveitar um tempo juntos.
Para ser sincera, me senti um pouco sem graça. Isso me soa muito mais romântico do que um simples encontro de jantar. definitivamente sabe como continuar conquistando uma pessoa por quem já é apaixonada por ele.

Capítulo 14

Acordei com o aroma de panquecas pré-assadas na frigideira de teflon de . Abri um olho para que ele se acostumasse com a claridade e assim pudesse abrir o outro; por eles, vi a porta do quarto de entreaberta e o som das tralhas de cozinha sendo utilizadas no andar de baixo.
Espreguicei meu corpo, tentando unir coragem e força para me levantar, mas a cama de me lembrava a minha do Brasil: enorme, macia e repleta de travesseiros, além do edredom de plumas que tornava minha vida muito mais confortável ao acordar. Havia me esquecido quão privilegiado é a vida de alguém que dorme em uma cama dessas. A faculdade, por mais prestigiada que fosse, não oferece boas camas como essa; com exceção da primeira colocação, o que quer dizer que além de não precisar pagar o próximo mês, poderei ganhar uma ótima cama para até o fim do curso. Uma grande vantagem para quem já chegou um dia ao primeiro lugar de Harvard.
Suspirei, ainda me sentindo exausta. Meu corpo estava nu, mas já não me sentia apressada em colocar uma roupa para fugir dos olhos de . Era a terceira ou quarta vez que fizemos, não poderia mostrar que ainda me sentia desconfortável perto dele, poderia correr o risco de ofendê-lo. Ainda assim, coloquei minha lingerie e fui para o banheiro tomar uma ducha para renovar meu corpo preguiçoso. Gastei um bom tempo debaixo do chuveiro; mesmo a água gelada, meu corpo parecia não querer se mexer nem para pegar o shampoo a poucos centímetros de distância de meus dedos.
Senti, repentinamente, um par de braços rodear meu corpo e os lábios de depositarem-se em meu ombro direito.
- Vim chamá-la para comer, mas você deixou a porta do banheiro aberta. Isso é um sinal de que quer companhia.
- Na verdade, eu apenas estou com preguiça demais para fazer qualquer coisa senão ficar em baixo do chuveiro. – murmuro, vendo nossos pés e a água escorrer por nossas pernas.
- Quer que eu faça todo o trabalho?
- Não sou uma criança, apenas estou com preguiça. – me movimento, afastando seu corpo do meu. Me sinto um pouco constrangida quando estou nua na frente dele e o ambiente está claro. Ele pode ver demais. – Gostaria de fazer tudo sozinha, se não se importar.
- Ah, mas eu me importo, sim. – ele dá um passo para frente, encostando minhas costas na parede. – Você sabe o que acontece com casais que tomam banho juntos.
- Bem, isso é clichê. – coloco minhas mãos em seu peitoral, tentando afastá-lo, mas ele é muito mais forte que eu. – É sério. Quero comer, estou com fome.
- Você pode comer o que quiser depois do banho. Mas só depois do banho. – vejo seu sorriso maroto e suas mãos brincarem com o sabão que foi deixado de lado para eu ser ensaboada.

- Mais mel? – ele pega a jarra creme e a leva em direção ao meu prato.
Apenas empurro o prato com as panquecas para que ele derramasse mais mel em cima do que restou da torre de panquecas que havia feito para nós dois. Eu realmente estava com fome, comendo mais da metade sozinha.
Olho ao redor e vejo que a casa estava vazia. Não havia nenhum sinal de empregados por perto, de modo que não poderia fazer um comentário engraçado, questionando suas habilidades na cozinha.
- Você precisa ir para o estúdio hoje? – mudei minha tática.
- O evento já é semana que vem, preciso dar uma olhada no andamento dos treinos. Alguns grupos ainda precisam melhorar até a apresentação, mas a ansiedade está atrapalhando-os.
- Depois que isso passar, o que você irá arranjar para mim? – coloquei um pedaço da panqueca em minha boca, observando-o olhar para o lado, pensativo.
- Você poderá cuidar das matrículas dos alunos e organizar a ficha de todos os que já estão matriculados. Não temos um sistema muito bom para nos ajudar e seria ótimo possuir algo mais otimizado para facilitar.
Concordo com a cabeça, pensando em maneiras de realizar a tal otimização exigida. Eu teria de falar com alguns técnicos de computação, Ace ou Kendra podem conhecer alguém da MIT para nos ajudar.
- Você vai para o estúdio?
- Não, já está praticamente tudo finalizado, apenas tenho de terminar de decorar o hall de entrada e combinar o funcionamento do Roof com as funcionárias. Violet disse que gostaria de estar junto, então faremos isso durante a semana. Hoje preciso estudar mais um pouco para as provas que acontecerão na semana que vem.
- E depois, férias?
- Depois, férias. Ou mais trabalho, preciso juntar mais dinheiro. – termino o último pedaço da panqueca e deixo o prato na pia. Vejo a tempo de enxergar seus olhos revirarem.
- Eu já disse que enquanto estiver comigo, não precisa se preocupar com o valor de sua faculdade.
Não respondo. sabia que por causa de minha personalidade, eu não entraria em uma discussão se estou calma. E estou calma agora. Assim, tudo o que ele fez foi mastigar as panquecas com mais força, mostrando que estava muito nervoso por eu não ceder e deixar que ele cuide de mim. A questão é que não acho correto ele custear meus estudos só porque estamos em um tipo de relacionamento bastante íntimo; ainda se fossemos casados, haveria uma razão de custo benefício para ele, no entanto, só não tem muito o que fazer com o dinheiro e, como Kendra disse, quer me manter próximo a ele, nem que seja por uma dívida ilusória que minha consciência crie ao deixa-lo pagar qualquer coisa para mim.
Além disso, agora sou bolsista integral. Gillian havia mencionado antes que daria um jeito com o pagamento e que não tentaria roubar meu lugar no topo, desde que eu me esforçasse em aumentar o nível da sala para que ela não seja obrigada a me ultrapassar ou seja ultrapassada pelos colocados abaixo de nós. Eu dei sorte por ganhar a bolsa na última avaliação do ano, de modo que não precisaria pagar uma mensalidade, somente a taxa de rematrícula, que não é barato. Achei justo ajudar Gillian com esse valor, já que ela foi pega tão de surpresa; concordou em aceitar pelo menos três quartos do dinheiro. Contudo, peço que vi do relacionamento dela com Bob, talvez todo o dinheiro que passei para ela retorne, já que ele provavelmente dará um jeito de não fazê-la gastar um tostão com os estudos.
No final do café da manhã, deixamos a louça para a empregada que viria no dia seguinte e seguimos até o carro de . Ele me levaria para a universidade e então iria para o estúdio. No caminho de volta, falamos sobre a festa que haverá depois da apresentação, que também comemorará o início das férias escolares. Para variar, a festa será em um local afastado da cidade e que exigirá do comboio de carros para levar as centenas de pessoas até a praia particular. disse que Alec, seu sócio, havia cuidado de tudo. Quando lhe perguntei mais sobre o tal Alec que nunca havia visto, ele não quis se aprofundar no assunto, por isso, não o pressionei mais. Acredito que quando estiver à vontade para me contar, não precisarei perguntar.
Por ser véspera de semana de provas, a universidade estava cheia de alunos em grupos estudando ou revisando matérias. A semana que vem decidirá se passaremos para o próximo semestre ou se repetiremos este que estamos para finalizar. Estou tranquila sobre meu desempenho, minha maior preocupação era a avaliação mensal para receber a bolsa de estudos. Estudei tanto com Gillian no dia anterior, que mesmo passando o resto do dia com , ainda sei todo conteúdo que já estudamos.
- Te vejo mais tarde? – perguntou quando parou seu carro na porta da universidade. Abri um pequeno sorriso e murmurei um ‘tudo bem’. Senti seus lábios nos meus e saí do carro, vendo-o se afastar e sumir, depois de virar a esquina.
Entrei nas pendências de Harvard e observei algumas pessoas acenarem para mim, apenas porque acham que conseguirão combinar de lhes passar cola durante a prova, mas todos sabem que alunos S não passam cola. Eles não se importam com outros alunos, por isso fazemos as provas em uma sala separada na maioria das matérias. Houve uma vez que um aluno já formado passava as respostas via SMS. Ele tinha um celular velho que era fácil de ser camuflado em sua “roupa de prova”, todos os alunos da universidade o adoravam; toda essa adoração fez com que o corpo docente desconfiasse, uma vez que alunos S não se misturam com muitas pessoas de outras salas, muito menos a turma inteira do ano letivo. Ele acabou recebendo uma punição severa e todos os prêmios que ganharia na formatura e que acarretaria em um ‘currículo de ouro’, como dito pelos alunos de A a J, foram perdidos.
Caminhei em passos lentos em direção ao prédio dos dormitórios. Não havia visto Gillian até então. Passei à frente de seu quarto, mas ela não estava lá. Sua colega de quarto estava reclamando algo que provavelmente se deveria à falta de comunicação das duas. Gillian deveria ter passado a noite com Bob. Antes de chegar ao meu quarto, três ou quatro portas de distância dele, pude ver duas pessoas paradas conversando com um dos inspetores que cuidava do turno atual. Semicerrei meus olhos, para confirmar minha hipótese. Não confundiria por nada neste mundo a estatura alta e magra da minha mãe, e o cavanhaque perfeitamente aparado de meu pai. Os dois me pareciam satisfeitos por estarem ali, e observando-os de perfil, eles não me pareciam nada pobres.

Capítulo 15

- O que fazem aqui? – chamo a atenção dos três.
- Ah, aqui está ela. Nossa primeiro lugar de Harvard. – meu pai, em seu tom orgulhoso, abre um enorme sorriso branco, deixando minha mãe para trás e vindo até mim. Dou um passo para trás apenas por reflexo. – Boas coisas têm acontecido com você no último mês.
- O que estão fazendo aqui? Como conseguiram dinheiro para comprar passagens? – olhei para minha mãe, atrás de meu pai, e ela, com suas unhas sempre perfeitas e o cabelo arrumado, sorriu.
- Que tal sairmos para almoçar?
Eu entendi imediatamente aquele tom de voz. Ela não queria discutir sobre nossa vida desafortunada em público. Seu rosto expressava um sorriso calmo e sereno, mas a tonalidade da voz que saiu era urgente. Se eu ousasse enfrenta-la, ela não seria piedosa com suas palavras; como uma das melhores promotoras de São Paulo, minha mãe sabe perfeitamente separar seu sentimento materno, da obrigação de ensinar-me uma lição.
Sem dizer nada, apenas abri um pequeno sorriso para o inspetor, como sempre fazia, e me despedi, entrando em meu pequeno quarto com meus pais logo atrás de mim.
- Pela webcam me parecia bem maior. – meu pai começou a dizer. Não lhe respondi nada. – Pelo que o senhor Jackson estava dizendo, você deverá mudar de quarto para que possa ter mais conforto. Deveria começar a empacotar suas coisas. – olhou ao redor, vendo que não havia nada desorganizado ou com algum indício de mudança. Os dois encaravam o lado de Kendra, sabendo que tudo aquilo não era meu.
- Sua companheira de quarto fuma? – minha mãe perguntou, com o tom enojado de quem não suporta o cheiro de tabaco. Foi assim que descobriu os atos de infidelidade de meu pai. A ouvi dizer durante sua discussão com ele, que mesmo que não tivesse fumado e mantido somente um cigarro dentro de seu bolso, o odor impregnaria em todas as suas roupas de grife no closet em que dividiam. No dia seguinte, contratou uma arquiteta e um designer para elaborarem um meio de dividir o espaço dos dois, assim não correria o risco de sair do banho de manhã e pegar seu conjunto social de trabalho “fedendo à cigarro de segunda categoria”. Era de se esperar que ela não estivesse se importando com o fato de meu pai a estar traindo com outra mulher, ela apenas estava preocupada em não estragar a imagem fria que arduamente criou dentro dos fóruns e tribunais. – Por que continua neste quarto? – ela perguntou, vendo uma das lingeries de Kendra pendurada no cabideiro. Sempre disse para ela que aquele era um móvel para casacos, chapéus e bolsas, mas as únicas vezes que ela me ouviu, estava bêbada, o que é o mesmo que não ter dito nada. – Você não está fazendo o mesmo que essa garota, não é?
- Estou bem com ela, é uma boa pessoa e foi quem me indicou para o trabalho. – falei, tão fria quanto ela.
Pude ver um brilho em seus olhos quando ouviu minhas palavras. Meu pai, parado entre nós duas, olhava para mim boquiaberto, surpreso por tê-lo pego desprevenido. Mas minha mãe estava pronta, sempre esteve. Sempre esperou que eu amadurecesse a ponto de ter a ousadia de lhe responder à altura. Pude ver quando seus lábios se mexeram em um resquício de sorriso, que ela estava satisfeita. Sem perceber, senti uma pontada de orgulho em meu peito, já que finalmente pude chamar sua atenção para algo que não fosse minhas notas insuficientes e a falta de pudor em meu modo de ser.
- No que está trabalhando, afinal? – meu pai colocou as mãos no bolso. Murmurei para sentarem em minha cama, mas era de se esperar que nenhum dos dois se mexessem. Eles não colocariam suas calças de grife em minha cama. Mesmo que seja minha, não sabiam como foi o tratamento de limpeza e o contato poderia deixar bolinhas no tecido.
- É um estúdio de dança, cuido da área de eventos e administrativa.
- Dança? – a sobrancelha de mamãe ergueu, insatisfeita com minha resposta.
- Me pagam o suficiente para custear o valor da universidade e possuem um horário flexível. Esperem um minuto. – peço, fechando a porta do lavabo sem esperar qualquer resposta. Demorei o maior tempo possível para me arrumar e quando saí, os dois analisavam atentamente minha mesa de estudos.
- Eles não ensinam sobre leis de instância?
- Aprendi em meu terceiro semestre, mas não é o que eu quero. Podemos ir. – anunciei. Vi os dois se afastarem de minha mesa e caminharem comigo para fora do quarto, sem mais nenhum interesse em explorar o lugar que morei nos últimos três anos.
Caminhamos corredor afora; alguns alunos ainda me cumprimentavam, esperando conseguir qualquer simpatia minha na hora das provas. Mesmo que a primeira tenha passado, alguns ainda tinham esperanças de que eu pudesse me comover com sua burrice e ajuda-los a estudar. Serão muito ingênuos se esperam que eu pare de viver a minha vida para auxiliar pessoas que me ignoraram o curso inteiro. Por sorte, não vi Ace, Bob ou Kendra no campus. Os três provavelmente estavam no estúdio ou passeando por aí; não quero que eles conheçam meus pais, nem vice-versa. Nenhum dos dois lados iriam se gostar e eu seria a única a sofrer qualquer preconceito, porque meus pais não os tratariam com simpatia e eles não são pessoas de aceitar grosserias fácil.
Decidi leva-los para um restaurante próximo ao lago. Por ser um lugar de gostos mais caros, poucos alunos vão com frequência, principalmente em final de semestre, quando já se gastou tanto com trabalhos e festas. Entrei em um café, que não era tão caro quanto a média da área, e serviam uma boa bebida com cafeína. Eles pediram somente uma bebida, decidi acompanha-los; enquanto eu pegava nossos pedidos, eles se acomodaram em uma mesa próxima à janela de frente para o lago. De lá, podíamos ver pessoas pedalando, fazendo cooper ou caminhando em direção à Harvard. Em sua maioria, trabalhadores voltando do almoço ou turistas à procura da melhor universidade do mundo.
- Você está melhor do que imaginava. Admito não esperar visita-la e você ter conquistado o primeiro lugar. – meu pai começou a falar com um sorriso no rosto. Mesmo que a maneira como se expressou não tenha sido a correta, cresci compreendendo a maneira como eles gostam de passar uma informação, sem descer do salto. É fácil se ofender com suas palavras, mas se focar somente na informação positiva, não há muito o que se aborrecer.
- Obrigada. – murmuro.
- Será fácil manter? – minha mãe perguntou, provavelmente querendo se certificar para que possa se gabar com suas amigas.
A amizade dela é diferente da minha amizade. Minhas amigas se preocupam comigo e, no geral, temos as mesmas opiniões. As amigas de minha mãe estão aqui para fazer com que ela se torne uma pessoa muito mais exigente, comparando a minha vida com a de suas filhas e seus filhos. Quando tirei uma nota menor que a de Stephanie Soares na primeira série do ensino fundamental, apenas não fiquei sem teto, porque ela precisava de mim para o próximo semestre. Desde então tenho me dedicado a ser a melhor filha e pessoa do mundo. Uma responsabilidade bastante difícil de ser cumprida com êxito.
- A segunda colocada é minha melhor amiga e fizemos um trato de que ela não deixará ninguém me passar, desde que eu não permita que ela me passe. – comentei, vendo imediatamente o sorriso dela finalmente ficar estampado em seus lábios.
- Estou orgulhosa de seu comportamento. O modo como está lidando com sua vida está satisfatório.
- Como conseguiram vir para cá? – olhei para os dois.
- Nossa conta estava congelada, porque fomos alvos de um golpe. – meu pai começou a falar, mas minha mãe ergueu sua mão, de modo que nós três sabíamos que ela queria explicar tudo de sua própria maneira, a qual considera melhor.
- Eu e seu pai estávamos dentro de um grupo de profissionais que planejava uma estratégia de reerguer o império de um cliente importante na América Latina. O que não esperávamos, é que ele fosse experiente o suficiente para possuir um segundo grupo secreto de advogados atuando verdadeiramente em seu caso. Não descobrimos até recebermos um intimado de comparecimento ao tribunal, sob acusações de fraude, roubo e extorsão de dinheiro privado.
Olhei para meu pai, cujo rosto começava a se avermelhar. Suas lembranças provavelmente não eram boas; isso sempre acontecia quando alguém começava a trazer memórias do passado que ele não gostava e não queria dividir com mais ninguém senão sua própria consciência.
- No início, achamos que fosse fácil lidar com o caso, mas o buraco era muito mais em baixo. – minha mãe apoiou as mãos na mesa. – Acusações mais graves foram aparecendo em cima de nós; os erros que os advogados secretos de nosso cliente cometiam eram jogados acima de nós. Por não termos nenhum conhecimento dos integrantes deste grupo, o tempo que tivemos para conseguir tais informações e unir as provas para a corte foi o suficiente para termos nossas contas congeladas. De primeira instância, pudemos ter o dinheiro para sustenta-la liberados, contudo, o fato de estarmos enviando dinheiro para o exterior não parecia ético no meio de toda as acusações e processos.
Ela suspirou, cansada apenas por lembrar de tudo o que passou. Nunca havia presenciado um caso desses, por isso, estou interessada no fim que levou.
- Foi quando o valor para o pagamento de Harvard foi negado pelo juiz e tivemos de entrar em contato com você para dar-lhe a notícia. Por sorte, havíamos tirado mais dinheiro do que permitido, de modo que podíamos cumprir com nosso trato de pagar até o fim deste ano. Conseguimos reunir as provas e apresenta-los ao juiz na semana retrasada, mas apenas semana passada nossas contas e passaportes foram liberados, permitindo nossa vinda até aqui.
- Queríamos falar diretamente com você, querida. – meu pai abriu um sorriso. – Sei o quão nervosa estava conosco, por isso, sabia que não iria nos atender a não ser que recebesse primeiro um telegrama dando uma introdução no caso. Isso você puxou à sua mãe. Sem provas, não há argumentação. – disse a frase que minha mãe sempre citou para mim quando pedia que ela acreditasse em mim.
Bebi um gole de meu chá gelado pensando na história. O grupo de meus pais provavelmente era do escritório que trabalhavam. Eles sempre foram muito unidos, mas mais amigos de meu pai. Minha mãe não gostava de manter um relacionamento próximo a eles, por isso todas as suas secretárias adoravam manter um relacionamento secreto com meu pai, achando que em algum momento minha mãe perderia a estabilidade e surtaria no meio do escritório. Tudo o que minha mãe sempre fez foi ignorá-las e dar um jeito de serem demitidas sem direitos trabalhisco.
- Você pode se focar somente em seus estudos agora. – mamãe disse. – Já depositamos um bom valor referente ao que não pagamos nos últimos meses. Sua conta deve estar com um pouco mais do que a última vez que depositamos. Guarde o dinheiro de seu trabalho para você.
Assenti. Não precisar trabalhar não estava sendo uma notícia alegre, tampouco triste. Eu gostava de somente estudar e gastar meu tempo revisando matéria e decorando mais leis do que poderia imaginar que conseguiria, contudo, agora estava com e as circunstâncias haviam mudado. Quero vê-lo todos os dias, conversar com ele todos os dias e ser rodeada por seus braços fortes todos os dias. Gosto da atenção que me dá e da maneira como sempre quer me proteger, como se eu fosse frágil.
Eu deveria falar com meus pais sobre Gabriel e . Os dois seriam compreensíveis; talvez um pouco difíceis, pois costumavam gostar bastante de Gabriel e não é o cara com futuro que eles esperam ter como genro. Eu deveria explorar mais este lado antes de anunciar que estou em um novo relacionamento.
- Acredito que você tenha que estudar para a prova de amanhã? Ficamos sabendo que está em semana de provas. – meu pai mencionou. Concordo com a cabeça, esperando não passar muito tempo com eles para não transpassar alguma introdução sobre a notícia de meu relacionamento.
- Nos encontraremos para o jantar. Você não me parece dentro do peso ideal, precisa voltar a ter refeições decentes. Vou pedir para Karen enviar um e-mail com um menu semanal para você. – minha mãe retirou seu celular da bolsa. – Tenha certeza de segui-la e se possível, arranje uma médica que possa confirmar minha hipótese sobre seu peso. Utilize o tempo livre das férias para praticar exercícios que eliminem gordura.
- Sim, mamãe. – resmunguei em tom aborrecido. Ela não havia mudado sequer um fio de cabelo. Seu modo de cuidar de mim continuava exigente e autoritário.
Eles me acompanharam até o campus e quando paramos em frente à porta do prédio dos dormitórios, deram um beijo cada um no topo de minha cabeça e se afastaram, indo em direção à entrada principal. Suspirei, exausta somente por pensar em voltar a ter a vida pacata que tinha antes. Como dizer que gosto de trabalhar no estúdio? Não, eu acho que não deveria falar. Eles jamais aceitariam.

Kendra chegou quando ainda estava claro. Por um milagre, estava sóbria e com um livro do curso em mãos, o que significa que ela provavelmente estava em algum grupo de estudo para melhorar suas notas como havia mencionado antes ter vontade. Jogou o livro na cama sem qualquer cuidado com as páginas internas e então deitou ao lado, resmungando e suspirando.
- Não sei como consegue viver feliz fazendo isso todos os dias. É sério, é pior do que pesadelo. – sua voz demonstrava o desgaste que estava sentindo. – Foi como quando começamos a virar amigas e tentávamos ter um diálogo em que nós duas concordávamos. Quero dizer, não que você fosse incomunicável na época, mas pelo menos agora chegamos a uma mesma conclusão. Como eles esperam que eu entenda o modo como falam, se apresenta-se à nós como praticamente mestres.
- Talvez você tenha pego o orientador errado. Geralmente somos bastante crus com nossas palavras quando estamos na presença de alguém que claramente não compreenderá nosso nível de conversa.
- Este foi um comentário muito infeliz, achei ofensivo, peça desculpas.
- Desculpe. – ouvi sua risada em resposta; nós duas sabíamos que ela havia falado somente por falar e que minha resposta foi tão automática quanto frear em sinal vermelho. É um fato que nós duas aprendemos muito uma com a outra e que nossa amizade influenciou um pouco em nossos comportamentos.
- Então. A noite foi boa com ?
Imediatamente senti meu rosto queimar e rapidamente virei meu corpo de volta em direção à mesa.
- O silêncio consente. – ela brincou. – Pela primeira vez desde quando começamos a morar juntas, dormi sozinha neste quarto. Admito ter acostumado a ter companhia, por isso, me senti solitária.
Abri um pequeno sorriso com sua brincadeira. De fato, essa situação é atípica, já que eu nunca dormi em nenhum outro lugar senão este dormitório. Nunca viajei para outros lugares até entrar no estúdio.
- Irá encontrar com ele hoje de noite?
Nego com a cabeça.
- Opa. – ouço-a dizer, em tom de alerta. – Você sabe que nossa amizade está em um ponto em que conseguimos ler a mente da outra, certo? – concordo. – Dentro de todas essas trocas de pensamentos, também sei quando você está com algum problema, porque simplesmente preferiu balançar a cabeça ao invés de responder em voz alta. – ouvi seus passos se aproximarem até minha cama e se sentou próxima a mim. – Conta. O que foi? Brigou com ele de novo?
- Não. E nós não brigamos tanto assim.
- Vocês brigam mais do que Bob e Ace dentro de um carro sozinhos, . – Kendra falou em tom de riso. – Mas tudo bem, não é uma briga com ele, então o que é?
- Meus pais... – suspiro. – Eles estão aqui.
- Seus pais? Do Brasil?
- Não tenho outros senão eles. – resmungo, vendo-a bufar.
- Você não deve estar tão mal, se consegue ser assim, irônica.
- Desculpe. – me mexo, desconfortável. – É só que, bem... – me calo, hesitante.
- Eles estão ricos de novo?
Assinto. Kendra suspira e deixa-se cair para trás, deitando o tronco de seu corpo em minha cama.
- Você está aborrecida porque tem de contar a sobre parar de trabalhar ou aos seus pais, por dizer que não quer parar de dançar?
Aperto os lábios. Esse é o problema, eu não sei. Não sei se quero continuar a dançar e aborrecer meus pais, porque eles se deram o trabalho de virem até os Estados Unidos para resolver nossas diferenças. Por outro lado, também não sei se quero parar e estragar o bom relacionamento que finalmente eu e nos esforçamos em ter. Estamos felizes assim. Mesmo sem dinheiro e sabendo que meu futuro estava incerto, eu estava feliz. Trago meus joelhos para mais perto de meu peito, fungando e escondendo meu rosto de Kendra.
- Pelo que entendi, você está em um impasse. Bem, não vou tirar-lhe a razão, mesmo que a resposta para sua dúvida seja bastante óbvia.
Levanto o rosto na esperança dela me ajudar a chegar a uma conclusão. Antes que pudesse perguntar qual a resposta, ela balança a cabeça.
- Esqueça, não irei te responder porque parecerá que você está tomando uma decisão com base no que eu falei, não no que você quer. – solto um gemido, demonstrando a dor de ter que resolver sozinha. – A única coisa que posso lhe dizer, é que seria melhor se você apresentasse a eles.
- Eles não gostarão de .
- Bem, não são eles quem estão o namorando. Além do mais, iria querer que você o apresentasse aos seus pais, mesmo sabendo que não se dará bem com nenhum dos dois. É uma questão de se preocupar com você.

No fim, decidi fazer o que Kendra havia sugerido. Eu não poderia fugir muito mais. Estamos próximos do feriado de fim de ano e se meus pais decidirem ficar aqui, eles conheceriam mais cedo ou mais tarde, já que ele está sempre me lembrando sobre a festa de Ano Novo que fará em sua mansão para os mais chegados do estúdio.
- Então? Terminará o curso em primeiro? – meu pai parecia animado com a novidade. Ele e minha mãe me prepararam um presente por ter chego à primeira colocação, algo que nunca haviam feito antes. Talvez este fosse realmente uma posição que eles jamais imaginariam que eu conseguiria, ou valorizassem mais o primeiro lugar de Harvard, do que o meu aniversário de quinze anos.
- Sei que está um pouco cedo para falarmos sobre isso, mas eu e seu pai temos alguns negócios para resolver aqui nos Estados Unidos e não poderemos ficar muito tempo com você, querida. Gostaríamos de discutir tudo o que temos pendentes durante esses dias. – minha mãe começou a falar depois de um gole de vinho. Sua expressão, por mais dura que pareça, se encontra mais maleável. Por causa de sua tonalidade calma e os vários sorrisos que ela abriu em menos de quarenta minuto juntas, tenho disposição para falar sobre o que eles querem, finalmente sentindo o calor de uma família feliz que procurei durante minha infância. – Seu pai e eu passamos a última semana conversando sobre seu futuro, agora que as coisas voltaram ao que era antes. Chegamos à conclusão de que assim que terminar o seu curso, voltará para o Brasil e terá sua vaga dentro de nosso grupo.
Arregalo meus olhos levemente com a surpresa. Sinto os cantos de minha boca estremecerem e gradativamente meu sorriso sair do rosto.
- Eles estão encantados por você possuir um currículo tão fascinante! – meu pai diz, animado. – Você sabe que não costumam abrir vagas para novos advogados, principalmente recém-formados, mas como você é nossa filha e se formará com méritos, será muito bom para a imagem da associação termos alguém tão talentosa!
- Você terá sua própria sala e iniciará com clientes em que possa cuidar com mais facilidade e rapidez. Casos menores, para se acostumar com o fluxo. Aos poucos, seu pai e eu passaremos casos melhores para começar a formar seu nome em São Paulo.
Vejo os dois falarem com a convicção de que irei retornar ao Brasil no final do ano que vem. Meu coração está palpitando mais rápido, me deixando mais nervosa. Não sei como interrompê-los, não quero comprometer este momento; eu nunca os vi tão animado assim comigo desde minha aceitação em Harvard.
- Está passando mal, querida? Sua expressão não está muito boa. – meu pai deposita sua mão sobre a minha, claramente preocupado.
- A-ah... É... É só um ligeiro mal estar... – sorrio, sem graça.
Decido não interrompê-los. Eu não preciso dar minha resposta agora, posso utilizar mais tempo para me decidir e então conversar com eles antes que vão embora. Mesmo tendo decidido ouvi-los sem fazer nenhuma objeção, pensar na hipótese de contrariá-los me dava náuseas.

- Posicione-os ali, por favor. – falo para um grupo de técnicos que finalizava a instalação das caixas de som ao redor do salão onde aconteceria a apresentação. Faltavam 2 dias para o evento e tudo estava fluindo bem. Com exceção da comida, que estava atrasada, o resto já estava finalizado.
- Bom serviço. – senti um par de braços fortes envolverem minha cintura quando saía do salão com minha prancheta em mãos. Abro um pequeno sorriso e vejo com seus cabelos caindo no rosto.
- Quando irá cortar seu cabelo? – empurro-os, inutilmente, para detrás de sua orelha, vendo-o abrir um sorriso malicioso.
- Você diz que gosta deles assim.
- Mas não combina com sua apresentação.
- Qualquer coisa que eu faça combina com minha apresentação. – ele roça nossos narizes. – Além do mais, basta pensar que estou dançando para você.
Solto uma breve risada ao vê-lo tão ousado e bem-humorado, que não percebo a presença de novas pessoas no hall até ouvi-los tossir.
Empurro para longe, que finalmente faz sua cara de emburrado. Nos viramos para nos desculpar com as pessoas e nada é mais surpreendente do que ver meus pais parados com um olhar de repulsa no olhos.
- O que... – minha mãe começa a falar.
- Ah, mãe! – corro até ela. – Este é, hum, , o... Dono...
Vejo minha mãe olhar para mim e então voltar a encarar , que estava vestido com seu uniforme habitual de dança. A calça enorme e larga na cor preta e a regata grudada no corpo, expondo seus braços enormes e musculosos.
- Prazer. – ele levanta a mão, sem graça.
Ficamos em um silêncio constrangedor; as pessoas ao redor começam a parar para nos assistir e cochichar entre eles. não falava nada, apenas estava parado em frente aos meus pais, que o observavam com aquele olhar que tanto conheço de quem não gosta do que vê.
- Qual a sua relação com minha filha? – meu pai, mesmo sendo quase metade do tamanho de , não demonstra nenhum medo de enfrentar alguém maior que ele, no espaço dele. – Não me pareceram terem uma relação de chefe e funcionário.
Aperto os lábios, receosa. Olho para , que não parecia estar nervoso na frente de meus pais. Suspirou e se aproximou dos dois.
- Meu nome é , sou o responsável por este estúdio que está para ser reinaugurado. Atualmente, estou em um relacionamento com a filha de vocês, é um prazer conhece-los.
- Relacionamento... – minha mãe murmura, virando seu rosto para mim. – Você está com ele?
- Mãe... – murmuro, vendo as pessoas começarem a entender que meus pais estavam fazendo passar por um grande apuro. – Por favor...
- Inaceitável. – meu pai diz, em alto tom. – Minha filha não tem relacionamentos com pessoas como você. – mexeu a mão em direção a , como se ele fosse pouca coisa. Minhas bochechas começam a corar e vejo tentar ao máximo não retruca-los da maneira que desejaria. – Como posso aceitar que minha filha esteja com um homem que é dono de uma escola de dança no meio de uma periferia?
- O que ele disse? – alguns alunos se aproximam, afim de enfrenta-lo, mas apenas mexe o braço para que eles não cheguem perto.
- Com todo respeito, senhor ...
- Use seu respeito para colaborar com seu bom senso, garoto. – meu pai urrou. – Pessoas como você não deve se relacionar com garotas como minha filha.
- Pai, chega! – seguro em seu braço, vendo seu rosto tão vermelho quanto o meu. – É melhor que vá embora...
- O que está dizendo, ? – minha mãe segura em meu braço. - Nós vamos embora. Não quero você neste... Lugar. – cada centímetro que observa com seu olhar de nojo ao redor me dá uma facada no peito. – Darei somente um aviso. – olhou para . – Mantenha-se afastado de minha filha. Ela tem uma carreira de sucesso para seguir e você só estará a atrasando.
Sem poder olhar para trás, meus pais pegaram em meus braços e me arrastaram para fora do estúdio sobre os gritos e protestos de todos os alunos e funcionários. Fui colocada dentro do carro alugado e, por pouco, uma pedra não nos acertou.
- Isso é uma barbaridade. – meu pai falava dentro do carro e então olhou-me pelo retrovisor. – Aonde você estava com sua cabeça, garota?
- Deixe-me explicar... – falo, chorosa, no banco de trás.
- Aguarde até chegarmos em nosso hotel. Você tem muito o que explicar, .

A televisão que estava ligada quando entramos na suíte do hotel em que eles estão hospedados foi bruscamente desligada. O único som que podíamos ouvir era dos hóspedes que passavam em frente ao quarto, o apito do elevador que chegava e ia, e o barulho que vinha da rua. Minha mãe se sentou em uma das duas poltronas que haviam no quarto, sendo seguida por meu pai, que se sentou na outra, me deixando em pé na frente dos dois. A situação me fez lembrar de como era quando eu ainda morava no Brasil; quando as notas saíam e eu não era melhor que os outros alunos, essa mesma reunião era convocada e eu chegava a passar horas em pé como meio de punição. No entanto, lembro-me que a maior dor não era física; ficar em pé não era nada em comparação à repugnância que me era passada através dos olhares e das palavras. Quando tivemos nosso jantar ontem, achei que nunca mais passaria sobre essa situação novamente, que o apuros que eles passaram fizeram perceber que havia mais com o que se preocupar do que manter a única filha aprisionada em suas próprias regras.
- Comece. – minha mãe falou, séria. Suas pernas cruzadas fazia parecer que nunca perderia a compostura. Imagino-a recebendo a notícia de que sua conta havia sido roubada e mesmo assim suas pernas não se descruzariam, cedendo para o desespero. Minha mãe era mais cruel do que Cruela Devil e mais fria do que Miranda Presley.
Agora que os dois estavam dispostos a ouvir minhas desculpas para justificar o que haviam visto, não sabia como começar. Não sabia como dizer que gostava de e que gostaria de ficar com ele.
- Você não tinha algo para dizer? – ela falou novamente, depois de oito minutos em silêncio. Aguardavam pacientemente eu dizer o que tinha para dizer, mas todos nós sabíamos que eu não tinha o que falar. Eles viram o que tinham de ver, não havia mais nada a esconder, a não ser...
- Gabriel e eu terminamos faz algumas semanas, talvez pouco mais de um mês. – senti minha voz trêmula ao começar a falar. A notícia não pareceu abalar os dois. – Ele me enganou todo o tempo, disse que estava comigo para me usar e roubar o dinheiro de vocês. Foi deportado para sofrer as consequências sobre as leis brasileiras.
Contei para eles sobre toda a situação. Esperava que eles demonstrassem pelo menos um pouco de misericórdia por mim, mas no final, quando terminei de falar, tudo o que fizeram foram manterem-se calados e enfim, dizerem:
- E onde está a novidade?
Pisquei uma, duas, três vezes. Balancei a cabeça, tentando entender o que minha mãe havia acabado de dizer.
- C-como?
- Eu disse, onde está a novidade? – ela ascendeu seu cigarro enquanto meu pai abria a janela para o cheiro não ficar ali. – Fomos nós quem enviamos o mandado de deportação para a polícia federal daqui. Demos um jeito nele no Brasil.
Não compreendo. Meus pais sabiam de tudo?
Ao me verem confusa e sem reação nenhuma para lhes retrucar, minha mãe, em seu tom gélido, começou a dizer:
- Nós sempre soubemos que Gabriel iniciou um relacionamento com você para conseguir descobrir onde nossa fortuna estava depositada. – tragou o cigarro e então depositou-o no cinzeiro. – No início, achamos que você fosse ser inteligente o suficiente para perceber quando um garoto não está sendo sincero sobre seus sentimentos, mas, aparentemente, nem isso você consegue identificar. – revirou seus olhos e mexeu em seu cabelo. – A melhor maneira de lidar com o inimigo, é mantendo-o perto de você. Permitimos que o garoto frequentasse nossa residência, e que você desse tudo o que ele queria com nosso dinheiro. Enquanto isso, trabalhamos para descobrir de onde vinham as ordens e encontramos a fonte de todo o plano. Demorou anos e foi necessário que eu e seu pai declarássemos falência em nossos negócios para conseguir encurralá-los, mas foi fácil depois que já tínhamos todos em mãos. Ele tentou fugir com uma garota para cá e realizar um último golpe em cima de você. Achei que você estivesse finalmente esperta, mas pelo que entendi, não foi você quem resolveu tudo por aqui.
Deixei meu corpo cair sentado na cama atrás de mim.
- Vocês... Mentiram?
- Omitimos, é diferente. – meu pai disse. – Se não tivéssemos declarado falência, o moleque nunca tomaria a iniciativa de abrir uma investigação em cima de nossas contas bancárias e não saberíamos para onde elas iriam.
- Por que não me contaram?
- , pare de ser tola. – senti a paciência de minha mãe se esvair. – Há centenas de pessoas em São Paulo que desejam roupar nossa fortuna. Gabriel não era a única. Você precisa saber lidar com os bandidos para poder superá-los. Eles são muito mais espertos que as pessoas que seguem as leis.
Ficamos calados. Eles me deixaram processar toda a informação que haviam me passado de forma enxurrada e então voltaram a falar:
- O que você fará é muito fácil, querida. Apenas continue obedecendo as ordens como sempre fez. – minha mãe disse. – Volte para sua faculdade e termine seu curso com os méritos que está se esforçando em receber. Viremos te buscar para a colação e leva-la de volta para o Brasil.
Não consegui reagir. Quando percebi, estava na porta do hotel ainda pensando em tudo o que haviam acabado de me dizer. Por que mentiram por tanto tempo? Por que me deixaram sofrer e passar por apuros sozinha? Por que, mesmo depois de tudo isso, ainda têm a capacidade de me dizer para seguir suas ordens e viver a vida que eles planejaram? Não entendo por que não consigo retruca-los e exigir minhas próprias vontades.
- Hey. – sinto minhas costas serem cobertas por um casaco muito maior que eu. – Vamos para casa.
abre a porta de seu carro e, sem dizer mais nada, me guia até o lado passageiro. Olho para ele, deixando-me ser levada no automático. Quando vejo sua expressão calma, tenho vontade de chorar.
Eu não o mereço.

Capítulo 16

Eu só conseguia ouvir os murmúrios.
E borrões de pessoas passando de um lado para o outro.
- Acho que a briga deve ter sido feia. – finalmente ouço a voz de Ace.
Assim que chegamos na casa de , meus amigos já estavam lá. Quero dizer, nossos amigos. Kendra não me parecia feliz em me ver, mas depois descobri que era porque ela estava pensando nos meus pais. Gillian era a única alheia à tudo e como era do perfil dela, manteve-se calada até associar todos os comentários que eram feitos para descobrir o que havia acontecido. Em seguida nós estávamos na cozinha. tentava me alimentar com alguma coisa que mal conseguia sentir o cheiro e o resto da turma não parava de falar sobre meus pais e a maneira como ele tratou .
- Seus pais são bem merdinhas, viu ? – era a primeira vez que ouvia Hans falar assim, rancorosamente, de alguém. Por qualquer razão que fosse, ao vê-lo de uma maneira que nem o maior estresse dentro do estúdio conseguiria causar, meus olhos começaram a marejar e meus lábios, a estremecer.
- Escuta, seu idiota, pare de falar assim com a minha amiga. Ela não tem culpa dos pais que tem. – Kendra veio a meu favor, me fazendo sentir ligeiramente melhor. – Além disso, temos que saber o que foi decidido por ela, porque eles não me pareceram querer deixá-la continuar trabalhando no estúdio.
- Eu acho que seria melhor se ela não voltasse para lá agora. – a voz de Ace era preocupada como jamais ouvi antes. – Não é por nada, baixinha, mas qualquer um que humilhe o nosso Deus aqui em público é tratado como Joana D’Arc, então, se não quiser ser posta em uma fogueira e morrer carbonizada, é melhor não trabalhar nesses próximos dias. Tenho certeza que o chefinho não irá se preocupar; é uma das vantagens de ser a garota dele.
Eu poderia rir, como todos na cozinha fizeram, mas não consegui. Ao invés disso, apenas desviei os olhos por estar envergonhada demais pela cena mais cedo. Rapidamente os risos cessaram e pude sentir ao meu lado mais uma vez.
- Se está assim pelo que aconteceu entre eu e seus pais, acho melhor tirar essa cara, porque eu não estou nem um pouco ofendido.
Olhei para ele, surpresa. Qualquer pessoa normal estaria ofendido. Por que ele não estaria?
- Qualquer pais que não mantêm contato com a filha por meses seguidos e a manda se virar quando não têm mais dinheiro, não devem ser bons pais. Além disso, Kendra me contou mais ou menos a relação que você tem com eles.
Aperto os lábios, lembrando sobre meu pensamento quando saí do hotel de ser bom demais para mim. Assoo meu nariz no lenço de papel que havia recebido de Gillian e taquei na cesta de lixo repleta de papeis amassados.
- De qualquer maneira, Ace tem razão. É melhor que você fique afastada até eu conseguir convencer a todos de que você não tem culpa alguma.
- Não será tão difícil, todos sabem que seus pais são dois filhos do demo encarnados. – Ace sorri. – Quero dizer, Kendra fez um bom trabalho no passado, espalhando a verdade sobre a sua vida quando queria que todos a aceitassem no grupo.
Olhei para Kendra, que se levantou e foi em direção a Ace para dar-lhes alguns bons tapas. O resto do pessoal voltou a rir e não pude deixar de abrir um sorriso quando a vi olhar para mim sem graça, e dizer:
- Amiga, frise a parte “quando queria que todos a aceitassem no grupo”. Você sabe que sou uma boa pessoa.
Depois do jantar, que mal comi, todos decidiram me dar um pouco de privacidade com . Caminhamos até o lado externo da casa, onde eu gostava de ficar observando as estrelas coberta por uma manta que ele mantinha no andar térreo da casa. Ficamos os dois deitados na espreguiçadeira da piscina ouvindo os peixes noturnos subirem à margem à procura de comida e sacudirem a água, e o som do vento que cantarolava quando batia com mais força em nossos corpos.
- O que mais aconteceu? – perguntou, acariciando minhas costas enquanto eu tinha meu braço apoiado em seu peitoral e minha cabeça encostada em seu ombro. Não respondi de imediato, comecei a pensar se faria sentido falar para ele, mas era óbvio que eu precisava ser honesta com a pessoa que mais estava me ajudando e que eu necessitava da ajuda. – Se você não quiser falar, tudo bem.
- Meus pais sabiam sobre Gabriel. A verdade é que descobri que minha vinda para cá sempre foi um tipo de plano deles para me livrarem dele.
não disse nada. Tampouco parecia surpreso. Com o tempo em silêncio, não pude evitar suspeitar um pouco, por isso, olhei para cima, vendo-o mordendo o lábio.
- O que foi? – perguntei e vi seus olhos olharem em minha direção.
- Tudo bem, serei honesto. – ele se mexeu, de modo que nós dois nos sentamos na espreguiçadeira. – Eu já sabia que seus pais sabiam sobre Gabriel.
- O quê? – minha voz saiu num farfalhar. levantou as mãos:
- Deixe-me explicar para então brigar comigo, por favor. – me calei, de modo que ele respirou fundo. – Quando você descobriu a verdade sobre Gabriel, o clã da Kendra veio falar comigo para me informar sobre a situação dele nos Estados Unidos. Foi quando eu soube aquilo que havia lhe dito. No entanto, me disseram que o mandato de ordem de deportação não foi feita pelo consulado americano, mas sim brasileiro, especificamente de uma autoridade no Brasil que era de São Paulo. Reconheci o nome do lugar pela sua ficha, não queria que você fosse para lá e reencontrasse com aquele canalha. A pessoa que contratei para investigar acabou descobrindo que a ordem veio de seus pais; não me intrometi, mas sei que seu ex não está tendo uma vida boa lá no seu país. Eu não te contei, porque não queria que você voltasse a falar com seus pais para brigar com eles. Na verdade, quanto mais tempo afastada dos seus pais você ficasse, melhor para mim. Estava disposto a pagar tudo o que você precisasse gastar para ficar aqui e então, quando chegasse a hora de enfrentá-los, você decidiria ficar aqui ao invés de voltar para o Brasil.
Não sabia o que pensar. Por um lado, estava chocada por ele saber dessa verdade e não ter me contado; por outro, consigo enxergar a razão dele ter escondido. Apesar de ser uma informação que mudou a minha vida, não consigo ficar nervosa por ele ter tentado me manter segura e feliz. Não posso negar que minha vida teria sido miserável se eu soubesse que meus pais sabiam sobre Gabriel e não me protegeram da maneira que pais deveriam proteger sua filha de um criminoso. Olhei para e sua expressão mostrava a insegurança por achar que eu provavelmente surtaria, como sempre fiz quando ele escondia algo que eu considerava importante. Rodeei seu pescoço com meus braços e sussurrei em seu ouvido:
- Obrigada.
Seu corpo relaxou assim que pronunciei tais palavras. Suas mãos enlaçaram minha cintura e voltamos a nos deitar em sua espreguiçadeira na posição que estávamos antes.
- Acho melhor encontrar com eles amanhã para lhes dizer minha decisão. – murmurei baixo, o ouvindo resmungar. – Eu vou ficar onde você estiver. – falei, séria, vendo seus olhos mais uma vez se encontrarem com os meus, dessa vez causando o efeito que sempre teve comigo. Me perdi até seus lábios cobrirem os meus, fechando os meus olhos e entrando em nosso mundo.

Eram dez horas quando estava no hall do hotel de meus pais com . Eles permitiram a minha subida sem saber que ele estava comigo, mas não gostaram nada quando abriram a porta do quarto e o viram atrás de mim.
- Provavelmente fez uma decisão estúpida. – ouço o comentário da minha mãe.
- Estúpida ou não, a senhora irá se sentar e ouvir calada. – digo, nervosa, ignorando sua expressão de surpresa, já que jamais havia lhe dirigido este tom antes. Meu pai sequer se moveu de sua poltrona; era óbvio que os dois já estavam acordados com seus notebooks na mesa, trabalhando enlouquecidamente. Era assim que os dois mantinham suas fortunas crescendo: trabalhando até quando estavam viajando, ao invés de aproveitar o local que estavam visitando. – Na minha opinião, o que fizeram demonstraram que não possuem nenhum tipo de respeito por mim. – comecei a andar de um lado para o outro enquanto provavelmente estava no corredor à frente da porta do quarto, encostado em uma parede observando.
- Não somos nós quem devemos ter respeito por você, querida, mas sim o contrário.
- A senhora está errada, mamãe. O respeito deve ser mútuo. Acho que já estou grandinha demais para saber que vocês não possuem mais 100% de poder sobre minhas decisões.
- E o que quer fazer? Ser uma morimbunda e viver no lado pobre da cidade como ele? – apontou para atrás de mim.
- Cale a boca, mamãe! ‘Ele’ possui nome. E o nome dele é . E é meu namorado e a senhora irá respeitá-lo, porque ele é muito mais do que vocês dois imaginam com essa mente capitalista e individualista. – apontei para os dois. – O mínimo que deveriam ter feito era me proteger do Gabriel. Aprender sozinha? Vocês jamais me deixaram ter amizades, como queriam que eu pudesse aprender?
- , você está sendo ingrata. – meu pai falou. – Lhe demos tudo o que queria, inclusive pagar todos os luxos que aquele cretino exigia de você.
- Talvez se vocês tivessem me dito sobre ele mais cedo, não teriam gasto um centavo com qualquer luxo dele, mas tenho certeza de que não há problema nenhum, já que provavelmente ganharam o triplo com o que gastaram, quando o levaram de volta para o Brasil. – parei para respirar alguns segundos e não fui interrompida, como deveria ser por parte da pouca educação boa que recebi. – Talvez vocês sejam os criminosos com quem tenho que saber lidar, não Gabriel. – disse, rancorosa. Não consigo disfarçar a minha repugnância por meus pais. Suas expressões sérias e não afetadas, como se tudo o que eu dissesse não tivesse a menor importância.
- Essa. – meu pai apontou para mim. - Pode ser uma verdade. – voltou sua mão ao colo. – Mas você terá de aceitar, querida. Querendo ou não, você ainda depende de nós.
- Você tem duas opções, . – minha mãe olhou para atrás de mim e vi seus olhos frios analisarem-no dos pés à cabeça. – Volte para o Brasil e case-se com Matheus Stilatto, tenha uma vida próspera na vaga do escritório que arranjamos para você. Ou fique aqui como ilegal com esse pé rapado e finja que nunca teve pais. – abri a boca, chocada. Eles estavam dispostos a me abandonar como se fosse lixo? – Você tem até o final do seu curso. É melhor que veja o quão irresponsável está sendo agora e abra seus olhos para o futuro de verdade. – voltou com os óculos de grau e balançou a mão em um abano. – Vá.
- É melhor começar a documentação de desmembramento então. – os dois viraram seus olhos para mim. – Porque eu não serei filha de dois criminosos.
Dei-lhe as costas e saí do quarto com atrás de mim.
- Pela expressão deles, parece que você deu-lhes uma verdadeira lição. – disse no caminho até o elevador.
Aguardei chegarmos no carro para deixar minhas lágrimas caírem.
- O que eles falaram? O que foi? – sua voz demonstrava preocupação. Ele não entendeu uma palavra do que dissemos, já que falamos em outra língua. Provavelmente achou que estava tudo bem quando deixei o local com os dois boquiabertos.
Assim que me acalmei, expliquei todo o causo, recebendo um longo abraço de e a promessa de que ele faria dar tudo certo.
- Me dê seus documentos, organizarei tudo para você.
- Sou advogada, sei o processo...
- Você não é formada e seu visto vence daqui a um ano e alguns meses, por isso, é melhor que alguém nacional faça as coisas por você. Confie em mim, tudo bem? – suspirei e concordei.
Fomos até o dormitório, de modo que eu entreguei meus documentos conforme ele havia pedido e Kendra e Gillian logo apareceram para ficarem comigo.
- Amiga! – Kendra foi a primeira a me abraçar. – Parabéns! – pulou na cama em que estava deitada, fazendo com que eu e Gillian ríssemos. – Sei que você está em um provável luto, mas saiba que não deveria! Seus pais não são pais, são dois mamutes que não conseguiriam dançar tão bem quanto você, nem se quisessem!
- Divida suas dores conosco. – Gillian se sentou na beira de minha cama.
- Como é que você consegue transformar o ambiente engraçado e leve que eu criei em um mártir funerário? – Kendra olhou para Gillian, que encolheu os ombros. – Estou brincando, gatinha.
Assim que ouviu o adjetivo, o rosto de Gillian se transformou em um enorme pimentão vermelho, fazendo com que Kendra risse feito uma hiena.
- Deixe-me contar algo engraçado. – ela olhou para mim, enxugando as lágrimas que escorreu de seus olhos.
- Kendra! – Gillian se aproximou, segurando nela e a empurrando para longe de mim.
Vê-las discutirem entre si me fez sentir mais aliviada pela minha decisão. Agora eu tinha amigas que me faziam sorrir depois de um furacão. Fiquei observando as duas brigarem até Kendra se livrar das mãos de Gillian e gritar:
- Bob a chama de gatinha! Gatinhaaaaa! Gillian, gatinhaa!
Arregalei os olhos com a surpresa de um apelido tão inocente ser dirigido por Bob e Gillian ter aceito. A ouvi gritar de frustração e enterrar seu rosto vermelho no travesseiro de Kendra, mas rir comigo enquanto Kendra gritava o apelido correndo pelo quarto.
- Amiga, não fique triste! – Kendra me abraçou. – Mesmo que você fique ilegal, pode ficar lá na minha rua e viver lá até permitirem sua estadia por mais alguns anos, quero dizer, que mal você fará para o país? Você só é atualmente a garota da área de humanas mais inteligente do mundo.
- Falando assim, me faz parecer que devo exigir um greencard do governo americano.
- Faça isso! Por que não? – Kendra disse em uma voz alta e estridente, tirando mais risadas de mim e Gillian. – De qualquer maneira, é que está cuidando de tudo e ele não tem a fama de Deus só por causa do corpo que nem Deus conseguiu ter e ele sim. Tudo estará resolvido até o final do ano que vem, quer apostar quanto? Enquanto isso, vamos nos preparar em aproveitar o nosso último ano!
- Agora eu estou praticamente pobre oficialmente, preciso estudar mais para garantir o primeiro lugar. – me solto dos braços de Kendra, que revira os olhos e encara Gillian. – Sua vez. – apontou para mim.
- Bob disse que ele e Ace darão um jeito para garantir a sua colocação. De uma maneira mais indireta do que Una fez. – ela comentou, me recordando do caso de Una com o coordenador Willis. – Tudo o que você tem de fazer, é não perder para mim.
- Uuuuh! – Ace entrou em nosso quarto sem bater. – Briga! Briga! Briga! – falou como se estivéssemos discutindo. – Vim aqui confirmar vocês três na festa de domingo.
- Meu bem, domingo estaremos de FÉRIAS! – Kendra subiu em sua cama, acompanhado de Ace e começaram a pular animadamente, enquanto Gillian passava para minha cama, onde a tranquilidade pairava. – Vamos fazer do natal e ano novo dessas duas S’s os melhores desde que se conhecem por gente! – apontou para mim e Gillian. Nós duas trocamos olhares e abrimos um sorriso, provavelmente com o mesmo pensamento: Era inquestionável que nós duas teríamos o melhor final de ano de nossas vidas.

me buscou para passar a noite com ele, já que ficamos o dia inteiro separados com ele resolvendo o resto dos problemas para a apresentação que acontecerá daqui a um dia e os novos problemas que agreguei à sua vida. Kendra, como sempre, passaria a noite com Hans, enquanto Gillian disse que aproveitaria a última noite na véspera de provas para estudar um pouco com Bob. Eu sabia que ela apenas havia programado este estudo para que ele subisse algumas salas. Se ela queria voltar para ele, teria de mostrar à família dele que estava valendo a pena; pela maneira na qual Bob está agindo com Gillian, não me surpreenderei nem um pouco se ela pedir que ele entre na S até o final do nosso curso e ele concordar.
parou com seu carro particular para pessoas especiais em frente à entrada do campus. Enquanto eu entrava, acenou para algumas das pessoas que voltavam de seus passeios de compras de natal ou reuniões nas casas de alunos que moram fora do campus. Amanhã era o último dia de prova e aconteceria somente na parte da tarde. Assim que coloquei meu cinto de segurança, olhei para afim de cumprimenta-lo, mas ele foi mais rápido grudando seus lábios nos meus.
- Senti sua falta. – murmurou com um sorriso.
- Eu também. – respondi sem graça em resposta. O de agora, apesar de continuar sendo bastante masculino e exalasse poder para quem o visse, é bastante do que conheci há alguns meses, na primeira vez que adentrei no estúdio, acompanhante de Kendra. Se antes era fácil me perder em seus olhos , agora, nem se falava. Independente de estarmos no claro ou no escuro, um resquício do azul que eu fisgava, rapidamente parecia entrar em um coma.
- Sei que sou irresistível depois de um dia cansativo com suas amigas, mas para dirigir, preciso que você pare de me beijar. – ele sorriu enquanto mantive nossos lábios grudados.
Rapidamente me afastei, surpresa com seu comentário.
- Foi você quem não desfez do beijo.
- , , quando se trata de seus beijos, eu jamais tomarei a iniciativa para me desvencilhar. – ele acelerou, por sorte prestando atenção na rua, já que imediatamente minhas bochechas avermelharam e eu procurei por um buraco onde pudesse esconder minha cabeça.
Ao contrário do que imaginei, não fomos para um restaurante, e sim sua mansão. Ele havia programado um jantar a dois, em que ele mesmo cozinharia para mim. Enquanto o observava fatiar os legumes para o peixe que estava no forno, assistia seus bíceps prenderem minha atenção. Eu sabia que ele propositalmente havia ficado somente com seu samba-canção; ele nunca teve problemas em cozinhar de roupa, mas hoje que eu havia dito que não queria fazer nada que me cansasse para o dia seguinte, estou sendo tentada com a visão que mais gosto dele.
- Querida, desse jeito precisarei abrir a porta para você não transformar minha casa em um aquário. – ele comentou sutilmente, me fazendo sair de meu transe e limpar a baba inexistente que ele mencionou. Desviei meu olhar para a salada e comecei a mexer com ela para ter aonde depositar minha atenção. – Tem razão, eu preciso de ajuda. Vou te ensinar como gosto que esteja. – ele se pôs atrás de mim, me fazendo congelar.
e eu podemos ter transado uma ou duas vezes; talvez até três, mesmo assim, continuo tendo as mesmas reações toda vez que o sinto grudado junto a mim. Seus braços me rodearam e suas mãos se uniram às minhas, de modo que movia-as como se eu fosse sua boneca. Senti seus lábios próximos à minha orelha, principalmente sua respiração. De vez em quando, sussurrava algo que mesmo estando tão perto, eu não consegui associar com qualquer coisa compreensível para minha mente no atual estado.
Fomos interrompidos pelo timer do forno, que anunciou o peixe pronto. se afastou de mim lentamente, seguindo até o forno e retirando a assadeira. Durante sua trajetória, não consegui mover um músculo da posição que ele me deixou. Daí pra frente, tudo o que fiz foi por puro extinto, porque estava definitivamente fora de órbita.
O jantar foi agradável, conversamos sobre a dança, quando eu voltaria a dançar – de acordo com ele, assim que voltássemos da festa de final de ano – e o que ele estava fazendo com meus documentos.
- Verifiquei se é possível estender a sua permanência sem que insertamos um matrimônio no meio. Pelo que entendi, se você conseguir fazer inscrição em um novo curso, o governo poderá oferecer a extensão do seu visto de estudante. Mesmo assim, abri um requerimento para o visto de turista no seu consulado. Será necessário que você vá em um ou dois dias, mas lhe acompanharei até onde puder. – ele se levantou e pegou algo em sua mochila, que costumava carregar no dia a dia, mas que nunca me pareceu cheia ou com algo que não fosse papéis e sua carteira. De lá, ele retirou uma pasta transparente de plástico e trouxe até mim, me entregando. Ao abrir, pude ver alguns papéis sobre um banco americano. – Transferi todo o valor da sua conta atual para esta. Seus pais provavelmente tentarão retirar todo o valor que você tinha, mais o que eles depositaram para pressionar sua decisão. Abri essa conta no meu nome para você, enquanto você não tem um visto de permanência que permita a abertura de contas. Você quem deve ligar para o banco antigo e cancelar a sua conta, então tente fazer isso amanhã.
Eu nunca me lembraria de pensar no meu dinheiro aplicado. É verdade que meus pais provavelmente tentariam, se já não tentaram, extorquir o meu dinheiro de mim. A atitude de foi muito sensata e jamais poderei agradecer a ele por ter aberto uma nova conta em seu nome para colocar o meu dinheiro.
- Obrigada. – apertei a pasta em minhas mãos. estendeu a dele através da mesa e tocou em minha.
- Eu disse que resolverei tudo. Não se preocupe. – deu uma piscadela, uma que eu descobri achar muito charmoso, principalmente quando vem com o meio sorriso do tipo galã de novela.
Respirei, pela primeira vez em minha vida, tranquila. Jamais imaginaria que sair das regras estipuladas desde pequena me faria algum bem; as poucas vezes que imaginei, achei que seria judiada como os nazistas faziam com os judeus. Não consigo evitar abrir um sorriso ao ver que mesmo sem meus pais e estando contra eles, não estou com nem um resquício de medo de enfrentar a vida.


No dia seguinte eu e iríamos dar uma passada no estúdio para ele receber o resto dos alimentos para o Roof, lanchonete do prédio. Conforme havíamos combinado, Ace, que tinha aulas para dar pela manhã me levaria na altura do almoço para a universidade, já que nós teríamos a última prova do ano antes da época de festividades.
Assim que ele estacionou, enquanto ele já saía do carro, preparava minha bolsa com os livros que havia carregado para estudar um pouco pela manhã. Ao fechar a porta e procurar por ele, já estranhando não ter recebido nenhuma ajuda, o vi parado em frente ao estúdio com uma garota que nunca havia visto antes no estúdio. Seus cabelos eram tão compridos que as pontas da parte de trás quase chegava à cintura. O sorriso era perfeito e os dentes brancos pelo tratamento dentário, seu corpo era de uma dançarina: as pernas e os braços fortes, a barriga lisa, sem sinal de qualquer gordura e os seios moderados, daqueles que ficariam perfeitos em um decote ousado, ao mesmo tempo que não a torna vulgar. Talvez seja uma aluna antiga? Ou uma amiga de alguma instituição de dança que ele participou no passado?
Senti meu corpo congelar ao vê-la erguer seus longos braços finos e torneados, e dar um forte abraço de quem já o conhece há anos. Antes mesmo que eu pudesse me aproximar para fazer o que Kendra chama de “marcar território”, a garota – que se parece com uma Barbie que tive quando criança -, grudou seus lábios nos dele em um beijo que eu demorei meses para conseguir ter.

Capítulo 17

Encarei os dois pelo tempo que ficaram com seus lábios grudados. Não entendi por que permaneceu parado, deixando a garota o beijá-lo. Mesmo que ele fosse pego de surpresa, ele sempre soube reagir, afastando a garota ou a si mesmo. Demoraram cerca de quarenta segundos até os dois se separarem, os segundos que mais passaram lentos em minha vida. A garota, ao se separar de , lhe enviou um olhar apaixonado, diferente das outras mulheres que se aproximaram ou tiveram qualquer relação com ele.
Caminhei lentamente em direção aos dois e só então pareceu se lembrar de minha presença. Abri um pequeno sorriso em direção à garota e não pude evitar perguntar:
- , você não irá nos apresentar?
A garota virou sua cabeleira loira em minha direção e sorriu um sorriso tranquilo, com seus braços ainda em torno do pescoço de . Olhei para ele, que estava sem reação. Não sabia o que fazer, talvez o susto tenha sido muito grande.
- Ah, olá! – a garota disse, desfazendo um dos braços que estava ao redor de . – Sou Aspen, noiva de . – ergueu a mão em minha direção.
Talvez eu não tenha ouvido direito. Ou talvez ela tenha se enganado. Enquanto ela esperava que eu retribuísse seu cumprimento, demorei o dobro de tempo para erguer minha mão e apertar a dela com o máximo de força que consegui, que no final foi mais fraco do que dar um passo doente.
Noiva de quem?
Olhei para , que não ainda permanecia em estado de susto. Em uma maneira de confirmar a informação, abri um pequeno sorriso e disse:
- Noiva? Não sabia que você estava noivo, . – ele não respondeu. Pelo seu silêncio e sua expressão, eu sabia que não era mentira. Era uma verdade que ele escondeu de mim. – Parabéns. – anunciei assim que percebi meu papel no meio dos dois.
fez de mim o que mais abomino em minha vida. A razão por odiar Gabriel, a razão por meus pais serem tão indiferentes comigo e um com o outro. Fui uma amante. Uma pessoa para passar o tempo, como se fosse um cachorrinho. Agora que sua noiva voltou, eu voltaria para o limbo. Dessa vez, eu não tinha ninguém que me ajudasse como aconteceu quando descobri sobre Gabriel. Me sinto ridícula. Achei que havia me livrado desse carma horrível, mas parece que minha vida é feita de pessoas falsas e mentirosas.
- E aí, baixinha... Ah. – Ace apareceu atrás de mim, mas não me pareceu alegre ao ver a tal de Aspen atrás de mim.
- Oi, Ace, achei que você só dava aula na parte da tarde. – a garota falou, como se o conhecesse há tempos.
Que bobeira, a minha. É claro que ela o conhece. Se é noiva de , todos sabem sobre a verdade, apenas esconderam de mim.
- Não, ajudo na manhã também. – ele fala, sem emoção. – Erm, baixinha, vamos, vou te levar.
Eu precisava de algumas explicações e sei que exigir de não adiantaria de nada. Ele ainda permanecia calado e provavelmente não diria tudo o que eu quero ouvir, como, por exemplo, a verdade. Me despedi de Aspen e deixei para trás, dando-lhe as costas com meu coração doendo cada vez mais a cada palpitada. O enorme carro de Ace estava estacionado na frente da vaga de Ace, então não precisei andar muito. Enquanto ele dava a partida, observei Aspen voltar sua atenção para e abraçá-lo enquanto ele continuava sem se mexer.
Ace não disse nada por longos minutos. Acho que é a primeira vez desde quando o conheci que ele não diz muito ou inicia uma conversa a cada meio segundo. Virei meu corpo para ele, esperando que ele começasse a explicar a situação, mas era claro que ele não diria nada.
- Então. – comecei a falar. – Você poderia me explicar?
- Baixinha. – ele suspira. – Não é o que você pensa.
- Ela se apresentou como noiva. – senti meu tom de voz aumentar. – Noiva!
- Sim, é o que ela acha que é dele. – Ace disse, em tom urgente. – Eu não sei se sou a pessoa certa a falar. Você deveria conversar com o chefe.
- Não sei se você percebeu, mas o seu chefe permaneceu calado consentindo com toda a informação. Como quer que eu vá falar com ele? Na verdade, como quer que eu olhe para ele? Só de pensar eu já quero morrer.
- Baixinha, não fale assim. – ele olhou para mim. – Sei que está passando por um momento difícil, mas não fale da sua vida assim.
Permaneci calada o tempo inteiro depois de seu sermão. Chegarmos na faculdade e caminhei em direção à sala da prova. Gillian, ao me ver, rapidamente soube que algo aconteceu. Assim que seus olhos pegaram contato com o meu, soube que ela viria atrás de mim assim que a prova acabasse. Sem cabeça para pensar, no momento em que recebi a prova, passei os olhos pelas perguntas e a imagem das respostas em minhas anotações vieram à tona. Escrevi de qualquer maneira e em vinte minutos entreguei a prova, recebendo um olhar de surpresa do professor. Ele deu uma lida nas respostas e abriu um sorriso satisfeito, desejando-me boas festas. Abri um pequeno sorriso e me dirigi para fora da sala.
- ! – Gillian gritou atrás de mim, segurando em meu braço. – O que foi?
Suspirei. Meus lábios, trêmulos.
- Vamos para o seu quarto. – ela anunciou, percebendo que eu não poderia falar sem derramar algumas lágrimas.
Caminhamos em silêncio. Gillian sempre foi uma pessoa paciente, independentemente da situação. Adentramos no quarto vazio – Kendra provavelmente ainda está fazendo a prova – e Gillian se sentou ao meu lado. Comecei a contar sobre Aspen e a falta de reação de . Por não saber muito sobre eles, não demorei mais que dez minutos para falar; entretanto, o tempo foi suficiente para Gillian me dar um abraço enquanto tentava me acalmar do choro que finalmente deixava sair.
- Talvez seja melhor você aguardar uma explicação. – Gillian disse, depois que estava disposta a ouvi-la. – não me pareceu uma pessoa tão despreocupada com o bem estar das outras pessoas, para chegar a ter um comportamento desse. Você mesma disse que ele parecia estático de surpresa ao ser abordado pela tal Aspen.
Fiquei calada, pensando no que Gillian disse. No entanto, a imagem da noiva o beijando me perturba tanto que talvez eu sonhe com isso esta noite. Permaneci em transe por um bom tempo até sentir uma mão dar um leve tapa em minha perna.
- Pare de pensar que ele lhe trai. – Gillian usou uma tonalidade de voz que jamais havia ouvido antes. Uma mistura de aviso e nervosismo, como se estivesse brava por eu me manter calada remoendo meu nervoso, mas também precavida com minha situação.
- Este é o momento em que eu não quero saber sobre as coisas boas. Quero apenas condená-lo e viver minha vida. – desabafo minha honestidade.
- É o comportamento natural do ser humano. No fundo, você quer que ele venha até você se desculpar e explanar a situação.
Suspirei, assentindo. Era verdade. Gillian, apesar de achar que não possui nenhuma experiência amorosa, é muito mais sabida do amor do que eu. Pode ser que o fato de eu não ter tido uma relação verdadeira até então fez com que todos os anos que passei com Gabriel fossem perdidos.
Continuamos a conversar sobre meus sentimentos; nesse meio tempo, Gillian tentava manter meus pés no chão, e meus pensamentos também. Ela deve saber sobre isso quando decidiu terminar com Bob; por ser uma pessoa calculista, como a maioria dos alunos da sala S, sabe me ajudar melhor. Quando ouvia a conversa de grupos de garotas no banheiro, as achava imaturas por se iludirem demais com uma situação que nunca se realizaria. Uma vez traída não é possível voltar no tempo, ficar imaginando “se’s” é uma completa perda de tempo.
Kendra chegou depois de uma hora com o rosto vermelho. De primeira vista, achei que fosse por causa da situação, mas então ela iniciou o desabafo sobre a dificuldade da prova, e que o plano dela de subir algumas salas estava cada vez mais longe de ser completado com sucesso.
- Vocês não poderiam ser um pouco menos competitivos entre vocês? – ela apontou para mim e Gillian, representantes da sala S nessa conversa. – Quero dizer, vocês acabam prejudicando aos nós, meros mortais burros.
- Qualquer um que se esforça consegue alcançar a excelência. – Gillian falou. – Nós estudamos muito, a maioria dos alunos da B para baixo utilizam deste mesmo tempo indo a festas ou dormindo.
- Gillian, fale mais um pouco e mudo meu plano de subir de sala para arranjar um coração para você. – Kendra a olhou feio e então me encarou. – O que foi? Você esteve chorando?
- Aconteceram algumas coisas... – murmurei em uma voz rouca. Gillian quem acabou explicando para Kendra sobre e Aspen. Achei que ela fosse saber sobre os dois e se sentir envergonhada por ter escondido esse fator de mim como em várias outras situações que ocorreram; entretanto, sua reação foi tão surpresa quanto a minha quando os vi juntos.
- Eles são O QUÊ?
- Observando sua reação, você entendeu perfeitamente. – Gillian respondeu.
- Como é que ele pode fazer uma coisa dessas? Só porque a garota não estava perto, se acha no direito de fazer outra se apaixonar por ele para não ficar sozinho no meio tempo? – ela começou a andar pelo quarto de um lado para o outro, reação comum quando está indignada com algo ou alguém. – Ele não te ligou até agora? Nenhuma mensagem? Não invadiu a área dos dormitórios? – balancei a cabeça em negação. – O que está acontecendo? – Kendra colocou as mãos na cabeça. – Espere um minuto, vou averiguar a situação. – ela pegou o celular do bolso de sua calça jeans e se afastou até a janela de nosso quarto, ligando para Hans, provavelmente.
- Concordo com Kendra, pelo estereótipo de , seria plausível vê-lo tentando arranjar sua própria maneira de falar com você para se explicar. – Gillian falou, pensativa. – Talvez seja verdade o fato deles serem noivos.
- Kendra tem razão. – falei, olhando para Gillian, que desviou seu olhar para mim. – Você precisa de um coração. Urgentemente.
Vi seu sorriso sem graça enquanto Kendra voltava com as bochechas coradas.
- O quê? – perguntei, curiosa. Kendra corada depois de uma ligação não era nunca bom. Ela raramente se sente envergonhada em dizer algo.
- As coisas não estão bem para o seu lado, amiga. – ela suspira, sentando em sua cama. – Hans me disse que levou Aspen para sua mansão no almoço. Eles nem chegaram a entrar no estúdio.
Olhei para o lado, envergonhada por estar sendo tão descartada em frente a meus amigos. Aperto os lábios, segurando o choro. Eu não devo chorar por alguém que me usou.
- Vamos sair. – Kendra se levantou, pegando sua bolsa.
- Não sei se você sabe, Kendra, mas não quero sair em um momento desse. – falei.
- É exatamente porque você está num momento como esse que deve sair. Quando se está triste ou prestes a sofrer algum tipo de depressão, é necessário que você saia de um local solitário e vá com suas amigas para um restaurante ter o melhor banquete da sua vida, beber até não conseguir se lembrar do passado e tentar seguir a vida.
- Ela tem razão. Apesar de ser um tratamento estranho, tem cabimento. – Gillian se levantou, pegando sua bolsa e a pendurando em seu ombro.
Fiquei encarando as duas, tentando arranjar uma desculpa para não ir. Foi quando me recordei de minha vida no Brasil até a alguns meses atrás. Se eu estivesse passando por isso em qualquer momento até então, eu não teria duas amigas dispostas a me levarem para comer e beber em algum lugar, ouvir minhas mágoas e me ajudar a voltar a ser feliz. Não posso ser egoísta e ignorar suas boas vontades e intenções.
- Isso mesmo! – Kendra celebrou ao me ver levantar com minha bolsa.
Fomos até um restaurante perto do campus. O local estava lotado de alunos celebrando o fim do semestre e das provas. Nós teríamos algumas semanas de recesso até voltarmos para finalizar o primeiro semestre e iniciar o último ano de nosso curso. Kendra conseguiu uma mesa para nós três entre o bar e a cozinha. Ela paquerou alguns grupos de garotos que acabaram cedendo para nós três, visivelmente reconhecidos sobre eu e Gillian.
- Eu já vi de muito em minha vida, mas as duas melhores alunas do ano no mesmo bar que eu prestes a encher a cara é a coisa mais inédita que irei presenciar! – um garoto com seu cabelo brilhante com o tanto de gel que usava para segurar seu topete olhava para nós duas maravilhado. – Me deem a honra de tomar um shot com vocês?
Eu e Gillian nos entreolhamos. Kendra celebrou a ideia de recebermos uma rodada de bebida gratuita. Bem, nós viemos para beber, afinal.

Ace chegou um tempo depois. Parece que ele havia ligado para Kendra, que acabou denunciando nosso paradeiro para ele. Ficou assustado por ver eu e Gillian gargalhando tão alto, mas então, como típico de Ace, ele se uniu a nós ao invés de dar-nos um sermão. Por um longo tempo, me esqueci de e sua noiva, Aspen. Quando sua imagem surgia em minha mente, eu apenas o apagava com mais álcool. Ace e Kendra mandavam lanches para eu e Gillian forrarmos o estômago. Se nós duas somos as melhores com os estudos, os dois eram os melhores com a bebedeira.
Saímos do bar quando já estava claro novamente. Nunca permaneci tanto tempo dentro de um estabelecimento desse como hoje. Inacreditavelmente, não achei insuportável como imaginava que era. No caminho para o campus, as ruas ainda estavam um pouco vazias devido ao horário – talvez sete da manhã? – Kendra e Ace riam tão alto que não ficaria surpresa se alguém quisesse nos processar por não respeitar a lei do silêncio.
- Agora eu vou falar! – Ace, que não havia parado de falar até então, gritou à nossa frente, cambaleando com sua garrafa vazia. – Eu acho que você não deve desistir do . – ele apontou para mim.
- Huuuuh? – Kendra gritou para ele. – O usou a , quem não deveria desistir é ele, dela!
Ace balançou a cabeça, já que sua capacidade de falar não conseguia seguir sua mente no momento. Deu um gole de ar da garrafa vazia e fez uma careta como se houvesse acabado de tomar algo muito forte.
- Aspen não é mais noiva dele. – Ace disse, embriagado. – Quando voltou para cá, ele ainda estava noivo dela. O coitado achava que ela voltaria assim que terminasse a turnê em que ‘tava’, mas ‘quanu’ você é um bom dançarino, as ‘coisa’ ‘acontece’ muito rápido e você ‘num’ tem tempo pra pensar em se dedicar à sua vida pessoal. É tudo muito arriscado, se alguém te chama para entrar ‘num’ novo projeto importante, só um louco como o recusaria.
- E o que é que isso tem a ver com a , criatura? – Kendra se sentou no meio fio ao lado de Gillian, que provavelmente estava entrando em seu estado de ressaca, mesmo não tendo dormido. – Ela não tem nada a ver com as escolhas e ilusões do !
- Quer fechar essa boca de tubarão e me deixar falar? – Ace apontou para Kendra, que resmungou algo. – Eu to ‘tentanu’ falar ‘pcês’ que o cara é inocente! – bufou e fechou os olhos, aparentando um sonâmbulo por continuar falando: - Aspen começou a fechar uma turnê atrás da outra, saca? E inventava desculpas para o , ‘tentanu’ explicar que não dava pra ‘voltá’ e casar com ele. Depois de um ano ‘esperanu’ a quenga, ‘a gente convencemu ele’ a terminar tudo. E ele ‘terminô’.
- Sua dicção está absolutamente horrível. – Gillian resmungou. Não podia negar que também estava perturbada com os erros que cometia ao falar, mas o interesse no conteúdo era muito maior que meu problema com a gramática.
- Você quer dizer que ela voltou sabendo que ele havia terminado com ela? – Kendra perguntou, fazendo Ace balançar exageradamente a cabeça para cima e para baixo. – Então por que não reagiu ao beijo dela e deixou pensar o que ela quisesse? Por que ele não negou quando ela se apresentou como noiva dele?
- Calma. ‘Cê’ ta ‘falanu’ muito rápido. – Ace levantou a mão com os olhos ainda fechados e pausou por um segundo, provavelmente para processar as perguntas feitas. – O cara acabou de ver a pessoa com quem ele queria casar! A mulher desaparece e reaparece do além como os fantasmas do Supernatural e vocês não querem que ele entre em estado de choque?
Ace tem razão. Foi o mesmo choque que eu senti quando Gabriel surgiu do nada aqui nos Estados Unidos. Eu estava em um romance com e de repente tinha de lidar com um relacionamento que já praticamente estava acabado. Olhei para o céu ainda mais claro de quando havíamos saído do bar/restaurante e minha mente clareou tanto quando ele. não desistiu de mim quando soube que Gabriel estava aqui. Além do mais, se ele disse que havia terminado o noivado com Aspen muito antes de me conhecer, então não devo condená-lo por não ter me dito, afinal, ela era um passado que ele queria esquecer.
Olhei para Gillian, que já estava adormecida sentada no meio fio ao lado de Kendra e Ace, que estavam na mesma situação deplorável que ela. A animação de ver tudo melhor fez com que não sentisse minha ressaca da maneira que os três, mas não pude deixar de ignorar por muito tempo a dor de cabeça e de vista horrível que tive assim que me sentei ao lado de Ace e deixei minha cabeça cair em seu ombro.


Olhei para a mansão de à minha frente. Logo depois que acordamos pelos policiais da vigilância que eram contratados pela universidade para rondar o bairro, fomos para nossos respectivos quartos. Eu e Gillian fomos tomar um banho enquanto Kendra havia capotado na capa e parecia morta, já que nada nela se mexia com exceção de seu peito, devido a respiração. No banho, contei que não queria desistir de e contei o que Ace havia dito, já que ela não se recortada com clareza sobre o assunto, apenas que ele não poderia ser escolhido para ser o orador da turma dele na formatura. Depois que lhe expliquei tudo, ela concordou que o mais sensato de mim seria não desistir.
Assim, tomei a coragem de entrar na área dos dormitórios masculinos pela primeira vez e correr até o quarto de Ace, que, assim como Kendra, estava jogado na cama desmaiado. Bob tentou o acordar com um copo de água na cara, mas Ace é muito mais persistente em continuar dormindo do que ele em acordá-lo. Assim, Bob acabou me levando até a casa de Ace, por ‘me dever uma’.
- Vá logo. – ele disse, me tirando do meu transe. Concordei com a cabeça e desci de seu carro.
- Obrigada pela carona.
- Que seja. – ele falou. – Arranje uma para voltar. Ace provavelmente só acordará no fim da tarde, então se terminar antes de disso, é melhor chamar um táxi.
- Tudo bem. Obrigada.
O vi se afastar e assim que virou a esquina do condomínio, segui até a porta da mansão e bati sem hesitar. Para minha surpresa, quem abriu não foi ou seus empregados, mas sim Aspen, que me olhou ainda mais surpresa que eu.
- Olá, hum...
- . – respondi. – Desculpe chegar tão cedo em um sábado.
- Não, tudo bem. Você veio sozinha? – ela colocou a cabeça para fora e procurou por alguém.
- Carona.
- Ah... Bem, entre então. – empurrou a porta para trás e me permitiu entrar na mansão que já conhecia bem. – O não está, ele foi bem cedo para o estúdio para finalizar tudo para hoje à tarde.
É mesmo. Hoje era o dia da apresentação. Era claro que não estaria aqui, o que era ótimo para meus planos.
- Eu desconfiei, mas não é ele a pessoa com quem gostaria de falar. Na verdade, você tem um tempo disponível agora? – olhei para Aspen, que me olhou com suas sobrancelhas arqueadas.
Ela provavelmente jamais desconfiaria sobre o assunto que gostaria de falar. Ficou me encarando por um breve tempo, até dizer:
- Claro, me acompanhe no café da manhã. – e me deu as costas, caminhando à frente até a cozinha. Respirei fundo e tentei acalmar as batidas do meu coração, que estavam tão acelerados que possivelmente corria risco de ter uma parada cardíaca.
Se tudo ocorrer conforme planejei, a guerra está praticamente declarada.

Capítulo 18

Aspen é o protótipo de mulher perfeita. Seus cabelos louros, mesmo desgrenhados, a tornava ainda mais linda. Estava vestindo uma baby-doll e regata; me lembrou as personagens de seriados típicos americanos, com aquela bunda lisa e sem nenhum resquício de estria. Além disso, parecia não usar sutiã, o que comprovava minha teoria de seus seios serem do tamanho perfeito. Caminhou à minha frente calada até a cozinha. Perdi tanto tempo analisando seu porte físico que mal olhei para os lados, apenas para me certificar de que ela havia voltado de vez para .
- Você quer beber algo? Preparei um detox, mas não é do agrado da maioria das pessoas. – apontou para uma bebida verde escura em um corpo de vidro na bancada repleta de guloseimas que sempre tem em sua casa, já que acha o café da manhã a alimentação mais importante do dia.
- Uma água. – respondi como se fosse convidada. Para dizer a verdade, responder dessa maneira me fez sentir um pouco ofendida. Recentemente, eu era mais moradora da mansão do que ela, contudo, é bastante claro quem parece a dona da casa e quem parece a visitante. Por esta razão, dei-me a liberdade de me sentar na mesa de jantar localizada no ambiente ao lado da cozinha, fazendo com que ela viesse até mim com nossos copos e se sentasse à minha frente.
- Você não precisa ir para o estúdio também? disse que você é uma funcionária lá. – ela olhou para mim com descaso. – Irei para lá depois do café, não sou tão apressada quanto ele, mas há um carro na garagem; você pode pegar carona comigo.
“Então esse é o tipo de relacionamento que noivos têm.” Pensei. Aspen pode chegar e usar de tudo o que é de por direito. Mesmo sem um certificado comprovando que ela em breve será dona por direito de todos os bens, eles já se comportam como se fossem casados. Por um milésimo de segundo, me perguntei se deveria estar ali mesmo, tentando provoca-la ou mostrar que quero acabar com seu relacionamento. Suspirei, me acalmando. Não posso me precipitar e me colocar como a vilã do noivado deles; se eu pensar assim, não terei coragem de fazer o que vim fazer. Eles nem são mais noivos de verdade. Me recordo do que Kendra disse.
- Você não tem ideia da razão de eu estar aqui? – perguntei, tentando não coloca-la contra a parede tão cedo. Como uma boa advogada, eu devo primeiro analisar o campo, para em seguida atacar.
Aspen inclinou a cabeça para o lado, como se estranhasse receber uma pergunta dessa. Em seguida, suspirou e balançou a cabeça, concordando:
- Bom, não irei negar. Eu sei porque você está aqui.
Não sei se deveria me sentir aliviada ou mais nervosa. Por um lado, diminuiria bastante minha introdução ao assunto; por outro, ela provavelmente já estava preparada para debater comigo sua posição e a minha na vida de .
- Sei que agora é um momento muito importante na vida de . – ela começou a falar. – Você não é a primeira pessoa a ficar preocupada com ele, acredite. Ouvi um enorme sermão de Violet quando mencionei meu retorno.
Violet? Violet sabia de tudo?
- Eu fiquei sabendo que você é uma pessoa que já faz parte do grupo, por isso estou disposta a ter essa conversa com você. Se a inseriu no círculo de amizade dele, é porque confia em você.
Círculo de... Amizade?
- Espere. – levantei uma mão para ela. – Violet sabia sobre o seu retorno? O que você sabe sobre mim?
Aspen demorou mais um tanto para me responder. Acredito que nossa conversa não está seguindo o mesmo rumo.
- Eu liguei para Violet há algumas semanas perguntando se estaria por aqui. Minha turnê acabou e eu finalmente tenho tempo me dedicar ao nosso relacionamento como ele queria. O fato de eu ter me afastado por muito tempo causou uma sensação de repudia da parte de Violet, que sempre o considerou como um irmão.
- Mas disseram que o noivado de vocês... – balancei a mão para não dizer ‘acabou’. Mesmo ela sendo a inimiga, eu ainda era polida demais para ser insensível. Aspen abriu um pequeno sorriso e concordou com um aceno de cabeça.
- e eu sempre tivemos uma relação grudada. Nós começamos a namorar quando ainda estávamos no ginásio, então quando se passam anos e você não se separa, acredita que será para sempre. Entramos juntos no grupo de dança em Nova Iorque e participamos de várias temporadas. E então chegou um ponto em que já não tinha mais interesse algum em se apresentar para os outros. – ela o queixo na mão, cujo braço pendia sobre a mesa. – Muitas pessoas o bajulavam; ele realmente havia chegado ao ápice da carreira muito cedo, mas ninguém desconfiaria que ele iria se aposentar tão rápido. Com o número de pessoas ao redor dele dizendo que ele deveria pensar em dar algumas palestras a novos dançarinos, ele achou que a missão dele não era dançar, mas sim ensinar os outros a dançarem. Acabamos nos separando, porque eu ainda gosto de estar no palco. No início nossos relacionamento era como sempre foi: continuávamos conversando, mantendo contato, falando sobre nosso dia a dia; eu voltava alguns dias de folga para me encontrar com ele, matar a saudade. E então as coisas foram apertando para mim. Eu não tinha mais ele para dividir as despesas e tinha de pegar mais turnos na temporada, se quisesse guardar o meu dinheiro. Comecei a diminuir as vezes que vinha até parar. Eu sabia que não se importaria de me esperar, por isso não me arrependi do meu ato, mas não sabia que os nossos amigos ficariam do lado dele. – ela abriu um pequeno sorriso, encarando a mesa. – Ele nunca disse “vamos terminar”, apenas que gostaria de seguir sua vida livremente. Quando uma pessoa é indireta assim, você coloca na sua cabeça que nada terminou, apenas deu um tempo. Foi por isso que voltei.
- Você voltou depois um enorme tempo afastada dele e quer se casar?
- Vocês falando me faz pensar que pareço alguma aproveitadora. – ela deu uma risada. – é forte. Quando ele quer algo, ele consegue ter. Eu não vim para cá porque sei que agora ele tem um negócio próprio e estabeleceu uma vida econômica estável. Eu vim porque quero realizar um plano que temos feito desde nossa adolescência.
Ficamos caladas por um tempo trocando olhares. Aspen teve um passado ótimo com , pelo que eu entendi. Eu não deveria ter ido tão a fundo, ou ela não deveria ter dito tanto. Se meu relacionamento com Gabriel fosse verdadeiro, eu não gostaria de voltar para o Brasil e uma garota com quem ele tenha se relacionado no meio tempo aparecesse achando que tem o direito de interferir em nossa relação; no entanto, não posso desistir da minha felicidade. é minha única saída para ser feliz. Desisti de praticamente tudo para permanecer ao seu lado, não posso deixar que Aspen estrague tudo.
- Eu não vim para lhe dar qualquer lição sobre seu retorno na vida de . – comecei a falar, vendo-a me dar a mesma atenção que lhe dei enquanto estava falando. – Contudo, vim mostrar meu interesse em não fazê-la suceder com seu plano de casar com ele.
- O que está querendo dizer?
- e eu estamos em um relacionamento. – tento não parecer nervosa e controlo meu tom e velocidade da voz para não demonstrar nada. – Não é tão sério quanto o seu, mas ainda assim é um relacionamento de grande importância. Para ser franca, nunca mencionou sobre possuir uma noiva, um erro dele. Mesmo assim, nosso relacionamento está em um nível em que não posso desistir assim, tão facilmente.
Aspen encostou suas costas no encosto da cadeira, me olhando séria.
- E qual é o seu nível de relação com ele?
- Ele me chamou para morar com ele. – menti. Na verdade, não menti. Em nossas conversas sempre deixou claro que assim que eu me graduasse e não tivesse um local para viver, eu deveria vir ficar com ele. – Mas não aceitei, porque assim como você, acredito que devo finalizar o que comecei. – suspirei, me mexendo na cadeira. – Eu deveria me sentir envergonhada por dizer isso à mulher que está ou foi noiva do homem com quem estou me relacionando, mas não estou. Vim aqui para reivindicar meu direito como, hum, atual namorada dele. – olhei francamente em seus olhos e, com toda a coragem do mundo, disse: - Eu não vou desistir do .
Aspen não pareceu gostar do meu discurso. E então, sem nem hesitar, soltou uma gargalhada enorme e relaxou seus músculos até então rígidos.
- Eu não entendo a razão de sua risada. Fui bastante séria no que disse. – mencionei, ligeiramente ofendida.
- Sim, sim, me desculpe. – ela limpou uma lágrima que escorria devido à risada. – É só que você me pareceu tão séria que não pude evitar descontrair, mas tem razão, fui bastante insensível. – ouvi seu suspiro e então me observar por mais algum tempo: - Eu menti quando disse que voltei para casar com .
- Como?
- Foi o que ouviu. – ela olhou para o lado externo da casa, onde haviam condôminos se divertindo em seus jet-skys no lago. – Para ser sincera, eu tive a intenção de me casar com ele, se ele ainda estivesse disposto, mas parte de mim já sabia que isso não iria acontecer. Foram mais de dois anos separados, o suficiente para ele ter se apaixonado por uma nova mulher. – ela abriu um pequeno sorriso e soltou um novo suspiro enquanto mexia em seu copo vazio. – Eu achei na obrigação de voltar e colocar o devido ponto final que nosso relacionamento merece. Violet já havia me falado que ele estava em algo novo, mas seu aviso era apenas uma parcela de sua vontade em me ter de volta. Ela não poderia exigir que eu não voltasse, porque sempre acreditou que eu e não terminamos da maneira certa.
Vi seu olhar em mim e me avaliar por um tempo.
- Ontem, assim que você foi embora, pareceu perder o chão. Ao mesmo tempo em que não queria me ofender depois de tanto tempo separados, não queria te perder. Me trouxe para cá, já que eu não teria outro lugar para ficar, e me explicou sobre vocês dois. Eu sei quem é você, . E sei qual é o seu papel na vida de . Já sabia quando me apresentei à você como noiva dele.
Abri a boca, em parte surpresa, em parte sem graça.
- Desculpe por testá-la dessa maneira. Eu gostaria de me certificar que você não seria o tipo de mulher por quem me arrependeria de deixar nas mãos. Quando me disseram que você era a melhor aluna da turma de Direito em Harvard, não pude deixar de achar que poderia dificultar e pressionar um pouco as coisas, já que você consegue levar tão bem sua vida naquele inferno. – ouvimos o som da porta se abrindo. – Bem, você passou. Vou me arrumar, tenho de pegar o avião esta tarde e uma amiga minha está para chegar. Vocês dois tem um pouco sobre o que conversar. – ela se levantou. – Cuide bem dele, , ou terei de voltar para exigi-lo de volta.
- Não será necessário. – disse, me levantando e vendo parado atrás com os cabelos bagunçados e a respiração acelerada.
- Ah! – Aspen olhou para mim uma última vez. – Eu menti sobre ele ter ido ao estúdio também. – abriu um pequeno sorriso e seguiu para fora da cozinha, dando dois tapas no ombro de , que não desviou o olhar de mim.
- ... – ele começou a falar, mas o interrompi.
- Ela já me contou tudo. – peguei os copos vazios de cima da mesa e os deixei na pia. – Obrigada por ser honesto comigo. – não pude evitar exalar mágoa. Dei-lhe as costas e caminhei para o lado externo da casa, sentindo o frio do inverno me pegar desprevenida.
- Não! Me ouça, por favor. – ele segurou meu braço, impedindo de dar mais um passo.
O vi me encarar com os olhos de quem estava para perder algo precioso e meu coração se aqueceu o suficiente para me fazer não sentir mais frio. estava tão desesperado em me fazer ouvir sua versão da história que mal percebeu que eu apenas estava tentando-o fazer sofrer um pouco por ter me feito passar ontem o dia e madrugada inteira na agonia.
Me sentou na cadeira à beira da piscina e suspirou antes de começar a falar:
- Eu e Aspen tivemos um passado juntos. Nos conhecemos quando ainda éramos crianças e vivi com ela sempre desde então.
- Vocês estão noivos.
- Estávamos. – me corrigiu, como gostaria que fizesse. – É verdade, nós éramos noivos, mas todo o tempo separados fez com que abrisse meus olhos para ver que ela não era a pessoa para mim.
- Se uma pessoa com quem viveu desde pequeno e conhece tudo de você não é a certa para você, então eu que acabei de lhe conhecer, muito menos. – tento me levantar, mas ele me impede. Passa uma mão no rosto, impaciente:
- Por que você dificulta tanto... , olhe para mim. – segurou meus braços, fixando meu peso em cima da cadeira, de modo que não tinha outra escolha a não ser encará-lo. – Eu estou com você agora. Mais ninguém. Só você.
- Prove.
- O quê?
- Prove que você só está comigo.
- Como é que você quer que eu prove isso? – ele solta uma risada de descrença.
- Diga que me ama.
parou de sorrir no mesmo instante. Olhou para mim, desacreditando no meu pedido.
- Se você não consegue fazer isso, então...
- Não, espere! – ele me impede de levantar novamente. – Sente-se.
Me sentei lentamente e o observei se aproximar de mim, seu braço direito rodeando minha cintura e a outra subindo de meu braço para meu rosto. Permanecemos calados apenas encarando o outro quando ele, de repente, sussurrou muito perto de mim:
- Eu te amo.
- Mesmo perto, acho que ainda não consegui ouvi-lo bem. – abro um pequeno sorriso, vendo-o finalmente perceber minha real intenção.
- Se quiser ouvir novamente, terá de dizer primeiro. – vi seus olhos descerem para meus lábios e então de volta para meus olhos.
- Você não está em condição de exigir qualquer coisa. – falo.
- Para ser sincero. – o vi abrir um sorriso. – Eu nunca estive em uma condição melhor para exigir ouvir isso de você.
Solto uma risada e subo minhas mãos até seu rosto, segurando-os bem em minha direção:
- Eu amo você, . – e beijei seus lábios.

- Meu Deus, dá para desgrudar dela por um minuto? – Kendra empurrou de perto de mim. – Ela disse que te ama, ótimo, deixe-me contar uma novidade agora, . – ela levantou uma mão quando ele foi retrucá-la. – Não será a última vez que irá ouvir, então não precisa colar nela com super bonder, porque ela não dirá isso em público.
Nós estávamos no estúdio, onde as pessoas ainda me olhavam em parte desconfiadas. Aparentemente, a turma de havia conversado com seus alunos explicando sobre o acontecimento e quem eram meus pais. Não sei como a história foi contada, mas às vezes sinto que as pessoas estão com um olhar de dó ou consideração por mim.
O evento havia começado e tudo estava indo muito bem até Cori dizer que estava passando mal. Ela definitivamente não parecia bem e , como um bom patrão, não hesitou em pedir que ela fosse para um hospital verificar o que estava causando tamanho mal estar. Tan acabou a levando, mas o espaço na agenda da apresentação ficou em branco. A verdade é que Cori e Tan iriam dançar para ocupar o espaço que eu deveria dançar com .
Enquanto observava-o tentar arranjar algo para encaixar nos poucos minutos que agora estava sobrando, o via ter um mau momento por ninguém ter coragem de se apresentar sem ter treinado antes.
- E se você fizer uma pausa? – Pietro sugeriu.
- Pausa de menos de dez minutos? – Hans questionou, como se a ideia fosse absurda, o que realmente era. – Coloque Ace para enrolar no palco.
- Vocês realmente acham que eu sou um palhaço, não é? – Ace olhou para Hans e Bob, que havia aprovado a ideia com um aceno de cabeça. – Sobre o que eu falaria?
- Sei lá, sobre o estúdio, as inscrições, os estilos das aulas...
- Eu danço. – falo alto depois de pensar muito no assunto.
Senti todos os olhares se desviarem para mim. Quando levantei meu rosto para encará-los, vi as expressões de surpresa estampados em seus rostos.
- Você o quê? – perguntou.
- Eu danço. – repeti, vendo-o abrir um enorme sorriso.
- Mas... – Violet começou a falar, mas ele a cortou.
- Então está decidido. Vi, preciso que arranje uma roupa para , nós iremos discutir sobre a dança e já nos encaminharemos para o backstage. – pegou em minha mão e me puxou em direção ao segundo andar, até sua sala. – Você tem certeza?
- Bem, essa era a programação inicial de qualquer maneira...
- Não vou perguntar novamente para não lhe dar a chance de voltar atrás. – ele abriu um sorriso. – Estou feliz que está disposta a tentar.
- Se não der certo, você deve prometer não me pressionar mais a dançar. – falei, apontando para ele, séria. Ouvi sua risada; levantou a mão e concordou.
- Tudo bem, mas se você gostar, deverá admitir. – ele sorriu. – Vamos dançar aquela música que dançamos uma vez juntos. Você já conhece a melodia; vamos ver ser sua memória é mesmo fotográfica.
A dança seria no fim da tarde, um tipo de chave de ouro por ser uma dança completamente profissional. Até lá, eu fiquei assistindo o vídeo da dança de com uma dançarina que não conheço. Ninguém ousou atrapalhar minha linha de raciocínio, sequer comi direito no almoço. Uma hora antes da apresentação, fui para o backstage, onde Kendra e Violet prepararam meu cabelo e maquiagem; Gillian me ajudou a colocar a roupa da dança e praticar minha respiração. Violet havia dito que aquele era uma das roupas de dança dela, por isso, quando vestiu perfeitamente em mim, fiquei um tanto feliz por ter um corpo parecido com o dela, que acho tão lindo.
- Ok – Kendra disse assim que Violet saiu para me dar um tempo de concentração antes de entrar no palco. -, mandou não te perguntar se tem certeza, mas não tenho como evitar. Você tem certeza, não é?
Não pude responder. Estou tão nervosa que se for para abrir a boca, direi que ‘não’, então me limitei a apenas balançar a cabeça.
- Ótimo, porque é o que estou sentindo de você. – ela disse, sorridente. – Não acredito que irá dançar, você irá brilhar!
- Dois minutos. – ouvi a voz de Violet do lado de fora. Respirei fundo e me levantei.
- Boa sorte. – Gillian sorriu, apertando minha mão. – Será maravilhoso observá-la dançar. Bob me disse que apesar de ser iniciante, é muito boa dançaria, por isso, espero por um grande espetáculo.
- Darei meu melhor. – sorri, nervosa.
Caminhei para o lado de fora do camarim de mãos dadas com Kendra e Gillian, como se precisasse que elas me guiassem até o palco, senão não sei se conseguiria ir sozinha. Ao chegarmos, esperava com uma roupa diferente da presta que eu estava acostumada. Na verdade, estava muito bonito. Ainda mais do que já era. A roupa acentuava seu corpo escultural e o cabelo estava arrumado com um gel; parecia um dançarino como a da apresentação que me levou no lado rico da cidade.
- Uau... – foi o que disse ao me ver. Limpou a garganta e sorriu: - Quero dizer, você ficou maravilhosa.
Abri um pequeno sorriso. Ouvi a voz do apresentador começar a introdução de nossa dança. Kendra, Violet e Gillian se retiraram para eu e termos o nosso tempo antes de entrarmos no palco.
Sua mão segurou minha cintura e nos aproximou. Ele encostou sua testa na minha, acalmando meu coração por estar tão perto.
- Apenas dance.
Sorri, saber que estava para sentir novamente a liberdade de me movimentar, algo que nunca tive até me livrar dos meus pais, me fez ficar um pouco mais animada. Ouvi as palmas do público que ansiava por uma ótima apresentação e quando nossos nomes foram chamados, respirei fundo e subi no palco, pronta para deixar a antiga ingênua, antissocial e sem amigos para trás.

Capítulo 19

A luz apontada para nós dois fazia com que o público fosse praticamente sombras no espaço de dança disponível para nós dois. Tudo o que me lembro do momento, é de sorrir enquanto deixava a energia sair pelos movimentos que copiava da maneira mais perfeita possível do vídeo que assisti inúmeras vezes durante a tarde. Não me lembro da expressão de durante toda a dança, exceto no final, quando me deparei com seus olhos e seus lábios se uniram nos meus, por causa deles não pude ouvir os aplausos e assobios que Kendra disse ter causado alvoroço. Os sete minutos e meio de apresentação que nós tivemos de fazer ao mesmo tempo que passaram lentamente, foram tão rápido que me senti querendo repetir o momento.
- Caraca, baixinha, desde quando você consegue fazer esses movimentos? – Ace escancarou a porta enquanto eu tentava tirar todos os grampos do meu cabelo sozinha. Atrás dele, Gillian, Kendra e outras dezenas de pessoas começaram a falar sem parar sobre minha performance e me senti muito orgulhosa, como nunca estive antes.
Gillian e Kendra trataram de tirar meus grampos enquanto eu passava o creme no rosto para tirar a maquiagem e deixar Kendra fazer algo mais casual para eu sair do camarim. se juntou a nós depois de alguns minutos, voltou à roupa escura e os cabelos mais bagunçados, tinha um sorriso nos lábios que eu achava ser capaz de enxergar todos os seus dentes.
As palmas tomaram conta do camarim e as pessoas pareciam ter esquecido um dia terem sentido algum rancor por mim, já que seus assobios e gritos eram tão animados, que me fez, pela primeira vez, me sentir parte daquilo tudo.
O evento foi um sucesso. Um grande número de pessoas realizou a inscrição hoje mesmo e outras prometeram voltar depois do recesso para garantir suas vagas. As apresentações pareceram conquistar o público e os moradores do bairro ficaram felizes por terem onde colocar suas crianças durante a parte do dia em que não tinham aula. As próprias crianças e jovens estavam animados para o início das aulas no ano que vem.
Conforme combinado, os alunos que permaneceram na cidade e não retornaram para suas famílias seguiriam para a mansão de nos carros disponíveis. Durante o caminho, não parava de falar em nossa apresentação e em como eu havia dançado perfeitamente.
- Você estava melhor do que eu imaginava. – ele sorria. – O que você achou?
- Hum... – olhei para o lado.
- Lembre-se de nossa promessa.
- Tudo bem... – abri um pequeno sorriso. – Não foi tão mal.
- Seja direta... – ele provocou.
- Achei uma boa experiência.
- Que você faria de novo... – ele começou a falar, seu sorriso estampado nos lábios sem nenhuma intenção de esconder a vontade de ouvir algo que jamais diria antes de conhecê-lo.
- Eu adoraria dançar com você em alguma oportunidade futura.
- Segunda. – ele respondeu.
- Não, obrigada. Muito cedo.
- Não foi uma pergunta. – ele olhou para mim. – Dançaremos sempre juntos.
Seu sorriso unido de sua vontade de permanecer ao meu lado pela eternidade me pareceu uma conjunção muito fofa vinda de um homem adulto. Abri um pequeno sorriso e não foi possível provoca-lo para ver se era possível extrair mais desse que eu tanto adoro.
- Ah, você já decidiu por mim, então?
- Eu já decidi sua vida inteira por você. – ele respondeu, com um sorriso maroto em seus lábios. – Ela será muito boa, não se preocupe.
- Se é você quem planejou, tenho certeza que será. – finalizei nossa conversa, ciente de que qualquer lugar em que eu esteja com ele, dificilmente será miserável.

Apesar da mansão ser de , assim que chegamos o local estava lotado. Aparentemente, Violet havia vindo mais cedo com sua namorada e Pietro para manter a ordem e a regra sobre o terceiro andar, exclusivo de .
No entanto, assim que entramos no hall de entrada, Violet surgiu com uma expressão bastante séria nos lábios. Abriu a boca para dizer algo, mas me pareceu que sua amizade com é tão antiga e forte, que não foi necessário ela dizer nada para ele compreender o que estava acontecendo ali. De primeira não entendi muito bem; as coisas pareciam estar como sempre eram, as pessoas malucas com bebidas em mãos, se divertindo, rindo, fumando. Acompanhei ele junto com Violet e o resto do grupo de e então pude perceber uma figura que jamais havia visto antes – certamente me recordaria dele, já que é idêntico a .
- Caraca... – ouvi a voz de Ace atrás de mim. Olhei para trás e pude ver todos os que provavelmente conheciam o homem encará-lo boquiabertos.
Eu e Gillian sabíamos que aquele não era o momento correto de exigir saber quem era o homem parado ali na cozinha, acompanhado de duas dançarinas da turma de Hans, no entanto, Kendra não parece ter a mesma sensibilidade que a nossa, logo dizendo:
- Quem é ele?
- Alec. – Hans respondeu.
- Alec? – ela perguntou. Olhei para trás ao reconhecer o nome do que seria o sócio de no negócio do estúdio.
- Depois explico. – ele finalizou a conversa.
Observei Alec com atenção. Ele não me parecia ser alguém que estudou junto no colégio. Para dizer a verdade, somente uma pessoa muito despercebida não saberia que era parede dele. Além disso, o ambiente se tornou pesado com o encontro dos dois; as próprias dançarinas ao lado de Alec não sabiam como reagir. Toquei na mão de , tentando passar a mensagem de que ele estava em um local atualmente público e várias pessoas se aglomeravam ao nosso redor para saber quem era o homem alvo do olhar que dificilmente dirigia às pessoas. Por sorte, pareceu captar meu movimento e olhou para os lados:
- Vamos. – apenas disse, olhando para Alec e então se afastou, indo em direção às escadas.
Alec abriu um pequeno sorriso e se afastou das duas dançarinas sem olhar para trás e passou por todos, seguindo os passos de até o andar superior. Assim que saíram, a fofoca sobre os dois começaram a rolar por entre as pessoas presentes na festa. Andei para o lado externo da casa, onde o ar estava mais livre da fumaça do cigarro que eu tanto não suportei. O grupo pareceu me seguir, como se eu tivesse tomado o lugar de como líder; caminhamos até as cadeiras de piscina mais afastadas, onde o som estava mais distante e era possível conversar sem que as pessoas se aproximassem para tentar ouvir falarmos sobre .
Nos acomodamos da maneira que melhor nos condiu e olhei para aqueles que demonstraram saber sobre Alec.
- Então ele não é somente o sócio. – decidi começar a conversa para eles. Violet suspirou e negou com a cabeça. – Eu sempre me perguntei se existia no mundo uma pessoa tão generosa que pudesse oferecer todo esse conforto a .
- Pergunte o que quiser, baixinha. Você não ficará sabendo muito por , ele odeia falar sobre Alec. – Ace olhou para mim.
- Por quê? – Kendra perguntou. – Eles se odeiam tanto?
- Alec não tem problema nenhum com . – Violet começou a falar. – Na verdade, ele tenta de suas próprias maneiras reconquistá-lo, mas você o conhece, quando ele tem algo na cabeça, nem o próprio pai consegue mudar sua opinião.
- E por que ele o odeia tanto? – Kendra continuou perguntando.
- Bem, não sei se essa é a razão verdadeira, mas o pai de costumava trair muito a mãe dele. Quando ele começou a incentivar a não ser sincero... Não é à toa que a mãe nunca gostou muito de . Achava que ele era um espelho do ex-marido.
- Ele ajuda para ganhar seu amor? – Gillian perguntou, ao lado de Bob.
- Jamais. – Violet riu. – Ele apenas quer garantir que quando ficar velho, haverá alguém disposto a cuidar dele.
- jamais deixaria um pai doente de lado. – achei necessário proteger a imagem de .
- Alec pareceu não saber isso até agora. – Violet respondeu. – Para você ver como a relação deles é ruim, Alec nunca quis entender , apenas acha que se ele der o que o filho quiser e enquanto tê-lo dependente financeiramente, as coisas caminharão da maneira que ele quer.
Não quis saber sobre mais nada. Alec é o tipo de homem que não gosto de permanecer ao lado. Ele é um tipo de pessoa sacana como minha mãe, mas mais disposto a demonstrar que não é completamente decente. Não sei distinguir qual o pior tipo até agora, mas penso que não poderei fingir que gosto dele quando o tipo dele me fez sofrer tanto até agora.
Kendra continuou a fazer perguntas e Violet e Ace se revezavam respondendo. Não consegui prestar muita atenção, pois permaneci concentrada em saber como estava, contudo, repentinamente uma dúvida surgiu:
- Por que vocês mentiram sobre quem Alec é? Isso é uma questão de , por que não dizer que ele é o dono maioritário de tudo?
Minha pergunta pareceu os calar. Observando suas expressões, não pareciam jamais ter pensado na possibilidade de divulgar uma informação assim. Além do mais, evitaria que as pessoas tivessem interesse em saber mais sobre Alec, o sócio fantasma de .
- Você já tentou falar sobre Alec com ele, ? – Violet chamou minha atenção. Assenti. Me lembro das várias oportunidades que tive de perguntar sobre Alec e, no final das contas, perdê-las ou ele desviar para um outro assunto, de modo que não quis pressioná-lo. – Ele provavelmente não quis falar sobre Alec, mas continua dizendo que o dinheiro não é dele. – ela passou seu braço fino, mas musculoso, ao redor de sua namorada. – A reação é a mesma com todos; ele não quer parecer grosseiro para pedir que não nos metemos em seus problemas pessoais, tampouco quer que esqueçamos que ele não é quem está tirando toda a grana investida no estúdio. É como se parte dele aceitasse a ajuda de Alec e a outra continuasse a negar; por essa razão, nosso comportamento foi criar essa mentira que ele acabou não afirmando, nem negando, o que quer dizer que não se importa com os meios que criamos para disfarçar o seu segredo, desde que ele permaneça em segredo.
Em partes pude entender sua justificativa. De fato, se ele não gostava de dar a entender que aceitava Alec, poderia, ao menos, criar uma desculpa para seus amigos não terem de inventar uma história tão falha.
A conversa se manteve ao redor do assunto de Alec. Kendra queria saber mais sobre ele, talvez para se sentir mais dentro do grupo. Ela estava se esforçando para não deixar Hans desconfortável, já que era a única que acompanhava-os apenas por causa dele; agora também tinha Gillian. Kendra uma vez disse que eu não poderia contar, já que por ser um tipo de “assistente” de , teria de me relacionar diretamente com eles. Aos poucos os acompanhantes de Ace e Pietro foram se aproximando, de modo que as outras pessoas entenderam que já tinham passe livre para circundar por aquela área em que estávamos. Depois de somente uma hora que apareceu tão normal e calmo quanto quando acaba de acordar. Ao invés de perceber no ambiente que se transformou devido a sua chegada, fingiu que nada havia acontecido, sentando-se ao meu lado e aproximando meu corpo do seu como sempre faz.
- Notícias de Cori? – ele perguntou.
- Ah, sim. – Violet saiu de seu transe, pegando seu celular. – Tan me mandou uma mensagem. Parece que ela está grávida.
A reação foi de surpresa e alegria. Cori e Tan sempre estiveram juntos, pelo que me foi explicado, e já estavam tentando engravidar faziam alguns anos. A partir daí, o papo começou a ser sobre o futuro bebê dos dois e nossas próprias vidas pessoais.
- Você não tem vontade de casar, Violet? – a atual garota de Pietro perguntou. Eu ainda não sou muito boa em distinguir quem é hétero, bi ou homossexual, mas consigo ver claramente a segunda intenção dela em fazer a pergunta à Violet; sua namorada também pareceu perceber, pois fechou a cara e olhou para Violet, que não se importou em responder:
- Nem um pouco. Viver junto é o meu limite. Casar é assumir um compromisso muito sério que não tenho a intenção de cumprir.
Sua resposta não pareceu satisfazer nem a garota que fez a pergunta, nem sua namorada, por isso, Ace logo mudou a atenção para Bob e Gillian que não trocavam uma palavra, apenas carícias.
- E vocês? Quando é que vão assumir?
Gillian olhou para Ace como se tentasse decifrar o que ele estava tentando dizer, igual à nossa aula prática com os alunos da F uma vez.
- Eu não tenho planos para me casar. – Bob falou despreocupado. – Mas se for, será só com uma pessoa.
Rapidamente todos começaram a gritar e assobiar, como adolescentes quando um casal assume o namoro. Gillian corou não só as maçãs, como o rosto inteiro. Não pude deixar de rir de seu constrangimento, porque vê-la em uma situação assim era inimaginável a até alguns meses atrás. Um a um, todos foram falando sobre suas intenções sobre o casamento e os filhos; Kendra, claro, tinha a intenção de se casar e ter vários filhos; a surpresa foi que Hans dividia a mesma opinião, mas nenhum dos dois não disseram ou deram a entender que seria entre eles. Quando todos ficaram calados que soube que era a minha vez e de .
- Eu vou me casar, claro. – ele se limitou a falar.
- Grande coisa, queremos saber com quem e quando! – Ace olhou para nós dois com seu sorriso maroto e, pela primeira vez, entendi a sensação de querer “matar” um amigo.
- Não sei com quem, mas mesquinhas fazem meu tipo. – olhou para mim e não consegui manter nossa troca de olhares, tive de virar para esconder meu rosto que começava a queimar.
Com essa resposta, os gritos e palmas aumentaram e Ace gritava ‘É oficial!’ para todos os que olhavam para nós com curiosidade.
Permanecemos rindo e nos divertindo com as gracinhas dos mais brincalhões; e então decidiu que estava na hora de irmos para a cama. Limitou-se a se levantar e acenar para o grupo, enquanto puxava-me pela mão até a área onde ficava o elevador que nos levaria até o terceiro andar.
Durante todo o caminho não ousou dizer uma palavra, apenas prestei atenção no som da festa abafado pelas paredes e porta do elevador. No terceiro andar, parecia que a festa ocorria a quilômetros de distância. Não pude sequer sair do cubículo sem ter meus lábios grudados nos dele. , como sempre, era gentil com seus toques e carícias. Devido à sua sensibilidade, tinha calafrios com frequência. Agora que já estava acostumada com seu corpo, me sinto mais à vontade de explorá-lo com minhas mãos, iniciando a tirar sua regata. O colar de prata que gostava de usar soou quando o tecido de cima foi ao chão. Seu peitoral liso à mostra, iluminada somente pela luz do luar que penetrava pelas paredes de vidro. Neste quarto de , a parede extensa que dava de frente para a área da piscina era de vidro insufilmado, de modo que somente quem é de dentro consegue observar o que acontece fora; as pessoas ali em baixo jamais saberão o que acontece no quarto dele, o único local proibido da mansão.
Percorri meus dedos por suas formas, como se estivesse o desenhando. permaneceu parado apenas observando eu observá-lo com o toque; ele não parecia ter pressa em chegar até onde queria, por isso, tive tempo o suficiente de acaricia-lo o bastante para não me esquecer de suas curvas por um longo tempo.
Suas mãos subiram até meu pescoço e aproximou meu rosto do seu. Não sei quanto tempo ficamos ali parados sentindo a presença um do outro, mas parecia saber exatamente quantos minutos eram necessários para desacelerar as batidas do meu coração, normalizando minha respiração. Esperei que ele tomasse alguma atitude, mas tudo o que fez foi acariciar minhas bochechas com seus polegares; apesar do movimento simbólico, trazia um conforto que jamais senti antes, como se somente aquilo fosse o suficiente para satisfazer minha vontade de ser tocada por ele.
Antes que o tesão acalmasse e perdesse para o conforto, começou a distribuir beijos por meu rosto, descendo para o dorso de meu pescoço. Honestamente, admito ser o ligar que mais gosto de ser beijada. Os lábios macios dele parecem pequenas almofadas que refrescam o meu corpo com seus beijos, além disso, ele nunca agia de maneira brusca, tornando o momento ainda mais agradável. Enquanto isso, passeava com minhas mãos por suas costas e cabelos; adoro a sensação de poder bagunça-los, é bem charmoso com as madeixas desordenadas.
Quando sua língua começou a percorrer meu pescoço e ameaçar descer mais, meu corpo rapidamente começou a ter pequenos espasmos. Suas mãos desceram até a barra de minha blusa e, sem hesitar, retirou a roupa em um só movimento; em seguida, subiram até meus seios e passaram a massageá-los mesmo com o sutiã impedindo o toque direto à minha pele. Não pude evitar suspirar; caminhamos até sua cama, onde me sentei na borda e apoiei meu corpo para trás, fechando os olhos e sentindo ainda muito mais tesão por não precisar dedicar minha energia a outra coisa senão o toque de em meus seios. De vez em quando, seus dedos desviavam o tecido do sutiã para tocar o bico de meus mamilos, fazendo meu raciocínio aos poucos deixarem meu subconsciente.
Os beijos finalmente começaram a descer por meu corpo. As mãos que antes tocavam meus seios, agora os liberavam do meu sutiã, que logo foi jogado em algum canto do quarto. Quando senti sua língua iniciar a massagem no bico de meu mamilo, o gemido saiu sem permissão. A sensação era enlouquecedora, as mãos de passeavam por meu tronco desnudo e aos poucos se livrava do resto de roupa que eu possuía. A jeans foi jogada para trás e a calcinha, longe. Deitei na cama e pude vê-lo me olhar em uma mistura de desejo e amor; achei que fosse me sentir envergonhada por estar tão vulnerável, mas se havia alguém que gostaria que estivesse ali, era ele. era a pessoa certa para me preencher e não podia estar mais feliz de satisfazê-lo, mesmo ele sendo muito mais experiente que eu.
- Apenas relaxe seu corpo e aproveite meus toques. – ele sussurrou enquanto desabotoava sua calça. – Não se preocupe com a altura de seus gemidos, grite o quanto quiser, somente eu irei ouvir. – vi o volume de seu membro pela primeira vez. – Somente eu tenho a permissão de ouvir. – ele se livrou da última peça e abriu minhas pernas, posicionando-se entre elas e inclinando seu corpo em minha direção. Seus braços permaneceram apoiados ao meu lado e seu rosto ficou muito próximo do meu. – Agora você é minha, .
- E você é meu, . – segurei em seu rosto e o vi abrir um sorriso de satisfação, como se eu tivesse dito exatamente o que ele queria ouvir.
- Exatamente. – me respondeu, grudando seus lábios nos meus.
Não foquei em mais nada senão seus beijos. Sua língua massageando a minha boca já me causava espasmos o suficiente. Meus olhos se fecharam para tornar o toque inesquecível, mas quando uma de suas mãos começou a percorrer meu corpo, vi que seria impossível dar atenção a somente uma coisa. se afastou de mim, pedindo que eu abrisse os olhos. Das vezes que tivemos uma relação sexual, mantive meus olhos fechados ou afastados de nossos corpos por me sentir envergonhada demais com tudo, no entanto, nós dois sabíamos que aquela fase havia passado. Estou acostumada com seu corpo e seus olhos sempre me devorarem quando estou nua, voltou a acariciar meus seios e então desceu uma de suas mãos até meu sexo, causando um tremor intenso com um leve toque.
- Molhadinha... – ele sussurrou em meu ouvido, quando voltou a se inclinar para perto de mim.
Focamos nossa atenção em seu toque e levei minhas mãos até seus braços. Meu clitóris estava inchado, prestes a me fazer explodir tamanho o tesão que sentia por . Jamais imaginaria estar tão aberta para um homem como estou no momento; seus dedos começaram a penetrar lentamente e aos poucos. Primeiro um dedo, depois dois.
- Ah... – meu corpo fez a forma de um arco com o tremor de tê-los dentro de mim. – Rápido...
O vi abrir um pequeno sorriso e obedecer minha ordem. Seus dedos começaram a penetrar meu sexo com mais rapidez, de modo a começar a me enlouquecer. Minhas mãos foram até seus ombros, arranhando suas costas e bagunçando seus cabelos. continuava a trabalhar com seus dedos, até meu corpo suar e eu iniciar meus pedidos por mais.
- Vou surpreendê-la. – com dificuldade, entendi seu sussurro. – Você está me enlouquecendo com esse comportamento.
- Ah, , mais. – inclinei meu corpo na direção de seu dedo, ouvindo sua risada de satisfação.
- Darei mais sim, querida, espere e sinta. – ele iniciou a penetração em uma velocidade que jamais poderia esquecer. Assim como havia mandado, não controlei a intensidade de meus gritos. Minhas pernas, ao mesmo tempo que queria abri-las mais para sentir mais o prazer, queria fechá-las por estar me enlouquecendo demais.
Sem aviso prévio ou pedido de permissão, trocou seus dedos por seu membro ereto e duro. Deus, aquilo quase me colocou em um coma. Dei um grito tão alto que não tenho certeza se as paredes antissom fizeram um bom trabalho.
- Gema para mim, querida. – ele pedia durante as penetrações. Seu corpo era tão ágil e em forma que não sei como não rasguei ao meio com tamanha força.
Eu gozava a cada cinco minutos. Toda vez que acontecia, diminuía sua velocidade até que meu libido voltasse à ativa. Na quinta vez, senti que meu corpo estava relaxado e que poderia tentar algo de novo. Inclinei meu corpo pra cima, surpreendendo .
- Deite. – pedi, uma ordem que foi obedecida de prontidão, mas com receio.
Permaneci sentada em seu corpo, seu sexo dentro do meu. Ali, parada, vi submisso a mim, trazendo uma sensação boa de que finalmente poderia retribuir todo o prazer que havia me proposto até então. O sorriso malicioso em seus lábios me trazia força para ousar fazer algo que jamais teria feito se não fosse ele a pessoa ali em seu lugar.
Lentamente iniciei um movimento circular com meu corpo; um tipo de rebolado que o fez fechar os olhos e tencionar seu corpo devido ao prazer que estava sentindo.
- Faça-me gozar. – ele pediu com seus olhos ainda fechados. Tê-lo vulnerável e me fazendo responsável pelo ápice, senti um resquício de poder na relação. Sem tomar conta de minhas ações, iniciei o movimento vaivém tão segura de mim, que quando vi, gemia alto, aprovando minhas atitudes. Em um ponto do sexo, suas mãos apoiavam em mim e seu quadril fazia o trabalho de me penetrar, já que o cansaço começava a lentear meus movimentos.
Senti o líquido espesso se espalhar dentro do meu corpo. Achei que ele pararia ali, como sempre fazia, mas então se ergueu, me fazendo ficar de joelhos.
- Venha. – ele ergueu sua mão, me colocando de frente para a parede. – Você consegue mais um pouco? – apoiou suas mãos em cima das minhas e sussurrou em meu ouvido. Concordei com um acento de cabeça, como poderia parar o sexo quando ele sussurra daquela maneira? – Abra suas pernas, assim. – posicionou-se logo atrás e encostou a ponta de seu membro em minha abertura.
Seus dedos voltaram a me tocar, trazendo ainda pequenos espasmos. Quando sentiu minha entrada lubrificada o suficiente, penetrou, grudando seu corpo ao meu.
Encostei minha cabeça na parede em que apoiava, gemendo como nunca. não parecia conseguir controlar sua força e rapidez, por isso, mesmo que eu pedisse para parar, ele não pararia. Seus braços me rodeavam e suas mãos logo começaram a acariciar meus seios, me deixando louca. Aquela sensação dupla de prazer era insano. Logo que meus gemidos começaram a diminuir gradativamente, em um último toque surpresa, desceu uma de suas mãos até meu clitóris, me fazendo gritar em aprovação.
- Meu Deus... – gemia, inclinando minha cabeça para trás. Era como se houvesse alguém à minha frente e atrás. conseguia fazer o trabalho por dois. – Vou gozar... – tive de avisá-lo que não conseguiria mais segurar.
Assim que ouviu meu aviso, aumentou suas estocadas, afim de chegar ao ápice comigo. E assim foi, nossos corpos estremeceram juntos e seus lábios beijaram meu ombro até cairmos juntos na cama. O ar estava quente e parecia faltar; meu coração nunca teve tão acelerado e meu corpo pingava com o suor.
cobriu nossos corpos com o edredom e então se aproximou de mim, rodeando meu corpo com seus braços, me fazendo sentir protegida.
- Eu te amo. – sussurrou.
Virei meu rosto para ele, seus olhos azuis tão próximos de mim. Abri um pequeno sorriso e virei meu corpo em sua direção; subi minha mão até seu rosto e respondi:
- Eu te amo.
Apesar de cansada, não consegui dormir enquanto o visse me observando. Então, quando nossas respirações já estavam reguladas e eu conseguia me mover sem sentir calor, o ouvi dizer:
- Alec é meu pai.
Parei meus pensamentos para prestar atenção no que ele dizia. Assim que viu que eu estava atenta às suas palavras, ele virou se corpo para cima, encarando o teto.
- Quando eu era criança, nos dávamos muito bem. Pais e filhos geralmente se dão bem quando o pai se dedica ao filho. Ele era presente e me ensinava muita coisa. Só havia um problema: sua fidelidade.
A cada pausa que fazia, era como se pensasse se era certo contar para mim algo tão sério que nem seus melhores amigos sabiam sobre.
- Qualquer pessoa que ama outra é capaz de superar e aceitar os defeitos até um determinado ponto. Minha mãe aceitou por um longo tempo as traições do meu pai. Lembro de suas gritarias e os choros quando ele saía de casa dizendo ser a noite de pôquer. Nunca existiu a noite do pôquer; ela sabia que era apenas um argumento para sair de casa e transar com outras mulheres.
Seus olhos traziam uma mistura de mágoa e lembranças. Ele parecia visualizar os dias em que passou ao lado de seus pais quando criança. Aproximei meu corpo do dele para demonstrar o meu apoio; com a ação, seus olhos viraram para mim e um sorriso apareceu em seus lábios. Ele deitou o braço de modo que pude apoiar minha cabeça nele e abraça-lo da maneira que eu queria.
- Eu tinha treze anos quando minha mãe surtou. Ela não aguentava mais, precisava se livrar dele. A aceitação se tornou um fardo e ela precisava superar sozinha. Por eu já estar crescido, meu pai achou melhor acatar ao pedido de minha mãe. Quando fiz 16 anos, descobri que ele era ninfomaníaco. Minha mãe descobriu a doença quando eu ainda era uma criança e achou que ele poderia se curar. – olhou para mim. – Ele nunca quis ser curado de verdade.
- Por quê?
- Não sei. Tem a ver com seu passado, mas não faço questão de saber.
- Você não parece gostar dele.
- Não gosto, mas também não o desgosto. É complicado.
- Eu entendo.
- Entende?
- Eu também não gosto do meu pai. – olho para cima. – Mas ele ainda é meu pai. Há uma conexão entre nós dois que jamais será quebrada. Talvez seja a gratidão de ter sido concebida por ele e minha mãe, ou a vida que eu tive, que não foi difícil. Eles apenas são egoístas.
- Pode ser que seja isso.
- Por que está me contando?
não respondeu de imediato. Ficou pensando por vários minutos em uma resposta até começar a falar:
- Há várias razões. A primeira é porque te amo. – voltou a virar para mim e sorrir. – Sei muito sobre sua vida e quero ficar com você, então é importante que sinta segurança e confiança na pessoa com quem está se relacionando. Além disso, querendo ou não, ele é o meu pai. Você não pode namorar uma pessoa e não conhecer algum familiar; minha mãe e eu não nos falamos mais, então é natural que eu não queira evitar o seu conhecimento sobre Alec. Por alguma razão, ele sabe sobre você e gostaria de te conhecer.
- Sério?
- É.
- Você quer que eu o conheça?
- Não cabe a mim decidir. – ele respondeu no tom de voz que a resposta era óbvia. Ele não queria que eu conhecesse o pai dele, queria que me satisfizesse em somente saber sobre ele.
Uma namorada normal iria insistir em conhecê-lo e tentar fazê-los se reconciliar, contudo, analisando seu comportamento e sua vida, não acho que acrescentar seu pai em sua rotina faria melhor para ele. Por também não querer meus pais perto de mim, entendo sua posição de preferir viver sozinho a ter de vê-lo todos os dias.
- Estou bem assim. – falei. – Além do mais, se ele não é importante para você, não faço questão de conhecê-lo, mas fico feliz dele saber sobre mim.
abriu um sorriso aliviado e abraçou meu corpo desnudo e suado. Fechamos nossos olhos para adormecer e antes de pegar no sono, pude ouvi-lo dizer:
- Obrigado.

Capítulo 20

UM ANO DEPOIS

- Você vai demorar quanto tempo mais? – Kendra gritou para Ace, que terminava de cumprimentar seus pais.
Um ano havia se passado desde o início oficial de nosso relacionamento sério e sem segredos. se mostrou muito mais carente de amor quando comecei a passar mais tempo com ele do que o costume. Como nós já suspeitávamos, meus pais pararam de depositar o dinheiro mensal e tentaram pegar o dinheiro de minha conta para me fazer correr atrás deles e pedir perdão, mas, como sempre, foi muito mais rápido. Não tive contato com eles até então, quando a confirmação de minha formação foi tida e eu fui obrigada a informá-los que havia me formado. Para variar, eles não atenderam meus telefonemas, não responderam meus e-mails e suas secretárias diziam sempre que estavam em reunião – mesmo aos domingos.
Gillian e eu continuamos a estudar enlouquecidamente. Bob e entraram em uma briga sobre quem deveria ser o primeiro lugar no ano seguinte, já que nós duas não tínhamos condições de pagar pela mensalidade e precisávamos da bolsa integral; mesmo sabendo que os dois pagariam tudo mesmo com nossos protestos, a ideia de termos o título de número 1 foi o suficiente para abrir uma discussão entre os dois. Assim, eu e Gillian concordamos que durante os nove meses de aula, eu ficaria cinco meses em primeiro e ela, quatro. Não foi tão difícil quanto parecia, já que Kendra e Ace não tiveram dificuldade nenhuma em distrair os outros alunos da sala S com as festas do estúdio. Achei interessante o modo como eles sabiam se divertir, mesmo sendo nerds.
O estúdio era um grande sucesso. Com o dinheiro que recebeu, está pesquisando abrir uma filial no lado rico da cidade. Alguns milionários ainda se sentem desconfortáveis em comparecer no lado mais humilde da cidade para realizar as aulas, por isso, , sem seus preconceitos, diz que se há pessoas do outro lado que têm interesse em aprender a dançar, ele os ensinaria com o maior prazer.
Ace finalmente desgrudou de sua mãe e veio correndo até nós segurando o cap de sua doma. A roupa de formatura era preta e azul, e nós parecíamos prontos para cantar em um coro de igreja. Fomos em direção à entrada dos formandos e acenamos para a turma do estúdio que estava ali para nos prestigiar. Hans segurava uma filmadora enquanto Pietro cuidava das fotos. Cori e Tan estavam com Sayuri, a neném de seis meses que praticamente não chorava e apenas sorria.
- Saiam logo daí! – Bob gritou para a turma que se posicionava em frente aos fotógrafos.
Nós estávamos aguardando nossa vez de tirar a foto em turma. A cerimônia já havia acabado, mas Kendra e Ace insistiram que tínhamos de ter a foto juntos para guardarmos de lembrança para o futuro. Eu achei uma ótima ideia. Quero lembrar deste momento toda vez que encarar a foto. Lembrar que quando comecei a estudar aqui, apenas procurava pelo diploma e a vontade de ficar afastada dos meus pais. Lembrar do quanto minha vida mudou depois que conheci .
A hora da foto foi uma eterna bagunça. Nossa turma de formandos era enorme por conta do estúdio. Várias pessoas se aglomeravam em nossa foto e quando o fotógrafo gritou que estava para bater o flash, todos ergueram os braços e causaram uma enorme festa. Olhei para Gillian, que nunca havia sorrido daquela maneira antes. Não era a primeira vez que me sentia em casa com a presença de todos, mas era a primeira vez que senti minha vida realmente valer a pena.

Como sempre, logo depois da formatura, preparou uma festa de celebração dos formandos em sua mansão. Além disso, eu estava oficialmente morando lá com ele, uma vez que não teria mais onde morar com o final das aulas. Ace havia dito que ele apenas havia preparado aquela festa porque eu fazia parte da turma de formandos; caso contrário, nós apenas teríamos uma reunião em algum lugar.
- Como você fará com o seu visto, ? – Pietro perguntou durante o nosso jantar à beira da piscina. Nosso grupo estava reunido em uma roda comendo os espetos do churrasco que Violet organizou.
Meu visto é meu atual problema. Eu havia renovado a permissão para turismo, mas não poderei trabalhar ou estudar, o que é um problema, pois não quero ter de depender de . A relação dele com Alec continua o mesmo desde a última vez que nos vimos a um ano atrás; continua fingindo que ele não existe e quando se encontram, apenas conversam por uma hora e cada um segue seu caminho.
Olho para minhas mãos, nervosa. Meu futuro é tão incerto que mal posso pensar em alguma maneira de melhorá-la. Sem um emprego fixo, uma rotina ou algo à que se dedicar é tudo o que eu jamais imaginaria viver depois de formada em Harvard. Para dizer a verdade, várias empresas estão em contato comigo, oferecendo planos de trabalho aqui nos Estados Unidos; há algumas que gostaria de discutir, mas por causa da minha nacionalidade, não posso oferecer à empresa o que eles querem exigir de mim. O fato de estar de mãos atadas é o que mais me perturba. De noite, enquanto passava meus últimos momentos na cama do dormitório de Harvard, pensei em como poderia fazer para conseguir dinheiro. O fato de viver com o foi pura sorte, mas não gosto da ideia de depender dele para sempre; além disso, não sabemos sobre o futuro, pode ser que um dia terminemos e aí eu serei a única prejudicada, já que estarei em um débito maior do que o valor de minha própria vida. Ninguém nunca imaginaria que a melhor aluna de Harvard de 2015 fosse passar por essa situação. O que todos esperam é que a pessoa saia empregada e com um salário equivalente ao que gastou anualmente com a mensalidade. Pensar no assunto me faz sentir um tanto humilhada. Queria poder me gabar sobre meu emprego para meus pais, mas se encontrá-los, é capaz de rirem de mim por ter deixado o conforto do emprego no Brasil, pela incerteza e o desemprego nos Estados Unidos ao lado de .
- Enquanto eu não arranjar uma maneira de conseguir o visto, trabalharei no estúdio mesmo. – falei, sem graça.
- Você seria uma ótima dançarina. Há grupos de dança profissional muito bons aqui. – Violet falou. – Você deveria tentar se juntar e ganhar dinheiro com a dança. Não há contrato, por isso, é mais fácil de suceder.
Eu já havia pensado em dançar. me deu a ideia há alguns meses, por isso, comecei a praticar com mais afinco. Ele chamava seus colegas importantes para me apresentar e ouvi algumas críticas que deveria melhorar se quisesse entrar para a carreira. Disseram que mesmo que meu talento da memória fotográfica seja quase perfeita, para um profissional eu ainda tinha algumas coisas para melhorar, afinal, nunca fiz nenhuma aula que me ensinasse a maneira certa de se dançar. Eu tinha rebolado, mas não técnica, o que era praticamente nada.
A pessoa que eu menos queria encarar no momento era Gillian. Sempre fomos, desde o início, rivais. Depois que nos tornamos amigas, senti que nossa rivalidade se tornou algo saudável, incentivadora. Contudo, agora, me sinto envergonhada por ter sido uma rival de potencial durante os anos de curso e agora, quando poderíamos continuar nossa competição com nossos empregos, ela ser a única a poder trabalhar. Quando prestamos o Bar Examination no final do terceiro ano, o exame equivalente a OAB no Brasil, mas controlada pelo Estado, Gillian e eu éramos o único parâmetro uma da outra; seria difícil se não tivéssemos nos tornado amigas. Mesmo que Kendra tenha vivido no mesmo dormitório que eu, permaneceu ausente durante a maior parte do tempo, ao contrário de Gillian.
Pensar em ter de encarar a todos com meu diploma e currículo que poderia ser o melhor dentre todos os alunos formados em direito no mundo me fez sentir minúscula e desmerecida dele. Olhei para os rostos ao meu redor e eles não expressavam dó ou piedade de mim, como imaginei que seria. Diferente de qualquer reação que vi até então, eles pareciam animados e até empolgados; não sei com o quê.
- Hey.
Olhei para trás onde estava em pé com as mãos atrás de seu corpo. Quando parei de olhar para mim mesma e comecei a realizar sobre o ambiente ao meu redor, percebi que as pessoas não falavam e a música não tocava. Olhei para Kendra, que estava com os olhos marejados.
- Esperei seis meses para falar sobre este assunto com você. – ele começou a falar. – Durante o primeiro semestre desse ano, pensei em maneiras de garantir que você conseguisse o visto de permanência e trabalhasse na área em que se formou. Os processos são complicados e você não conseguiria nada por pelo menos mais um ano. Assim, em uma conversa com minha nova advogada – apontou para Gillian. -, soube de uma opção que coincidentemente já estava em minha mente por vários meses.
Assim que terminou de falar, vi seu joelho esquerdo começar a se dobrar, fazendo com que ele se ajoelhasse de uma perna, formando a posição clássica de um pedido...
Oh.
Minhas mãos foram à boca e as pessoas começaram a assobiar e baterem palmas de aprovação. trouxe suas duas mãos que estavam escondidas atrás de seu corpo para frente, apresentando uma pequena caixa azul turquesa embrulhada por uma fita de cetim branco. O sonho de qualquer noiva em receber uma aliança daquela de noivado nunca foi o meu sonho; agora, me sinto um tanto tola por não tê-la tido minha. A sensação quando ele desfez o laço e abriu a caixa de veludo em seguida da turquesa foi indescritível. O diamante brilha tanto que não pude tirar meus olhos dele.
- Não estou fazendo por obrigação. – ouvi sua voz soar enquanto observava a aliança. – Desde quando a vi pela primeira vez naquele dia quente e ensolarado perto do prédio A, soube que você não era uma mulher qualquer. Você tinha o bom coração que sempre procurei, mas nunca encontrei. – olhei para ele próximo de mim e não sabia que lágrimas escorriam por minhas bochechas até ele enxugá-las com o polegar da mão livre. – Eu te amo. É tudo o que quero dizer para demonstrar minha felicidade em te ter ao meu lado. Eu vou te fazer feliz; desde o início de nós dois, foi tudo o que tentei realizar.
Em meu campo de visão só havia ele. As pessoas, os fungos de choro e os comentários do pedido não eram sequer murmúrios em meu mundo paralelo. Nele, está lindo com sua roupa escura de sempre e o sorriso mais lindo que já vi em minha vida. Quando disse que me amava, foi como se nenhum dos problemas que estou passando fossem realidade. A felicidade parece mais real do que a dor.
- Eu sou feliz. E livre. – falei, vendo seu sorriso aumentar, deixando-o ainda mais bonito, apesar de parecer impossível. – Casar com você seria a maior felicidade de minha vida.
Senti seus braços rodearem minha cintura e meus pés saírem do chão com o abraço que ele me deu. Seus sussurros de ‘eu te amo’ em meu ouvido, gostaria de ouvi-los a todo momento.
Sempre que imaginei um pedido de casamento, pensei em algo privado, simples e sem muita festança; além disso, imaginava estar estabilizada economicamente e em um emprego exemplar. Estou em uma situação completamente oposta, mas mais feliz do que nunca!
As pessoas se aglomeraram ao nosso redor, loucas para tentar nos parabenizar. Quando colocou minha aliança de noivado em meu dedo, Kendra só faltou desmaiar de felicidade. Assim que me abraçou, foi preciso Ace fingir que eu estava asfixiada para ela me soltar.

Gillian e Kendra seriam minhas madrinhas. Ace e Violet os “padrinhos’ escolhidos por . Apesar do número de amigos próximos ser enorme, todos concordamos que apenas os melhores amigos deveriam tomar o posto de madrinhas e padrinhos, principalmente porque ninguém queria gastar dinheiro com as roupas idênticas do casório.
Nosso casamento seria na sexta-feira depois do pedido. Apesar de não parecer, sempre imaginei me casar com um vestido enorme e o longo véu de noiva arrastando ou sendo segurados pelas daminhas. Contudo, devido às atuais circunstâncias, e eu concordamos que o mais sensato seria apenas assinar os papéis no civil. Eu precisava iniciar o procedimento de cadastramento dos meus dados e pareceu ter certeza de que eu iniciaria tudo, pois agilizou os documentos e deu entrada antes mesmo de fazer o pedido. Quando ele mencionou ter conseguido todos os documentos necessários no Brasil, achei que meus pais haviam cedido e estariam vindo para cá presenciar pelo menos o meu casamento, mas ele explicou que apenas comprou uma pessoa que arranjou tudo o que era necessário. Meus pais haviam me tirado de seus testamentos; era como se eu fosse uma ninguém. Sem sobrenome. Sem histórico. disse que isso facilitou tudo, pois uma pessoa sem nada poderia rapidamente ser aceita nos Estados Unidos, principalmente com um valor alto como a que eu tenho em minha conta. Não entendi o procedimento que ele realizou para conseguir suceder no plano de início do pedido de registro civil, tudo o que preciso fazer é assinar os papéis no “dia do casamento”. Ele deve ter feito gambiarras que jamais aprovaria, por isso, não o questionei sobre nada e apenas concordei em fazer o que queria.
Kendra e Gillian me deram meu vestido e sapatos de noiva de presente. Eles eram simples, mas finos. Não poderiam ter escolhido melhor. Como possui tudo o que precisamos e moraríamos na mansão dele, não precisamos de pedir nenhum presente; mesmo assim, Kendra organizou com Gillian, Violet e Ace a nossa pequena lua de mel até Nova Iorque, onde assistiríamos aos melhores musicais e apresentações de dança. parecia animado em me apresentar danças que ele se apresentou durante sua estadia lá. Aspen estava em Los Angeles, por isso, fiquei um pouco aliviada por não precisar de vê-la novamente.
No domingo, Alec apareceu pouco antes do jantar que insistiu que eu deveria começar a fazer. Concordamos que eu faria um curso de culinária duas vezes por semana, pois ele sempre quis ter uma família onde a mãe cozinhava e o pai chegava do serviço sendo recepcionado por suas duas ou três crianças e uma esposa em seu avental. Por ser o único desejo que expressou querer ter, não me pareceu nem um pouco trabalhoso começar a me organizar para um dia realizar o seu pedido.
- Desculpe aparecer sem avisar. – ele olhou para mim com um breve sorriso. – Imagino que você seja .
Assenti, abrindo um pequeno sorriso. Como poderia me portar em frente ao homem que ajudou a colocar a pessoa que eu amo no mundo?
- está em seu escritório. – me afastei para deixa-lo entrar.
- Ótimo. Será que você poderia chamá-lo? Vim falar com os dois. – ele retirou o casaco e pendurou ele mesmo no cabideiro próximo à porta.
Não o questionei e apenas concordei em obedecer seu pedido. Apertei meus passos até o escritório e assim que anunciei Alec, rapidamente se levantou, não parecendo muito feliz de vê-lo em casa em pleno domingo à noite.
- Agora você precisa avisar quando vem para casa. Não moro mais sozinho. – ele logo entrou dando um sermão em Alec. O pai de se limitou a apenas sorrir em desculpa ao invés de se pronunciar. Como havia me dito que gostaria de falar comigo e , caminhei até seu lado e me sentei, ambos de frente para Alec, que olhava de um para o outro parecendo alegre.
- Violet me falou sobre o noivado. Mesmo não ter sido devidamente informado pelo meu próprio filho, decidi vir prestar minhas parabenizações.
- Obrigada. – respondi por , que não o respondeu.
- Eu não espero ser convidado para a cerimônia, mas desejo saber caso tenha algum neto ou neta. – ele olhou para mim, pois sabíamos que não havia chance dele receber uma resposta positiva vinda de . – Tenho certeza que farão um trabalho melhor que eu e Loren.
- Não nos compare a vocês. – disse, rabugento.
- ... – murmurei. Era a primeira vez que Alec fazia questão de falar comigo, então não gostaria que eles entrassem em uma discussão.
- Está tudo bem, ele me trata assim desde quando me separei de sua mãe. Não vou negar que mereço o tratamento, por isso, não se preocupe. Vim mais para falar com você do que ele. Como pai dele, sei que não gostaria que falasse com você fora de sua presença, por isso pedi sua companhia.
Não quero admitir, mas o pai de me parecia estar realmente tentando. Ele aceita o tratamento do filho, mas é visível sua vontade em receber uma aprovação. tem seus próprios motivos para odiar o pai e não serei eu a pessoa a tentar conciliá-los, uma decisão que tomei faz um ano; mesmo assim, às vezes, quando me pego pensando nos dois e na vontade que Alec tem em reatar com , imagino quão bom seria se nossos filhos tiverem pelo menos um avô com quem se divertir e serem mimados. Se Alec fosse uma pessoa ruim, teria tentado falar comigo há muito mais tempo para tirar proveito da situação, não respeitado o desejo de seu filho de manter-se longe de sua namorada ou noiva.
- É só isso que veio fazer? – perguntou, mal humorado.
- Não. Vim dar o presente de casamento para .
- Não precisamos de nada.
- Eu disse que é para . – Alec o encarou.
Vi os olhares trocados sérios. O melhor seria começar a agir em prol de . Assim, me levantei e tomei a iniciativa:
- O que seria?
Alec pareceu perceber minha intenção em dispensá-lo logo, por isso, não se fez de rogado e se levantou, caminhando em direção à porta.
- Está lá fora, me acompanhe.
Assim como quando chegou, ele mesmo pegou seu casaco no cabideiro e o vestiu, abrindo a porta de casa para sair. No lado externo haviam dois carros. Uma picape enorme, mas ainda menor que a de , e um conversível parecido com a do meu pai no Brasil; a marca era conhecida, Porsche. não reclamou quando Alec estendeu o braço com a chave para mim.
- Toda cidadã americana precisa de um carro para se deslocar.
Olhei para , que não comentou um ‘A’ sobre o presente, por isso, interpretei como “aceite, se quiser”. Eu definitivamente amei o carro e queria tê-lo. Agradeci em tom baixo - mas claro -, pelo presente e peguei a chave de sua mão.
- Não nos veremos com frequência, mas se você precisar, tem meu telefone. – se despediu com um aceno para nós dois e foi sem olhar para trás.
Fiquei olhando para o carro e então . O silêncio tomou conta do condomínio ao nosso redor até ele falar:
- Você quer dirigi-lo, não quer?
- Muito. – respondi de imediato. Ouvi sua risada em retorno e senti minhas bochechas corarem. – Desculpe, é que sempre achei carros como esse fantásticos. Meu pai nunca me deixou dirigir o dele; na verdade, nunca nem dirigi, apesar de possuir carteira de motorista.
- Isso é algo que temos de providenciar para você também. – ele começou a caminhar em direção ao carro. – Mas aqui dentro não há oficiais da justiça que a multarão por andar sem documento. Vamos.
Abri um enorme sorriso, agradecida por tê-lo tão compreensivo em minha vontade de dirigir aquele carro. Mesmo sendo noite, durante o caminho ele permitiu que eu abrisse o capô para ter a sensação de dirigir em céu aberto. Não era tão difícil, já que o carro é automático. Me acostumar com os comandos era questão de tempo, mas não via a hora de poder ir até meu trabalho de carro e voltar para casa sem precisar pegar transporte público ou carona.

Depois do jantar na segunda-feira, subiu para seu banho enquanto eu terminava de arrumar a cozinha. Estamos morando a apenas alguns dias juntos, mas é como se sempre tivéssemos sido um casal casado. Quando me deitei, ele assistia a TV deitado em nossa cama e logo a desligou quando me cobri com a intenção de dormir. O dia seguinte seria cheio e eu finalmente dormiria como uma .
- Hey. – o ouvi sussurrar em meu ouvido antes de pregar os olhos.
Virei meu corpo na direção de e ele parecia não conseguir dormir. Eu não conseguia dormir, nosso casamento seria no dia seguinte e eu estava maluca de ansiedade.
- Hum?
- Eu te amo como nunca amei ninguém. – sua mão acariciou meu rosto levemente enquanto continuava sua declaração: - E jamais amarei alguém como amo você. - Abri um pequeno sorriso, vendo o reflexo de seus olhos que ainda faço questão de me perder, focados em mim.
- Eu te amo tanto. – murmurei de volta.
- Você sempre será a pessoa mais importante da minha vida. – em seus olhos, vi a verdade e a sinceridade com que se declarava. Em um segundo, toda nossa história passou em minha frente; se eu olhasse para trás, não me arrependeria de nada. Mesmo com os erros. Sofreria todas as dores se fossem necessárias para chegar ao meu agora. Com um último sussurro antes de apenas ficarmos juntos nós dois e o silêncio, me puxou para perto de si e grudou nossas testas uma na outra. – Você é minha tudo, minha garota S.

FIM

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