Fortuna

Escrito por Catarina | Revisado por Luba

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Prólogo

   tinha uma rotina e fazia questão de segui-la religiosamente. Acordava, olhava para o céu, se levantava, preparava seu chá, se arrumava e seguia direto ao trabalho. Todos os seus passos, desde a preparação de seu chá até trancar a porta de seu apartamento antes de sair, deveriam acontecer de forma perfeita, sem erros ou contratempos. Nada poderia dar errado, principalmente com seu chá matinal.
  No entanto, as coisas começaram a não sair do jeito que ele gostaria antes mesmo de se levantar.
  Acordou alguns minutos antes de seu despertador e a primeira coisa que fez ao despertar foi inclinar levemente seu corpo para a direita a fim de olhar para o céu através da janela de seu quarto. Era uma manhã cinzenta em Londres. Voltou a apoiar inteiramente as costas no colchão e fechou seu olhos, suspirando pesado. Definitivamente não gostava de manhãs nubladas. Gostava da luz solar e da sensação de bem-estar que lhe trazia. Sabia que o sol não viria e decidiu levantar-se, mas se enrolou com as cobertas e acabou por cair no chão.
  Vagarosamente foi tentando retomar sua rotina. Seguiu até a cozinha pronto para começar a preparar seu chá matinal, o início de seu dia. Tudo estava bem se seu chá estivesse bem. Uma xícara branca foi posta sobre o balcão de mármore enquanto a água que estava dentro da chaleira esquentava.
  Precisava colocar dois sachês dentro da xícara, despejar a água já quente por cima e esperar os cinco minutos da infusão. Precisava de dois sachês, dos cinco minutos e da água na temperatura ideal.
  Talvez já tivesse percebido quando notou o céu nublado, quando caiu de sua cama, mas foi ter a certeza que alguma coisa muito errada estava acontecendo em sua vida quando procurou seus dois sachês de chá preto e encontrou apenas caixas vazias.
  Nada.
  Absolutamente nada.
  Não tinha chá em sua casa.
  Perguntou-se como pôde ter esquecido de uma parte tão importante de seu dia, mas o fato aconteceu. E então o caos sonoro começou. A chaleira chiou, anunciando inutilmente que a água estava fervendo, ao mesmo tempo, o despertador começou a fazer seu barulho alto e irritante e seu celular tocou.
  Sua cabeça estava uma confusão.
  Apagou o fogão e foi em busca de seu despertador. Tinha um mal pressentimento sobre tudo que estava acontecendo. Parecia que uma maré de azar estava por vir. Quando chegou em seu quarto e desligou o alarme, viu que sua janela estava molhada com alguns pingos de chuva. Era a primavera chuvosa de Londres, claro. Esqueceu que seu celular havia tocado e começou a arrumar-se para sair ao trabalho. Durante o curto período de trinta minutos exatas vinte chamadas foram recebidas em seu telefone.
  Alguma coisa estava acontecendo.
  Ainda na tela bloqueada via os remetentes das ligações.
Katherine — 3 chamada(s) perdida(s).
Samantha S. — 10 chamada(s) perdida(s).
Thomas S. — 6 chamada(s) perdida(s).
Annelise — 1 chamada (s) perdida (s).
Você tem um correio de voz de Annelise.
  A surpresa não foi a quantidade de chamadas perdidas, mas sim a de alguém: Annelise. e sua irmã nunca tiveram o que chamamos de laços afetivos. Sua relação com a irmã desde muito cedo sempre foi muito conflituosa, fria e distante. Desde que se casou com o contador da empresa de seus pais, Connor Lewis, Annelise distanciou-se ainda mais do irmão. Há três anos se mudou para uma cidade bem distante de Londres, fazendo com que só soubesse que estava ainda estava viva graças aos cartões de datas comemorativas que mandava. Era a primeira vez em 3 anos que faziam algum contato fora dos já conhecidos cartões.
  Isso foi suficiente para deixá-lo desconfortável.
  Viu a notificação sobre o correio de voz e decidiu ouvi-lo.

, sei que é estranho receber minha ligação. Também imagino que não tenha interesse em me ligar de volta, mas é importante. Provavelmente mamãe vai te contar o que está acontecendo primeiro, então só me cabe pedir desculpas, apesar de saber que não tenho culpa sobre tudo isso. Se você tiver escutado essa mensagem vá à empresa assim que puder, é urgente.”
  Definitivamente estava acontecendo alguma coisa muito errada e ainda eram oito da manhã.

x x x x

  Já passavam das 2 da manhã quando terminou os últimos detalhes de seu projeto final. Um pouco mais tarde ela deveria apresentar seu projeto base — projeto esse que já tinha finalizado por completo por pura vontade e falta de vida social ativa. Pegou seu telefone e viu algumas mensagens perdidas de suas amigas.
[16:00]: dividirei o milshake novo de maçã do amor da Rosie's com o amor da minha vida. xx
[17:00]: não é o amor da minha vida, mas o milshake é ótimo, vc deveria experimentar qualquer dia!
[19:04]: , por favor, vc precisa sair um pouco
[22:55]: só espero que vc não morra por causa desses teus livros. te amo. amanhã passo ai pra te levar. xoxo.

Clair [22:26]: , você está mesmo fazendo o projeto inteiro?
Clair [22:27]: Não precisa disso!! Amanhã é só a apresentação base, não é?
Clair [23:13]: Já entendi. Sua teimosia cansa minha beleza... Amanhã te compro o almoço.
  Deitou-se na cama sem responder as mensagens das amigas. Por um instante pensou se era realmente aquilo que queria para sua vida. Tinha sua família, suas duas melhores amigas, mas vez ou outra se permitia sentir um vazio por dentro. Na verdade, a sensação de que não era totalmente feliz estava (quase) sempre presente. No fundo ela sabia o motivo de se sentir daquele jeito. Sua insegurança, timidez, baixa autoestima, sequelas de infância e adolescência conturbadas, a impediam de manter laços afetivos muito duradouros, salvo raras exceções. Não acreditava que seria suficiente para alguém, tinha medo. A saída era encher-se de tarefas. Tarefas que com certeza saberia fazer bem, que a chance de rejeição era menor.
  A noite seria longa. Passaria um tempo até cair no sono. Pensaria em sua curta trajetória de vida, em sua família, seus sonhos, em seus objetivos, mas cairia no sono. Pensaria se algum dia se sentiria normal, se sentiria bem, se ficaria feliz com todos os aspectos de sua vida, se finalmente iria sentir como se tivesse tudo que precisasse. Dormiria por 5 horas. Levantaria às 7:00 e às 8:00 estaria saindo de casa para apresentar o que considerava um de seus melhores trabalhos. Mostraria que estava pronta para muitas coisas.
  Nada daria errado.
  Nada poderia dar errado.

x x x x x

Capítulo 1

Bradford, West Yorkshire.

  — , você já não está atrasada?
  Todos os dias sou acordada desta forma: três batidas na porta, alguma música de Elvis Presley vindo da sala de estar e mamãe gritando: “, você já não está atrasada?”. Foi assim desde que me entendo por gente e, por incrível que pareça, eu nunca estive atrasada. Acho que é um instinto natural materno de querer enlouquecer os filhos fazendo com que eles acreditem que dormiram horas a mais do que deveriam.
  Antoine de Saint-Exupéry escreveu: "Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz."
  Mamães provavelmente escreveriam: "Se tens comprosso, por exemplo, às quatro da tarde, às duas te direi que já são cinco."
  — Já estou descendo, mãe, — grito de volta jogando a coberta para o lado e levantando da cama.
  Eu me sentia pronta para mais um dia de faculdade, apesar de apreensiva. Ter que encontrar, lidar, falar com pessoas desconhecidas, essas coisas sim eu temia todos os dias, por mais que eu encontrasse essas mesmas pessoas todos os dias. Não me sentia confortável com contato social e provavelmente nunca sentiria. Socializar nunca foi meu forte, talvez seja um resquício de uma criança perturbada ou uma adolescente retraída, mas eu precisava seguir minha vida, ir à faculdade, fazer minhas coisas, gostando ou não de alguns deveres que encontro pelo caminho.
  Hoje, especialmente, precisaria levantar com muita coragem e entusiasmo. Eu apresentarei a maior (e melhor) pesquisa de toda minha vida: o trabalho de final de semestre da matéria de Literatura Inglesa sobre a vida das irmãs Brontë. Claro que eu estava nervosa, obras primas muitas vezes não são reconhecidas de imediato. Além do mais, eu sabia que vez ou outra minha voz poderia falhar, poderia esquecer palavras, mas de alguma forma eu gosto da ideia de apresentar meu trabalho.
  Por favor, não pense que sou prepotente. Pelo contrário, humildade e gordura localizada são coisas que não me faltam, mas eu tinha confiança que essa era a minha chance de finalmente ser reconhecida por ter feito algo magnífico, por mais que o assunto não seja tão original.
  Ah, devo me apresentar, sou , 23 anos, nascida, criada e residente de Bradford, West Yorkshire, Inglaterra. Família mediana: uma irmã mais velha, pais um tanto quanto desnaturados que brigaram com boa parte da família, não que eu me importe. Tudo que eu tenho até agora é uma faculdade incompleta e um trabalho de meio período em uma das bibliotecas públicas da cidade.
  Eu sou um fantasma. Não literalmente, mas um fantasminha. A típica pessoa que não fede nem cheira, um tanto quanto invisível. Meu talento sempre foi passar despercebida. Nunca chamei atenção por ter as melhores notas ou as piores, nunca fui a mais popular nem a mais indigna de atenção, nunca fui a demônia ou a beata. Sempre fui . Talvez essa seja a razão por eu não ter um círculo social tão grande.
  — , sua amiga rica e esquisita veio te buscar de carro, — Jane, minha querida e barulhenta irmã, falou enquanto abria bruscamente a porta do quarto.
  — POR QUE VOCÊ NÃO BATE NA PORTA? EU PODERIA ESTAR PELADA! — suspirei antes de continuar em tom desafiador — Já estou indo, Apple.
  — Não veria nada que eu não tenha. Talvez só pneuzinhos, — ela disse torcendo o nariz — E já falei para não me chamar desse nome ridículo.
  — Esse é teu nome, só reclamar com teus pais, — respondi rindo.
  — Faço isso desde que nasci. — Fechou a porta e saiu resmungando.
  Lembram da parte dos pais desnaturados? Pois bem, explica muitas coisas da minha vida. Uma delas é o nome da minha irmã: Apple Janette . Apple. Isso mesmo, a fruta.
  Reza a lenda que meus pais se conheceram quando estavam sentados embaixo de uma macieira se protegendo da chuva, (uma idiotice, aliás. Poderiam ter morrido se um raio caísse ali) por isso, mamãe decidiu colocar o nome da primeira filha de Apple "fruto da árvore e do amor de dois". Veja que está entre aspas já que a frase é da minha mãe, eu jamais falaria esse tipo de coisa. Vergonhoso. Meus pais acreditavam que faltava alguma coisa, então colocaram o nome de minha avó materna, Janette. Eu não preciso dizer que minha irmã odeia que a chamem de Apple, então adotamos o apelido Jane, mas certamente não perco a oportunidade de perturbá-la. Eu agradeço aos céus até hoje por não terem colocado meu nome de November: o mês que meus pais casaram.
  Desci as escadas correndo com minhas coisas em mãos ouvindo buzinar incansavelmente. Peguei um pequeno pote com algumas panquecas de banana que estavam em cima da mesa de centro da sala de estar, tirei minhas chaves do chaveiro, e fui de encontro ao carro que estava em frente a minha casa.
  — Mãe, pai, estou saindo, — disse fechando a porta da frente.
  — Eu não acredito que você ainda leva panquecas de banana com mel feitas pela mamãe, fica parecendo que você acabou de entrar no jardim de infância, — disse dando partida no carro. — Segundou ao som de Jailhouse Rock.
  — Elvis não só está vivo como vivendo comigo. — damos risadas juntas — E as panquecas são economia de tempo, já que minha mãe se dispõe a fazê-las, eu aceito de bom grado e durmo mais um pouco.
  — Os são os maiores fãs de Elvis que conheço.
  — Meu pai não perde a oportunidade de nos lembrar de suas raízes americanas, — digo arrumando meu cabelo no espelho do banco do carona.
  — Você não sabe da maior: Andrew Murray saiu na porrada com o quarterback…
   é fofoqueira, mas é minha amiga. Na verdade, ela conhece muitas pessoas da faculdade, tem muitos amigos e acaba sabendo do que acontece na vida dos mais populares. Estudamos durante todo ensino fundamental juntas e fomos vizinhas por todo esse tempo, até que os pais a mandaram para fazer o Ensino Médio no Canadá. A família dela tem boas condições financeiras: seu pai assumiu a antiga loja de sapatos da família e a mãe é dona de três salões de beleza, sem contar a casa de campo na Escócia e o hotel em Londres, esses são da tia de .
  Como pode perceber, se tirarmos as detenções e as matérias de exatas, minha vida universitária é a mesma da minha vida de secundarista.
  — ... e no final os dois foram parar dentro da piscina do centro esportivo, — ela terminou de contar e eu não tinha prestado atenção em absolutamente nada. — Aliás, Andrew Murray não é parente da sua amiga? O loiro, atlético, namorado, agora provavelmente ex, da Megan Curtis.
  — Não conheço ninguém com esse nome na família da Clair, — disse abrindo meu pote com panquecas. — Você não vai querer um pedaço, vai?
  — Eu te disse que estou tentando uma dieta vegan por uma semana, por causa de Claudine, a menina da frança que eu conheci na internet. Ela disse que é muito difícil e eu disse que tentaria por uma semana.
  — Mas ontem mesmo você não tinha dividido um milkshake de maçã do amor com o ex-futuro amor da sua vida? — Botei um pedaço na boca e me senti chegando no paraíso divino. Se os anjos comem alguma coisa, essa coisa são panquecas de banana.
  — Baby steps, , baby steps, — ela disse rindo. — Agora, sério, hoje eu começo de verdade.
  Chegamos na faculdade razoavelmente adiantadas e seguimos caminhos diferentes. Ela estudava alguma coisa parecida com design gráfico. Poderia criar jogos, animações e essas coisas. Acho o máximo ela saber esse tipo de coisa porque sempre fui uma negação quando se trata de tecnologia ou desenhar, prefiro nem imaginar os dois juntos. Eu curso Língua e Literatura Inglesa. Nada muito chocante ou animador. Nada que me trouxesse muito status ou atenção. Como disse, um fantasminha.
  Fui caminhando em direção ao prédio que apresentaria meu trabalho. Respirei fundo algumas vezes, ajeitei meus óculos, agarrei com força as alças de minha mochila e segui confiante.
  Confiança é fundamental em nossa vida, é ela que nos move. Se aderirmos uma postura confiante ganhamos respeito, as pessoas passam até a nos admirar, mas o excesso de confiança é perigoso. Se você confia demais no próprio taco, uma hora pode acabar se machucando com ele. Claro que as vezes a gente não faz por mal. As vezes a única coisa que temos para nos segurarmos somos nós mesmos. Eu não, eu tinha meus amigos, minha família, fui confiante demais por puro capricho.
  Minha apresentação já tinha terminado e meu professor estava dando alguns avisos quando o relógio marcou o fim da aula. Eu estava guardando minhas coisas quando ouvi a voz de Sr. Clapham atrás de mim:
  — Senhorita , espere um momento antes de sair.
  Você pode pensar que essa seria a hora que eu me desesperaria e começaria a chorar feito uma criança e implorar para que ele me desse ao menos a nota mínima para passar em sua matéria, mas eu estava suficientemente confiante para saber que seria para elogiar o árduo trabalho que tive e dizer que poderia ser considerado uma obra de arte.
  Bem, antes eu tivesse chorado.
  — Foi um bom trabalho sobre as irmãs Brontë, a abordagem histórica, as críticas, a análise das obras. No entanto, acredito que tenha faltado originalidade em relação à escolha do tema e ao desenvolvimento de seu projeto, — ele disse sentando-se na cadeira. — Acabou por ser mais do mesmo que já vi durante todos esses anos trabalhando nesta instituição. Aliás, todo ano letivo eu vejo a apresentação de pelo menos um trabalho sobre as Brontë, cansa.
  Eu estava em choque. Passei meses fazendo pesquisas, analisando documentos e no final meu trabalho era um belo de um mais do mesmo. Até meu trabalho passava despercebido pelos outros. Eu era invisível em absolutamente todos os aspectos da minha vida.
   — Decidi deixar que os alunos fizessem a apresentação de um projeto base justamente para ajustar esse tipo de coisa. Você precisa reescrever seu trabalho do zero. Não escreva mais nada sobre a Era Vitoriana, muito menos sobre a família Brontë.
— Senhor Clapham, desse jeito me sinto ofendida, — disse fazendo uma voz afetada e colocando a mão sobre o peito. Eu realmente estava afetada. — Sobre o que eu deveria escrever, então?
  Passamos dois minutos em silêncio. Meu professor tinha acabado de dizer que eu nunca mais deveria escrever sobre grandes nomes da literatura inglesa, justamente o que eu estudava. Eu sentia como se tivesse cometido a maior injúria já feita e agora meu professor iria propor um tema para que eu possa ter a chance de refazer meu trabalho final e não me tornar uma completa vergonha para minha família repetindo a matéria que mais gostava simplesmente por ser a pior aluna de todos os tempos!
  — Tenho um tema em mente que pode te ajudar a traçar um bom caminho para o desenvolvimento do trabalho. — ele disse anotando algumas coisas em seu caderno — Já que também gosta de história, me traga um trabalho que demonstre como as emoções foram descritas durante diferentes períodos da história. A senhorita pode fazer sobre o mais fácil de todos: o amor.
  Eu estava estupefata, pasma, sem reação. Passei meses fazendo um trabalho buscando acrescentar críticas construtivas e reflexões modernas sobre as relações sociais do século XIX a partir dos textos e vida das irmãs Brontë e meu professor sugere que eu escreva sobre amor? Não conseguiria disfarçar minha cara de desagrado nem se quisesse muito.
  — Entendo que pode não ser muito agradável ter que refazer seu trabalho com um tema totalmente diferente, que exigirá novas pesquisas, mas, acredite, sua nota teria a chance de ser maior com outro tema que não o já mostrado.
  — O senhor não acha o tema um tanto clichê? — perguntei sentindo a raiva enrubescer minhas bochechas.
  — Provavelmente a senhorita não terá problema, pelo que vejo é bastante familiar com clichês, seu trabalho final é prova disso, não à toa estou sugerindo outro tema.
  OK, dessa vez esse velho realmente me ofendeu.
  O problema, querido Sr. Clapham, era que eu tinha 0 experiência nesses assuntos. Como eu iria escrever sobre alguma coisa que eu mal entendo? Durante minha adolescência tive alguns affaires, não nego, mas nada que tenha dado em alguma coisa. O único - e primeiro - menino que eu realmente posso dizer que tive alguma coisa não gostava tanto assim de mim, nós só trocamos beijinhos e é isso. Desde os meus dezesseis anos eu não me relacionava romanticamente com alguém.
  Sendo bem prática posso dizer que nunca me relacionei romanticamente com alguém.
  — Eu não poderia falar de, sei lá, felicidade? — perguntei sentindo uma pontada de esperança em meu coração. Esse assunto realmente me deixa extremamente desconfortável.
  — A senhorita realmente não entendeu o ponto da questão. Não é sobre o que é o sentimento que você deve falar, mas sobre a representação dele na literatura. A visualização do amor nos períodos da história. Por exemplo, a idealização do amor no romantismo, como ela aparece nas principais obras de literatura inglesa? Você não precisa usar sua experiência pessoal para isso, a não ser seus estudos literários. — ele foi se levantando da cadeira e percebi que era hora de ir embora. — Isso é apenas uma sugestão, senhorita . Sinta-se a vontade para recusá-la e apresentar o tema que quiser.
  Mas nem fodendo que eu iria apresentar outro tema depois dessa enxurrada de ofensas. Confesso que quando Sr. Clapham explicou melhor o que queria dizer achei o tema mais interessante, mas ainda era embaraçoso ter que seguir uma sugestão do professor. Era quase como uma perda de autonomia. Me sentia no ensino médio de novo quando precisava fazer um trabalho sobre o assunto já selecionado porque os alunos são incapazes de escolher por conta própria, mas só reproduzir.
  Aliás acho que a pior coisa do ensino médio é fazer com que os alunos sejam meras máquinas de xerox.
  Já era hora do almoço e eu estava mais ansiosa porque iriam comprar comida para mim. Clarissa Murray, minha amiga desde o ensino médio, me devia um almoço. Nos conhecemos logo no primeiro dia de aula e vimos que tínhamos poucas coisas em comum, mas isso de alguma forma serviu para nos unir. Ela amava filosofia, cinema e obras de arte. As vezes acho que conhece mais sobre literatura do que eu. Por sinal era fã do realismo russo. Clair e Chad, seu namorado, estavam no mesmo lugar de sempre, já me esperando. Assim que sentei na cadeira do refeitório, ouvi perguntas.
  — Sangue de Jesus tem poder, ! Que cara é essa minha filha? — Clair perguntou rindo, mordendo seu sanduíche e me entregando outro. — Me conta sobre seu trabalho, já apresentou?
  — Por que você acha que eu estou o bagaço da laranja? Por causa deste trabalho infeliz.
  — Como assim? Explica isso direito! — Ela franziu o cenho e se debruçou na mesa.
  — Você tava tão confiante que eu achei que tua apresentação seria a melhor de todos os tempos, — Chad disse. — AI! O que é, Clarissa? Não precisa me beliscar, só fiz um comentário…
  — Eu também esperava isso, Chad. Pelo visto minha pesquisa era só mais do mesmo, ou seja, perdi MESES da minha vida fazendo um trabalho que não iria me garantir nem uma aprovação. Todo meu esforço foi pro ralo. — Dei uma mordida em meu sanduíche sentindo o molho barbecue. Por algumas coisas ainda vale a pena o esforço, uma delas é comer comidas gostosas. — Agora eu tenho que aceitar a sugestão do professor e refazer todo meu trabalho.
  — Você perdeu ótimas festas por causa dessa coisa e vai perder ainda mais porque vai ter que refazer. , acho que preciso aceitar que nós nunca iremos nos ver em lugares diferentes das nossas casas e dessa faculdade! — Clair bateu na mesa e pareceu desapontada.
  — Até parece que ela teria saído com você se não tivesse trabalho... Essa aí só sai da toca se precisar. — Chad, mais uma vez, abriu a boca para falar merda. Clair inclinou a cabeça para o lado dele e deu um olhar irritadiço em sua direção.
  — Então — continuei —, Sr. Clapham sugeriu falar da representação do amor na literatura ao longo do tempo.
  — Isso é ótimo, ! Não é? — todos decidiram me chamar desse apelido terrível hoje — O que mais se fala na literatura é sobre amor.
  — Sem contar que você trabalha numa biblioteca, ou seja, você tem tempo e livros de sobra!— Chad tentou ajudar enquanto mastigava seu almoço.
  — Você ta insinuando que eu não faço nada, Chad?
  — O que você faz na biblioteca? Não é só mandar a gente calar a boca, colocar os livros no lugar e marcar as fichas de empréstimo? Sem contar que ninguém mais frequenta biblioteca, tem tudo na internet. — Olhei-o com cara de tédio e preferi não discutir.
  Sim, é verdade, bibliotecários fazem essas três coisas, mas essa parte era responsabilidade da Sra. Mason (as vezes eu guardava os livros também porque ela tem problemas no joelho e não gosta de ficar levantando). Eu era responsável por organizar os eventos da biblioteca (os clubes e reuniões que eram raras, mas aconteciam), a doação de livros, precisava verificar a integridade dos livros que ninguém mexe, dos que são muito mexidos e dos que chegam do empréstimo. Uma vez a capa de um dos exemplares de "Sonhos de uma noite de verão" estava m-o-r-d-i-d-a!
  — Sr. Clapham reclamou da originalidade, mas como eu vou fazer um trabalho original falando de um assunto clichê e tendo que mencionar períodos históricos e escolas literárias que vemos no próprio curso? — Desviei minha atenção de Chad e olhei para Clair.
   — A originalidade muitas vezes não vem do assunto, mas da forma como ele é apresentado. — Ela franziu o cenho e cruzou os braços em cima da mesa — É mais ou menos como algumas propagandas funcionam: eles pegam algum elemento já conhecido e dão uma repaginada, apresentam de forma diferente. Todo mundo sabe o que é, mas nunca viu daquela forma.
  — Faz sentido…
  Não vou mentir, provavelmente eu passaria o resto do dia pensando em como dar uma nova roupagem ao tema amor, mas antes de fazer qualquer coisa eu precisava pesquisar sobre o assunto, saber com o que eu estava lidando e por mais que eu não goste, Chad tinha razão. No fundo eu teria tempo de pesquisar e a biblioteca seria o lugar ideal, afinal de contas, a biblioteca tem LIVROS.

Londres, Inglaterra.

  — Isso definitivamente não pode estar acontecendo. Só pode ter acontecido um engano! — Minha mãe andava de um lado para o outro. Todos estávamos no escritório principal: eu, mamãe, Katherine, meu pai e alguns funcionários da contabilidade.
  — Vocês estão certos do que está acontecendo? Fazem ideia da gravidade da acusação, certo? — Katherine perguntou pela quarta vez. — Vocês estão absolutamente certos que não é um engano de dados? Falha no sistema?
  — Eu tenho certeza que nossos profissionais não tomariam a atitude de nos informar de um rombo milionário causado por meu cunhado sem antes verificar a veracidade. — Era a primeira vez em meia hora que meu pai falava alguma coisa.
  — Annelise não sabe onde ele está? — perguntei incomodado com a situação. — Mesmo se soubesse não sei se diria.
  Depois que falei isso levei um bofetada de minha mãe. Fomos roubados. Sim, roubados e pelo meu cunhado, que provavelmente planejou tudo por anos e agora está num paraíso fiscal aplicando o dinheiro da MINHA família.
  — , não é hora de tentar nos fazer duvidar da integridade de Annelise — minha mãe disse andando para longe de mim — ela jamais acobertaria o marido em uma situação dessas, são os negócios da família que estão em jogo.
  — Então talvez você deva tentar ligar para sua filha mais uma vez e perguntar onde foi que o filho da puta do marido dela se escondeu com o nosso dinheiro! Minha irmã não teve a coragem de aparecer pessoalmente para tentar esclarecer o que estava acontecendo. — Levantei da cadeira, irritado.
  — COMO QUE ELA VAI ESCLARECER SE ELA TAMBÉM NÃO SABE O QUE ACONTECEU? — mamãe gritou e o ambiente ficou mais tenso. — Estou cansada dessa sua birra infantil.
  — Você não aceita que sua filha exemplar cometeu o primeiro erro da vida dela, — rebati indo em direção a porta.
  — Quem roubou não foi Annelise, . Ela não cometeu erro nenhum. — meu pai se pôs a frente e me empurrando da sala continuou — Já que não está se comportando com o adulto que é, vá pra fora e nos deixe achar as soluções cabíveis.
  Assim que bateu a porta na minha cara, segui em direção aos elevadores. Eu precisava de um cigarro. Com 25 anos eu me considerava um cara sortudo: era diretor da bem sucedida empresa dos meus pais, tinha meu carro, apartamento, viajava pelo menos 3 vezes por ano e tinha dinheiro suficiente para comer nos melhores restaurantes de Londres sempre que quisesse. Tudo ia bem até o idiota do meu cunhado roubar boa parte do que nós tínhamos.
  Até agora tudo estava obscuro. De alguma forma ele tinha conseguido vender os patrimônios que estavam em nome de Annelise, que não eram poucos, roubar uma boa quantia do caixa da empresa e nos deixar na merda, mas Katherine, nossa advogada, disse que com nada disso conseguíamos incriminá-lo. Se os patrimônios estiverem com a assinatura de consentimento de Annelise, eles têm valor legal, por tanto não há como incriminá-lo por isso. Já o roubo da empresa só pode ter sido ele, porque era o único que mexia diretamente com todo dinheiro da empresa, mas pelo pouco que eu entendi seria difícil provar.
  O que me deixava mais revoltado era um cara querer destruir tudo que meus pais construíram. Minha mãe era design de moda e meu pai já gerenciava negócios, decidiram juntar o útil ao agradável e criaram sua própria marca: S&T. Começaram com uma pequena loja em Bradford, mas assim que conseguiram dinheiro suficiente se mudaram para Londres e começaram a abrir lojas. Roupas sob medida de design exclusivo, um conceito caro que com sorte e muito talento deu certo. Meus pais construíram uma companhia e durante 35 anos, com muitos altos e baixos, enriqueceram. Então, um belo dia, acordamos e recebemos a notícia que o funcionário que acreditávamos ser um dos mais confiáveis, de alguma forma, conseguiu roubar milhões da empresa. Da minha empresa. Da companhia que meus pais dedicaram suas vidas para construir
  Eu tinha chegado ao térreo e estava sentado em um dos bancos que ficavam na parte externa do edifício. Olhei pro céu e vi as nuvens carregadas de mais cedo. A chuva havia parado, mas com certeza voltaria e ficaria por bastante tempo. Dou uma tragada em meu cigarro. O cheiro sempre me enjoou, mas de alguma forma eu precisava desse enjoo nos momentos ruins e esse era um momento péssimo. Provavelmente Connor, o infeliz, estava muito, muito longe no momento. Num lugar ensolarado e quente, um lugar que seria difícil de encontrá-lo. Baratas conhecem bons esconderijos.
  Não sei o que meus pais farão agora. Vamos praticamente ter que voltar do zero, começar tudo de novo. E não estamos nem no dia 1 de janeiro para ter ao menos a falsa sensação de um bom recomeço.
  Ouvi o barulho de salto alto batendo no chão e já soube quem era. Sem dúvida minha mãe estaria nos olhando lá de cima esperando minha reação sobre o que Katherine teria para me falar. Ela sentou-se ao meu lado, puxou o cigarro de meus dedos e o apagou no chão.
  — , sua mãe pediu que apagasse este cigarro e me ouvisse sobre o que decidiram fazer. Depois disse que é melhor voltar para casa e esfriar sua cabeça. — A voz da advogada surgiu em meus ouvidos — Sei que você está odiando toda essa situação, mas não pode jogar a culpa em alguém que nem está aqui.
  — E é justamente por isso que eu também estou irritado! O que custava ela ter saído da casa dela e vindo até aqui? É a empresa da família que está jogo! — Suspirei pesado e a olhei. — Você sempre defendeu Annelise. Até quando namorávamos e ela desdenhava de você. Por quê?
  Tirou seus olhos e mim e olhou para frente. Sempre foi paciente. É o ser humano mais paciente que já conheci. Namoramos por anos e sempre me perguntei o que ela queria comigo. Temos seis anos de diferença e eu era só um moleque. Até hoje me pergunto o que ela tinha na cabeça quando aceitou namorar comigo. Provavelmente terminou comigo porque caiu em si.
  — Sabe, , às vezes as pessoas não querem realmente expressar aquilo que falam. As palavras nem sempre significam o que parece à primeira vista. Annelise se preocupava com você, eu era uma mulher da idade dela namorando seu irmão, ponha-se no lug...
  — Se você está tentando, e diga-se de passagem inutilmente, me amaciar para que eu não brigue com a minha irmã assim que eu a vir, pode parar, — interrompi sua fala levantando do banco e estalando meus dedos. — Você sabe o que a Sra. tem para falar comigo?
  — Eles decidiram denunciar o roubo e abrir uma investigação. — Ela olhou para os pés e passou a mão na ponta dos sapatos para tirar uma folha que estava ali. — Seus pais sabem que trará uma imagem negativa e que muitos investidores vão recuar, mas acham melhor abrir o jogo agora do que falirem sem mais nem menos ou até mesmo algum funcionário fazer escândalo em revistas para ganhar dinheiro.
  — Você disse falir? A empresa não vai falir, não pode!
  — Temos que considerar até os cenários mais desagradáveis, . Vou ligar para os outros advogados da empresa para informar sobre a situação e entrarmos em um consenso sobre como vamos prosseguir. Sua mãe pretende abrir a ocorrência hoje.
  — Como nós vamos manter um caixa e repor os investimentos que serão tirados? — eu já estava ficando mais nervoso ainda. Não queria admitir, mas poderíamos mesmo falir.
  — Seus pais vão pegar as economias e vender os imóveis que estão em nome deles para tentar cobrir as despesas operacionais por algum tempo. Eu vou procurar alguma imobiliárias para estimarem os valores. Não temos como ter certeza que todos os investidores vão desistir, eles podem apenas diminuir a quantia de dinheiro aplicada…
  — Não seja tão ingênua, Kat, eles não vão só recuar como darão um chute na nossa bunda. — Passei a mão pelos cabelos e andei de um lado para o outro. — Será que vamos contornar tudo isso?
  — Só nos resta tentar, não é mesmo? — Ela se levantou do banco e ajeitou seu tailleur. — Vou começar contatando os outros advogados, você deveria ir pra casa. — Apertou meu ombro e seguiu para dentro do edifício.
  Agora eu precisava de um cigarro e uma bebida.

x x x x x

FIM



Comentários da autora
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