Fate

Escrito por Danielle Aquino - Siga a autora no Twitter
Beta-Reader: Virginia



“A única pessoa que eu não posso estar junto é aquela que eu mais queria entregar meu coração.” – A casa do lago.

- Prólogo

Dizem que o tempo cura todas as feridas. Dizem que depois de alguns meses, as lembranças se desgastam o bastante para que você consiga enxergar as coisas como parte do passado. Dizem que, por mais dolorosa que uma despedida seja, em algum momento todo mundo é capaz de aceitar o adeus. Talvez eu não fosse humana o bastante para que essas teorias se aplicassem ao meu caso. Talvez o fato de eu ter me apaixonado por um fruto da minha imaginação fosse a razão para ser tão difícil deixar os sentimentos para trás. A única coisa que eu ainda não sabia dizer era como havia inventado tudo aquilo; como uma pessoa tão maravilhosa surgiu da minha mente dessa forma. Eu jamais diria que tinha uma criatividade desse tamanho.
Alguns dias eu simplesmente ignorava a parte de mim que me chamava de covarde e me culpava por toda a falta que ele me fazia. Em outros, era mais difícil levantar-me da cama e deixar os arrependimentos de lado, enterrados no fundo da minha cabeça. Aquele era um dos momentos em que tudo o que eu gostaria era de dormir, apagar completamente e obrigar o meu cérebro a não me deixar sonhar. No entanto, pessoas doentes me esperavam no hospital e o dever não me deixaria pregar os olhos nem se eu quisesse fingir que não tinha responsabilidades. Assim, levantei-me da cama, fui até o closet cheio de roupas brancas pegar as primeiras que encontrasse pela frente, e liguei o chuveiro em uma temperatura reconfortante, que lavaria todo o desânimo e tristeza que eu arrastava atrás de mim. Vesti-me rapidamente e coloquei a máscara de encorajamento e esperança que precisava transmitir aos pacientes e seus familiares.
A emergência do Johns Hopkins estava movimentada aquele dia. Duas ambulâncias haviam acabado de deixar pacientes vítimas de acidente automobilístico, além das inúmeras pessoas queixando viroses, contusões e outros acometimentos mais comuns. Dirigi-me para a CTI do local, onde eu era uma das médicas responsável por alguns leitos. Às segundas-feiras sempre tínhamos uma reunião com a equipe antes de iniciar o expediente – essa reunião só era adiada quando alguma situação extrema estava em curso no local, como um paciente sofrendo parada cardíaca ou respiratória. Felizmente, não era o caso aquele dia, então fui para a sala de reuniões do andar com meu jaleco dobrado em um dos braços e a bolsa pendurada no ombro.
- Bom dia. – cumprimentei meus colegas de trabalho que já estavam sentados no local ao redor da grande mesa redonda da sala. Vários deles responderam com um “bom dia” também, enquanto duas das enfermeiras intensivistas cochichavam alguma coisa.
- Onde está o Hanson? – perguntei sentando-me ao lado de Trevor, uma das pessoas com quem me dava melhor naquela equipe. Taylor Hanson era o chefe da CTI e, portanto, sempre comandava as nossas reuniões.
- Ele foi receber o novato. – Trevor respondeu.
Eu já havia me esquecido que teríamos um novato. Jennifer Rivers, a médica que variava os plantões comigo, fora transferida para um hospital em Chicago e a vaga dela precisava ser preenchida com urgência. Eu só imaginava que demoraria mais do que uma semana para que isso acontecesse.
Não levou muito tempo até que escutássemos a voz de Taylor aproximando-se do local. A única pista que tivemos da nova pessoa com quem trabalharíamos a princípio era que Taylor havia contratado outro homem – as risadas do rapaz acompanhavam as piadinhas infames do nosso chefe. Por algum motivo, aquelas risadas aceleraram meus batimentos cardíacos e fizeram com que minhas mãos suassem nas palmas. Eu conhecia aquela gargalhada de algum lugar...
Antes que meu cérebro associasse os fatos para me dar uma resposta, adentrou a sala, e foi como se o mundo inteiro se movesse em câmera lenta. Eu não sabia como reagir, não sabia o que pensar, não sabia mais nem meu próprio nome. E então seus olhos encontraram os meus e tive certeza que, desta vez, eu não estava mesmo sonhando.

- Um

Dois anos antes

Havia vinte seis horas que eu estava correndo de um lado para o outro dentro do Centro Médico Mount Sinai, tentando ajudar na emergência, checar pacientes na semi-UTI e cuidar das outras pessoas que ocupavam os leitos da UTI sobre a qual eu era responsável. Como chefe da CTI do hospital, eu ainda tinha de ficar de olho nos enfermeiros, médicos e fisioterapeutas de toda a equipe para saber se estavam cumprindo devidamente suas tarefas. Talvez eu não devesse ter aceitado aquele cargo tão pouco tempo depois de ter terminado a minha especialização. Férias agora parecia a melhor coisa do mundo.
- Obrigada, doutora. Você é um anjo. – Uma senhora que estava internada há alguns dias por ter sofrido um choque anafilático agradeceu-me quando eu declarei sua alta. O médico responsável por ela e por outros pacientes na mesma ala havia acabado de encerrar seu expediente depois de trinta e duas horas de trabalho.
- Fique com Deus, senhora McCarty. E evite amendoim daqui pra frente, certo? – lembrei-a do motivo para que tivesse parado naquela situação, entre a vida e a morte por causa de alguns doces de amendoim aos quais não sabia que era alérgica. Ela assentiu e sorriu para mim como despedida. A gratidão de pessoas como ela que me fazia continuar esgotando as minhas energias naquele trabalho.
O bipe anunciou o final do meu plantão, então me dirigi até a minha pequena sala na lateral da CTI para trocar de roupas e ajeitar minhas coisas para dali trinta horas, quando minha folga terminaria e eu voltaria para o hospital. No caminho até a saída, o corpo quase imóvel de um rapaz que aparentava a mesma idade que a minha – trinta anos – chamou a minha atenção. As enfermeiras conduziram a maca cercada por equipamentos onde ele estava deitado para a UTI de minha responsabilidade. Era sempre assim. Conseguíamos o milagre de liberar um leito, de fazer uma pessoa conseguir sobreviver com seus próprios órgãos e se aproximar de uma cura efetiva, e então outro ser humano ocupava aquele lugar, aqueles equipamentos, e outra família começaria a pedir a Deus para que seu filho, irmão, tio, primo ou sobrinho tivesse uma segunda chance.
Bom, era como meus professores na faculdade sempre diziam: nós tentamos burlar a morte, mas ninguém pode realmente fugir dela. Precisamos entender que sempre vamos lutar, mas nem sempre conseguiremos vencer.

- Dois

. Trinta e um anos. Vítima de um acidente de carro. Sofreu perfuração em vários órgãos, precisou de transfusão de sangue por causa de uma grave hemorragia, as três últimas costelas estavam fraturadas e ele estava em coma induzido devido a um inchaço no cérebro. Pacientes no estado de faziam com que eu me sentisse uma completa inútil. O máximo que eu poderia fazer era conferir seus aparelhos e controlar a situação até que seu cérebro voltasse às condições normais e ele fosse retirado do coma.
Fitei seu rosto calmo, sereno, tranquilo como se ele estivesse dormindo profundamente. Sua face estava coberta de arranhões e pequenas feridas. De repente, tive uma vontade incontrolável de descobrir qual era a cor de seus olhos.
- Tão jovem... – Eliza disse de algum lugar perto de mim fazendo-me pular de susto. – Desculpe, . – ela murmurou com um sorriso quando percebeu que teria me matado com uma parada cardíaca se eu tivesse o coração um pouco mais fraco.
- Você sabe quando ele deu entrada? – perguntei-lhe com o prontuário ainda nas mãos. Eu poderia olhar a data no documento, mas imaginei que Eliza seria mais detalhista ao me passar a informação.
- Ontem de manhã. Ele foi atendido e entubado pouco antes de você sair para a sua folga. É um milagre que tenha sobrevivido. Eu soube que o carro dele parecia um monte de sucata. Parece que capotou várias vezes... – a enfermeira respondeu balançando a cabeça de tristeza.
- Espero que ele realmente sobreviva. – comentei colocando a prancheta com o prontuário do rapaz no espaço em frente à sua cama destinado a isso. As estatísticas das UTIs eram desanimadoras e nada ajudavam quando nós, médicos, tentávamos dar esperanças aos familiares das pessoas que paravam ali. – E a família dele? Já conversaram com eles? – perguntei antes de ir ao próximo leito, onde uma moça vítima de acidente de moto estava internada há uns cinco dias.
- Ninguém da família apareceu ainda, mas a administração do hospital já conseguiu entrar em contato com alguns dos parentes para informar que ele está aqui.
Bom, neste ponto, e eu tínhamos algo em comum. Minha mãe, a única família que realmente tinha, foi assassinada num assalto quando eu tinha doze anos. Minha guarda ficou com o meu pai, que me deixou na casa de uma de suas irmãs que fazia questão de me lembrar todos os dias que eu não era bem vinda ali. Quando completei dezoito anos, fui aceita na Universidade Columbia no curso de medicina, e passei a trabalhar todas as noites como garçonete ou bartender para conseguir pagar o aluguel do dormitório, meus livros e as taxas da universidade. Portanto, se eu sofresse um acidente e acabasse em algum hospital em coma, certamente não receberia visitas de familiares também.
Cumpri meu expediente da mesma forma que todos os dias em que não ficava de plantão. Assim, depois de oito horas de trabalho, dirigi até o apartamento que eu dividia com minha própria sombra e me permiti desabar sobre o sofá e assistir uma das minhas séries preferidas - House. Sim, eu tinha parafusos a menos. Quem passava a maior parte da vida dentro de um hospital e se divertia no tempo livre assistindo a vida de outro médico? Bom, era verdade que a vida daquele médico era bem mais interessante que a minha, e talvez isso explicasse a minha simpatia por ele. Esforcei-me para ficar acordada até o final do episódio, mas, aos trinta minutos e alguma coisa, apertei o botão pause do controle remoto e me permiti adormecer.

- Três

Eu tinha noventa por cento de certeza de que estava sonhando. A primeira pista que identifiquei foi o fato de eu estar vestida com roupas de academia e estar correndo, me exercitando com fones de ouvido presos às orelhas e tudo mais. Eu não era do tipo de pessoa que saía por livre e espontânea vontade para correr. A preguiça nunca me deixava fazer isso, e meu sofá ou minha cama sempre pareciam atraentes demais para serem trocados por uma hora de suor e dores nos músculos encurtados pelos trinta anos de sedentarismo.
Parei de correr no que só poderia ser um sonho e sentei-me no banco da praça que parecia ser o limite de até aonde eu iria. Pelo que me lembrava, aquela praça ficava a uns dois quilômetros da minha casa – eu adorava ir até ali para ler um bom livro e ouvir o barulho de Nova York ao redor. Alguns minutos depois de eu ter me sentado e quando eu já me preparava para fazer o caminho de volta para o meu apartamento, um rapaz sentou-se ao meu lado para amarrar seu tênis.
- Treinando para alguma maratona? – ele perguntou casualmente.
- Não, não. Eu nem costumo correr, na verdade. Acho que perceber que fico mais velha daqui quatro meses fez com que eu me sentisse culpada por cuidar tão mal da minha saúde. – eu ri de mim mesma. Era tão irônico: eu dedicava a maior parte da minha vida a cuidar da saúde dos outros, mas a minha própria saúde não me importava tanto.
- Mulheres e o problema delas com a idade. – ele riu de volta. Voltei meu olhar pela primeira vez para o rosto do rapaz, e o choque foi tão grande que eu deveria ter despertado. estava inteirinho ali, ao meu lado, sorrindo descontraidamente. Seus olhos eram azuis, profundos e perfeitos como o mar em um dia ensolarado.
- Você sempre morou em Nova York? – perguntei encarando-o.
- Mudei pra cá há alguns anos para fazer faculdade. Por que a pergunta?
- Não, por nada. Só tive a impressão de te conhecer de algum lugar. – dei de ombros. – Meu nome é . – eu disse estendendo a mão para cumprimentá-lo.
- Muito prazer, . Meu nome é . – ele retribuiu o cumprimento, e, quando o calor da pele de sua mão envolveu a minha, eu acordei.

- Quatro

Entrei na UTI dizendo para mim mesma que aquele sonho não significava nada. Quantas vezes eu já havia sonhado com a melhora dos pacientes? Certamente, aquela não fora a primeira e provavelmente não seria a última também.
Encarei o corpo imóvel de sobre a cama. Conferi os equipamentos e as anotações feitas por Antony, o médico que variava os turnos comigo. O quadro do rapaz era estável, mas não conseguiríamos prever tão cedo quando ele se recuperaria o bastante para acordar, nem que tipo de lesões poderia ter sofrido. Caminhei até a parede onde a cama e alguns equipamentos estavam encostados e encarei seu rosto quase todo tampado pelo tubo de oxigênio – a pele exposta era extremamente branca e os pequenos machucados pareciam torná-la ainda mais frágil. Apesar disso, porém, deixei que a minha curiosidade obsessiva me dominasse e puxei de leve uma das pálpebras dele. Só uma pequena fração de sua íris ficou exposta, mas foi o bastante para que eu confirmasse o que queria: os olhos dele eram exatamente como no sonho.

Repeti para mim mesma durante o resto do dia que era perfeitamente normal que a cor dos olhos dele fossem como no sonho. O rapaz era louro, e louros costumam ter olhos azuis, certo? Certo. E eu não podia deixar que as minhas loucuras me distraíssem no trabalho. A atenção era a minha ferramenta mais preciosa, e muita gente dependia de mim.
Não tive tempo para temer o sono aquela noite – assim que meu corpo tocou o colchão macio da cama, eu apaguei. Então, eu estava no parque, vestindo roupas de ginástica novamente e comprando um sorvete.
- Oi, ! – me cumprimentou.
- Oi, ! – respondi com um sorriso. – Que cachorro bonito! – eu disse observando seu labrador amarelo. Tive vontade de adular o bicho, mas não me atrevi; eu não sabia se ele era tão amigável quanto o dono.
- Pode fazer carinho nele se quiser. O Luke adora moças bonitas. – disse e piscou para mim. – Não é verdade, amigão? – Luke latiu e abanou o rabo com mais empolgação em resposta. Eu corei intensamente por causa do elogio, e enfiei minhas mãos nos pelos macios da cabeça de Luke. – Vejo que você está correndo com frequência agora.
- Pois é, eu descobri que é mais agradável do que eu imaginava. – falei e lambi meu sorvete.
- Você mora aqui perto, certo?
- É, na West 115.
- Jura? Eu moro na West 85. – falou surpreso.
- Legal! Você está chegando agora? Se não, podemos voltar juntos... – sugeri.
- Excelente ideia.
e eu conversamos durante todo o caminho. Ele me contou que se mudou para N.Y para estudar na Universidade de Nova York, e acabei descobrindo que havia se formado um ano antes de mim. fez residência no Hospital New York-Presbyterian e depois disso trabalhou em vários outros hospitais pela cidade e nos arredores. Ele estava prestes a aceitar uma proposta de trabalho na Califórnia quando lhe ofereceram uma posição na UTI do Hospital N.Y-Presbyterian, fazendo com que ele realmente se estabelecesse em Manhattan. Então, eu lhe contei como fui parar na maior cidade dos Estados Unidos, como o desejo de salvar a vida das pessoas e de sumir da casa da minha tia me motivou a ir adiante, a chegar onde eu estava.
- Não acredito que tenho um colega de profissão morando na mesma rua que eu e nunca me dei conta disso antes! – eu disse surpresa assim que atingimos a entrada do meu prédio. A resposta de foi um sorriso.
- Você gosta de lasanha, ? – ele perguntou mudando de assunto subitamente.
- Sim, eu gosto. – respondi confusa.
- O que acha de ir comer a minha lasanha especial um dia desses?

- Cinco

Eu conseguia sentir o sofá macio de sob mim, a taça de vinho repousando na minha mão e meu coração acelerado de empolgação com tanta realidade que aquele momento não parecia mesmo um sonho. Só me dei de conta que não havia de fato acontecido quando despertei – meu rosto coberto de suor e meus lábios ainda quentes pela parte mais incrível do que deveria ser uma invenção da minha mente, uma forma do meu cérebro continuar funcionando enquanto eu estava adormecida, mas que parecia ser o instante mais real da minha vida. Mais real e mais feliz.

>>Flashback Start <<

- Mais cinco minutos e já vamos comer. – anunciou colocando sobre a bancada a luva que utilizou para puxar a grade do forno e conferir o aspecto da lasanha.
Meus olhos não sabiam em que se fixavam – na cozinha bem decorada ao meu redor ou no rapaz lindo e impecavelmente vestido diante de mim. usava uma camisa social preta e uma calça da mesma cor. Um rolex enfeitava seu punho esquerdo, seus cabelos estavam penteados para trás e seus lábios ficaram ainda mais perfeitos quando ele bebericou o vinho e passou a língua sobre eles. Balancei minha cabeça freneticamente de um lado para o outro tentando afastar pensamentos impuros que a invadiram. Meu histórico de relacionamentos era um fracasso e eu deveria pensar mais nele quando algum rapaz charmoso, perfeito e encantador me chamasse para sua casa. Provavelmente por debaixo daquele poço de beleza existiam defeitos com os quais eu não conseguiria conviver. Ou talvez as coisas nem passassem de uma noite para que eu chegasse a conhecê-lo realmente.
O telefone da casa de tocou e me livrou da reflexão amargurada. Ele pegou o aparelho e estava prestes a apertar o botão que recusaria a chamada, mas não fez isso provavelmente porque reconheceu o número.
- Desculpe, . É o número da minha irmã, eu preciso atender. – ele disse se desculpando também com os olhos.
- Claro, fique à vontade. – sorri em resposta.
- Com licença.
não tinha falado muito de sua família até então – ele sempre ficava desconfortável quando entrávamos no assunto e aquele também não era um de meus tópicos preferidos, de modo que eu também achava melhor não entrar em detalhes a respeito disso. Assim, completei minha taça de vinho novamente e fiquei encarando uma escultura de tigela de cachorro que enfeitava uma das prateleiras do armário da cozinha de . Ele havia dado Luke de presente para um amigo que se mudou para o subúrbio quando se casou, há alguns dias. De acordo com , foi uma decisão difícil, mas o cachorro seria mais feliz em um lugar com espaço para brincar do que em apartamento apertado. E, bom, ele estava certo. Não ter espaço para um animal era uma das razões para que eu não tivesse algum bicho de estimação. É claro que minha falta de tempo e grande tendência de esquecer que um cachorro, gato ou mesmo peixe precisava comer para se manter vivo pesavam muito também.
- Você fez suas escolhas, Rachel. Agora conviva com as consequências delas. – escutei a voz de vindo da sala mais exaltada e estrangulada do que eu já havia escutado durante todas aquelas semanas em que estávamos convivendo. Eu não conhecia plenamente, mas nem precisaria para saber que era duro para ele dizer isso a irmã, embora aquilo precisasse ser dito. – Diga à Norah que se ela precisar de alimentos ou de atendimento médico, eu estou à disposição. Cartão de crédito, cheque, dinheiro em espécie ou qualquer outra coisa parecida com isso, não precisa contar comigo mais. – ele diminuiu a voz algumas oitavas no final da frase quando percebeu que o nervosismo estava deixando seu tom alto demais. – Ok, Rachel. Se cuida. Tchau. – encerrou a ligação com um suspiro alto.
Tentei aliviar minha expressão enquanto me perguntava se eu deveria falar alguma coisa sobre aquilo ou não. Então, entrou na cozinha com um sorriso fraco no rosto anunciando que era hora de jantar, e eu apenas assenti enquanto ele tirava a lasanha do forno para colocá-la sobre a mesa da copa anexa à cozinha.
observou atentamente quando coloquei o primeiro garfo de sua lasanha na boca e sorriu de orelha a orelha quando eu disse “hmmmmmm”. Além de um ótimo médico e excelente amigo, ele também era um cozinheiro fantástico! Conversamos sobre amenidades durante todo o jantar, e a ligação de Rachel já havia deixado a minha mente quando transferimos nossa conversa para sala. Assim, fiquei realmente surpresa quando abordou o assunto.
- Eu sei que você ouviu alguma coisa e quero te explicar. Você é importante pra mim e, por mais que eu queira evitar meus problemas familiares, eles fazem parte da minha vida também. – ele disse. Estávamos sentados no sofá de modo que ele ficasse de frente para mim; o vestido preto um palmo acima do joelho que eu estava trajando só me dava liberdade de ficar de pernas cruzadas.
- Se serve de consolo, eu realmente entendo o que é ter problemas familiares. Mas então... – falei pegando uma das mãos dele e cobrindo-a com as minhas duas mãos, muito pequenas perto das suas - O que há entre você e a Rachel?
- A Rachel é cinco anos mais velha que eu. Ela saiu de casa assim que fez dezoito para morar com o namorado. Não foi para a faculdade, e poucos meses depois que eles estavam morando juntos, ela engravidou do primeiro filho. Agora tem três filhos com esse homem, o casamento dos dois é um inferno e ela sempre me liga para lamentar da vida. Eu sei que ela era jovem, que nem tudo é culpa dela... Mas ela precisa conviver com as consequências das decisões que tomou agora, e não há nada que eu possa fazer com relação a isso. – suspirou pesadamente. – Admito que eu também tenho muita mágoa dela. Nosso relacionamento com nossos pais sempre foi péssimo porque os dois só se preocupam com dinheiro. Meu pai é alcóolatra crônico desde que me entendo por gente e minha mãe sempre culpou os filhos pelos problemas financeiros, psicológicos e conjugais dela. Daí a Rachel saiu de casa quando eu tinha treze anos, quando faltava muito para que eu pudesse viver a minha vida longe de tudo aquilo também. E ela fez isso sem olhar para trás. Mudou-se para outro estado e mal telefonava. Eu me senti abandonado. Ela odiava tanto aquela situação para fugir desse jeito, mas nem se preocupou se eu ficaria afundado nisso sozinho. – ele se calou por um instante, provavelmente distraído pelas lembranças. Sua voz realmente trazia toda a mágoa que ele ainda tinha da irmã. E eu jamais poderia imaginar como era ter ambos os pais vivos, mas tão inúteis quanto se estivessem mortos. Meu pai era um completo imprestável, era verdade, mas minha mãe me amou incondicionalmente a cada dia de sua curta vida e demonstrou isso em cada uma de suas ações.
- Eu sinto muito, . – murmurei sabendo que minhas palavras em nada ajudariam, mas na tentativa de demonstrar alguma solidariedade.
- Eu também, ... – ele disse e sorriu amarelo para mim. Tirou sua mão de sobre as minhas e entrelaçou nossos dedos. – Meus pais vivem ligando para me pedir dinheiro ou fazem isso por meio da Rachel quando eu não os atendo. Mas é claro que eu não vou ajudar a sustentar o vício do meu pai pela bebida, nem o vício da minha mãe em compras. Eles sabem disso, só que nunca vão desistir, é óbvio.
- Obrigada por confiar em mim para me contar tudo isso. – agradeci sinceramente.
moveu-se de modo a aproximar-se mais de mim. Levou uma de suas mãos ao meu rosto e meu olhar ficou submerso nos olhos azuis incríveis dele.
- Eu quero que você faça parte da minha vida, e se você quiser isso também, precisa saber quais são os problemas que existem nela. – ele disse não mais alto que um sussurro. E foram aquelas palavras que me fizeram acabar com a distância que ainda separava nossos lábios.

>> Flashback End <<

- Seis

- ? – Eliza sussurrou para mim cutucando-me enquanto eu conferia um dos pacientes na UTI.
- Sim? – respondi sem tirar os olhos do prontuário do senhor Foster, um idoso de 73 anos que sofreu um AVC dois dias atrás.
- A irmã do paciente quer conversar com você.
- Ele está aqui há quase quatro semanas e só agora alguém apareceu para visitá-lo. Impressionante! – murmurei automaticamente. Eliza franziu o cenho para minha reação, e foi então que eu percebi que estava soando revoltada demais para alguém que deveria se comportar de forma neutra com relação à , um paciente como qualquer outro.
- Bom, ela está te esperando lá fora. – Eliza disse e deu as costas para mim antes que eu pensasse em justificar minhas palavras.
Eu tinha visto Rachel por fotos na mesma noite em que e eu nos beijamos pela primeira vez no meu sonho. É claro que a parte do meu cérebro que me dizia todos os dias que tudo aquilo não passava de invenção da minha mente lembrou-me que eu não deveria esperar que aquela pessoa que viera procurar pela médica de seu irmão ali internado era a irmã de , o homem dos meus sonhos. A irmã do verdadeiro louro de olhos azuis, que lutava contra a morte por quase um mês, provavelmente nem se chamava Rachel. Mas percebi que meus sonhos eram muito mais verdadeiros do que eu acreditava que eram quando encontrei a mesma moça que eu vira nas fotos ali, parada no corredor do hospital, a expressão contorcida de preocupação e o nervosismo evidente pela forma como estralava os dedos repetidamente.
- Bom dia. – cumprimentei-a repetindo para mim mesma que eu não sabia o nome dela, ou não deveria saber, pelo menos.
- Bom dia. Você é a doutora ? – ela perguntou agitada.
- Sim, sou eu. Em que posso ajudar?
- Meu nome é Rachel Fields. Eu sou irmã do paciente . Ele deu entrada aqui há quase um mês, se não me engano.
- Certo. Por que não conversamos na minha sala, senhora Fields? – sugeri indicando-lhe o caminho.
Embora cada parte do meu corpo estivesse apavorada por todos os fatos estarem se encaixando, havia uma boa porcentagem de mim que estava feliz por eu não ter inventado tudo aquilo – pelo menos, não totalmente. A cada vez que eu adormecia e passava mais algum tempo com , mais difícil ficava de acreditar que ele não era real, que eu tinha uma criatividade tão grande para criar alguém tão incrível.
Rachel sentou-se em uma das cadeiras diante da minha mesa, e enquanto ela se acomodava, apanhei os exames de seu irmão; eu costumava informar o máximo de detalhes possíveis do quadro do paciente aos familiares, e imaginei que ela realmente gostaria de esclarecimentos. Apesar de tudo, a Rachel que eu conhecia amava e se importava com ele. É claro que o fato dela ter esperado tanto para visitá-lo ainda me dava dúvidas quanto a isso, mas eu queria acreditar que alguma coisa havia lhe impedido de aparecer antes.
- Eu quis muito vir visitá-lo antes. – ela justificou-se como se tivesse adivinhado o que eu estava pensando. – Mas não tive condições financeiras de vir do Texas até aqui. Além disso, eu tenho três filhos e não tinha com quem deixá-los.
- Tudo bem, senhora Fields. Tente manter a calma, certo? Não há muita coisa que nós, da equipe do hospital, podemos fazer pelo seu irmão agora. Então, infelizmente, não há muito que você possa fazer por ele também. – eu disse numa tentativa de tranquilizá-la. – Vou tentar de explicar de uma forma simples qual é o quadro dele.
Descrevi para Rachel quais os danos que o acidente automobilístico havia provocado em , dando ênfase principalmente no motivo para que ele estivesse em coma induzido. Rachel escutou tudo atentamente e se esforçou para compreender o que eu falava, embora ainda estivesse claramente muito nervosa.
- Vocês conseguem prever quanto tempo mais ele vai ficar desacordado? – ela perguntou aflita.
- Não, infelizmente não. Isso depende de como o organismo dele conseguirá fazer com que esse inchaço e excesso de líquido na caixa craniana regridam. As intervenções que nós poderíamos fazer nesse sentido já foram feitas. Por isso ele sofreu o mínimo de compressão de estruturas, até onde conseguimos observar. Mas, de qualquer modo, se ficarão sequelas e quais serão essas sequelas, isso só será possível saber quando ele voltar à consciência. O que eu quero que você registre, Rachel, é que seu irmão tem muitas chances de se recuperar plenamente. Ele está reagindo bem até agora, e o coma apenas significa que ele precisa de mais tempo para atingir essa cura. – A expressão de Rachel se aliviou assim que terminei de falar. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e algumas escorreram pela sua face.
- Muito obrigada, doutora. Sabe, o está em boas mãos assim como todas as pessoas de quem ele já cuidou estiveram. Obrigada, de verdade. – ela agradeceu afagando minha mão que repousava sobre os exames de . Tive uma vontade súbita e quase incontrolável de chorar também, mas consegui respondê-la com um sorriso.

- Sete

Parei meu carro em uma das poucas vagas livres no estacionamento do Hospital New York-Presbyterian. Reuni o resto da coragem que me sobrava e caminhei a passos rápidos até a recepção do local apinhado de gente àquela hora do dia. Demorou alguns minutos até que uma das funcionárias me atendesse, e durante esse tempo me questionei várias vezes se deveria continuar mesmo com aquilo ou não.
- Em que posso ajudá-la, querida?
- Eu gostaria de falar com o doutor . Doutor . Ele é um dos médicos intensivistas aqui, certo? – perguntei com a voz trêmula pelo nervosismo.
- Sim, é sim. Mas ele está afastado há algum tempo e não sei informar quando você conseguirá encontrá-lo aqui de novo.
- Ele tirou férias ou licença?
- Não estou autorizada a passar esse tipo de informação. Sinto muito.
- Uma pena... Meu nome é . Nós estudamos medicina juntos na Universidade de Nova York. Inclusive, eu fiz residência aqui também. – sorri para ela.
- Oh, é mesmo? – ela perguntou surpresa incentivando-me a continuar falando.
- Sim. Estou só de passagem em Nova York por causa de um congresso. Eu moro em Dallas, no Texas, há algum tempo, e queria aproveitar que estou por aqui para conversar com o , mas eu não consigo contato no número de telefone que tenho dele pra marcarmos alguma coisa e amanhã já volto para a minha cidade. Bom, eu agradeço, de qualquer modo. – reproduzi a mentira que havia inventado para o caso de receber uma resposta como “não estou autorizada a passar informações”. Normalmente, as pessoas caíam aos seus pés quando você anunciava que era médica dentro de um hospital.
- Bom, como você foi amiga de faculdade dele e veio de tão longe... – a recepcionista disse com a voz um pouco mais baixa, como se estivesse prestes a me contar um segredo: - O doutor sofreu um acidente de carro há algumas semanas. Ele está internado no Centro Médico Mount Sinai desde então.
- Oh meu Deus! Mas o que houve? – perguntei saturando a voz de falso choque.
- Acho que o carro dele capotou várias vezes. É um milagre que ainda esteja vivo. Todos nós estamos rezando para que ele se recupere logo. O doutor é um amor de pessoa. – ela disse com a voz pesarosa.
- Sim, com certeza. Obrigada por me informar. Eu realmente não fazia ideia disso!
- Nós nunca esperamos esse tipo de notícia, não é mesmo?
- Bom, vou ver se consigo conversar com algum médico do Hospital Mount Sinai para saber como ele está. Uma boa noite de trabalho pra você. – Acenei para a recepcionista que me respondeu com um largo sorriso e saí dali o mais rápido possível, constatando o que me apavorava tanto a cada vez que eu me lembrava de toda a situação que rodeava a minha vida naquele momento: de alguma forma absurda, eu realmente estava envolvida com , um dos meus pacientes que estava em coma.

- Oito

Os lábios de passeavam pelo meu pescoço, deixando um rastro de arrepios na pele tocada e fazendo com que meu coração batesse cada vez mais rápido e mais forte dentro do peito. Minhas mãos deslizavam por suas costas nuas e meu toque aumentava de intensidade a cada vez que ele apertava alguma parte do meu corpo contra o seu. Aquela não era a primeira vez que eu dava alguns amassos com um homem, mas a química que existia entre mim e passava bem longe de qualquer uma que eu compartilhara com alguém. A cada vez que nossas peles se tocavam, alguma coisa forte e incontrolável se acendia dentro de mim. Nesses momentos, eu não me sentia como uma mulher de trinta anos – eu parecia uma adolescente de dezoito que ainda não experimentara nada assim na vida. E, talvez, eu não tivesse mesmo experimentado.
desceu os beijos pelo meu colo e cobriu meus seios ainda cobertos pela blusa. Ele puxou a parte de baixo do tecido para descobrir minha barriga e depositou várias mordidas no meu abdome. Então, ele voltou a colar seus lábios nos meus, beijando-me intensamente, como se só tivéssemos aquele momento para ficar juntos, e colando seu corpo sobre o meu. Envolvi o tronco de com as minhas pernas e ele agarrou uma delas com uma de suas mãos com tanta força que eu gemi de prazer e de dor, ao mesmo tempo. Ele colocou sua outra mão por debaixo da minha blusa e desabotoou meu sutiã que abria na frente.
- Eu te amo, doutora . – sussurrou no meu ouvido e se afastou um pouco para puxar minhas roupas de baixo e se livrar do restante das suas. Enquanto ele fazia isso, tirei minha blusa e o sutiã, e sorri convencida quando seus olhos saltaram sobre mim, medindo cada centímetro do meu corpo.
- Eu também te amo, doutor . – murmurei de volta para ele quando seu tronco cobriu o meu novamente.

Acordei de manhã tão cansada como se realmente tivesse transado a noite toda. E talvez porque aquele sonho tivesse sido tão real, tão incrivelmente real, que eu tenha ficado perturbada por ele pelo resto do dia. Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Eu estava perdidamente apaixonada por um homem em coma que havia conhecido nos meus sonhos! Ainda não fazia o menor sentido para mim como tudo o que eu soubera sobre ele enquanto dormia e pudesse ser comprovado no mundo real era absolutamente verdadeiro... Como alguma coisa desse tipo pode ser possível? Eu sempre soube que a minha mente era a minha pior inimiga – ela quem me impedia de confiar mais nas pessoas, ela quem me tornava tão solitária e resignada com a vida. Mas eu jamais poderia imaginar que conseguiria, através dela, me envolver em uma situação tão complicada!
Assim, nos dias que se seguiram, tudo o que consegui fazer foi imaginar como seria quando acordasse do coma, quando ele estivesse realmente entre as pessoas vivas de novo. Talvez pudéssemos de fato nos conhecer em algum momento. Talvez todas as coisas subjetivas com relação a ele, todos os sentimentos que eu havia nutrido pela pessoa dos meus sonhos se repetissem quando aquele de carne e osso estivesse diante de mim. Talvez nosso contato físico tão maravilhoso e viciante nos meus sonhos realmente fosse daquela forma quando acontecesse... No entanto, a cada vez que esses pensamentos invadiam a minha mente, eu percebia com mais clareza e veracidade o quanto eu estava sendo imatura e leviana. era meu paciente. Meu dever era garantir seu bem estar, era promover sua saúde, era conseguir que ele sobrevivesse com seus próprios órgãos e saísse daquela UTI nas melhores condições possíveis. E eu estava desperdiçando a maior parte do meu tempo sonhando com ele, construindo um relacionamento íntimo dentro da minha mente, me permitindo perder o chão se alguma coisa acontecesse com ele – e as chances dele não melhorar ou de ficar com graves sequelas eram reais. Eu havia feito um juramento, pelo amor de Deus! Estava dentro do meu código de ética não ter qualquer tipo de envolvimento com pacientes, e seguir isso era ainda mais fundamental no meu caso, porque eu lidava com as pessoas quando elas estavam no pior estado possível. Onde havia parado a minha sanidade? Se restasse mais alguma em mim, eu tinha certeza de que acabaria ficando sem ela se continuasse submetida àquela situação, se continuasse empurrando tudo aquilo para frente sem tomar qualquer providência. E, no fundo, eu sabia qual era a mais sábia decisão que poderia tomar agora. Mesmo que ela me doesse extremamente, eu não via outra forma de lidar melhor com aquele problema.
Eu precisava me afastar definitivamente de .

- Nove

- Eu não entendo, . Você é uma médica jovem, que recebeu uma grande oportunidade aqui pouco mais de um ano depois de ter terminado sua especialização e com menos de doze meses de contrato. Trabalhar como chefe de CTI do melhor hospital do país é uma honra incomensurável. E agora você simplesmente quer trocar essa prestigiosa posição por um cargo como médica intensivista subordinada, não líder da equipe, em um hospital em Baltimore? Por favor, me explique como isso será melhor para a sua carreira porque eu definitivamente não vejo. – o diretor do Centro Médico Mount Sinai, Kyle Marks, disse realmente confuso com a minha decisão. “Eu estou apaixonada por um dos meus pacientes que está em coma a cerca de dois meses. Todas as noites nós namoramos nos meus sonhos, e isso está acabando com a minha paz interior. Eu rezo todos os dias para que ele desperte, seja mesmo o príncipe encantado que eu conheci, e que sejamos felizes para sempre. Se ele por acaso morrer – e eu sangro quase que literalmente por dentro só de pensar nessa possibilidade, mesmo que eu saiba estatisticamente como ela é real -, eu simplesmente não sei o que faço. Então, como a covarde que sou, vou fugir daqui. Vou tentar recomeçar a minha vida e, com sorte, algum dia esquecer que eu fui neurótica e louca o bastante para viver uma situação dessas.” Esta era a verdade nua e crua, mas eu jamais poderia dizê-la em voz alta.
- Eu estou desgastada, Kyle. – meu chefe era tão jovem quanto eu e preferia ser chamado pelo seu primeiro nome pelos colegas de trabalho “veteranos”, como ele mesmo costumava se referir a quem trabalhasse no hospital há mais de um ano. – Eu preciso repensar as minhas prioridades, tentar sossegar também. Passei os últimos doze anos da minha vida correndo atrás da minha carreira. Agora, eu quero apenas ajudar as pessoas com o que sei fazer e dedicar um pouco mais das minhas energias apenas para mim. – declarei as falsas justificativas da forma mais convincente que pude, e provavelmente o cansaço que acompanhava minha voz estava ajudando a reforçar minhas declarações. Eu não dormia a três noites, então qualquer pessoa acreditaria se eu dissesse que estava exausta daquele trabalho, daquela vida.
- Quem diria, hein? A ambiciosa querendo sossegar! - Kyle brincou abrindo um sorriso. – Está pensando em constituir família? E seu namorado é de Baltimore, por isso você está indo pra lá?
- Não, não é bem isso. Eu não estou namorando ninguém. Escolhi Baltimore porque tenho uma amiga que trabalha na cardiologia do Hospital Johns Hopkins e ela me indicou para ocupar uma vaga que surgiu na CTI de lá.
- Aposto que assim que souberam de onde você estava vindo te colocaram imediatamente para preencher a vaga! – Kyle disse animado. Aquele era o estado natural dele, e como diretor de um hospital daquele tamanho, eu nem podia imaginar como ele conseguia manter um humor tão bom.
- Bom, isso é verdade. – respondi sorrindo para ele também.
- Está certo, . Eu sei que o estresse em trabalhar aqui é muito grande, que ocupa a maior parte do seu tempo e que eu sempre deixo suas férias para último plano... – ele disse desculpando-se com os olhos. - Bom, você realmente fará muita falta. E saiba que as portas sempre estarão abertas para o caso de você decidir retornar. – Kyle estendeu a mão para mim em cumprimento.
- Obrigada, Kyle. Foram três anos maravilhosos. Nunca vou conseguir retribuir a oportunidade que recebi aqui. – falei retribuindo o aperto de mãos.
- Você retribuiu ao longo do tempo que trabalhou conosco. O pessoal no Johns Hopkins tem sorte por estar ganhando você. – ele sorriu para mim novamente, e um aperto grande no peito quase me sufocou. Mesmo que não quisesse admitir isso, eu já estava sentindo falta da minha antiga vida.

- Dez

- ! – exclamou assim que abri a porta do meu novo apartamento para ela. Recebi um abraço apertado da pessoa que mais me fizera companhia na nossa época de faculdade. e eu nunca perdemos contato, mas nossa amizade realmente esfriou quando ela se casou e mudou-se para Baltimore, em Mayland. Uma das coisas boas naquela mudança, se é que existia alguma, era estar perto dela de novo.
- Senti sua falta, ! – eu disse retribuindo o abraço.
- Meu Deus, vejo que está lidando com a bagunça da mudança! – ela falou observando o local lotado de caixas. Eu só havia conseguido montar a biblioteca até então, de modo que ainda havia muito trabalho a fazer.
- Pois é... – murmurei cansada.
- Bom, vamos aproveitar que é meu dia de folga pra eu te ajudar. Enquanto isso, podemos colocar o papo em dia.
As horas passaram rápido enquanto e eu colocávamos meus objetos em seus devidos lugares. Os móveis que decoravam meu apartamento agora eram bem diferentes do anterior – não daria certo enviar tudo de um estado para o outro, e a cada vez que eu me lembrava dos sonhos com que aconteceram nos cômodos da minha antiga casa, as lembranças doíam como se eu tivesse acabado de terminar um longo relacionamento. Bom, por mais louco e difícil de entender que fosse, era realmente o final de um relacionamento.
Coloquei a cabeça no travesseiro aquela noite desistindo de tentar ficar acordada – eu nem sabia quando havia sido minha última noite de sono e a mudança me deixara tão cansada que não pude mesmo evitar adormecer. Surpreendentemente, aquela noite não apareceu nos meus sonhos. Pela primeira vez em quase três meses, sonhei bobagens totalmente fora de nexo. Naquele sonho, por exemplo, eu conversava com sobre nomes de bebês e planejávamos o quarto do neném dela com , embora, na realidade, nem estivesse tentando engravidar ainda.
Despertei na manhã seguinte com a sensação de que minha alma pesava toneladas. Olhei meu rosto marcado pela exaustão no espelho, e me derramei em lágrimas, deixando que toda a dor daquela perda extravasasse e finalmente me dando conta de que eu não tinha mais comigo, de que talvez fosse hora de me convencer de uma vez por todas que eu jamais o tivera.

- Epílogo

Dois anos se passaram e eu ainda me sentia um lixo. não apareceu nos meus sonhos sequer uma vez mais. Era como se o que me fez conhecê-lo através daqueles sonhos soubesse que eu estava fugindo de viver aquele estranho relacionamento quando me mudei. Mas, mesmo que eu não o visse todas as noites, ele ainda estava perfeitamente gravado na minha mente.
Precisei fazer um esforço sobre-humano para não procurar saber se ele estava bem, se havia saído do coma com ou sem sequelas, se retomara sua vida finalmente. Num esforço para manter essa decisão, saí com outras pessoas, tentei deixar de ser obcecada por alguém que eu nem sabia se conhecia realmente – e repeti para mim mesma o tempo todo que eu queria mesmo superar e ter algum relacionamento normal, para variar. É claro que não deu certo e, eventualmente, acabei afundando na solidão que era ser eu de novo.
Levantei-me da cama para viver mais uma monótona e estressante segunda-feira. Fui até o closet cheio de roupas brancas pegar as primeiras que encontrasse pela frente, e liguei o chuveiro em uma temperatura reconfortante, que lavaria todo o desânimo e tristeza que eu arrastava atrás de mim. Vesti-me rapidamente e coloquei a máscara de encorajamento e esperança que precisava transmitir aos pacientes e seus familiares.
A emergência do Johns Hopkins estava movimentada aquele dia. Duas ambulâncias haviam acabado de deixar pacientes vítimas de acidente automobilístico, além das inúmeras pessoas queixando viroses, contusões e outros acometimentos mais comuns. Dirigi-me para a CTI do local ciente de que, como toda segunda-feira, haveria uma reunião com a equipe antes de iniciar o expediente. Então, fui à sala de reuniões do andar com meu jaleco dobrado em um dos braços e a bolsa pendurada no ombro.
- Bom dia. – cumprimentei meus colegas de trabalho que já estavam sentados no local ao redor da grande mesa redonda da sala. Vários deles responderam com um “bom dia” também, enquanto duas das enfermeiras intensivistas cochichavam alguma coisa.
- Onde está o Hanson? – perguntei sentando-me ao lado de Trevor, uma das pessoas com quem me dava melhor naquela equipe. Taylor Hanson era o chefe da CTI e, portanto, sempre comandava as nossas reuniões.
- Ele foi receber o novato. – Trevor respondeu.
Eu já havia me esquecido que teríamos um novato. Jennifer Rivers, a médica que variava os plantões comigo, fora transferida para um hospital em Chicago e a vaga dela precisava ser preenchida com urgência. Eu só imaginava que demoraria mais do que uma semana para que isso acontecesse.
Não demorou muito até que escutássemos a voz de Taylor aproximando-se do local. A única pista que tivemos da nova pessoa com quem trabalharíamos a princípio era que Taylor havia contratado outro homem – as risadas do rapaz acompanhavam as piadinhas infames do nosso chefe. Por algum motivo, aquelas risadas aceleraram meus batimentos cardíacos e fizeram com que minhas mãos suassem nas palmas. Eu conhecia aquela gargalhada de algum lugar...
Antes que meu cérebro associasse os fatos para me dar uma resposta, adentrou a sala, e foi como se o mundo inteiro se movesse em câmera lenta. Eu não sabia como reagir, não sabia o que pensar, não sabia mais nem meu próprio nome. E então seus olhos encontraram os meus e eu tive certeza que, desta vez, eu não estava mesmo sonhando. - Pessoal, antes de iniciarmos a reunião de hoje, quero apresentá-los o novo médico da equipe: . – Hanson anunciou dando tapinhas nas costas de . Ele desviou os olhos que até então estavam tão fixos em mim quanto os meus estavam nele e sorriu para as demais pessoas na sala.
- Seja bem vindo, . – Summer, uma das enfermeiras que já havia dormido com metade da equipe médica do Johns Hopkins, sorriu para ele cruzando as pernas. A raiva queimou dentro de mim por um instante e precisei me conter para não chamá-la de vadia ali mesmo, na frente de todos.
- Obrigado. – ele agradeceu e voltou a olhar para mim.
- Bom, então vocês se conhecem melhor depois. Vamos ao que interessa...
A reunião durou quase uma hora, mas não ouvi metade do que Taylor disse durante ela.
procurou se concentrar – como novato ele não fazia ideia que boa parte do que Hanson dizia era pura ladainha -, mas nossos olhares se cruzaram por diversas vezes e eu tinha certeza de que ele queria conversar comigo a sós da mesma forma que eu queria fazer isso, embora não fizesse noção de por onde começaria a falar.
- , o vai trabalhar com você até pegar o jeito das coisas aqui. Vocês vão variar os turnos, mas por enquanto preciso que fiquem juntos na UTI de sua responsabilidade, certo? – Taylor disse.
- Sim, é claro. – respondi.
- Bom, isso é tudo por hoje, gente. Obrigado pela atenção, e vamos trabalhar agora, né? – Hanson finalmente finalizou a reunião, e a maior parte das pessoas da equipe foi até se apresentar e dar-lhe as boas vindas. Enquanto isso, pedi a Taylor para dar uma palavrinha com o novato para explicar alguns detalhes da UTI; eu sempre fazia isso quando ele me mandava treinar alguém, mas daquela vez minha necessidade de conversar com o novo funcionário era muito mais urgente.
- , certo? – tentei parecer super casual ao dizer isso, mas minha voz falhou na última palavra arruinando completamente o disfarce. Fiz o máximo de esforço que pude para ignorar o nervosismo, e puxei uma cadeira para mim e outra para .
- Exatamente. - ele respondeu sem tirar os olhos do meu rosto ou sequer mover um músculo.
- Não quer se sentar? - sugeri indicando a cadeira à minha frente. sorriu sem graça para mim e se acomodou no assento. - Então, há quanto tempo você terminou a residência, ? - iniciei o interrogatório ansiosa por confirmar as informações que eu já tinha sobre ele.
- Eu terminei a residência no Hospital New York-Presbyterian em 2007. Depois disso trabalhei em alguns hospitais em Nova York, e então recebi uma proposta para retornar ao Presbyterian como médico intensivista realmente. - ele respondeu estralando os dedos de nervosismo da mesma forma que eu me lembrava de ter visto sua irmã fazer.
- Certo. O Presbyterian é um dos melhores hospitais do país. O que te fez desistir de um cargo lá para ocupar uma posição aqui no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore?
- Digamos que eu segui a minha intuição. - disse olhando dentro dos meus olhos. A minha vontade então era de simplesmente perguntar se ele me conhecia tão bem quanto eu o conhecia. Se ele se lembrava de alguma coisa que viveu durante seu coma. Se ele acreditava que foi possível nos conhecermos e nos apaixonarmos durante as semanas em que esteve desacordado. Mas eu não fiz isso. Eu não podia fazer isso, afinal, se tudo o que vivemos só existisse ainda nas minhas lembranças, se ele não se lembrasse de nada, eu pareceria à pessoa mais desorientada e insana do mundo. Certamente insana demais para treiná-lo para trabalhar em uma UTI.
- Compreendo. - foi tudo o que eu respondi. - O ritmo aqui é bem diferente do que estávamos acostumados em Nova York, . É claro que o Johns Hopkins recebe pacientes de quase todo o estado de Maryland por ser um dos melhores e estar na capital, mas, ainda assim, é tudo bem mais tranquilo.
- Imaginei isso. – ele assentiu. - Você já trabalhou em Nova York então?
- Sim. Há dois anos eu deixei a CTI do Centro Médico Mount Sinai.
- É mesmo? Eu fiquei internado no Mount Sinai há exatamente dois anos. Sofri um acidente de carro e passei quase três meses em coma induzido. Foi um milagre eu não ter ficado com nenhuma sequela. – ele disse e voltou a me encarar como se desejasse que eu fosse capaz de ler seus pensamentos.
Fitei sentindo lágrimas encherem os meus olhos, mas sem conseguir pronunciar sequer uma palavra. Eu queria pular no pescoço dele e cobrir-lhe de beijos. Queria dizer que aqueles dois anos que passei em Baltimore tentando apagá-lo da minha memória de nada haviam adiantado. Que eu o amava muito mais agora, e que a ideia de poder tocá-lo me deixava tão anestesiada de felicidade que eu nem me lembrava mais de como me mover.
suspirou alto e rompeu o silêncio que havia se instalado entre nós enquanto eu me perguntava o que fazer:
- , eu sei que pode ser que você me considere um desiquilibrado, e que até pense que eu não estou preparado ainda para voltar a essa rotina por estar neste nível de estresse pós-traumático ou o que quer que seja que meus terapeutas digam... Mas eu não vou conseguir te ver aqui todos os dias e não perguntar. - puxou sua cadeira para mais perto de mim e manteve seu olhar mergulhado no meu. Será que o desespero, a aflição e não sei mais que sentimentos que me invadiam não estavam estampados na minha face? - Eu acho que te conheci enquanto eu estava em coma. Era exatamente a sua aparência, a sua voz e até o seu cheiro. E tudo o que eu procurei saber sobre você quando acordei, de alguma forma louca e estranha se confirmou, era verdade. Seu antigo endereço na West 115, você ter se formado na Universidade Columbia um ano depois que eu terminei a graduação em medicina, você ser a médica coordenadora da CTI do Mount Sinai e a minha médica...! Eu já estava enlouquecendo com relação a isso quando encontrei a Eliza de novo há alguns dias e ela me disse que você veio para cá pouco antes que eu acordasse. Então, eu liguei para o Taylor, meu amigo há anos, ex-colega de faculdade e coordenador aqui no Johns Hopkins. Quando ele me contou da vaga que havia acabado de surgir, eu não pensei duas vezes! Mesmo que você me considerasse um maluco, idiota e cretino, eu precisava falar isso tudo pra você. Eu precisava saber se alguma coisa do que eu sonhei enquanto estava em coma foi real na sua vida também.
Um choro estúpido e incontrolável irrompeu pela minha garganta então. Qual era o meu problema? Eu deveria correr até ele e abraçá-lo, não ficar ali chorando feito uma estúpida! Mas eu não sabia como reagir. De repente, eu não tinha controle nenhum sobre mim mais. - , está tudo bem? - perguntou me segurando pelos ombros e obrigando-me a encarar sua expressão preocupada. Agora ele quem deveria estar pensando que eu era uma louca...!
- Eu não acredito que você seja real. Eu... - murmurei enxugando meu rosto nas mangas da blusa, provavelmente arruinando o tecido branco, e respirei fundo na tentativa de me acalmar.
- Eu vou te mostrar que estou aqui de verdade. – ele disse sorrindo e completou o resto da distância que havia entre nós, envolvendo meu tronco com seus braços. Seus lábios tocaram os meus e toda a saudade que eu sentia há tanto tempo tornou aquele beijo ainda mais incrível e desesperado. Era dez vezes melhor do que no sonho. O calor de na minha pele, seu cheiro preenchendo o espaço e o gosto incrível de menta misturado ao gosto só dele de sua boca já me eram conhecidos, mas tudo estava muito mais intenso e real agora.
- Eu não sei se foi Deus, o destino ou o quê que provocou toda essa confusão, mas de uma coisa eu tenho certeza: alguma coisa forte quer que a gente fique junto. E essa coisa não é apenas o que eu sinto por você. - sussurrou para mim assim que nossos lábios se separaram.
- Você não faz ideia do quanto eu te amo. - eu disse acariciando seu rosto com as pontas dos meus dedos.
- Sim, eu faço. É tanto quanto eu te amo. - ele respondeu, puxando-me para ainda mais perto de si e voltando a colar sua boca na minha.

A verdade é que você pode fugir, se esconder e ignorar seus sentimentos pelo tempo que quiser, mas isso não os tornará menos verdadeiros e presentes.
Talvez eu não voltasse no tempo e fizesse algo diferente. Talvez eu não tivesse mesmo ficado em Nova York, mesmo se soubesse que havia vivido as mesmas coisas que eu e que ele realmente conseguiria se recuperar. Talvez se um segundo de todos aqueles meses tivesse sido de outra forma, nosso reencontro não teria sido tão perfeito. Tão perfeito quanto o resto de nossas vidas a partir de então.

Fim

Nota: Neste texto, o termo CTI (Centro de Terapia Intensiva) é utilizado como coletivo de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), não como sinônimo.

 

Comentários da autora



N/A: Um agradecimento especial à Marcella R., minha amiga e eterna beta-reader, que me ajudou a melhorar esta história. Você já sabe disso, mas vou repetir, Mah: eu não vivo sem você.
E obrigada antecipado a todas as fofas que lerem Fate. Sintam-se abraçadas, suas lindas! xx

Nota da Beta: Encontrou algum erro? Me informe no meu twitter.




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