Creidim

Escrito por Luh Marino | Revisada por Natashia Kitamura

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Parte do Projeto Adote Uma Ideia // Ideia Nº: #066

“O ser humano vivencia a si mesmo como algo separado do universo - uma ilusão de sua consciência. Uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos e conceitos. […] Mas lutar pela realização já é, por si, parte de nossa libertação e o alicerce de nossa segurança interior.”
ALBERT EINSTEIN

RÉAMHRÁ

Eu nunca soube como começar a contar uma história. Talvez porque minha vida era tão sem graça que eu nunca realmente tinha histórias boas para contar.
Mas, de uma hora para outra, algo grande aconteceu. E deixou tudo de cabeça para baixo.
Quero dizer, quem nunca passou por isso?
Acontece, às vezes, das coisas mudarem do nada. Você mal pisca e tudo está diferente. Sentimentos se confundem, pensamentos se misturam e você não sabe o que fazer. Você simplesmente fica perdido naquilo, sem nenhuma ideia do que poderia ser a solução para aquela infinita bola de neve de problemas.
Não é raro: você manda um desafio silencioso para alguém sem sequer perceber, e na maioria das vezes você perde nesse desafio. O feitiço vira contra a feiticeira. E você sequer tem tempo de perceber que tudo ao seu redor está mudando, e que sua missão é se adaptar àquilo sem questionar.
Isso aconteceu comigo. De repente, eu não sabia mais nada. Estava tão confusa, com tantos problemas para lidar… Tão envergonhada por um dia ter pensado que eu conhecia o mundo como a palma da minha mão.
Eu não fazia ideia.
Quer uma dica?
Nunca pare de acreditar.

AON

Residência dos ; Drogheda/República da Irlanda – Quinta, 28 de outubro, 07h57min
Atrasada. De novo. Não havia nada que eu odiasse mais do que ficar atrasada.
Levantei-me correndo da cama, já indo em direção ao banheiro pra tomar um banho super-rápido e fazer minhas necessidades matinais. Corria feito uma louca pelo quarto, como se isso adiantasse alguma coisa. Eu já iria perder o primeiro tempo de qualquer jeito.
Quando terminei meu banho em cinco segundos e me vesti no mesmo espaço de tempo, desci as escadas correndo como se estivesse em uma maratona. Me senti tão bem em saber que, naquele momento, as aulas de educação física tiveram alguma utilidade. Peguei uma fruta qualquer na cozinha - acho que era uma maçã - e continuei correndo, como se minha vida dependesse disso. De certa forma, dependia. Meus pais me matariam se soubesse que eu havia perdido a hora mais uma vez.
Corri para a garagem, entrando pela porta lateral. Minha bicicleta estava apoiada na parede, quase completamente jogada no chão. Tinha vários arranhões - eu a usava desde que havia ganhado, com uns doze anos, e não cresci muito de lá para frente, por isso ainda “cabia” na bike. Gostava de pedalar, gostava da sensação. E das pernas malhadas.
Corri até ela, largada por ali, enquanto abria o portão da garagem para que pudesse sair por ali. Assim o fiz, batendo a porta com força para que ela fechasse em seguida. Fui até o meio da rua, me posicionando no veículo, pronta para pedalar: e pedalei como nunca havia o feito. Corri feito louca pelas ruas da cidade, feliz por minha casa não ser longe do colégio, ou eu demoraria ainda mais para chegar lá. Pisei na escola no exato momento em que o sinal tocou.
E lembrei que tinha deixado a mochila em casa.

Escola Municipal de Drogheda; Drogheda/República da Irlanda – Quinta, 28 de outubro, 10h00min
As aulas passaram se arrastando. Tive que ligar para minha mãe para que ela me trouxesse a mochila, e assim ela o fez. Me deu um esporro quando chegou na escola com meu material, se dizendo decepcionada por eu ter me atrasado mais uma vez a ponto de esquecer as coisas em casa. Agradeci por ter me levado tudo e entrei na escola novamente, sem sequer terminar de ouvir seu sermão. Eu estava cansada e sem saco para aquilo.
Uma garota esbarrou em mim e me olhou feio quando eu soltei um “ai meu deus” com a dor do empurrão. As pessoas em Drogheda, minha minúscula cidade irlandesa, eram demasiadamente católicas. Era até mesmo interessante pensar que um lugar com tantos mitos e onde tantas culturas antigas (como as celtas), consideradas mágicas, haviam vivido era hoje um lugar absurdamente conservador. Até as construções ainda eram antiquadas - pesquisar por imagens da cidade era quase o mesmo que voltar no tempo.
O sinal do intervalo bateu, após uma cansativa e entediante aula de gramática. Saí da sala e fui sozinha em direção aos armários. Guardei a mochila ali, de qualquer jeito, e parti para o refeitório. Encontrei minha melhor amiga, Mirela, no meio do caminho, e fomos conversando até a fila da cantina.
— Ansiosa para o baile de dia das bruxas? – me perguntou quando estávamos na fila da cantina.
Mesmo com todo o conservadorismo, ainda existia aquilo. Não sei se era porque o halloween havia “surgido” na Irlanda, ou se era por pura influência dos Estados Unidos e sua globalização. Eu me cansava de tudo aquilo. Apesar de me sentir curiosa e atraída pela teoria da antiguidade irlandesa, nenhuma das crenças - tanto as de antes, quanto as atuais - me inspiravam. Não assumia para ninguém, mas eu achava interessante me considerar ateia.
— Ah, todo ano é a mesma coisa. Nem sei se venho nesse – dei de ombros. Bruxaria realmente não me cativava. Acho que eu preferia ir na igreja todo domingo a ter que ouvir baboseiras e histórias para boi dormir sobre bruxas, e a ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos, e todo aquele blá-blá-blá de Hamlet achando que há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia.
Não tinha saco para isso.
— Eu estou ansiosa. Sabe como gosto dessas coisas – afirmei com a cabeça, sabendo da obsessão das minhas amigas sobre essas coisas. Já andávamos em direção a uma das mesas para que pudéssemos comer. – Estava falando com Ky de irmos àquela loja de coisas mágicas no centro, sabe? – perguntou, parando à minha frente.
Entendi na hora o que ela queria. Droga.
— Interessante. Vão quando? Me contem o que passaram lá, em? – disse, me desviando dela e tentando chegar mais rápido à mesa. Mas ela me alcançou e parou de novo na minha frente, com aquela cara de cachorro pidão.
— Vem com a gente, – fiz uma careta. – Ah, por favor! É dia das bruxas, Halloween, tudo tão mágico! Por favorzinho?!
Rolei os olhos antes de afirmar minimamente com a cabeça, aceitando o pedido. Só iria porque sabia que elas não parariam de me perturbar até que eu aceitasse. Então era mais fácil já aceitar logo. Mirela soltou um berrinho de animação, e então saiu saltitando em direção à nossa mesa, quase derrubando tudo que tinha na bandeja. Apenas segui-a calada.

Residência dos ; Drogheda/República da Irlanda – Quinta, 28 de outubro, 21h54
As aulas acabaram, como sempre, à uma e meia. Fiquei conversando mais um pouco com as garotas na frente da escola, combinando sobre a tal visita ao centro da cidade, antes que me cansasse de seus planejamentos loucos e finalmente voltasse para casa. Ao chegar, tomei um banho rápido, almocei e fiquei o resto da tarde fazendo minhas tarefas. Meu namorado, Henri, me ligara, dizendo que não havia ido à escola porque estava doente. Conversamos um pouco, mas ele precisava descansar.
Antes de dormir, tomei mais um banho – eu era um pouco maníaca por limpeza – e coloquei o relógio para despertar. Não seria nada legal acordar atrasada de novo. Estava me preparando para dormir, quando ouvi o conhecido toque de nova mensagem vindo do meu celular.

“A gente vai para o centro no sábado. Esteja preparada às dez em ponto, temos muita coisa para comprar. Até amanhã, gatinha. Xx Ky”

Não consegui segurar os cantos dos meus lábios, que se curvaram para cima ao terminar de ler a mensagem. Apesar de me irritar com a insistência delas, Kyara e Mirela continuavam sendo minhas melhores amigas e eu não seria a melhor pessoa do mundo se simplesmente me recusasse a sair com elas e fazer algo com o qual elas pareciam tão animadas.
Desliguei a luz e conectei o celular ao carregador, pretendendo deixá-lo lá a noite inteira até que estivesse cem por cento no dia seguinte. Me cobri e me aconcheguei na cama, fechando os olhos e logo sendo levada para uma noite deliciosa e cheia de sonhos coloridos.

Rua qualquer do centro de Drogheda; Drogheda/República da Irlanda – Sábado, 30 de outubro, 16h24min
Andar sempre foi meu forte. Eu pedalava todos os dias, às vezes por horas, desde os doze anos, minhas pernas eram fortes e torneadas. Eu nunca me cansava rápido.
Porém, naquele sábado, eu não aguentava mais andar após cinco horas nas ruas irlandesas.
O centro de Drogheda nem era tão grande assim. Oras, Drogheda em si era minúscula! Mas Ky e Millie me fizeram rodar o que parecia ter sido a cidade inteira atrás de fantasias, e doces, e abóboras, e sei lá mais o que elas gostavam de comprar para o halloween. Encarei tudo aquilo como inutilidades puras, já que seriam descartadas no dia seguinte à “festa”. Mas eu sabia que, se desse um pio sequer, elas não parariam de me encher o saco pelo resto do dia.
Então apenas engoli minhas reclamações e continuei as seguindo, calada.
Após cinco horas perambulando, eu comecei a sentir falta de ficar sentada. Até mesmo quando a situação parecia desconfortável, era preferível estar sentada. Me lembrei do dia anterior, sexta feira, quando passei também cinco horas sentada, tentando concluir a prova de física - eram testes semanais, cada sexta, uma matéria. Eu demorava muito para terminar tudo, era verdade. Cinco horas, no dia anterior, sentada naquela cadeira que deixou minha bunda dormente pareciam um inferno. Mas no sábado, no centro chato e monótono da minha cidade, ficar com a bunda dormente de tanto deixá-la apoiada em uma superfície lisa parecia, na verdade, o paraíso.
Kyara soltou um barulho indecifrável quando passamos em uma loja escura e esquisita, pequena demais comparada aos outros estabelecimentos - que já não eram grandes. Em cima da porta, lia-se em uma placa de madeira alguns dizeres com palavras estranhas, e, na linha inferior: “Loja de magia A.J.H.A.”. Tentei decifrar a sigla, imaginando possíveis significados para cada uma das letras, mas não consegui pensar em nada que fizesse sentido.
Millie também pareceu animada e, então, as duas dispararam para dentro do empório, com as mãos já dentro das bolsas, procurando pelos cartões de crédito. Já estávamos carregando mil sacolas, mas não parecia o suficiente para elas.
Uma mulher que aparentava seus trinta anos veio nos atender. Estava com o cabelo preso em um penteado esquisito no topo da cabeça, um protótipo de coque com vários fios soltos. Sua pele era de um tom negro bem escuro, incomum naquela parte da Irlanda, onde todos eram mais brancos que papel. Os olhos eram cor de mel, quase amarelos, e ela usava um vestido de época, que me fez lembrar as aulas sobre Idade Média, de uma coloração vinho escuro.
— Boa tarde, minhas senhoritas. Imagino que posso ajudá-las a encontrarem o que precisam dentro do universo da magia – ergui uma sobrancelha e olhei ao redor.
As paredes eram cobertas de ornamentos peculiares e algumas prateleiras. Nestas, vários objetos estranhos estavam apoiados, coisas que eu só havia visto em filmes mequetrefes sobre magia. Bolas de cristais, vi inúmeras. Já estava me cansando a vista. Ky e Millie pareciam encantadas.
Me apoiei em uma prateleira qualquer, tentando me equilibrar para segurar todas aquelas sacolas. As outras duas passaram a andar pela loja, escolhendo alguns… artefatos. A mulher as acompanhava com os olhos apenas.
— E você, querida, não quer levar nada? – soltei uma risada antes de responder.
— Ah não, obrigada. Magia não me atrai, acho tolice. Aliás, por que você tem isso aqui? É meio nojento – fiz uma careta ao ver uma teia de aranha gigante em um canto de uma parede.
A mulher sorriu para mim e acompanhou minhas amigas para mais o fundo do estabelecimento. Kyara já estava com três livros e dois objetos que não pude identificar nas mãos. Mirela parecia estar com o dobro daquilo. Bufei e revirei os olhos, mal me aguentando de pé. Aquilo estava sendo uma tremenda perda de tempo.
Meia hora se passou até que as duas decidiram que já estavam cheias de tranqueiras. Tiveram que pagar com dinheiro - imagino que muito dinheiro, aliás -, porque a mulher não aceitava cartão nem cheques pré-datados. Era bem óbvio que ela ainda estava presa na época de nossos antepassados. Fiquei até surpresa que ela não pediu moedas de ouros ou saquinhos de temperos orientais como pagamento.
Peguei algumas das sacolas das meninas para ajudá-las, além de devolvê-las algumas outras. A mulher havia sumido no que parecia o depósito da loja, e nós estávamos quase voltando para a rua quando ela reapareceu.
— Ei, só um minutinho. Tenho algo pra você, querida — falou, olhando pra mim. Trazia nas mãos um embrulho retangular e fino. Peguei-o rapidamente e já estava rasgando a embalagem quando ela me impediu, colocando as mãos sobre as minhas. — Abra quando chegar em casa.
Ky e Millie me olharam com esperança, aguardando ouvir minha resposta. Pareciam animadas com o meu presente, como se elas mesmas tivessem ganhado algo. Me perguntei por que a mulher queria me dar aquilo quando eu havia dito que sua loja era nojenta. Era completamente paradoxo. Kyara me empurrou de leve com o cotovelo enquanto Mirela sussurrou para que eu aceitasse logo. Passei a língua entre os lábios:
— Tudo bem, tudo bem! Quanto é? — perguntei, ouvindo os gritinhos de animação das minhas amigas, ao perceberem que eu compraria o artefato estúpido. A mulher sorriu de um jeito estranho, me olhando como se soubesse algo que ninguém mais sabia.
— É de graça, querida. Cortesia da casa — ela era definitivamente louca. Não que eu estivesse reclamando, mas… Eu a insultei e ela estava me presenteando? — Espero que gostem das coisas que estão disponíveis no mundo da magia – passou seus olhos por todas nós e parou novamente em mim antes de terminar. – Espero vê-las logo – e, piscando, voltou para o lugar mais para dentro da loja.
Saímos da loja, e antes de continuarmos a seguir para o ponto de encontro onde o pai de Ky nos buscaria, olhei para a loja novamente. Tentei identificar os dizeres na placa, mas não conseguia descobrir que linguagem era aquela. Não parecia nada de descendência celta, ou sequer latim ou grego. Era completamente desconhecido.
Millie gritou meu nome, e eu vi que elas já estavam bem à minha frente. Dei uma última verificada no estabelecimento  antes de correr para alcançá-las. A mulher havia dito que esperava nos ver, bom, me ver novamente em breve.
Eu esperava não vê-la nunca mais.

Residência dos ; Drogheda/República da Irlanda – Sábado, 30 de outubro, 22h26min
O dia havia sido cansativo demais. Meu corpo inteiro latejava e nem um banho de banheira bem relaxante havia tirado aquela dor que eu tinha nos pés. Minha cabeça era, de longe, o pior. Ela doía como se alguém batesse nela com o martelo mítico do Thor.
Em compensação, as notas do teste de física foram divulgadas no site do colégio, e eu pude anotar mais um nove na minha relação de notas. Era muito difícil que eu fosse mal em qualquer prova, já que me esforçava para manter tudo acima da média. Costumava alcançar notas nove ou dez facilmente.
Apesar de tudo, eu estava de certa forma animada para o baile do dia seguinte. Afinal, seria um bom motivo para passar com meus amigos e namorado, a quem eu não via há alguns dias - já que ele estava doente. Quis ir visitá-lo na sexta, mas não tive tempo, graças à prova de física. Então seria bom vê-lo e passar um tempo com ele na festa. Eu estava com saudades.
Havia recebido uma mensagem de uma garota chamada Cassidy. Ela era um ano mais velha que eu, da mesma idade de Henri. Inclusive, era sua ex namorada. Quando identifiquei seu número, fiquei um pouco temerosa que ela tivesse ido me encher por causa dele. Mas ela era do jornal da escola e só queria uma entrevista. Perguntei sobre o que era, e ela disse que seria interessante manter a surpresa. Mais por curiosidade do que qualquer outra coisa, aceitei a proposta. Ficou combinado de nos encontrarmos segunda à tarde.
Coloquei meu copo d’água no criado mudo ao lado da minha cama logo após tomar meu comprimido para a dor de cabeça. Então lembrei do presente que a mulher da loja havia me dado. Ele ainda estava em alguma sacola, jogada na poltrona no canto do meu quarto. Fui até lá e, com pressa, logo achei o embrulho e o rasguei todo.
Era um porta retratos.
Feito de uma madeira em um tom lindo, não muito escuro e não muito claro. Tinha algumas coisas escritas nos cantos, com o que me parecia as mesmas letras que estavam na placa da loja. Havia também alguns desenhos em alto relevo, plantas que pareciam cipós. Ele era incrível.
Tentei me lembrar de alguma foto que eu poderia colocar ali. Pensei em alguma minha e de Henri, mas não havia nenhuma. Em compensação, ele era fotógrafo nos tempos livres e vivia tirando fotos minhas. Havia me entregado uma poucos dias antes, que logo eu achei na gaveta do meu criado mudo, e resolvi que a usaria no porta retrato enquanto não tirasse uma com meu namorado.
Apoiei o objeto no meu criado mudo, ao lado da cama, e logo me deitei, me cobrindo com os cobertores. Soltei um suspiro alto, minha cabeça ainda doía. Apaguei o abajur e me encolhi, tentando fazer o frio passar. Esfreguei os braços com as mãos e soltei mais uma lufada de ar. Antes de fechar os olhos, dei mais uma olhada no porta retrato. Havia algo de estranho nele. Algo que me fazia querer olhar para ele o tempo todo. Além de ser um objeto meio suspeito, já que foi presente da louca metida a bruxa.
Suspirei mais uma vez. Me virei para o lado oposto ao criado mudo, tentando parar de pensar naquilo. Fechei os olhos.
Quem me dera nunca tivesse o feito.

TRÍ

Lugar, data e horário desconhecidos.
Aquela superfície era sólida e fria demais para ser minha cama. Eu estava estranhando. Por isso, lentamente, abri meus olhos e encarei o que deveria ser o teto branco.
Mas o teto branco não estava ali.
No lugar dele, o céu. Mas não o céu que eu imaginaria para Drogheda, ensolarado, por mais que não fizesse calor, com algumas poucas nuvens, sempre próximas ao Sol. Não, o céu estava diferente. Ele estava roxo, com algumas pequenas listras rosa e algumas alaranjadas. Sem nuvens. E sem Sol.
Levantei o tronco rapidamente e constatei que estava no chão. Fiz uma careta pela dor nas costas que me acometeu e me levantei em seguida, ainda meio lerda de sono. Olhei para frente e tudo que eu vi foi uma espécie de pátio enorme. Sem paredes, sem piso. Algum tipo de grama cobria o chão, mas não era mais verde, e sim em um tom amarelado - e não aquele amarelado de grama podre, e sim algo como uma espécie nova. Olhei em volta e era tudo a mesma coisa. Tudo com a aparência de abandonado.
Então ouvi um barulho, como se fosse água correndo. Ele parecia estar vindo da minha esquerda, então me virei para olhar. Mas não havia nada ali, pelo menos nada que eu enxergasse. Cocei os olhos, achando que era coisa da minha cabeça. O pátio não poderia ser infinito. Mas era o que dava a entender.
Agucei a audição e tentei ouvir o som da água novamente. Consegui capturar o barulho, e então corri. Sem destino final nenhum, apenas corri como se minha vida dependesse daquilo. Meu coração estava descompassado, com mil diferentes ritmos batendo. Eu estava aterrorizada. Estava presa em um lugar estranho, abandonado, onde não existia Sol e o céu era roxo. Onde não havia paredes, nem chão, e a grama apodrecia. Não poderia ficar mais assustador do que aquilo.
Me belisquei com força para ver se acordava. Aquilo só poderia ser um sonho, não havia outra explicação. Nada daquilo fazia sentido. Corri atrás do som de água corrente, mas não encontrei nada. Apenas o que pareciam mais quilômetros e quilômetros de grama amarela, sem cuidados. Eu estava decididamente no meio do nada.
Olhei ao meu redor mais uma vez, dando uma volta completa com o corpo. Não havia nada por perto. Nenhuma construção, nenhuma pessoa, sequer um banco para que eu me sentasse e chorasse, como era meu desejo. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu funguei, sentindo um aperto no peito.
Eu só queria voltar para casa.

Lugar, data e horário desconhecidos.
Perambulei por horas. Como não achei nenhum lugar para me sentar e não queria voltar a ficar naquele chão que me dava arrepios, resolvi andar. Minhas pernas deveriam estar doloridas de ter andado tanto pelo centro da cidade no dia anterior, mas eu não senti nada. Parecia que aquele dia de compras havia acontecido meses antes.
Já estava começando a me cansar, a ficar com sede e fome quando voltei a ouvir o barulho de água. No mesmo minuto, fiquei atenta ao som, e tentei segui-lo novamente. Estava sem paciência para correr, então apenas andei normalmente, tentando não fazer muito barulho com as minhas passadas, com medo de o som se dissipar novamente.
Após mais alguns minutos caminhando, encontrei uma fonte. Era de concreto, não maior que eu, e estava jorrando água. Soltei uma exclamação de felicidade, logo indo em direção a ela para pegar um pouco do líquido que tanto me fazia falta. Praticamente enfiei minha cara lá dentro, molhando todo meu rosto e parte dos cabelos. Mas não poderia ligar menos. Eu já estava sem maquiagem, de qualquer jeito.
Quando voltei a levantar a cabeça, havia um pequeno pássaro pousado no concreto da fonte. Ele era todo negro e tinha uma mancha de tom vinho no meio do peito. Olhou pra mim e vi seus olhos cor de mel.
Não me importei muito com sua presença, apesar de ter me surpreendido um pouco. Achei que estava sozinha naquele local. Me virei de costas para a fonte, planejando voltar a andar, mesmo sabendo que era possível que ela sumisse quando eu tentasse encontrá-la novamente. Contudo, voltei a mirar o chafariz quando ouvi um barulho estranho.
Ali, diante de mim, estava uma mulher.Uma linda mulher negra de pele escura, vestido de época de cor vinho, cabelos presos no topo da cabeça e olhos cor de mel.
A mulher do dia anterior.
A louca metida a bruxa.
Meu queixo deve ter ido parar no chão quando ela me olhou com uma feição desafiadora, como se dissesse “eu te avisei”. Seus olhos estavam cerrados e um dos cantos de seus lábios estava levemente erguido. Tentei falar algo, mas nada me saía da boca. Eu estava praticamente sem ar, tentando entender a conexão entre eu estar ali, ela estar ali, e nosso encontro no dia anterior.
— Perdão pelo atraso. Estava ocupada — se explicou, como se me devesse aquilo. — Poderia me perdoar por ter te trazido para cá, também, mas na verdade não me arrependo disso.
— Por que me trouxe para cá?! — perguntei, praticamente berrei, após finalmente encontrar minha voz. Ela não esboçou reação nenhuma, apenas continuou se aproximando, ao mesmo tempo em que eu ia para trás.
— Veja bem, : você não é a primeira que me aparece na minha loja querendo zombar de mim e das minhas crenças. Sente-se — mandou, e eu ia perguntar onde, mas senti meus calcanhares tocando em algo. Olhei para trás e havia um toco de árvore. Quando olhei para frente novamente, havia mais dois, um com comidas e bebidas e outro onde a mulher já estava sentada. Fiz o mesmo que ela, enquanto ela me encarava.
— Eu não quis te ofender… — tentei explicar, mas ela me esticou o braço com a palma da mão virada para mim, me dizendo para ficar quieta.
— Não me importo com suas intenções. Me importo com seu castigo.
— Castigo?
Quem ela achava que era para me dar castigos? Parar minha vida toda para me ensinar uma liçãozinha só por eu ter ofendido sua crença sem querer?
— Estamos num pátio de passagem nesse momento, . Vou te dar as instruções necessárias e daqui, você vai conhecer um mundo completamente novo.
Ficamos em silêncio. Eu tentei entender sobre o que ela estava falando, mas nem que me esforçasse muito conseguia absorver aquelas informações. Mundo completamente novo? Ela ia me dar óculos de visão especial ou algo assim?
— Há um lugar chamado Noretus. Eu nasci lá. É muito pacífico, quase não há guerra e sangue em sua história. Noretus é o reino perfeito da minha dimensão. Tanto que seu maior reino inimigo, Abasko, só o inveja por sua estabilidade espiritual.
— Moça, não é por nada, mas eu não me importo nem um pouco. Só quero voltar para casa, por favor — praticamente implorei. Mas ela me ignorou e continuou falando:
— E esse é exatamente o ponto. Vou te levar a Noretus e sua missão, além de aprender a respeitar a magia, é tentar impedir uma guerra de acontecer.
Eu, que estava olhando para o lado, me virei para encará-la no mesmo instante. Seu rosto estava calmo, como se não tivesse acabado de falar um absurdo. Como eu, uma mera garota de dezesseis anos, iria impedir uma guerra entre dois reinos?
— Você só pode estar louca — ri de sua insanidade e me levantei, planejando me afastar dela. Mas quando dei a volta no tronco da árvore, ela já estava ali, novamente à minha frente, de pé.
— Não há como fugir, — ela sorriu, um sorriso sádico que eu quis explodir no mesmo instante. — Sente-se novamente, vou terminar de te explicar.
— Eu me recuso a ouvir mais uma palavra que sai de você, sua louca!
— Tudo bem então. Quer mesmo ir para um mundo diferente sem instruções nenhuma?
Pensei por alguns instantes. Se aquilo não era um sonho e ela era mesmo mágica, não havia nada que eu pudesse fazer para impedir de ser jogada nesse tal reino. Ela iria me mandar para lá, queira eu ou não queira.
Soltei um suspiro de derrota e dei meia volta, para que pudesse sentar novamente no toco.
— Fala, então.
— Obrigada — ela pigarreou antes de continuar: — Pois bem, já sabes que sua missão é aprender a respeitar a magia e tentar impedir a guerra. Você pode ter ajuda. Como você vai completar seu dever, não me importo. Contanto que o faça. Biscoito? — me esticou a mão, que antes estava escondida atrás do corpo, com um pote cheio de quitutes. Peguei um dos biscoitos de chocolate. Estava delicioso. — O ponto é: você deve fazer isso rapidamente. Enquanto você estiver em Noretus, vou mandar uma garota fisicamente idêntica a você para a Terra, chamada Presya. Só que vai ser uma versão mais… digamos, perversa de você.
— Perversa? — fiz uma careta.
— Ela vai tentar acabar com a sua vida.
Me levantei novamente.
— Por que isso? — meu tom de voz voltou a ficar alto.
— Porque você ofendeu a mim, meu povo e minhas crenças. Não vou deixar passar em branco.
— Estar num lugar estranho, em uma dimensão distinta já não é castigo o bastante?
Ela riu. Eu quis morrer.
— Claro que não, . E é melhor do que você sumir, não é?
— Prefiro meus pais preocupados do que me odiando caso “eu” faça algo de errado — derrotada, voltei a me sentar.
Passei a mão no rosto e esfreguei os olhos. Ainda havia uma pontinha de esperança de que tudo aquilo não passava de um sonho. Ou melhor, um pesadelo. Um longo, estranho e horrível pesadelo.
Engoli a seco. Ela mexeu a mão e fez com que tudo sumisse: o tronco onde estava sentada antes, o tronco com comidas e o que eu estava sentada - seu sumiço fez com que eu caísse de bunda no chão.
— Se você não passar por aquela porta em vinte e quatro horas terrestres, ela se fechará sozinha. Uma hora você vai ficar com sono e irá dormir em qualquer lugar. E aí, se for preciso, eu venho e te arrasto pra lá.
Olhei para trás, procurando a porta, mas não encontrei nada. Quando me virei para perguntar do que ela falava, ela já não estava mais lá. Havia sumido junto com as outras coisas. Passei a mão pelos cabelos, colocando os fios para trás e os tirando de meu rosto. Abaixei o olhar e mirei meus pés descalços. Eu ainda estava de pijama, como estava quando tinha ido dormir.
Levantei o olhar novamente e a fonte estava lá. Atrás dela, a porta que imaginei ter sido aquela da qual a mulher falara. Era branca, de portas duplas, madeira polida, e enorme. Acima dela, havia algumas escrituras - com o que pareceu a mesma linguagem da placa da loja.
Soltei um riso irônico; mas é claro.
Eu estava ferrada. Muito ferrada. E não fazia a mínima ideia de como solucionar aquele problema.

Pátio de passagem, data e horário desconhecidos.
Eu não tinha coragem para ultrapassar aquela porta. Ela estava fechada, e eu não também não tinha coragem de abri-la pra dar uma espionada – temia que ela me sugasse para o tal reino. Então eu havia me sentado de frente para ela e estava a encará-la por um tempo.
Talvez por tempo demais.
Era estranho, mas eu pensava em tudo que a mulher havia me dito. Não fazia ideia do que poderia encontrar ali dentro, em Noretus. E se tivessem monstros? E se tivessem soldados maldosos? E, ao mesmo tempo em que pensava nisso, pensava no meu suposto álter ego. O que ela poderia fazer no meu lugar? E se machucasse emocionalmente ou fisicamente meus pais, meus amigos ou meu namorado? E se machucasse pessoas com quem eu sequer falava? Cassidy! E se falasse besteiras na tal entrevista? Eu não sabia mais o que pensar, no que acreditar.
Eu estava enlouquecendo.
Não aguentava mais as voltas que minha cabeça dava, nem a dor atrás dos olhos, nem o zumbido no meu ouvido. Me levantei do chão e dei mais poucos passos até parar exatamente de frente para a porta, a menos de meio metro dela. Olhei em volta, vi o pátio enorme e vazio, com nada além de... nada. Até a fonte havia sumido novamente, depois que bebi mais um pouco de água.
O céu agora já estava azul escuro, quase dum tom marinho, e suas listras agora eram de um vermelho-sangue. Tive um arrepio. Olhei para o lado e vi o pássaro. Ela piscou os dois olhos cor de ouro para mim. Eu já estava cansada.
Me convenci.
Abri e atravessei a porta, ainda me arrependendo de ter fechado os olhos na noite anterior.
Foi realmente como se eu estivesse sendo sugada. Foi a pior sensação da minha vida. A pior montanha-russa do mundo não se equiparava àquilo. Meus órgãos reviravam dentro de mim, como se estivessem fazendo uma sopa de . Era quase como a morte. Bom, eu na verdade nunca havia passado por uma experiência de quase-morte, mas tinha a impressão de que aquilo estava sendo até mesmo um pouco pior.
De algum modo, eu soube quando estava quase chegando ao chão; talvez algum tipo de sexto sentido. Caí de costas, como se tivesse sido jogada de um precipício, e no mesmo instante meu corpo sentiu o impacto.
Perdi o ar.
Meus pulmões falharam. Eu tentava inspirar, tentava conseguir um pouco de ar, mas não conseguia. Meu peito inteiro ardia, como se queimasse por dentro, e o oxigênio já começava a me fazer muita falta. Uma tontura enorme me arremeteu e eu comecei a ver pontinhos pretos, quase não conseguia enxergar nada nitidamente.
Olhei para o céu. Além dos pontos, consegui enxergar algo no alto. Coisas esguias, pareciam voar em círculos.
Urubus.
Estavam procurando por carniça para que pudessem se alimentar. E eu temi que eles estavam esperando exatamente a mim. Aguardavam minha morte para que pudessem se desfrutar da minha carne.
Fechei os olhos e senti meu rosto molhado. Soube que estava chorando, mas não consegui encontrar forças para tentar secar as lágrimas. Me virei de lado e fiquei em posição fetal, esperando aquela dor e tontura passarem.
O que não aconteceu.
As coisas rodavam, e aquela posição só estava me deixando pior. Voltei a ficar de barriga pra cima. Abri os braços em forma de cruz e fiquei encarando o céu, que estava parecido com o do pátio onde eu estava antes. Tentei olhar em volta, mas até aquilo fazia doer.
Acho que fiquei ali por horas. Ou talvez fosse só impressão, não saberia dizer. O que eu sabia é que eu não aguentava mais todas aquelas sensações. Meu corpo implorava para que aquilo acabasse de uma vez, para que eu desistisse de me manter acordada. Mas era perigoso, porque eu não fazia ideia de onde estava, e dormir ou desmaiar era arriscado.
Ouvi passos ao longe. No mesmo momento, soube que havia alguém se aproximando, e soube que aquela pessoa iria me ver. Era impossível não me ver, eu estava estirada no chão com pijamas de flanela rosa florescente. Com a pessoa chegando mais perto, consegui relaxar. Pela história de estabilidade espiritual da qual a mulher havia falado antes, imaginei que ninguém naquele lugar seria maldoso o suficiente para me deixar largada lá.
Então assim que vi os pés se aproximando, tive certeza que eu seria resgatada. Iria ficar tudo bem, pelo menos por enquanto. Descansei e me deixei apagar. Tudo ficou preto no exato instante em que uma voz masculina clamava por ajuda.

CEATHAIR

Noretus, data e horário desconhecidos
De longe, eu conseguia ouvir pessoas conversando. Não entendia nada do que falavam, mas sabia que estavam falando algo. Como ainda estava completamente sonolenta, parecia até que eu tinha injetado morfina na veia, não consegui distinguir se eles falavam minha língua, ou se falavam um idioma próprio de Noretus.
Fiquei assim por mais alguns minutos antes de recobrar um pouco melhor a consciência. Acabei pegando a conversa no meio.
— … ela pode demorar mais um pouco para acordar, mas não acho que vá levar tanto tempo — consegui distinguir uma voz feminina, e entendi tudo que ela disse. — Ela já está assim há quatro dias. Se ficar mais tempo, vai começar a ficar alarmante.
Quatro dias? Eu estava desacordada há quatro dias? Era tempo demais… A tal Presya já devia estar fazendo a festa no meu lugar, e eu ali, dormindo.
— Você viu como ela caiu? Parece ter batido a cabeça com força — uma outra voz, masculina dessa vez, perguntou.
— Não. Estava ajudando um senhor na rua e, quando olhei para trás, a vi deitada e com a cabeça sangrando — mais uma voz diferente. Consegui assimilar com a voz da pessoa que tinha me ajudado quando eu caí, a que pedira por ajuda.
Senti diversos olhos em mim, mas ainda estava fraca demais para tentar me mexer ou sequer abrir os olhos. Eu conseguia sentir um macio e confortável colchão abaixo de mim, e um fino pedaço de pano que me cobria e servia como cobertor, ou melhor, lençol. Ouvi passos, indicando que as pessoas que estavam ao meu redor estavam se afastando, e consegui soltar um suspiro mais alto. Os passos pararam e eu imaginei que eles tinham voltado a prestar atenção em mim.
— Moça? Ei, moça. Você consegue nos ouvir? — o homem que não era o que tinha me ajudado perguntou. Sua voz era mais grave que a do outro, mas ele também falava de um modo mais macio, como se tivesse medo de machucar alguém.
Mais passos deixaram claro que eles haviam se aproximado de novo, e eu quase rolei os olhos com todo aquele movimento. Queria responder a pergunta, mas quando tentei soltar algum barulho para confirmar, nada saiu. Acho que só o que saiu foi uma lufada de ar completamente inútil.
Eles pareceram desistir, um deles até soltou um muxoxo de tristeza, mas pelo menos não voltaram a se distanciar. A cama pareceu se afundar, então imaginei que um deles havia se sentado ao meu lado, ou próximo a mim. Ficamos assim por mais um tempo, todos calados, e eu em puro estado de agonia querendo dizer alguma coisa. Sentia todos os meus membros dormentes, cada pedacinho do meu corpo doía e parecia latejar.
Foram mais alguns minutos daquele jeito que já estava me dando nos nervos. Até que eu senti uma pinicada na perna e, com isso, abri os olhos num susto. Não consegui mexer a cabeça, nem qualquer outra parte do corpo que não fossem os olhos. Eu via os outros se movendo, seus lábios abrindo e fechando. Sabia que eles estavam falando, mas era como se tivessem me colocado fones que impediam o barulho de chegar até meu ouvido. Eu não escutava nada.
Quando finalmente consegui me acalmar, pousei os olhos em um dos homens. Ou melhor, garotos. Eles não deviam ter muito mais que a minha idade. Ele me encarava com óbvia preocupação. Ele era negro e alto, parecia forte por baixo da camisa - que parecia de fibra. Seu cabelo era muito preto, longo, e ele usava um rabo de cavalo, seus fios repousando no ombro direito. Mas tudo nele contrastava com os olhos. Eram duas orbes amarelas, completamente amarelas - cor de ouro. Eram ainda mais amareladas do que a da mulher que havia me mandado para Noretus. Eu nunca havia visto nada parecido com aquilo. Ele era lindo.
Continuei a inspecionar o local, e passei a olhar para a próxima pessoa, à esquerda daquele garoto - minha direita. Era uma mulher, a única além de mim. Sua pele também era negra, mas não tão escura quanto a do outro garoto. Mesmo assim, ela não poderia ser considerada branca, ou “morena”. O cabelo era um pouco mais claro que o do menino, estava em um tom de castanho. Mas os olhos eram exatamente iguais. O mesmo tom de âmbar puro. E ela também era linda.
Por último, o que estava sentado na cama comigo. Ele era muito diferente dos outros dois, tanto que chegou a me assustar. Primeiramente, ele era branco. Tão branco quanto eu - e eu sou irlandesa, ou seja, muito branca. Talvez eu fosse um ou dois tons mais clara que ele, mas ainda assim ele era muito alvo. Seu cabelo também não era escuro, num tom castanho claro quase cinzento, de comprimento médio. E seus olhos também eram diferentes. Mas não eram amarelos, e sim azuis. Absurdamente azuis. Algo naquelas íris me deixavam hipnotizada, como se fosse… mágica. Ah, a ironia. Aquela cor simplesmente não era normal. Era como… o oceano mais limpo, o céu mais sem nuvens, o lago mais claro, o rio menos barrento.
Definitivamente, aquilo não era humano.
Ele era a coisa mais perfeita que eu já havia visto na vida, e eu já havia visto muitas coisas perfeitas na vida. Mas nada se comparava com aquele garoto. Absolutamente nada.
Engoli a seco. Tentei falar alguma coisa, mas quando separei os lábios, minha língua estava grudada no céu da boca. Assim que a garota notou minha tentativa falha de comunicação, correu para um lugar a norte do lugar onde estávamos. Não me dei ao trabalho de notar como era o ambiente, poderia fazer aquilo em outro momento.
Sentei melhor na cama, ao mesmo tempo em que o garoto que estava em pé me ajudava a me estabilizar. Pegou no meu braço e ajeitou o travesseiro atrás de mim, para que eu não ficasse em contato direto com a parede ou a cabeceira. O branquelo continuava me olhando, sem nenhum tipo de reação. Seu rosto estava neutro, mas as sobrancelhas estavam levemente franzidas, e ele parecia confuso com alguma coisa.
A garota voltou com um copo d’água e me entregou o mesmo, que eu agarrei desesperadamente. Meu corpo implorava por água. Bebi tudo em segundos, e o copo não era pequeno. Após engolir tudo, soltei um tipo de suspiro de deleite. Vi que o garoto em pé sorriu um pouco. Quis sorrir de volta, mas meu corpo não parecia ter força nem para aquilo.
— Quem… — tentei falar, mas não consegui terminar. A garota pareceu entender e me mostrou a palma da mão, pedindo que eu parasse.
— Você precisa se poupar, está muito fraca. Pode deixar que a gente faz tudo — sorriu. — Eu sou . Este é — apontou para o garoto ao seu lado, que acenou enquanto sorria. — e esse é — o garoto dos olhos azuis não sorriu, não acenou, não fez nada. Sequer se moveu.
Eu estava começando a ficar assustada.
— Quando você se recuperar, pode nos dizer o que está fazendo aqui — disse, voltando a ficar com a feição séria.
Eu assenti e olhei em volta, preparando-me para observar o local onde estávamos. Cozinha, sala e quarto ocupavam um só ambiente pequeno. Era um local muito simples. O chão era de madeira e as paredes não pareciam muito firmes, então imaginei que não fossem de tijolos. Havia três portas, imaginei que uma delas fosse a entrada da casa, outra fosse a porta do banheiro e, a última, desse para o quintal. Resolvi não perguntar, ainda não me sentia confortável o suficiente para aquilo.
— É a minha casa. Sinto muito se for simples demais para você — falou, me fazendo olhar para ela. Tentei lhe passar um olhar de entendimento, para que ela não se preocupasse com aquilo.
havia parado de me encarar, passando a olhar para os próprios pés. Me perguntei se ele era tímido e estava sem graça, ou se era apenas esquisito mesmo. Mas ninguém respondeu minha pergunta mental. Ao invés disso, os dois que ainda estavam em pé se afastaram, enquanto se levantava. Abriu sua boca pela primeira vez enquanto eu estava consciente:
— Vamos deixar você descansar mais um pouco.
E com isso, se juntou a e e eles passaram pela porta da frente, para o lado de fora da casa. Me deixando sozinha com os meus pensamentos confusos.
Aquilo não poderia estar acontecendo de verdade. Mas estava. E isso me deixava aterrorizada.

 

Residência de ; Noretus - data e horário desconhecidos
Meus olhos demoraram a se descolar e, quando o fizeram e finalmente se abriram, a luz que vinha do lado de fora da casa os invadiu, fazendo com que eles se fechassem novamente em puro reflexo. Mais alguns segundos se passaram até que eu conseguisse, finalmente, os abrir por completo, me acostumando lentamente com a claridade.
Olhei em volta, tentando achar os três que haviam me ajudado. Mas a casa estava vazia, pelo menos a parte que eu conseguia enxergar. Olhei para o lado de fora, pela janela que ficava do lado da cama, e consegui enxergar um vilarejo. Eu parecia ter voltado no tempo, era tudo muito parecido com coisas que eu só havia visto em livros de histórias e filmes sobre a idade média. Nem Drogheda era daquele jeito.
Fiz força para sentar de lado na cama, jogando os pés para fora dela. Encostei as pontas dos dedos no chão de pedra, e constatei o óbvio: ele estava gelado. Puxei os pés para cima, tentando me livrar do frio. Um arrepio subiu pela minha espinha e eu procurei algum tipo de calçado no chão próximo à cama, para que não precisasse andar descalça.
Quando não encontrei nada, soltei um muxoxo de desaprovação. Teria que andar com os pés no piso frio. Fiz um estalo com a língua e fiquei de pé de uma vez, tentando não enrolar muito. Outro calafrio tomou conta do meu corpo todo e eu tremi, esfregando as mãos nos braços para tentar me aquecer pelo menos um pouco.
Fui em direção às duas portas no fundo da casa. Uma delas deveria ser o banheiro. Uma delas estava na parede de frente para a cama, enquanto a outra estava na parede perpendicular à da cama. Cantei mentalmente uma música para escolher uma das duas e, quanto a da parede perpendicular foi a sorteada, não demorei a abri-la. Por sorte, era mesmo o banheiro.
A privada era mais parecida com uma banheira do que com uma privada. Era no canto da parede e parecia um banco de pedra, mas com um buraco no meio.
Sequer me aproximei daquilo.
Não estava com vontade de fazer nada, então apenas me virei para encarar a pia. Era uma bancada de pedra com um buraco no meio também. Da parede, saía um cano, que estava tampado. Tentei puxar a tampa, mas ela não funcionava daquele jeito. Depois de quase quebrar a torneira improvisada, descobri que era só empurrar a tampinha pro lado, sendo possível até escolher a força da água que saía.
Não abri muito, para que não desperdiçasse água, e lavei o rosto. A água caía direto no buraco, e eu tentei imaginar para onde ela ia a partir dali. Poderia perguntar para alguém depois.
Havia um pano dobrado no canto da bancada, que usei como toalha. Torci para que aquela fosse mesmo sua função.
Saí do cômodo, indo em direção à outra porta, que imaginei que dava para o quintal. E eu estava certa. Quando abri, dei de cara com agachada na grama, tentando lidar com o vestido que usava enquanto parecia colher alguma coisa. Me aproximei, fazendo barulho ao andar para que ela não se assustasse.
— Ei, dormiu bem? Estou pegando coisas para o almoço — ela me olhou por cima dos ombros enquanto falava. Sorri em resposta, sem graça demais para falar algo em voz alta. Ela voltou a prestar atenção na colheita. — Os meninos já devem chegar.
— Por que não usa calças? — perguntei, quando ela quase caiu ao se levantar.
— Gosto dos vestidos, são mais delicados. Minha mãe que gosta de calças.
— Onde está sua mãe? Você não mora com ela? — entramos juntas na casa, e eu fechei a porta.
— Todos nós passamos a morar sozinhos quando completamos dezenove ciclos. Me mudei há pouco.
Fiz uma careta de confusão com sua resposta. Imaginei que ciclos eram anos, e ela não parecia ter tudo aquilo de idade, estava mais para algo parecido comigo. Depois me lembrei que eu estava em outro mundo e a cronologia deveria ser diferente.
Em seguida, quase me bati ao notar o quanto aquele pensamento parecia absurdo.
Eu ia perguntar se ela saberia quanto era aquela idade em anos terrestres, mas fui interrompida com a porta da frente sendo aberta. entrou primeiro e, ao me ver, abriu um sorriso. , que vinha atrás dele, continuou com a mesma feição emburrada de sempre.
— Olha só quem acordou — o negro se aproximou, dando um beijo na têmpora de e ainda sorrindo para mim. Sorri de volta. — O que teremos para o almoço?
— Colhi alguns vetos.
Merda. Eu teria que aprender muita coisa para entender o que eles falavam.
— Assim que terminarmos de comer, poderemos te ouvir, ahn… — tentou falar, mas parou de repente. — Qual seu nome, mesmo?
Os outros dois riram, e eu os acompanhei de leve.
.
sorriu pela primeira vez. E seu sorriso era lindo.
— É um belo nome — elogiou.
Sorri junto, me sentindo estranhamente bem ao fazê-lo. Não queria parar nunca.

 

Residência de ; Noretus - data e horário desconhecidos
Após o almoço, lavou as louças enquanto o resto de nós ajeitava a mesa para que pudéssemos nos sentar e conversar. Eu estava nervosa, com certo medo que eles não acreditassem em mim. Eu não tinha conhecimento sobre o mundo deles, então se alguém me falasse sobre ele, eu riria. E se fosse a mesma coisa com eles? E se eles não soubessem sobre a Terra e rissem de mim quando eu lhes contasse como havia ido parar ali? E se ficassem bravos, assim como a mulher que havia me mandado para Noretus?
Eu tremia de tanta apreensão.
Finalmente nos sentamos todos na mesa de , que ficava no exato centro da casa, no meio do caminho entre a cama e a cozinha. Cozinha, esta, que era bem estranha - mas eu não deveria estar surpresa. A geladeira era um enorme pote cheio de gelo dentro. Como eles faziam gelo, eu não saberia dizer. Havia um armário, cheio de coisas que não estragavam. A pia era igual à do banheiro, e o fogão era de lenha.
— Pode começar — disse, com a voz gentil, e eu notei que todos eles me encaravam. Eu devia estar calada há minutos e não havia notado.
— Não sei por onde começar. Vocês poderiam fazer perguntas — sugeri.
— Por que estava jogada no chão sangrando? — começou, como eu deveria ter previsto. Ele estava à minha frente, do outro lado da mesa.
— Eu caí.
— Óbvio. Como? — perguntou novamente, e reclamou ao receber um tapa de , à sua esquerda. Além do tapa, ela sussurrou “não precisa ser tão grosso”.
Então ele não era o tempo todo daquele jeito… Por que será que ele estava agindo daquele jeito, então? Por que estava tão incomodado com a minha presença?
— Eu caí de uma porta — fechei os olhos, aguardando as risadas. Mas eles não riram. Voltei a abrir os olhos e eles me encaravam com óbvia confusão no rosto. — Era um portal.
Eles se entreolharam, parecendo um pouco angustiados - finalmente tiveram uma reação. se balançou na cadeira, parecendo incrivelmente desconfortável. desprendeu e, em seguida, prendeu novamente o cabelo, colocando-o para o outro lado dessa vez. E apertou a beirada da mesa.
— De onde você veio, então? — o de olhos amarelos perguntou.
— Terra.
Isso causou um rebuliço. De repente, eles não estavam mais assustados, pareciam até mesmo felizes. , que estava à minha direita, empurrou a cadeira para mais perto de mim, pegando minha mão entre as delas e começando a fazer mil perguntas. sorriu para , que piscou um olho em resposta.
— Como é lá? Já vi tantas imagens, parece tão lindo… — a garota ao meu lado murmurava, parecendo falar mais consigo mesma do que comigo.
Eu tentava prestar atenção em todos ao mesmo tempo, enquanto matutava para entender por que eles pareciam tão animados com a informação recém descoberta. Os dois que estavam aos meus lados começaram a falar um com o outro, mas continuava quieto. Agora estava com a testa franzida, olhando para as próprias mãos, que continuavam apertando a borda da mesa.
— Gente! — berrou, de repente. Todos ficaram quietos. — Só há quatro pessoas conhecidas que são capazes de produzir portais em Catska — ao ver minha cara de confusão, interrompeu o colega para que pudesse me explicar:
— É o nome do nosso mundo. Noretus é apenas um país entre vários.
Quando eu assenti com a cabeça, voltamos a prestar atenção em , que ainda estava de testa franzida, mas agora olhava para a garota ao seu lado.
— Duas delas estão mortas, uma está presa e a outra, foragida. E eu digo isso porque não vejo motivos para que uma pessoa que não fosse de Catska mandasse outro alguém para cá. Até mesmo porque isso nem me parece um castigo.
Todos ficaram calados e soltou minhas mãos. Continuei olhando para , que desfranziu a testa e pareceu perceber alguma coisa. Tirou os olhos da garota à minha esquerda e os voltou para mim.
— Afinal, é um castigo, não é?
— Sim — pigarreei, estralando os dedos e me preparando para explicar tudo. — Não sei se vocês sabem, mas há uma festa cultural que acontece em alguns lugares da Terra nessa época do ano. Se chama Halloween, ou dia das bruxas.
— Dia das bruxas? Achei que eles não soubessem da existência da magia. Pelo menos é isso que nos é ensinado — disse, e os outros pareciam concordar com ele.
— E não sabem. É meramente cultural, as pessoas tratam isso como lenda, mito. Acho que ninguém acredita de verdade. Além das crianças, é claro — expliquei, e eles soltaram “ahs” de entendimento. — Enfim, eu sou uma dessas pessoas que não acredita, e acho que acabei insultando uma moça e ela me mandou para cá.
Eles ficaram em silêncio e se encararam, parecendo meio aflitos. Esperei que eles me perguntassem mais alguma coisa antes de falar. Não queria detalhar demais e acabar os ofendendo. Nunca se sabe se todos daquele lugar eram vingativos e estranhos.
Depois de mais alguns segundos em silêncio, voltaram a me encarar.
— Como assim ofendeu? — foi quem perguntou.
— Eu fui com as minhas amigas em uma loja no centro da cidade, que vende artefatos “mágicos” — fiz aspas apenas mentais, mas pareceu notar que eu tinha sido meio irônica, já que fez uma careta. — Quando entramos, eu me apoiei na parede enquanto minhas amigas escolhiam alguns produtos, e a loja estava meio suja e apodrecida. Falei isso para a vendedora.
fez um barulho ao segurar a risada, e sorriu com calma. continuou com aquela cara fechada. Estava começando a me dar nos nervos - não gosto de gente antipática.
— Mas isso não parece motivo o suficiente para ela te mandar para outra dimensão — ele disse, de um jeito meio desconfiado. Mordi o interior da bochecha, não querendo dizer o que mais havia dito à mulher.
— Posso também ter dito que não me atraía por magia e achava tolice… — falei baixinho e olhei para minhas pernas, não querendo encarar nenhum deles.
— Isso é aceitável, relaxa — me tranquilizou e, quando levantei o rosto para olhá-lo, ele estava novamente com aquele sorriso fofo. — Afinal, a magia é um mito para vocês. Se humanos comuns fossem um mito, e não um conhecimento para nós de Catska, eu também acharia tolice se alguém me dissesse que vocês existem.
Sorri de volta para ele, agradecendo com o olhar pelas palavras, que realmente haviam me deixado mais calma. Eles estavam sendo muito compreensivos, e eu agradeci por ter caído perto deles, e não perto de algum maluco maldoso.
— De qualquer jeito, ela disse que eu teria que encontrar um jeito de voltar para casa, e eu não faço ideia como — expliquei meu maior medo, voltando a pousar as mãos na mesa. Para a minha surpresa, segurou uma delas entre as suas, do mesmo jeito que havia feito mais cedo.
— Nós vamos te ajudar. Há alguns modos que podemos tentar, mas antes temos que te explicar várias coisas… — o interrompeu.
— Que é algo que eu, sinceramente, não quero fazer agora. Podemos ir explicando aos poucos para ela.
— Claro que sim — respondeu, e em seguida me surpreendeu novamente ao sorrir. Sorri de volta e olhei para os outros dois, que também estavam sorrindo para mim. Me senti sortuda.
— Obrigada, gente.
Eles apenas piscaram de modo divertido e falaram que aquilo não era nada. As coisas pareciam que iriam andar facilmente enquanto eu estivesse com eles. Nada seria problema, e eles tinham cara de quem aguentava desafios. Eu estava em boas mãos. Eu ficaria bem.

CÚIG

Residência de ; Aldeia Yemetis/Reino de Noretus - data e horário desconhecidos
Eu já estava ali há duas semanas, de acordo com os três mosqueteiros. Eu só havia contado dez dias, e foi então que tive certeza de que a cronologia era diferente. Eu deveria ter percebido isso desde o começo, já que era óbvio. Tudo ali era diferente, e eu estava começando a entender as coisas.
Todo dia, nós quatro nos reuníamos na casa de para que eles pudessem me ensinar um pouco mais sobre as diferentes coisas em Noretus. era o que mais gostava de explicar, às vezes ficava até animado demais e tinha que contê-lo, porque ele falava tão rápido que eu não entendia nada.
gostava de falar também, mas ele não se animava tanto quanto . Mas parecia mais apaixonado, não sei. Algo no jeito que ele explicava sobre o seu país deixava claro o quanto ele gostava daquele lugar, e que nunca sequer pensaria em sair dali. Seus olhos azuis brilhavam toda vez que ele mencionava Noretus.
Por falar nos olhos dele, ninguém havia me explicado por que diabos eles eram tão diferentes dos demais olhos dos cidadãos de Yemetis. Ah, sim, Yemetis. Era o nome da aldeia onde eu havia caído. Noretus era dividida em oito aldeias, a capital sendo Lumit. me explicara isso quando me levou “para passear” da primeira vez, e foi ali que eu notei que todo mundo naquele lugar tinha olhos cor de ouro e pele escura.
Todo mundo menos .
Eu morria de curiosidade toda vez que olhava para aquele garoto, e tinha que me contorcer para não perguntar. Achava que ia ser uma coisa pessoal demais, invasiva de mais, que não me interessava e nem era importante para nada na minha vida. Mas eu ficava tão curiosa, que me doía ter que segurar a pergunta toda vez que eu queria fazê-la.
Eles haviam me dito que, em volta de cada aldeia, havia fronteiras muito bem protegidas. Imaginei que fosse algo como muralhas ou uma magia brava, mas quando perguntei eles disseram que era apenas vigiada por guardas. Quase ri, mas então eles continuaram, dizendo que eram homens e mulheres especiais que não dormiam nunca e tomavam poções a vida inteira para que se tornassem guardas e ficassem sempre alertas. Havia o mesmo tipo de gente em todas as fronteiras, e no castelo real.
x Eu sempre me esquecia que aquilo era uma monarquia.
Era estranho, porque com toda a “evolução” que eles pareciam ter - fora os móveis dos banheiros e a falta de tecnologia -, era de se imaginar que eles vivessem numa anarquia, ou no mínimo, uma democracia. Mas não, eles eram comandados por um rei e uma rainha. Mais pela rainha do que pelo rei, mas ainda assim: pela coroa real.
falou que a coroa não era hierárquica, ou seja, não passava de pai para filho. Ao invés disso, a próxima rainha ou o próximo rei (muito mais raro, aliás. O mais comum era a rainha ser escolhida, e levar seu ou sua amada - se ela tivesse um - com ela quando fosse a Lumit) eram escolhidos por uma “força maior”, e só era escolhida aquela que merecesse governar Noretus. Segundo , assim que a atual rainha morria (o rei e os filhos não podiam governar no lugar dela), uma nova já era automaticamente escolhida. E era descoberta graças a uma marca que ganhava na base da nuca, com o lema de Noretus: “honra, coragem, paixão e feitiço”. A parte do feitiço se referia à magia dos cidadãos.
Eu não entendia muito bem o lance de magia. Não tinha visto nenhum dos três performar nada até então, e me perguntava: se eles têm magia, porque não a usam para solucionar todos os seus problemas? Imaginei que ela tivesse limites, mas não queria perguntar nada a respeito daquilo. Ainda parecia surreal demais para mim.

Residência de ; Yemetis/Noretus –  Hallme, 15 em Fons, 7295 - começo de tarde
havia me ensinado sobre a cronologia e me deixou absorvendo as novas informações enquanto ia para o lado de fora de sua casa. tinha uma aula misteriosa naquele dia, e por isso não pode ficar comigo. Não sei onde foi, ninguém me disse. De qualquer jeito, tive que ficar na casa de , que era muito mais afastada do centro do que as casas dos outros dois. Na verdade, a casa do elfo - quando eu disse que eles pareciam elfos, a criatura mística da Terra, foi o que ficou mais bravo com a comparação. Por isso, eu o chamava daquilo apenas para irritá-lo - era praticamente no meio do mato.
Aquilo era comum, na verdade. Não era a primeira vez que eu ficava em outra casa que não fosse a de - que era onde eu estava permanentemente hospedada. A garota tinha essas tais aulas três vezes por semana, sendo que duas dessas vezes, também tinha compromissos. E de vez em quando até mesmo não podia ficar comigo. Quando era assim, eu tinha que ficar sozinha.
Eu chorava toda vez que ficava sozinha.
Havia levado certo tempo, mas minha ficha havia caído: eu estava mesmo em um lugar desconhecido, sem meios de voltar para casa. Me dei conta disso na primeira vez que havia ficado sozinha na casa de . Olhei em volta e não havia mais ninguém comigo, e aquilo me fez perceber que seria assim até que eu voltasse para casa. Claro que eu tinha os meus três salvadores, mas não era a mesma coisa. Eu não estava, de fato, sozinha. Mas me sentia assim.
Abaixei os olhos para o meu caderno, que havia me dado quando eu disse que precisava anotar as coisas, ou as esqueceria. Eu já tinha usado uma boa quantidade de folhas para escrever tudo que me estava sendo ensinado, e também havia me dado um mapa de Noretus.

Semana composta por cinco dias:
Savu, Quëres, Jain, Hallme e Kore;
Mês composto por cinco semanas;
Ano é chamado de ciclo, e é composto por dez meses:
Ato, Bur, Ceno, Dolx, Erot, Fons, Galle, Harz, Illuy e Jesde.
A data se pronuncia “dia em mês, ano”, por exemplo, hoje é 15 em Fons, 7295.

voltou a entrar na casa pela porta dos fundos, ao mesmo tempo em que e entravam pela da frente. O último segurava nas mãos um bicho horrendo, para o qual eu fiz uma careta. riu ao notar, e logo tratou de ir explicando.
— Essa beleza aqui é um azuz. Cuidado com as presas, elas soltam um veneno que mata em segundos — apontou para as presas enormes que saíam da boca do animal.
Ele era muito parecido com um coelho. Tirando o fato de que suas orelhas eram menores, ele era no mínimo o duas vezes maior que um coelho normal, tinha presas fatais e… era vermelho. As pernas não eram tão longas, também, então imaginei que ele não conseguia saltar.
O casal vinte - que não era um casal, na verdade, mas que fariam um ótimo - foi para a cozinha que, no caso da moradia de , era separada do quarto, que era em outro cômodo. Estávamos na sala, eu sentada numa imitação medieval de sofá. ainda estava em pé, parado na frente da porta que dava para o quintal.
Em alguns segundos, ele se deu conta de que estava parecendo um bobo parado, e veio na minha direção. Sentou-se ao meu lado e deu uma espiada de canto nas minhas anotações.
— O que mais você não sabe? — ele perguntou, muito mais para ele mesmo do que para mim. Coçou o queixo, com um ar pensativo que eu achei engraçado.
estava finalmente se abrindo para mim. Não parecia agir comigo da mesma forma que agia com os amigos, mas também não me tratava mais como uma ameaça.
— Qual o nome da rainha atual? — perguntei, a curiosidade me batendo do nada. Ele me olhou e sorriu de leve.
— Edla. Ela é uma rainha incrível — se aproximou e sentou-se ao meu lado no sofá. — Sabe, Noretus tem alguns problemas com a justiça. Temos pouquíssimas prisões, porque a maioria dos crimes aqui leva a pena máxima: morte.
Me assustei mais uma vez. Novamente, o modo de governo daquele lugar havia me surpreendido. Eu estava começando a entender que não deveria superestimar toda essa “evolução” que a tal feiticeira do portal havia alegado que seu povo tinha. Eles não pareciam nem um pouco evoluídos se não tinham o dom do perdão. Ou mesmo o dom de dar o benefício da dúvida.
— Normalmente, o suspeito é capturado e levado à prisão mais próxima. Então, ele tem de dois a quatro dias para provar que é inocente. Caso não consiga, vai para a adalanta.
— O que é isso? — perguntei.
— É um instrumento de morte rápida. A pessoa é colocada deitada de bruços e uma lâmina corta sua cabeça de maneira veloz, assim ele morre mais rápido e não sente dor — explicou, observando e cozinharem nosso almoço.
Era estranho. Eles tinham apenas duas refeições por dia, uma no começo da tarde e outra bem no final da noite.
— Temos um desses na Terra! — exclamei, animada por encontrar algo que tínhamos em comum nas duas realidades. — Chama-se guilhotina. Foi inventada em uma revolução contra a monarquia em um país relativamente próximo ao meu. Depois de sua invenção, foi usada incontáveis vezes. Foi um massacre. Aí um louco deu um golpe e instaurou a monarquia de novo — fiz uma careta.
pareceu interessado, seus olhos brilhando levemente. Eu havia notado que eles adoravam saber mais sobre a Terra. Pelo que haviam me dito, eles estudavam os humanos terrestres na escola, e havia até mesmo pessoas que faziam uma espécie de faculdade depois, apenas para se especializarem na minha dimensão. Depois de completar o curso, eles normalmente iam para a Terra, estudá-la mais de perto. havia dito que gostaria de fazer isso algum dia.
— Bom, Edla é mais misericordiosa. Normalmente dá mais tempo para que se prove a inocência e já houve mesmo alguns casos em que ela perdoou alguns crimes leves — terminou de explicar. Parecia prestes a perguntar alguma coisa, provavelmente sobre a Terra, mas foi interrompido:
— Na mesa! — nos chamou para comer, e isso fez com que eu e cortássemos nosso contato visual a fim de ir para a mesa.
Eu gostaria de ensinar algumas coisas a mais para ele. Torci para que tivéssemos tempo para isso.

 

Residência de ; Yemetis/Noretus – Hallme, 15 em Fons, 7295 - tarde
Certo tempo depois do nosso almoço, estava terminando de lavar as louças quando bateram na porta. O próprio foi atender, e fez uma careta antes de se levantar e ir terminar a tarefa que ele havia deixado inacabada. Ela estava bem brava e isso me fez rir.
— É uma carta do meu tio —  disse, um tempo depois, balançando o pedaço de papel que estava em sua mão. Olhou pra mim. — Temos que te explicar isso agora.
Ele e vieram na minha direção, que estava novamente sentada no sofá. Sentaram-se cada um ao meu lado e esperaram que terminasse de lavar os pratos. Quando ela finalmente o fez, pegou uma cadeira e arrastou-a para perto de nós, sentando-se na nossa frente.
— Certo. Os portais — suspirou antes de continuar: — Há algumas décadas, existiu um bruxo chamado Egust. Ele era de Noretus, mesmo, mas era diferente dos outros cidadãos. Veja bem, é comum que nós sejamos muito nacionalistas, é aquele tipo de coisa que é infiltrado na nossa sociedade e nós seguimos sem sequer perceber. Mas Egust não era assim. Nunca foi revelado se isso tinha um motivo, ou se era completamente aleatório, mas ele simplesmente odiava Noretus.
“Ele conheceu uma jovem bruxa uma vez. Ela estava fugindo de algo enquanto ele caçava na floresta. Ele morava no extremo de Yemetis, na fronteira tripla com Albegeo e o reino vizinho, Abasko. Ele se sentiu imediatamente atraído pela garota, e a acolheu, levando-a para sua casa. Depois de um tempo, ela contou que havia fugido de seu país porque havia cometido um crime imperdoável, mas não queria morrer.
“Abasko também tem a pena de morte, mas não é tão comum quanto em Noretus. Apesar disso, os dois reinos são inimigos há milênios, eles têm uma história. História essa que é muito longa, se não fosse eu te contaria. De qualquer jeito, Noretus sempre quis a paz entre os dois, mas Abasko tem uma tendência mais sanguinária, e vive ameaçando entrar em guerra.”
Imediatamente me lembrei que a feiticeira havia me dito que eu deveria impedir uma guerra. Ainda não havia contado aquilo aos três, assim como não havia contado do meu clone malvado, a tal Presya. Ainda não tinha surgido espaço para esse assunto dentre as nossas conversas, até mesmo porque raramente eles me perguntavam do que foi me dito no pátio de passagem.
— Eles conviveram por alguns meses, e foram se apaixonando. Egust acabou contando que odiava seu país e foi aí que o problema começou a surgir. A mulher, chamada Hebelin, contou que também não gostava de viver ali, e que sempre havia ouvido as piores coisas sobre Noretus quando ainda vivia em Abasko. Juntos, eles decidiram acabar com nosso reino. Egust juntou-se a um amigo, Marduke, que trouxe com ele sua esposa, Ajha… — interrompi o discurso de .
— Ajha? — perguntei, assustada. Eles confirmaram. — Era a sigla que estava na placa da loja onde eu fui com as minhas amigas.
Eles se entreolharam, tão assustados quanto eu estava. franziu o cenho e ficou com uma cara estranha que ele fazia quando tentava entender as coisas. Ele botava o lábio inferior pra frente, fazendo um biquinho, e levantava uma sobrancelha. Era uma graça.
— Acham que pode ser a mesma pessoa? — perguntei.
— Pode, mas também pode ser alguém que simpatiza com Ajha. Ela é uma feiticeira muito famosa em Catska. De qualquer jeito, não vamos nos focar nisso, porque vai ser apenas mais uma dor de cabeça — me respondeu e sugeriu. Assentimos com a cabeça e olhamos para , para que continuasse a contar a história.
— Enfim, Egust, Hebelin, Marduke e Ajha se juntaram para tentar criar um plano e acabar com Noretus. Marduke disse que só ajudou porque Egust o chantageou, mas Ajha era realmente maldosa. O plano deles era arranjar um exército, invadir Lumit e assassinar a rainha. Em seguida, declarariam guerra e faziam uma matança geral em todos os noretienses. Mas tinha um empecilho: eles eram apenas quatro e sabiam que não iriam convencer outras pessoas a se juntarem a eles no exército.
“Assim, eles só viram uma solução para isso. Ajha, desde então, já era uma grande feiticeira, capaz de fazer coisas que pouquíssimos bruxos antes dela conseguiram fazer. Combinaram o poder dela, a maldade de Egust e a inteligência dos outros dois e criaram clones, digamos maldosos, de todos os outros cidadãos.”
Minha boca foi ao chão. Só podia ser a mesma mulher!
— É a mesma, eu tenho certeza!
— Como? — quis saber.
— No pátio de passagem ela me disse que, enquanto eu estiver aqui, há um clone maldoso meu na Terra, se passando por mim.
arregalou os olhos e se levantou do sofá, ficando de pé. continuou do mesmo jeito, apenas com uma feição levemente surpresa no rosto, mas completamente paralisado.
— E os portais? — perguntei, me lembrando de como a conversa tinha começado.
— Bom… — conseguiu falar, enquanto os outros ainda pareciam aterrorizados demais para se manifestarem. — Depois de criar os clones, eles acharam que já estavam prontos. Invadiram Lumit, mas não conseguiram passar do portão do castelo. Egust e Hebelin morreram em batalha, mas os outros dois conseguiram fugir. Foi aí que Ajha criou os portais, um projeto que ela já tinha idealizado junto com os outros, para que os clones que sobraram fossem evacuados para outras dimensões.
— E o que o seu tio tem a ver com isso? — eu ainda estava confusa. Ele suspirou, e ia explicar, mas tomou sua vez:
— Quando o exército noretiense foi atrás de Ajha e Marduke, encontraram-nos em um tipo de calabouço no meio da floresta. Prenderam Marduke, mas Ajha conseguiu escapar, levando alguns portais com ela. Então, antes de sumir de vez de Catska, ela espalhou alguns portais nos lugares de mais difícil acesso do nosso mundo.
— E meu tio faz parte de uma equipe de pessoas que procura por esses portais, para que sejam destruídos — finalizou.
Eu respirei fundo, como se fosse eu quem tinha falado tudo aquilo. As peças iam se encaixando lentamente na minha cabeça, as coisas começando a fazer sentido. Olhei para as minhas mãos, apoiadas nas minhas coxas, e senti o sofá se mexendo. havia levantado e estava andando de um lado para outro. tomou o lugar dele e continuava na mesma posição de antes, agora batendo o pé no chão repetidamente.
Após alguns segundos, que mais pareceram horas, voltou a se aproximar. Levantei os olhos para olhar para ele e ele estava com uma feição neutra.
— Meu tio me manda cartas mensalmente, falando sobre o seu trabalho. Eu quero fazer o mesmo, por isso pedi que ele me mantivesse informado — começou a contar, depois esticou a mão para , entregando a ele a carta que havia gerado toda aquela conversa. — Eles têm espécies de sonares que viajam pelo mundo, procurando os portais. E hoje descobriram um, aqui mesmo em Noretus, do outro lado do país.
Meu coração parou de bater por um segundo.
— Há como descobrir pra onde o portal vai? — perguntei, tentando não dar atenção à chama de esperança que queria se acender dentro de mim.
— Apenas testando — ele respondeu, se abaixando à minha frente e ficando de joelhos. Suspirou, e seu rosto se tornou triste, o canto do lábio sendo repuxado para baixo. — Demora um tempo significamente grande até que eles consigam testar.
Tentei soltar um muxoxo, mas nem isso eu consegui. Respirei fundo mais uma vez, tentando controlar a vontade de chorar que me arremeteu do nada. , ao meu lado, pousou a mão sobre o meu ombro, fazendo um carinho eleve com o dedão.
— Após a “invasão” de Hebelin — fez aspas com a mão. —, eles começaram a proteger melhor as fronteiras. Foi aí que o programa de guarda começou. E desde então, só se pode passar de uma aldeia para outra com a autorização do governo. E isso demora cerca de três dias, sendo que você deve fazer em toda fronteira que você passa.
— A sede dos caçadores de portais fica em Repaltien, a noroeste do reino. E o portal está no limite de Maitreyan, a sudoeste. São três fronteiras para atravessar, fora cada uma das aldeias no caminho. Eles podem demorar bastante — continuou, baixinho enquanto lia a carta, talvez com receio de me aborrecer ainda mais.
— É o único jeito de eu voltar para casa? Esperar que um portal seja encontrado, testá-lo e rezar para que ele seja para a Terra?
— Não — foi quem me respondeu dessa vez. — Se ele não for para a Terra, podemos mudá-lo. Temos um feiticeiro que estudou os portais por muitos ciclos, e sabe como revertê-los.
Suspirei. Pelo menos uma boa notícia tinha que sair daquela conversa toda.
Ficamos em silêncio por um incontáveis minutos. se levantou e, junto com , foi para o lado de fora da casa, fazer alguma coisa que eu não entendi o que era quando eles explicaram a . Este, por sua vez, foi ao seu quarto e ficou lá por um bom tempo. Quando voltou, tinha na mão um papel e algo que parecia remotamente com uma caneta. Sentou-se na mesa e passou a escrever. Imaginei que fosse uma resposta ao seu tio.
Alguns minutos depois, ele terminou o que estava fazendo. Passou rapidamente os olhos pelo conteúdo da carta, checando o que havia escrito. Em seguida, colocou o papel na mesa e descansou os braços. Levantou-se da cadeira, murmurando algo para si mesmo e, de repente, virou para me olhar. E me flagrou enquanto eu o encarava.
Que ótimo.
Ele sorriu um pouco e se aproximou, sentando-se ao meu lado no sofá. Segurou minhas mãos e me olhou no fundo dos olhos com aquelas íris azuis cintilantes.
— Nós vamos dar um jeito, não se preocupe. Sei que é assustador pensar que há uma pessoa no seu lugar, fazendo diversas merdas enquanto você está presa aqui. Mas vamos encontrar uma solução mais rápida do que esperar o teste do portal. Te prometo isso, .
Suas palavras conseguiram me confortar, mesmo que tivesse sido apenas um pouco. Desde o meu primeiro dia ali, todos eles tinham sido maravilhosos comigo, e eu só poderia agradecer por todos eles.
Eu ia responder quando abriu a porta e colocou apenas a cabeça para dentro da casa, chamando . Ele olhou para a amiga com confusão, mas ela apenas gritou que ele fosse logo. Ele me fitou, pedindo desculpas silenciosas antes de se levantar e seguir para o lado de fora. Eu me deitei no sofá e fechei os olhos, sentindo uma dor de cabeça querendo chegar.
Antes que pudesse notar, eu havia adormecido.

 

Residência de ; Yemetis/Noretus – Hallme, 15 em Fons, 7295 - noite
Abri os olhos, tentando me acostumar com a escuridão. Quando finalmente o fiz, me sentei no lugar onde eu estava dormindo, notando que eu não estava mais no sofá da sala, e sim na cama do quarto de . Meus olhos demoraram um pouco para se adaptarem ao breu, mas logo eu já conseguia enxergar as formas das coisas ao meu redor.
Me levantei, pisando no chão frio de madeira e me arrepiando toda. Fui nas pontas dos pés até a abertura que dava para a sala e, ao chegar lá, , e estavam sentados na mesa conversando baixinho - provavelmente para não me acordarem.
Fui me aproximando e foi o primeiro a notar minha presença. Sorriu fraco e fez um gesto com a mão, me convidando para sentar com ele e os outros dois. Assim o fiz, sentando-me na cadeira vaga ao lado de . Os outros dois sorriram também e assim ficou a cena. Os três me encarando com sorrisos suspeitos enquanto eu não entendia nada.
— O que foi? — perguntei, por fim, após alguns segundos em um silêncio que começara a me incomodar.
Eles pareceram cair em si, notando que estavam sendo estranhos. balançou a cabeça em negação enquanto olhava para os outros dois, que também se encaravam. Estavam travando uma batalha silenciosa para decidir quem me contaria o que eles pareciam querer contar.
Rolei os olhos.
— Falem logo!
— Tudo bem — foi quem se pronunciou primeiro. É claro. — Tivemos uma ideia, um plano que pode te fazer voltar para casa mais cedo.
Meu coração pareceu explodir por um segundo.
— É uma ideia irresponsável, — continuou. — arriscada, louca, descuidada, imprudente, insensata, que tem um milhão de chances de dar errado…
— Mas é uma ideia — o interrompeu, lançando-lhe uma careta.
— Não sei se ela vai aceitar — comentou, baixinho, olhando para o amigo ao seu lado.
— Acho que vai sim, ela está meio desesperada, né? — respondeu, e eu quis bater nos dois.
— Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui, idiotas — resmunguei, e eles voltaram a me olhar. — Qual é a ideia irresponsável, descuidada, imprudente?
Eles riram um pouco. respirou fundo antes de anunciar:
— O tio de mandou um mapa com as coordenadas do portal, na pura inocência. Podemos tentar chegar lá antes deles. Antes que me interrompa, — ela disse, notando que eu queria perguntar algo. — sabemos como. Iremos… burlar a lei.
Levantei uma sobrancelha e passei os olhos lentamente em cada um, estudando suas feições. Estavam neutras. Eles estavam falando sério.
— Burlar as leis, tipo, atravessar as fronteiras ilegalmente? — perguntei, apenas para ter certeza de que não estava ficando louca.
Eles acenaram que sim com a cabeça, e eu quase ri. Eles não haviam me dito que era impossível atravessar a fronteira graças aos super-guardas? Como diabos eles achavam que nós, meros adolescentes sem habilidade nenhuma, iríamos conseguir passar por eles, que se prepararam a vida inteira para tomar conta das fronteiras?
— Eu sei o que você deve estar pensando. Como nós vamos atravessar. Mas isso é simples. Vamos voar por cima deles — continuou, e minha careta de indignação apenas cresceu.
— E como nós vamos voar por cima deles? Algum de vocês tem asas?
— Não, mas conhecemos quem tenha — me respondeu, sorrindo.
Aquele mesmo sorriso suspeito de antes.
Um arrepio subiu pela minha espinha e eu fiquei receosa do que eles estavam programando. Não poderia ser nada bom, não quando eles estampavam aqueles sorrisos assustadores em seus rostos.

Estábulo estadual; Yemetis/Noretus - Kore, 16 em Fons, 7295 - madrugada
O lugar estava absurdamente silencioso. Eu não fazia ideia de que horas eram – até porque não sabia como eles controlam as horas, foi algo que não me ensinou –, mas com certeza já era bem tarde. Não se ouvia nada além de alguns pássaros noturnos e outros bichinhos na mata. De longe, eu enxergava o que parecia ser um estábulo.
A brilhante ideia dos três elfos também era algo relacionado com burlar a lei. Com “nós conhecemos alguém que tenha asas”, o que eles quiseram dizer foi “conhecemos um animal estranho e bizarro que tem três metros de altura e voa”. Essa era a tradução daquela frase esquisita que havia me feito arrepiar.
O problema era que esses animais, chamados heslocks, eram utilizados quase que exclusivamente pelo governo. Sendo assim, você só poderia ter um com autorização do governo. Coisa que nós, obviamente, não tínhamos. Sendo assim, nossa única possibilidade de arranjar heslocks era roubando alguns.
Você não leu errado.
Roubando.
Um dia após bolarmos (quer dizer, eles bolaram. Eu fiquei olhando para eles abismada o tempo todo) o plano, de madrugada, fomos ao estábulo estadual, onde os heslocks à venda ficavam. Toda aldeia tinha um, e o de Yemetis ficava no meio do caminho entre a casa de e a de - os dois extremos norte e sul da aldeia.
disse que era comum que esse tipo de propriedade governamental tivesse guardas para tomar conta, mas que normalmente eles não ficavam lá todos os dias. Eu achei estranho, mas o que eu poderia chamar de normal desde que pusera os pés em Noretus?
Nada.
Estávamos escondidos em algumas moitas, esperando para ver se havia algum guarda naquela noite. Chegamos a ouvir alguns barulhos, mas eles pareciam distantes, então não tivemos coragem de andar os metros que nos separavam do nosso meio de fuga.
Um galho se quebrou próximo a nós e eu senti a mão de apertar meu braço. Eu estava entre ela e , estando do outro lado de . Todos nós prendemos a respiração ao mesmo tempo, temendo que fosse um guarda - o barulho havia sido muito mais próximo dessa vez. Não seria surpresa se ele nos visse.
Não demorou muito e um homem de armadura e com uma arma - que parecia de fogo, fiquei até surpresa - parou a poucos metros de nós. O aperto no meu braço ficou ainda mais forte e eu quase bati na garota ao meu lado. Tentei ficar o mais parada possível, qualquer barulho um pouco mais alto seria o suficiente para nos denunciar. Por sorte, o guarda não demorou muito para se afastar.
— Vamos arriscar, acho que não teremos outra chance —  sussurrou quando o homem já estava longe. — Continuem abaixados e façam o mínimo de barulho possível.
Praticamente nos arrastamos pelo chão, tentando chegar ao estábulo o mais rápido que podíamos. Não foi uma tarefa fácil, até porque, em algum momento, acabou pisando em um galho, o que reproduziu um barulho um pouco alto. Percebemos que fomos ouvidos quando passos denunciaram a aproximação de mais guardas. Nos levantamos e andamos um pouco mais rápido, nos escondendo nas sombras das árvores que cercavam a propriedade.
Por sorte, conseguimos chegar à porta do estábulo sem chamar mais atenção. se apressou para abrir a grande porta do lugar, enquanto o resto de nós olhava em volta para ver se nenhum guarda se aproximava. Logo ele conseguiu abrir o portão e nós passamos para o lado de dentro, fechando a porta com cuidado em seguida, para que não fizesse barulho. Estava um pouco escuro, apenas algumas velas e lampiões iluminavam precariamente o local, mas dava pra ver as coisas sem forçar muito a vista.
Percebi passando por trás de mim, em passos lentos e silenciosos, se aproximando de uma das celas. Não demorei a segui-lo, curiosa com os animais. parou imediatamente à frente do portão da cela, e eu me posicionei ao seu lado. Ali era mais escuro, e o heslock estava um pouco longe de nós, mas o chamou ao bater no portão de madeira que nos separava do “cavalo”.
Aliás, me arrependi de chamá-lo de cavalo no momento em que tive esse pensamento.
O heslock se aproximou de nós e eu me segurei para não me afastar dele. Era um animal enorme e majestoso, que se movia com tamanha delicadeza que era assustador, devido ao seu tamanho. Ele era absurdamente bizarro. O bicho mais bizarro que eu já havia visto na minha vida. Em relação ao corpo, ele era muito parecido com um cavalo - fora as asas, claro. E suas pernas eram mais grossas. Mas seu rosto era completamente diferente. Parando para pensar, era bem parecido com o rosto de um rinoceronte sem os chifres e orelhas. Me perguntei como ele ouvia.
Percebi pelo canto do olho que olhou pra mim enquanto eu me aproximava do heslock, após o breve susto ter passado. Ele deu um passo para o lado, me dando mais espaço para ver o animal melhor. Sua pele era de uma textura estranha, que parecia couro, mas estando onde eu estava, eu tinha certeza que aquilo poderia ser tudo, menos couro.
Ao mesmo tempo em que eu ia ao seu encontro, o heslock vinha ao meu. Ficamos cara a cara, com apenas uma cerca nos separando. Levantei minha mão bem lentamente, e percebi que ele não se assustou com meu movimento; continuou me olhando nos olhos - olhos inteiramente pretos, assustadores. Finalmente o toquei, pousando minha mão em seu pescoço, e dali tive certeza que aquilo não era couro nem em Noretus nem em lugar nenhum. O heslock fechou os olhos ao meu toque, e ao ver que ele, de certa forma, confiava em mim, fiz carinho nele, como se estivesse fazendo com um cachorrinho, não com um animal de uns dois metros e meio de altura.
Continuei com as carícias enquanto buscava os olhos de um dos meus três amigos, para ver a reação deles. estava o mais longe que podia de nós, enquanto parecia estar tendo dificuldades em fazer amizade com um heslock que estava a umas três celas de mim. , por outro lado, ainda estava ao meu lado, e me encarava de um modo estranho. Sorri pra ele e esperei uma reação mais clara.
— Sabe, heslocks não são lá conhecidos por serem animais dóceis. Pode perceber pelo perrengue pelo qual está passando. Mas, ou esse aí está fora dos padrões, ou você é especial — ele soltou uma breve risada, que eu acompanhei. — , tente fazer menos barulho, por favor — resmungou, se aproximando do amigo. Voltou a olhar pra mim por cima do ombro. — , ajude e seu medo monstruoso de heslocks, sim?
Tirei a mão do heslock e me virei para encarar , que parecia aterrorizada. Ri de seu pavor e chamei-a com a mão. Quando ela se pôs ao meu lado, segurei sua mão e a levei à cela ao meu lado. Lá dentro, o que parecia um heslock bem simpático - ao meu ver, né - nos olhou e se aproximou do portão, assim como eu e . Olhei pra ela, e ela parecia um pouco menos assustada, mas eu também não diria que estava confortável com a situação.
— Faz um carinho nele.
— Não vou tocar nisso! — ela soltou minha mão e me olhou como se eu tivesse falado a coisa mais absurda que ela já ouvira. Soltei uma gargalhada.
— Ah, vamos lá! Ele até que não é tão feio — respondi, com humor na voz, e ela resmungou algo que eu não ouvi antes de se aproximar da cerca.
Colocou uma das mãos no portão enquanto levava a outra em direção ao animal. Ele abaixou a cabeça e a levou de encontro à mão de , e eu tive certeza que aquele era o animal certo pra ela. Ele deveria ser mais novinho que os outros, por ser mais dócil e menorzinho, e estava animado em ver pessoas.
Olhei em volta e consegui enxergar abrindo a cerca de sua cela antes de ser acertada com uma corda na cara. Segurei um berro e ouvi pedindo desculpas. A corda caíra no chão e eu a peguei, voltando para perto do meu heslock.
Meu deus, eu já estava tratando o bicho como minha propriedade.
Abri o portão de sua cela e amarrei a corda em seu pescoço. Eu estava surpresa com a minha calma na situação; acho que o fato de a criatura estar tão calminha estava me afetando, ele estava transferindo sua tranquilidade para mim.
Puxei-o para que saísse de sua cela e foi então que notei que ele tinha uns… chifres nas pernas. Olhei com uma careta para aquilo. Se ele desse um coice em alguém, a pobre pessoa morreria na hora, com uma faca na jugular.
Eu não iria querer irritar um daqueles.
ajudou com o heslock dela, que não queria ficar quieto. Ao ver os irmãos, o meu ficou mais agitado, mas se aproximou e me ajudou a acalmá-lo. Olhei para o bicho. Ele passava facilmente dos dois metros.
— Como você monta um bicho desses? — perguntei, e , ao meu lado, sorriu.
Ao invés de dizer, ele me mostrou. Ainda segurando a corda que prendia o animal que o acompanhava, ele fez um gesto com a mão. Com a palma para cima e os dedos levemente dobrados, ele abaixou a coluna e tocou o chão com as costas da mão. Imediatamente, tanto o meu heslock quando o dele se abaixaram como se fossem camelos, nos olhando com aqueles olhos absolutamente negros.
Levantei as sobrancelhas ao mesmo tempo em que me aproximava do bicho pela lateral de seu corpo. As asas não eram de penas, pareciam da mesma textura do corpo - como asas de dragão.
Será que dragões existiam também?
Segurei com força em seu tronco e me impulsionei para cima, tentando subir nele. Quase cai de cara do outro lado. Ouvi a risada de e vi que pés se aproximavam. Levantei a cabeça e vi sorrindo para mim. Ele me ajudou a subir direito, e assim que eu me estabilizei, o bicho levantou, me assustando e quase me fazendo cair de novo. Segurei com força na corda que o prendia e tentei não olhar para baixo, para não causar vertigem.
subiu em seu heslock também e fomos cavalgando até a porta do estábulo. já havia aberto a mesma, e estava com o rosto do lado de fora, verificando se havia algum guarda próximo. Assim que recebemos cartão verde, saímos todos dali. Esperamos até que e também tivessem montado e passamos a andar lentamente, para que não chamássemos atenção nenhuma e sempre nos escondendo nas sombras.
Seria uma longa viagem até a casa de .

Quintal de ; Yemetis/Noretus – Quëres, 18 em Fons, 7295 - manhã
— Você precisa treinar mais o seu ataque — disse, deixando que eu me apoiasse em seu ombro. Bufei com sua fala.
—  Já treinei o suficiente por trinta anos — respondi, sem ar, e ele riu.
Me pegou no colo como um saco de batatas e me levou para dentro de sua casa. Lá, e arquitetavam um plano para que nós saíssemos de Yemetis. me colocou deitada na cama e me trouxe um copo d’água. Eu agradeci, tomei e levei de volta à pia depois de descansar. Sentei-me no chão ao lado dos outros três e ouvi suas ideias. Como eu não conhecia o território, não saberia ajudá-los. Mas eles se davam bem por si próprios, pois os três eram inteligentes.
Os heslocks estavam amarrados a estacas de madeira no quintal de . Ficamos receosos em deixá-los sozinhos, mas tínhamos que pegar algumas coisas na casa de . Acabamos ficando ali mesmo, numa distração.
Voltei ao quintal para pegar as coisas que havíamos usado no treino daquele dia. havia me explicado que, quando jovens, eles aprendiam técnicas de luta. Isso acontecia porque, graças à rivalidade com Abasko e as constantes ameaças de guerra, Noretus tinha que ser bem preparada e ter o máximo de pessoas dispostas a lutar. E eles estavam me ensinando tudo que já tinham decorado, porque poderia ser útil na nossa viagem até o portal e de lá até o palácio dos caçadores. Eu realmente esperava que não tivesse que lutar com nada nem ninguém (porque eles estavam me ensinando a caçar também), mas era melhor prevenir do que remediar.
Quando voltei para dentro da casa, havia um homem conversando com os outros três. Ele usava uma carta para se guiar pelas palavras, mas por algum motivo, eu não estava entendendo nada que ele dizia. Foi então que eu me toquei: como eu entendia meus três amigos? E como eles me entendiam? Nós definitivamente não falávamos a mesma língua.
Eu fechei a porta do quintal discretamente e tentei não atrapalhar o moço. Sentei-me na cama e esperei que ele acabasse. Quando ele terminou e foi embora, , e começaram a conversar de modo desesperado. Eu conseguia entendê-los, mas eles falavam tão rápido que, no fim, acabei não compreendendo nada mesmo assim.
Imaginei que uma horas eles se acalmariam e teriam a consideração de me explicar o que diabos estava acontecendo, mas não foi isso que aconteceu. Eles apenas continuaram berrando um com o outro, o que me fez rolar os olhos. Me levantei e me aproximei deles.
— EI! — berrei quando estava bem do lado de e , os mais próximos a mim. O grito fez com que eles se encolhessem e finalmente calassem a boca. — Que tal explicar para a forasteira o que está se passando?
Eles se entreolharam por alguns segundos e suspirou. Apontou a cama atrás de mim - a casa de era bem parecida com a de . E ele não tinha um sofá - e nós todos nos sentamos lado a lado.
— Lembra das ameaças de guerra de Abasko? — perguntou. Eu afirmei com a cabeça. — Ele resolveu levar a sério. Estão invadindo pelo norte do reino, em Albegeo.
Levantei as sobrancelhas em surpresas. Isso certamente seria um empecilho.
— Temos que nos inscrever no exército, é obrigatório — continuou. — Por sorte, os primeiros a se voluntariarem são os últimos a ser considerados. Ou seja, se a guerra explodir e um exército ser realmente montado, só seremos chamados caso todos os outros morram — ela fez uma careta e repensou: — Ou algo assim.
Aproveitando que o prédio governamental, onde eles tinham que se inscrever, era praticamente ao lado da casa de , eles foram até lá, me deixando sozinha. Como eu não era uma moradora oficial de Noretus (apesar de que a aldeia toda já sabia de mim e se perguntava quem diabos eu era), eu não precisava me voluntariar.
Antes de ir, eles me explicaram que aquilo era apenas mais um motivo pelo qual deveríamos partir logo em nossa viagem. Se realmente precisassem deles no exército, eu demoraria ainda mais para chegar ao meu portal. Ou até mesmo pior - conhecendo a mim mesma, eu imaginaria que largaria os outros três para que lutassem pelo seu país e iria sozinha à procura da minha volta para casa.
Eles também me explicaram que a tradução não era automática, era algo que a pessoa deveria aprender. Como os três tinham interesse pela Terra (e os trabalhos que e queriam tinham a ver com o meu país), eles aprendiam a falar diversas línguas. Não me contaram em detalhes, pois tinham que ir logo para o prédio governamental, mas falaram que tinha um pouco de mágica envolvida.
É claro que havia.

Residência de ; Yemetis/Noretus – Quëres, 18 em Fons, 7295 - tarde
Eles demoraram para voltar, cheguei a ficar preocupada. Eles haviam saído no fim da manhã, e chegaram quase no fim da tarde. Até o horário de almoço havia passado, eu estava faminta e não sabia preparar nenhum tipo de comida - e fiquei com medo de experimentar qualquer coisa naquela geladeira alternativa deles.
Após um longo tempo de espera, eles finalmente retornaram à casa de , pareciam cansados e tinha um… ornamento em mãos. Esperei até que eles se aproximassem e me estendeu o tal objeto estranho. Peguei-o com uma óbvia cara de questionamento.
— Isto, minha cara , — começou, com um mínimo sorriso de lado. — é um Olhador.
Acho que ele pensou que aquilo seria uma preciosa e iluminadora informação, pois seu sorriso aumentou quando ele chegou ao fim da frase. Pena para ele que, na verdade, aquilo não me acrescentou em nada e eu continuei tão confusa quanto antes.
percebeu e bufou, sentando-se ao meu lado no chão.
Eu havia me cansado da cama.
— Marduke inventou os Olhadores para que ele e Ajha pudessem ficar de olho nos clones, vendo as maldades que eles faziam por aí — ela disse, finalmente me fazendo entender pelo menos uma parcela daquilo tudo. — Claro que eles não imaginaram que seu plano de criar álter-egos das pessoas daria muito errado e eles virariam fugitivos. Mas enfim.
— Vimos um homem vendendo isso na feira de relíquias próxima ao prédio do governo. Acho que você pode testar, ver se consegue visualizar seu clone na Terra — concluiu, sorrindo esperançoso.
Olhei novamente para o artefato. Ele tinha um formato oval e fundo, como uma pia, mas menor. Dentro dele, já havia uma água cinzenta, escura. Me deu arrepios só olhar para ela. Olhei para os outros três, perguntando silenciosamente como eu usava aquilo.
— Você só precisa se concentrar e pensar no clone, pensar no nome dele e em suas características físicas — informou, e logo em seguida perguntou: — Você sabe o nome, não?
— Sim, a mulher me disse. Presya.
Eles assentiram e eu respirei fundo. Olhei para a bacia no meu colo, levemente aterrorizada com aquela água que parecia suja. Fechei os olhos e tentei me concentrar ao máximo. Pensei em mim mesma, tentei imaginar a minha imagem, sempre pensando no nome do álter-ego: Presya. Presya.
Presya.
Abri os olhos em súbito, como num susto, olhando para o fundo do pote. A água estava turva e começara a tomar formas e cores. Senti como se algo estivesse me puxando, e pude perceber que estava me aproximando do líquido no recipiente. Senti medo, mas não consegui me afastar. Era uma tração mais forte que eu.
Logo, eu senti a água tocando meu rosto, mas não precisei prender a respiração. Eu não sentia como se estivesse submersa. Olhei em volta. Eu não estava mais na casa de . Eu estava na minha casa.
Em Drogheda.

Residência dos ; Drogheda/República da Irlanda
Presya estava na frente do espelho que eu tinha no banheiro do quarto, se admirando. Parecia Narciso no lago, estupefata com sua suposta beleza. Eu via tudo como se estivesse ali, presente naquele cômodo. Ela passava as mãos pelos cabelos curtos e loiros, quase brancos. Eu sequer me lembrava que aquela era minha aparência. Vê-la apreciando a própria imagem refletida me fez pensar que eu mesma nunca havia feito aquilo.
Depois de mais alguns segundos, ela virou-se e foi até meu quarto. Passou ao meu lado, mas não me viu. Não parecia notar minha presença ali. Me perguntei se eles sabiam quando estavam sendo observados.
Ela parou na frente da minha cama e arrumou o travesseiro, ajeitando-o de modo que estivesse encostado na cabeceira do móvel. Olhei para o lado. Era começo de tarde, o sol estava a pique, mas não parecia esquentar muito. Algumas folhas estavam espalhadas pela calçada do lado de fora da casa, deixando claro que ainda estávamos no meio do outono.
Presya abriu a primeira gaveta do criado mudo e, de lá, tirou o celular que costumava ser meu. Conseguiu desbloquear a tela e eu me perguntei como ela sabia a combinação numérica. Entrou no serviço de mensagens e procurou até achar o grupo que eu tinha com minhas amigas. Tentei ver o que ela digitava, mas minha visão não alcançava a tela, e eu tinha certo receio de me aproximar.
Quando mandou a mensagem, bloqueou o celular e jogou-o na cama, virando-se para encarar o local onde eu estava parada. Ela tinha um sorriso maléfico no rosto, e eu comecei a duvidar de sua ignorância sobre minha presença.
Foi então que algo assustador aconteceu. Eu ouvi uma voz na minha mente, uma voz exatamente igual à minha. Presya continuava sorrindo daquele jeito estranho, mas não mais me encarava - seu olhar estava parado no chão.
Ela estava pensando, e eu conseguia ouvir sua voz.
Ajha disse que você daria um jeito de aparecer. Espero que saiba, , que eu não vou pegar leve. Não estou disposta a ser boazinha. Vou dar um jeito de te afundar, e vou levar o máximo de pessoas que eu puder comigo.
Com isso, seu olhar se voltou a mim e vi que suas íris estavam vermelhas, cor de sangue. Dei um pulo para trás e tentei gritar, mas senti água invadindo minha boca, meu nariz, meus pulmões. Eu estava saindo do torpor do Olhador. E minha última visão foi Presya jogando a cabeça para trás enquanto ria como se estivesse vendo a coisa mais engraçada do mundo.

Residência de ; Yemetis/Noretus – Quëres, 18 em Fons, 7295 - tarde
Retirei minha cabeça do pote e comecei a tossir como se tivesse engolido toda a água, o que eu imaginei que realmente tinha acontecido. Porém, quando olhei de esguelha pro Olhador, vi que ele continuava cheio do líquido, agora novamente cinza, sem nenhum resquício de que aquilo que acabara de acontecer realmente tinha acabado de acontecer.
Eu estava apavorada, tossindo como louca enquanto e tentavam me acalmar. Não vi , até que ele apareceu de súbito em minha frente, pegando o Olhador de meu colo e levando-o para longe.
Agradeci mentalmente por isso.
Consegui controlar minha tosse após alguns minutos, e passava a mão nas minhas costas, num carinho com a intenção de me acalmar. perguntou o que havia acontecido ao mesmo tempo em que voltava a se aproximar.
— Ela… ela pensou e eu consegui ouvir — expliquei, a voz falhando devido à crise anterior e ao próprio susto da visão do Olhador. — Consegui ouvir na minha cabeça, a voz dela era igualzinha à minha!
— Ela é um clone seu, afinal — respondeu, sorrindo de lado. Acho que ele tentou amenizar o clima.
Não deu certo.
— Eu sei! Eu sei, mas não é a mesma coisa ver com meus próprios olhos — passei a mão na testa, limpando um pouco do suor que estava escorrendo. Eu sentia como se tivesse corrido uma maratona; o coração acelerado e a respiração fora de ritmo. — Ela disse que Ajha! A mesma feiticeira que vocês me falaram; Ajha disse que eu arranjaria um Olhador e apareceria ali — suspirei, não querendo dizer em voz alta a ameaça gentil que ela havia me mandado.
— E o que mais? — me perguntou, pegando na minha mão. Foi um conforto gostoso. Seus olhos amarelos pareciam preocupados.
— Ela disse que vai fazer de tudo para me afundar, e vai levar o máximo de pessoas que conseguir com ela. Essas foram suas exatas palavras.
Todos nós ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu ainda tentava processar a informação. Era como um forte tapa na cara, que deixava a área dormente, até que após algum tempo você finalmente conseguia sentir o ardor do golpe.
— O que você acha que ela quis dizer? — voltou a perguntar, e eu passei o olhar por sua pele escura e seus cabelos, soltos naquele dia - algo que não era comum.
— Que vai acabar com a minha vida, — comecei, começando a lacrimejar. — e com as vidas de todo mundo que eu amo também — soltei um soluço. — Eles são tão ruins assim?
Ninguém ousou me responder em voz alta. desviou o rosto, engoliu a seco e apenas teve coragem de assentir bem fraquinho com a cabeça. Um desespero começou a nascer no fundo da minha alma, e eu apoiei os cotovelos nos joelhos e enfiei o rosto entre as mãos, começando a chorar. Senti mãos por todo meu corpo - joelhos, braços e costas -, todos estavam tentando me confortar e mostrar que estavam ali por mim, mas tudo que eu conseguia sentir era dor.
Uma dor profunda e agoniante de saber que eu não poderia fazer nada da posição em que estava. O poder em minhas mãos era praticamente nulo, inexistente. E não havia nada pior que aquela sensação.
Absolutamente nada.

SEACHT

Fronteira entre Aldeias Yemetis e Falktai/Noretus - Quëres, 1 em Galle, 7295 - madrugada
Eu nunca gostei muito de mato.
Raramente ia aos acampamentos e passeios com a escola, porque plantas realmente não eram minha coisa favorita. Minhas amigas gostavam, mas eu preferia ficar em casa, no conforto do meu sofá, assistindo qualquer coisa graças à tecnologia da televisão.
Irônico seria se uma bruxa me mandasse para um lugar onde só tinha… Mato.
Mato.
E mais mato.
Estávamos atravessando a floresta atrás da casa de , rumo à Aldeia abaixo de Yemetis, Falktai. Seria tremendamente arriscado passar pela fronteira, teríamos que ser cuidadosos e silenciosos, e apenas isso já era um grande desafio para mim - eu era desastrada. Acabaria fazendo algo errado.
Após minha experiência com o Olhador, estocamos o máximo de comida que podíamos e fomos para a casa de . Lá, passamos os próximos dois dias sem sair para a aldeia, treinando algumas habilidades para que eu pudesse sobreviver com eles durante a jornada até a localização do portal. Ficávamos acordados praticamente noite e dia, e aprender a duelar, lutar, usar diversos tipos de armas, caçar, preparar a comida e identificar plantas comestíveis ou com poderes curadores em apenas dois dias não foi nada fácil, devo dizer.
Iríamos atravessar Falktai beirando a fronteira com o país ao lado, Dontè. Poderíamos cortar caminho e ir pelo meio dela, mas então chamaríamos muita atenção. Por isso, aconselhou que seguíssemos o caminho lado a lado com esse outro reino.
Estávamos nos aproximando da fronteira, então pediu que subíssemos em nossos heslocks. O fizemos, mas não continuamos andando, e sim ficamos parados, com uma certa distância separando um do outro.
, ao meu lado, me olhou e sorriu, tentando me passar confiança. Ele sabia que eu estava nervosa, pois havia comentado com ele mais cedo. Teríamos que sobrevoar a cerca, era o único jeito de termos certeza que os guardas não nos pegariam, e eu estava receosa, com medo de não conseguir guiar o animal direito.
Olhei para frente e cerrei os olhos, tentando enxergar no escuro. Era bem tarde da noite, todos os habitantes dormiam, inclusive os animais - fora os com hábitos noturnos, claro - e os únicos acordados, além de nós quatro, eram os guardas.
Finalmente consegui ter um vislumbre de um deles. Ele era maior que uma pessoa normal, daquilo eu tinha certeza. Não maior apenas na altura, ele era mais forte também. Usava uma armadura que parecia extremamente pesada, de metal ou seja lá que nome aquilo tinha em Noretus. Na mão, uma arma que eu não consegui identificar, mas fiquei surpresa ao ver que era mais parecida com as armas terrestres do que com as que eu imaginei que eles utilizavam.
Ou um estilingue de graveto.
fez o sinal, um barulho que, segundo eles, era igual ao canto de um pássaro noturno muito comum naquela área, e eu respirei fundo antes de bater com o pé na lateral da barriga do heslock, no gesto que ordenava que ele voasse.
Ele abriu as asas e as bateu com uma força descomunal. Eu tinha certeza que, se eu estivesse no chão, teria perdido o equilíbrio com a intensidade do movimento que ele fazia. Segurei na corda que circundava seu pescoço, tentando não cair. Olhei rapidamente para os lados, vendo que os outros já começavam a sair do chão.
Senti uma leveza, uma estocada e, quando notei, também já estava começando a levantar. Notei que os guardas procuravam a fonte do barulho que estavam ouvindo, mas também tinham dificuldade em enxergar no escuro. Achei espantoso que eles tivessem uma falha. O heslock ia cada vez mais alto, e meu estômago estava estranho, como se houvesse um buraco no lugar dele.
Ouvi meu nome e, quando olhei para o lado, estava logo ali, mais próximo do que eu chamaria de recomendado. Ele sorria, e seu animal parecia animado, talvez estivesse feliz porque finalmente estava voando, depois de tantos dias praticamente acorrentado.
— Tente não voar muito alto, ou seremos rastreados — ele avisou.
— Rastreados? — perguntei, confusa, ao elfo. — Que tipo de tecnologia louca é essa de vocês, que não têm carros ou celulares ou televisões, mas têm rastreadores de heslock? — ele gargalhou antes de piscar para mim ao responder:
— Magia.
Em seguida, seu animal deu um tranco para trás antes de ir a toda velocidade para frente. Fiz com que o meu seguisse o irmão, e logo eu estava logo atrás dos outros três. Olhei para baixo, vendo a floresta densa e fechada, e pude notar que a cerca que delimitava as aldeias já estava para trás. Havíamos ultrapassado a fronteira, e eu sorri com isso.
Diminui a velocidade do heslock e me acalmei, passando a apreciar a sensação de estar voando. Nunca tinha viajado de avião, pulado de parapente ou saltado de para-quedas. Mas acho que, mesmo que tivesse, nenhum desses iria se comparar a voar com um heslock.
Olhei para baixo e vi Noretus, parecendo tão pequena apesar de nem estarmos assim tão alto. As árvores passavam rapidamente pela minha visão, o vento batia fortemente no meu rosto; e o heslock parecia tranquilo como se tivesse saído de uma prisão. Logo à minha frente, olhou por cima do ombro e sorriu para mim com aqueles olhos azuis, a única coisa que eu conseguia enxergar com clareza na madrugada escura.
E meu coração voava ao meu lado.

Aldeia Falktai/Noretus - Hallme, 3 em Galle, 7295 - noite
Eles não me ensinaram as horas.
Na Terra, saber que em que momento do dia você estava era importante. Aparentemente, em Noretus, isso não era tão importante assim.
Era noite, pelas minhas contas a madrugada logo se aproximaria. O sol já havia se posto há muito tempo. Meu grupo e eu estávamos fazendo rondas de observação - cada dia um de nós ficava espiando enquanto os outros dormiam, para ter certeza de que nada chegaria perto de nós e nossos acampamentos. Eu estava em cima de uma árvore, quase dormindo, enquanto os outros três estavam no chão, no vigésimo sono.
Minha cabeça estava encostada no tronco da árvore atrás de mim quando um barulho me chamou atenção. Olhei até onde meu campo de visão alcançava, mas não enxerguei nada. Resolvi descer da árvore cuidadosamente, e assim que coloquei meus pés no chão, ouvi outro barulho. Olhei rapidamente para um arbusto atrás de mim, e, cuidadosamente, andei de costas até chegar perto de . Cutuquei-o com o pé ainda observando o arbusto, e ouvi o garoto soltar um resmungo. Me agachei ao sei lado, finalmente tirando os olhos da planta, apenas para colocá-las no elfo dorminhoco.
, acorda — sussurrei. — Acho que tem alguém aqui.
— Hm…
, seu infeliz! — chamei um pouco mais alto, e isso o fez acordar. — Tem alguém aqui.
Ele pareceu ter sido molhado com água gelada e se levantou rapidamente, me mandando um gesto pra que eu acordasse os outros dois, o que eu fiz rapidamente. Logo estávamos os quatro em pé, eles três em posição de luta enquanto eu estava quase cagando de medo.
Lutar com no quintal dele é uma coisa.
Lutar com outras pessoas no meio da floresta é algo completamente diferente, e eu não me sentia preparada para aquilo.
A moita fez um barulho de novo e eu agarrei o braço de com força, e percebi que ele ficou mais tenso. Acho que ele não gostava muito de contato físico.
se pôs na frente de todos, uma espada em mãos e pronto para atacar. Voltamos a ficar no silêncio por mais uns cinco minutos até que a moita se mexeu ainda mais e, do nada, se abriu como se algo fosse sair dali. Segurei a respiração enquanto quase prendia a circulação do braço de , de tão forte que o apertava.
O que saiu de lá do meio me assustou.
Não era uma pessoa.
Era um coelho.
Vermelho.
Gigante.
Com presas enormes.
Acho que eu já havia visto um desses...
Me segurei pra não berrar enquanto deu um pulo para trás, automaticamente nos empurrando também.
— Afastem-se, é um azuz! — avisou, e parecia preocupado. Eu não entendi muito bem, mas apenas fiz o que ele mandou. me puxou ainda mais para trás, nos escorando em uma árvore.
— Azuzes são animais extremamente perigosos, porque de suas presas sai um veneno tão fatal que te mata só se você entrar em contato. Ele não precisa nem te morder direito e pá! Você está no chão.
Me assustei, e observei enquanto e tentavam matar o animal sem chegar muito perto dele, com medo de serem mordidos.
Não acredito que eu desci da árvore por um coelho vermelho gigante com presas que soltam veneno fatal.
Eu poderia ter ficado lá em cima.
O animal era rápido, apesar das pernas curtas. Conseguia desviar muito bem das lâminas dos garotos, e eles ainda tinham que ter o cuidado extra de tentarem não chegar muito perto do bicho. Depois de incontáveis minutos, conseguiu cortar a cabeça do raivosinho quando ele estava destraído tentando atacar . Cortou a cabeça da coisa, a pegou pelas orelhas e jogou na fogueira que estava no meio do acampamento. Levantou o rosto e, sorrindo, proclamou:
— Temos janta!

Falktai/Noretus - Kore, 4 em Galle, 7295 - começo de tarde
No dia seguinte, logo depois de comer o que restava do azuz, seguimos viagem. Estávamos avançando o mais rápido que podíamos, considerando que tínhamos que acampar assim que o sol se punha. dizia que era muito perigoso continuar quando a noite caía, porque era naquela hora do dia que os animais perigosos saíam para caçar antes de irem dormir. Por isso, nos assentávamos, acendíamos uma fogueira e planejávamos o dia seguinte o mais silenciosamente possível, tentando não chamar atenção de nada nem ninguém.
Havíamos dado uma parada, porque checou o estoque de comida e viu que ele já estava acabando, e não teríamos o suficiente para o dia fora o almoço. Assim, paramos e enquanto caçava, fuçava a mata à procura de ervas medicinais e estudava seu tão adorado mapa. Eu, por minha vez, apenas descansava. Como havia ficado de vigia, não tinha descansado muito bem, ainda mais com todo o estresse de quando o azuz apareceu. Eu provavelmente dormiria feito pedra aquela noite.
Resolvi passear pelos arredores de onde estávamos. “Não vai muito longe, hein”, me aconselhou, e eu ri fraco antes de continuar caminhando. A mata ainda era bem fechada, ainda não havíamos atravessado toda a floresta que cercava as fronteiras. Estávamos bem no final dela, mas ainda não havíamos chegado na área aberta de Falktai.
Ouvi um chiado, um barulho que - pelo menos na Terra - apenas um animal conseguiria fazer. Olhei para trás e para os lados, em busca do que quer que havia feito o barulho. Mas, seja lá o que fosse, havia ficado quieto. Perambulei em volta de um raio pequeno, coisa de dez metros, por alguns minutos. Só depois de um tempo ouvi o barulho novamente.
Vinha de trás de mim. Fui naquela direção, para perto de um arbusto que estava ao lado de uma árvore. Me aproximei lenta e cuidadosamente, praticamente na ponta dos pés, receosa. Quando estava bem na frente, notei que havia um pequeno buraco na folhagem da moita, alguns ramos quebrados e as folhas amassadas. Agachei e, abrindo um pouco mais o buraco com as mãos, penas florescentes entraram em meu campo de visão, e eu fiquei tonta com a intensidade da cor.
Havia ali um passarinho, suas penas absurdamente verdes, cor de neon, tão verdes que doíam os olhos. Tinha o bico longo e esguio, o corpo pequeno e fofo, bem gordinho. Seu rabo era enorme, com duas penas mais finas de cada lado, separadas da penugem que cobria a parte “principal” da cauda. Ele mexia a asa esquerda com dificuldade quando tentava pular e içar voo, parecia estar machucado.
Não sabia o que fazer. Me levantei novamente, olhando em volta e tentando pensar em algo que poderia ajudar o bicho. Me desesperei um pouco, e balancei os braços loucamente em uma tentativa (falha) de pensar em uma solução.
Como se aquilo fosse ajudar.
— Nossa, calma! — uma voz falou por trás de mim, segurando minhas mãos que não paravam quietas. Relaxei no mesmo instante. — O que temos aqui?
saiu das minhas costas, parando ao meu lado e olhando com cautela para a moita antes de se abaixar e ficar mais próximo das folhas e do animalzinho. Pude ver que ele sorria enquanto pegava o pássaro delicadamente e fazia um carinho em suas penas quase que incandescentes.
— Isso, , é um ieoj. São os pássaros responsáveis pelo correio nas redondezas. São absurdamente rápidos — explicou, ainda com o sorriso.
Uma coisa que eu havia notado era que adorava me explicar como as coisas funcionavam em Noretus. Ele parecia nutrir uma paixão absurda pelo próprio país, e isso me causava certa admiração, já que eu não conseguia sentir o mesmo pela Irlanda. Pelo menos, não pela minha cidade pacata, minúscula, isolada e sem graça.
— Ele pode ser útil — ele sorri mais para si mesmo do que para mim antes de se levantar.

Falktai/Noretus - Quëres, 11 em Galle, 7295 - madrugada
Passamos aproximadamente duas semanas escondidos, cuidando do ieoj. Assim que eu e voltamos com ele para o acampamento, se apaixonou pelo pássaro. Quando foi pegá-lo, se aproximou e perguntou o que aconteceu. Quando respondemos que ele, aparentemente, havia caído e machucado a asa, soltou um “Pobrezinho, é um olk”.
Com a minha óbvia confusão, eles me explicaram que olk é um adjetivo normalmente usado para bichos de habilidade. Esses, por sua vez, são os que tem alguma função para os cidadãos - como o ieoj, que é usado como pombo-correio, ou heslocks, que são um meio de transporte. E olk é quando esse tal bicho de habilidade é filhote, ou ainda não dominou seus “poderes” e acaba fazendo besteira. Pra simplificar, disseram que o ieoj era estúpido.
E, assim, passamos a chamá-lo de Olk, como um nome.
Não demorou até que ele se recuperasse e, assim, seguimos viagem. Ele nos acompanhava, sempre mudando de um ombro para o outro, com preguiça de voar - o que parecia muito menos cansativo do que caminhar, coisa que apenas nós, meros humanos, e os pobres heslocks, tínhamos de fazer. Olk reclamava de barriga cheia.
quis usá-lo para estabelecer contato com alguém, mas não soubemos nomear alguém. A primeira opção foi seu tio,Osmo, mas se contássemos a ele nosso plano e o que estávamos fazendo, achou que ele mandaria tropas atrás de nós como um castigo por termos violado as leis.
Era meu dia de vigia, mas parecia ter se esquecido desse detalhe. Eu gostava de ficar nas árvores, vigiando de cima - o campo de visão era maior. Por isso, estava em um galho, tentando me equilibrar. Os outros haviam ido dormir há horas, ou pelo menos tinham fingido. saiu de seu colchão improvisado e olhou para cima, tentando me achar. Mas eu havia escolhido um ponto estratégico. Ela não me enxergava de lá de baixo, graças a alguns ramos de folhas escuras, mas eu a via claramente.
Se arrastou até a mochila de Ashton e fuçou até achar papel de carta e caneta. Voltou para seu cantinho e, sentando-se em cima das pernas, apoiou o papel nas coxas e passou a escrever. Infelizmente, eu não enxergava absolutamente nada do que ela estava escrevendo, o que apenas me deixou mais curiosa do que eu já estava.
Ela ficou uns bons dez minutos escrevendo antes de chamar Olk baixinho. Ele pousou à sua frente e ela amarrou o papel, que havia enrolado, em uma de suas patinhas. Ele bicou de leve seu dedo, em um carinho não muito singelo, já que ela fez uma careta de dor, e logo saiu voando pela primeira vez desde que se machucara.
Ouvi ela sussurrando um “Obrigada” ao pássaro antes de perdê-lo de vista e se enfiar de baixo das cobertas, pronta para realmente dormir daquela vez.
Fiquei horas me perguntando para quem ela havia mandado a carta, e o que havia falado.
E, acima de tudo, por que havia o feito escondido.
Por que havia mantido segredo.

OCHT

Falktai/Noretus - Hallme, 13 em Galle, 7295 – noite
— Por Merlin!
Eu estava dormindo quando essas duas simples palavras me despertaram de um sonho maravilhoso. Eu não tinha uma boa noite de sono há dias, e quando finalmente a consigo, me acorda murmurando rezas.
Não mereço.
Me virei para o lado oposto ao som, cobrindo meu rosto com a manta. Pude perceber que estava mais frio, então a fogueira já devia ter se apagado. Ou seja, era ainda mais tarde do que eu pensava. Quero dizer, era normal que a garota estivesse acordada, afinal, era seu dia de vigia. Mas ela poderia ficar quieta e deixar o resto de nós três dormir.
Bom, e só acordariam se levassem chutes nos rostos.
Mas eu tinha sono leve, desgraça!
— Não é possível! — murmurou de novo, dessa vez um pouco mais alto. Resmunguei um barulho indecifrável, e ela ficou quieta.
Mas um som de folhas acabou com a minha paciência.
, eu sei que você gosta de natureza, mas será que dá pra ir dor... — não terminei a minha frase, pois ao virar para encarar minha amiga, observei que algo estava diferente.
estava sentada de pernas esticadas no mesmo local que havia ido se deitado, bem ao meu lado. Mas sua manta não estava ali, e sim jogada ao lado de - sendo que ele estava ao meu outro lado. Ao redor de , havia muitas, mas muitas flores. E todas elas eram douradas e brilhantes, e pareciam flutuar. A garota olhava admirada para as folhagens de ouro ao seu redor, e eu estava boquiaberta.
— Acorde eles! — ela me pediu, praticamente mandou, e assim eu o fiz. e reclamaram, mas no momento em que eu disse que estava cheia de flores douradas ao seu redor, eles pularam do chão.
Os dois foram em direção à garota e praticamente fizeram uma festa. Começaram a comemorar, parabenizá-la e desejar tudo de bom a ela. Era como se fosse seu aniversário - coisa que eu sabia que não era, pois ela já havia me dito que tinha feito ciclos pouco antes de eu chegar em Noretus. Eu fiquei no mesmo lugar que estava, provavelmente com a expressão mais confusa do universo no meu rosto.
— Galera, eu estou começando a achar que vocês adoram me deixar por fora das novidades — falei, e eles finalmente olharam pra mim. se postou à minha frente e colocou as mãos nos meus ombros.
— Essas flores douradas representam um tipo de passagem espiritual. Quer dizer que está começando a apresentar magia — ele explicou, e abriu um sorriso gigantesco.
Meu queixo foi ao chão.
— Difícil não acreditar em magia quando ela aparece bem na sua cara, não é? — ele sorriu fofo, mas seu tom de voz era irônico. Quis lhe mandar uma careta, mas eu simplesmente não conseguia tirar a expressão estupefata do rosto. Notando isso, riu de mim.
Passada a surpresa, me arrastei até , sentando ao seu lado e pegando uma das flores com a mão. Ela não pousou na minha palma, mas sim flutuou em cima dela por alguns segundos antes de passar pelo meu braço e dar a volta nas minhas costas e pousar na outra mão. Sorri e olhei para a garota à minha frente, e ela parecia muito emocionada.
— As flores douradas significam que ela tem maiores chances de usar a magia para o bem — explicou. — Se elas fossem prateadas, significaria que não seria mais tão confiável — completou e nós rimos. Percebi certa admiração em seus olhos quando ele os voltou para . Sorri com a ideia de eles juntos. Será que era algo possível ou coisa da minha imaginação?
Conversamos mais um pouco antes de decidirmos que era melhor voltarmos a dormir, fora , é claro, que permaneceu acordada para sua patrulha. Eu fui a última a pegar no sono, e antes de fazê-lo, percebi que as flores ao redor de ainda estavam lá, e agora cada uma tinha uma cor, e elas alternavam entre si enquanto continuavam flutuando e irradiando luz.
tinha razão.
É difícil não acreditar na magia quando ela acontece bem ao seu lado.

Falktai/Noretus - Savu, 15 em Galle, 7295 - fim de tarde
Segundo , já havíamos avançado um terço da Aldeia. Isso tudo em menos de um mês. Ele dissera que foi um ótimo progresso, até porque estávamos indo bem lentamente. Se avançássemos rápido demais, provavelmente nos achariam. Pelo menos era o que ele falava. Eu não via lógica nenhuma naquilo.
Talvez eu apenas estivesse ansiosa para voltar para casa.
Quero dizer, isso sim é lógico, não?
Admito que ficar com eles - , e - era intrigante e até mesmo bom às vezes. Eles eram boas companhias, sabiam como me deixar confortável e me ajudavam vinte e quatro horas por dia. Mas, de vez em quando, eu não conseguia impedir a mim mesma de lembrar da minha vida na Terra, como era bem mais fácil. Imagino que a feiticeira que me jogou em Noretus tenha ficado bem puta da vida quando viu que eu não a respeitava e a desprezava. Mas mudar minha vida de cabeça para baixo foi… Demais. Simplesmente demais (e não no bom sentido da palavra). E eu me perguntava; será que todos os feiticeiros tinham esse complexo de superioridade? Capazes de jogarem uma mera adolescente em uma realidade completamente diferente da dela enquanto uma pessoa fisicamente igual a ela destrói sua vida?
Eu não acho justo.
Aposto que as flores de Ajha eram prateadas.
Pulei um arbusto que apareceu à minha frente, e o heslock, que eu guiava com uma corda, levantou as patas para que fizesse o mesmo. Ele era o mais fácil de lidar dos quatro que havíamos roubado, e eu realmente gostava dele. deu o sinal que dizia que poderíamos voltar a montá-los, porque o terreno não era mais tão perigoso, e assim eu o fiz. O animal se agitou um pouco, mas consegui controlá-lo com facilidade e logo estávamos em um trote suave. O comportamento deles era bem parecido com o de cavalos, e isso era mais uma das coisas que me levava a perguntar se a minha velha realidade e a minha nova realidade eram tão diferentes assim.
— Ei, tudo bem por aí? — indagou, e eu apenas sorri e acenei com a cabeça.
Ele tinha essa mania de me perguntar se eu estava bem de tempos em tempos. Acho que ele temia que eu surtasse de raiva ou tristeza, como fazia constantemente assim que cheguei em Noretus. Nos últimos dias ele havia o feito ainda mais, provavelmente tinha a ver com o incidente das flores de . Ele devia achar que foi um choque de realidade grande demais.
Mal sabia ele que eu só tive um choque de realidade nessa história toda. E sequer foi em Noretus. Foi no pátio.
Com aquela mulher louca.
sorriu de volta pra mim, e seu sorriso era algo que me intimidava. Ele havia mudado tanto desde a primeira vez em que nos encontramos. Não era mais aquele cara carrancudo e chato o tempo todo. Agora ele parecia tão feliz o tempo todo que chegava a ser estranho. E seu sorriso nunca parava apenas nos lábios. Ele sorria com os olhos também. E os olhos de eram o maior mistério de Noretus inteira. Eu já havia notado - e me confirmou depois - que todos os moradores de Noretus tinham olhos amarelos. Isso tinha algo a ver com a “alma” do território, que influenciava os habitantes do mesmo. explicou que Lumit, a cidade dos Deuses, a capital, foi a primeira a ser colonizada, e depois apenas se expandiram pelas terras, até que Noretus chegou ao que é hoje. Mas a terra de Lumit era amarela. Amarela como ouro, segundo . E, por isso, os olhos de todos os cidadãos eram amarelos. Como ouro.
Mas os olhos de eram azuis de uma forma nunca vista antes. Eu tinha certeza que aquela cor sequer existia, porque era algo tão inexplicavelmente único que chegava a doer. Era como… O oceano mais limpo, misturado com o céu mais sem nuvens, o lago mais claro, o rio menos barrento.
E eu tenho certeza que já usei essa definição antes.
Mas é porque não havia mais nenhuma.
Na verdade, nem essa explicação faz jus aos olhos dele. Sequer chega perto.
Um som característico me fez acordar dos meus devaneios. Era como o som de algo passando em alta velocidade bem ao lado da sua orelha; como uma bala que passou de raspão.
Olk havia voltado.
O pássaro pousou no ombro de e, com isso, todos nós paramos de avançar com os heslocks e descemos deles. Preso nas garras do ieoj com uma cordinha fina, estava um papel. Os garotos ficaram confusos, mas eu sabia o que era aquilo.
A resposta da carta de .
Os outros dois notaram o sumiço do ieoj, mas eu e mentimos sobre o que havia acontecido com eles. Apenas dissemos que não havíamos o visto desde o dia onze, mas que tínhamos certeza que ele voltaria. olhou para a amiga como quem sabe que ela está mentindo, mas não disse nada.
Ele ainda não me conhecia bem o suficiente para dizer se eu estava falando a verdade.
Ponto ao meu favor.
Com a volta de Olk e pelo fato de ele ter pousado no ombro de , sinalizando que a carta era para ela, todos viraram-se para olhá-la de maneira acusadora, e ela corou com toda a atenção. Desamarrou a corda da garra do pássaro e pegou a carta, afastando-se de nós para ler em paz.
Eu e os garotos descemos de nossas montarias e nos entreolhamos, curiosos com o que a carta dizia, mas não falamos nada.
Demorou certo tempo até que ela voltasse, os olhos pregados no chão, envergonhada. Fizemos uma espécie de rodinha em volta dela, esperando por explicações.
— Mandei uma carta para Alkid — foi a única coisa que disse, baixinho, mas foi o suficiente para que os outros dois entendessem.
Eu continuei confusa, como sempre, mas tudo bem. Quem liga?
— Falando o quê? — questionou.
— Explicando tudo. Disse que precisaríamos de sua ajuda.
— Você tem certeza? — foi quem perguntou dessa vez.
— Sim. Não concordam? — ela parecia levemente confusa. — Precisamos dos equipamentos dos caçadores para localizar o portal. Não podemos falar com seu tio, mas Alkid é confiável. Ela é jovem, rebelde. Não nos julgou — apontou para a carta, se referindo à resposta da garota misteriosa.
Meu heslock se aproximou e soltou aquele barulho característico, que parecia o de um urso. Ri dele, o que chamou a atenção dos outros três. perguntou o que ele queria e eu dei de ombros:
— Acho que está com fome.
Ele assentiu e se aproximou.
— Antes que você pergunte, Alkid é…
! — repreendeu, parecendo estar com medo do que o garoto ia me contar.
Fiquei confusa.
Eu contara a ela e aos outros dois praticamente cada detalhe da minha vida e ela não podia me dizer sequer quem era uma garota com quem ela fazia contato?
— Achei que… — tentou dizer, mas ela apenas o mandou um olhar fulminante.
— Tudo bem, não preciso saber — disse, mesmo que estivesse curiosa e até mesmo um pouco chateada. — Contanto que ela me ajude a sair desse lugar horrível o mais rápido possível.
Logo em seguida, puxei o heslock pela corda em seu pescoço e me afastei dos três para procurar comida. Admito que disse aquilo com a intenção de magoá-los, mas apenas estava triste porque não parecia confiar em mim tanto quanto eu confiava nela. Eu achava que aquela era uma via de mão dupla, mas aparentemente estava errada.

Falktai/Noretus - Savu, 15 em Galle, 7295 - noite
Não falei direito com pelo resto do dia. Estava tentando ignorá-la. Ela não pareceu se importar, e isso apenas me deixou mais brava e mais disposta a continuar lhe dando um gelo.
Ashton me disse que ela lhe contara o que havia escrito para a tal Alkid, e deixou que ele lesse a resposta. Mas eu sequer cheguei perto da carta. Mas me explicou que Alkid disse que iria nos encontrar o mais rápido que pudesse, já estava saindo do Palácio dos Portais mas não sabia onde exatamente iríamos nos trombar no mapa. Também disse que ela havia contado que algumas pessoas em Yemetis haviam notado nosso sumiço, contatado o prédio governamental e eles estavam mandando tropas atrás de nós.
Era só o que me faltava.
Por isso, resolveu que era melhor nos isolarmos em uma caverna e esperar a poeira baixar. Não fiz ideia do que ele estava falando, já que para mim a poeira não estava “levantada”, mas não ousei questionar. No mesmo dia, ao final dele, encontramos uma caverna bem escondida. a achou enquanto caçava, e ao contar para , ele achou interessante a ideia de passarmos um tempo lá.
Assim o fizemos.

Continua...

Comentários da autora

(21.04.2017): Estou vindo aqui com o rabinho entre as pernas pedir desculpas pela falta de atualização. Meu último ano foi o ano mais doido da minha vida, e até o presente momento parece que 2017 quer seguir os passos de 2016.
Não vou me alongar muito porque, na verdade, nem sei o que falar aqui. Espero que vocês gostem do capítulo e, POR FAVOR, não me abandonem. Um dia eu volto inteira e completa. Eu juro.
Três milhões de beijos. Amo vocês.

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