Bastidores

Escrito por Sephora McCall | Revisado por Natashia Kitamura

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UM

  — Os produtores e o estúdio não a esperarão pelo resto da vida, sunshine! Eles têm outras Millie Bobby Brown a descobrir!
  Acho que aquela era a milionésima vez que meu pai berrava uma frase de impacto para me apressar (eu odiava que ele assistisse Stranger Things e tivesse como me alfinetar usando referências da minha série favorita). Ele estava na sala a cerca de duas horas me esperando, enquanto eu estava trancada no meu novo quarto, sentada na minha nova penteadeira, fitando meu velho rosto através do espelho e me questionando, no interior da minha mente, se eu realmente devia estar ali, pronta para pegar minha mochila e ir em direção aos estúdios Netflix.
  Não, eu não estava há duas horas sentada no banquinho de veludo branco no qual meu pai tinha pago uma pequena fortuna, quando chegamos em Los Angeles, porque sempre foi meu sonho de consumo. Eu já havia tomado banho, me vestido, secado o cabelo e passado uma maquiagem que parecesse o mais natural possível (se não fosse o caso, a culpa é totalmente de um tutorial de maquiagem para o dia-a-dia que encontrei no Youtube).
  Eu já estava completamente pronta. Digo, esteticamente falando. Mas os tremores que transcorriam meu corpo me indicavam que se eu tentasse sustentar meu corpo nos meus próprios pés, terminaria dando de cara com o chão. Então, ao menos pelos últimos 30 minutos, sim, eu estava encarando o meu reflexo. Talvez por estar com receio demais de encarar a nova vida que me aguardava fora daquele cubículo alugado.
  Escutei duas batidinhas na porta e, então, com um ranger característico, ela foi permitindo que meu pai colocasse sua cabeça para dentro do quarto. Tirei meus olhos do meu reflexo apenas para levá-los, de modo ansioso, ainda através do espelho, para meu progenitor. Ele sorriu pra mim, da forma carinhosa de sempre, e, ainda sem entrar no quarto, arrumou a postura, se escorando no batente da porta.
  — Não me lembro dessa penteadeira vir com a função de maquiar a dona por bluetooth — ele alfinetou, erguendo o par de sobrancelhas grossas e escuras. Soltei um muxoxo, deixando meus olhos escorregarem novamente para minha imagem refletida. Eu não costumava rir das piadas do meu pai, mas foi certamente por eu não ter rebatido seu comentário com uma resposta malcriada que ele entendeu que algo não estava certo. Logo seu tom de voz se tornou manso e afável. — Ei, sunshine... O que houve?
  Contraí meus lábios, demonstrando minha frustração.
  — Eu estou bem, papai. Eu só... Eu só estou nervosa. — balancei a cabeça, sem exatamente saber como explicar o que eu estava sentindo. Meu pai deixou uma risada escapar e a forma como um tom de compreensão escorreu através dela me fez novamente desviar os olhos para encará-lo.
  — De repente você não se sente mais boa o suficiente, hum? — ele questionou retórica e sabiamente, olhando nos meus olhos refletidos. Eu resmunguei em concordância, ainda assim. — É só ficar diante de um divisor de águas da sua vida, o momento que você tanto esperou e onde colocou tantas expectativas, para que, do nada, surjam as incerteza e os questionamentos. Pior! — ergueu um dos dedos indicadores no ar, finalmente entrando no quarto. — Surja a insegurança.
  Suspirei.
  — O que eu faço? — perguntei, ingenuamente, arrancando dele mais uma risada dessas que costumam dar pessoas que sabem muito da vida. E, bom, eu sabia que ele realmente sabia. Afinal, 52 anos devem significar alguma coisa para a escala de conhecimento empírico.
  Assisti meu pai sentar na minha cama, depois de fazer uma careta de desgosto para o meu jogo de cama da One Direction, e, então, arqueou uma das sobrancelhas, em um pedido mudo para que eu me virasse de frente para ele. Quando o fiz, ele tomou minhas mãos nas suas e as guardou dentro do calor das suas palmas. Fiquei encarando-o, aquele senhor barbudo e de rosto arredondado que me tratava como uma princesa, sentindo-me um pouco mais calma apenas por ter ao alcance dos meus olhos o rosto do meu melhor amigo.
  — Aceite-os! — ele disse, simplesmente. Eu pisquei algumas vezes, até finalmente soltar:
  — Como?
  Ele riu. Não pra mim, mas de mim, como se eu fosse uma bobinha.
  — Sim, sunshine, aceite-os! — ele apertou minhas mãos com as suas, como que para dar ênfase, suas íris azuis brilhando na minha direção. — O desconhecido nos leva a ter um sentimento de medo e incapacidade. Entenda suas inseguranças e seus medos e saiba que você tem poder sobre eles, não eles sobre você.
  "Você não pode ignorar o que sente, ! Eu nunca lhe diria para fazer isso.
  Nossos sentimentos, ruins ou bons, existem por algum motivo. Nós precisamos apenas saber como usá-los ao nosso favor.
  Você sabe que é talentosa. Sabe que é boa o suficiente. Se não fosse, não teria passado por todos aqueles testes!
  Ter medo não é ruim. Sentir medo te permite pensar com mais clareza e evitar potenciais problemas. A única coisa que vou lhe pedir é que não deixe esse medo te acovardar. Entenda de onde ele vem. Aprenda a lidar com ele. Use ele ao seu favor.
  O papel já é seu, sun. Você o conquistou com o seu esforço. Então tudo que tem que fazer é ir lá e dar o seu melhor!
  Eu tenho certeza que você vai brilhar para o mundo assim como brilha para mim."

  Quando meu pai estufou o peito, sorrindo abertamente, todo sabichão, indicando que havia terminado seu discurso, eu comecei a rir, de forma meio engasgada, sentindo minha visão embaçar.
  Então fiz a única coisa que me restava fazer para agradecê-lo por ser aquele homem genial e para demonstrar o orgulho que eu tinha de ser sua filha. Me joguei nos seus braços, sendo recebida com uma gargalhada divertida e com braços fortes me espremendo, me passando o amor e a coragem para fazer o que eu tinha que fazer.
  Eu respirei fundo, sentindo o cheirinho amadeirado característico que vinha de suas roupas, e sorri para mim mesma, antes de soprar no ar:
  — Eu te amo, papai.

DOIS

  No francês, , significa Cetim.
  No entanto, por obséquio, não espere que exista uma explicação lírica e poética sobre como meus pais decidiram me colocar nessa situação. Na dura realidade, meu pai queria me chamar de Satine. Sim, essa mesmo que você está pensando. Meu pai queria que meu nome fosse o mesmo da cortesã do clássico cinematográfico Moulin Rouge.
  Eu, pessoalmente, não via grandes problemas em ter o nome de uma personagem icônica como ela, mas, veja bem, provavelmente qualquer pessoa que já assistiu ao filme (lê-se: todo mundo) seria capaz de fazer a ligação e, bom, as pessoas conseguem ser maldosas quando querem. Certamente eu teria sido motivo de piada durante o colegial. Algo a se evitar, eu presumo.
  Eu, obviamente, não pude opinar sobre essa decisão. Mas pude contar com a pessoa da qual eu herdei meu bom senso (que papai insiste em dizer que não passa de chatice fantasiada de sensatez). A dona, ou ao menos quem devia ser, da palavra final naquela situação.
  A famigerada "mamãe".
  Não é preciso forçar demais os neurônios para concluir que ela também não foi muito receptiva à ideia. Para ser mais fiel à realidade, me permito dizer que meu pai tomou conhecimento de palavras de baixo calão que ele nunca tivera ouvido na vida e descobriu que a voz da amada poderia alcançar decibéis assustadores.
  Mamãe, em todo o seu conservadorismo, de forma alguma aceitou que ele me colocasse o nome de uma cortesã, ainda que ela fosse de luxo. Papai, teimoso como era, passou semanas insistindo no assunto, questionando os princípios da esposa até deixá-la irada.
  A briga se prolongou até o dia do meu registro, onde o destino resolveu pregar uma peça nos dois e, consequentemente, em mim, quando eu era apenas um serzinho inocente que só sabia chorar e, bom, você sabe, tornar lugares inabitáveis.
  Até hoje nenhum dos dois sabe explicar como Satine, um nome que sequer havia sido acertado, se transformou em pelas mãos do escrivão. E sobrou para mim a tarefa de lidar com um nome do qual a pronuncia se assemelha ao barulho de um espirro infantil.
  Aquela era a minha versão, retirada da versão da mamãe, sobre aquela história toda. No entanto, papai, tinha uma versão bem mais floreada e grandiosa (e menos realista, diga-se de passagem), e era ela que ele contava com sua voz polida e com direito à pausas dramáticas para o taxista que nos levava para os estúdios da Netflix.
  O senhor rechonchudo e careca, como qualquer pessoa normal, ficou curioso sobre meu nome logo que eu o soltei em uma apresentação rápida ao trotar para dentro do veículo amarelo. E, desde então, o coitado parecia engolir tudo que saia da boca do meu progenitor.
  — Não é mesmo, sunshine? — papai virou, em meio à conversa, procurando por mim no banco do passageiro, os olhos escondidos pelas lentes escuras e arredondadas dos seus novos óculos de sol (um par cafona que ele havia comprado de um ambulante quando passamos por Venice logo no nosso segundo dia em Los Angeles). Eu, já perdida em sua narrativa novelesca, lhe ofereci apenas um sorriso amarelo. Ele não pareceu ligar para a minha falta de interesse e, quando retomou a postura no banco do carona, sorriu para o taxista: — Ela está nervosa. Afinal, hoje é o primeiro dia do resto da sua vida.
  Minhas mãos estavam trêmulas sobre meu colo, confirmando parte da afirmação do meu pai, apesar disso, não fui capaz de segurar a risada, que veio acompanhada de um revirar de olhos.
  Meu pai era esse coroa espirituoso e bem humorado, cheio de frases prontas e piadas deslocadas. Mas nem de longe só isso.
  O senhor Connor , como era conhecido em Nova York, era professor de literatura inglesa em uma escola em Manhattan, acordava pontualmente às 5 horas todos os dias e era viciado em cafeína. Um vício que mamãe detestava e apenas não reprimia porque já havia se dado por satisfeita em ter conseguido fazê-lo largar a nicotina.
  Papai tinha as palavras como sua maior arma. Havia somente uma coisa que ele apreciava mais do que ouvir o som da própria voz, escrever. E eu tinha certeza que meu parentesco privilegiado não interferia na minha avaliação quando eu dizia que ele era mais talentoso do que muitos nomes best-sellers. A sua paixão pela literatura e pela educação, e o carinho que recebia dos seus alunos também não deixava dúvidas sobre a qualidade da sua atuação como docente.   
Papai era um grande homem. Por isso conseguia tão facilmente sair da formalidade profissional para a informalidade das conversas despretensiosas e dos encontros casuais do cotidiano. Eu sempre quis ter seu time para piadas e o seu poder de persuasão. Além do talento indiscutível na arte de dar conselhos e a sua inexplicável despreocupação.
  Ironicamente, se os olhos azuis, o excesso de cabelo e a estatura desprivilegiada não denunciassem, ninguém nunca diria que éramos pai e filha.
  Nós somos opostos extremos. Ele, para me consolar, diz que isso é o que nos torna duas metades de um todo. Assim como é com ele e com a mamãe. Mas eu não levo muito a sério. Era um tanto quanto frustrante não ter puxado suas melhores características.
  Não que parecer a mamãe fosse ruim, mas, vejamos, ser metódica, altruísta e responsável não é tão cool assim.
  — ? — papai chamou, me resgatando dos meus diálogos internos. Quando ergui os meus olhos, ele me aguardava com uma expressão entusiasmada, as pontas dos dedos médio e indicador segurando a armação dos óculos acima dos olhos. — Chegamos!
  Então eu finalmente percebi que o táxi não estava mais em movimento. Nós havíamos estacionado e aquela constatação óbvia gerou um rebuliço no meu estômago. Eu olhei para a minha direita em uma reação automática e, imediatamente, me arrependi. Quando meus olhos, tão inocentemente, esbarraram na fachada dos estúdios da Netflix, eu senti o gosto da omelete que eu havia ingerido no café da manhã.
  Minhas mãos suavam quando eu compreendi que, provido de sua estranha complexidade, papai estava certo.
  Aquele seria o primeiro dia do resto da minha vida.

TRÊS

  Assim que eu assinei com a Netflix e me tornei uma funcionária da indústria de entretenimento, oficialmente uma atriz, papai disse que eu precisava do apoio de profissionais da área que entendessem tudo sobre como funciona esse universo, de acordo com ele, perigosamente suspeito. Menos de um mês depois eu já tinha uma empresária e um assessor de imprensa.
  Joanne, a empresária, era uma quarentona que só usava terninhos de cores da paleta de tons pastel e que sabia muito bem como arquitetar um bom drama e piadas muito infames. Eu suspeito que tenha sido isso que tenha influenciado meu pai a contratá-la. O mesmo motivo pelo qual os dois se deram tão bem. Mamãe até ficou enciumada assim que conhecemos Joanne em todo o seu humor pitoresco e sua beleza madura. Mas logo ela entendeu que a minha empresária não era uma ameaça e percebeu que não havia motivo algum para não confiar no marido. Achei inteligente da parte dela, afinal, até um cego conseguiria ver o quanto papai a amava.
  Franklin, o assessor, era um apenas um jovem adulto de alta estatura e sorriso cativante que também gerou ciúmes. Dessa vez no papai. Que não gostou muito da ideia dele ficar muito tempo perto de mim até perceber que, bom, nós dividíamos o mesmo gosto em se tratando de preferências amorosas. Eu lembro que achei muito divertido ver o meu velho se perdendo nos seus princípios moderninhos e metidos a revolucionários. A verdade é que é muito fácil bancar o desconstruído em se tratando dos outros.
  Quando eu, finalmente, desci do táxi, estava com as pernas moles e as mãos suando como se eu tivesse acabado de sair de uma corrida olímpica. Deixei, então, que meu pai se despedisse do taxista enquanto eu respirava os ares daquele lugar e observava a arquitetura discreta da fachada.
  O lugar não parecia a sede de uma das maiores empresas do ramo, mas uma mansão milionária e conceitual. Se o nome Netflix não estivesse berrando na fachada, eu certamente poderia dizer que ali morava a finada família Jolie-Pitt.
  As paredes pintadas em um tom de bege arenoso eram simples, mas harmonizavam perfeitamente com as janelas e o telhado de estilo clássico. Assim como aquela fachada poderia ser de uma grande mansão, poderia ser de um pequeno castelo. No final das contas, era uma fachada simples e charmosa, o suficiente para deixar qualquer um curioso para descobrir o que guardava.
  Era um mundo novo se fazendo pra mim. Minha nova vida se mostrando bem diante dos meus olhos. Um claro, e bem pouco sutil, convite.
  Era excitante e assustador. Eu estava ansiosa e, ao mesmo tempo, morrendo de medo.
  Eu escutei o ronco do motor do táxi e, alguns segundos depois, senti a presença do meu pai do meu lado.
  — Pronta?
  Eu ri, um risinho fraco e nervoso que soou mais como um engasgo ansioso, e balancei a cabeça.
  — Sei lá.
  Meu pai riu da minha resposta. Seu braço rodeou meus ombros de lado e me puxou para mais perto dele. Eu me deixei ir e aconchegar nos seus braços. Quando respirei fundo, ainda em estado anestésico, ele falou:
  — Se serve de consolo, eu tenho certeza que você está — eu não conseguia ver seu rosto, mas, quando pressionou meu ombro, eu sabia que sorria. — Você esperou a vida por isso e agora, finalmente, está acontecendo. É o seu grande momento, filha.
  — O meu grande momento... — eu repeti, incerta, sem acreditar no que saía da minha boca. — O meu momento.
  — Sim, sunshine.
  — Eu quero sair correndo, mas minhas pernas estão bambas demais para que eu consiga fazê-lo sem ir de encontro ao chão — confessei, me deixando rir um pouco. Ele me acompanhou, fazendo um carinho paternal ao longo do meu braço.
  — Você não precisa correr, . E eu acho que te ensinei o que temos que fazer quando caímos, sim?
  Sorri fechado.
  — Levantar e continuar de onde paramos.
  — Levantar e continuar de onde paramos — ele repetiu, satisfeito comigo e consigo mesmo.
  Por uns segundos o silêncio fez morada ao nosso redor, o vestido que eu usava acariciando meu corpo conforme a brisa suave nos abraçava, segundos confortáveis e calmos que precederam a tempestade de nome e sobrenome Joanne Grey.
  — Aí estão vocês, seus danados! — Joanne berrou quando brotou da entrada da "mansão". Dentro de um terno rosa bebê e com um sorriso grandioso desfigurando o rosto maquiado, ela caminhou em seus saltos-agulha até nós. Seus cabelos estilo long bob estavam mais dourados e sua pele mais bronzeada do que da última vez que a vira, há quase um mês.
  Logo avistei Franklin à tiracolo. Ele praticamente corria atrás da mulher, apressando o passo para acompanhá-la enquanto resmungava alguma coisa.
  — Joanne — falei quando fui puxada para dentro de um abraço caloroso. Rapidamente fui embriagada pelo seu perfume que cheirava à sofisticação e cartão sem limite. Seus saltos fazendo com que eu tivesse que ficar na ponta dos pés para abraçá-la.
  — Estava a princípio de suspeitar que tivesse decidido que era mais inteligente da sua parte fazer uma faculdade e receber um diploma — ela brincou quando me soltou. Olhou para meu pai com o mesmo sorriso receptivo que me oferecera e o cumprimentou formalmente, com um aperto de mão.
  — Ela não seria tão tola — papai rebateu, com o mesmo tom de humor que ela. Aquele que eu duvido um dia chegar a compreender.
  Franklin nos alcançou, respirando com dificuldade depois da caminhada sofrida, e deixei minha empresária e meu pai de lado para lhe dar atenção.
  — Hey — sorri, abraçando-o rapidamente. Seus braços me circularam de forma fraca, mas seu rosto logo me ornou um sorriso.
  — Essa mulher é um furacão — ele arregalou os olhos ao citar Joanne, que trocava palavras com papai e não escutou. Eu ri. — Se vou precisar ter esse pique para acompanhar vocês duas, preciso urgentemente fazer contrato com uma academia.
  — Ok — fiz uma careta. — Se eu vou precisar desse pique, então, por favor, faça um contrato para nós dois.
  Franklin riu. Seu cabelo black brilhava envolto por uma bandana vermelha. Ele estava de calças-jeans e camisa social estampada, e aquilo era o máximo de formalidade que ele se permitia alcançar.
  Assim como eu o analisei, ele fez comigo. Logo estava me pegando pela mão e me fazendo girar em 360 graus. Eu gargalhei, completamente desengonçada no meu giro.
  — Você está maravilhosa, garota! — ele exclamou, exagerado, me vasculhando com seus pequenos e clínicos olhos castanhos. Quando parei na sua frente outra vez, revirei os olhos.
  — Exagerado.
  Eu estava usando um vestido de botão branco de bolinhas pretas que era justo até a minha cintura e caia solto até pouco antes dos meus joelhos. Era levinho e super básico. Meu par de adidas também não serviam para deixar o look menos casual.
  — Meu bem, deixa eu te dizer uma coisa — Franklin arqueou as sobrancelhas bem delineadas, tomando minhas mãos nas suas. Ele olhou no fundo dos meus olhos quando continuou: — Ter autoconfiança é essencial para sobreviver a esse mundo onde você está entrando. Então, por favor, acredite mais em si mesma, sim? Até porque, se você não acreditar, quem mais irá?
  — Eu gosto de você, rapaz — papai interrompeu, antes que eu pudesse responder qualquer coisa. Eu e Franklin olhamos para ele e ele completou: — Enquanto eu não estiver aqui, precisará de um bom conselheiro. Você já deve ter percebido que ela é devagar quase parando, sim?
  Eu ri, ainda que um pouco ofendida. Franklin riu. Joanne riu. Até mesmo papai riu do próprio comentário.
  E foi ali, no meio daqueles três humanos incríveis, que eu soube que eu não estaria sozinha naquela empreitada. Não enquanto eu tivesse o amor do meu pai, a energia de Joanne e o ombro-amigo de Franklin.
  É. Eu ficaria bem.

QUATRO

  — Debbie Howard, muito prazer.
  Oh, sim! Eu sei quem você é!
  Foi o que eu quis dizer quando Debbie Howard, em todo o seu estilo alternativo retrô, se materializou na minha frente, assim que entrei na sala de reunião ao lado de Franklin.
  Deus. Eu era capaz de listar todos os filmes nos quais aquela garota já havia trabalhado. Ela estava na minha frente, olhando para mim como uma igual, e a única coisa que meu cérebro conseguia processar era que seus cabelos eram uma massa desordenada exuberante. Ah. Eu também me perguntava se seria muito constrangedor pedir uma selfie.
  Eu estava surtando por dentro. Meu coração batendo loucamente contra o meu tórax. Mas tudo que fiz foi sorrir da forma mais polida e sã possível, e apertar a mão que ela havia erguido para me cumprimentar.
  Quentes e macias. Suas mãos eram ossudas, mas quentes e macias. Eu estava tocando Debbie Howard e eu realmente poderia morrer em paz.
  — E o seu nome é...?
  Primeiro eu assisti os lábios perfeitamente desenhados se moverem, em seguida entendi que formulavam uma frase. Mas foi apenas quando Franklin me beliscou que eu acordei do transe.
  — Desculpe?
  Debbie Howard uniu as sobrancelhas e eu podia ler no gesto que estava tentando entender qual era o meu problema. Sorri fechado e pisquei algumas vezes, tentando não parecer uma louca psicótica. Ela arqueou uma das sobrancelhas.
  — Você não disse seu nome. E, bom, é o que as pessoas costumam fazer quando se apresentam umas para as outras. — estalou a língua nos dentes, inclinando um dos ombros.
  — Ah. Claro! — ri, nervosa. Eu já podia sentir minhas bochechas esquentando. — . Meu nome é . . .
  Franklin riu abafado atrás de mim e eu soube que estava vivendo o que seria lembrado pra sempre como um dos momentos mais constrangedores da minha vida.
  — ? — ela questionou, a pronúncia saindo um pouco errada. Então riu, aparentemente estranhando a palavra na própria língua. — É seu nome artístico ou...?
  — Não! — encolhi os ombros. Ri, sem jeito. — É... Não. Esse é o meu nome... mesmo. Nada como pais malucos e um escrivão preguiçoso. — arqueei as sobrancelhas. Ela, obviamente, não entendeu o que eu quis dizer e, tampouco, se preocupou em fingir que sim. Franziu o cenho e continuou me estudando por alguns instantes com os olhos castanhos.
  Meus pés estavam cravados no chão. Eu queria poder afundar nele e sair do outro lado do mundo.
  — Eu pronunciei corretamente? — Howard perguntou. Pisquei algumas vezes, o lábio inferior cobrindo o superior, e então dei de ombros. Seria sincera.
  — Não exatamente.
  — Ok. Então como é?
  — — eu mostrei a pronúncia correta, falando mais lentamente para ela entender. — Você meio que engole o "t".
  — — ela tentou, devagar, e se saiu muito bem. — Foi?
  Eu ri, tentando não parecer tão embasbacada como eu, de fato, estava.
  — Sim.
  Então ela sorriu, satisfeita consigo mesma.
  — Hum. Gostei. — brincou com a palavra mais uma vez, parecendo se divertir. — É um bom nome.
  — Bom... — franzi o nariz. — Obrigada?
  Debbie Howard gargalhou, presa em alguma piada particular.
  — Não por isso, .

  Debbie Howard era exatamente como pintada pelos tabloides. Dona de um humor ácido e de um modo de ser peculiar e curioso.
  Como se tivesse feito uma viagem no tempo, Debbie parecia um exemplar humano resgatado da década de 80 que não conseguiu se adaptar ao século XXI. Não apenas pelo seu jeito despreocupado e superior à todos os problemas mundanos, apenas como um jovem daquele período poderia ser, e pela língua afiada e sem freios. Mas por toda a sua composição estética.
  Os cabelos que batiam um pouco abaixo dos ombros eram um pouco assanhados e armados. Nada que os tornasse menos bonitos. Apenas lhe davam uma identidade atípica, o ar de despreocupação que ela também passava com o gestual.
  Nós estávamos prestes a ter a primeira reunião com toda a equipe de direção e produção da série, além de todo o elenco, e tudo que ela vestia era uma camiseta branca de gola redonda azul marinho que ficava justa no seu tronco e shorts jeans de cintura alta. Nos pés, All Stars clássicos fechavam o look simples e retrô.
  Ela não era muito alta, como parecia ser quando eu a assistia pela tela de um cinema, mas suas pernas longas e finas (e bronzeadas) faziam com que parecesse uma supermodelo.
  Debbie era como uma aesthetic ambulante. Dessas que só encontramos em sites como o Tumblr e o Pinterest. Uma It Girl alternativa. E a cada segundo que eu passava na sua companhia, mais eu a venerava.
  — Você me lembra Claire Standish. — disse ela, incapaz de disfarçar a sua mania de me observar como se me estudasse.
  Nós estávamos em uma espécie de sala de espera barra recepção. Franklin havia sumido há alguns minutos com a justificativa de que iria procurar Joanne, que havia levado meu pai em um tour pelos estúdios, depois dele praticamente implorar para conhecer cada cantinho do lugar. O empresário de Debbie também havia deixado a pupila, mas atendendo a um pedido da própria.
  Debbie estava sentada na cadeira ao lado da minha, enquanto comia castanhas de um saquinho, me olhando com suas íris amendoadas.
  Eu vasculhei minha mente em busca de qualquer referência ao nome que ela falara e precisei de alguns segundos vergonhosos para lembrar da patricinha de Clube dos Cinco. Quando o fiz, foi automaticamente que minhas sobrancelhas se franziram.
  — Claire Standish?
  — Sim — ela respondeu, com a voz incerta e arrastada, a testa criando ruguinhas. — Não me diga que você não sabe de quem eu estou falando.
  — Não! Digo, sim — balancei a cabeça. — Eu sei de quem você está falando. Eu só não entendi no que exatamente somos parecidas.
  Ela abanou a mão no ar.
  — Você não entendeu porque eu não expliquei — deu de ombros, como se fosse óbvio. Debbie acertou mais uma castanha dentro da boca e, ainda mastigando, dispensando qualquer cerimônia, começou: — Você não tem a fachada artificial e superior, mas tem tudo que ela escondia por baixo dela. Você fica olhando para os lados como se estivesse deslocada e com medo. Assim como ela, você parece ter vergonha de se mostrar. Só que ao invés de criar uma fachada para esconder sua insegurança, você deixa todo mundo perceber que ela está aí.
  Ok. Aquilo foi assombrosamente preciso.
  — Hum. Sério que você acha isso? — arrumei a postura e mexi nos meus cabelos, tentando não parecer ansiosa diante da sua análise clínica. Percebi pelo barulho que algumas pessoas passavam por ali, mas o foco da minha atenção continuou sendo Debbie Howard e sua, aparente, facilidade de ler as pessoas. Ou de me ler. Vai saber. Espera! Será que eu sou tão fácil de ser lida assim? — Eu sou tão fácil de ser lida assim?
  Debbie riu. Ela assentiu e lançou mais uma castanha para dentro da boca. Depois de mastigar, pontuou: — Você é bem transparente. Na verdade — ergueu um dedo no ar —, seu corpo diz muito sobre o que você pensa.
  — Hum — resmunguei, um pouco incomodada com aquela informação. Eu não queria ser tão transparente. Quero dizer, eu me perguntava se, em todas as vezes da vida que eu já havia mentido, quando eu achei que estava me saindo bem, eu, na realidade, não estava convencendo ninguém? Mas eu sou uma atriz! — Como você sabe que seu... Hum... Diagnóstico está certo?
  Debbie riu. Como se tudo sobre a vida e a humanidade fosse uma grande e irônica piada.
  — Me diga você — sorriu fechado e piscou, de forma arteira, um dos olhos pra mim. — Estou certa?
  Eu podia mentir. Na verdade, eu podia tentar e lhe dizer que não estava certa. Só que, de acordo com meus cálculos e minha recém descoberta sobre a relação do meu corpo e da minha mente, eu fracassaria. Então, para me poupar de um estresse desnecessário, respondi com a verdade.
  — Sim — murmurei à contragosto. Debbie sorriu, satisfeita.
  — Eu sabia!
  — Você quer fazer psicologia ou algo do tipo?
  Ela riu.
  — Boa observação.
  — Sério?
  — Sim, pretendo fazer faculdade na área, mesmo que eu acabe não atuando nela.
  — Hum — sorri para mim mesma, envaidecida pelo meu pequeno feito. — Pelo visto, eu também deveria tentar uma vaga nessa área em alguma universidade. — brinquei, em um momento particular de descontração.
  Logo em seguida, me senti desconfortável e envergonhada pelo comentário barra tentativa de piada. Mas Debbie estava sorrindo. Como se tivesse apreciado aquele momento.
  — — disse ela, olhando pra mim. — Eu gosto de você.

CONTINUA...



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