Às Escuras

Escrito por Natashia Kitamura

« Anterior


Introdução

Olhei para Amy sentada no meio de nós dentro do táxi, prestes a desistir do problema que ela mesma havia arranjado com a ajuda de Lana. Permaneci calada enquanto ouvia seus resmungos, indícios de uma mulher nervosa por estar a caminho de seu primeiro encontro às escuras.
– É melhor eu cancelar – ela finalmente falou comigo e Lana. – É, é melhor que eu faça isso.
Já era a quinta vez desde quando saímos do apartamento em que dividíamos, que ouvíamos dela a possibilidade do evento ser cancelado. Olhei para suas mãos contorcendo os dedos, imaginando quão doloridos eles ficarão no dia seguinte, se nada der certo e ela voltar para casa, ao invés de seguir para um quarto de hotel.
Como as outras quatro vezes, eu e Lana trocamos um olhar e voltamos a dar atenção ao cenário de Nova Iorque, cada uma de seu lado da janela do carro que não havia pressa para passar o trânsito de sexta-feira. Mesmo sendo quase oito horas, os nova iorquinos têm o costume de andar mais de carro do que transporte público nos finais de semana, para evitar chegar com o cheiro de algum fumante ou alimento que abriram dentro do metrô. Por sorte, o restaurante escolhido por Jordan era afastado do centro – turístico – e o trânsito que nos parava era devido aos semáforos que abriam e fechavam tão rápidos quanto as tempestades que chegavam no verão.
Jordan é um amigo do amigo de Lana. No início, eu e Amy ficamos com um pé atrás sobre ele, já que Lana não costuma deixar nenhum homem passar batido, principalmente depois que colocou seus silicones, quando tinha 17 anos. 10 anos depois, nada mudou, inclusive sua regra número um que dita arranjar sexo casual todo final de semana. Lana disse que Jordan não era de se jogar fora, mas assim que ficou conversando por 10 minutos – que pareciam 10 anos –, soube que nem um sexo extraordinário a faria sentir qualquer atração por ele; assim, soubemos que ele era a pessoa perfeita para Amy, uma pessoa exatamente o oposto a Lana quando se trata de amor – ou a falta dele.
Amy, Lana e eu somos amigas de infância. Dessas que não se lembram como a amizade começou ou qual foi a primeira impressão da outra porque éramos pequenas demais para conseguir guardar esse tipo de dado na memória. Quando vejo nossa situação com os olhos de quem está de fora, sei que somos três personalidades diferentes que, caso nos conhecêssemos atualmente, jamais pensaríamos em manter contato.
Nós viemos de Maine, o menor estado do país. Dificilmente divulgamos essa informação, porque ela não é muito bem-vinda na elite de Nova Iorque, provavelmente uma das mais importantes dos Estados Unidos. Por sorte, nós três somos garotas que vieram de berço de ouro, e quando digo ouro, quero dizer que independente de termos Maine ou Nova Iorque em nosso registro de nascimento, qualquer um interpretaria que somos “herdeiras”, não “novas ricas”.
– Ele não me ligou até agora, acho que desistiu – Amy olhou seu celular pela centésima vez, sem exagero.
– Amy, você está começando a me deixar nervosa, amiga. Guarde este celular antes que eu o faça por você – Lana olhou para as mãos dela onde o celular estava bem preso.
– Amy, nenhum cara irá ligar minutos antes do encontro, e se isso acontecer, dê-lhe o bolo, porque seria desespero demais – fiz carinho em seu braço da maneira que pude. Amy, por estar nervosa, logo esqueceu do tom de voz grosseiro de Lana, virando seu rosto para mim e concordando que era um bom sinal que o tal de Jordan não tivesse ligado até agora.
Amy é a típica garota de Maine, com os cabelos louros, a pele clara e os olhos verdes tão grandes que jamais conseguiria disfarçar seu jeito ingênuo e tímido; contudo, é inteligente, perspicaz e sabe lidar com os problemas das pessoas. Por isso possui sua própria empresa de personal stylish. Às vezes – toda vez que a vejo trabalhar – sinto inveja de seu serviço. Ela ganha comprando roupas para outras pessoas. Como fazemos com nossas Barbies quando somos pequenas ou nossos cachorros durante a adolescência. A ideia surgiu de mim há oito anos, quando indiquei Amy a uma amiga da faculdade que reclamava sobre seu closet estar tão vazio que Paris Hilton riria de sua cara. Honestamente, não sei como alguém tem a coragem de dizer que o closet estava vazio, quando possuía um andar inteiro para ele no apartamento em que morava. Eu, Amy e Lana aprendemos naquela época que jamais devemos questionar as mulheres nova-iorquinas e que qualquer uma que tenha um closet enorme e reclamasse dele estar vazio era considerada uma “herdeira”.
Com a divulgação boca-a-boca, Amy acabou criando sua própria empresa em que as mulheres e homens a contratam para organizar seus closets e mantê-los atualizados com roupas da estação. Alguns clientes costumam ligar para ela três vezes ao dia, às vezes até quatro ou durante a madrugada, quando um encontro repentino surge e a pobrezinha não sabe se usa um conjunto de lingerie Victoria’s Secret ou já parte direto para um La Perla. Agora, a empresa conta com tantos clientes que Amy jamais cogitaria ficar pobre, mesmo na crise econômica. As mulheres podem deixar de lado o luxo dos motoristas, mas jamais sairiam de casa sem um Manolo Blahnik nos pés.
O táxi estacionou em frente ao restaurante contemporâneo que inaugurou há algumas semanas. Devido à novidade, o local estava lotado de pessoas ansiosas por encontrarem uma mesa disponível de última hora ou fotógrafos para gravar a entrada de algum famoso.
– Fique calma – falei, segurando seu braço e cruzando-os para que ela parasse de parecer um cachorro quando sai de casa pela primeira vez. – É só um encontro, não é como se você nunca tivesse estado em um.
– Eu nunca estive em um encontro cujo cara jamais vi na vida – sua voz passava muita insegurança e medo. Olhei em meu relógio e vi que tinha exatos três minutos para fazê-la voltar à sanidade.
A razão de estarmos em nosso primeiro encontro em grupo às escuras juntas, é porque o pai de Amy disse que já estava na hora dela entrar em um relacionamento sério se quisesse continuar em Nova Iorque. Mesmo Amy tendo quase 30 anos de idade, Martin, seu pai, a trata como se ela ainda fosse sua garotinha. Parte da razão dela ter fugido de casa – diferente de Lana que apenas foi embora e eu, que vim com o consentimento dos meus pais – se deve ao fato dela sempre ter se sentido sufocada no meio das exigências do pai em Maine. Sua relação voltou a ser como era apenas há seis anos, quando ela possuía clientes tão importantes que a eficiência de seu serviço chegou aos ouvidos de Martin por um de seus contatos. Eu e Lana sempre fomos as filhas número dois e três dele, por isso, quando a relação de pai e filha se reestabeleceu entre os dois, ele logo tratou de comprar uma cobertura maravilhosa para nós três no Upper East Side.
– Querida, apenas pare de pensar que ele não irá gostar de você. Você é linda, tem os seios naturais mais belos do mundo e está usando um La Perla vermelho tão maravilhoso que não deveria ser um crime andar de lingerie em público – Lana mexeu em seus cabelos escuros e ondulados cobertos pelas luzes que faz regularmente.
Dentre nós três, qualquer um pode dizer que Lana é a que menos se parece com alguém vindo de Maine. Desde pequena possui esse hábito de se colocar em primeiro lugar. As únicas pessoas que ela ousa pensar mais do que em seu próprio umbigo, somos eu e Amy porque somos eu e Amy; contudo, sua gentileza para aí. Com as pernas compridas, bronzeadas e bem torneadas, Lana consegue conquistar qualquer homem em questão de segundos. Mesmo no inverno, quando é obrigada a cobrir seu ponto forte, os olhos castanhos, unidos com os lábios carnudos como os da Liv Tyler fazem um trabalho tão bem quanto suas pernas. Lana nunca quis trabalhar com nada; de nós três, ela veio de uma família que possui centenas de fazendas que produzem muita coisa para o mundo inteiro – nunca soube exatamente o que era, porque, de acordo com Max, meu irmão mais velho, eles mudam a matéria-prima a cada dois anos. Seus pais sempre disseram que criaram as três filhas para o mundo, assim, quando estávamos fazendo nossos exames para garantir a entrada nas universidades, Lana foi quem tomou a iniciativa de procurar um lugar para ficarmos em Nova Iorque e comprou nossas passagens antes que mudássemos de ideia – que Amy mudasse de ideia. Foi uma surpresa quando, depois de um ano e meio que chegamos, ela começasse a ganhar muito dinheiro como designer de sobrancelhas. Eu nunca imaginaria que sobrancelhas pudessem dar tanto dinheiro, mas aparentemente, dá sim. Amy começou fazendo as sobrancelhas de algumas senhoras do prédio em que morávamos; aos poucos, foi arranjando contato com os caras ricos com quem dormia nos finais de semana: suas mães amaram a ideia de terem uma pessoa que viessem até suas residências para fazer as sobrancelhas. Agora, Amy possui seu próprio escritório onde atende dezenas de mulheres que se dispõem a pagar quase 3 mil dólares em um design que dura pouco mais de um mês.
– Você tem razão – Amy respirou fundo. –, estou com um La Perla e um Louboutin para nosso primeiro encontro. Ele deve me valorizar por isso.
– É isso mesmo.
Suspirei, aliviada por Amy ter recobrado sua segurança a tempo, pois logo que viramos nossas cabeças para iniciar a busca ao trio de homens – que por sorte não serão aqueles “novos ricos” esquisitíssimos rindo alto –, um cara com uma camisa de linho natural, presa dentro de uma calça social e sapatos de couro se aproximou com o cabelo bem arrumado em um típico penteado nerd. Pelo que Amy disse sobre ele antes de sairmos de casa, durante nosso ritual de preparação-para-primeiro-encontro, Jordan tem 28 anos e possui um cargo alto na área de TI na Google. São três palavras que justificam a razão dele pertencer à alta sociedade e de ser um bom partido para Amy: cargo alto / TI / Google. Qualquer pessoa de TI ganha um absurdo em dinheiro, em cargo alto, então, nem sem fala, mas no Google é uma sorte grande.
Meus olhos o analisaram da cabeça aos pés de maneira tão discreta que nem Lana, uma pessoa com um senso de percepção extremamente aguçado, poderia ter percebido. Jordan deveria ter em torno dos 1,77, o rosto com a barba feita, provavelmente uma loção de barba jovial, o relógio digital de quem tem preguiça de ler ponteiros e os óculos que ao invés de causar uma impressão absurdamente intelectual, daqueles perdedores do colégio que nos passavam cola de graça para não praticarmos bullying durante o intervalo, o fazia ficar sexy de maneira contida.
– Hum, olá – sua voz denunciou seu nervosismo, mas parece que somente eu e Lana percebemos. – Sou Jordan – seus olhos castanhos encararam Amy desejando que ela fosse a Amy que ele esperava. Não pude deixar de me sentir um pouco rejeitada, mas era a noite de Amy e eu deveria esperar ser deixada de escanteio, principalmente depois de ter perdido a aposta com Lana sobre quem irá escolher primeiro o seu parceiro. Nós temos essa regra de não beijar, transar ou ter qualquer tipo de relação que envolva ou nos leve a ter um orgasmo com alguém que a outra já se relacionou, por isso costumamos tirar a sorte na ordem de quem irá escolher primeiro. Eu sempre tive azar e raramente fico com o primeiro lugar, o que me faz odiar comparecer a encontros com elas, principalmente às escuras, nossa primeira experiência.
– Esta é Amy e aquela é . Como vai, Jordan? – Lana decidiu tomar as rédeas, já que era a única pessoa que conhecia todos do grupo. Jordan pareceu aliviado por ter olhado para a mulher certa, caso contrário, teria começado dando uma má impressão.
– É um prazer conhece-las, espero que gostem de comida contemporânea – ele sorriu para Amy e não pude deixar de olhar para Lana, que levantou os ombros, como quem diz “nerd, eu disse”. – Nossa reserva está feita, mas só poderemos entrar quando todos estiverem presentes. Pedi algumas bebidas para degustarmos antes de entrar, Klint já chegou, mas teve um problema em seu trabalho e irá atrasar quinze minutos.
Jordan apontou para trás, onde seu amigo Klint olhava para nós e... pelo amor de Deus! Quando é que irei ter a sorte de tirar o primeiro lugar na escolha do parceiro? Klint é uma cópia mais alta e sem barba de Henry Cavill. Eu poderia apenas dizer Henry Cavill e qualquer uma saberia que ele é um Deus. Lana olhou para mim com um sorriso maroto e eu nunca a invejei tanto quanto agora, mesmo depois dela ter colocado os silicones.
– Boa noite – ele logo disse em um sotaque britânico. Ah, qual é! – Sou Klint.
– Lana – ela logo se pôs a frente, segurando sua mão com toda a delicadeza e sensualidade que conseguia exalar daqueles olhos castanhos. Aposto que está pensando que deveria ter colocado o batom mate vermelho.
Em questão de três segundos, não tinha com quem conversar. Olhei para os lados e todos estavam animados demais com seus próprios acompanhantes para eu ter a oportunidade de me divertir e flertar. Assim, comecei a olhar para os lados, abrir meu e-mail no celular e verificar se o restaurante estava muito cheio. Nós tínhamos vinte minutos de tolerância a partir do horário da reserva, por isso, caso o tal de não aparecesse, posso pegar um táxi e me encontrar com Claire e Amber no SoHo, e curtir uma boa balada.
– Acho que vou ali na farmácia por alguns minutos – falei, mas apenas recebi um ‘ok’ de resposta de Jordan. Revirei os olhos e dei–lhes as costas, caminhando em passos firmes até o local que estava quase o oposto em relação ao movimento.
Fui até a seção de camisinhas, já que Amy provavelmente terminaria no quarto de hotel como nós esperávamos e eu não precisarei ouvir suas lamentações sobre o encontro que não deu certo e como explicaria para o pai que não estava pronta para um relacionamento sério ainda. Pensando bem, não era uma sexta tão mal assim.
– Essa é uma boa marca – ouvi ao meu lado.
Virei meu rosto e dei-me de cara com uma beldade. Uma beldade diferente de Klint, o sósia do Henry Cavill. Este estava mais para Brad Pitt com Chris Hemsworth e Alan Richson? É mentira, eu apenas relacionei todos os homens loiros que poderiam me contratar como escrava e eu faria todo o serviço sem pestanejar. Seus olhos eram de um tom de azul que jamais havia visto antes. Aquilo sim iluminaria Nova Iorque inteira. Além disso, vestia um terno preto Armani que lhe coube tão perfeitamente que parecia ter sido feito para ele. Ele era perfeito visto de qualquer ângulo. O rosto com a barba feita e o cheiro de loção de homem. O maxilar quadrado e os ombros tão largos que não foi difícil me imaginar coberta por seus braços em poucos segundos parada o analisando. Ele deveria ter em torno de 1,90 e se suas pernas e braços forem tão fortes quanto o peitoral que estou babando em ver, eu não me importaria mesmo de me tornar sua escrava.
– Desculpe?
– Essa marca – apontou novamente para o pacote. – Eu indico ela.
– Ouvi dizer que essa é a melhor opção atualmente – apontei para outra apenas para prolongar a conversa. Ouvi sua risada, perfeita, é claro, e então sua cabeça cujos cabelos arrumados pelo gel não se moveram um centímetro.
– Acredite, essa é a que você irá querer comprar – e voltou a apontar para sua opção.
Olhei para seu rosto enquanto tentava pensar em algum assunto para abordar e não perder a oportunidade de fugir do encontro às escuras com um cara maravilhoso, até que desci meu olhar para suas mãos e pude encontrar, bem...
– Ah, isso? – ele levantou o pacote de absorventes. – Na verdade, achei que precisava de uma ajuda, então estava a propor uma troca de informação. – balançou o pacote em minha frente.
– Bem, isso não é para mim – apontei para a seleção de preservativos à nossa frente.
– Ótimo, porque isso também não é para mim – abriu um meio sorriso encantador. – Como deve imaginar.
– Como devo suspeitar, você quer dizer.
Ouvi uma pequena risada e pensei na possibilidade dele querer me mostrar quão eficiente é a marca de preservativos que havia indicado, mas havia um homem qualquer me esperando para ser sua parceira no encontro às escuras e uma amiga nervosa em seu primeiro encontro que precisava da minha presença para se sentir mais relaxada.
– Tudo bem, levarei sua sugestão ­– peguei quatro pacotes do preto e olhei para ele. – Qual o público que deseja atender? – fiz menção com o olhar para o conteúdo em suas mãos.
– Hum... – olhou para algum ponto atrás de mim. – Novatas no assunto?
Não pude deixar a oportunidade de rir graciosamente passar.
– Então isso definitivamente não é o que você procura – aponto para o pacote e sigo até a área de absorventes com ele em minha cola. – Isso é o que você procura – aponto para um outro pacote que faria o melhor trabalho para uma novata que ainda não sabe as manhas da arte feminina.
– Obrigado pela sugestão – ele troca os pacotes, perdendo um pouco de tempo para tentar entender a diferença entre os dois, mas logo desiste, dando as costas largas para a prateleira. Quando fiz menção de pegar a fila para o caixa, sua voz grave me abordou mais uma vez. – Escute, seria incômodo... – apontou para os preservativos e o pacote de absorvente. Abro um pequeno sorriso e estendo minha compra para ele, que pega e troca com a sua. – Seria no mínimo esquisito – ele falou atrás de mim.
– Não mais do que para a pessoa que pediu o favor a você – falei, vendo–o abrir um sorriso absolutamente charmoso. Deus, por que enviar um muso logo hoje?
– Oito dólares – a mulher do caixa falou em uma voz entediada. Enquanto eu aguardava o homem finalizar sua compra, a mesma atendente disse, em uma tonalidade completamente diferente: – Gostaria de aproveitar as balas de fita? Estão na promoção.
Ah, qual é!
Suspirei e decidi espera-lo no lado de fora da farmácia. Eu adoro as mulheres tanto quanto também adoro falar mal delas quando há um tipo de injustiça de tratamento. Compreendo que não é fácil encontrar um homem lindo que compre quatro camisinhas em uma noite de sexta-feira, mas qual a diferença dele com uma mulher comprando um pacote de... Ah. Bem. Ok. Ela está certa, o tratamento foi bem justo.
– Obrigado – ele estendeu a sacola para mim enquanto eu estendia a minha para ele. Antes que eu pudesse lhe responder, olhou para os lados e uma garota apareceu rapidamente ao seu lado. – Aqui – entregou o pacote a ela. – Deu oito dólares, pague ela – apontou para mim.
– O quê? – olhei para ele, confusa.
– Ela estava aqui fazia uma hora porque não conseguia comprar esse negócio.
– É constrangedor demais – a garota disse. – Aqui, obrigada pela, hum, ajuda. – olhou para mim e o muso, e ergueu uma nota de dez dólares.
– Não se preocupe, dessa vez fica por conta da casa – empurro a nota de volta para ela. – É melhor trabalhar seu psicológico, querida, você terá de fazer isso pelo menos uma vez ao mês – falei, ouvindo um resmungo e não deixando de achar engraçado. – Veja bem, é melhor do que engravidar antes do tempo – sorri, dando dois tapinhas em seu ombro.
– O próximo passo é comprar preservativos – o homem disse, apontando para a sacola em minhas mãos.
Olhei para ele, que apenas se limitou a sorrir. Eu sabia que ele estava se aproveitando da situação porque eu havia dado abertura. Mesmo assim, nós não nos conhecemos para que ele pudesse fazer esse tipo de comentário. A garota ficou com o rosto tão vermelho que me senti mal por deixá-la constrangida. Com um rápido agradecimento, saiu correndo e virou a esquina, sumindo de nossas vistas. Eu poderia dar um sermão ao muso, mas ele pode ser a única coisa bonita que eu veja essa noite, então me esforcei em manter a postura.
– Bem, tenho que ir então – falei, colocando a sacola em minha bolsa e me preparando para deixá-lo para trás e encarar o encontro às escuras.
– Para lá? – ele perguntou, apontando na direção do restaurante.
– Hum... É.
– Vamos. Eu te acompanho – colocou as mãos nos bolsos e começou a caminhada antes de mim, me obrigando a acompanhá-lo até ouvir a voz de Jordan pausar sua conversa com Amy para cumprimentá-lo com um abraço:
– Até que enfim!
– Vocês se conhecem? – aponto de Jordan para o muso e vice–versa.
Jordan soltou uma risada e balançou a cabeça, concordando. Colocou o braço em torno dos ombros do cara e sorriu:
– Claro! Ele é , a pessoa que faltava para fechar nossa programação.

é administrador. Ele está para herdar a empresa da família que está no ramo de confecção há anos. Aparentemente, a empresa dele lidera o mercado em que atua, mas não sei exatamente qual nicho se refere, já que não entrou em tantos detalhes e, mesmo tentando demonstrar interesse, ele não me pareceu muito disposto em falar sobre o assunto.
Seu comportamento de quando estávamos na farmácia para agora era completamente oposta. Antes seu sorriso me parecia mais charmoso, seus olhos, mais sensuais. Agora nem seu tom de voz me parecia cativante. Ele se comportava de uma maneira que deixava claro sua intenção ali: não queria qualquer contato senão o necessário e quanto antes aquele jantar terminasse, melhor. Depois de dezenas de tentativas em manter um diálogo agradável, acabei desistindo de ser simpática e somente me comportei da mesma maneira que ele fazia.
– Você já sabia sobre...
– Você? – ele perguntou, no momento em que pedimos nossas sobremesas e os dois casais automaticamente voltaram a se isolar em suas conversas particulares. Na verdade, Lana e Klint, e Amy e Jordan voltaram ao papo anterior e deixaram eu e de lado. Estarmos sentadas uma do lado da outra já não significava mais nada do que havíamos combinado mais cedo. Se não fosse um muso, elas estariam ferradas comigo quando chegássemos em casa no dia seguinte. – Eu sabia quem era você na farmácia, porque a vi conversando com Jordan e Klint na frente do restaurante.
– Você se atrasou de propósito? – abri a boca, chocada com sua falta de tato.
– Desculpe a grosseria, mas não sou fã deste tipo de encontro – apontou para todos nós, mostrando a situação em que estávamos. Apesar da educação, ele não me parecia nem um pouco arrependido de deixar claro que eu não excedia suas expectativas como ele provavelmente sabia que excedia as minhas; fisicamente, quero dizer.
– Então, se você não estivesse me “aprovado”, teria simplesmente ido embora e me dado um bolo?
– Se rotular assim não é saudável – ele diz, balançando o dedo em minha frente. – Mas que bom que é realista – ele se inclinou em minha direção, por estar sentado à minha frente, e sussurrou: – Não faça essa cara, sua expressão quando se afastou deles não era a melhor, tenho certeza que estava planejando alguma desculpa para ir embora.
Culpada. Era verdade, mas isso não quer dizer que eu iria embora.
– E era uma verdade que eu havia tido uma emergência – ele voltou a encostar–se na cadeira. – A garota com quem você falou era minha prima. Ela me ligou desesperada quando estava saindo da empresa.
– Sua prima? – levantei uma sobrancelha.
– Positivo.
– E você não deveria levá-la para casa?
– Você sabe como andam esses adolescentes hoje em dia? Eles não passam mais os finais de semana em suas próprias casas. Além disso, ela disse que uma amiga passaria para buscá-la. – ele bebeu um gole de sua bebida como se fosse normal deixar uma garota de quatorze anos andar sozinha na cidade às nove da noite.
– E você acreditou?
levantou os ombros.
– Eu não deveria acreditar na palavra da minha família?
– Uma garota que acabou de... Hum... – limpo a garganta e percebo que falar sobre ciclo menstrual não é adequado ao momento. – Deixa pra lá.
– Por que concordou vir a este encontro? – ele perguntou, sem se mostrar arrependido por não ter dado atenção à sua prima, ou pelo menos com a intenção em fingir-se preocupado para me passar uma imagem melhor de si.
– Questão de segurança. Eu me preocupo com as pessoas.
Ouço sua risada de quem entendeu minha indireta. Tomou mais um gole de seu gim e apoiou seus braços na mesa.
– Você não me parece uma amiga que se preocupa.
– É porque você não me conhece – sorrio, vendo–o mais uma vez se calar.
permaneceu me observando com um sorriso no rosto e eu não pude fazer nada senão copiá-lo. A situação era muito estranha, não posso negar que estava sendo muito mais sarcástica e grosseira do que o habitual. Uso o sarcasmo como meio de defesa, mas estava fazendo um milagre, quero dizer, eu não sou tão má assim.
O jantar, por mais tranquilo que fosse, passou devagar. não parava de fazer comentários que exigiam uma resposta à sua altura. O espelho que cobria a parede atrás de si estava no lugar perfeito para que eu me policiasse quanto às minhas expressões. Só eu sei o quanto me esforcei em não revirar os olhos todas as vezes que ele fazia um comentário babaca. Quando chegamos no café, eu já estava exausta.
– Vocês vieram de táxi, não é? – Jordan perguntou, tentando parecer gentil e olhar para nós três. Lana já estava o ignorando para dar atenção a Klint e eu apenas sorri para não parecer desesperada para chegar em casa, abrir o vinho e assistir a algum programa noturno nos canais pagos. Amy concordou e ele se ofereceu em levá-la para tomar um café antes, queriam conversar mais. Eu havia dado o preservativo para ela durante o jantar, quando fomos até o banheiro. Como esperava, ela não havia comprado e se sentiu um pouco tensa por pensar que poderia transar com um cara que acabou de conhecer. Até antes de sairmos do táxi, ela dizia que “não precisava ir tão longe” só por causa de seu pai, mas pareceu mudar de ideia quando estávamos retocando a maquiagem.
Klint e Lana não se despediram de ninguém. Antes de Jordan sugerir à Amy de irem até uma cafeteria, o carro de Klint chegou e eles apenas entraram no automóvel sem nem olhar para trás. Amy, como sempre, se sentiu um pouco ofendida, assim como Jordan; não era como se Lana nunca tivesse feito isso na vida antes e, pela reação de , tampouco de Klint. Além do mais, todos nós sabíamos quão loucos os dois estavam para transarem.
– Está tudo bem? – Amy falou, olhando de relance para , que conversa com as mãos nos bolsos de sua calça social com Jordan. – Ele é muito bonito.
– É, é sim – sorri, parecendo satisfeita com o meu parceiro. Pena que é um mala. Pensei. – Boa sorte.
– Obrigada por ter vindo, amanhã definitivamente iremos colocar as novidades em dia. – soltou uma risada e me limitei a imitá-la, vendo-a em seguida ir até o lado passageiro do carro de Jordan, que se despediu de mim com um sorriso e um aceno.
Assim que vi os dois sumirem no meio dos carros que não paravam de passar, suspirei e olhei para , que me encarava com um meio sorriso.
– Você quer que eu... – ele apontou para um táxi.
– Não, eu liguei para um antes de sairmos – apontei para trás, onde estava o restaurante.
levantou as sobrancelhas, visivelmente surpreso. Então eu estava dando um fora nele depois dele ter tentado me dar um fora? Sim, eu estava. Se era mentira que eu havia ligado para um táxi antes de sair do restaurante? Completamente. Apesar de saber que eu e ele não nos veríamos nunca mais depois de hoje, esperava que ele pelo menos me deixasse em alguma estação de metrô, mas o filho da mãe não disse nada. Apenas ficou parado ao meu lado na mesma posição desde quando saiu do restaurante: as mãos nos bolsos e o queixo erguido como um galo no meio de suas galinhas.
– Você pode ir. Ele irá demorar uns vinte minutos ainda – falei, recebendo seu olhar em mim.
– Está tudo bem.
– Eu sei que você quer ir embora – sorri, vendo-o soltar uma pequena risada. – Não me importo de esperar sozinha, você parece ter tido um dia longo, não precisa se esforçar – tento, pelo menos no final desse encontro-desastre, ser quem eu realmente sou. Educada, simpática.
– Se você tivesse demonstrado esse lado seu mais cedo, eu poderia considerar levá-la para casa.
É isso. É oficial. Ele é um cretino e eu o odeio. A proporção de sua beleza é infinitas vezes inferior ao tanto que me irrita toda vez que abre a boca. Como alguém pode simplesmente ser tão insensível? Arght!
– É uma pena que você não consegue extrair o melhor das pessoas – retruquei, vendo seus lábios manterem um sorriso, mas seus olhos continuarem me avaliando como se ele não me entendesse. Na verdade, eu não queria que ele me entendesse, apenas que fosse embora logo para eu poder ligar para um táxi de verdade. – Boa noite, então – tomei a iniciativa e o vi balançar a cabeça.
– Obrigado pela companhia – ele disse, antes de tirar a mão do bolso e acenar, indo até um carro estacionado em uma vaga perto da farmácia. Assim que foi embora, suspirei, aliviada, e tirei meu celular do bolso, onde disquei o número do taxista que costumo pegar de noite.

Ao contrário do que Amy havia dito, ela não voltou para casa no dia seguinte, tampouco Lana, mas isso não foi de surpreender. Tive de passar todo o meu tempo sozinha, sofrendo a infração da regra que criamos quando chegamos à cidade grande: evitar deixar a outra sozinha, mesmo que tenha homem envolvido no meio. Eu já esperava um comportamento desse vindo de Lana, mas Amy foi uma novidade. Resolvi não me aborrecer porque era sua primeira vez e ela provavelmente estaria aproveitando tudo o que nunca fez a vida inteira. Além do mais, era somente um final de semana e eu poderia lidar com ele sozinha.
Primeiro, decidi correr. De vez em quando eu tenho lapsos de saúde e desejo ter um corpo igual às das modelos da Victoria's Secret, por isso, vou caminhando até um parque que existe a uma estação de metrô de distância e passo algumas horas me exercitando sozinha – ou fingindo que estou me exercitando. Por ter acordado à uma da tarde, meu cooper só foi acabar quando eram três e meia e eu estava famigerada. Parei em um foodtruck saudável e comi uma salada, ostentando forte o sanduíche do menino que sentou ao meu lado.
Depois, resolvi parar no mercado que há no quarteirão do prédio. O vinho estava acabando e como a programação era ficar à toa em casa assistindo filmes e seriados, e tentar me dedicar à nova coleção da marca, eu teria que ter muitos suprimentos para a noite. Eu já havia corrido e comido uma salada, então não me senti nem um pouco culpada de encher meu carrinho de salgadinhos, queijos, biscoitos e vinhos. Quando cheguei em casa, imperceptivelmente eu estava arrumando tudo, colocando as coisas no lugar e preparando meu espaço no sofá bem em frente à enorme televisão que o pai de Lana comprou para nós três. Os desenhos poderiam ficar para depois, afinal, tudo comigo sai melhor quando há pressão.
Meu domingo foi muito mais chato que o sábado, como manda a lei do "à toa sozinha". Ao contrário do que eu esperava, não consegui pregar os olhos na TV porque minha mente estava borbulhando de ideias, por isso, acabei ficando grande parte do meu dia desenhando em minha mesa, no quarto. No final, segunda-feira acordei com disposição e energia acumulada para ir ao trabalho. Quando isso acontece, decido ir de bicicleta ao invés de metrô. Assim como o parque, meu trabalho é apenas a uma estação de distância – mas no sentido oposto –, por isso, não tive problemas em pedalar.
A empresa fica em um prédio típico empresarial: sua aparência externa envidraçada e pessoas de roupas sociais entrando e saindo como se não houvesse o depois. Eu sou uma designer de joias, então não preciso necessariamente me vestir socialmente; mesmo assim, tenho um mínimo de orgulho que me faz perder alguns minutos extras na frente do espelho de manhã e tentar parecer uma boa empreendedora pelo menos até sair do hall e entrar no elevador em direção ao andar do trabalho.
– Você não sabe! – é assim que damos bom dia para as pessoas que chegam depois de nós em uma segunda-feira. Eu não sei o que tanto essas pessoas fazem durante o final de semana para terem tanto que contar para o resto de nós. A fofoca é tamanha que às vezes passamos a semana inteira falando as novidades sobre o final de semana anterior.
Claire é uma estagiária no ramo do design. Ela não é ruim, mas definitivamente não conseguiria a aprovação da senhora , mesmo essa precisando de um design emergencial para o mês passado. Claire é a sobrinha da nora de um dos ex-maridos de Barbara , o que justifica a razão de termos uma estagiária de estilo hippie trabalhando em uma fábrica de joias de luxo. De qualquer maneira, todas as segundas sou recebida com um "Você não sabe!" dela ou de alguém desesperado para falar sobre seu final de semana.
Excepcionalmente, hoje, não foi o assunto do final de semana, mas sobre o que estava para acontecer:
– A bruxa finalmente vai embora! – ela falou, puxando sua cadeira para perto da minha enquanto Nally e Amber se aproximavam com Erin, Tony e Guy. Nós, ao todo, éramos da equipe de designers; para uma primeira visita, parece muitas pessoas, mas a verdade é que temos tanto trabalho que se duplicasse a equipe, ainda estaríamos no limbo.
– Conta o babado do começo! – Guy empurrou Erin para poder dividir sua cadeira e ficar mais próximo de nós.
Todas as fofocas da área são sempre feitas na minha mesa. Porque eu estou quase no meio de todos e nunca faço questão de ouvir tudo o que está rolando na empresa ou na vida das pessoas, eles acabaram encontrando uma maneira de me fazer sempre ouvir os assuntos; nunca reclamei, mas começo a desconfiar que todos das outras áreas acham que, dentro todos nós, sou a mais fofoqueira de todas, por isso, começo a trabalhar mesmo ouvindo o que os outros têm para dizer. Além disso, minha mesa tem a visão perfeita para a sala de vidro de Barbara, de modo que sabemos quando ela está olhando para o andar e tentando captar alguém fazendo outra coisa que não seja trabalhar.
– Minha tia falou. Barbara vai se aposentar e passar o negócio para o filho. Vai haver um tipo de apresentação ou algo assim hoje.
– Por isso tudo está tão bonito e organizado. – Nally olhou para os lados. Seu comentário me chamou a atenção. Era verdade. Minha mesa estava aparentando organizada, já que era óbvio que a pessoa que passou por aqui não se importou de misturar meus desenhos de classe A com as B, ou os anéis com os brincos.
O andar era aberto, dividido por paredes improvisadas de vidro ou madeira que serviam como divisórias de nossas mesas. Estas ficam dispostas uma do lado da outra; algumas de frente para a outra, outras de frente para a parede, formando um imenso labirinto com corredores de mesas e cadeiras com rodas. O escritório da ocupava somente um andar, grande suficiente para agregar toda a equipe de design, marketing, assessoria e tudo o que forma uma empresa. A fábrica de produção fica em um local fora da cidade, longe dela, para ser mais exata. Nunca cheguei a conhecer o lugar, já que as peças de validação chegam até nós, não nós que vamos até eles. Minha mesa estava localizada no quadrante exatamente no meio do andar e, como disse antes, ao contrário de Erin, Guy e Tony, que possuem vista para o céu, minha vista era para a sala da diretoria, no mezanino. A única coisa boa era que Barbara nunca via a tela do meu monitor, de modo que nunca fui alvo de bullying por ser pega passeando pelo Facebook.
– Por isso o brunch. – Nally apontou para o espaço disponível para eventos no andar. Era um palanque de mármore, fino o suficiente para ser digno do salto Loubotin de Barbara. Nele, ela fazia anúncios importantes, como promoções, novos gerentes, coordenadores ou corte de equipe. Esse último, especialmente, era o que mais trazia reação. Além disso, usávamos o espaço também para as confraternizações de final de ano ou aniversários. Quase toda semana tínhamos café da manhã de graça para comemorar o aniversário ou noivado de alguém. Desde que Vincent, o coordenador geral, se aposentou e Lauren tomou seu lugar, as comemorações passaram a serem mensais. Não preciso dizer que ninguém gosta dela.
– E quem é o bofe? – Guy perguntou, roendo sua unha. – Ouvi coisas boas e ruins dele, mas acho que preciso primeiro dar uma avaliada superficial.
Guy se referia à avaliada superficial, o físico do homem. O tal poderia ser insuportável, mesquinha ou até porco, mas se o corpo era sarado, então ele estava aprovado.
– Dizem que ele está trabalhando nos negócios a um tempo – Tony falou, dando um tapa na mão de Guy, que o olhou com cara feia. – Erin estava me dizendo que ele não é uma pessoa fácil de se lidar.
– Ouvi dizer que ele é ela escrito, digo, no modo de ser – Erin mexeu em seus cabelos louros naturais e espiou ao redor antes de falar em quase um sussurro. – E vocês sabem, duas Barbaras não ocupam um mesmo espaço.
Rimos com sua piada e logos ouvimos o apito do chat privado da empresa, onde a equipe do hall do prédio nos avisava quando Barbara estava chegando. Rapidamente a agitação começava, de modo que até mesmo aqueles que não viam a mensagem sabiam sobre o que se tratava.
Era como ver Meryl Streep no papel de Miranda Priestly, só que em uma versão morena e os cabelos sempre presos em um belo penteado. Barbara , apesar da idade, é uma mulher muito bonita; não é à toa que está sempre entrando e saindo de relacionamentos, sejam eles sérios ou casuais. Assim que a porta do elevador se abriu, ela e seu casaco de pele saíram ao som dos saltos tilintando. Todos nós, como sempre, fingíamos estar trabalhando, mas com a presença dela no mesmo espaço que nós e a probabilidade de sermos a próxima vítima de sua avaliação estética, era praticamente impossível nos concentrar.
– Por que está vestindo laranja? Parece uma presidiária – ouvimos sua voz fria ecoar pelo andar, chamando a atenção de todos nós. – Nós não estamos no outono.
– Desculpe, Barbara, ela é nova – Kendal, a coordenadora da equipe de eventos, rapidamente disse, vindo às pressas na direção de Barbara. – Ainda está se habituando ao...
– Ou você tem gosto, ou não tem – Barbara disse, não tirando os olhos da nova estagiária, que à altura do campeonato estava mais vermelha do que um pimentão. – Tire isso já, pelo amor de Deus. E nunca mais me apareça assim aqui – e continuou a caminhar como se não tivesse acabado com a semana de sua nova funcionária.
Sua cena era sempre tão atordoante que ninguém percebeu quando o som do elevador soou e uma personalidade saiu dele com o terno azul escuro e a camisa na mesma cor em um tom mais claro. Assim que Barbara começou a andar em direção ao elevador que a levaria até seu mezanino, dando as costas à estagiária que estava prestes a chorar, nossos olhos se voltaram ao homem que encarava a situação com uma expressão de riso.

Seria interessante dedicar meu tempo observando quão lindo aquele homem era, se não fosse , o cara insuportável do encontro de sexta-feira passada.

Capítulo 01

– Mamma Mia! – Guy sussurrou enquanto caminhávamos até perto do palanque de eventos, quando nossos coordenadores pediram para que nos reuníssemos lá. – Aquele homem é nota oito deitado, meu bem! – disse, se referindo ao símbolo do infinito. Até hoje ele só deu a nota oito deitado para uma única pessoa e ela se chama Hugh Jackman. Inicialmente eu não concordava com a nota, mas depois que assisti Austrália não pude evitar bater palmas para a análise de Guy. – Qual a probabilidade dele ser gay?
– Zero – todos nós respondemos, fazendo-o fechar a cara.
– Fala sério, Guy. Pare de querer pegar todos os homens lindos para você! – Erin falou, tirando risadas dele.
No momento em que paramos em frente ao palanque, me peguei na dúvida entre permanecer ali, quase de frente para o local onde os dois ficariam, ou me esconder atrás da equipe. Não que eu esteja receosa sobre se lembrar ou não de mim, pode até ser que ele seja o irmão gêmeo de , o que seria uma tremenda sorte para mim e eu poderia, talvez, reconsiderar imaginar como ele seria sem a... Bem. Sou uma mulher adulta, não deveria pensar nesse tipo de coisa com tanta facilidade. A questão é que sei que não quero ter de encará-lo novamente. Não gosto de lidar com ironias e sempre tira o pior de mim.
Dei alguns passos para trás e não tive dificuldade em me esconder, porque todas as mulheres – solteiras, noivas, casadas – e os gays do andar estavam desesperadas para pegar a frente e ver melhor a beleza "incomum em nosso cotidiano" de . Não as culpo, admito que me pegarei observando-o por um longo tempo, principalmente porque minha mesa terá uma vista privilegiada do escritório dele – se ele manter as persianas abertas, claro. Pensando bem, talvez seja uma boa hora de negociar meu lugar com alguém que senta do outro lado do corredor. Eu não preciso entrar no Facebook pelo computador, se isso quiser dizer que posso ter a vista para a rua.
Enquanto perdia meu tempo pensando nos prós e contras de me manter no lugar em que estou – aqui, parada em pé e na minha mesa –, Barbara apareceu com e os coordenadores à tiracolo. As equipes importantes da fábrica – coordenadores e gerentes – estavam aqui também, um verdadeiro milagre, já que as duas equipes (escritório x fábrica) não costumam se envolver por questão de afinidade. As pessoas que planejam e as pessoas que executam geralmente possuem modos diferentes de pensar e sem pensar, a culpa dos erros sempre caem naqueles que põem a mão na massa.
– Bom dia a todos – Barbara começou a falar, sua expressão séria. Talvez seja o botox, ou talvez ela não queira realmente sair de sua posição. Honestamente, se eu estivesse para me aposentar, estaria muito feliz de finalmente poder começar a viver uma vida de luxos ao invés de ter de comparecer todos os dias em um escritório e ser odiada pela maioria de meus subordinados, mas vai entender a cabeça de uma workaholic. – Vocês já devem ter ouvido falar sobre minha decisão de passar o negócio para meu filho – com a palma da mão esticada, indicou , logo atrás de si. – Hoje, tal decisão tomará lugar. é o novo presidente da  e fará um excelente trabalho dirigindo todas e cada equipe pertencente ao nosso grupo. Há anos ele tem se preparado para este momento e não deixará a desejar em nenhum aspecto. Antes de passar a palavra a ele, gostaria de declarar minha satisfação com a empresa à qual me dediquei com tanto afinco nos últimos cinquenta anos. Espero de todos uma dedicação tão impressionante quanto à minha – e com um aceno de cabeça, mostrou-se agradecida a todos nós, porque a palavra "obrigada" jamais sairia de sua boca.
Batemos palmas polidamente e a observamos se encaminhar até uma cadeira para que descansasse seu corpo quase idoso. – ou seu irmão gêmeo com o mesmo nome? – deu alguns passos para frente com um sorriso no rosto, provavelmente satisfeito por finalmente colocar as mãos no que é seu por direito.
– Bom dia – sua voz, que já estava me esquecendo do quão maravilhosa é, soou, fazendo todos os ombros das mulheres, e Guy, relaxarem, regozijando-se na perfeição. – Meu nome é e serei o novo responsável por transformar seus dias mais ocupados – alguns se arriscaram rir com sua piada. Reviro os olhos ao sentir o início da ironia com que tive de lidar durante duas horas e meia na sexta–feira e mudo o peso de perna ao ver Nally se mexer, me deixando exposta à vista de . – Como minha mãe disse, venho me preparando cautelosamente para conquistar o cargo que ela está deixando para mim. Como novo presidente, meus planos é continuar agradando nossos clientes fiéis e expandir nossa mercadoria para países emergentes...
Enquanto ouço seu discurso chato, minha mente se desliga, pensando no quão bom seria se ele fosse o gêmeo de , ao invés do próprio. Dizem que gêmeos geralmente possuem personalidades opostas, tornando-o perfeito para mim. Balanço a cabeça, tentando parar de ser tão avoada. Tenho o dom de conseguir dar atenção aos detalhes mais estúpidos quando algo que não tenho interesse acontece ao meu redor e não tenho como me distrair com o celular. Quando as palmas começam a soar no andar, tomo um pequeno susto e apenas acompanho, olhando para o lado e vendo as pessoas animadas com o novo chefe. Bobinhas. não é nada mais do que um homem que acha que tem controle sobre tudo e lida com todas as situações da maneira que lhe convém.
Erin e Nally começaram a conversar sobre a beleza do homem e o que esperar dele através do que havia dito em seu discurso. Tony dizia que ele não se pareceu com Barbara como haviam dito. As pessoas começavam a discutir sobre o assunto enquanto Barbara se despedia de todas as pessoas importantes da empresa. Os coordenadores pediam que nos encaminhássemos até nossas mesas e voltássemos a trabalhar, mas todos estavam tão ocupados em discutir sobre a novidade, que é claro que ninguém acataria a decisão tão rápido.
Eu ouvia o debate sobre o corpo e os olhos de entre Guy, Amber, Patrick e Hilary, da equipe de mercado, quando meu sexto sentido apenas me fez virar a cabeça para chamar Nally para a conversa. Ela adora falar sobre corpos masculinos, tanto quanto adora tocá-los; assim que levantei minha mão para tocar em seu braço e chamar sua atenção, vi o par de olhos azuis profundos em mim. Meu corpo congelou ao ver perceber minha presença no local. Suas mãos nos bolsos, como sempre, os ombros largos e o sorriso sarcástico no rosto... Tudo estava direcionado a mim e eu sabia. Sabia, porque ele logo soltou uma pequena risada, balançando a cabeça e voltando a atenção à Lauren, que não parava de falar.
O que aquilo queria dizer? O que ele estava pensando? Ele estava rindo de mim? Ou da coincidência de me ver aqui? Com o medo dele voltar a olhar nessa direção e me provocar, disse que voltaria para minha mesa a fim de começar a trabalhar. Com a conversa tão animada, ninguém prestou atenção no que disse, então apenas segui silenciosamente até minha cadeira e me encolhi o máximo que pude para que ele não visse onde sentava. Estava sendo tola, é claro que ele me veria uma hora ou outra, além disso, não fui eu a pessoa estúpida do encontro. Mesmo assim, me esforcei em não parecer uma completa esquisita perdida em meus devaneios quando todos decidiram começar a semana e trabalhar.
– Ele não pode ser tão mal – Nally disse. – Quero dizer, se fosse como Barbara, já estaria mudando toda a organização das equipes.
– Se ele tirar Lauren da nossa coordenadoria eu daria meu corpo nu a ele quando ele quisesse – Tony disse, olhando para cima e comprovando nossa teoria de que ele estava no meio de uma ilusão e não percebeu a besteira que falou.
Eles estavam desligando nossas máquinas devido ao fim do expediente. Infelizmente, o fato de eu morar perto faz com que Lauren não tenha muita dó de me passar o dobro de trabalho, já que, como ela mesma disse: "você tem mais tempo para se dedicar, já que gasta menos tempo dentro de um ônibus". Eu sabia que a odiaria assim que vi a combinação perfeita de seus cabelos negros, a pele branca e os olhos azuis. Ela era a Liv Tayler, mas com os lábios menos carnudos. Com ou sem eles, ela não deixa nem um pouco de ser maravilhosa, o que me deixa ainda mais irritada.
– Você deveria ir embora. Não basta ela pedir para você não cumprir o happy hour às quintas, ainda tem de trabalhar mais na segunda? – Amber disse, inconformada.
– Está tudo bem, eu já estou terminando mesmo, seria perda de tempo deixar para amanhã, quando sei que ela me passará ainda mais trabalho para fazer. Além disso, se eu começar a sair no horário ela irá achar que não tenho coisa o suficiente para me dedicar e fará da minha vida um inferno.
– Mais que isso? – Nally comenta, tirando risadas de quem ouvia.
– Você precisa de alguma coisa, gata? – Guy perguntou, empurrando sua cadeira no lugar.
– Na verdade...
Uh–uh! Foi só por educação. Só por educação. – ele balançou a mão, rapidamente se afastando de mim e indo embora. O resto de nós apenas riu e logo fui deixada sozinha com o trabalho quase terminado.
Se não fosse o fato de todos não pararem de falar em o dia inteiro, eu poderia facilmente ter passado o dia sem me lembrar que ele é meu novo chefe. Contudo, toda vez que alguém começava a falar, era elogios sobre ele, o que me deixava com uma vontade ainda maior de narrar toda a conversa que tivemos em nosso "encontro" na sexta-feira.
Por incrível que pareça, ele não tentou fazer nenhum tipo de contato comigo, o que inicialmente me deixou um pouco aborrecida. Saber que o fato de nos conhecermos não significou nada para ele me faz sentir uma tola, já que durante o final de semana inteiro tive lapsos de sua beleza e seus comentários ácidos. Lauren saiu e, como sempre, não pode evitar – me pergunto se há algum dia que ela sequer tenta me deixar em paz – passar em minha mesa e depositar mais uma bateria de trabalho e conceitos de possíveis coleções que diz ela ser de sua própria mente. Meus ombros doem só de imaginar ficar duas horas a mais na empresa toda a semana.
– Este eu preciso para quarta sem falta. Terei uma apresentação para fazer a e não pode haver nenhum erro. Entendeu? – ela olhou para mim, como se o problema de suas ideias nunca serem aprovadas por Barbara fossem minhas.
– Sim senhora – digo mesmo depois dela já ter me dado as costas e rebolado até o elevador do andar. Suspiro e passo a mão no rosto, exausta só de pensar nas minhas madrugadas à base de cafeína.
No dia seguinte, Lottie, a secretária de Barbara passada para , anunciou aos coordenadores que ele gostaria de fazer um tour pelas equipes para saber o ritmo de trabalho e se aproximar mais de seus integrantes. Esse comportamento causou um pouco de furor entre todos os funcionários, parte animados por terem alguma ligação ou contato com o novo presidente, parte nervosos por saberem que serão avaliados tão de perto. Algumas mulheres – estou sendo humilde, praticamente todas elas – reclamavam por não terem sido avisadas no dia anterior, para que pudessem vir mais apresentáveis. Se isso acontecesse, nosso corredor principal poderia ser comparada à passarela da Fashion Week. ainda não mostrou-se terrível como Barbara, mas tendo o mesmo DNA dela, é normal que todos se sintam pressionados com essa surpresa. Os coordenadores são os mais desesperados. Lauren, em específico, é a que mais está surtando com a notícia e descontando em nós, claro.
– Não seremos a primeira equipe, por sorte – ela começou a falar no meio de nossas mesas. Percebi que, diferente de ontem, hoje ela não vestia mais a calça social; seu modelito passou para saias e ternos femininos que realçam os silicones colocados há dois verões. – Isso não quer dizer que vocês podem relaxar. Organizem suas mesas, criem post its mostrando que são responsáveis e arrumem essa paleta de cores – apontou para nosso estoque de canetas, lápis de cor e tintas utilizados na hora da criação. – Gostaria que deixassem à mostra alguns de seus melhores trabalhos para enfeitar a mesa, não adianta de nada ele visitar a equipe de design e não haver nenhum esboço à mostra.
Não é o fato dela nunca ter feito nenhum curso especializante para ter conhecimento sobre design de joias ou ter vindo de uma empresa do ramo de cosméticos; qualquer pessoa inteligente, ou pelo menos esperta, saberia que jamais se deve falar para um designer expor seu trabalho para "enfeitar" um lugar. Eles têm valores e são criados com um propósito, que definitivamente não é servir de quadro para uma ligeira apresentação de equipe. Dou meu melhor para não revirar os olhos e resmungo um "sim senhora" junto com o resto da equipe quando ela pergunta "entenderam?". Assim que vi seu traseiro enorme rebolar para longe de nós, trocamos olhares que expressaram a palavra que não podemos dizer: "Vadia."
começou com a equipe de mercado, localizada logo na saída do elevador que dava para seu mezanino. Todas as outras equipes tentaram não dar atenção ao acontecimento, mas era impossível. Todos estavam tão nervosos que nosso chat começou a ferver com a narração das conversas entre coordenador e , suas perguntas aos integrantes da equipe e as caras que fazia quando recebia alguma reclamação. Por incrível que pareça, realmente parecia ser uma pessoa melhor que Barbara, ou pelo menos um chefe melhor. Aos poucos as pessoas começaram a relaxar, vendo que o contato não era nada mais do que uma primeira apresentação para haver uma certa simpatia pelo novo presidente, porque, cá entre nós, a fama que Barbara deixou não é nada bom para qualquer um que viesse depois dela e que fosse seu filho.
Pouco antes do almoço, quando parte de nós já não ligávamos mais para a presença de caminhando pelo andar, Lauren anunciou em bom tom sua chegada. Olhamos para ele vindo ao lado dela com as mãos nos bolsos, o cabelo arrumado da mesma maneira que estava em nosso encontro e o terno preto claramente Armani, passado com perfeição e que ressaltava muito um corpo bem malhado.
– Pessoal, parem um pouco o que estão fazendo, por favor – ela, em um tom que jamais imaginei sair de sua boca, nos chamou. – Este é , como sabem, nosso novo presidente. Ele veio conversar conosco para nos conhecer melhor – seus olhos caíram sobre que olhava para todos nós. Assim que meus olhos cruzaram com os dele, pude ver um pequeno sorriso formar no canto de seus lábios. Meus ombros se encolheram com a ideia dele se aproveitar da situação. – Devo fazer as apresentações, ?
– Gostaria de ouvir deles mesmo, se não se importa, Lauren – puxou uma cadeira e se sentou perto de Nally, que engoliu seco. O modo informal como se tratam me deixou um pouco perturbada, admito. Ele poderia ter pelo menos me cumprimentado, como dita a boa educação. Afinal, não somos completamente estranhos. – Bem... – olhou para Amber, sentada na primeira mesa da área de nossa equipe, na fileira da janela.
Lauren estava nos fazendo falar muito mais do que os funcionários das outras equipes. Não sei se era para chamar a atenção de ou apenas uma forma de permanecer por mais tempo ao seu lado e causar fúria nas outras coordenadoras. Saber que ela, uma mulher casada, ainda tem a ousadia de ser assim tão descarada me dá náuseas.
– Lauren disse, em um tom claramente mais aborrecido. Saio de meu transe e vejo o olhar de todos em mim. – Estamos esperando – mexeu a cabeça para que me observava com diversão no olhar.
– Hum. Meu nome é . Estou na equipe fazem três anos e nove meses, comecei como...
querida, você não prestou atenção no conteúdo de seus companheiros? Nome, tempo de trabalho e como entrou – Lauren me cortou. Tento não demonstrar o suspiro que dei por ser chamada a atenção. Deixando de lado todo meu nervosismo com seu comportamento ridículo, olho para , que parecia se divertir ainda mais, e digo:
– Meu nome é . Estou na equipe fazem três anos e nove meses e foi sua mãe quem me chamou para entrar – ao finalizar, olho para Claire ao meu lado, indicando que havia finalizado minha apresentação e que ela era a próxima, entretanto, a voz de soou, calando qualquer tentativa de alguém – Claire ou Lauren – iniciar o diálogo:
– Minha mãe quem te chamou?
Olhei para ele e não pude deixar de me regozijar ao ver a expressão de surpresa em seu rosto, mas mais ainda na expressão de nervosismo de Lauren por eu ter de me comunicar mais do que ela desejaria com ele.
– Sim senhor.
– Por quê?
– Desculpe, não sei explicar porque ela nunca mencionou. Eu apenas entrei.
– Estou interessado na sua história – ele se inclinou para frente. – Conte como entrou – mexeu a mão e olhei para os lados, onde meus colegas estavam ainda mais nervosos do que eu. Talvez por mim. O olhar de Lauren não deveria ser bom, por isso evitei encará-la.
– Bem, não sou a única que entrou por intermeio de Barbara – tento me justificar. – Claire... – apontei para o lado, mas Lauren novamente agiu como uma vaca e me interferiu:
– Ele quer saber a sua história, , não a de Claire.
não interviu no modo arrogante que Lauren se dirigiu a mim, apenas permaneceu calado esperando eu começar a falar. Desejei forte que seu telefone tocasse ou Lottie o chamasse para uma chamada urgente, mas nunca fui muito sortuda com meus desejos.
– Há quase quatro anos, deixei alguns de meus desenhos no para-brisa do carro de sua mãe. Por sorte, ela parece ter visto e pediu para Lottie me ligar e marcar uma entrevista. Entrei como aprendiz, não ganhava nada e não fazia nenhum desenho, mas aprendi muito. Depois de seis meses, Barbara permitiu que eu fosse contratada para a equipe, já que a antiga estagiária saiu e havia uma vaga em aberto.
– Ela nunca discutiu sobre seus desenhos com você?
– Algumas vezes, quando Vincent estava em alguma reunião importante ou de férias e ela tinha pressa em tratar sobre alguma coleção. Geralmente ela discutia com ele e ele me passava suas coordenadas, mas tive a oportunidade de fazer alguns treinamentos com ela.
– Então você era a aprendiz dela? – ele apontou para mim, surpreso. – Interessante. Gostaria de ver no que está trabalhando agora – ergueu a mão em minha direção e a equipe se mexeu, ansiosa. Sabíamos que ele iria querer analisar nosso trabalho, mas não que eu seria a escolhida, simplesmente pelo fato de Lauren nunca permitir que eu fosse a "sortuda".
Minha relação com Lauren sempre foi de ódio e inveja. Minha parte é o ódio, e a dela, a inveja. Lauren entrou porque tinha capacidade de lidar com uma das equipes mais importantes da empresa. Além disso, sempre teve bons contatos na área da moda e ajudou a empresa a postar anúncios de duas páginas nas principais revistas de moda dos Estados Unidos. No entanto, sua eficiência para aí. Desde quando entrou, Lauren sempre ouviu de Vincent seus elogios sobre meus trabalhos – o fato de eu ter aprendido traços e ter uma mente mais ligada à identidade da empresa por causa dele e de Barbara, me fazia ter bastante crédito com os dois –, no entanto, saber que havia alguém que Barbara observava mais do que ela era imperdoável. Com o tempo ela foi promovendo os outros integrantes da equipe sem Barbara saber até eu estar no mesmo nível de todos. Nunca reclamei porque gosto dos meus colegas de equipe, mas isso não significa que nenhum de nós se sinta desconfortável por eu ter decaído tanto em oito meses. O que mais me afetou foi parar de receber o feedback sobre meus trabalhos. Lauren não me passou mais nada do que Barbara dizia em suas apresentações das novas coleções, o que me fez perder bastante crédito. Mesmo tendo tentado falar com Barbara, eu não era importante o suficiente e nem ela era carinhosa o suficiente para termos uma conversa franca sobre minha situação e o tratamento que recebo de Lauren.
  Retirei minha pasta de desenhos que guardo meus trabalhos em andamento. O número de folhas é muito maior do que o costume, mas apenas porque estou com três vezes mais trabalho do que o resto da equipe. Entreguei a coleção que ele deveria ver no dia seguinte e só faltou Lauren levantar e tirá-los de suas mãos. perdeu um bom tempo analisando-os, nesse meio tempo, eu e meus companheiros de equipe tentávamos trocar olhares sem Lauren perceber e ela tentava tirar alguma conclusão de através de suas expressões.
– O tema é água então – ele disse, olhando para minhas anotações. – Por que utilizou ouro branco ao invés de amarelo?
– Porque são joias de apoio, não as principais. Além disso, Barbara nunca permitiria que uma joia de apoio tivesse duas cores extravagantes juntas. As cores de tonalidade escuras são inspiradas na aliança de noivado do príncipe William e Kate Middleton, da Inglaterra. Apesar de ser uma notícia que passou há alguns anos, as mulheres ainda têm como base de joia perfeita, aquela que alguém da realeza também possui.
– Falarei mais sobre o assunto em nossa reunião amanhã – Lauren disse rapidamente, antes que eu falasse todo o conteúdo que ela deveria falar no dia seguinte, agora. – Esta é nossa próxima coleção que iremos discutir, . Acompanhei de perto toda a pesquisa de mercado e explicarei com mais detalhes sobre como chegamos a esse conceito.
Não falamos mais um 'A' depois do apelo de Lauren. Se ele for esperto, saberá que ela não chegou a conceito nenhum, eu quem entreguei tudo pronto para análise. levantou seu rosto para mim e me devolveu meus desenhos. Enquanto o fazia, pude ver um brilho em seus olhos que era diferente do que havia visto até então. Pensei que ele faria algum comentário áspero como sempre, mas apenas se levantou e disse:
– Imagino que estejam com fome. Que tal um almoço? Ainda tenho integrantes para conhecer – olhou para todos nós, que receamos um pouco antes de concordarmos.
– Um almoço com a equipe seria ótimo! – Lauren disse. – Mas infelizmente não poderá comparecer porque precisa finalizar as peças da nossa submarca. Urie está quase vindo até aqui por não termos entregue as peças até ontem, nosso prazo final – ela me olhou como se a culpada fosse eu. Talvez, ou em parte. Eu poderia fazer melhor se ela não tivesse me avisado sábado de madrugada que o prazo mudou de sexta para segunda. – No entanto, o resto de nós se esforçará em ser uma ótima companhia – tocou no braço de que não disse mais nada. Olhou para mim e então, sem demonstrar qualquer coisa, se afastou com Lauren em seu alcance.
– Caramba, desde quando você é uma amazona assim? – Guy travou seu computador e se aproximou. – Você acabou de assinar seu atestado de óbito com Lauren, sabia?
– Só faltou sair fumaça pelas orelhas dela – Tony riu. – Está de parabéns, , achei que nunca veria você se impor acima de Lauren.
– Honestamente! – Amber disse. – Foi bem merecido, está aqui há muito mais tempo e Lauren só vem pisando nela nesses últimos meses.
– Últimos meses? – Claire pegou seu casaco. – Desde quando entrou, você quer dizer.
– Não se preocupe, amiga, iremos proteger sua imagem para o nosso boy magia – Guy sorriu e tocou em meu ombro. – Quer que traga algo para comer?
– Está tudo bem, só vou terminar isso antes de vocês voltarem ou Lauren começará a fazer planos para conseguir me demitir – falo, abrindo um sorriso e tentando agradecer a compreensão e força de todos.
Observei a equipe inteira deixar o andar no mesmo elevador que . Tentei não olhar para eles quando estavam saindo, mas não pude evitar. Quando meus olhos seguiram até o grupo, eles já estavam dentro do elevador e a porta para se fechar. foi o último a entrar, por isso, não pude ver nada senão suas costas. Joguei todo o meu peso na cadeira e passei a mão no rosto, parte de mim chateada que ele nem ao menos insistiu para ter minha presença.
Mas é claro que ele nunca faria isso.

Sempre gostei das joias finas. Elas não precisam ser extravagantes para serem maravilhosas e, quando são, não há quem seja páreo para elas. Na minha opinião, toda mulher deveria se dar esse tipo de valor, mas não como Lauren. Logo que voltaram do almoço, o papo de todos era sobre e como ele foi gentil em pagar a refeição em um restaurante muito fino. Quero dizer, não que eu goste de filar boia gratuita – apesar de nunca ser uma má ideia –, mas o fato de todos estarem mais unidos e chegados a Lauren e me fez pensar que esse era um plano maligno de Lauren para me demitir.
– Ela não falou nada sobre você, eu juro! – Claire falava, como se fosse obrigada a me contar todos os detalhes de um almoço que durou duas horas. Duas-longas-horas.
– Que bom, Claire, porque isso estragaria o almoço de vocês. – tento parecer simpática. Queria que ela se calasse. Não compreendia a razão de Lauren ter sido tão gentil com todos, quando a primeira coisa que fez quando chegaram, foi me passar mais trabalho para fazer.
– Escuta, a equipe do marketing estava combinando de fazer um happy hour na quinta. Falaram que foi convidado e ele confirmou comparecer – Erin sorriu. – Você acredita? ? Aparecer!
– Vocês parecem bem chegados a ele, chamando–o assim pelo nome – sorri. 
– Ele foi muito gentil. E disse que gosta mais de seu nome do que sobrenome – Nally falou como se fosse chegada a ele. – Quero dizer, ele sabe o poder que o sobrenome dele tem na sociedade e mesmo assim não se importa de não ser chamado por ele. Muito humilde.
"Claro." Pensei. "Muito humilde."
Durante toda a tarde ouvi as pessoas ao redor de mim falando bem de . Houve uma fração de segundo em que me senti mal por ser a única que pouco se importava em elogiá-lo ou dizer que há algum tipo de conexão com ele, mas a sensação logo passou quando o vi seguir de volta para sua sala no final do expediente.
– Flor, sei que está com dezenas de coisa para fazer, mas será que você poderia dar uma olhada no meu rascunho? Estou mesmo com dúvida sobre as flores – Nally veio até mim, depositando seu desenho ao meu lado.
– Claro, vou dar uma olhada e qualquer coisa, deixo um post it de anotações.
– Você é demais! – ela sorriu. – Quero que ele me elogie um dia – olhou na direção do mezanino. Levanto uma sobrancelha ao vê-la sonhar acordada; ela logo sai de seu transe e sorri, sem graça. – Ele pareceu saber muito sobre design de joias, eu já disse isso?
– Comentou... – comecei a falar, mas fui rapidamente cortada por Amber:
! Se você vai ver a de Nally, pode ver o meu também? Eu preciso entregar a ideia e o conceito amanhã para Lauren, mas acho que falta consistência.
– Deixa comigo – sorrio.
Talvez seja o fato de eu ter aprendido muito com Barbara e Vincent, mas todos sempre pediram ajuda sobre minha opinião. Porque eu sempre os ajudei quando entraram, pode ser que acabaram ficando acostumados em ter uma segunda opinião sobre tudo. Mesmo que não seja eu, eles mesmos acabam pedindo ajuda sobre pontos que não possuem certeza de estar bom. Lauren sempre foi muito exigente com os desenhos e ao menos que ela se sinta segura sobre os argumentos, ela nunca apresentaria uma coleção ou unidade para Barbara. Ser a primeira opção de ajuda de todos na hora de fechar um desenho nunca me fez ser alguém mais importante que eles, não sei se dei sorte de ter colegas de equipe compreensivos, mas nunca tivemos problemas com status ou conhecimento. Quem sabe mais, sabe. Quem não sabe, pede ajuda e aprende. É simples.
No entanto, com aqui as pessoas parecem querer surpreendê-lo mais, de modo que todos estão trabalhando com mais afinco e vontade, o que é bom, mas não totalmente – pelo menos para mim. Quando Erin saiu, eu tinha cinco desenhos para analisar e uma bateria ainda maior de trabalho que Lauren começou a me passar há dez minutos.
– Eu e conversamos há pouco sobre a coleção que deveria apresentar para ele amanhã. A reunião foi cancelada e seus desenhos serão analisados a partir de amanhã, por isso, preciso que eles estejam até amanhã na mesa de Lottie. Você terminou os desenhos? O motoboy passará amanhã às sete para levar para Urie e preciso que esteja aqui neste horário para a entrega. A primeira prova da coleção do dia das crianças, da coleção Kids, chegará amanhã durante a tarde, então você precisa me entregar os rascunhos com as anotações de material até às 11. Sem atrasos, , você já está quase me tirando do sério com toda a demora.
– Desculpe, Lauren – me limito a dizer.
– Desculpe, desculpe. Não suporto levar chamada por algo que eu não causei, então agradeceria se você agisse como todos os seus colegas de equipe e se preocupasse em pelo menos entregar algum feedback na hora marcada – e sem dizer mais nada, me deu as costas e se afastou em direção ao elevador, resmungando: – Sou sempre eu quem tenho de correr atrás de uma informação, é um absurdo!
Fecho os olhos, exausta e sem um pingo de vontade de continuar a trabalhar. Lauren conseguia fazer milagres quando o assunto era me tirar do sério. Olho ao meu redor e uma ou duas pessoas de cada equipe agora estavam finalizando seus trabalhos. Confiro as horas e meus ombros caem de exaustão ao ver que o ponteiro menor quase batia na casa do sete. Com o tanto de trabalho que possuo, pouco capaz conseguir sair antes das dez, assim, me levanto e vou em direção à cozinha pegar alguma coisa para comprar na máquina de junk food. Minha barriga reclamava por estar muito vazia e minha cabeça já começava a doer. Preparei uma grande xícara de café e comi alguns amendoins enquanto esperava ficar pronto.
– Tchau, – Kotler, da assessoria, se despediu quando passou pela cozinha na saída do andar. Acenei enquanto mastigava.
Ao chegar em minha mesa, todos já haviam ido embora.
– Ahhh... – me jogo, pendendo a cabeça para trás. As persianas, como sempre, estavam fechadas. Arrasto minha cadeira por estar com preguiça demais de levantar e abro-as a fim de ver o céu já escuro e as ruas cheias. A primavera estava para acabar e as pessoas começavam a devolver seus casacos mais grossos para o armário. Enquanto assistia os pequenos pontos andarem de um lado para o outro, tomava um gole pequeno do meu café, por estar quente demais.
O som da porta do elevador soou e olhei na direção, logo descobrindo que era o outro elevador que havia soado. apareceu e mexia interessado em seu celular. Com o paletó apoiado em seu antebraço, caminhava lentamente em direção ao corredor principal que o levaria até o elevador do andar. Não se preocupou em olhar para os lados e verificar se toda a equipe havia ido embora ou se alguém estava ali para ele continuar a ser o chefe legal e se despedir. Mas não. Ele não olhou para os lados, muito menos para mim. Durante três minutos esperei que ele se despedisse. Quando a porta do elevador fechou, voltei a encostar na cadeira, mais desestimulada do que nunca.
 
Era quinta-feira quando Amy me ligou, tão ansiosa para nos dizer uma novidade para mim e Lana que disse não aguentar esperar até depois do expediente para contar o que havia acontecido. Assim, combinamos de almoçarmos juntas para ela não ter um AVC até quando nós três estivéssemos ao mesmo tempo em casa, o que não seria fácil, considerando que às quintas começamos a sair nos happy hours das empresas em que trabalhamos.
O local que escolhemos foi Bamboo, um restaurante vegetariano muito bom, o único que nós três conseguimos dividir um único prato. Com paredes brancas e arranjos de bambu com folhas artificiais, faz parecer um local que oferece comida saudável e de qualidade. Sentamos em uma mesa de acento estofado porque sempre preferimos eles. Quando cheguei, Lana já estava no meio de sua bebida; sei que a razão não é a minha demora, mas sim porque ela tende a beber mais quando está comendo algo saudável.
– Ande logo, o que é a tal novidade? – ela depositou a taça da bebida na mesa e inclinou o corpo para frente.
Amy olhou de uma para outra, como se quisesse fazer suspense. Uniu os dedos de suas duas mãos e os cruzou, apoiando os braços na mesa e se inclinando, de modo que fiz o mesmo apenas para não ser a única ereta na mesa.
– Jordan me pediu em namoro!
– O quê? – eu e Lana falamos juntas.
– Já? – ela disse.
– Que maravilha! – falei ao mesmo tempo e não pudemos evitar nos entreolharmos com um olhar feio para a outra.
– Ele me pediu ontem! Foi tão... Mágico! – olhou para cima, imaginando a cena que provavelmente excedeu suas expectativas, vendo suas maçãs coradas e os olhos brilhantes.
– Conte como foi! – tento parecer animada, com sucesso.
Amy costuma se cegar quando está muito animada com algo. Lana pediu mais uma bebida e assim que a comida chegou e nos foi servida, Amy começou a falar sobre como ele foi busca-la com um carro chique e a levou em um restaurante maravilhoso cujas mesas são enfeitadas com velas e os garçons fazem tudo para ela, inclusive cobrir seu colo com o guardanapo de tecido. Ela bebeu do melhor vinho, comeu da melhor comida e então, quando terminaram o jantar, pouco antes da sobremesa aparecer, Jordan segurou sua mão e começou a lhe dizer todos os elogios possíveis para levar uma mulher até à lua de tanta felicidade. No fim, a sobremesa chegou trazida pelo chef da cozinha do restaurante, que parabenizou os dois pelo novo relacionamento.
– Vocês acreditam que ele é sócio do restaurante? Sócio!
– Uau! – falei, animada.
– Isso quer dizer comida fina de graça? – Lana perguntou, mais interessada. Olho feio para ela, que deu mais uma bicada em sua bebida nova. – Estou só brincando, amiga, estou feliz por você do meu próprio jeito, veja – e terminou a bebida em um único gole. – Saúde!
– Enfim – olhei para Amy, que não pareceu entender a ironia de Lana. –, estou feliz por você, querida! Seu pai finalmente poderá sossegar e aceitar que você tem uma nova vida aqui.
– Jordan quer conhecê-lo. Voltaremos para o interior esse final de semana. Meu pai reservou um quarto de hotel para ele, acreditam? – ela nos olhou, parecendo um pouco ofendida com a atitude do pai.
Senhor Martin nunca foi muito bom em esconder sua satisfação ou sentimentos positivos. Quando estávamos no colegial, ele mandou todo mundo aceitar mudar a data de nossa festa de formatura de um sábado para uma sexta, de modo que vários familiares não puderam comparecer no evento; a mudança no início causou problemas para Amy, mas a razão da alteração foi porque senhor Martin havia contratado um DJ muito melhor do que o grupo de dançarinos e banda para tocar no palco improvisado do salão. É claro que a festa foi muito melhor do que imaginávamos, mas isso não significa que Amy não passou por maus bocados pela falta de comunicação clara de seu pai.
– Você sabe que ele fez isso para dar conforto a Jordan, não é? – tentei amenizar a imagem de tio Martin. – Não existe a questão dele não confiar em você, Amy, caso contrário, ele jamais deixaria você vir para cá.
– Mas ele não deixou ela vir para cá. Ela fugiu, lembra? – Lana falou, fazendo Amy concordar com a cabeça. Suspiro, impaciente com o início de sua embriaguez, Lana costuma ser uma pessoa sensata e que percebe situações com muita facilidade, mas quando o álcool começa a tomar conta de sua corrente sanguínea, ela se transforma em alguém tão insensível quanto o próprio tio Martin.
– Nós todas sabemos que se ele quisesse que Amy voltasse para o interior, ele daria o jeito dele assim como fez com Alan.
Alan é o irmão de Amy, dois anos mais velho. Quando estávamos no colegial, ele estava para completar 18 anos e deveria obrigatoriamente se inscrever no exército, de acordo com a lei do país. Pouco antes da época ele fugiu com os amigos para não arcar com as responsabilidades, mas logo voltou quando tio Martin cortou todas as contas do banco dele e a de celular. Sabemos que Alan tentou sobreviver, mas para uma pessoa que viveu a vida inteira em baixo do dinheiro dos pais, não é fácil encarar a vida real, principalmente quando a ideia de ter fugido foi para aproveitar o melhor da vida, não a realidade dela.
– Tudo bem, você tem razão – Amy concordou. – Ele falou que Klint fala bastante de você, Lana.
– Tipo o quê? – Lana finalmente se ajeitou na mesa e parou de olhar para a comida ou ingerir mais álcool. – Tipo a razão dele não ter me ligado nos últimos três dias?
– Você sabe que ele está na Índia terminando de organizar a Start Up da empresa que contratou os serviços dele, não é? – Amy olhou para Lana que pareceu se lembrar naquele momento, suavizando sua expressão e pegando o copo, um meio de proteção quando sabia que estava errada, mas não queria dar o braço a torcer.
– Claro que sim, só achei que havíamos combinado que ele me daria um sinal de vida – e limpou a garganta, outro sinal de que estava tentando redimir suas acusações para cima do homem.
– Você dando satisfações a um homem? – pergunto, aproveitando a oportunidade de brincar com a única pessoa do grupo que usa qualquer momento para nos lembrar que é ela quem manda em sua vida. – O que isso quer dizer, Lana?
– Ela está apaixonada! – Amy ergue seu copo, rindo.
– Cale a boca! – Lana taca o papel protetor do canudo nela. – É claro que não estou, ele só é mais um sexo bom. Viram o tamanho dele? Garanto que o amigo dele lá de baixo é tão...
– Hew, Lana! – Amy a calou. – Estamos comendo, que péssimo timing!
Lana apenas riu. Era isso o que ela fazia quando queria desconversar algo com Amy, apenas começava a falar detalhadamente sobre sexo. Balanço a cabeça, sabendo que não tinha jeito, nós nos conhecemos bem demais para não sabermos exatamente como lidar com a outra.
O horário de trabalho depois do almoço passou voando. Como Lauren havia dito, os responsáveis pela criação das joias viriam para a cidade para discutirmos os materiais e o processo de criação das peças, por isso, pulei de uma reunião para outra devido ao número excessivo de joias que criei. Apesar de gostar, tudo o que é em excesso acaba se tornando como um câncer; depois de uma grande seleção de material, você apenas se vê de mãos atadas.
– Te admiro – Claire olhou para mim com a ponta da caneta entre os dentes. – Sabe, se eu sofresse todo o ataque de Lauren que você sofre, teria vazado rapidinho.
– Você precisa decidir o que você quer para a vida, Claire – falo, sorrindo. – A Lauren é só uma pedra no caminho que estou tentando empurrar para o acostamento. Apesar dela ser maior do que eu esperava, a vontade de chegar ao meu destino é maior do que a ideia de retroceder.
– Filosofou bonito, – Tony sorriu. – Escuta, sobre a Lauren, ela começou com um papo sobre eu fazer a coleção principal da próxima estação, mas havia ouvido você comentar que estava se planejando para ele...
– Ah – o encarei. – Bom, depois da cena na frente do senhor , é bem capaz que ela mova os pauzinhos dela para mudar isso. Não se preocupe, Tony, se for você, sei que ficará extraordinário – sorri, vendo seus ombros relaxarem com a minha aprovação.
É claro que eu fiquei aborrecida. A ideia de ter minhas ideias vetadas nessa coleção me estressou pelo resto do tempo que permaneci sentada na minha mesa até todos se levantarem para o nosso happy hour.
Nós costumamos nos reunir às quintas na área do bar de um hotel quatro estrelas que há no quarteirão de baixo do escritório. Apesar do ambiente refinado, o fato do bar ser abastecido com uma boa quantidade de álcool de qualidade fez com que nós rapidamente decidíssemos que ali era o nosso point. Lauren nunca foi de comparecer a eles porque sempre disse querer traçar uma linha de relação entre chefe e funcionários; contudo, sabemos que o que ela quis dizer foi que superiores não devem se misturar com subordinados. Para a surpresa de todos, quando ouvimos sua voz chamar por nós no momento em que estávamos na esquina, Lauren se aproximou com um enorme sorriso e ao seu alcance com as mãos dentro dos bolsos, como sempre. Engoli seco, já que não nos falamos desde o dia da apresentação.
– Achei que havíamos combinados de que nós iríamos nos unir a vocês hoje – Lauren sorriu para a equipe, dando as costas para mim. – Teremos o prazer da companhia de – tocou no braço coberto pela camisa e o terno; ele não pareceu perturbado, nem se importar com a proximidade abusiva. Tentei não expressar meu desconforto no pouco caso que ele estava fazendo de mim e concordei com tudo o que disseram, mesmo não tendo ouvido um pio da conversa.
A caminhada até o bar nunca foi tão longa. As pessoas pareciam querer acompanhar o ritmo de e Lauren, que não tinham pressa no andar. Quando chegamos, várias pessoas já estavam aglomeradas na porta, de modo que demoraria ainda alguns bons minutos até conseguirmos uma mesa para agregar toda a equipe. Sem perceber, acabei sendo excluída da conversa com o rei e a rainha desse happy hour e me afastei para ler o cardápio e decidir qual bebida será a responsável por me embriagar nessa droga de quinta–feira.
, eu sei que costumo ser um tanto intrometida na vida das pessoas e que nós não temos um nível de intimidade onde você vem falar comigo, mas eu gosto de você e minha curiosidade é algo que não consigo controlar – Claire surgiu do meu lado. Olhei para ela, surpresa por vê-la deixando de tentar chamar a atenção de para vir falar comigo. – Você não gosta do senhor ? – olhou para os lados enquanto falava para se certificar de que somente eu ouviria sua pergunta.
– Não tenho nada contra ele – minto. – Eu só acabo não me encaixando bem quando Lauren está junto.
– Eu sabia. Ela é uma vaca – Claire cruzou os braços. Seus cabelos castanhos claros possuíam ondas da progressiva que já passava da validade.
– E você? Não vai tentar a chance de ser alguém na frente dele? – perguntei tão baixo quanto ela, ouvindo sua risadinha.
– Nah, eu não sou de competir por homem, porque há muitos deles solteiros por aí. Além disso, pode não parecer, mas ele não faz muito meu tipo, com esse jeito engomado. Eu acho que é só faixada. Na verdade, ele é uma versão masculina da Barbara.
Não pude evitar dar uma grande risada, mais de satisfação por ter alguém com quem pudesse tagarelar e que concordasse comigo sobre ele. Tive vontade de abraça-la. Claire sempre foi uma garota divertida e nós sempre fizemos muitas coisas juntas, mas ela nunca me pareceu tão legal quanto agora.
– Hey, já que vocês duas não estão na conversa, por que não vão conferir se nossa mesa está pronta? – Laura falou mais alto para mim e Claire. Olhamos para o grupo que nos encarava. – não gosta de esperar muito.
No momento em que olhei para ele, estranhei a falta do seu sorriso irônico mostrando que estava se divertindo por chamar minha atenção. Manteve seus olhos cravados nos meus até eu desviá-lo ao ouvir a resposta positiva de Claire.
– Nós já vamos – ela se virou, segurando em meu antebraço para eu acompanha-la. – Podemos aproveitar e ficar lá – terminou em um sussurro, logo em seguida caindo na gargalhada comigo.
– Você sabe que está assinando seu atestado de cúmplice minha, certo? – disse assim que arranjamos um sofá de couro para aguardar nossa mesa. O recepcionista disse que ainda demorariam dez minutos, por isso, apenas mandamos uma mensagem no Whatsapp para o Guy e pedimos uma bebida para iniciarmos o nosso happy hour.
– Não acho que Lauren tenha mais autoridade e respeito do que você na nossa equipe. Mesmo assim, eu não faço muito o tipo da empresa, se me demitirem é até melhor, minha mãe irá se convencer de que eu não sou boa para as joias e poderei lançar minha própria marca.
– Você está aqui por causa da sua mãe?
– É, ela acha que eu consigo chegar na diretoria. Tipo, diretoria, qual é!
– E por que não?
– Sei lá, eu só não sou do tipo que usa joias. Olhe para mim. Eu gosto de pulseiras de plástico e uso elásticos de cabelo que não combinam com a minha roupa. Quando me vem à mente o papo de chegar até a diretoria, eu só vejo alguém que tenha tudo a ver com a empresa, tipo você.
– Bem, obrigada – sorrio. – Mas acho que você faria um ótimo trabalho se começasse a se dedicar a ele. Seus desenhos já são muito bons, eles só não são melhores porque você não tem interesse no assunto.
– Às vezes me pego querendo desenhar joias. Quando vejo você compenetrada, observo a maneira como lida com os menores detalhes dos desenhos. Queria poder ter essa vontade de fazer algo perfeito – ela apoia seu cotovelo no braço do sofá.
– Você só precisa de um incentivo. Se você fazer alguns desenhos, posso avaliar para você e então tentarmos conseguir uma chance para você mostra-lo a Lauren.
– Duvido que ela aceite.
– Se não aceitar, colocamos ele no para-brisa de Barbara como eu fiz. – levanto os ombros e ouço a gargalhada de Claire.
Vinte minutos depois meu humor está no oposto do que estava quando estávamos somente eu e Claire. Com a chegada do grupo, acabo mais uma vez não tendo a oportunidade de me inserir na conversa. Todas as vezes que tentava dizer algo, alguém me cortava – quase sempre Lauren –, e quando perguntavam minha opinião, o assunto era finalizado. Não costumo me importar de ser excluída das conversas, mas quando a reunião é específica para isso, é normal que eu me aborreça por não fazer parte dele.
Depois de uma hora tentando entrosar com o grupo, acabei desistindo e me direcionei até o bar, onde consegui arranjar um banco vazio em um canto e pedir mais uma dose da bebida que já estava no fim. Olhei para os lados e o local, para variar, estava cheio. Apesar de não ser tão barato, tampouco era caro, de modo que as pessoas presentes não eram nunca uma má opção para se relacionar. Um homem tocava um violão em um canto do bar e já haviam pessoas em pé com copos na mão por não possuir cadeiras o suficiente para todos.
– Achei que você fosse querida em sua equipe – a voz de logo soou em meu ouvido, me fazendo virar o rosto para o lado oposto do meu campo de visão para poder enxerga-lo. Ele havia conseguido a cadeira ao lado da minha para se sentar. Me lembro de ter-lhe dito que eu era querida na equipe em que participava no meu trabalho quando estávamos no encontro, agora me sinto tola por ter me gabado de algo que claramente não é verdade.
– Eu era na época – me limitei a dizer.
– Sei... – seu tom de ironia é o que mais me irrita. Por que ele faz questão de vir falar comigo para me provocar? Se fosse uma provocação sexy onde nós terminaríamos em um quarto deste hotel, talvez eu cederia à chatice dele. Mas depois de um dia cansativo e cheio de estresse, tudo o que eu menos quero é me tornar uma Lauren, de tão chata. – Você não quer aproveitar o seu contato comigo e reclamar sobre o comportamento de sua coordenadora?
Permaneço calada tentando entender aonde ele quer chegar. Esse é um daqueles testes de fidelidade que as empresas estão começando a fazer com seus funcionários? Pegar bem Lauren não é nada vantajoso para mim.
– Eu não costumo me vitimizar para conseguir o que eu quero, além disso, não sabia que você decidiu ser um contato meu, já que minha presença no seu cotidiano nos três últimos dias é o mesmo do que a de um fantasma.
– Você está ofendida por eu estar sendo profissional? – ele abriu um sorriso.
– Por que estaria? Você acha que eu estou sendo antiprofissional por falar com você como uma pessoa comum?
– Eu nunca disse isso.
– Bem, então você não precisa se preocupar – levanto os ombros, tentando terminar com minha bebida. – É melhor você voltar para Lauren antes que ela me veja como uma possível rival por obter o poder sob você também.
riu com vontade. Não pude deixar de perceber quão lindo seu rosto se contorcia quando fechava os olhos para rir. Os dentes eram tão brancos que poderia iluminar todo o ambiente e seu pescoço grosso como o tronco de um salgueiro, além disso, seus ombros pareceram ainda mais largos perto de mim, e eu não sou lá miúda.
Antes mesmo dele dizer algo, minha premonição se realizou e Lauren logo se pôs entre nós dois, me fazendo enviar um olhar bem significativo para , que levantou uma sobrancelha.
– Nós reservamos uma mesa para todos nós sentarmos juntos – ela disse, sorridente. – Por que não voltamos para lá? – olhou para mim, praticamente gritando para deixa-los a sós. – Claire está te chamando, .
– Eu já vou – abri um pequeno sorriso, fazendo fechar a cara por ser deixado para trás.
Caminhei até a mesa onde o grupo ria de algum comentário feito por Nally.
– Hey, que tal um taco? – Amber perguntou, mas todos negaram, menos eu. – A minha fome é tão grande que uma pessoa é o suficiente para me fazer ir até o Taco Bell – ela se levantou e pegou sua mochila. – Vamos, ?
– Vamos – aproveitei a chance de poder ir embora. – Até amanhã pessoal, tome essa aspirina antes de você ir embora, Erin, de preferência com água – dei um sachê para ela, que me abraçou devido à embriaguez e me despedi do resto do pessoal.
e Lauren continuavam no canto do bar conversando. Ele parecia muito mais à vontade do que no encontro que tivemos na semana passada. Mais uma vez me senti mal; eu não sou atraente como Lauren, mas me esforcei para fazê-lo ter um bom jantar. Virei meu rosto assim que Amber começou a falar sobre quais níveis de picância ela compraria na lanchonete.
– Posso te fazer uma pergunta?
Amber e eu sempre fomos mais chegadas porque ela foi uma das primeiras pessoas do grupo a ingressar. O fato dela possuir um ar masculino por se sentir mais confortável utilizando roupas masculinas e cabelo curto e descolorido faz com que às vezes seja má compreendida. Nós falamos sobre sentimentos e desconfortos, mas nunca chegamos a chorar juntas ou fazer programações de melhores amigas. Nossa relação se limita somente no trabalho.
– Você já o conhecia, não é?
Olho para ela, surpresa.
– Como?
. Você já o conhecia desde antes dele ser anunciado – ela explicou, entrando na lanchonete logo atrás de mim.
– Por que acha isso?
– As outras pessoas podem não desconfiar, mas meu senso de percepção sempre foi muito bom. Quando ele chegou, foi óbvio o seu desconforto e durante nossa apresentação para ele, ele só demonstrou interesse em você – começou a numerar com seus dedos as razões. – Além disso, ele não para de perguntar sobre suas produções à equipe.
– Guy disse que...
– Até parece que você não conhece ele – ela sorri, irônica. – Ele entrou na empresa pela Lauren, é claro que ele não daria o braço a torcer. Apesar de eu achar que ele gosta de você, a Lauren deve fazer uma boa bagunça na mente dele. Ela ficou inconformada quando viu o ir até você no bar. Parecia até a namorada dele.
– Ninguém merece – resmunguei. – Já tenho razões o suficiente para ela me odiar.
– Ela é apenas uma invejosa.
– E você? Não tem interesse nele? – perguntei, tentando fugir do assunto principal e rezando para que ela cedesse. – Você participou da roda da paparicação a .
– Eu só quero uma promoção. Se eu não ganhar mais grana, não posso viajar para o Himalaia no outono. Mas se você o conhecer, talvez eu não precise que aturar a Laura.
– Pode esquecer – levanto uma mão, enquanto aguardava meu pedido ser colocado na minha bandeja. – Você tem razão, eu conheço faz um tempo, na verdade, três dias a mais que o resto de vocês. O melhor amigo dele o chamou para um encontro às escuras que minha amiga me chamou para acompanha-la; acabamos nos encontrando lá, mas foi um desastre. Agora ele não para de me atormentar com suas ironias, acredite, ele é completamente diferente comigo do que mostra ser para todos na empresa.
– É interessante como consigo imaginar vocês dois em um encontro – ela brinca, merecendo o tapa que lhe dei logo em seguida. – É só brincadeira! Imagina ter a Barbara como sogra? Hew!
Damos risada com sua brincadeira até eu pedir que ela mantivesse em segredo o que havia contado. Não queria que chegasse aos ouvidos de Lauren sobre eu já conhecer , muito menos de ter sido parceira dele em um encontro às escuras, ela se sentiria na desvantagem e me empurraria da escada de emergência para eu pagar com a dor. Amber recebeu a ligação de sua colega de quarto da república onde mora pedindo que ela trouxesse um remédio para a cólica, por isso, foi embora antes me deixando sozinha no Taco Bell com ainda dois tacos para comer.
– Faz parte da educação do ser humano se despedir de todos quando está em uma festa.
– Ou somente daqueles que não estão no meio de um flerte – respondo a , que colocava sua bandeja ao lado da minha. – Não, você não pode sentar na mesa dos perdedores – empurrei sua bandeja para longe, vendo-o rir. – Estou falando sério.
– E eu estou utilizando o meu poder de popular para sentar onde bem quero – voltou com a bandeja para meu lado e se sentou. – Sabe, você tem uma maneira distorcida de encarar a realidade.
– Assim como você não consegue ser nem um pouco agradável mesmo eu me esforçando em me manter longe – seguro o penúltimo taco e dou uma mordida tão grande que quase pego meu dedo.
– Uau. Você é realmente uma peça. – bebeu um gole de seu refrigerante.
– Por que não está com Lauren?
– Não nascemos juntos – a resposta veio imediata. Revirei os olhos, não consegui me segurar, meu humor hoje, especificamente, está péssimo. – Por que foi embora?
– Porque estou com fome, claro – apontei para os tacos.
não falou mais nada. Comíamos calados sem olhar para o outro. Estávamos sentados de frente para a vitrine que dava para a rua, de modo que podíamos nos distrair com o movimento externo. Antes de terminar meu último taco, ouvi sua voz perguntar:
– Por que você está na posição em que está?
– Que posição?
, não se faça de boba – ele se virou para mim, agora sério. – Você tem um histórico muito melhor que qualquer um na equipe foi aprendiz da minha mãe. Por que está na mesma posição que eles quando antes era sua superiora?

– Com todo respeito, achei que você fosse mais inteligente, senhor – respondo de forma polida, vendo-o erguer sua sobrancelha. – Sua mãe tinha um dom com o design de joias, mas nunca foi muito boa na hora de avaliar o caráter dos funcionários que contratava – me levantei com a bandeja pronta para ser erguida. arregalou levemente os olhos, surpreso por minha ousadia de falar algo ruim sobre minha mentora. – Você me entendeu – disse, antes de lhe desejar boa noite e ir embora sem olhar para trás.

Capítulo 02

Não irei negar dizendo que não nutri um mínimo de esperança de que perceberia que meu atual problema na empresa era Lauren; contudo, no dia seguinte nada parecia estar diferente do usual. Ela continuava me passando os problemas nas quais não queria lidar para resolver, projetos tão pequenos que não valiam a atenção dos analistas da empresa, colocava a culpa em mim na maioria das coisas que não estavam certas, reclamava que eu não estava ativa o suficiente e ainda arranjava tempo para julgar a organização da minha mesa:
– Você é a única que não possui um painel de lembretes, talvez seja por isso que atrase tanto as entregas de seus projetos – seu corpo estava tão perto do meu que se meus olhos fossem como raio–x, eu conseguiria facilmente ver toda sua bacia. – Depois ainda tem a coragem de me questionar por que não recebe os projetos maiores! Como posso confiar em uma funcionária que mal tem organização própria?
– A minha organização é essa, Lauren, eu consigo lidar com ela. E eu só atrasei uma vez a três meses atrás, portanto, não sei qual o motivo da reclamação – olhei para ela, pegando–a de surpresa. Em uma sexta–feira em que minhas melhores amigas anunciaram pela manhã não voltar para casa e que eu deveria ficar fazendo trabalho para tirar o atraso de algo que Lauren não fez, eu não estava com um humor propício para aguentar seus desaforos.
O restante da equipe permaneceu calado, testemunhando nossa própria guerra. Para dizer a verdade, eles apenas queriam ter uma razão para pausarem seus trabalhos e terem mais assunto para fofocar durante o happy hour. A esta altura do campeonato, estou pouco me importando de ser o assunto mais falado da empresa, desde que eu seja aquela que vence a nossa batalha.
– Estou vendo discussão nesta aba? – a voz de surgiu. Vi a postura de Lauren mudar drasticamente para uma mais sensual, empinando sua bunda e os peitos. Suspirei, murmurando um 'bom dia, senhor ' só para não perder a postura na frente da bruxa. – Achei que estivesse tudo em dia, Lauren.
– Há alguns projetos menores que estão na corda bamba, estava cobrando agora mesmo, – senti seus olhares em mim. acabou com minha chance de deteriorar o ego flácido de Lauren, já que sem sua presença, poderia ousar retrucar seus desaforos. – Às vezes faço isso, venho pessoalmente até os funcionários para que eles sintam a liberdade de discutir comigo qualquer questão que esteja pendente.
Meu sangue subiu à cabeça. Senti minhas bochechas corarem e quase virei meu rosto coberto de indignação a Lauren. Como ela consegue ser tão cara de pau, eu não sei, mas deveria ganhar um prêmio.
– Quão atrasado está a entrega? – apoiou seu braço em minha baia e olhou para mim.
– Não está atrasado – falei baixo, vendo Lauren se mexer inconfortável ao meu lado. – A entrega está marcada para segunda.
– Então você deveria ter dito isso à sua coordenadora, não é?
Olhei para , desconcertada. Ele estava querendo me ensinar a lidar com Lauren? Tudo bem. Pode ser que em algum lugar no meio de seus olhos de quem está se divertindo com minha posição atada e seu sorriso irônico, haja uma boa intenção em me ajudar, no entanto, ele apenas precisa se lembrar que sua posição com relação à Lauren não é a mesma que a minha, logo, eu não tenho a mesma liberdade de falar o que eu quiser para ela da maneira que ele tem.
– Talvez uma melhoria de comunicação – ele sorriu para Lauren, que retribuiu.
– É claro, , nós trabalharemos nisso com afinco. Se não se importa, há algumas coisas que gostaria de discutir com você sobre a nossa equipe – senti mais uma vez seu olhar em cima de mim.
Assim que ele deu suas costas para minha mesa, encostei em minha cadeira, exausta.
– Caraca, ela está mesmo brava com você – Claire disse ao meu lado.
– Brava é pouco – Erin falou. – Eu achei que ela fosse gritar um "você está demitida!" assim que viu o que você disse ao . , você tem que parar de enfrenta-la.
– Não é como se eu estivesse pedindo para ela me dar um motivo para retruca-la! – virei minha cadeira para ela. – Essa mulher, ela... – fecho meus olhos.
– Ela tem razão – Tony se pôs ao meu lado. – Lauren está sendo injusta com .
Ninguém ousou dizer mais nada. Olhei para Guy e Nally, que procuraram nem olhar para mim. Talvez estivessem perturbados com minha proximidade com , não os culpo. Nessas horas, desejaria ser mais próxima a eles para que pudesse me abrir como fiz com Amber; ela olhou para mim preocupada, mas me limitei a abrir um sorriso. Seria pior se soubessem que ela está do meu lado. Ela poderia não conseguir a promoção que queria.

Uma sexta por trimestre nós da equipe de design costumamos trabalhar no escritório para o fechamento de coleções e conceitos. O happy hour desse dia é sempre mais agitado que o de quinta por não haver dia útil no dia seguinte. Hoje, especialmente, as equipes de criação e marketing estavam unidas para comemorar o aniversário de Helen, uma das integrantes da equipe de marketing muito querida no nosso grupo.
– Seria bom nos dividirmos em carros – Aldo, gerente do marketing, falou olhando para todos já prontos. Eu ainda estava com meu computador ligado, de modo que fui deixada para o último grupo. Nós iríamos a um pub que pertencia ao namorado de Helen; por ser dele, o local foi fechado exclusivamente para a comemoração. – , você pode ir com o Brian? Ele irá só às oito.
– Claro, ainda tenho que finalizar algumas coisas, fique tranquilo – levantei a mão, vendo o alívio por não haver espaço para mim nos carros já combinados.
Os coordenadores obviamente foram convidados, mas nenhum mencionou comparecimento. É claro que eles não vão. Há uma regra clara no ambiente corporativo em que deve ser traçado um limite na relação de funcionário e superior. O limite é o horário do almoço. Qualquer coisa fora significa relacionamento pessoal, o que é péssimo em uma empresa que incentiva a luxúria nas pessoas – todos são tão interessados na vida alheia do que nossos clientes.
Deixei o horário em aberto para Brian. Se ele quisesse sair antes ou depois do horário, para mim não teria problema. Porém, quando bateu sete e quarenta, Brian veio com o rosto vermelho, o suor escorrendo e o nervosismo estampado.
– Algum problema?
– Bem, estou muito envergonhado por não poder cumprir com o nosso combinado – ele mexia as mãos sem graça. – Mas minha esposa entrou em processo de parto.
– Agora? – abri a boca, vendo–o assentir. – Meu Deus, parabéns! E o que você está fazendo aqui?
– Bem... Você...
– Pelo amor de Deus, Brian, seu filho está para nascer e você está preocupado comigo? – me levantei, o empurrando. – Vá logo! Você precisa estar lá! Vai! Eu desligo sua máquina, não precisa salvar nada?
– Obrigado, ! É só salvar tudo o que está em aberto! – ele não conseguia sorrir, nem chorar de emoção. Entre gaguejos e tropeços, pegou seu casaco e a pasta de couro, e saiu correndo em disparada até o elevador que por sorte estava parado em nosso andar.
Suspirei, feliz por ele. Por outro lado, triste por mim. Minha carona havia ido embora e eu não conseguiria chegar antes do pub ser liberado para o público, às nove. Ele era do outro lado da cidade e uma sexta-feira nunca é vazia o suficiente para eu conseguir atravessar de transporte público.
Peguei meu celular, que carregava, e mandei uma mensagem de texto para Claire, que logo em seguida me ligou:
– COMO ASSIM VAI NASCER? ELE JÁ FOI? VOCÊ NÃO VEM?
Distanciei o aparelho do meu ouvido, já que minha audição claramente está melhor que a de Claire. Apoiei meu peso no encosto da cadeira e observei o andar vazio:
– Não conseguirei chegar a tempo, mas aproveite por mim – sorri. – Nah, está tudo bem, vou passar em uma loja de conveniência que tem perto de casa e comprar minhas besteiras para o final de semana. Até.
Assim que desliguei, senti o peso de estar sozinha me pegar. Olho para os desenhos em minha mesa e resolvo termina-los, já que estou aqui. Se eu conseguir finalizar tudo como quero, tudo o que terei de fazer no final de semana é focar na nova coleção; para desenhar fica bem mais fácil.
Eram quase onze da noite quando deixei a última pasta em cima da mesa de Lauren. Respirei fundo, sentindo um enorme peso ser retirado dos meus ombros e verifico como está a rua afora. Não estava tão cheia, tampouco vazia. O clima ainda estava fresco, por isso, as pessoas tinham mais liberdade de andar na rua sem passar calor ou frio. Saber que um vento refrescante me pegaria assim que saísse do prédio me fez ficar um pouco mais feliz. Corri até minha mesa e comecei a fechar todas as janelas do meu computador até finalmente desligá-lo.
Ao colocar a alça de minha bolsa no ombro, o apito do elevador privado soou e apareceu olhando para a tela do celular.
– Oh – soltei, sem querer, chamando sua atenção. Suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente e a boca formou um 'O'.
, o que está fazendo aqui?
– Ah, quis deixar o trabalho pronto na mesa de Lauren antes que ela... Nada – olhei para seu rosto sério e nossas posições nessa empresa. Peguei meu celular e guardei o fio com a bateria em minha bolsa.
– Está saindo? – ele perguntou, caminhando em minha direção. Seu terno azul marinho, apesar de estarmos no fim do dia, ainda estava liso e sem nenhum sinal de amassado. Além disso, os cabelos continuavam perfeitamente arrumados com o gel, tornando-o um homem como os dos catálogos da Armani, ainda mais atraente.
Eu preciso começar a considerar ter alguém para um sexo casual. Não estou sabendo lidar com meus próprios hormônios e já passei dos vinte e cinco. Isso está errado. também está errado, afinal, ele não pode ser assim tão... Sedutor em plena sexta-feira. Deveria haver uma lei que proíbe homens de serem atraentes a mulheres que não devem ou não podem tê-los em suas camas. Não é à toa que Lauren gasta todo seu tempo tentando conquistá-lo. Qualquer mulher, burra ou inteligente, o faria. é rico, é bonito, é sexy e está praticamente no topo da pirâmide de personalidades influentes de Nova Iorque. Ou talvez dos Estados Unidos?
– É... Sim.
– Você não tinha uma festa hoje? De uma das funcionárias do marketing?
– Ah, sim. Eu deveria ter ido com Brian às oito, mas a esposa dele entrou em processo de parto, por isso tivemos que cancelar a programação – segui até a porta do elevador, esperando ele chegar.
– Cancelar? Você preferiu ficar aqui a ir festejar?
– Não, eu só não chegaria a tempo – arrumei meu cabelo no espelho do elevador. – Transporte público em uma sexta à noite nem sempre é solução – abro um pequeno sorriso.
– E por essa razão, trabalhar é uma solução – ele balança a cabeça com o famoso sorriso irônico estampado em seu rosto. – Tento entender em qual grupo você está: das que gostam do trabalho ou não gostam dele.
– Eu gosto do meu trabalho, senhor – falei, o seguindo para fora do elevador. – Só há dias que as coisas não saem da maneira que você quer.
– Como ontem – ele disse. – Ou hoje de manhã.
se referia à minha relação com Lauren. Então ele está me observando ou a está observando, ótimo. Talvez assim ele possa me ajudar. Ou não. Seu olhar mostra que ele ainda pouco se importa com minha posição, mas tem de considerá-lo porque sou a melhor designer de joias da empresa. Pode ser até que o fato de eu ter sido a aprendiz de sua mãe signifique algo a mais; não, se fosse assim, eu receberia um tratamento especial. É o que acontece com gênios.
Paramos em frente ao seu carro estacionado com o motorista aguardando com a porta aberta. Diferente da vez quando estávamos em frente ao restaurante japonês e eu criava uma mentira para poder lhe dispensar mais cedo, não estava com o ar de quem não vai dar uma carona e não quer a companhia para o fim da noite. Suspirei e arrumei a alça de minha bolsa no ombro.
– Bom final de semana, senhor – digo, erguendo a mão antes de me afastar e ir em direção à estação de metrô.
– Você não está com fome? – ele perguntou quando eu já havia dado cerca de dez passos. Virei em sua direção achando que não havia ouvido direito, mas ele continuava parado no mesmo lugar com as mãos nos bolsos e a expressão de quem espera uma resposta.
Penso se há algum tipo de pegadinha em sua proposta. Permaneço parada encarando sua expressão séria, nada ansiosa por uma resposta. Observo seu comportamento corporal e gostaria que ele fosse mais transparente.
Mas quem disse que eu deveria pensar demais?
– Estou faminta – falo, vendo–o então abrir um pequeno sorriso e ir em direção a seu carro.

Fomos a um restaurante popular. Eu não esperava que ele me levasse a um fino, é claro, sou sua funcionária e isso não é um encontro, de modo que eu terei de pagar o que comer. O Olive Garden é um bom restaurante que oferece uma seleção de pratos bons e relativamente baratos, com salada ilimitada e pães deliciosos de acompanhamento. Por estarmos em uma sexta à noite, o esperado era que tivéssemos de esperar uma hora e meia a duas horas para recebermos uma mesa, mas parece que até aqui as pessoas sabem quem é, de modo que não tivemos de esperar nem cinco minutos para estarmos sentados em uma mesa iluminada por uma fraca luminária e pelos telões da Time Square do lado de fora.
– Hoje recebi o briefing da coleção de natal – ele olhou para mim assim que o garçom se afastou depois de ter deixado o cardápio conosco. – Achei que você fosse a responsável por ele.
– Eu também. Mas Tony veio me dizer ontem que Lauren o nomeou como novo responsável da coleção. Não recebi nenhum dado, então...
– Você não tem ideias projetadas? – ele me cortou. Olhei em seus olhos e é como se ele já soubesse como lidar com situações assim. Uma funcionária que lhe deve uma explicação sobre por que foi retirada de um dos projetos de maior importância.
– Na verdade, eu tenho metade da coleção desenhada. E a outra metade em rascunho.
– E por que você não disse à Lauren?
– Porque a Lauren sequer me disse que eu não faria parte dele – no momento em que ele balançou sua cabeça em desaprovação, a casa caiu. – O que você espera que eu faça? Retruque Tony dizendo que ele não pode fazer porque eu já tenho a coleção pronta? É claro que eu não faria isso, o que ele tem a ver com minha relação com Lauren?
– É por isso que você está sendo rebaixada – ele finalizou meu argumento.
Não consegui abrir a boca porque parte de mim sabe que ele tem razão. Que se eu me impusesse mais, talvez eu estaria em uma situação diferente. O problema é que da mesma maneira que eu não confiava em Barbara para me proteger caso Lauren tentasse me demitir, também não confio em . Além disso, eu sempre acreditei que a única pessoa ousada suficiente para conseguir jogar sujo era Lana.
– Os seus desenhos estão em um nível superior a do resto da equipe – ele se inclinou para a mesa e cruzou seus dedos. – Todo mundo sabe disso. Por que você acha que Lauren não te demitiu até agora?
– Eu sei qual é o plano dela e eu sei do meu valor à empresa, mas você acha mesmo que eu tenho poder suficiente para pisar em cima da minha supervisora e sair ganhando? Desculpe, , algumas pessoas não nascem para derrubar as outras, elas vão fazendo suas próprias oportunidades.
– E você acha que sairá dessa como? Calada?
– Você quer que eu vá até Lauren e fale o que eu acho? É isso? Porque se você quiser, eu vou falar, sim, o que eu acho dela, mas se responsabilize pela minha demissão ou pela falta de publicidade nas revistas de moda. Há muito mais do que meu capricho nessa jogada, ; mesmo não sendo do Conselho, sei o que vocês falam lá. A garota é talentosa e está sofrendo na mão da coordenadora, mas não podemos perder Lauren Beckheart e seus contatos.
Parei de falar quando o garçom chegou para pegar nossos pedidos. Neste momento, percebi que meu corpo estava inclinado, como se estivesse o atacando. Encostei em minha cadeira e passei os olhos pelo cardápio rapidamente, mas eu já tenho meu prato favorito neste restaurante, por isso, quando o moço me encarou eu apenas soltei meu pedido decorado e entreguei-lhe o cardápio.
– Se você está tentando fazer que eu tome uma atitude, obrigada pela preocupação, mas eu já tomei uma atitude antes e acredite, Lauren não me odeia porque eu desenho melhor que ela e eu não caí de posição porque ela decidiu escolher aleatoriamente sua próxima vítima.
Houve um problema em minha relação com Lauren que somente Vincent e Barbara sabiam. Durante o processo de transferência de informações e dados de Vincent para Lauren, eu era peça importante na explicação do funcionamento da equipe. Vincent era nosso coordenador, mas isso não queria dizer que ele sabia de tudo sobre nossa equipe. Lauren mostrou interesse em trazer seus próprios funcionários, mas Barbara disse que ninguém em sua equipe seria demitida. Com o tempo, Lauren iniciou seu plano barra-pesada. Ela dava uma carga de serviço inexistente e trabalhosa para alguns integrantes das equipes e aos poucos as pessoas foram pedindo demissão. Foi quando Tony, Guy e Nally entraram. Eles vieram da concorrência e sempre foram muito queridos na equipe, além de não gostarem de Lauren também, mas o fato dela ter os colocado na significava que eles ficariam ao seu lado quando ela quisesse. Em uma oportunidade que tive, reclamei com Barbara sobre a atitude de Lauren e ela, como sempre, não fez a escolha certa sobre como abordar um problema entre pessoas. Chamou Lauren em sua mesa e informou sobre a importância de uma liderança que fosse justa com todos da equipe. Lauren veio de uma empresa onde ela coordenava duas equipes de uma só vez e em grande harmonia, por isso, quando foi chamada para receber um chamativo, ela automaticamente me colocou como seu próximo alvo. Aposto que ela não achava que fosse ser tão difícil.
não soube o que dizer, porque me pareceu ser uma novidade que ele não sabia. Ele me pareceu um pouco conturbado por descobrir algo fora de seu alcance. Permanecemos calados por um tempo enquanto ele procurava uma nova maneira de querer me perturbar e sair por cima, como no dia de nosso encontro quando fui deixada sozinha para trás.
– Você sabe que não pode subir no mundo empresarial sem jogar sujo, não é?
O que ele disse me fez encará-lo. Ficamos trocando olhares até eu desistir dessa brincadeira de quem cede primeiro e falei:
– O que você quer dizer com isso?
– Você já está há anos nesse meio. O que você ganhou até agora? Status? Confiança? Portfólio? , você precisa começar a olhar para o seu próprio umbigo e parar de ter medo das consequências.
– E o que você sabe sobre os meus medos?
– Eu sei que eles estão te fazendo perder o valor que realmente tem – não foi sua sentença que me fez ficar calada, mas seu olhar que dizia mais do que as palavras. Era a primeira vez que me encarava com os olhos cujas pupilas se encontravam dilatadas e escuras, diferente de quando nos encontramos pela primeira vez.
– Você está me dizendo para armar contra Lauren?
– Eu jamais falaria isso.
– O que você sabe sobre jogar sujo? Você é um herdeiro. Você não precisa jogar sujo para chegar aonde está.
– Você tem certeza que foi aprendiz da minha mãe?
Sua pergunta me fez pensar. Agora que ele mencionou, lembro-me bem do perfil de Barbara durante o trabalho. O respeito que eu tenho vindo dos meus colegas de equipe não se deve ao fato de que fui aprendiz dela, mas sim porque meus trabalhos são claramente melhores. Barbara jamais favoreceu uma pessoa apenas porque está mais ligada a ela. Além disso, em seu discurso de despedida, ela me pareceu mais ligada ao seu desligamento à empresa do que estar seguindo seus passos – porque não está seguindo os passos dela, a começar pelo fato de todos na empresa adorarem-no.
– É por isso que sua personalidade é diferente – comentei. Esperava manter meu comentário somente para mim, mas me pareceu que ele ouviu muito bem, mesmo no ambiente barulhento em que estávamos. Vi um sorriso discreto tomar lugar na seriedade de seu rosto. – Você está jogando sujo.
– E não estou nem perto de uma crise como você parece estar.
Soltei uma risada de descrença. É normal esperarmos esse tipo de comportamento das pessoas ricas. Mas geralmente elas agem de maneira tão falsa que até um cego conseguiria enxergar sua falta de habilidade em paparicar os outros. Contudo, sabe quando ser exigente e sabe quando deve ser simpático. Sabe como falar com cada pessoa e o que exigir de cada um. Além disso, ele é o chefe que todos adoram porque demonstra valor no que fazem. Barbara nos fazia sentir que era uma obrigação sermos os melhores, mas ele faz parecer que temos um dom.
– Às vezes me pergunto – parei de falar assim que percebi o que estava para sair de minha boca. “... como posso achar que você vale alguma coisa” não é o certo a se falar para o chefe, mesmo estando em um jantar com ele fora do ambiente de trabalho. Por sorte, o garçom chegou com nossos pratos no momento em que parei, de modo a parecer que sua interrupção foi a razão de me fazer ter parado.
– Por que você decidiu ser uma designer de joias contratada? Temos condições melhores de negociar de modo terceirizado – ele perguntou entre uma garfada e outra.
– Nenhum designer gosta de se manter longe das decisões de suas criações. Quando trabalhava de graça, eu não tinha uma mesa na empresa e raramente era chamada para uma reunião para saber sobre o andamento da produção. Por sorte, Barbara sempre teve bons olhos com meus projetos e soube dar sequência e orientação à equipe da fábrica, mas eu não gostava da sensação de não saber lidar com este passo. Queria saber a opinião de todos, que tipo de material eles sugeririam usar que fosse melhor, quais os caminhos alternativos que seriam julgados, coisas que nós, designers, não costumamos pensar porque temos de entregar um projeto pronto.
– E por que você não sai agora?
– Você quer que eu saia? Porque se eu fizer, não trabalharei terceirizada. Agora eu sou profissional completa, . Eu jamais aceitaria um salário terceirizado.
Ouvi sua risada de quem estava se divertindo. Mas eu não estava me divertindo. Ele estava arranjando argumentos para me afastar da empresa e isso não me parecia motivo para se regozijar em risos.
– Você está aprendendo a jogar sujo.
– Eu acho que nossos conceitos se divergem então.
– Não, , não se divergem, não – ele apoiou o braço na mesa, afastando o prato vazio para longe. – Você é exatamente igual a mim, só ainda não recebeu motivo para despertar.
– Você fala como se me conhecesse, . Mas você não me conhece.
– Você é minha funcionária, . Eu sei sobre você. Sei que sua carreira inteira está na minha empresa. Sei que você espera que seu futuro esteja na minha empresa. Você apenas poderia deixar o seu orgulho um pouco de lado e ouvir o que eu tenho a dizer.
– Ouvir, , é diferente de fazer o que você diz. Você está me falando para jogar sujo e eu estou dizendo que não irei fazer isso.
– E você, por acaso, não sabe o que é persuadir?

O jantar com foi de agradável para desastroso. Por um momento, achei que nós estávamos conversando como colegas de trabalho, como um chefe que quer saber mais sobre uma funcionária e que estivesse lhe dando dicas de como melhorar seu serviço, mas estava mais preocupado em querer me ensinar a trabalhar. Me ensinar a lidar com minha coordenadora.
Assim que saímos do Olive Garden, me despedi dele com a mesma raiva e desinteresse em permanecer em sua companhia que sentia no dia de nosso encontro às escuras. Ele, como aquele dia, também não ofereceu uma carona e apenas acenou, dando-me as costas e caminhando até a rua onde seu carro o buscaria.
Passei a caminhar em direção ao metrô. O centro estava uma loucura devido aos turistas e seria muito mais vantajoso pegar o transporte público ao táxi. Dentro do bolso do meu casaco, meu celular vibrou, indicando a chegada de uma mensagem:
, não se esqueça de que iremos praí no 4 de julho. – Max”
Droga. Corro meus dedos para visualizar o calendário e o dia 04 já era na próxima sexta. Ótimo. Tudo o que eu queria era uma reunião familiar na cidade onde eu moro, onde não posso nem fugir e ir embora sem ter a obrigação de retornar.
Max é meu irmão mais velho. Apesar de termos três anos de diferença, parece que é apenas um. Ele sempre agiu como o irmão valente que gosta de proteger suas irmãzinhas, mas nós dois sempre soubemos que essa sensação de ternura é válida somente com Céci, nossa irmã mais nova. Desde pequenos eu sempre sou a criança problemática e lenta, que não age na hora certa e comete erros bobos, como deixar travessas caírem no caminho da mesa ou deixar um vidro cair na loja de cozinha. É verdade que meu raciocínio é mais lento que a dos dois, cujos QI’s devem ser superior ao de Einstein – Max, pelo menos, age se fosse –, mas não significa que eu seja burra. Céci sempre foi uma querida para todos. Notas boas, vestidos floridos, corpo miúdo, olhos castanhos enormes, cabelos em corte Chanel e aquela voz tranquila que todo mundo ama ter de consolo na hora da tristeza. Ela é a boa samaritana que fez a faculdade de veterinária que os pais queriam. Max, por outro lado, fez o curso de engenharia para trabalhar na fábrica em que meu pai trabalha. O fato de ter um emprego com um salário que sustenta uma família de cinco facilmente só para ele não era um mau negócio. Ele só teria que se formar no curso solicitado pelo dono. Por essa razão, quando eu decidi que faria administração em Nova Iorque, é claro que meus pais surtaram. No início eles intitularam minha atitude como um ato de rebeldia; depois que entrei para a e dava joias caríssimas de natal e dia das mães para minha mãe, eu era a filha que teve sucesso na cidade grande.
Max é casado com Lua, sua amiga de infância. O anúncio foi feito no dia do meu aniversário há cinco anos, um castigo por eu ter ido embora no dia do seu aniversário, tornando–o um esquecido aquele ano. Eles se casaram porque o pai de Lua acreditava que ela deveria se casar aos 21. Como Max tinha 24 e um trabalho com um salário ótimo, foi como bater o martelo em uma audiência. Meu irmão disse que foi bom, porque no final das contas ele também ganhou um aumento e o seguro família. Mesmo eu e Lua tendo a mesma idade e dividido as mesmas salas de aulas até o fim do colegial, é como se fossemos estranhas à outra. Eu sempre andei com Lana e Amy, e possuíamos a política do “ninguém mais entra no nosso grupo”; além disso, de boa samaritana entre nós, já bastava Amy.
Não é que eu não goste de encontrar com a minha família. Desde a morte da mamãe há dois anos, meu pai anda mais carente ou mais estressado, por isso, pede para passarmos com ele as datas que eram especiais para ele e nossa mãe, como o 4 de julho. No natal, decidiram que o 4 de julho deste ano seria em Nova Iorque para ver alguns fogos e então bebermos e comermos comida boa em algum restaurante que eu deveria reservar. Olho para os lados, como se alguém fosse me dar o pesar e suspiro. É melhor que eu não me faça de esquecida ou é capaz do meu pai me tirar de seu testamento.
“Ok, me mandem os nomes e números dos cartões para eu fazer as reservas dos quartos. Bj.”
Encarei o céu escuro e sem estrelas. Ele não estava muito bonito, é possível enxergar algumas nuvens cinzas pairando. Mesmo estando quase no verão e com a escassez de chuva, anormal nessa época, o tempo só é bonito durante o dia, principalmente porque estamos praticamente passando por um heat wave, só que fora do verão; ele é uma onda de calor que torna Nova Iorque insuportável de se viver. Resolvo voltar a caminhar, porque quero ter mais tempo para pensar no que discuti com no jantar. Enquanto caminho, penso nos próximos passos que devo tomar com relação a Lauren. Meus recursos estão acabando e se ela continuar tirando os projetos principais de minha mão, sabe-se lá quando poderei ver meu nome nas coleções novamente.
E mais do que tomar alguma atitude drástica, o que eu menos quero é mostrar para que, no final das contas, ele estava certo.

Era quarta-feira, véspera da véspera de feriado e todos estavam animados para iniciar o happy hour um dia antes. Algumas pessoas combinavam de se encontrar e outras contavam seus planos, como Claire:
– E então minha mãe decidiu que quer ir para Califórnia visitar minha tia. E vai me arrastar junto – ela suspirou. – Eu achava que poderia passar por aqui, arranjar um namorado, sei lá.
– Você fala como se fosse fácil arranjar um namorado, Claire – sorrio, achando graça de sua ingenuidade. Apesar da diferença de idade entre nós duas, Claire sempre foi mais madura do que as garotas da geração dela; uma explicação é ela ser a irmã mais nova de três mulheres. Se eu tivesse uma irmã mais velha ou pelo menos não tivesse um irmão mais velho para me servir de exemplo, ou então conversasse mais com a minha mãe como Céci fazia,  talvez fosse menos tola.
– Bem, não deve ser tão difícil. Eu não costumo “procurar namorados”, sabe? – ela faz as aspas com as mãos e então uma careta. – É trabalhoso.
– Bota trabalhoso nisso.
– Vocês não sabem! – Erin se aproximou correndo da área da cafeteria, chamando a atenção de todos que estavam próximos. – Tenho um babado gi-gan-te para dividir com vocês! – ela puxou sua cadeira para o centro de nós, perto de mim, e esperou que todos estivessem próximos e atentos à sua fofoca: – Eu estava conversando com Helen sobre um encontro duplo que tivemos no sábado, mas que não deu certo porque os caras eram daquele tipo...
– Pula a introdução e vá para clímax, querida – Guy deu–lhe um tapinha de leve porque sempre que alguém diz “vocês não sabem!” ele automaticamente ativa seu lado curioso que é insuportavelmente rude até saber da fofoca.
– Bem, nós nos separamos e Helen disse que foi para um outro bar encontrar com umas amigas de infância. Quando ela chegou lá, quem ela encontra? Casal 101 – mexe os olhos na direção da sala de .
Casal 101 é o código que eles criaram para mencionar e Lauren. Como nossa chefe estava desesperada para chamar a atenção dele e todo mundo da empresa sabia, eles deram o apelido para os dois de 101: 100 para e 1 para Lauren, a nota de suas avaliações como pessoa em um geral. Olhei para a sala de no mezanino, mas as persianas estavam fechadas.
– Mas eles estavam juntos, juntos? Ou era só um encontro em que Lauren dá em cima dele? – Claire aproximou sua cadeira de Erin, que negou.
– Eles estavam juntos. Helen até disse que Lauren estava absurdamente romântica aquele dia, enquanto apenas retribuía seus carinhos. Ela me mandou uma foto, olhem – ela pegou o celular e mostrou a foto um pouco fosca por ter sido tirada às escondidas.
Não havia como negar, eles estavam em um relacionamento. estava sentado na poltrona da área de espera do restaurante com o braço em torno dos ombros de Lauren, que tinha os lábios em seu ouvido. Na foto seguinte, eles dividiam um pequeno beijo – bem, pequeno para a foto, não sei a proporção dele na realidade.
Ver a foto embrulhou meu estômago. É irritante como Lauren consegue tudo o que quer. Ela consegue ser uma coordenadora de uma equipe que mal entende, recebe um salário que a permite fazer seus tratamentos e cirurgias sempre que quer, possui tanto tempo livre que pode se dedicar a manter seu corpo violão em forma e o bronzeado natural, tem um marido milionário que vive mais da metade de seu tempo longe dela e agora, um amante mais rico que ele. Olhei para mais uma vez na foto, para me lembrar por que eu devo odiá-lo. Tudo bem, eu sei que não sou uma beleza exótica como Lauren, mas tenho minhas qualidades. Minha autoestima não chega ao pico do Everest como o dela, mas metade do caminho, quem sabe.
O pior foi achar que ele estava se preocupando comigo quando veio conversar na sexta–feira. Ah...
– O que foi, ? – Amber perguntou, chamando a atenção de todos para mim. – Você está bem?
– Só uma pontada de dor de cabeça, vou tomar um remédio para melhorar – sorri, mentindo.
O som do sinal vindo da recepção soou em nossos computadores, indicando que estava chegando. Apesar da reação não ser a mesma de quando Barbara chegava, semana passada suspendeu por alguns dias uma estagiária que fazia as unhas e usava as joias da concorrência quando chegou; por conhecer todos os integrantes de sua empresa, era mais fácil para ele comunicar a nós alguma notícia ruim. Sua atitude mostrou que ele estava de olho em tudo o que fazíamos, retornando com nossa cautela.
Quando o elevador chegou ao nosso andar, todo mundo tentou se concentrar em seus afazeres, mas, especificamente para quem sabia do babado que Erin havia acabado de dizer, não puderam evitar olhar para Lauren e entrando juntos. Lauren, como sempre, falava sem parar, mas estava de olho em todos e murmurava ‘bom dia’ para aqueles que os olhares cruzavam. Quando ele fez menção de olhar para a nossa área, fingi que estava trabalhando com os fones de ouvido, algo permitido somente para a equipe de design, e não interessada em saber sobre o affair em que os dois se encontravam.
  A única coisa boa da relação dos dois, é que Lauren se tornou mais fácil de se lidar. Por aparentemente ter “ganho” de mim – ou de qualquer mulher na empresa e em Nova Iorque –, ela estava menos insuportável – mas ainda insuportável – do que antes.
, sei que entraremos em feriado, mas preciso da coleção de dia dos namorados na minha mesa amanhã. pediu que fosse entregue porque ele irá discutir a possibilidade de novas pedras para ela vindas do México, mas precisa dos desenhos para conversar com os possíveis novos fornecedores.
– Pode deixar, estará na sua mesa amanhã – falo, tentando ao máximo colaborar com seu bom humor. Sem resmungar como antes, me dá as costas e volta para sua mesa.
– O que um pouco de sexo faz na vida das pessoas – Claire sussurra para mim e trocamos risadas. Olho para as costas de Lauren e balanço a cabeça.
É claro que eu não estou com inveja.

– Você está com inveja – Lana disse naquela noite. – Olha, eu sei que você acha o seu chefe insuportável, mas ele não deixa de ser um Deus. E veja, você mesma disse que se a personalidade dele não fosse tão ruim, abriria as pernas fácil para ele.
– Lana! – Amy chamou sua atenção, quase deixando derrubar a garrafa do vinho no chão. – Mesmo com a maneira indecente de se expressar, eu concordo com ela, . Veja bem, todo mundo ao seu redor está em um relacionamento...
– Quem além de você está em um relacionamento aqui? – Lana a cortou rudemente e olhamos para ela, como se fosse óbvio.
– Se eu estou reclamando de , a única pessoa que sobra é – aponto para Lana, que revira os olhos. – Cai na real, Lan, somos amigas. Você pode fazer todo o papel de durona, “sou dona do meu próprio corpo e quem manda nos meus relacionamentos sou eu”, mas o sentimento acaba com toda essa perspectiva. Nós sabemos que você está em uma relação com o Klint porque nós vimos a lista de compras para o jantar que você irá preparar no 4 de julho na casa dele.
Não é fácil ver Lana com vergonha e ter suas bochechas coradas naturalmente, por isso, evitei até piscar para não perder a obra de arte que consegui fazer.
– Está muito na cara então – ela chegou à conclusão.
– Eu não saberia se não tivesse visto a lista – Amy disse. Lana olhou para mim e eu abri um sorriso:
– Você sabe que eu sempre fui a mais esperta de nós três – brinquei, recebendo uma almofadada na cara.
– Ele falou sobre relacionamento – Lana iniciou sua narração. Não me importo de ter meu momento deixado de lado, até porque adoro ver esse lado vulnerável dela. – Depois do sexo. Como é que eu vou responder que ‘não’ depois do sexo? Eu já disse que ele é ótimo de cama?
– Você praticamente narrou o sexo para nós, Lan – falei, mexendo a mão para que ela pulasse uma nova abordagem.
– Bem, ele estava fazendo uma massagem, hum, vocês sabem. Porque ele gosta de... Tudo bem, não vou falar! Vocês são muito sem graça – reclamou quando viu Amy ameaçar se levantar e eu pegar o controle da televisão. – E disse “por que você tem tanta aversão a relacionamentos?” e eu falei que não tinha, que só gostava de ter liberdade. E então ele falou que se eu entrasse em uma relação com ele, poderia ver que eu não me sentiria tão presa quanto acho.
– E você? – Amy perguntou, servindo-se de mais uma taça de vinho.
– Não respondi, é claro. Deixei que ele entendesse o que quisesse entender, e naquele momento, tenho certeza que ele entendeu que a falta de resposta era fator favorável.
– Uau. Lana em um relacionamento – pensei em voz alta. Encarei as duas, que estavam tão pensativas quanto eu, afinal, Lana nunca pensou na possibilidade de se fixar a alguém – Saúde! – levantei minha taça, tirando risadas das duas.
– Se você quiser, posso pedir para o Jordan conversar com .
– Não, não, não – balançou a mão livre – Não quero que ele se intrometa no relacionamento do .
– Mas é isso o que amigos fazem. Se intrometem. Principalmente quando se trata de uma garota de programa de elite – Lana olhou de canto para Amy, que nos obrigava a trocar palavras como “prostituta” e “vadia” para seu bem estar. Comeu um pedaço do suflê light que havíamos preparados juntas e balançou o garfo enquanto continuava a falar. – Honestamente, , você precisa se decidir se está ou não interessada no seu chefe.
– Eu não estou interessada nele, mas que coisa! – falei, batendo o pé no chão. – Só vim fazer um comentário sobre o absurdo de Lauren ter amante em uma relação fechada.
– Se você quer saber – Lana falou. –, eu faria exatamente o mesmo que ela se visse um corpo bonito desse na minha frente. Além disso, aquele marido dela passa mais tempo velejando do que cuidando de sua mulher. Ele está pedindo para receber um belo par de chifres.
Olhei para Lana, perplexa. Desde quando ela apoia Lauren, eu não sei, mas é bem típico dela, mesmo achando que por se tratar de minha inimiga, ela poderia ser mais sensível e chamá-la de piranha.

Quem não conhece meu pai poderia achá-lo um homem bonito em quase seus 60 anos. Bem enxuto, com prazer em se exercitar e ser saudável. A verdade por detrás de sua aparência esconde um homem carente com saudades de sua esposa e louco para fazer loucuras, como aprender a dançar tango ou abrir um curso de informática para a meia idade, apenas porque o professor dele disse que ele era o melhor aluno que já teve.
Vi seus cabelos brancos surgirem no saguão do hotel. Ele havia chego com minha família pela manhã, mas devido o trabalho extra que Lauren passou no dia de home office, eles adiaram um dia por não termos a sexta-feira útil; não pude buscá-los no aeroporto, garantindo que iria do escritório para o hotel e sairia da empresa no horário correto.
– Meu recheio! – meu pai abriu os braços em um enorme sorriso de comercial de pasta de dente. Ele tem a mania de me chamar de recheio de vez em quando porque sou a filha “do meio”. Um apelido que diz ser carinhoso, apesar de nunca ter chamado Max ou Céci de “pães”. – Estive com muitas saudades, como anda minha maionese favorita?
– Pai, maionese? – fiz uma careta, esquisita o suficiente para ele soltar uma alta gargalhada. Ele fazia de propósito porque achava engraçado quando eu fazia caretas. – Bem, está tudo bem.
– Fiz uma reserva em um restaurante hoje, mana – Max se aproximou com seus 1,84 de altura e me deu um beijo na bochecha enquanto Lua sorria para mim com seus cabelos louros presos em um rabo baixo e o vestido azul solto. Às vezes cismo que ela me parece a Cinderela com seus trapos. – Lua quer comer hambúrguer amanhã, então você se importaria de nos levar naquela lanchonete maneira?
– Não, tudo bem – falo, olhando para Céci, acompanhada de Taylor North. – Olá, North.
Taylor, assim como Lua, foi da minha sala. Ele era um popular que tentou transar com Amy porque todo mundo queria tirar a virgindade da última viagem da sala – ela ganhou de Lua, pasmem –, mas como todos os outros, recebeu um belo fora. Céci sempre foi apaixonadinha por ele e somente quando estavam na faculdade que foram se conhecer de verdade. Taylor desistiu de agronomia e passou a fazer veterinária porque se encontrou nas cirurgias que acompanhou de seus cachorros, e o atraso por ter trocado de curso o fez cair na mesma sala que Céci, uma caloura animada pelo seu primeiro ano de aula.
– É impressionante como mesmo morando em uma cidade como essa, você consegue ser a mesma, – ele disse, com um sorriso parecido com a do meu pai. Tentei não revirar meus olhos para não chatear Céci. Ela não gostava quando eu e Taylor provocávamos o outro; achava que fazíamos isso porque não nos suportávamos. Bem, eu não o suporto.
– Acredite, isso é positivo. Venha pai, vamos em um táxi, os casais podem ir em outro. Qual é o restaurante, Max?
O Caramel é o típico restaurante popular que todos gostam de ir e está sempre cheio. No entanto, é um dos poucos que aceita reserva feita com mais de duas horas de antecedência, de modo que assim que adentramos no ambiente escuro e barulhento, fomos direcionados a uma mesa em uma sala separada das demais pessoas.
– Que sorte – falei, retirando meu casaco e a de meu pai.
Gastamos meia hora para decidirmos quais pratos iríamos querer. Como todas as outras vezes que vieram para Nova Iorque, eles estavam com medo de pedirem muita comida, por isso, todo mundo decidiu que queria dividir pratos. Eu cansei de falar que nós poderíamos pedir meia porção, mas os casais queriam agir como casais e meu pai gostou da ideia de poder fazer algo comigo, nem que esse algo fosse dividir um prato de refeição.
– Nós temos algumas notícias boas para falar, filha – meu pai sorriu orgulhoso quando o garçom saiu com nossos pedidos. Olhei para ele e, como sempre, li seu comportamento. Ele estava irrequieto e não parava de olhar para os outros quatro, como se pedisse permissão para iniciar o assunto. Seus olhos castanhos, apesar de idosos, estavam iluminados como no dia em que Céci se formou na faculdade.
Eu sabia que havia algo. Todos estavam agitados, trocando olhares como se pedissem permissão de surtar. Olhei para o rosto de meu pai mais uma vez, vendo-o sorrir tanto que eu poderia ver quase sua arcada dentária inteira, aquilo me fez relaxar um pouco. Meu pai, desde a morte da mamãe, finge muito bem estar feliz. Por eu não viver com ele sempre, mas manter contato por ter sido mais apegada a ele do que ela, sei diferenciar de quando é verdadeiro e quando está fingindo. Neste caso, ele não está fingindo.
– Ok, que notícias são essas?
– A primeira notícia é... – Max começou a falar, mas parou para fazer o suspense que sempre achou “divertido” fazer, mesmo que a diversão fosse somente da parte dele, achando que os outros estariam ansiosos para descobrir o que ele queria dizer. Max tem a pose de um irmão mais velho: os cabelos curtos, a roupa constituída de camiseta e jeans, um hábito que ele jamais trocou desde os 18 anos e uma pequena barriga mantida pela cerveja lealmente bebida nos finais de semana. Segurava a mão de Lua, uma boneca perto dele. – Lua está grávida de nosso primeiro filho! – Max sorriu e pegou a taça de champanhe que pediu para celebrar. Olhei para Lua que segurava seu copo de água e ergueu, sorrindo como jamais a tinha visto sorrir antes. Quando dizem que uma mulher grávida fica mais bonita, eu não imaginava que o efeito fosse ser tão repentino. Principalmente em Lua, que nunca achei ser uma deusa como Max costuma descrevê-la.
– Caramba! – sorri para eles. – Parabéns! – tilintei minha taça nas suas e bebi um enorme gole. – Para quando está marcado?
– Bem, nós descobrimos há cinco meses, mas queríamos contar para você pessoalmente e só conseguimos arranjar tempo para vir agora. É um menino e irá nascer no fim de outubro.
– Nossa, muito perto! Vocês farão um chá de bebê ou algo assim? – olhei de um para o outro e Lua abriu um sorriso sem graça.
– Na verdade, mana, estávamos pensando que você poderia organizar – Max começou a falar – Lua quer muito uma celebração e tivemos até pesquisando algumas festas para termos uma noção, mas não temos. E descobrimos que não temos jeito com essas coisas. Lua não quer algo como o chá de bebê de Rosalie Bern. Foi no rancho e horrível para quem era alérgico aos mosquitos.
– E o tema foi bem mal definido – Céci completou, tendo Lua concordando com a cabeça. – Quero dizer, , eles escolheram Frozen. Exatamente – ela explicou, quando abri a boca para questionar. –, o desenho. Rosalie teve a audácia de criar uma versão caipira da Elsa, você sabe, para conciliar rancho e rainha do gelo.
– Ai, pare de falar – tapei meus ouvidos, doloridos por ouvir as barbaridades de Rosalie Bern. Ela nunca teve noção do ridículo, mas dessa vez parece ter sido o fim. – Vocês querem que eu, a única pessoa que não está morando em Maine, organize o chá de bebê de vocês? – coloquei a mão no peito e vi as bochechas de Lua corarem.
– Caramba, , você poderia ser mais sensível ao recusar – Max iniciou a discussão. – Nós só queríamos uma ajuda pequena.
– Não, não estou recusando, me expressei errado, desculpe. Só estou surpresa que vocês pensaram em mim, quando Céci está na cidade e poderia ser muito mais eficiente do que eu, afinal, ela possui os contatos – apontei para minha irmã mais nova, que vi de relance olhar para Taylor, agora mais interessado no nosso papo.
– Sobre isso... – Céci começou a falar, chamando minha atenção. – A segunda notícia é que eu e Taylor vamos nos casar – ela ergueu sua mão e mostrou o anel de diamantes em seu dedo anelar. Seu rosto expressava uma mistura de animação com ansiedade. Céci, por alguma razão, sempre quis minha opinião e aprovação para tudo; pela primeira vez vi Taylor ansioso por uma reação minha, porque ele sabia exatamente o que Céci faria se eu fosse contra o casamento. Queria que a razão disso tudo não fosse o noivado deles, porque adoraria tirar proveito da situação para encrencar com ele um pouco.
– Vocês estão noivos? – peguei em sua mão, desesperada para ver o anel que não fui eu quem desenhei. – De onde é essa aliança?
– Filha, não comece... – meu pai murmurou ao meu lado e Céci rapidamente tirou sua mão de minha vista, suas bochechas corando com o sentimento de culpa.
– Não é da , , me desculpe – Taylor parecia sincero e nem um pouco arrependido. Bem, não irei culpá-lo, o valor da realmente não é doce e as pessoas de Maine jamais entenderiam seu verdadeiro valor. Além disso, Taylor jamais teve a vida boa que nós tivemos, já que papai com a posição dele na fábrica e agora como professor, e mamãe com a clínica veterinária vinda do nosso avô, nos fazia ter uma vida bem agradável. – Eu queria ter podido te pedir um design, mas não queria esperar mais.
Olhei para Céci, minha irmã mais nova, que esperava por qualquer reação minha que não fosse relacionada à aliança que eu deveria ter desenhado. Suspirei e abri um sorriso, decidindo que eu poderia me vingar de Taylor mais tarde.
– Você está feliz? Sem ofensas – olhei para Taylor. – É isso mesmo o que você quer?
– É isso mesmo – ela sorriu, seus olhos começando a ameaçar marejarem. – Sou a mulher mais feliz do mundo agora.
– Bem, então espero que Taylor mantenha esse status – mandei um olhar de ameaça que o fez rir junto do resto da mesa. Eu poderia parecer que estava brincando, mas ele sabia que não estava. Céci, apesar de ser bastante responsável, era minha irmã mais nova e eu ainda sentia certa responsabilidade por ela mesmo não morando mais perto.
– Você será minha madrinha, – ela segurou minha mão. – Quero que minha irmã seja minha única madrinha.
– Uau – abri um sorriso. – Madrinha de Céci e organizadora do chá de bebê de Lua. Isso sim é um 4 de julho interessante – falei, tentando não demonstrar meu desespero por receber dois papéis importantes na vida da minha família inteira. Eu. . A mulher que estava resmungando a alguns dias sobre ter de receber a família em Nova Iorque.
– Então podemos confirmar? – Max perguntou, ansioso. – Queríamos uma resposta urgente, porque você sabe como é a mãe da Lua, toda desesperada e querendo ela mesma organizar tudo.
– E ela irá organizar de alguma maneira? – perguntei, um pouco receosa porque eu e a mãe de Lua não temos o mesmo gosto e costumamos entrar em uma discussão calorosa toda vez que discordamos de algo que a outra diz. Ela conseguiria se contentar com minha organização se não participar do desenvolvimento, mas uma vez parte das decisões, nós entraríamos em um belo conflito “familiar”.
– Tentarei mantê-la longe, ela já organizou nosso casamento – Lua disse em uma voz serena e olhou para Max, que concordou. – Achamos que o chá de bebê pode ser nos moldes da família .
– Perfeito – sorri. – Só tenho uma restrição – recebi a atenção de toda a mesa e olhei para Céci. – Se você não casar com uma aliança minha, eu juro que você só casará por cima do meu cadáver.
Céci se moveu, desconcertada e Taylor abriu a boca para protestar com meu pai, mas ergui minha mão:
– Comece a juntar suas moedas, Taylor, porque minha irmã vale um desenho meu.
 
O jantar durou mais duas horas. Lua parecia cansada por causa da viagem, por isso, ela e Max decidiram voltar para o hotel mais cedo. Céci e Taylor queriam passar um tempo juntos e aproveitar qualquer coisa romântica que pudessem fazer em Nova Iorque. Nenhum dos quatro passariam o dia seguinte junto conosco porque anunciaram no final do jantar que haviam programado seus próprios planos e deixaram papai sob minha responsabilidade.
– Pelo menos por um final de semana, , pelo amor de Deus – Max disse quando fiz cara feia na saída do restaurante e nosso pai conversava com Taylor na calçada. – Há muito o que fazer e ele mesmo tem algumas coisas em mente. Basta ser uma boa companhia.
– Ele esteve com muitas saudades suas, – Céci disse antes de sair e se despedir do nosso pai com um beijo em sua bochecha.
No fim, acabei o levando na Time Square porque era seu local favorito na cidade. Nunca entendi sua vontade em ficar em lugares cheios. Quando dei a ideia de tomarmos algo no Hard Rock Café, ele quase desmaiou de tanta animação.
– Eles tocam rock de que década?
– De todas, pai, provavelmente.
O local era escuro e lotado. Demorei um tempo para achar um local para sentar, mas assim que consegui, em um canto mais baixo do espaço, meu pai tratou de olhar para o cardápio que o barman nos serviu.
– Eu gostaria de uma especialidade da casa – meu pai falou depois que leu todas as opções de bebida e não compreendeu nada do que havia lido. Ele sempre fazia isso, pedia a especialidade da casa. Dizia que se era especialidade, era porque era bom.
– Uma Martíni – falei, vendo a cabeça do barman concordar e se afastar. – Veio com alguma programação em mente, senhor ?
– Eu queria ir até o Chelsea Market. Verona Tyler disse que é um local simpático e que podemos comer lagostas enormes.
– Tudo bem, almoçaremos lá, então. Depois poderemos caminhar no Brooklin Bridge e tirar algumas fotos antes de nos encontrarmos com os casais no Central Park, que tal?
Meu pai sempre amou fotos. Nunca soube tirar direito, mas era ótimo em aparecer nelas. Achava que a melhor maneira de guardar uma lembrança na memória, era tirar fotos e revelá-las. Em nossa casa no Maine havia uma estante repleta de álbuns de fotografias que ele e mamãe passavam dias organizando depois de lotado o rolo de filmes da máquina analógica.
– Filha, não vamos deixar esse papo para mais tarde, quero saber agora, como anda seu coração? – ele sorriu assim que percebeu que fez uma ótima escolha de sua bebida ao tomar um gole pequeno. – Você nunca mencionou um namorado, tenho pensado se você está solitária aqui.
– Estou muito bem, pai – sorri. – O trabalho está consumindo bom tempo da minha vida, mas o senhor sabe que moro com Amy e Lana, então não há como me sentir solitária.
– Meu tesouro, nem sempre as amizades substituem a necessidade de ser amada. Sempre que penso em você aqui sozinha, penso na possibilidade de me mudar. Você sabe, Maine já foi um lugar mais atrativo e seria bom mudar de ares um pouco.
A ideia de ter meu pai morando em Nova Iorque e perto de mim me apavorou. Não que eu não gostasse dele perto de mim, mas... Bem. Se parte da razão de eu ter saído de Maine foi por causa da minha família, por que eu iria querer vê-los se mudando para cá e me obrigando a comparecer nos almoços de domingo ou nas missas de quarta?
– A-ah, pai. Para ser sincera, eu estou em um relacionamento, mas eu ainda não estou certa se é o momento de apresentá-lo – olhei para os lados pensando se faria bem chamar alguém para fingir seu meu namorado somente por um final de semana. Eu não sou um mau partido, então provavelmente não seria tão difícil.
– Filha! Que magnífico! – meu pai arregalou seus olhos, como sempre faz quando ouve uma novidade que lhe agrada. Tentou aproximar seu banco do meu, mas eles eram fixos no chão, por isso, inclinou–se mais para poder ouvir melhor o que eu tinha para dizer sobre meu rolo fantasma. – Me fale sobre ele. É também um desenhador?
– Designer, pai.
– Foi o que eu disse.
– Bem, não, claro. Grande parte dos homens que desenham joias também gostam de homens e o senhor sabe que a única pessoa da minha equipe que não era gay, era meu ex-chefe.
– Ah – meu pai pareceu chocado com a novidade. – São todos homossexuais?
Eu não acreditava que estava tendo essa conversa com meu pai. Falar sobre romance já era constrangedor suficiente, mas trocar ideias sobre homossexualismo era demais. Ele dizia-se apoiador dos casais de mesmo sexo, mas sempre que falava sobre eles, ficava sem jeito, como se fosse adolescente sentando para conversar com os pais sobre sexo. Quando se trata de assunto incomum em seu cotidiano, Logan nunca foi muito bom em argumentar.
– Um relacionamento é um relacionamento, querida. Se você o escolheu, é porque é um bom rapaz – ele sorriu, calmo. Muito mais calmo do que eu imaginava quando adolescente, se chegasse em casa e aparecesse com um namorado à tiracolo. – Me fale mais sobre ele, é daqui de Nova Iorque?
– Ãhn, hum, é. É sim.
– E... ?
– E... Bom... Ele é alto e... E polido – limpo a garganta, olhando para os homens ao meu redor e pegando algumas características que via neles ou que os fazia parecer assim.
– Viu? Você vê mais do que uma simples beleza, você vê sua educação. Ele não tem interesse em conhecer o seu velho?
– Não é bem assim, pai. Eu já disse, não sei se é o momento certo...
– Não entendo, tesouro. Você ainda não está segura sobre a relação?
– Não, não... É... É só que estamos começando e hoje em dia não se apresenta uma pessoa para a família se não há certeza de que ela é alguém certa para entrar no nosso círculo familiar – comecei a mexer meus braços, tentando enrolá-lo e estendendo meus argumentos como sempre faço quando não sei mais o que fazer. Talvez seja bom eu apelar para um estranho. A maioria das pessoas que visitam o Hard Rock Café da Times Square são turistas curiosos pela fama do local, então não haveria problema de eu pegar um nova iorquino. – Para dizer a verdade, eu mencionei que estaria por aqui enquanto procurávamos um lugar para sentar.
– É mesmo? – meu pai ergueu a cabeça, ansioso. Olhou para os lados. – Ele está por aqui?
– Ah... É. Acho que sim. Devo procura...
? – ouvi uma voz atrás de mim. Eu e meu pai viramos o rosto para encontrarmos com parado, sua testa franzida esperando que tivesse acertado.
Olhei para meu pai, que parecia ansioso por saber quem era o homem atrás de mim. Apertei os lábios e engoli seco. não poderia ter chego em momento mais complicado. Em questão de segundos, vi meu pai ameaçar se levantar e me encarar, como se eu fosse maluca por ter olhado para si e não o cumprimentado. Então, sem tomar conta de meus atos, peguei em sua mão e exclamei:

– Querido, que bom que você chegou!

Capítulo 03

Eu não posso dizer que não esperava que um dia estivesse entre um homem e meu pai, mas jamais esperaria que esse homem fosse .
Sua posição estava ereta, como sempre, mas ao mesmo tempo tensa. Permaneceu em pé ao meu lado, provavelmente por ter sido pego de surpresa e não saber como agir em uma situação dessa, porque ele com certeza jamais esteve numa situação assim. Tinha uma das mãos em seu bolso da calça social e olhava para mim me achando mais maluca do que imaginava.
O quê?
Por sorte, sua voz não foi alta suficiente para se sobressair sobre o barulho da multidão dentro daquele restaurante. Meu pai permaneceu calado, olhando de um para o outro animado como um cachorro esperando por seu biscoito, aguardando que as devidas apresentações fossem feitas e eu ainda me punia mentalmente por ter iniciado essa besteira. Mas como dizia minha avó, quem entra na chuva é para se molhar.
– Que bom que você chegou, meu pai já está finalizando sua primeira bebida. Estávamos para falar de você – fiz um carinho em seu braço e, tentando ao máximo não mostrar meu rosto para meu pai, tentei passar a mensagem a , que obviamente pegou na hora. Olhou para meu pai atrás de mim e então para minha mão depositada em seu braço. Logo a retirei, lembrando quem estava tocando e fechei os olhos, rezando para que ele me ajudasse pelo menos uma vez. Assim que voltei a abri-los, colocava uma expressão serena no rosto e olhava para meu pai estendendo seu braço direito:
– Sou , muito prazer senhor .
– Ah, ! É um nome forte, eu gosto – meu pai sorriu, animado. De fato, eram muitas novidades em sua vida que até a pouco estava tediosa. Desde a perda da mamãe para o câncer, ele tem procurado afazeres ou coisas que o pudessem trazer mais vivacidade; desde o último feriado que passamos com minha mãe, nunca o vi tão alegre, o que não colaborou em me deixar nem um pouco melhor. – Sente-se! – apontou para o banco que eu estava sentada.
olhou para mim sério quando seu corpo se virou para mim, mas abriu um pequeno sorriso ao meu pai assim que se pôs de frente a ele, se colocando no espaço que eu tomava conta até a pouco.
Meu pai fazia todos os tipos de pergunta, desde seu trabalho até o time de futebol americano que ele torcia. mentiu sobre sua profissão dizendo ser advogado e eu não sabia a autenticidade das outras informações, provavelmente tão falsas quanto minha expressão quando o incluí nesta cilada.
Ficamos uma hora ali sentados – eu em pé ao lado de –, quando meu pai anunciou estar cansado e desejar voltar ao hotel para dormir. estava com seu carro em um estacionamento próximo e nos levou até o hotel onde minha família estava hospedada. Olhou para o local; não era um hotel ruim, era três estrelas, mas sabia que comparado ao que ele estava acostumado, este poderia ser facilmente chamado de albergue. Abriu um sorriso quando meu pai agradeceu a carona em frente ao hotel:
irá me levar ao Chelsea Market amanhã para comer lagosta. Por que não vem junto? – ele perguntou, apoiando seus antebraços na janela ao meu lado.
– Pai, tem uma reunião importante amanhã. Na verdade, ele estava trabalhando hoje e fez a gentileza de ter vindo tomar um drink conosco, por isso...
– Mas eu venho para cá uma vez ao ano, tesouro. Além disso, seria uma ótima oportunidade dele conhecer seu irmão e sua irmã! Estamos em meio a celebrações, não é?
– Pai... – resmunguei.
– Filha, deixe que ele responda por si, tudo bem? – meu pai sensivelmente me deu um ‘chega pra lá’, de modo que não pude fazer outra coisa senão olhar para . Ele abriu um sorriso simpático que nunca pensei que pudesse exigir e disse:
– Me parece divertido.
Arregalei os olhos. Ele só podia estar brincando. Não. Ele estava me provocando. Não nos falamos durante a última semana no serviço; desde quando descobri seu affair com Lauren. Além disso, se alguém da empresa nos ver, será o fim. Ela irá definitivamente me empurrar da escada e eu nunca terei a oportunidade de fazer a coleção de 50 anos da empresa.
– Então posso confirmar sua presença? – meu pai abriu um sorriso ainda maior. – Viu, tesouro? Ele tem tempo para nossa família, você está o subestimando.
– A-ah... É-é – dei uma risada sem graça.
Meu pai se despediu novamente antes de entrar no hotel. andou um quarteirão com o carro e o tempo que permaneci ali dentro nunca me pareceu tão longo. Assim que estacionou na esquina vazia, virou seu corpo em minha direção:
– O que diabos foi isso?
Fechei meus olhos, pronta para o sermão, mas não veio nenhum. Abri um olho para espiar sua expressão e ele tinha um ar de incredulidade.
– Desculpe – falei rapidamente. – Você chegou justamente na hora em que ele me atacava com perguntas sobre namorado e querer se mudar para cá e eu enlouqueci. Você não precisa ir amanhã, é ridículo – destravei a porta do carro e abri. –, peço desculpas pelo transtorno, senhor , irei corrigir esse problema e o senhor não precisará...
– Quer se acalmar? – ele disse, erguendo a mão na altura do meu rosto. – Primeiro, feche essa porta – apontou para a mesma e, diante das circunstâncias, decidi obedecê-lo sem resmungar. – Segundo, pare de me chamar de ‘senhor isso’ ou ‘aquilo’. Não sou nem cinco anos mais velho que você, por Deus!
– Tudo bem.
– Eu não entendi a razão de você ter começado com essa palhaçada, mas ninguém faz uma loucura dessa se não estivesse à beira de um colapso.
– Obrigada por compreender – consenti com a cabeça, mostrando quão arrependida estava sobre meus atos.
– Eu vou amanhã – arregalei os olhos e abri a boca. – Com uma condição – ergueu seu dedo indicador. – Preciso de uma coleção baseada nesse briefing – ele retirou uma pasta de couro do porta-luvas e depositou em meu colo. – Para daqui um mês.
Mantive minha boca aberta porque não conseguia arranjar força para fechá-la. Isso era chantagem e ele sabia muito bem. Como poderia criar uma coleção de...
– Quarenta peças? – quase gritei.
– É o que está escrito – me respondeu, como se fosse normal fazer um pedido abusivo como esse.
– Com todo respeito, mas você está maluco? – o encarei. – Lauren me passou N coisas para fazer e tenho de analisar o trabalho de meus colegas de equipe, além disso, estou empenhada em um projeto – me calei brutamente ao perceber a burrada que havia falado e que, claro, não passou despercebido por .
– Que projeto? – ele perguntou. Não respondi. – , que projeto? Você está trabalhando para a concorrência?
– Não, claro que não! – respondi, ofendida.
– Então que projeto é esse? Está pensando em pedir demissão?
– Por Deus, é claro que não! – ele fez um sinal com os olhos e suspirei. – É só que... Bem. Sua mãe, antes de sair, me prometeu que eu poderia colaborar com algumas peças para a coleção de cinquenta anos da empresa...
pareceu relaxar ao ouvir minha explicação. Eu não entendo sua reação por achar que eu estaria trabalhando com a concorrência. Não seria uma má ideia, mas eu ainda sou fiel demais à minha tutora para que pudesse desistir da minha primeira maior conquista.
– Você não planejou isso, planejou? – me referi à situação com meu pai e a mentira. soltou uma risada deboche, aquela que tenho uma relação de adoração-ódio por não suportar ironias, mas o sorriso se encaixar perfeitamente em seu rosto.
– Como se eu tivesse superpoderes para descobrir que você surtaria assim. Não. Foi só uma oportunidade que surgiu em minha frente e que eu soube agarrá-la a tempo.
– Você está disposto a fingir ser meu namorado para conseguir uma coleção? – ergui a pasta.
– Essa coleção é importante para mim. Quero tê-la para dezembro.
– Faltam cinco meses para dezembro.
– É por isso que preciso delas para daqui a um mês.
Soltei o ar em descrença. Ele, por acaso, sabia quão difícil é conseguir desenhar uma coleção de cinco peças? Tudo bem, às vezes consigo fazer vários desenhos bons em um dia, mas isso não significa que conseguirei fazer quarenta peças em um mês. Para dizer a verdade, se encararmos os fatos, é impossível, já que um designer nunca cria a quantidade exata do pedido.
– E se eu não conseguir?
– É impossível, você nunca não conseguiu. Eu vi seu relatório.
Me remexi, um pouco orgulhosa, admito. Isso era uma verdade. Mesmo que o tempo fosse apertado, eu sempre gostei muito de desenhar e criar novos designs de joias para coleções, independentemente do tamanho que elas representassem à empresa. Olhei para o briefing do pedido e então para a placa do hotel pelo retrovisor do carro. Meu pai parecia viver finalmente uma fase boa de sua vida desde a morte de minha mãe. Ele nunca pareceu tão alegre quanto hoje. Seus três filhos pareciam estar se encaminhando para um bom futuro e ele estava feliz por estar acompanhando nossos passos. Fechei meus olhos e suspirei:
– E você e Lauren?
– O que tem?
– Se ela souber, irá surtar.
– E por que ela surtaria?
– Porque vocês estão tendo um affair? – falei, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Como é que é? – seu corpo se inclinou ainda mais em minha direção. Sua expressão não parecia sem graça por ter sido desmascarado. Ele estava mais para descrente com que havia acabado de ouvir.
– Você. E Lauren. Juntos. Foi a notícia da semana na empresa, todo mundo sabe e Lauren está até mais suportável. Devo agradecê-lo? – murmurei, mas logo vendo-o bagunçar os cabelos.
– Quem inventou essa porcaria?
Hesitei. Espere. Porcaria? Então era mentira? Eles não estão juntos? Ele está bravo? Há a possibilidade de achar que foi uma atitude antiética de Lauren não ter negado e a demitir? Eu fofoquei com meu chefe?
– Alguém os viu, hum, tendo um momento íntimo em, hã, um restaurante.
– Que restaurante?
– A da 57th – peguei meu celular e mostrei a foto que haviam me enviado. – Pelo amor de Deus, não diga que fui eu quem falei. Diga que você sabia de tudo.
– Por que diabos eu saberia de uma mentira dessas? Que porra de foto é essa? – tirei meu celular de suas mãos e dei meu melhor para mantê-lo longe de si. – Quem tirou?
– Não sei! – me aproximei mais da porta, apesar de não ser tão possível. estava com uma expressão furiosa e eu não queria ser o alvo de pancadas dele. – É sério, eu não sei. Achei que vocês estivessem sério e...
– Isso está saindo do controle – ele murmurou. – Tudo bem, vá embora – balançou a mão e abri a porta do carro sem suspeitar de seu murmúrio, porque estava assustada demais com a possibilidade de ser a nova fofoqueira da empresa e faltava um fio para isso, devido ao fato das reuniões de fofocas sempre serem em torno da minha mesa. – Estarei no Chelsea às onze, é bom que não me faça esperar – disse e assim que fechei a porta, acelerou para longe sem nem se preocupar em saber se eu queria uma carona para casa.
 
– Você o quê? – Amy gritava no Skype enquanto Lana somente ria, não, gargalhava na ligação.
– Você ouviu bem – disse, envergonhada.
– Pirou, ? – ela gritou.
– Pode ser, só pode ser isso – baguncei meus cabelos. – Lana, quer calar a boca?!
– Ah, , é porque é uma situação muito engraçada! Você fingindo ser namorada do ! Eu pagaria um jantar no Ivy para ter visto a reação dele!
– Não tem graça. Não tanto – abri um pequeno sorriso. – Mesmo assim, ele concordou e não está em um affair com Lauren. Na verdade, ele pareceu bem nervoso quando descobriu.
– Quando descobriu, não. Quando você abriu sua boca, quer dizer.
– O que eu poderia fazer? – olhei para Lana. – Fingir que não sabia e deixar me arriscar ser pega por ela e virar alvo de uma novela?
– Fingindo ou não, a reação dela será a mesma – Lana disse. – Você estava apenas curiosa para saber a verdade, admita.
Tudo bem. Eu admito para mim mesma. Estava morrendo de vontade de saber a verdade.
– Agora, admita que você gostou do que ficou sabendo.
É uma droga ter amigas que te conhecem em um momento desses. Apertei os lábios e então deixei o ar sair como se eu fosse uma arma e cuspia uma bala.
– O mais irônico é que falamos sobre ele se relacionar com você não faz nem dois dias direito – Lana comentou. – Veja bem, isso só pode ser destino.
– E desde quando você acredita em destino? – eu e Amy dividimos a mesma pergunta.
– Eu estou tentando ter um momento de sensibilidade aqui, entendem? – ela grita, esganiçada. – Depois não reclamem que sou uma bolsa Prada insensível. Eu tentei!
– Desculpe, desculpe – falei. – É só que eu não estou no feeling de pegar boas intenções, porque meu chefe acabou de usar minha própria desculpa para me chantagear.
– Não foi uma chantagem, foi um acordo, El – Amy disse, pacientemente. – Ele surgiu com a ideia e você aceitou, você não foi obrigada.
– Na minha cabeça eu fui obrigada!
– Porque assim o sexo fica muito melhor – Lana riu. – Saber que o cara é todo controlador...
– Lana, pelo amor de algo que você valoriza muito, pare de falar sobre sexo toda hora.
– Ora, dizem que o que mais temos em nossa vida geralmente é o que mais discutimos com as pessoas – a vi levantar seus ombros cobertos por um xale. – Não é por isso que Vancamp está sempre falando sobre cachorros?
Não perdi muito tempo com o comentário sem nexo de Lana. Ela não era burra – ou não teria feito tanto dinheiro em tão pouco tempo –, mas às vezes se fazia porque os homens ricos não costumam gostar de mulheres que os façam parecer mais estúpidos que elas. Para Klint, Lana provavelmente é um corpo bem bonito e elástico que lhe proporciona prazer e que não precisa sustentar, mas que não se importaria de fazê-lo, se ela continuar bonita, elástica e disponível para ele todas as manhãs. Vivendo na alta sociedade de Manhattan, você aprende coisas que não gostaria ou que jamais faria se não estivesse no Upper East Side. Quando as pessoas descrevem os absurdos de um comportamento de quem é verdadeiramente rico nos livros ou na televisão, quem lê ou assiste jamais imaginaria que houvesse um fundo de verdade. Os casais ainda casam por interesse, trabalham para parecerem maiores que os outros, têm filhos para se gabar e aumentar o status, e claro, mantém inúmeras amantes porque ninguém é rico de verdade se não souber sustentar várias mulheres gostosas ao mesmo tempo só para gozar. E nenhuma mulher deixa de abrir as pernas para garantir o dinheiro depois do divórcio.
O mais louco é que eu, Amy e Lana adoramos fazer parte dessa sociedade. Nós ainda não temos uma lucratividade de 1,5 milhão ao ano, o que nos faz sermos pequenas formigas perto dos novos, mas ainda não tão ricos de verdade – como Klint, que veio da Inglaterra e ganha seu salário em libras esterlinas. Lana sempre fala de forma pomposa sobre isso, mas todas sabemos que ele Klint ganha exatamente o mesmo que Jordan e apenas pede para que o valor saia em libra porque o faz parecer ganhar muito mais do que os outros. Se você tem um salário de 1,5 milhão ao ano, você tem permissão de ser percebido pela sociedade, mas não recebe os mesmos bônus e tratamento que aqueles que recebem uma quantia que possui dois dígitos na frente do milhão. É uma lei justa, já que você precisa ganhar mais para conseguir ter uma família perfeita, sustentá-la no nível dos A+ e ainda conseguir gastar com luxúrias desnecessárias.
– E como está o feriado de vocês?
– Sexual – Lana falou de propósito. Eu sempre odiei a maneira como ela sempre jogou na minha cara que transa todo final de semana enquanto eu estou presa em minha mesa desenhando enlouquecidamente. Às vezes fico com raiva de mim por não saber fazer a sobrancelha direito. É um fato que ela ganha muito mais que eu de maneira muito menos trabalhosa, além de ser dona de seu próprio nariz, o maior benefício de todos.
– Pare de agir como Regina George para cima mim. Sou sua amiga, não uma mulher que quer roubar seu namorado de você – fiz-lhe uma careta.
– Falando em roubar meu homem – ela ainda se recusa a admitir que está em uma relação. Amy tentou explicar que se relacionar a Klint como meu homem não torna a relação deles menos séria para quem vê de fora. – Vocês acreditam que aquela vadia da Valerie o chamou novamente para sair?
Valerie é uma mulher que surgiu na relação de Klint e Lana uma semana depois deles terem se conhecido no nosso encontro às escuras. Inicialmente, Lana se esforçou em não se preocupar porque tinha em sua cabeça que a relação dos dois era somente casual, mas a partir do momento que Klint quis tornar as coisas mais sérias, ela entrou nessa paranoia de que Valerie, uma advogada do escritório de Klint, estava dando sinal verde de que iria investir nele.
– Fui chamada para aquela exposição dos ovos Fabergê e achei que poderia ser uma boa ideia comparecer. Comprei um par de convites porque eles iriam para doação, mas antes que eu pudesse chamar Klint, Valerie mostrou suas garras.
– E ele aceitou? – Amy abriu a boca, chocada.
– É claro que não – Lana sorriu. – Ele está em uma relação comigo, não é? Além disso, ter abordado o assunto antes do sexo foi ótimo, porque o fez concordar comigo de que ele deveria comparecer ao evento ao meu lado, não no de Valerie.
Eu e Amy soltamos risadas. Lana, apesar de sempre apelar ao sexo quando se trata de homens, sempre conseguiu tudo o que queria. É uma característica admirável nela e que às vezes desejo também ter para enfrentar Lauren. Às vezes penso quão caro pode ser pagar uma psicóloga para me fazer pensar que, realmente, abrir as pernas é a solução.
– E seu pai, Amy?
– Ah, ele e Jordan estão se dando bem. Graças a Deus o Google é uma empresa famosa até para homens como ele, o que facilitou na hora de explicar sua função na empresa. Meu pai ficou mais calmo quando soube que Jordan é, tipo, muito importante lá dentro.
– Ponto para Lana – ela disse, pomposa. – Não esqueça de dizer ao seu pai quem os apresentou. Quem sabe ele não resolve me recompensar com uma reforma de pintura em meu quarto?
– Lana. Você recebe muito bem e conseguiria comprar um apartamento novo, se quisesse.
– Você tem de saber gastar seu dinheiro nas coisas certas, querida – ela levantou os ombros mais uma vez.
– Ele conseguiu conhecer sua família inteira?
– Até sua sobrinha mais nova – Amy revirou os olhos.
Amy era uma mulher diferente quando estava em Maine. Enquanto se esforçava para manter um comportamento louvável em Nova Iorque, local que gostaria de passar o resto de sua vida, rodeada por pessoas menos ricas que ela, mas ainda ricas; em Maine ela voltava a ser a caçula que fugiu para viver uma aventura. Seus irmãos e irmã mais velhas ainda a tratavam como uma criança, o que a fazia se tornar uma mulher menos séria. Esse era seu maior receio com Jordan, ele poderia conhecer a verdadeira ela e terminar por não querer alguém tão não-certinha.
– Ele está lidando bem – ela mordeu a unha feita. – Quero dizer, se está insatisfeito, não demonstrou até agora, mas estou com um pouco de medo. Ele não poderia terminar comigo aqui, não é?
– Claro que não! – Lana disse – Ele não vai terminar com você, querida, você é muito melhor do que todas as ex-namoradas ou rolos dele, acredite. E não estou dizendo isso para te fazer sentir melhor. Se você as visse, até se sentiria mal por pertencer à lista de Jordan.
– Tudo bem, Lana, estou melhor, obrigada – Amy a cortou antes que Lana começasse a descrever os perfis das coitadas. – Eu acho que conversarei com ele na volta a Nova Iorque. Meu pai criou uma programação maluca que o fará ficar ocupado e eu não posso acompanhá-lo até o hotel, porque ele ainda acha que nós nunca, ãhn, transamos.
– Caramba – murmurei. – Quando eu achava que seu pai não conseguiria ser mais careta...
– Achei surreal saber que seu pai lidou com o encontro com no Hard Rock de uma maneira admirável – Amy sorriu. – Eu sempre gostei do seu pai.
Comparado ao pai de Amy, meu pai era um rei.
– Mal posso esperar para o feriado acabar – ela resmungou. – Não quero que Jordan descubra tudo o que eu tenho tentado deixar para trás em NYC, em apenas um final de semana.
– Querida, não se torture assim – Lana disse, olhando suas unhas. – Você não mudou tanto quanto imagina e se ele demonstrar um pingo de insegurança, visite–o pela manhã no hotel e lhe dê o tratamento completo.

O dia seguinte amanheceu diferente das outras manhãs. Mesmo sendo sexta-feira e nossa programação estender até à noite, quando assistiríamos os fogos de algum lugar perto do Brooklin Bridge, no momento em que espreguicei em minha cama, eu sabia que não seria um dia fácil.
Será que eu teria de beijar na frente de todos? Balancei minha cabeça, expulsando a possibilidade. Apesar de tudo, ainda era insuportável, mimado e meu chefe, combinações que não casam com o tipo de homem que eu gosto. Mesmo sendo perfeito corporalmente falando, aguentar suas ironias será um inferno.
Meu pai, animado, não parou de falar durante todo o trajeto no ônibus de dois andares que ele sempre queria andar quando chegava na cidade. Disse que adorava ser turista, porque as pessoas ignoravam suas esquisitices e sorriam, como se ele estivesse fazendo bem, algo que eles não estavam acostumados a fazer.
– Como você e se conheceram? – meu pai perguntou, quando descemos do ônibus no bairro do Chelsea. O tempo estava um pouco nublado, mas não o suficiente para fazê-lo se aborrecer com a tempestade de verão que estava para chegar. Estávamos a algumas quadras do mercado, eram quase onze horas, se não chegássemos lá em ponto, não duvido que poderia ir embora sem se preocupar em me deixar em má situação. – Ele me parece uma boa pessoa.
“Só na sua visão turva da realidade.” Pensei. Não posso dizer que não se esforçou na noite passada. Mesmo tendo sido pego de surpresa, enquanto pensava ontem de noite, antes de dormir, na situação, cheguei à conclusão de que ele realmente soube lidar muito bem com o caso.
– Sabe o encontro às escuras de Amy que falei ao senhor mês passado? – perguntei, cruzando meu braço com o dele enquanto atravessávamos a rua.
– A que Martin a obrigou ir?
– É. Era um encontro triplo, porque Amy não queria ir sozinha. é um dos amigos de Jordan, o novo namorado dela.
– Então vocês fazem todos parte do mesmo círculo de amizade! – ele sorriu, ainda mais alegre, se é que é possível, com a ideia de ver eu e minhas duas melhores amigas de infância que passaram metade da minha adolescência em casa, com parceiros também amigos – Isso é muito bom!
– É sim, pai.
– Ele te trata bem?
– Claro – sorri amarelo. Por sorte, Logan sempre foi muito fácil de ser enrolado. Talvez por isso ele era o professor favorito da nossa escola. Era escolhido como paraninfo todos os dois anos que trabalhou até agora e ficava orgulhoso. Mal sabia ele que era escolhido, porque era o único professor que não percebia quando os alunos matavam aula. – E como andam as aulas?
– Ah, eu já não sou mais o mesmo. O diretor Crouch veio falar comigo há duas semanas sobre minha disposição. Ele disse que se eu não consigo acompanhar o pique das crianças, então talvez fosse melhor que eu tentasse outra coisa.
– Que rude da parte dele! – abri a boca, mesmo concordando com meu antigo diretor da escola. – O senhor faz parte do corpo docente a 2 anos! Muito mais que isso, se for considerar seu papel de pai e conselheiro, além de professor!
– Foi o que eu tentei dizer, mas ele estava decidido que era melhor que um jovem tomasse meu lugar. Os alunos estão decepcionados, até organizando uma greve para que eu fique.
– Que gentis – sorri, querendo soltar uma grande gargalhada. Adorava como meu pai achava que todos os adoravam, quando apenas lidava com sua personalidade fácil. De vez em quando sentia dó dele, por isso, fazia as coisas em seu lugar, de modo que era considerada a “filha ruim” dos . Não que eu me importasse, na época até gostei, porque facilitou minha argumentação para vir a Nova Iorque.
O Chelsea Market é um mercado de bairro muito simpático com as paredes de tijolos e as lojas abarrotadas de coisas. A maioria das lojas eram de materiais de cozinha, decoração ou lanchonetes. No Natal, quando meu pai veio fazer seu passeio para ver as luzes brilhantes e a árvore no Rockefeller Center, ficou encantado com a decoração daqui, tornando–o um lugar obrigatório, assim como o ringue de patinação no Central Park, a Times Square e o Shack Burger.
estava parado com as mãos nos bolsos em frente ao mercado. Ao fundo, conseguia ver alguns seguranças que somente quem é muito rico tem ao alcance. Ouviu meu pai falar, apontando em sua direção:
– Olhe ele ali, tesouro! Olá, ! – abriu um largo sorriso, me fazendo sentir um pouco mal por estar mentindo sobre meu relacionamento.
abriu um pequeno sorriso e ergueu um dos braços em um leve aceno, diferente do meu pai, que balançava desengonçadamente de um lado para o outro o braço que não estava preso por mim.
– Está aqui há muito tempo? Eu gosto de passar pela antiga ferrovia ali em cima, então pegamos o caminho mais comprido – ele apontou para trás, mas permaneceu com os olhos em .
– Não, acabei de chegar – disse em uma voz contida, mas me mandou um olhar assim que meu pai passou por si, exclamando alívio. – Quase dez minutos.
– Meu pai anda devagar – tentei explicar, mas ele não me ouviu.
Caminhamos pelas lojas que agora tinham as decorações inspiradas no  4 de julho. O comércio hoje ficaria aberto somente até às duas ou três da tarde, por isso, meu pai combinou com Max e Céci de nos encontrarmos no Central Park às cinco para tomarmos um lanche e então assistirmos os fogos que teriam apresentação às sete, às nove e às onze.
– Você já comeu aqui, ? – meu pai perguntou, quando entramos em uma das últimas lojas de comida no final do mercado. Eles eram especialistas em culinária japonesa, saladas e lagostas. Eu peguei uma salada verde com um suco, enquanto meu pai se dirigia para a fila no fundo da loja, onde as pessoas podiam pegar suas lagostas por vinte e três dólares.
– Nunca, é minha primeira vez – ele respondeu. – Talvez eu deva experimentar.
– Não irá se arrepender – meu pai disse, orgulhoso de si mesmo por poder apresentar algo a um possível novo enteado. Suspirei e deixei que os dois fossem sozinhos; suportar a pressão da mentira e ver meu pai se esforçando para fazer gostar dele estava sendo muito pior do que imaginava. Vi meu pai se oferecendo para pagar sua lagosta, mas no final, foi quem pagou dos dois.
– Não quer beber nada, pai? – perguntei, quando estava prestes a pagar meu almoço.
– Ah, uma limonada nesse calor seria ótimo, obrigada, tesouro.
Olhei para , que esperava que eu fizesse a mesma pergunta para ele, principalmente depois de ter pago o almoço do meu pai.
– Você quer, querido? – forcei um sorriso, vendo–o aprovar meu comportamento.
– Estou bem, obrigado – respondeu.
Se ele iria recusar, por que me fez perguntar?
Em passos pesados, peguei a limonada do meu pai e segui até o caixa enquanto eles esperavam por mim do lado de fora do restaurante. Para comer, fomos até High Line, a antiga ferrovia que se tornou ponto turístico por sua reestruturação há alguns anos. Haviam algumas mesas para comermos, meu pai não parava de falar em como poderiam fazer o mesmo com uma ferrovia abandonada que cruzava nossa cidade no Maine:
– Você já foi para lá, ?
– Uma ou duas vezes a negócio.
– Agora que você e estão juntos, pode vir nos visitar quando ela vier, terei o prazer de levá-lo para conhecer a cidade. Ela não é grande, mas é simpática. Não houve um turista que não achou o local agradável. Marlon Bud era de Atlanta e se mudou para lá, pois disse ter se apaixonado pela tranquilidade do local. É bom para descansar.
– Obrigado pelo convite – sorriu. – O senhor ficará aqui até quando?
– Ah, só até domingo de manhã. Meu tesouro aqui tem muito trabalho, estou feliz que ela tenha, porque significa que continuará recebendo dinheiro por todos eles – meu pai deu dois tapinhas em meu ombro. – No início, quando ela veio para cá estudar administração, achei que fosse uma má escolha. Alguém que viveu no interior não conseguiria sobreviver em uma cidade como essa por muito tempo, mas sempre foi uma amazona – papai olhou para mim, exalando orgulho. – Quando ela disse que queria ser desenhadora de joias, quase tive um ataque do coração. Lá em Maine nós não damos muito valor, mas depois mostrou que as pessoas aqui em Nova Iorque admiram bastante suas criações.
– Então agora o senhor está satisfeito?
– Ah, claro. Minha filha comeu o pão que o diabo amassou para chegar aonde está e tenho uma parcela de culpa. Achei que ela poderia passar por algumas dificuldades e perceber que seu lugar é em Maine, mas quem nasce para viver no meio da multidão, não pode se isolar no interior. Não é, tesouro?
– É sim, pai. Obrigada por entender agora.
– Às vezes gostaria que você voltasse a me pedir dinheiro – meu pai soltou uma gargalhada – Assim eu poderia pedir que viesse mais à Maine e visse seu velho com mais frequência. Você não acha que ela trabalha demais, ?
– Ela tem um horário pertinente às das pessoas da cidade, eu acredito.
Meu pai não gostou muito de sua resposta. Ele esperava que concordasse, assim teria mais uma argumentação contra mim.
– Pai, o senhor está fazendo a pergunta para a pessoa errada – dei uma risada sem graça. – trabalha muito mais do que eu.
– Ah – meu pai abriu a boca. – Claro, você é um advogado, afinal. As pessoas precisam a todo momento de um advogado. Eu mesmo sempre peço ajuda para meu amigo Bennet para me dar umas dicas de investimento e saber se estou dentro ou fora da lei.
– O senhor dificilmente faria um investimento em algo fora da lei, pai.
– Nunca se sabe – papai ergueu os ombros. – Hoje em dia as pessoas estão espertas e enganam as outras para tirar nosso dinheiro. Foi o que aconteceu com Bernard Pricket, lembra?
– Lembro, sim – abri um pequeno sorriso, deixando que ele continuasse a falar sobre como as pessoas conseguem ter a coragem de enganar as outras. Enquanto o ouvia falar, entendia da onde tirei minha personalidade sincera. Eu nunca gostei de injustiça e jamais cogitei derrubar outra pessoa para subir. Se meu pai soubesse o tipo de sociedade que estou me inserindo, é capaz de ficar sem falar comigo até morrer.
Nós estávamos alguns minutos atrasados. Papai queria tirar uma foto na frente do prédio do Google que havia na região. Ele perguntou se era ali que Jordan trabalhava, mas respondeu que ele estava no escritório mais moderno, perto do centro da ilha, onde os imóveis valiam cinco a dez vezes mais de onde estávamos. Devido ao atraso, ofereceu seu carro para nos levar até o Central Park; durante o caminho, meu pai, como sempre, não parou de falar.
– E você cresceu aqui em Nova Iorque, ?
– Passei um tempo na Itália.
– Então você fala italiano?
– Falo, sim senhor.
– Tenho um amigo que veio da Itália. Ele costuma xingar em italiano, para que seus netos não ouçam – meu pai riu sozinho ao meu lado. – Você deve ter uma boa vida para ter um funcionário para levá-lo a todos os lugares.
Meu pai nunca havia visto alguém com motorista senão na televisão. Fiquei sem graça por ele, pois abriu um pequeno sorriso, mas não disse nada. Limpei minha garganta para não deixar meu pai no vácuo.
– Como ele trabalha muito, é mais econômico em questão de tempo para ele ter uma pessoa para levá-lo. O senhor sabe como é o trânsito aqui em Nova Iorque, pai. Arranjar um lugar para estacionar em horário de pico e época de turismo é impossível.
– Você tem razão, o serviço talvez seja mais valioso aqui. Você deveria ter um também, filha, gostaria que eu pagasse um para você?
– Não, pai, eu moro perto da empresa, lembra? – abri um sorriso sem graça. – Além disso, minha profissão não exige um deslocamento como a de . Ele é advogado, tem sempre de visitar seus clientes aonde eles estiverem.
– Ah, sim, é verdade! Desculpe minha insensibilidade, – meu pai se inclinou para frente e deu dois tapinhas na mão de , que estavam apoiadas em seu colo. Me senti ultrajada quando ele afastou a mão com o mesmo sorriso cru no rosto, mas, claro, só eu percebi. Ele estava louco para que saíssemos do carro.
– Preciso ir na loja no próximo quarteirão, você pode nos deixar aqui e pegamos um metrô até o parque, querido – tentei não olhar para para que não precisasse encarar seu mau humor.
– Tesouro, estamos atrasados e Lua está grávida, lembra? Não podemos ficar muito tempo no meio da multidão – meu pai tentou ser gentil ao se preocupar com seu futuro neto ou neta.
– Eu sei, pai, mas eu preciso ir até aquela loja. Pare o carro, por favor – dei um tapinha no ombro do motorista que olhou para pelo retrovisor.
– Você tem certeza? – ele fez seu papel. – Posso esperar.
– Não, você tem compromisso. Obrigada por nos acompanhar em nosso almoço – falei, olhando para a janela ao invés de encarar .
– Bem, não podemos contrariar essa peça aqui. Obrigado pela companhia, , não esqueça de meu convite para ir até Maine – meu pai cedeu e abriu a porta assim que o motorista estacionou o carro. Antes de sair, senti a mão de segurar meu pulso:
– É bom trazer os desenhos para eu dar uma olhada. Não ache que permitirei que você me entregue eles em um mês para eu ter de apontar todas as emendas.
Virei meu rosto mal humorado por ter de lidar com sua personalidade impossível e me limitei a dizer:
– Parece que você não pesquisou direito o meu trabalho. Pergunte à sua mãe, eu nunca faço emendas – e sem esperar que ele discutisse comigo, soltei meu pulso de sua mão e saí, fechando eu mesma a porta do carro.
– Muito bem, que loja você quer tanto ir? – meu pai perguntou, batendo as palmas ao vermos o carro de ir embora. Apontei para qualquer uma e caminhamos em passos apressados, com ele dizendo ao meu lado: – Você acha que ele iria para Maine antes do natal?
“Não, pai.” Pensei. “Ele nunca chegará perto de nossa casa enquanto eu estiver viva.”
– Espero que sim.

– É uma pena não ter podido ficar – meu pai falou pela terceira vez enquanto esperávamos os fogos do primeiro horário. – Ele é um homem de classe.
– Classe? – Max me olhou, confuso. – Espero que ele coloque certa classe dentro da cabeça dessa cabeça-oca.
– Max, não comece – falei, em um humor assassino.
– Não precisa ficar estressada, a culpa não é minha se você decidiu namorar um típico nova-iorquino. Onde já se viu trabalhar no quatro de julho?
– É por isso que ele anda com motorista – meu pai disse, como se soubesse de tudo.
Estávamos no espaço destinado aos turistas que perdiam tempo causando muvuca em meio à multidão para poder enxergar os fogos preparados pela prefeitura na data. Todos os anos era a mesma loucura e quando passaram a querer passar a data aqui em Nova Iorque, a situação foi pior, já que não podemos ficar muito tempo parados no mesmo lugar sem ter um ombro empurrando ou alguém esmagando você. Céci e eu estávamos sentadas em uma mesa próximo a um café. Nós assistíamos muito bem todos os fogos daqui, descobrimos no ano anterior que a vista era quase a mesma.
– Você não fica preocupada, El? – Céci me perguntou assim que voltei a me sentar com um smoothie para ela.
– Com o quê?
– Seu namorado ser tão... workaholic.
– É perfeito para mim.
– Olha, eu tento falar com você pelo menos uma vez na semana e você está sempre ocupada ou centrada em alguma atividade. Se para falar ao telefone você não tem tempo, quando sai com ele em encontros?
– Nós nos conhecemos em um encontro, Céci – disse, exausta por ter de inventar mais mentiras. – Além disso, nós temos programações que gostamos de fazer juntos, como... Hum. Jantar. Assim podemos conversar e saber mais sobre o outro sem invadir qualquer espaço.
– Mas namorar não tem como questão dividir o mesmo espaço?
– Para você, sim. Para mim, não. Céci, você sabe que eu não estou aonde quero estar e devo me focar para conseguir. Agora que Barbara se aposentou, as coisas estão um pouco difíceis porque ela era a única pessoa que via potencial em mim.
– E seu novo chefe?
– Ah, ele é um mala – revirei meus olhos, vendo o rosto de em minha mente. – Irônico e prepotente. Mesmo assim, todos o amam.
– Por que você não vai para a concorrência? Quantas vezes já tentaram entrar em contato com você? Três? Quatro?
– Sete. Mas isso não vem ao caso. O caso é que eu quero fazer parte da coleção de 50 anos. É a última coisa que Barbara acompanhará de perto antes de anunciar ao público sua aposentadoria e dar as costas à empresa. Com sua aprovação, terei as portas abertas em qualquer empresa do mundo!
– E você, por acaso, pretende mudar de país? Porque se for o caso, peço que me avise, já que o papai entrará em colapso.
– É claro que não, bobinha – baguncei seu cabelo na altura do pescoço. – Eu sei que papai não gosta que fiquemos afastados por muito tempo e esse é o máximo que pretendo me manter longe dele. A questão é que talvez eu consiga trabalhar de forma independente, com fornecedores e produtores de joias querendo que eu lance minha própria marca.
A ideia de não ver mais Lauren vinha à cabeça e era refletida em meu sorriso. Não precisar lidar com ela seria a melhor sensação de minha vida todos os dias até a morte. Os fogos começaram em ponto, enquanto eles explodiam, colorindo o céu, a imagem de voltava à minha mente. Seus olhos azuis tomando conta do meu ser, enquanto imagino a gravata desfeita. Ele estava com ela no dia de nosso primeiro encontro, mas um pouco torto, provavelmente resultado do estresse de seu dia. Tinha um sorriso charmoso que só quem tem dom consegue dar. Mas sua personalidade...
POW! POW! POW!
Meu rosto provavelmente estava colorido. Olhei para o céu e me perguntei quando poderia ver os fogos junto de alguém. Virei meu rosto para ver Taylor parado atrás de Céci e abraçando sua cintura enquanto seu queixo apoiava no ombro dela e os dois observavam o evento juntos. Max acariciava o ventre um pouco mais volumoso de sua barriga junto com Lua. Eles sorriam juntos e, mesmo tendo se casado por conveniência, ninguém nunca diria que foi assim. Por fim, meu pai tinha seus olhos brilhantes das lágrimas de saudade da mamãe. Segui em passos lentos e enlacei seu pescoço, sentindo sua mão tocar meu antebraço e dar alguns tapinhas de leve, somente para dar a entender que estava bem.
– Sua mãe amava os fogos. Lembra quando ela comprava para vocês brincarem? – ele olhou para mim sorridente e então encarou as crianças brincando com os fogos inofensivos em mãos. – Ela gostava mais de ver vocês se divertindo do que encarar o show no céu.
– Ela gostava de tudo que trouxesse alegria. Está bem agora.
– Está, eu sei – meu pai sorriu entristecido. – Eu também estou, porque tenho vocês três, meus filhos lindos, saudáveis e sucedidos.
Abri um sorriso. Neste raro momento que me sinto feliz de estar junto da minha família, faço o que toda filha deve fazer enquanto tem a oportunidade: abraçar seu pai. Queria ter feito mais com minha mãe ou meus avós, mas nós só percebemos a quantidade de carinho que deixamos de dar quando queremos muito eles ao lado. Eu e mamãe podíamos não nos dar bem 364 dias do ano, mas o único dia que nos dávamos bem, sentia que tinha a melhor mãe do mundo.
– Eu te amo, pai – beijei sua bochecha e o deixei apertar os lábios enquanto eu fingia não olhar para seus olhos tornando-se vermelhos.
 
Assim que cheguei no hotel no dia seguinte, tomei um susto ao ver engajado em uma conversa com Taylor e meu pai. Meus pés travaram na porta do hall e não pude deixar de abrir a boca, surpresa com a presença dele ali sem eu ter pedido.
– Ah, ela chegou! – meu pai acenou para mim em seu jeito exagerado. – , aqui, filha!
Tentei colocar um sorriso em meu rosto e caminhei em passos lentos e apertados até os três. Acenei para Céci, que conversava alguma coisa com a recepcionista.
disse que queria lhe fazer essa surpresa – meu pai começou a falar assim que o cumprimentei com um beijo no rosto.
Olhei para meu chefe, que possuía uma expressão neutra.
– Bom dia, querida – ele falou, colocando a mão na minha cintura.
Tudo bem. Isso não é normal. Isso não pode estar acontecendo. O que era agora? Oitenta desenhos? Cem? Uma start up? E o que há com esse querida?
Sorri novamente e depositei um beijo em sua bochecha.
– Foi a melhor surpresa do dia – ele entenderia que eu estava sendo irônica.
– Você havia dito que raramente vê sua família, então pensei que não poderia perder a oportunidade de acompanhá-los enquanto estão por aqui.
– Que gentil de sua parte, – Céci sorriu. – Ele tomou um café conosco, acredita que estava aqui desde às oito? Sorte que papai gosta de acordar cedo e já estava no restaurante.
– Foi bom ter companhia – nosso pai sorriu, orgulhoso.
Olhei meu pai animado. Minha mãe sempre disse que a função dos pais na vida é formar os filhos, vê-los trabalhando e se tornando independente, e enfim, casá-los com alguém que possam formar uma nova família. Meu pai segue o mesmo ideal que ela, de maneira que deva estar sentindo que finalmente irá cumprir o último item da sua lista de desejos. Céci estava para casar e eu, em um relacionamento.
Eu não sei como estou conseguindo lidar com o peso da mentira nos meus ombros, mas meu estômago quer praticamente sair pela boca.
Max e Lua desceram pouco depois de eu chegar. Eles haviam pedido o café da manhã no quarto porque o cheiro de gordura que entrava no restaurante causava náuseas em Lua. Inicialmente ele se fez de pessoa difícil, o típico irmão mais velho que quer ter certeza de que o novo companheiro da irmãzinha não a fará chorar. Mas nós três – eu, ele e Céci – sabemos que era apenas faixada, porque Max sempre foi um ‘irmãozão’ somente com Céci. Eu sempre fui a irmã-moleque que corria de bicicleta no parque e, ao invés de chorar quando ele fazia alguma brincadeira de mau gosto, revidava na mesma moeda. Por essa razão também, Max e eu sempre fomos mais amigos do que ele e Céci; apesar de eu ser a deslocada e ter me afastado da família, ainda mantenho contato com os dois e meu pai, de modo que não parece tanto que estou há anos fora de Maine.
– Quais os casos mais comuns que chegam a você? – ele perguntou a atrás de mim. Nós iríamos caminhando até a quinta avenida, onde Céci queria fazer algumas compras, assim como Lua. Por ser um feriado prolongado, a cidade estava lotada e era quase impossível de andar, principalmente na altura do Rockefeller Center. Os turistas paravam para tirar fotos da catedral de St. Patrick e os carros pareciam não andar nas duas direções. Peguei o braço de meu pai para que ele não sumisse ou se perdesse de nosso grupo; apesar de vir para Nova Iorque uma vez ao ano, ele sempre parecia deslumbrado com tudo.
– Divórcio é o mais comum – falou.
– Vocês vivem em um círculo pequeno de contatos, não é? – Lua perguntou. – Sendo um advogado, você não acaba sabendo de tudo o que ocorre ao seu redor?
– De fato – ele concorda. – Mas temos uma conduta de privacidade que protege nossos clientes de virarem alvo. Mesmo assim, dependendo do advogado, pode ser difícil manter alguns casos em baixo dos panos.
– Como o quê?
Fechei os olhos, respirando fundo. parecia um profissional de Direito, mas dar exemplos de casos era um absurdo. Ele não é advogado de verdade e nunca atendeu ninguém.
– Quando a esposa do Senador Matthew Camray abriu o processo de divórcio, estávamos em época de eleições. Qualquer coisa que degrada a imagem do eleitor é bem recebido pelo partido opositor. Os jornalistas e blogueiros não auxiliam no mantimento discrição, e na época, a então esposa também não.
– Eu me lembro deste caso – meu pai falou, olhando para trás. – Deixei de votar nele, porque não soube manter uma família, quando dizia em seu discurso sobre o valor do matrimônio.
não o respondeu, é claro. Ele havia acabado de dizer que o Senador foi seu cliente e meu pai o criticou. Apesar dele estar pouco se importando, sabia que meus irmãos e seus enteados estavam prestando atenção em seu comportamento.
Entramos na Uniqlo para comprar blusões para a época do inverno. Os blusões não são absurdamente caros, mas tendem a acabar rápido quando estamos próximos do frio. Meu pai gosta tanto deles que, nos piores dias, usa-os como pijama. Por isso sempre temos de comprar novos conjuntos todos os anos para ele.
– Ele é tão leve que você nem sente que está usando um casaco – meu pai sorria enquanto o ajudava a colocar o blusão na loja. Taylor, Max e ficaram em um canto da loja aguardando as mulheres e papai se decidirem pelos modelos e cores. De tempo em tempo olhava para o grupo vendo se havia algum problema, mas era um bom ator. Com as mãos sempre nos bolsos de sua calça social, conversava normalmente com Taylor e Max, que pareciam estar entretidos em uma conversa de adulto que mora em Nova Iorque.
Em Maine, sempre disseram que as pessoas da cidade grande eram como políticos presidenciais. Eles têm mais ligação com o mundo e o conhecimento chega com mais facilidade. Só de falar com um, você se sente mais inteligente – caso consiga manter o nível da conversa. Taylor e Max deveriam estar tendo maus momentos com , mas se ele os achava ignorantes, não demonstrou em momento algum.
– Eu imaginava que você fosse namorar um cara bem mais velho, que aguentasse sua obsessão com o trabalho. Achei que você precisasse de alguém que a fizesse descansar, não focar ainda mais no serviço – Céci disse enquanto papai entrava no provador para experimentar uma calça que ela escolheu.
– Vocês se encontram quantas vezes na semana? – Lua me perguntou.
– Todos os dias. Nós às vezes almoçamos juntos ou vamos a happy hours das empresas.
– Ele vai a happy hours? – Lua o encarou. – Me parece uma pessoa tão séria e centrada que dificilmente o imaginaria em um ambiente descolado.
– É, ele nunca sorri de verdade?
Ficamos as três encarando ao fundo. Eu também queria saber essa resposta. Nunca vi sorrir de maneira espontânea, era sempre tudo planejado. Além disso, ele não costumava sorrir com os dentes, apenas uma elevação nos cantos da boca e era o suficiente.
– Eu gosto dele assim – respondi, sem saber se estava mentindo ou sendo honesta.
– Que bom, mana – Céci sorriu. – Isso quer dizer que você o aceita como ele é.
“De boca fechada ele é ótimo.” Pensei. Eu não o aceito como ele é, eu apenas lido. Se eu pudesse mudar sua personalidade, ele ficaria perfeito demais para as mulheres.
– Vocês acham que eles têm um laranja? – meu pai perguntou, de dentro do provador, causando comoção em Lua e Céci, que acham que no inverno não devemos usar cores do verão.
 
Almoçamos em um restaurante indicado por . Eu imaginava onde isso iria parar, mas não queria pensar na possibilidade. Contudo, quando chegamos ao final da refeição, ele disse que pagaria tudo.
– Imagina, , nós pagamos nossa parte – meu pai disse, mas Taylor e Max não protestaram tanto quanto ele, afinal, tinham de pagar a reforma do quarto do bebê e o casamento.
– É um prazer – ele se levantou.
O vimos se afastar e iniciar uma conversa com o mètre. Geralmente as pessoas pagam na mesa, mas preferiu se levantar. Suspirei e disse que iria ao banheiro depois de ter enfiado meu cartão de crédito no bolso da jeans que usava.
– Deixa – falei, empurrando sua mão com o cartão para o lado e entrego o meu em seu lugar. – Crédito – olhei para a mulher que estava para receber o pagamento de .
– Achei que não chegaria nunca – ele disse no tom que estou acostumada a ouvir. – Ela irá pagar – apontou para mim e a mulher começou a digitar o valor. Olhei para a conta e meu coração quase saltou pela boca.
– Da próxima vez, se você não for pagar, deixe que eu escolha o restaurante – resmunguei e abriu um sorriso deboche.
– Não haverá próxima vez.
 
– Foi um dia adorável – Céci sorriu. – Você tem certeza que conseguirá pegar o meu vestido, ? – ela perguntou, visivelmente preocupada.
Céci decidiu que queria que seu vestido de noiva fosse de um estilista daqui de Nova Iorque. Eu, Lua e papai fomos com ela para a loja de Vera Wang, que estava em promoção – e lotada de noivas doidas para encontrar O vestido.
– Tenho, não se preocupe – sorri. – Além disso, você terá de vir para as provas. Até lá, combinamos melhor sobre esse translado importante.
– Tudo bem. Foi uma loucura decidirmos nos casar no natal, mas estou muito ansiosa! – Céci deu pulinhos de animação que fez meu pai abrir um sorriso maior. – Se você puder ir alguns finais de semana para Maine... Eu gostaria que estivesse ao meu lado para decidir algumas coisas. Taylor às vezes não gosta que eu fique pedindo para ele me ajudar, quer somente ver o básico. Acha que o casamento é sempre mais da mulher, do que do homem.
– E ele tem razão – Lua disse. – No meu casamento e de Max, ele participou da maioria das decisões, mas quem dava a palavra final era sempre eu. No fim, ele apenas compareceu no evento – demos risadas.
– Alguns homens também gostam de cerimônias – papai falou, tentando se manter em nossa conversa. – No meu casamento e de sua mãe, fui tão empenhado na valsa que nossa professora quase me chamou para ser seu assistente.
Eu e Céci trocamos olhares de quem estava prestes a rir. Sempre que nosso pai não sabia o que falar do assunto, encontrava algo relacionado a ele para comentar. Como agora não para de falar em passos de valsa para Lua.
Max, Taylor e estavam em uma cafeteria conversando. Quando chegamos, achei que veria os dois de Maine com uma expressão cansada de ter de fingirem serem intelectuais, mas surpreendentemente, eles estavam bastante animados.
–... Então o seguro de vida pode ser melhor se feito pela empresa. Tudo bem, falarei com meu chefe, ele já está a um tempo fazendo essa propaganda do seguro, mas ninguém nunca teve interesse – Max disse.
– Com um filho a caminho, é importante que faça um bom seguro para ela. Crianças se machucam com muita facilidade – falou, como se ele mesmo já tivesse seus próprios filhos.
Sentamos na mesa com os três, mas para evitar ficar perto de , fui fazer nossos pedidos no próprio caixa. Tentei ficar longe o máximo que pude, mas mesmo com o local lotado, os empregados eram muito eficientes. Quando voltei para a mesa, havia uma cadeira vazia ao lado de , que foi propositalmente deixada para mim.
– Você pediu o café com canela? – meu pai perguntou.
– Pedi sim.
– Mas virá com a bolacha?
– Se não vir, eu peço para o senhor.
– Mas ele deve estar incluso no valor.
– Tudo bem, pai. Terei certeza de que não pagarei nada mais que o valor do café.
– Essa é minha garota – ele sorriu.
, estava falando sobre as vantagens de se investir em imóveis aqui em Nova Iorque – Max começou a falar. – Por que você não investe em algo?
Olhei para , que esperava uma resposta minha. Ao ver que eu não responderia, ele olhou para Max:
– Mulheres não costumam fazer esse tipo de investimento. Elas preferem investir em negócio, que é mais benéfico.
– Bem, os imóveis me parecem mais seguros – Taylor olhou para Céci. – O que acha?
– Talvez seja melhor esperarmos o casamento passar – Céci disse, sem graça. Assim como eu, ela não entendia nada sobre o assunto e não tinha o menor interesse de gastar dinheiro em um prédio para receber um aluguel mensal, sendo que precisa de muito mais para pagar sua cerimônia e festa. – Nós ainda queremos o nosso próprio negócio, lembra?
– Viu? Negócio – papai apontou para Céci, que o olhou feio.
– Nós podemos ver sobre o negócio, mas seria interessante temos uma segurança a mais mensal, entende? – Taylor desencostou de sua cadeira para poder explicar melhor. – Veja bem, nos explicou muita coisa...
– E ele informou o valor de um imóvel para comprar e alugar? – perguntei. Taylor encolheu os ombros, é claro que havia dito. Eles provavelmente estavam pensando somente no dinheiro que receberiam mensalmente, mas não pensaram no que poderão gastar até chegarem a receber essa quantia.
– Amor, vamos pensar nisso depois de quitarmos todos os pagamentos do casamento, pode ser? Podemos ver isso com mais calma e vir para cá conversar com , mas agora nossa prioridade é outra – Céci disse, gentilmente, no tom que eu, Max e papai conhecíamos bem. “Cale a boca e pare de falar besteira.” É o que ela queria dizer.
Céci sempre teve controle sobre sua vida. Se formar, arranjar um bom trabalho em sua profissão, abrir seu consultório, ter filhos e viver uma vida tranquila. Ela nunca cogitou sair de Maine, por isso, se contentou com todas as oportunidades que surgiram lá. Agora, está na fase de sua vida que tem de começar a lidar com mais uma pessoa e acha que conseguirá controlar também, porque Taylor sempre foi alguém despreocupado, que prefere ceder, a ter de fazer. Assim, quando Céci deu o veredito final, Taylor não insistiu mais.
– Será que conseguimos comprar ingressos para assistir a um jogo da MBA? – Max olhou para , que balançou a cabeça:
– Eles não costumam jogar no 4 de julho. O máximo que conseguirão ver é uma apresentação da Broadway ou do Cirque du Soleil que está aqui por uma temporada.
– Ah, é o circo daqueles palácios ginastas? – Lua perguntou a Max. – Céline Tammes falou sobre ele quando voltou de Las Vegas no último verão, lembra Max? Ela falou que é espetacular.
– Você quer tentar ir? – ele perguntou. – Vocês querem ir? – olhou para nós.
– Eu não gosto de palhaços, então irei passar, mas posso ver os ingressos e depois nos encontramos para jantar – olho no relógio.
– Então está combinado! – papai falou. – Veja se há ingressos, tesouro.
Enquanto eu me preocupava em pegar os pedidos que havia feito e comprar os ingressos pelo celular, o resto da mesa conversava sem parar. Agora que as mulheres voltaram, falava menos, mas continuava sendo o centro das atenções. Por ter ganho o respeito de todos, era constantemente citado para dar a opinião no assunto.
Quando eram sete e meia, meia hora antes do espetáculo começar, eu e os levamos até o local onde estava montado o circo do sol. Eles estavam ansiosos, já que nunca haviam ido em um:
– Pegarei vocês às dez e meia para jantarmos, vou fazer uma reserva no Poívre.
– Ah, que ótimo! Lua estava com vontade de comer carne ontem – Max aprovou.
Nos despedimos dos cinco e assim que eles sumiram, deu um passo afastado. Ficamos calados. Olhei para seus pés, porque queria evitar seus olhos, mas sabia que deveria agradecer por ter vindo hoje.
– Obrigada – disse. – Não esperava que viesse.
– Não tinha nada para fazer – ele disse. – Além do mais, quero ver como anda a criação.
– Eu só fiz um desenho, – olhei para ele, chocada com sua pressa. – Não deu tempo nem de pensar em um conceito direito.
– Bem, quero ver o que tem em andamento – ele se virou para mim. – Vamos, meu carro está esperando – me deu as costas e começou a caminhar.
O apartamento que divido com Amy e Lana é enorme, se comparado ao que moramos quando nos mudamos de Maine. Assim que entrou e olhou ao redor, dei graças a Deus que a faxineira havia vindo na quinta-feira e não na segunda, como eu queria.
– Você quer algo para beber? – perguntei, vendo-o agora como um chefe, ou pelo menos me esforçando para que fosse assim.
Ao invés de responder como uma pessoa normal, ele apenas ergueu a mão como faz com Lottie, sua secretária. Desde a última vez que conversamos de maneira informal sobre eu ter de jogar sujo para cima de Lauren para que subisse na carreira como deveria, ele não dirigiu muito a palavra para mim da mesma maneira. Apesar de me fazer comparecer a várias reuniões e me fazer de barata tonta, e perder tempo conversando com representantes de marcas parceiras para explicar conceitos – algo que, na minha opinião, era responsabilidade de Lauren –, nunca mais compareceu a happy hours ou em nossa aba no escritório.
Meu escritório ficava em meu quarto e ele era o maior por essa mesma razão. Lana agora dificilmente atende em casa, prefere ir à casa das clientes para paparicá-las e, claro, observar o ambiente que moram. Já Amy nunca trazia clientes para cá porque seu serviço era justamente organizar o espaço do outro com roupas, sapatos e acessórios tendenciais.
Meu quarto, por ser o maior, parecia possuir mais coisas. Sentamos na área do meu escritório, onde vários desenhos que fazia em uma esperança de um dia poder me tornar autônoma estavam espalhadas pelos meus painéis que cobriam as paredes atrás e ao lado do meu computador. perdeu um bom tempo as encarando e então puxou sua própria cadeira quando comecei a falar sobre o conceito que ele havia passado na pasta:
– Fazer uma mistura de platina com pedras preciosas e ainda manter a graça de joia delicada não é a coisa mais fácil do mundo, principalmente quando há a necessidade de fazer 40 peças diferentes. Para a primeira coleção, pensei em utilizar a safira – retirei algumas folhas que havia rabiscado quinta de noite e ontem. – Há uma tradição em matrimônios que dita que a mulher deve usar algo novo, algo antigo e algo azul para que o casamento dê certo. Este é um conjunto de peças para ser utilizada com qualquer vestido de noiva, independentemente do tempo, estação ou tema da festa – empurrei os rabiscos da aliança. – A platina seria trabalhada na base das pedras; descobri que elas permanecem mais seguras do que se utilizado o aço, e dependendo da platina que usarmos, poderá ser facilmente confundida por prata. É bom para a peça masculina, que traz menos detalhes, mas mantém a masculinidade. Além disso, as peças não distinguem sexo, podendo ser comprada por casais de mesmo sexo e nem idade, disponível para, por exemplo, idosos que casam com mulheres bem mais jovens que eles.
Enquanto analisava meu desenho com as anotações que escrevia acompanhado por setas, eu mexia em meu computador para chegar algum possível e-mail que pudesse me distrair.
– E esse é o primeiro conceito? – ele ergueu a cabeça. – Você pensou nisso em um dia?
Assenti, querendo dizer que na verdade eram dois, mas às vezes é bom deixar que as pessoas vejam esse lado de nós para que parem de nos subestimar. Vi um pequeno sorriso se formar nos cantos de seus lábios, mas fingi não perceber, mantendo a expressão séria:
– Você não me informou o público-alvo, nem para qual finalidade a coleção seria lançada...
– Continue seguindo essa linha – ele apenas disse e olhou para o lado. – E estes outros?
– Ah...
– Por que “ah...”?
– Elas não são para a .
Aquilo pareceu querer chamar sua atenção. Seu rosto virou para mim, exigindo uma explicação. Suspirei. Se eu soubesse que entraria em meu quarto para olhar meus desenhos, jamais os teria deixado aí.
– Fui aprendiz da sua mãe – comecei. – No início, ela pedia para eu criar várias joias em conceitos que jamais havia visto ou ouvido falar na vida. Eram testes que aperfeiçoavam e trabalhavam meu senso e segurança. Ela dizia que se eu conseguisse fazer aquelas joias, seria capaz de qualquer outra. Esses são os desenhos que ela analisou, gosto de deixar aí para... Bem... Elas foram meu esforço para ter uma carreira – olhei para os desenhos, sem graça. Não queria ter explicado sobre minha tietagem em cima de Barbara . não gostava de puxa-sacos, todo mundo soube depois que ele cortou Tim Garden na reunião de mercado mês passado. Ouvi falar que Tim não parava de fazer comentários enquanto falava.
Ele se levantou e foi observar os desenhos mais de perto; elas estavam com as anotações de Barbara. Algumas frases possuíam conteúdo que ninguém jamais receberia em forma verbal dela – para alguns era até inimaginável pensar que ela era capaz de formar tais sentenças. Um por um, ele observou calado.
– Conceito espanhol e neve – ele comentou, em forma de riso.
Mordi o lábio, querendo que ele se afastasse dos desenhos, mas não conseguia distrair sua atenção. Ele parecia entretido com as anotações e em verificar os desenhos. Será que ele compreende algo? É difícil saber, pois não sei o quanto se preparou para tomar o lugar de Barbara, mas se fosse para ele desenhar, não seria presidente. Seu olhar parou em uma pasta da empresa que Lauren havia me passado há duas semanas. Era para a renovação da coleção de debutantes, não que pudéssemos fazer muitas alterações. Ele pegou a pasta sem me pedir permissão, provavelmente pensando que ela pertence mais a ele do que a mim. Soltou um pequeno riso quando leu o conteúdo.
– Você já fez algo desse? – perguntou, sem desviar os olhos.
– Estão no fim da pasta.
Ele ignorou o resto do briefing e pulou direto para os desenhos. Assim como minhas lições pedidas por Barbara, gastou um enorme tempo analisando.
– Lauren irá explicar mais sobre eles no final da semana que vem...
– Por que suas anotações nunca vêm nas apresentações? – ele olha para mim, puxando sua cadeira e sentando novamente.
– Ah... Lauren as aboliu quando Vincent deixou a empresa.
– E por quê?
– Ela disse que ninguém nunca dá atenção a elas e que é melhor quando há alguém para explicar verbalmente – levantei os ombros.
sabia que era uma desculpa de Lauren para complicar minha vida e que essa era uma das atitudes que eu não podia ser contra, devido às nossas posições na empresa.
– Deixe–me ver a coleção das águas – ele esticou a mão em minha direção e tive de abrir a gaveta de briefings e rascunhos para achar. – Em quanto tempo você criou essa coleção dos debutantes?
– Ah, três dias.
– Três dias?
– Exato.
Ouvi mais uma vez seu riso em forma deboche soar baixo, ao mesmo tempo que ele murmurava algo que não conseguia dizer. O quê? Ele acha que três dias é pouco? Muito? Que sou absurdamente produtiva?
– O que o briefing pertencente a Tony Bridall faz aqui?
Olhei para trás e o vi com a pasta que trouxe quarta-feira depois do expediente.
– Às vezes eles me pedem para conferir seus traços. Não é nada demais, eu só dou opinião, são eles quem fazem tudo – tento explicar para que ele não tenha uma má impressão de Tony.
Conforme pedido, entreguei o desenho da coleção das águas para . Ele gastou um bom tempo lendo o material. Aproveitei o tempo para fazer anotações sobre sua coleção; como não consigo criar nada na frente da pessoa que exigiu – e isso não vale somente na frente de –, voltei a trabalhar na digitalização dos desenhos de debutante que deveriam ser entregues até terça, mas que eu tentaria entregar na segunda, para evitar sair do trabalho no primeiro dia da semana com o ouvido vermelho de cobranças de Lauren.
Falando nela, estou surpresa por não ter recebido nenhum telefonema durante o dia. Talvez ela tivesse ligado, mas ele a ignorou. Ou talvez o marido dela estivesse na cidade.
Eram quase dez horas quando decidi me levantar. ainda estava compenetrado nos trabalhos que me pediu depois de eu lhe entregar a da coleção da água, mas não me fez nenhuma pergunta ou comentário.
– Hum... Eu comentei com eles que os buscaria às dez e meia – falei, vendo o olhar sério de subir e então encarar seu relógio de ouro.
– Claro – se levantou sem enrolação. – Você se importa se eu ficar com estes? – apontou para algumas pastas de plástico que estavam à sua frente durante a análise e que provavelmente pegou por engano.
– Mas não são... Pode, sim senhor – falei, ao ver seu olhar em mim. Apesar de eu poder dizer ‘não’ por ser um trabalho meu e ele não ter nada a ver com a empresa, algo dentro de mim não deixou que me opusesse. Além do mais, havia sido um bom ator durante o dia com minha família e eu deveria retribuir de alguma maneira.
Ele não foi jantar conosco, é claro. Diferente das outras vezes, decidiu me dar uma carona, alegando ser caminho de sua residência. Quando eu estava em frente às tendas do circo montadas para a ocasião, o ouvi me chamar assim que a porta se abriu:
–... Nada – desconversou, mas não dei-lhe muita importância. Ainda faltavam quinze minutos para o fim do espetáculo.
Tempo o suficiente para dar vários tapas em minha cabeça, mandando minha mente parar de pensar em .

Capítulo 04

Quando minha família foi embora, sentiram por não poderem ver . Eu havia inventado uma desculpa que ele tinha uma audiência importante e precisava praticar seus argumentos. Meu pai pediu que eu lhe desejasse boa sorte e Max pediu o celular dele para desejar ele mesmo, mas eu desconversei, afinal, eu não poderia passar um número que não tenho.
Ao chegar em casa, me joguei no sofá, exausta, como se tivesse corrido uma maratona de 10km. Olhei para o teto e me perdi nos pensamentos. Colocando-os em ordem, cheguei à conclusão de que sou louca. Não sei de onde surgiu a ideia de fazer meu namorado de mentira. Mentir para minha família já se tornou um hábito, já que sempre inventei desculpas para não voltar a Maine com a frequência que eles gostariam; agora, colocar meu chefe na história é outro nível.
– Se sua família ver você nesse estado logo após tê-los deixado na estação, eles ficariam muito decepcionados – Amy me tirou de meus pensamentos, entrando na sala com sua mala de carrinho. Olhei em sua direção e suspirei:
– Disse a filha que voltou para Nova Iorque às onze da manhã – olho em meu relógio de pulso e ouço seu muxoxo de alívio. Apesar de ser extremamente organizada, não se importou de deixar a mala ao lado da porta e correr para se sentar ao meu lado no sofá:
– Se eu ficasse lá mais uma hora, teria um treco. Por sorte Emilly Burken me ligou e pediu que eu a ajudasse a se arrumar para uma festa de aniversário do chefe de seu marido. O coitado está tentando virar sócio, pode? Até aonde vai o esforço das pessoas. Eles ainda nem se acostumaram com a vida de novo rico – ela começou a se abanar pelo calor de ter corrido meio metro.
– Hum... E Jordan?
– Ah, ele disse que gostou, mas sei que não irá querer voltar por muito tempo. Você conhece o temperamento de seu Martin, né? – ela soltou uma risada.
– Ah, ele é adorável – brinco, recebendo um tapa. – E por que seu homem não está aqui?
– Eu preciso arrumar algumas coisas e em dia de semana não tenho tempo nem para me olhar no espelho e verificar se a sobrancelha está boa. Sorte que temos Lana aqui – ela riu. – Mas as minhas notícias não são nada legais como as suas. Como foi tudo? Beijou ?
– É claro que não – revirei os olhos. – Nós só fingimos, todos caíram e eles foram embora.
– Simples assim? Nada demais?
– Nada demais.
– Nenhum flerte? Nada, nada?
– Ah, tenho sim – olhei para ela, vendo-a se remexer no sofá, se preparando para uma notícia que lhe traga choque. – Lua e Max estão grávidos e Céci e Taylor, noivos.
– O quê? Mentira! Céci com Taylor North? Achei que ela daria um pé na bunda dele. Que saco!
– Céci? Dar o fora em alguém? Ah, tá – dei uma risada. – Ela está feliz com ele, além disso, ele não é tão mala com ela, como é conosco. Você tinha de vê-la cortar as asas dele quando ele quis fazer um investimento em imóvel. Ah, o amor muda as pessoas.
– Sua irmã é demais, apesar de não ter sido muito inteligente casando com North. Lembro de que na época da escola ninguém conseguia calá-lo, principalmente no meio de uma discussão – olhou suas unhas e respirou fundo, perdida em seus próprios pensamentos, até voltar a me dar atenção. – Então quer dizer que teremos um casamento em breve?
– E um chá de bebê. Você acredita que Lua e Max pediram para eu organizar?
– Mas você está em Nova Iorque.
– Exato! – pulei no sofá. – Parece que a distância não é importante para eles – resmunguei, chateada. – E eu não podia simplesmente falar ‘não’, quando eles estavam tão animados e fazendo aquela chantagem de que um não pode atrapalhar o outro porque eles estão ocupados com seus próprios eventos.
– E você não há eventos?
– Aparentemente, não. Eles acham que Nova Iorque só é agitado em época de feriado, quando eles vêm para cá – volto a me jogar e bati em uma almofada para descontar minha frustração. – Agora terei de voltar a Maine e dar um jeito de fazer com que tudo seja perfeito, porque você sabe como é Céci e seu jeito de ‘princesa’, além de ser a primeira criança da nossa família.
– Bem, há vários recursos que permitem uma pessoa de organizar um evento em outro estado.
– Sim, contratação de uma verdadeira organizadora de eventos – falei, irônica. – Vai me custar uma baita grana. Mas tudo bem, só irei fazer porque é Max e Céci.
– Imagina se eles chamarem Taylor e Céci para serem os padrinhos da criança? – Amy abriu a boca, chocada com a própria ideia. Essa era a diferença entre ela e Lana. Amy se punha no lugar das pessoas e sentia suas dores, enquanto Lana se aproveitava para utilizar a aflição do outro como sua própria diversão.
– Isso não vai acontecer – minha voz saiu de uma maneira tão fria que Amy não ousou me retrucar. – Não se faz isso com as pessoas que organizam dois eventos importantes de outro Estado.
, você nem gosta tanto assim de crianças.
– Bem, eu também nunca disse que não gosto delas – coço a nuca. Eu nunca havia mesmo; para ser sincera, ter ou não crianças dependerá da pessoa com quem casar. Gosto de ser livre de responsabilidades maiores, cuidar de uma vida a mais que é completamente dependente não é o que desejamos enquanto estamos na correria para conseguir um salário melhor. – Se tem alguém que não precisa falar do assunto entre nós, sou eu, a única solteira.
– Você não precisa estar namorando para engravidar...
– E desde quando você é tão liberal? – coloquei as mãos na cintura. – Se você mudasse um pouco o tom de voz, eu perguntaria o que Lana está fazendo no seu corpo – minha comparação com Lana ativou algo em Amy que a deixou perturbada. Ela se remexeu em seu canto do sofá e tentou desconversar:
– Nós não discordamos sobre tudo... Além disso, foi o que aconteceu com Evelyn, lembra? No último ano do colégio?
– Ninguém mandou ela ser, hum... Fofa – ‘fofa’ é o código que costumamos usar em frente a Amy para substituir o ‘puta’ ou ‘vadia’ de nossas sentenças. Por uma razão muito esquisita, Amy cora quando ouve palavras de baixo calão.
– Não irei discordar. Quem é que segurava aquela garota?
– A única coisa dela que era segurado, era a calcinha longe de onde deveria estar – comentei enquanto ia até a cozinha preparar nosso almoço, ouvindo as risadas de Amy soar. O interfone logo tocou, avisando que Jordan estava na portaria. Ela ficou sem graça por ele vir sem a avisar, sendo que ficaram todo o feriado juntos, mas fingi não me importar. Além disso, seria melhor se não precisasse fazer sala para Amy, afinal, se eu quisesse terminar meu serviço a tempo, deveria começar logo.

Como de conhecimento geral, a segunda-feira é conhecido como o dia da fofoca na empresa. As pessoas contavam o que fizeram e com quem se encontraram no final de semana; excepcionalmente essa segunda, todos estavam em fervor, já que houve um dia a mais para se aproveitar o tempo livre. Como sempre, Claire soltou a expressão de sempre quando eu cheguei:
– Você não sabe!
Dei uma leve arregalada de olhos, como sempre faço, mostrando que estou surpresa e ansiosa para saber o que eu não sei. Ao ouvir a expressão hábito de Claire, todos ao redor da nossa equipe arrastaram suas cadeiras de rodas para perto um pouco relutantes, principalmente depois dela ter dito na semana passada que passaria o feriado em pleno tédio.
– Esse final de semana minha tia teve um encontro com Barbara , um tipo de almoço beneficente entre as mulheres de mais idade – balançou a mão, como se o evento não tivesse sido importante, mesmo ele provavelmente estando na página principal do caderno de fofocas dos jornais da cidade – Ela me disse ontem que no sábado, quando perguntou se , que costuma acompanhá-la nesses eventos, iria comparecer, já que ela queria apresentar uma prima minha que já está começando a ficar com fama de solteirona. Mas Barbara disse que tinha um compromisso pessoal naquele dia.
– Pessoal? – Nally perguntou, mordendo a ponta de sua caneta. Claire fez um sinal para que ela continuasse sua linha de raciocínio, por isso, ao ser incentivada, Nally logo disse: – Você quer dizer, um encontro?
– Bingo! – estalou os dedos em sua direção, como se ela tivesse descoberto a cura da preguiça depois do feriado. – E não era com Lauren, porque a bruxa estava no evento tentando se sentar na mesma mesa de Barbara.
Congelei. Olhei para os lados para saber se alguém desconfiava da minha expressão ou falta de reação. Por sorte, sempre reagi dessa maneira, de modo que ninguém se perguntou ou me perguntou se estava tudo bem ou se sabia de algo. Mentir para mais eles era impossível, já que pessoas que gostam de fofocar sabem das reações das outras ou quando elas estão escondendo algo.
– Provavelmente para saber onde o amante dela estava – Erin revirou os olhos. – Mas é uma surpresa que ela e não estavam juntos. Você tem certeza?
Claire concordou com a cabeça.
– Positivo. Tenho uma amiga cuja prima de grau mora no mesmo prédio que . Apesar dos elevadores serem um tanto exclusivos para alguns andares, os condôminos ainda conseguem saber pelos porteiros se alguém saiu ou não de casa. Minha prima sempre teve uma queda por ele e disse que ele havia saído bem cedo... E arrumado.
– Oh! – todos falaram.
Engoli seco. Não olhem para mim. Não olhem para mim. Não desconfiem de mim.
– Então ele está namorando? – Nally pareceu magoada.
Eu sei que a razão de todos – não só na equipe, mas na empresa – estarem interessados em . Ele é bonito, bem-sucedido, não costuma namorar e tem uma personalidade tão sexy que nem a rainha Elizabeth resistiria aos seus encantos. Contudo, há vários homens como em Nova Iorque, talvez mais mulherengos que ele ou menos preocupado em manter uma postura séria para todos – ou até mais simpáticos.
Nally, principalmente, tem nutrido um amor platônico por . Apesar de sua adoração por homens, dificilmente demonstrou estar interessada de verdade em alguém como está agora. Me sinto até um pouco mal por ela, pois ela não é o tipo de mulher que chamaria a atenção dele.
– Estar em encontros não significa estar namorando, Nally – Amber logo disse, tentando consolá-la. – Além disso, ninguém saberia dizer se ele estava em um encontro contra ou a favor de sua vontade.
Ninguém ousou falar mais nada, cada um preferiu permanecer preso em seus próprios pensamentos. Assim que Amber parou de falar e todos se puseram a quebrar a cabeça sobre a situação, o som do elevador soou, dando espaço para uma Lauren de cara fechada entrar em passos pesados. Por ela ter sido o alvo de fofocas com na última semana, se alguém além de Claire soubesse sobre o assunto, ela estaria em maus lençóis. O que, claro, é o caso, já que nesta empresa não há uma pessoa que não goste uma boa fofoca. Principalmente da megera.
, na minha mesa! – ela disse, passando sem olhar para nós e sem responder os ‘bom dia’s’ que recebia no caminho.
Recebi um carinho nas costas de Claire me dando força para enfrentar toda a ira da megera. Peguei a pasta cujos desenhos terminei ontem e segui rapidamente até a mesa de Lauren, que terminava de pendurar o terno que usava por cima de um vestido apertadíssimo.
– Você não tem nada o que me entregar agora? – ela estendeu a mão. Preferi não retrucá-la e apenas entreguei a pasta de couro com o briefing e os desenhos no final como costumo fazer. – Estão todas aqui?
– Sim senhora.
– Quinze desenhos?
– E mais os extras que pediu na quinta-feira.
Sem dizer mais nada e visivelmente insatisfeita por não poder descontar seu aborrecimento em mim, abanou a mão para que eu me retirasse de sua frente.
– E pegue um café forte para mim – falou mais alto, chamando a atenção dos mais próximos. Suspirei e fui direto para a cozinha fazer o maldito café. Durante o processo, vi passar, indo em direção ao lado oposto do andar, onde encontraria o elevador que dava acesso à sua sala no mezanino.
Encontrei Lauren em uma postura oposta à que estava há alguns minutos. Quando me aproximei de sua mesa, ela falava com , seus seios quase saltando do decote do vestido. Depositei a xícara em sua mesa silenciosamente e murmurei um ‘bom dia’ para , que não me olhou. Sem olhar para trás, apertei os passos para que chegasse mais rápido em minha mesa e pudesse me esconder atrás de meu trabalho.
Eu esperava que fosse agir como normalmente age durante o período de expediente. No entanto, também tinha esperança de que ele me mandasse um olhar cúmplice do que aconteceu no final de semana. Devido à falta de noção sobre a última fofoca, é bem provável que ele não saiba sobre essa também.

Quinta-feira chegou rápido e Lauren possuía uma reunião para apresentar a mudança da coleção de debutantes que havia solicitado há duas semanas e meia. já havia visto a coleção em seu rascunho, mas não disse nada – ou pelo menos Lauren não veio descontar sua raiva em mim –, e por isso, tive de criar a apresentação do conceito como sempre faço para ela.
Nosso happy hour foi no lounge do hotel que costumamos ir. Por sorte, Lauren não decidiu nos acompanhar porque não o faria. Foi bizarro como durante toda a semana ela passou correndo atrás dele e vindo com roupas provocantes. Conjuntos de ternos coloridos, acompanhado de scarpins e cabelos sedosos. Senti um pouco de admiração no esforço que ela tem para conquistar um amante. Estou certa de que seu investimento não tem a ver com sua posição na empresa, já que acima dela há apenas a presidência. Logo, é muito claro para todos que ela apenas quer se satisfazer com um corpo mais jovem que a de seu marido quase 15 anos mais velho. Tenho um pouco de dó do homem, já que na última festa de confraternização da empresa que ele compareceu, foi uma pessoa muito simpática com todos; mas cada um paga seus pecados com o gosto que tem.
Fazia um bom tempo que nós não tínhamos um happy hour somente nosso. Das últimas vezes estava presente ou o feriado nos atrapalhou, fazendo com que não tivéssemos muito tempo para conversar confortavelmente.
– Vocês ficaram sabendo que Lauren escolheu Guy para fazer a coleção de outono? – Amber aproveitou a deixa que Nally, Erin, Tony e Guy estavam no bar esperando nosso sinal para nos sentarmos, e perguntou para mim e Claire quando estávamos no lobby aguardando nossa mesa.
– Guy? – perguntei, surpresa. Ela dificilmente o chamava, porque ele era extravagante demais. Mesmo que fosse o estilo dela, raramente era aprovado por Barbara. – Não era você?
– Era, mas ela achou que deveria dar uma chance a ele – Amber murmurou, cheia de remorso – Eu não queria ser injusta com Guy, mas ele é péssimo com prata. Só quer usar ouro e bronze, e ouro branco e todas essas cores que combinam e jamais combinam. Ouvi dizer que ela vai passar o maior número de trabalhos importantes para ele e Tony, para que quando houver o anúncio dos designers da coleção de 50 anos, eles sejam dois dos três escolhidos.
– Ah, fala sério! Se ele for escolhido, é capaz de Barbara voltar à ativa só para poder demitir ele e Lauren – Claire exclamou.
– Estou falando sério! – Amber disse e olhou para mim. – Você tem certeza que não tem nada a mais com o ?
– Por quê? – perguntei estupefata. Minha resposta não deve ter saído da maneira que eu gostaria, por isso, Amber poderia ter interpretado que eu estava escondendo algo.
– O que poderia ter com ele, Amber?
– Claire, você é muito ingênua.
– E essa é uma ótima oportunidade de você me ajudar a tirar essa fama das minhas costas. Você está saindo com ele, ?
– Não! – exclamei, mais esganiçada do que esperava.
– Ela já saiu uma vez – Amber sorriu. – Vamos lá, é Claire, se há alguém fiel nessa empresa, somos nós.
Olhei para Claire, que entendeu a mensagem. Ela era a pessoa que iniciava a segunda–feira falando “Você não sabe!”.
– Eu não falo segredos de quem são meus amigos – ergueu suas mãos, tentando se livrar da culpa. – Além do mais, seria um ponto a mais se você estiver saindo com ele. Ouvi dizer que ele é extremamente chato com seu gosto sobre mulheres.
– Por quê?
– Geralmente os homens da alta sociedade procuram mulheres que se importem com a aparência e causam boa impressão, formando uma boa parceria em questões estéticas. Eles gostam das burras que têm como principal valor o dinheiro, não espertas que investem em suas ideias e dotes para ganhar o próprio dinheiro. é completamente o oposto, por isso não possui muitos amigos na roda – ela se aproximou mais de mim e de Amber, olhando para os lados antes de falar: – Ouvi dizer que ele já rejeitou mais de cem mulheres.
– Cem? – eu e Amber perguntamos juntas.
– Como pode alguém rejeitar 100 pessoas? – Amber questionou, chocada. – Ele realmente acha que é tudo isso – disse, em tom debochado. – Nós conhecemos alguém que ele rejeitou?
– Claro. Lauren – Claire disse, sorridente.
Comecei a rir alto ao ver Guy se aproximar de nós com uma expressão indecifrável.
– Você precisa contar isso direito – murmurei para Claire antes de mudar minha atenção para ele. – Nós ainda não fomos chamadas.
– Eu sei, flor, mas sabe o que é? Uma amiga da Erin nos chamou para ir a uma festa ali na nona com a quarenta e sete, vocês não querem nos acompanhar? – apontou para trás onde o resto do grupo conversava animado.
– Ah, eu esperava ficar menos tempo hoje – olhei para Amber e Claire, tentando enviar-lhes o sinal de que precisávamos falar sobre o assunto “ rejeitou Lauren”. – Mas se vocês quiserem ir...
– Eu também prefiro só beber uma coisa e vazar. Minha colega de quarto não está em casa hoje e quero aproveitar para, hum, ver se ela pegou uma roupa minha que eu nunca usei.
– Querida, isso aí não é nem colega, é ladra – Guy deu um tapa de leve em seu ombro demonstrando seu pesar. – E você, Claire? Vai perder o festão?
– Caraca, eu queria ir, mas briguei com a minha mãe esse feriado e ela meio que me intimou a voltar para casa antes da meia-noite ou perderei a carona de manhã.
– Ai que horror pegar o ônibus pela manhã! Bem, então nós quatro iremos, vocês se importam?
Começamos a murmurar que não, afinal, aquela era a oportunidade perfeita. Assim que os quatro sumiram dentro do táxi, Amber foi cancelar a reserva enquanto Claire chamava um táxi para nós. Se iríamos fofocar sobre alguém da empresa, não poderíamos fazer no point dos empregados dela.
Escolhemos o Lacabana porque eles servem bebidas tropicais com álcool que poucos sabem fazer. Em sua apresentação, eles se apresentam como um bar para as pessoas se sentarem, aproveitarem as bebidas e visualizarem o mar cubano, tudo porque investiram uma boa grana na decoração para que se parecesse com Havana. Além disso, por ainda ser cedo e o local mais afastado do centro, haviam poucas mesas, mas ainda disponíveis para o happy hour. Por sorte, eu, Amber e Claire conseguimos uma no lado interno, onde as pessoas eram proibidas de fumar aquele charuto horrível que o bar vendia com exclusividade.
– O que você quis dizer com Lauren foi rejeitada? – Amber perguntou logo que o garçom se afastou. – E aquela foto?
– Ela é real, mas foi tirada bem nos segundos que Lauren tocou em – Claire falava como se regozijasse na ideia de nossa chefe receber um fora. – Lauren a intimou para não espalhar essa versão, porque isso afetaria na imagem dela, mas é claro que eu consegui saber.
– Mas o que aconteceu?
– Lauren andou perseguindo ele, e por ser uma pessoa muito educada, não a afastou. Isso, na linguagem de Lauren, é praticamente uma permissão para investir, que foi exatamente o que ela fez. Bert, da assistência, disse que os viu em uma noite e eles pareciam estar em um encontro, apesar de não carregar a melhor expressão do mundo.
– Mas se não saiu com Lauren no sábado, quer dizer que ele está em outro relacionamento – Amber falou, pensativa.
Eu não queria puxar a conversa para esse assunto, porque estava muito curiosa para saber mais sobre o não relacionamento de com Lauren. Por isso ele se mostrou surpreso quando questionei sobre ela na sexta-feira.
– Ninguém sabe sobre esse suposto encontro dele, porque domingo ele só saiu para fazer suas atividades cotidianas de exercício – Claire murmurou.
– Lauren sabe? – perguntei, nervosa. – Sobre ter saído com alguém no sábado?
– Não sei, mas pela reação que ela teve hoje, provavelmente.
– Quando ela te chamou, achei que fosse você – Amber soltou uma risada. – Pensei que havia descoberto que você já saiu com ele antes e estaria repetindo a dose.
– É verdade! Eu não estou sabendo desse encontro! Foi um encontro, tipo, mesmo? – Claire aproximou sua cadeira de mim e não pude deixar de me sentir um pouquinho animada por poder discutir sobre isso com alguém.
– Foi e não foi. O encontro, na verdade, era da minha melhor amiga com um amigo dele. Aconteceu dela não querer ir sozinha e pedir para transformar em um encontro triplo, o que resultou em mim e no mesmo lugar. Não aconteceu nada demais; para ser sincera, nós nos bicamos mais do que nos demos bem.
– Se bicaram? Sem... hum... Aquilo?
– Nós nem nos tocamos. Foi, tipo, acenar e acenar, virar as costas e seguir cada um sua vida. Ele foi muito chato, por isso, quando o vi na empresa na segunda-feira, quase tive um treco do coração.
– Mas ele não se apresentou como ?
– Não, ou teria fingido me importar com ele – abri um sorriso irônico. Se eu soubesse quem ele era no dia do nosso encontro, eu definitivamente seria uma pessoa diferente.
– E ele não citou no assunto depois que vocês se viram na empresa?
– Claire. Por que ele iria querer contato com uma mulher que teve um encontro ruim? – perguntei, vendo-a erguer os ombros.
– Ele me pareceu interessado demais nos seus trabalhos para ter considerado o encontro de vocês ruim.
– É, ela tem razão, . Isso não pode ser uma mera coincidência – Amber bebeu um gole de sua bebida. – Agora, mudando um pouco de assunto, queria dividir uma informação sigilosa que não pode ser passada para ninguém.
– O quê? O quê?
– Sabem Victoria Brunelli, da Thames?
A Thames é a concorrente direta da . Apesar de não ter a fama que a tem no mundo, é a única empresa do mesmo ramo que tem coragem de ousar competir conosco, o que a torna um problema para nós de vez em quando. Eles não possuem, de longe, designers de talento. É raro vermos uma coleção que não lembre alguma da e quando acontece, ser belo como ela. Eles nunca venceram em questão de vendas ou preferência, mas de um tempo para cá, têm tentado arduamente levar os designers para lá e mudar essa imagem manjada.
– Ela entrou em contato comigo esses dias – Amber sussurrou. – Me ofereceu dez e home office.
– Recuse – falei, abanando a mão e a assustando. – Não estou querendo quebrar sua animação, mas dez mil é o que você ganha na incluindo o transporte, a alimentação, o seguro e os gastos diários da empresa.
Amber endireitou a coluna e olhou para cima, sinal de quem estava tentando realizar as compras.
– Ela tem razão – Claire confirmou, sendo mais rápida. – Você já foi chamada para eles, ?
– Não. Mas antes de sair uma amiga de Vincent me ofereceu uma vaga assim. Ela estava iniciando a carreira porque era muito rica e não tinha o que fazer com o dinheiro, então ela o chamou e ele me indicou, mas é claro que eu não deixaria Barbara naquela época. Eu estava aprendendo muito.
– Mas , veja bem. Tudo bem, tecnicamente, ganharei o mesmo, mas não é mais vantajoso receber o valor completo em dinheiro do que dividido em partes? Home office todos os dias é um sonho!
– Você pode ter razão nesse aspecto, mas eu sempre vejo por um outro lado. A é a empresa mais prestigiada. Você terá oportunidades melhores dentro dela do que na Thames, que já tem a fama de ser uma sócia da . O que você irá aprender lá?
– É verdade, lembra de Jade Fuentes? Ela está toda hora querendo marcar um encontro comigo, acha que eu já deixei de ser estagiária – Claire balança a cabeça em negação. – Está louca para voltar para a .
– Às vezes você precisa pensar fora da sua zona de conforto. Se no que você está agora te agregará um futuro profissional melhor, é preferível que você suporte um pouco mais, mas obtenha um resultado satisfatório do que deixar nossa equipe e ir para frente.
Amber olhou para os lados e apoiou seus braços na mesa:
– Ela me perguntou de você, .
Levantei as sobrancelhas, ligeiramente surpresa. Desde que Lauren entrou na chefia da nossa equipe, não tenho recebido mais ligações de propostas, porque sempre que há a oportunidade, ela veta meu nome de aparecer como designer da coleção. Dessa maneira, não tem como as pessoas do ramo saberem sobre mim e me cobiçarem.
– Há um profissional lá chamado Nathan Garden. Ela disse que ele sabe tudo sobre suas criações, mesmo sem sua assinatura – Amber estalou a língua. – Acho que ela veio falar comigo mais para ter um canal até você, já que provavelmente chegando em Lauren, ela jamais aceitaria que você fosse para uma concorrente e crescesse lá, recebendo uma bronca de .
Eu nunca havia ouvido falar de Nathan Garden. Por que ele saberia tanto de mim?
– A questão é que ela queria marcar essa data para discutir algumas ofertas. Com certeza com você as coisas serão diferentes. Eles a querem mais do que eu, quem não quereria?
– Não se inferiorize, Amber – fiz uma careta. Não gosto quando as pessoas se diminuem em comparação a mim. É claro que sei que sou ligeiramente melhor que elas, mas ouvir esse tipo de comentário não me faz sentir muito melhor. – Eu não sei quem é Nathan Garden e não tenho muito interesse na Thames porque eles não são originais.
– Eles não são originais porque os designers deles são todos ruins – Claire mordeu o canudo de sua bebida. – Eu sempre estranhei você não ser chamada para nenhuma empresa, . Não quero ofender ninguém da equipe, mas as melhores coleções quem faz é você. Além disso, por que você ficaria em um lugar que não dão o seu valor?
– Se esse Nathan souber de verdade quem você é, com certeza saberá qual posição você deve pertencer em uma empresa. Eu não suporto a maneira como as pessoas veem os designers de joias como parte deles. Somos praticamente autônomos e mesmo assim, nos tratam como as pessoas do comercial. Hello! Se não fosse pelos nossos desenhos, vocês não estariam aí!
– Ou seriam como a Thames – Claire nos fez rir.
Enquanto as duas faziam um novo pedido de bebida, olhei para a rua, pensativa. Faz tanto tempo que não recebo uma oferta de emprego que não sei nem mais como lidar com ela. Antes, eu tinha Barbara como incentivo de permanecer na . E agora?

Jordan decidiu querer fazer um churrasco em sua cobertura, já que o pai de Amy finalmente havia dado sua bênção aos dois. Lana insistia em dizer que era uma baboseira, já que nada mudaria no relacionamento que eles já tinham:
– Se um dia você valorizar um pouquinho a opinião dos seus pais, você irá entender o que um “ele é um bom rapaz” significa – Amy retrucou Lana, que levantou as sobrancelhas, visivelmente surpresa por ter sido retrucada pela única pessoa que jamais se atreveu a falar um ‘A’ contra ela antes.
Lana olhou para mim pelo retrovisor e eu apenas ergui meus ombros, mostrando que também não entendia a atitude de Amy. Nós percebemos durante a semana que seu comportamento mudou um pouco desde o início do “relacionamento oficial” com Jordan. Amy, que já era preocupada, agora está quase ao nível insuportável. Tento dizer a mim mesma que é apenas uma reação de quem acabou de entrar em uma relação, mas nós já passamos dos 27, deveríamos agir mais como adultas. Quinta-feira, por exemplo, quando Lana disse que não sabia se poderia ir ao almoço de Jordan, Amy começou a atacá-la com chantagens sobre “nunca ter faltado em qualquer evento fútil que ela a convidava”; não soube bem a que ela se referia quando falou sobre evento fútil, já que convive diariamente com mulheres que nunca repetem a calcinha e gastam cem mil em uma única compra.
O apartamento de Jordan está localizado em uma cobertura cuja vista é uma das melhores que já vi. Quando cheguei a Nova Iorque, um dos locais que mais me fez querer continuar vivendo aqui foi o Central Park. Maine, apesar de ter suas áreas com arranha-céus, não se compara nem um pouco com Nova Iorque; saber que no meio da ilha havia um espaço com árvores e plantas para purificar não só o ar, como seu humor, fazia lembrar sobre a calmaria que tinha em casa, onde antes de dormir não era possível ouvir um som de carro.
Logo que a porta do elevador abriu, dando entrada no hall da cobertura, a governanta da casa se apressava em conseguir pegar nossos casacos para depositar no chapeleiro de porta de correr espelhada que havia ao lado do elevador. O chão de mármore estava tão limpo que quase conseguíamos enxergar nossos próprios reflexos. Jordan apareceu vestindo uma calça jeans com a camisa feita sob medida e um fino colete de lã para não nos deixar esquecer que, apesar da boa grana e da cobertura, ele ainda era do grupo dos nerds.
– Querida! – segurou o rosto de Amy com as duas mãos e deu–lhe um rápido beijo nos lábios. O tempo foi suficiente para Lana revirar os olhos, provavelmente cansada de tanto melado. – Bem–vindas, garotas – ele tocou sua bochecha nas nossas em um cumprimento casual, de quem já está seguro sobre nosso relacionamento próximo. – Já estão todos aqui, venham! Meus pais estão ansiosos para saber mais sobre suas criações, – ele sorriu, entretanto, seu sorriso foi o único que apareceu naquele espaço entre o hall e a sala de estar que dava para a área externa onde a churrasqueira provavelmente estava posta com os convidados usufruindo de uma boa cerveja artesanal.
– Seus... Pais? Jordan? – Amy sorriu, nervosa, tentando arduamente não surtar. – Você não me disse que eles estariam aqui, querido. Eu não trouxe nada, não me produzi...
– Esse é o lado bom, querida! Meus pais não querem ver uma garota produzida como minha namorada. Eles gostam do espontâneo. Venha, eles estão aguardando!
Eu não poderia negar acompanhá-lo depois de ver tanta animação expressa em uma simples frase. Lana parecia querer rir, o que deixou Amy ainda mais nervosa. Dei-lhe um cutucão em sua costela para que ela parasse, ou eu iria ouvir muito, já que agora Amy provavelmente não passará a noite com Jordan. Desesperada, Amy olhou para mim porque sabia que não adiantaria nada pedir ajuda a Lana. Por sorte tenho a mania de nunca entrar de mãos vazias nas casas das pessoas a quem visito; passei minha sacola com o vinho da maneira mais discreta que consegui enquanto saíamos no lado externo e me pus atrás de Jordan quando ele anunciava nossa chegada.
– Pai, mãe, essa é Amy.
Ele parecia estar apresentando um novo projeto de nerd na escola. Olhava para Amy com tanto orgulho que não sabia muito bem como lidar, mesmo sendo personagem secundária no ato. Ao contrário do que Jordan havia dito há pouco, os pais dele não pareciam nem um pouco felizes por verem uma garota pouco produzida. Como bons ricos, tenho certeza que eles esperavam alguém como, hum, Lana.
– E aquela é? – a mãe de Jordan apontou para Lan com a cabeça. – Belos brincos.
Tentei com toda minha força não fazer careta, seja de dó de Amy ou sem graça por Lana, que nunca esteve em uma situação dessa. Se a pessoa deixada de lado não fosse nossa melhor amiga, ela certamente estaria se regozijando no elogio, mas por ser Amy, ela não pode fazer nada mais do que agradecer de forma discreta.
– Você é a designer? – a mãe de Jordan, chamada Ursula, perguntou a Lana.
– Não, mãe, Lana trabalha com estética – Jordan se intrometeu, enquanto puxava Amy para se sentar em uma cadeira ao lado de seu pai. Klint e estavam acomodados nas cadeiras próximas à mãe, com uma cadeira vazia de distância, esta provavelmente pertencente a Jordan.
Ao contrário do que estamos acostumadas, não são eles quem preparam o churrasco, mas um empregado uniformizado. Além disso, a mesa não estava muito próxima da brasa como costumamos fazer em Maine para garantir a melhor carne primeiro; toda vez que um pouco de fumaça voava em nossa direção, Ursula fazia uma careta e abanava o ar em sua frente.
é a designer – Jordan apontou para mim.
– Boa tarde – falei, como professora Mingdale me ensinou na aula de etiqueta. “Seja educada e passe a imagem de segurança, sem mostrar receio ou medo. Apenas cuidado para a ação não se tornar arrogância.” – – abri um pequeno sorriso. Os olhos da mãe de Jordan olharam direto para as joias que estavam em minhas orelhas e dedos, além do imenso colar que sobrepunha minha camisa social.
– Você criou todos?
– Eu só uso o que eu faço – falo, certa de que não soei arrogante, apesar de não me importar em ser confundida. Nenhum designer bom compraria a concorrência para expor ao público.
estava falando sobre os designs na – o pai de Jordan, chamado Adam, olhou para mim. – Parece que as últimas coleções deixada por Barbara não foram um grande sucesso como estamos acostumados a ver.
Olhei para , que estava encostado confortavelmente em sua cadeira, a perna cruzada como um verdadeiro empresário, o olhar firme e o sorriso irônico nos lábios. Seus cabelos, diferente do penteado diário no trabalho não estava engomado pelo gel, mas livre e esvoaçante ao vento.
– Você sentiu alguma diferença na administração de Barbara nos últimos meses dela, senhorita ?
Eu sabia o que estava acontecendo. É o que costumo ver nos eventos beneficentes ou reuniões de pessoas de grande peso na sociedade elitista. Eles buscam por informações que possam derrubar quem está acima deles. não havia dado uma resposta satisfatória às suas dúvidas, por isso, eles tentariam com a próxima vítima: eu.
– Se as vendas não foram extraordinárias como o costume, certamente a culpa não está agregada ao modo como o negócio é conduzido, mas sim à crise que afetou a todos no país. Não foi só a que teve queda de venda; pelo que sei, o número de busca de empregos aumentou em quinze por cento desde o início do ano, não é, Jordan?
– Como? – ele olhou para mim, surpreso.
– Você participa da equipe de pesquisa do Google, provavelmente teve de realizar uma melhoria no sistema de banco de dados. Li uma reportagem que o número de currículos têm aumentado no Google.
– Ah... Sim, é verdade – ele sorriu. – Na verdade, foi muito fácil. Eu apenas sugeri que...
Enquanto Jordan mudava o assunto para seus afazeres na empresa, seus pais não pareceram tão satisfeitos quanto estavam com há pouco, contudo, para o azar de Amy, eu estava à frente de Lana no quesito preferencial deles.
Meus olhos procuraram pelos de e não foi muito difícil encontrá-los. Eles estavam mais claros hoje. Repentinamente, seu sorriso já não me parecia mais daquele irônico que não suporto e que não sai da minha cabeça. Pelo contrário, ele até estava um tanto simpático.
– Como é o processo de criação, ? – Ursula voltou com o assunto de trabalho. – Você costuma escolher os temas? Participar da elaboração?
– Ah, não. Eu recebo um briefing do que eles querem e crio a partir disso. Sou mulher e amo joias, por isso, não é muito difícil de imaginar qual modelo será desejado na próxima estação. É claro que é preciso muita pesquisa sobre as tendências e cores; as joias, apesar de essenciais, são peças de apoio às vestimentas, então o que um estilista tem a dizer nunca é desnecessário.
– Eu não vejo seu nome nas assinaturas dos designs das últimas coleções. Não é esse o valor de uma designer?
Jordan era a cara do pai. Quando sério, seus olhos conseguiam se tornar tão frio quanto à da rainha do mal de As Crônicas de Nárnia. Seu comportamento feria sem dó, causando arrepio no corpo ao ouvir a voz gélida soar. Utilizei da minha rapidez dos pensamentos para poder responder à sua altura. Eu não poderia ser sincera em minhas palavras por conta de Amy, mas não gostava de seu tom de voz, por isso, decidi ir pelo caminho arriscado.
– Tenho sorte em estar num patamar onde não é preciso de uma assinatura minha para meus clientes identificarem meu trabalho – abro um pequeno sorriso, tentando mostrar humildade, apesar de estar querendo humilhá-los. – Há vários deles que sabem exatamente quando há um lápis meu no meio ou não.
Aquilo pareceu calá-los por um tempo. Jordan se esforçava em mudar de assunto toda vez que os pais surgiam com perguntas para mim ou . Eu não sei qual o nível de rivalidade que os dois têm com Barbara. Até onde sei, Adam é um engenheiro bastante renomado cuja empresa participa da construção dos monumentos mais importantes de Manhattan. Já Ursula, como manda o script elitista, é uma esposa de aparência impecável. O fato de terem aceitado encontrar com Amy deve-se à situação econômica dela. Eles provavelmente sabiam das terras que os pais de Amy possuíam em Maine e outros Estados, mas não tão aprofundado, já que o dinheiro não chegava perto do que Adam recebe mensalmente de sua empresa.
O churrasco durou três horas. Amy estava quase tendo um colapso. Quando nos despedimos de Adam e Ursula, eles apenas expressaram desejo em rever eu e Lana, enquanto Amy foi deixada para trás até a porta do elevador fechar.
– Querida...
– Não me venha com “querida”! – ela aumentou seu tom de voz e deu-lhe as costas, pisando firme até a cozinha da cobertura. Eu e Lana corremos atrás dela para socorrê-la, já que Jordan era a última pessoa que ela gostaria de ver no momento. – Eles me odeiam. Não me aprovaram. Vocês viram a maneira como eles me olharam?
– Foi pior do que Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada – Lana concordou. – Meu Deus, quando ela olhou para meus brincos, achei que eles seriam retirados da minha orelha sem desatarraxarem!
– Amiga, foi só o primeiro encontro, isso não quer dizer nada. Você viu as perguntas que eles faziam para mim? Estavam apenas analisando eu e Lana, que somos suas amigas, para então tirar uma conclusão de você – passei as mãos em suas costas, tentando acalmá-la. – Você sabe como são as pessoas mais velhas desse lugar; nem a rainha da Inglaterra os faria se ajoelhar à sua frente, então pare de se preocupar.
– Ele deveria ter me avisado! Olhem como estou! Vim para um churrasco, pelo amor de Deus! Não para o primeiro encontro com os pais dele!
– Você tem toda razão em ficar nervosa. Se Klint fizesse isso comigo, eu...
– Transaria com ele para esquecer – tampo a boca de Lana com a mão e a vejo arregalar os olhos. Sei que não é isso que ela falaria, mas Amy quando está sensível acata à primeira ideia que faça a pessoa que causou seu desesperado sentir dor. – É isso o que vocês farão mais tarde, e então você poderá explicar a ele que não era assim que você gostaria que tivesse sido o primeiro encontro, já que você possui várias qualidades que queria ter expressado em sua primeira impressão.
Amy respirou fundo enquanto encostada na bancada de mármore da enorme cozinha de pé duplo – não sei como as faxineiras limpam o teto –, concordou com a cabeça, mostrando que havia entendido a mensagem. Ela poderia lidar com Jordan mais tarde e eu estaria livre de ser seu saco de pancadas em pleno sábado à noite.
Lana se retirou primeiro, já que não pode conversar direito com Klint e, pelo que disse, os dois não se viam há exatos quatro dias. Quando Amy disse que queria ficar um pouco sozinha para colocar os pensamentos em ordem e planejar como agir no próximo encontro com os pais de Jordan, deixei a cozinha com o pensamento de que talvez Barbara não fosse a mulher mais víbora do Upper East Side. Seja o que for, se ela entrar em uma batalha com Ursula, é nela que apostarei.
Quando cheguei no lado externo da cobertura, Klint e Lana já não estavam mais presentes. Jordan se levantou de sua cadeira achando que Amy estaria comigo, mas ao ver que estava sozinha, seus ombros caíram, desanimado.
– Ela está muito nervosa?
– Você deveria saber quão importante é uma primeira impressão para os pais do namorado. Amy é a pessoa que mais valoriza esse tipo de apresentação – falo, arrastando minha cadeira para junto à mesa. – Mas não se preocupe, ela não está preocupada em ficar chateada com você; a maior preocupação dela no momento é saber como passar por cima dessa situação e conquistar a aprovação de seus pais – abri um sorriso calmo que pareceu fazer Jordan ficar menos preocupado. – Eu já vou, Amy ficará aqui, mas deixe-a no canto dela um pouco. Ela precisa pensar em algumas coisas e interromper seu raciocínio nunca é a coisa certa a fazer.
– Tudo bem. Obrigado, – Jordan sorriu. – Eu não esperava que meus pais fossem ser tão desagradáveis, eles me pareceram ansiosos por conhecê-la.
Não respondi seu comentário. Ao invés disso, ouvi dizer que também estava de saída, já que não poderia ficar ali no meio de uma tentativa de reconciliação de seu amigo.
– Desculpe também, . Meus pais estão obsessos por saberem da sua posse na empresa. Eles acham que poderão fazer um acordo com você, aquele que sua mãe recusou há dois anos.
– Bem, eu não sou minha mãe, então não há nada que os impeça de virem me fazer uma apresentação – deu dois tapinhas nas costas de Jordan. – Boa sorte – apontou em direção à cozinha quando estávamos próximos do elevador.
Jordan esperou que a porta se fechasse para sair de seu posto de anfitrião. Olhei para o espelho do elevador e por sorte minha aparência estava intacta.
– Você é uma das poucas mulheres que conseguem fazer parecer novas as joias de coleções antigas – finalmente puxou assunto, olhando em direção ao meu colar. – Isso lançou fazem...
– Dois anos, eu sei. A empresa não dá joias para a designer, então eu apenas compro – não termino a frase. Se eu quero participar da alta sociedade, não posso me vitimizar por ser menos rica. Além disso, não posso esquecer que ele ainda é meu chefe e pode, a qualquer momento, me demitir sem se importar de perder uma boa designer. Se sua memória é boa para lembrar que meu colar fez parte de uma coleção de dois anos atrás, tem memória para lembrar das anotações das coleções que ficou com ele desde o dia que passou em casa.
– Quando sua família volta para te visitar? – ouvi seu tom de voz irônico voltar em cena.
– Por quê? Você tem mais algum pedido na manga para utilizar na próxima chantagem?
– Talvez eu tenha.
Solto uma risada nasalada e balanço a cabeça.
– Eu não os verei pelo próximo mês, pelo menos.
– É interessante o modo como você tenta se manter afastada deles, quando parecer curtir suas companhias.
– Eu amo eles, são minha família. Eu só não gosto de estar aprisionada em suas exigências. Sou uma pessoa de espírito livre; meu pai até hoje me chama de desenhadora, você acha que ele permitiria que eu, logo depois de formar, me tornasse uma profissional cuja ação é desenhar?
soltou uma risada enquanto segurava a porta do elevador para mim. Assim que saí, sua mão voltou ao bolso de sua calça social que agora já parece parte de si. Me pergunto se há outro tipo de roupa em seu armário que não seja roupas sociais.
– Quantos desenhos você já fez?
– Senhor , gostaria que parasse de se preocupar. Entregarei os desenhos a tempo e com a certeza de que não solicitará nenhuma emenda – abro um sorriso forçado, que foi visível a ele. Eu me lembro que havia pedido para que eu parasse de chamá-lo de “senhor” quando estamos fora do ambiente de trabalho, mas é um bom código para fazê-lo parar de falar sobre trabalho quando não estamos nele.
– Você confia em mim? – ele perguntou, repentinamente antes de nos separarmos.
– Como?
– Você me ouviu.
– Bem... Não. Não confio – minha resposta não pareceu surpreendê-lo. Para dizer a verdade, me pareceu até que foi conveniente, pois logo em seguida ele me retrucou:
– Eu também não confio em você, por isso, sempre que eu perguntar, gostaria que respondesse devidamente, não desconversasse.
Apertei os lábios, repleta de amargura. Nossa comunicação visual na cobertura de Jordan estava boa. Eu achei que poderíamos sair dessa sem entrarmos em uma discussão estúpida como costume, mas parece que não conseguimos manter um diálogo sem ácido.
– Sim senhor – murmurei. Seus olhos então mandaram que eu respondesse sua pergunta inicial, algo que não pude deixar de fazer: – Dezoito, mas eles não estão prontos.
– Obrigado pela resposta – ele disse, dando-me as costas e entrando em seu carro sem se despedir.
Seria muito mais fácil para mim se ele fosse uma pessoa adorável. Assim, não passaria o caminho todo até chegar em casa pensando em ‘N’ maneiras de torturá-lo.

O banho que eu tomei pareceu ter durado uma eternidade; a surpresa, no entanto, foi ver que havia passado apenas quarenta minutos. Lana passaria o final de semana com Klint e Amy parecia ter se reconciliado com Jordan, já que disse que voltaria para casa apenas segunda depois do serviço. Quando terminei de responder sua mensagem, vi a de Amber me chamando para jantar, já que a colega de quarto dela estava em um retiro e ela não aguentava mais ficar dentro de casa.
Combinamos de nos encontrar às dez no SoHo. É um local frequentado por todos os tipos de pessoas, mas só quem tem dinheiro entra nos restaurantes. Amber me pareceu animada com a noite mais do que as outras, por isso, não reclamei quando ela sugeriu que fossemos comer no Osteria, uma casa de massas bastante conceituada da ilha.
– Achei que Claire viesse – comentei, pendurando meu casaco no encosto da cadeira.
O local era aconchegante, iluminado por luzes amarelas, porém, pequeno. De um lado havia o bar que seguia toda a extensão e era separado dos clientes por um balcão com banquetas de couro fixas no chão. Do lado oposto havia espaço para somente uma mesa. Um enorme sofá com estofado em couro marrom estava fixo à parede com a mesa posta em sua frente e uma cadeira de madeira. O corredor que sobrava era minúsculo, mas suficiente para os garçons passarem com enormes bandejas e seus pratos com massas e diversos molhos.
O Osteria estava lotado, como sempre, mas Amber parecia ter feito uma reserva mais cedo. Pegamos o cardápio e discutimos as opções. Ela optou por uma massa branca com molho funghi, enquanto eu preferi uma massa verde com molho vienense. O vinho chegou minutos depois do garçom ter se afastado com nossos pedidos, Amber parecia ansiosa em querer falar sobre algo:
– Recebi uma nova proposta da Thames – ela sorriu. – Eu sei que você não tem interesse neles, mas gostaria que visse pelo meu lado.
– Tudo bem, qual foi a sugestão?
– Treze, com os mesmos benefícios.
– Me parece bom.
– Não é? Treze é um valor ótimo para a viagem. Eu teria de atrasá-la por um ano, mas não me importo, gosto da ideia de pensar que poderei colocar meu nome nas coleções.
– Você já conversou com alguém na sobre isso?
– Ainda não, queria falar disso primeiro com você, que tem mais experiência no ramo. Você acha que eles fariam uma oferta maior para mim?
– Bem, o que a Thames ofereceu é bastante inédito – falo, pensativa. – Talvez não o mesmo valor e provavelmente não tanto home office, mas um aumento, provavelmente.
– É isso o que me perturba. Se fosse você, eles também não fariam uma oferta de dar água na boca, que chance eu teria?
– Amber, você está cuidando de coleções importantes no momento.
– Com licença – o garçom se aproximou. – Os cavalheiros da mesa seis enviaram estes drinques para as senhoritas – ele apontou para as bebidas em cima da bandeja.
Eu e Amber procuramos pela mesa número seis e dois homens bastante atraentes olhavam para nós duas.
Ah meu Deus, é Nathan Garden! – Amber olhou para mim, estupefata.
– Quem?
– Nathan Garden, da Thames, lembra? Que disse que sabe de todas as suas criações? Ele é o da esquerda.
Foquei meus olhos no homem da esquerda. Engoli seco. Seus olhos verdes me encaravam de maneira que não precisava ver seu sorriso para saber que ele estava jogando um charme para cima de mim. A barba por fazer começou a criar fantasias em minha mente sobre como seria sentir roçá-las em minha pele. Os cabelos negros formavam um topete ligeiramente alto e seus cílios eram tão compridos que a uma mesa de distância que estou, consigo vê-los reluzir à luz amarela. Ele vestia uma camisa social escura com os dois primeiros botões abertos, dando um preview do corpo de modelo que acabou de sair do Photoshop.
Levantei a taça de champanhe deixada em nossa mesa e ergui em sua direção, vendo seus dentes brancos brilharem em um sorriso perfeito.
– Você está flertando com ele? – Amber abriu a boca depois de ter visto minha ação.
– Ele pode ser da Thames, mas é muito bonito – abri um pequeno sorriso, ouvindo sua risada. – Faz um tempo que não saio com nenhum homem bonito assim, eu não preciso necessariamente ouvir o que ele tem para dizer dos meus trabalhos e eu não sou tão fraca a ponto de aceitar ir para lá depois de um simples flerte.
, se ele se aproximar de você não será para oferecer um simples flerte.
– Então estou no lucro. Amber, você tem que aproveitar as oportunidades, há quanto tempo não sai com um cara? Eu sei que esses engomados e playboys não fazem o seu tipo, mas você não precisa casar com eles. Verá que um bom corpo malhado de vez em quando faz bem para a sua saúde.
Amber olhou para o companheiro de Nathan Garden. Ela não era uma mulher de se jogar fora. Mesmo com os cabelos curtos e quase brancos pela descoloração, seu rosto possui os traços mais bonitos e delicados que já vi em uma mulher. Amber não precisava passar alongador nos cílios para fazê-los maravilhosos; quando ela disse que acordava dessa maneira, não me lembro de ter sentido tamanha inveja das garotas lá em Maine. Seu corpo não era de modelo, mas definitivamente era magro. Suas atividades como voluntária faz com que ela corra de um lado para o outro, às vezes carregando peso, outras vezes, crianças.
– Faz tanto tempo que não tenho um encontro que já não sei mais como agir na frente deles – ela sorri sem graça.
– Apenas seja você. Se ele estiver interessado, não deixará o assunto morrer e você poderá, de vez em quando, jogar um charme, como tocar em seu braço levemente durante uma risada ou fazer truques enquanto bebe algo.
! – ela riu. – Eu não sei fazer isso! Brincar com um canudo? Isso é muito obsceno!
– Oras! É só por hoje, não precisa ficar envergonhada! Amanhã você irá acordar, lembrar do que fez e pensar se valeu a pena ou não. Se não valer, apenas não faça novamente!
Amber não teve muito tempo para pensar, já que minutos depois Nathan Garden e seu amigo estavam mudando de mesa para ao lado da nossa.
– Olá, garotas – Nathan sorriu. – Se importa se unirmos nossas mesas?
– Fique à vontade – ergui minha mão, dando-lhe a permissão.
Enquanto eles chamavam o garçom para que fizesse o trabalho simples por eles, os dois aproveitaram para trocar os lados, já que eu e Nathan estávamos sentados em lados opostos. Amber me enviou um olhar nervoso e apenas me limitei a retornar com um calmo sorriso.
– Meu nome é Nathan – ele ergueu a mão assim que se sentou e pediu uma garrafa de cerveja artesanal. – Nathan Garden.
– depositei minha mão acima da sua. Ela foi levada até seus lábios, que tocaram levemente sem quebrar o contato de nossos olhos.
– Sei bem que é você, . Sou seu maior admirador.
– É mesmo?
Em resposta, Nathan ergue a mão esquerda, mostrando uma pulseira de ouro masculina que desenhei há alguns anos. O que me deixou mais surpresa, foi ver algo fora do atual em seu pulso, quebrando o paradigma de que a high society apenas se importa com o tendencial. Aquela pulseira foi uma das primeiras joias que lancei pela , da época em que minha assinatura ainda aparecia nos catálogos de divulgação como se precisasse de atenção.
– Uau... Isso sim é uma relíquia – olhei para a pulseira que jamais havia visto em algum cliente. Ela parecia ser nova, polida e brilhante. Fiquei a encarando por um longo tempo até Nathan me tirar do transe:
– Estou perdendo sua atenção?
– Não – abri um sorriso. – Me desculpe, eu apenas gosto de ver como minhas criações ficam nas pessoas.
– Como uma boa designer deve fazer – ele sorri. – Você já se inspirou em alguém para fazer uma joia?
Sobre ‘alguém’, sei bem a intenção com que veio a pergunta. Abri um pequeno sorriso e olhei para o aparador do prato vazio em minha frente, dando um tempo para que ele pensasse que eu estava sem graça com sua discrição.
– Como admirador, você acha que algum dia ela foi criada em base a alguém?
– Como admirador, eu espero que não.
Nathan se mostrou ser um cara divertido. Faz um tempo desde a última vez que me diverti trocando flertes com uma pessoa. Nós poderíamos marcar um encontro e sair de mãos dadas, mas jamais pularia as preliminares. Flertar poderia ser considerado uma atividade saudável, já que nos faz sentir mais poderosas e seguras.
– Como você me descobriu? – perguntei, bebendo mais um gole do champanhe logo depois dele pedir uma garrafa de vinho.
– Qualquer pessoa de bom gosto em Nova Iorque saberia reconhecer a qualidade de um design de joia. Eu vi essa peça pela primeira vez em um banner móvel – ele apontou para a pulseira. – Foi a primeira vez que vi uma empresa se empenhar em criar joias masculinas e divulgá-las como as femininas.
– Você deveria admirar a , então.
Nathan negoucom a cabeça.
– Eu sou da concorrência, jamais admitiria que a jogada de teve uma boa estratégia – enviou–me uma piscadela. – Além disso, eu estava interessado no modelo, não na propaganda. Quando recebi a caixa de veludo bordô da , joguei-a fora e fiz da pulseira meu amuleto da sorte.
– Você guarda minha pulseira em uma caixa da Thames? – levantei uma sobrancelha e o vi soltar uma risada.
– Não se ofenda, mas eu jamais permitiria uma caixa em minha casa. Além disso, veludo dourado é muito mais propício a guardar uma beleza dessas do que o fraco bordô.
– Você tem a pulseira, que custa muito mais do que a caixa.
– Mas a pulseira – ele aproximou seu rosto do meu, de modo que conseguia sentir o cheiro do vinho cuja garrafa estava vazia na mesa. –, eu posso dizer que possui um valor simbólico.
Não ousei fazer nenhum comentário que quebrasse nosso ambiente. Vi os olhos verdes encararem meus lábios e então meus olhos. Abri um pequeno sorriso, contente por finalmente estar engajada em uma brincadeira sensual. Honestamente, depois que você é retribuída uma vez, só quer fazer de novo e de novo.
– Desde então tenho seguido suas criações. Conheço bem seus traços e sei quando você está envolvida em algum projeto – ele se afasta quando o garçom chega com a nova garrafa de vinho, mas não quebra nossa conversa. – Ainda estou para conhecer alguém que consiga criar uma joia que imite perfeitamente a água cristalina de Bali como você.
Sábado terminou melhor do que eu esperava. Apesar de ter acabado com o início dele com sua maneira estúpida, Nathan se mostrou um cavalheiro charmoso que se diverte tanto quanto eu em trocar indiretas.
– Eu sempre esperei encontrar com a musa de mente brilhante como cristais por aqui, mas foi mais difícil do que eu imaginava – ele sorriu, depois de terminarmos a segunda garrafa de vinho e Amber ter saído com o amigo de Garden. Os dois haviam sumido quando entramos na boate próximo ao restaurante; cogitei que ela fosse ter um bom término de noite como eu.
– Para criar peças como aquelas, o SoHo não é o lugar mais propício para se inspirar.
– Ora, achei que era. Veja o tanto de pessoas usando suas joias – ele apontou ao redor, onde, de fato, haviam várias mulheres com peças minhas. Solto uma risada, vendo seus dentes brilhantes mostrarem sua satisfação em ter me feito rir.
– Se seus designers pensam como você, não direi que estou surpresa por não chamarem a atenção.
– Uau – ele ergueu as mãos, rendido. – Desse jeito não serão apenas suas joias que estarão em meus sonhos.
Mandei-lhe uma piscadela, trêmula de animação por sentir a sensualidade percorrendo em meu sangue. Desde quando cheguei em Nova Iorque não tive muita intenção em correr atrás de homens para conseguir subir; mesmo não sendo a primeira opção da maioria, ainda podia contar com uma minoria. Agora, depois que percorri metade do caminho que planejei quando cheguei, saber que ainda assim há homens interessados em mim é ótimo, mas saber que o interesse é maior pelo meu talento... não tem preço.
– Posso te levar para casa? – Nathan arriscou perguntar quando estávamos saindo do bar, segundo lugar que fomos depois do Osteria.
– Não é necessário – sorrio. – Não moro muito longe daqui.
Nathan foi pego de surpresa, é claro. É normal que as mulheres interessadas concordem em serem acompanhadas até a porta de seus apartamentos, onde convida o companheiro para subir e então, em algum momento, fazerem sexo o resto da madrugada. Mas eu não sou como tais mulheres. Apesar de estar com muita vontade de transar com Nathan, ele ainda faz parte da Thames e meu quarto ainda está repleto de desenhos pendurados pelas paredes que não quero que estejam em lugar algum senão lá.
– Posso, então, acompanha-la até o ponto de táxi? – ele insistiu.
– Bem, se você insiste...
Nathan soltou uma risada, descrente do meu comportamento. Eu estava sendo uma personalidade difícil, mas duvido que ele esperava algo mais fácil que isso. Se ele se apresentou como um admirador meu, o correto é ele correr atrás de mim até conseguir o que quer. E esses homens de Nova Iorque não desistem até conquistarem o que desejam.

Capítulo 05

Amber não falou comigo durante o final de semana e eu achava que fosse porque ela estava ocupada demais em aproveitar o resto do domingo livre ou com o amigo de Nathan.
Ela me pegou de surpresa quando, durante o almoço de segunda, disse que foi apenas um sexo casual:
– Eu não costumo me apegar muito a eles. Além do mais, ele é da Thames – não disse o nome da concorrência sem antes olhar para o lado. O problema não seria as pessoas ouvirem o nome, mas sim a razão delas ouvirem ele. – Mesmo que não tenha tentado muito saber sobre as coleções, acho melhor não manter muito contato, se quiser continuar sendo cobiçada por eles. E Nathan?
– Ficamos somente trocando flertes – ergui meus ombros, fazendo pouco caso. – Não posso negar que vi seu esforço, mas não costumo ser tão fácil, principalmente quando estamos falando de alguém influente na nossa concorrência.
– Ele deveria estar louco para entrar no seu quarto – ela riu, terminando sua salada e unindo os talheres em cima do prato.
Como resposta, soltei uma breve risada.
Amber e eu havíamos almoçado juntas porque Lauren estava novamente de mau humor e descontando sua aflição em mim. Pelo que Claire disse, seu marido estava na cidade, levando ela para todos os lugares e a impedindo de investir em , que mais uma vez se mostrou alheio às fofocas, mesmo depois de minha furada, falando sobre ele e Lauren.
– Oi , tudo bem? – Lottie parou em minha mesa depois do almoço. Seus cabelos com as luzes estavam presos em um rabo baixo e a maquiagem parecia sempre exagerada devido à tonalidade clara de sua pele. Seus olhos parecem estar sempre arregalados, mas apenas são grandes demais para seu rosto pequeno. Ela costuma ser uma pessoa calma, com a voz baixa, mas muito eficiente. Apesar de ser mais velha que eu, seria facilmente confundida como uma estagiária recém-formada. – Obrigada pelas dicas, fiz bom uso delas – empurrou as pastas de plástico que eu havia emprestado a no dia em que ele foi até meu apartamento.
Olhei para ela, surpresa por receber de volta meus desenhos. Seu olhar dizia que ela foi instruída a não dizer que aquilo veio de , o que era melhor para mim, já que tudo o que menos queria, era ser alvo de perguntas do resto da equipe e, principalmente, de Lauren.
– Que bom – sorrio. – Se tiver mais alguma dúvida, Lana ficará feliz em ajudar novamente.
Como esperado, assim que mencionei o nome de Lana, ninguém pareceu muito interessado na conversa. Claire foi a única que ficou de ouvido aberto porque seus afazeres com certeza não eram tão interessantes quanto ouvir qualquer conversa alheia que estivesse ao seu redor.

O aniversário de 50 anos da empresa seria no ano seguinte, mas as preparações acontecem desde o ano retrasado; em uma reunião com os envolvidos no projeto, Barbara, quando ainda na posição de presidente, disse que a coleção viria em boa hora. Eu jamais imaginaria que com “em boa hora”, ela queria dizer sobre a posição de seu filho em seu lugar. De fato, com o lançamento da maior coleção planejada pela , ganhará muitos créditos pelo trabalho.
Para nós, designers, esse é o momento de chegar ao ápice. Desde que soube do projeto há dois anos e meio, tenho dado meu melhor, mesmo com Lauren atando minhas mãos. Com Barbara ainda na empresa, era possível conseguir alguns benefícios, pois como foi minha tutora, sabia como lidar comigo; no entanto, as coisas não foram da maneira que eu esperava com a entrada de . Ele não sabe sobre meus esforços e trabalhos além do que ele possivelmente viu e estudou nos últimos anos, com isso, perdi metade da força e confiança que tinha em ser a designer principal.
– Lauren acabou de me ligar para dizer que eu fui aprovado como designer da coleção de natal! – Guy não se deu o trabalho de arrastar sua cadeira para próximo do nosso meio. Ele se levantou ainda com o telefone em mãos e quase derrubou a base por causa do fio ligado entre os dois. – Essa oportunidade nunca veio em melhor hora!
Começamos a parabeniza-lo com um pouco de inveja. Embora meu sorriso demonstrasse alegria por vê-lo finalmente à frente de um projeto que mostrasse seu valor, a coleção de natal era minha última oportunidade de provar aos analistas da coleção de 50 anos que eu sou a pessoa certa para ser a designer principal. Agora, sem essa carta em mãos, tenho de pensar em uma nova maneira de conseguir chegar até eles.
– Escuta, , será que você poderia tirar um tempo para comentar sobre minhas ideias? – Guy veio até mim assim que a algazarra foi finalizada. Olhei para ele, surpresa: – Quero que o meu melhor seja visto por eles, mas é minha primeira vez, você tem mais experiência...
“Diga não.” Pensei. “Faça-o perder, você quem deve fazer essa coleção, não ele. É sua oportunidade.”
– Bem – comecei a falar, mas os olhos de Guy estavam arregalados demais pela ansiedade. Como eu poderia dizer não a alguém com tanta disposição? – Claro, se não for demorar muito. Tenho que passar em uma confeitaria ainda, sabe, chá de bebê...
– Sem problemas, é só um brainstorm – ele sorriu e deu-me as costas. Parou repentinamente e voltou até mim com os ombros encolhidos. – Você não está ofendida por eu...
– O quê? Claro que não! Estou feliz por você! Tem tentado isso há anos – tento parecer o mais animada possível e devo ter sucedido, já que Guy suspirou, aliviado e então voltou alegre à sua mesa.
– Feliz, o caramba – ouvi Claire murmurar ao meu lado, mais ofendida que eu.
Às seis em ponto Guy veio até minha mesa com suas ideias. Elas não eram ruins, mas ainda estavam cruas demais para uma coleção de natal. Comentei um pouco, mas mais ouvi do que falei. Durante nossa conversa, Céci me ligou para falar sobre as preparações de seu casamento e tive de enrolá-la por cinco minutos longe de Guy até conseguir dizer que eu ligaria para ela assim que chegasse em casa dentro de uma hora e meia.
– Desculpe – falei, vendo–o se mexer em sua cadeira. – Minha irmã está maluca com as preparações do casamento.
– Ah! É verdade, ela irá se casar, como é o anel de noivado? Você quem o fez?
Por alguma razão eu não queria responder essa pergunta a Guy. Saber que minha irmã havia ficado noiva com uma aliança qualquer me dá nos nervos; minha expressão provavelmente não foi a melhor, já que Guy limpou a garganta e disfarçou, mudando de assunto:
– Bem, acho que podemos parar, já tive algumas ideias melhores com as dicas que você me passou. Acho que elas serão consistentes o suficiente para serem aprovadas – ele se levantou, animado e um pouco atrapalhado com seu caderno de anotações. – Obrigado pela ajuda, , espero poder te retribuir isso em algum momento no futuro, querida.
– Está tudo bem, Guy, você tem talento suficiente para ir além sem uma pessoa dando dicas – dei risada e o vi rir apenas por educação, algo que ele faz quando quer ir logo embora. – Não vou te segurar, você deve estar com a mente borbulhando com essas novas ideias.
– Ah, estou sim! Você acha que usar rosa ficaria ruim com um desenho assim? – me mostrou um rascunho rapidamente de algo que fez durante meu tempo com Céci. Se ele achava que isso seria aprovado por , talvez ele devesse ouvir mais os gritos que Lauren me dá.
– Tente o vermelho. No natal, tudo o que é clichê é bem-vindo – sorri, vendo seus olhos se arregalarem ligeiramente e então anotar minha última dica.
Apesar dele ser a pessoa apressada entre nós dois, eu quem saí correndo da empresa antes que ele me fizesse uma nova pergunta. Peguei o metrô porque tinha de ligar para Céci em quarenta minutos se quisesse continuar sendo sua madrinha. Ao chegar em casa, Klint estava sentado na sala com Lana ao seu lado bem aconchegada em seus braços.
– Oi, oi – falei sem olhar para os dois e segui direto para meu quarto, ouvindo alguns resmungos de Lana na sala. Coloquei meu celular para carregar e esperei que ele ligasse, para enfim ligar para Céci. – Pronto, não surte, acabei de chegar em casa, então me deixe respirar.
Você acredita que Lua não aceitou ser minha madrinha porque estará enorme? – ela disse, ofendida. – Eu a estou chamando para uma data especial para mim! Não é ela quem deve estar bonita, mas sim, eu!
“Ah, ótimo. Uma ligação de desabafo.” Pensei.
Céci havia mudado sua opinião sobre eu ser sua única madrinha, porque Max fez um leve drama dela ter sido chamada por Lua e não estar retribuindo esse carinho familiar. Ainda que a escolha das madrinhas seja uma responsabilidade exclusiva da noiva, Céci ainda é Céci, a irmã caçula que não quer, de jeito nenhum, aborrecer seus irmãos mais velhos.
– Bem, ela estará mesmo enorme. Veja pelo lado bom, ninguém irá desviar a atenção de você para perguntar a Lua quando o bebê irá nascer.
Você tem razão. Não deveria estar tão nervosa, além disso, não é como se ela fosse você. Eu e Taylor marcamos a data na igreja hoje, será na véspera de natal!
– Nossa, que alívio! – falo, sendo sincera em minha expressão.
Eu sei! Pensei nessa data por causa de você! Sei quão difícil é para você tirar férias e você sempre consegue a semana do natal, então por que não? Taylor disse que tudo bem, já que a família dele inteira estará aqui. Será um gasto a menos para todos e você poderá me acompanhar nos últimos detalhes do casamento!
Apertei os lábios, esquecendo meu alívio por um tempo. Os cinco dias que eu tirava de folga do meu trabalho no natal são sempre utilizados para acalmar minha mente e colocar os pensamentos no lugar. Mesmo amando morar em Nova Iorque, não é uma surpresa ficar maluca com o tanto de afazeres que a cidade me faz ter durante os outros dias do ano. Além disso, não sou eu a responsável pela coleção este ano, o que significa que provavelmente não terei problema algum em receber a permissão de pedir por mais dias – depois do casamento de Céci.
– Ah, que ótimo!
Não é? Às vezes queria que você morasse mais perto para poder acompanhar mais esse momento especial, mas estou feliz que você esteja fazendo o que ama. Falando nisso, você está preparando minha aliança? Taylor disse que com certeza iremos usar o que você fizer, porque ele se sentiu culpado por não ter usado algo criado por você na nossa aliança de noivado.
– Ele tem uma ótima razão para concordar mesmo – falo, fingindo estar ofendida. Eu nunca deixo barato para Taylor e sei que é recíproco. – Não se preocupe com a aliança, levarei em dezembro e você ficará maravilhada.
Ai, estou TÃO ansiosa! Ei, será que conseguiria vir? Sei que vocês estão em algo novo, mas nós gostamos bastante dele. Taylor, principalmente. Quero dizer, ele, papai e Max às vezes discutem sobre quem se deu melhor com , chega a ser hilário.
– Ah... Bem, eu posso conversar com ele, mas você já irá mandar os convites? – olho para a porta ao ouvir duas batidas e aponto para o celular quando Amy coloca a cabeça para dentro do meu quarto.
Não, Lolla, nossa cerimonialista, a mesma que planejou o casamento dos Kingstons, lembra? Então – Amy fez sinal para que eu fosse até a sala depois que terminasse e apenas lhe mandei um positivo enquanto ouvia Céci falar sem parar. –, ela disse que o melhor é que enviemos os convites em setembro ou início de outubro para que as mulheres tenham tempo de encontrar os vestidos, mas não tão longe a ponto de esquecerem a data.
– Ela tem razão, como sempre – falo, apoiando o celular quente entre meu ombro e meu rosto para que minhas mãos ficassem livres para tirar meus sapatos. – Quando será sua primeira prova do vestido?
Ah! Isso mesmo, eu tinha de falar sobre isso com você, ainda bem que me lembrou! Falei na segunda com Maria, da loja, e combinamos que a primeira prova seja daqui a um mês e meio.
– Tudo bem, você virá sozinha?
Com certeza! Lua está à flor da pele e Taylor não pode vir nem pagando! Você se importa se eu ficar na sua casa?
– Claro que não! Você deve ficar aqui – caminhei descalça até o enorme calendário que eu sempre penduro em minha parede, bem à frente do meu computador, e mudo as folhas até chegar em Setembro, circulando a data em que Céci viria para Nova Iorque. – Está combinado. Precisa de alguma coisa ou posso entrar no banho?
Acho que era só isso. Ah, não! Tenho uma fofoca! E é melhor você se sentar para ouvir essa – olhei para a porta do meu banheiro entreaberta e a minha vontade de ligar o chuveiro. – Sabe Hilary Falcet? Foi pega com as pernas abertas para o prefeito ontem, a cidade está um caos com a notícia e a senhora Welton está quase à beira de um colapso!
– Como é que é? – me sentei, definitivamente interessada em saber mais sobre o escando de minha arqui-inimiga, Hilary Falcet.
Nós duas sempre tivemos o mesmo gosto para homens no colégio, mas Hilary sempre se deu melhor que eu. Ela sempre gostou de homens que pertencessem a outras mulheres, por isso, ela e Lana nunca se deram muito bem. As duas sempre competiram por chamar mais atenção, mas Hilary sempre tinha relacionamentos sérios com os garotos que eu gostava, enquanto apenas os traía com os paqueras de Lana. Eu sempre soube que ela um dia se daria mal por gostar tanto de viver nesse perigo, mas o prefeito? Dizem que é feio julgar as pessoas pelas aparências, mas Guildo Welton já não traz uma imagem positiva só de ouvir seu nome.
Eles estão em um affair há oito meses. E Hilary estava para ser pedida em noivado pelo Bob Muller. Ele está depressivo, tadinho, mas não houve uma pessoa que não tenha dito a ele sobre sua ingenuidade. Todos sabíamos que ela estava com ele por causa da herança que ele recebeu do avô no ano retrasado. Você acredita que ele ainda acha que ela voltará para ele?
– Não me lembro muito de Muller, mas lembro que na escola as pessoas praticavam bullying porque ele era albino. Mesmo assim, ele poderia ter sido mais inteligente.
Com certeza, principalmente depois que Megan O’Connor se declarou para ele. Pobrezinha, mudou de cidade para esquecê-lo.
– Céci, me faça um favor – falei, antes de desligar. – Se você vir Hilary Falcet na rua, tire uma foto dela. Quero ver a cara com que ela encara o povo da cidade. Ah, o mundo realmente dá voltas!

É claro que eu não contaria sobre Hilary Falcet na frente de Klint. Ele parecia um homem controlado, mas Amy disse que Jordan de vez em quando reclamava dos muxoxos de Klint sobre Lana ser tão liberal.
Quando cheguei à sala, Jordan também dividia um sofá com Amy e conversava com Klint e Lana bebericando um vinho. Assim, me sentei na poltrona, único assento disponível para mim.
– Qual a urgência? – perguntei, me servindo do vinho. – Não estão pensando em se casar, estão?
– Deus me livre! – Lana falou, recebendo um olhar sério de Klint. – Não agora, querido – sorriu, nem um pouco arrependida do que disse, mas contornando a situação com um carinho em seu rosto. Amy ficou vermelha e balançou a cabeça enquanto Taylor gaguejava algumas palavras como um verdadeiro nerd. – Nós estávamos pensando em tirar alguns dias de folga agora que é verão para irmos até alguma praia descansar.
– Tenho que pedir permissão à minha chefe, mas se ela concordar, com certeza quero ir – sorrio. – Qual o destino?
– St. Barth, eu e Jordan estávamos vendo umas fotos do local e é maravilhoso! – Amy sorriu, saindo de seu aconchegante espaço ao lado de seu namorado para vir me mostrar as fotos pelo celular.
– Uau! Que água é essa! – falei, vendo a perfeição das águas cristalinas. Amy tinha razão, o local é maravilhoso, quase perfeito.
– Não é? Eu falei que essa havia sido uma ótima escolha, além disso, eles possuem alguns pacotes de iates maravilhosos – Lana olhou para as unhas, mais interessadas nelas do que em nossa reação sobre sua ideia, como se já soubesse qual seria.
– Tenho um amigo que possui uma empresa de iates. Verei com ele sobre qual a melhor opção para nós em St. Barth – Taylor começou a mexer em seu celular e Klint fazia o mesmo, provavelmente lendo alguns e-mails de seus clientes.
Mesmo sem minha confirmação, os quatro já estavam certos de que iriam. Logo começaram a combinar programações, pesquisar a previsão do tempo e quais as melhores lojas para serem visitadas no dia de compras. Ouvir seus planos sem saber se iria era um desconforto, por isso, decidi me despedir e tomar o banho que meus músculos tanto pediam.

Era sexta-feira quando me telefonou para saber sobre os desenhos. Eu estava terminando um deles quando ouvi meu celular tocar em algum lugar no meio do meu edredom e demorei cerca de um minuto inteiro até encontrá-lo.
– ele falou em um tom de voz profissional.
“Droga”, pensei. “O que diabos ele quer agora?”
– Você teria um momento hoje para me mostrar no que evoluiu?
– Ah – olhei para o relógio que marcavam meio dia e meia. Eu estava prestes a finalizar e ir até a cozinha preparar algo para eu comer, já que em dia de home office eu não costumo tomar café da manhã. – Claro.
– Ótimo, estou na portaria – e sem dizer mais nada, me deixou a ver navios na linha.
Olhei para meu celular, chocada, perguntando a mim mesma se havia ouvido certo. Ele estava na portaria? Corri até o interfone para confirmar com o porteiro, e quase caí no chão ao ouvir a confirmação. Não sei como consegui arrumar a bagunça que os dois casaizinhos deixaram na noite passada e me arrumar um pouco até a campainha tocar.
Assim que abri a porta, apareceu com algumas sacolas em mãos e seu uniforme de sempre: a camisa, a calça social e o paletó do terno pendurado em um de seus braços.
– Imagino que não tenha almoçado – levantou as sacolas, mostrando o logo do restaurante chinês. – É bom que goste de comida chinesa.
“É bom que goste?” Apertei os lábios, fechando a porta atrás de mim.
– Eu gosto, sim – falei, pegando as sacolas de sua mão e as deixando na pia. – Desenho primeiro?
Ele não precisou responder para eu saber a resposta. Caminhei em sua frente até meu quarto onde puxei uma cadeira da sala para que ele pudesse se sentar. , como sempre, olhou ao redor para ver se havia algum desenho novo, mas depois da primeira vez, é óbvio que eu havia tirado boa parte dos desenhos da parede por precaução. Uma características dos Lowers é agir fora das expectativas das pessoas; Barbara sempre teve fama de querer as coisas em momentos difíceis e me parece seguir à risca sua mesma atitude.
– Estes são os definitivos – entreguei um bolo de folhas. – Estes ainda estão em processo – apontei para um bolo menor em sua frente. Entreguei uma caneta vermelha para ele. – Caso precise fazer alguma emenda – não pude evitar senão mostrar um pouco de desprezo na palavra que eu nunca usava. Barbara não tutora pessoas para elas fazerem emendas, era o que eu queria dizer, mas , pela quantidade nula de vezes que falou de sua mãe, não parecia se importar se o Papa me ensinou a desenhar; ele ainda faria as coisas da maneira que achava melhor. – Seria melhor se eu soubesse se a coleção seria para a , para que eu pudesse acrescentar detalhes que fazem parte da característica da peça.
– Está bom assim – ele disse, olhando de um lado para o outro, trazendo o desenho para mais perto e outras vezes, mais longe. – Mas quero algo mais extravagante daqui pra frente. Não estou à procura de algo somente discreto e refinado – suas mãos deslizavam de uma folha para a outra como se fosse profissional em analisar trabalhos assim. Ele comparava uma risca com outra, as cores, misturava e então organizava todas as peças da maneira que mais gostava.
Enquanto ele se perdia nos desenhos que eu havia feito, eu me preocupava em terminar as 21 peças restantes. Se ele queria algo extravagante, então eu poderia mudar algo das que não eram definitivas e que ele não pareceu convencido de ser o desenho final, pois vira e mexe a ponta da caneta vermelha era apoiada na folha, sem desenhar nenhum risco.
– Geralmente o vermelho é usado para transmitir a sensação de poder – ele falou.
– Na se usa o vermelho porque é a cor visual da empresa. Como não sei para quem a joia está sendo feita, decidi usar nas cores das estações, presentes no mundo inteiro para que qualquer um pudesse usá-la a qualquer época do ano, tornando uma compra mais valorosa – apontei para as cores da paleta ao lado das peças, servindo de legenda. ergueu uma sobrancelha e murmurou algo que não pude entender bem.
Passamos cerca de uma hora falando sobre desenhos e os que faltavam. Eu tinha uma semana para entregar as 9 peças que não estavam no papel, mas para quem já havia feito vários outros, nove não era um problema, desde que Lauren não começasse a me atrapalhar novamente.
e eu seguimos para a sala de jantar, onde arrumei a mesa para comermos a comida chinesa que ele havia trazido. Inicialmente, achei que ele iria me dispensar e ir embora, mas por alguma razão, não reclamou ou demonstrou pouco caso quando disse que ele poderia se sentar onde estivesse à vontade enquanto eu arrumava tudo.
– Você mora com Lana e Amy, então? – ele puxou assunto enquanto eu terminava de colocar a comida na mesa. Olhei para ele, surpresa pela intenção em acabar com o silêncio e o vi olhando ao redor com o mesmo interesse em que olhava para os meus desenhos. Como se ele nunca tivesse entrado na casa de três mulheres, pensei.
– É. Nós somos acostumadas a ficar juntas desde pequenas, então foi uma decisão natural quando nos mudamos para cá.
– Por que você saiu de Maine?
– Acho que só quem vive lá conseguiria entender – cheguei com a garrafa de vinho e o vi se levantar e vir até a mesa. Pegou a garrafa de minhas mãos e serviu ele mesmo a nós dois enquanto eu me sentava.
– Tente explicar – sua voz saiu mais como um pedido de gentileza do que uma ordem. Seus olhos azuis me pareciam mais serenos, o que me pegou desprevenida. Eu esperava um comportamento que pudesse reclamar mais tarde ou me fazer odiá-lo pelo resto do final de semana como foi da última vez que tivemos um contato, hum, pessoal, mas assim era difícil.
– Eu sempre acreditei que meu lugar não era lá. As coisas eram, rotineiras demais, interioranas demais. Não havia surpresas ou correria. Apesar de ser um espaço bom para crianças crescerem, definitivamente era ruim para adolescentes que queriam descobrir o mundo – olhei para cima, me lembrando das casas brancas no verão em Lincoln, minha cidade, e os momentos em que íamos até o imenso lago nos divertir e fingir fazer algo diferente sempre. – Meu irmão e minha irmã sempre gostaram da vida planejada, mas eu queria ver algo diferente, por isso vim para cá. Aqui é o oposto; ao contrário de Lincoln, em Nova Iorque o próprio mundo vem até ele. Não é preciso de muito para ter novidades.
– Seu pai me pareceu bastante apegado à família para deixar uma filha vir para um lugar como este.
– Ah, ele é mesmo. Sempre foi. Ele e minha mãe sempre gostavam da ideia de almoço de família aos domingos e natal reunidos para dividir o peru. Foi difícil convencê-los a me deixarem vir, mas eles sabiam desde o início que meu espírito era muito mais livre que os deles. E você? Não tem costume de fazer programas familiares?
riu. Ele bebeu um gole de seu vinho e olhou para a janela afora. Por um momento, me pareceu que seus olhos enxergavam algo que eu não podia ver, algo que somente sua memória conseguiria passar o cenário. Seus lábios permaneceram grudados até finalmente dizer:
– Essa coisa de almoço em família nunca existiu, a não ser que fosse para discutir negócio.
Por um momento me senti mal por ele. Ter uma família que não age como uma não deve ser fácil, mas para quem nunca soube exatamente como é, talvez não seja tão doloroso do que saber e perder, como o amor de mãe.
Havia muitas coisas que gostaria de perguntar sobre ele e a vida que ele leva fora do escritório, mas decidi reter minha vontade assim que vi seu maxilar trincado ao ouvir minha única pergunta feita até então. Deixar que ele controlasse a situação era fundamental para que não entrássemos em uma nova discussão, mesmo eu querendo saber a razão dele ter permitido que Guy fizesse o desenho da coleção de natal e não eu, quero dizer, eu ainda procuraria a oportunidade para discutir sobre isso, mas agora, no meio do assunto “família”, nem a pessoa mais insensível do mundo questionaria algo assim.
No momento em que estávamos terminando o “almoço”, Lana chegou com Klint atrás de si. Os dois pararam de surpresa na porta ao ver me ajudar a retirar a mesa e seus olhos imediatamente encontraram com os meus; assim que isso aconteceu, pude exatamente saber o que ela estava imaginando e a maneira como iria agir a partir de agora.
– Boa tarde, queridos – o sorriso de Lana é tão descarado quanto a que ela colocou em seu rosto perfeito no dia em que conheceu Klint em nosso encontro às escuras. A expressão que carregava era de quem achava que pegou algo que não deveria ter pegado. Quando isso acontece, sua pele artificialmente bronzeada até parecia reluzir mais de prazer. – Não se importem conosco, estamos só de passagem – ela apontou para trás, onde estava a porta do corredor dos quartos.
– Deixe de ser boba – falei, imediatamente quebrando o clima de harmonia que jamais imaginaria ter com e segui com as taças para a cozinha enquanto ele próprio seguia até Klint para cumprimenta-lo. Rapidamente, Lana entrou na cozinha com nossos pratos sujos e me senti na obrigação de logo cortar suas asas da imaginação: – Ele veio conferir aquele pedido que havia feito para mim dentro do nosso trato.
– Ah, o trato de “fingir” ser seu namorado? – seu sorriso malicioso chegou em meu campo de visão e não pude deixar de revirar os olhos. Lana começou a me ajudar a arrumar a cozinha, um pretexto que fazia somente quando queria descobrir o que estava rolando comigo para usar como vantagem em alguma discussão futura que tivermos.
– Claro que não. Por que ele fingiria ser algo que não é quando minha família não está aqui?
– Me responda você, querida. Quero dizer, do meu ponto de vista há vários tipos de benefícios que ele pode tirar dessa brincadeira – ela fez o sinal do sexo com as mãos cobertas pelas luvas de borracha e tive de lhe dar um tapa enquanto ouvia sua risada ecoar. – Não devo lembrá-la a vergonha que é ter uma vida sexual menos ativa que Amy, devo?
Apertei os lábios. Eu amo Lana. Assim como amo Amy, mas ela tinha razão. Amy, até então, era nossa “Virgem Maria”, a santa que nós achávamos que casaria virgem. Não que Amy fosse virgem, jamais esquecerei do dia que ela me ligou do banheiro do hotel desesperada porque achava que não poderia nunca mais sentar direito na vida. Lana, obviamente, não sabe da história, pois se soubesse, ela e Amy já não seriam mais melhores amigas. Encarei Lana com o mesmo olhar que sempre envio quando ela está ultrapassando dos limites de minha paciência, mas ao ver o sorriso maroto permanecer em seus lábios, decidi me expressar verbalmente:
– Apenas cale a boca, amiga. Cale-a-boca.
– Oras, se eu não provocar você, acabará perdendo uma boa festa – pendeu o corpo para trás, para ver sentado no sofá de nossa sala conversando com Klint sobre algum assunto. – Ele me parece bem à vontade aqui.
– Lana, chega – olhei para ela – Estamos falando do meu chefe.
Ela ergueu os ombros, como se isso pouco importasse. E pouco importava. Lana se formou com créditos e um ano antes porque foi uma boa “aluna” para o reitor da universidade. Ele sempre foi conhecido por ser uma pessoa de boa conduta e exemplar, mas assim que ela resolveu estudar algumas horas a mais para a prova final em nosso penúltimo ano, repentinamente possuía créditos e horas suficientes para se formar. E foi exatamente o que ela fez, provando que nem uma pessoa correta como o reitor é capaz de resistir aos seus encantos.
– Você poderia pisar de salto 30 em cima da sua chefe imbecil. Amiga, quantas vezes tenho que tentar mudar essa sua cabecinha de funcionária e convencê-la de que você foi feita para ser dona de seu próprio nariz?
Não pude responder ao seu ataque porque todas as vezes que ouço, concordo cada vez mais. Sei que tenho talento para ser autônoma e dona de meu negócio, mas não é assim que eu trilhei meu caminho. Não é esse o plano que eu criei. Quero fazer a coleção de 50 anos da e então me desvencilhar da empresa. O “caminho das pedras”, como costumam dizer, faz o resultado ser mais proveitoso do que o caminho curto.
– Sei o que estou fazendo – resmungo, vendo-a retirar as luvas de borracha. – Você não está errada, Lana, mas sabe como eu sou. Preciso chegar ao meu ponto final dessa maneira. Se eu mudar o rumo, eu acabo perdendo o ponto de chegada.
– Isso se chama medo, querida. Me-do. Você não tem nada a perder, além do mais, não está saindo com aquele cara da concorrência?
Nathan Garden. Ele havia me enviado uma única mensagem desde a última vez que nos vimos aquele dia no bar. Respondi depois de algumas horas, mas não deu em nada. Ele não tomou a iniciativa de querer marcar um segundo encontro e estive tão ocupada com meus próprios problemas que nem cogitei a ideia de tentar entrar em contato eu primeiro.
– Eu não vou usá-lo como pretexto, Lana.
– Pois deveria – ela olhou para a sala, apenas para se certificar que não estava ouvindo. – Se você não jogar sujo, jamais chegará ao topo de sua carreira antes dos quarenta. Amiga, você tem um talento que ninguém mais no mundo tem, e se tem, ainda não foi descoberto, portanto, você deveria ser mais esperta e se aproveitar da situação. O dia que alguém melhor que você aparecer, se arrependerá de não ter sido uma pedra no caminho dos seus superiores.
– Desculpe se eu não tenho esse espírito de porco, Lana! – tento não gritar, me aproximando mais para que ela pudesse me ouvir da maneira que eu queria que ela ouvisse. – Você consegue fazer esses jogos, mas eu não! Somos personalidades diferentes, e sim, você se deu muito melhor que eu. Não preciso que você me lembre todas as vezes que estou passando por algum apuro, porque já costumo me cobrar o suficiente! – taco o pano de prato na pia e sigo até a sala, onde sei que o escudo da presença de me protegeria de ouvir mais verdades que estava cansada de encarar.
– Então, – Lana chegou logo atrás de mim, sentando-se ao lado de Klint, que automaticamente apoiou sua mão em cima da coxa dela, como se quisesse dizer que ela possuía dono. – Ouvi dizer que começou agora seu papel na presidência. O que está achando?
– Não foi uma surpresa – ele disse. – Vinha acompanhando o desempenho da empresa há alguns anos. A única diferença é que agora minhas ordens são ouvidas e não mais avaliadas.
– Você ainda presta contas à sua mãe?
– Ela se aposentou – ele sorriu. – Logo, evito aborrecê-la com o trabalho.
Cruzei minhas pernas, querendo que ele anunciasse algum compromisso e se levantasse, pronto para ir. Mas como Lana havia dito, ele estava bem confortável e não parecia prestar atenção nos meus sinais.
– Imagino que Jordan ou Klint tenha lhe falado sobre nossa viagem para St. Barth – ela olhou para Klint, que não demonstrou reação. – Ou talvez não. Bem, estou tomando a iniciativa de convidá-lo, já que aqui também foi convidada – ela olhou para mim e soube imediatamente que seu plano de vingança por ter lhe dado um sermão estava entrando em ação. – Estamos planejando ficar cinco dias na primeira semana de agosto para que possamos relaxar. Como chefe dela, talvez pudesse facilitar o processo.
olhou para mim e abri a boca querendo responder alguma desculpa, mas nada saiu. Olhei feio para Lana que sorria vitoriosa.
tem uma superiora que deverá dar a permissão. Não posso passar por cima dos cargos da empresa – é isso. Estou ferrada. A mínima chance que eu tinha de conseguir essa folga foi para o espaço. E Lana ainda me diz ser sua melhor amiga! – Além disso, eu interferir e dar uma folga de cinco dias a trará motivos para os funcionários especularem sobre nós dois.
Mas o que... Droga!
Ele-está-me-dando-um-fora!
Respirei fundo, pensando em alguma maneira de reverter a situação, mas não tive sucesso, já que tudo o que surgia em minha cabeça era maneiras de torturar Lana ou me suicidar. Logo, fechei meus olhos, mostrando minha vergonha e meu nervosismo por estar sendo tratada como um assunto à tiracolo.
E eu ainda achava que o dia terminaria bem.

não foi embora mesmo depois de Lana e Klint terem saído do apartamento uma hora depois. Ela provavelmente iria passar o final de semana com ele, pois havia o evento do ovos de Fabergê para comparecer. Antes de sair, pude ver seu sorriso de satisfação em deixar a quem se refere como “melhor amiga”, em apuros.
– Talvez acrescentar uma cor mais vibrante e feminina, como o rosa – ele comentou durante suas análises nos desenhos que eu tentava me focar em terminar.
Não pude responder seu comentário porque estava compenetrada demais na maneira que iria iniciar meu pedido de desculpas pelo comportamento constrangedor – para mim – de Lana.
– ele falou firme. Saí de meu transe e percebi que não era a primeira vez que ele me chamava. – Estou falando com você.
– Perdão – limpo a garganta. – Fico compenetrada demais enquanto produzo.
– Você não mexeu em nada – ele olhou para a tela do meu computador.
“E agora ele também observa meus movimentos.” Penso.
– Tudo bem, estava em outro mundo pensando em alguns modelos. Acontece com frequência – explico. – Mas...
– Ah, aí está a razão – a satisfação surgiu em seu rosto e seus braços cruzaram, as costas se encostaram no encosto da cadeira e ele aguardou minha explicação.
Não falei de imediato. Eu poderia falar com ele como uma funcionária ou de maneira mais impessoal, afinal, estamos no meu quarto. está no meu quarto pela segunda vez e sairá com a camisa tão lisa quanto quando sai do trabalho depois de um dia infernal.
– Sobre St. Barth. Lana foi muito insensível, hum, é – olhei para o lado sentindo minhas bochechas começarem a queimar. – Eu não estava planejando pedir a você. Para dizer a verdade, nem a Lauren, por isso ela achou que devia tomar a iniciativa...
– Você não me deve uma explicação sobre o comportamento de sua amiga, – ele me cortou, desinteressado em minhas desculpas.
– Ah, claro. Só achei que... Tudo bem – virei minha cadeira, a sensação de humilhação ainda pior. Geralmente eu respondia de maneira estúpida, iniciando nossa rotineira discussão, mas estou em uma posição tão inferior a ele que não tenho nem coragem de fazer um traço do desenho em minha cabeça, sentindo que estou me expondo ainda mais frente aos seus olhos.

A hora do jantar costuma ser ignorada às sextas-feiras porque geralmente saímos para beber ou passar o resto da noite em casa fazendo uma festa do pijama para falar mal das pessoas de nossos trabalhos ou de alguém na sociedade que está acostumada a ser julgada. Contudo, Amy havia ligado no meio da tarde para avisar que iria jantar com Jordan e provavelmente ficaria o final de semana fora, enquanto Lana, como sempre, não deu nenhuma satisfação, deixando óbvio que não voltaria para casa tão cedo. Ultimamente ela tem passado mais tempo no apartamento de Klint do que em casa, o que me fez um dia questionar quando ela começará a querer controlar a vida dele ou transferir algumas coisas suas como roupas e acessórios para seu armário.
– Você fez um bom progresso hoje – falou, erguendo-se da cadeira e mexendo os braços como se estivesse tentando malhá-los para fazer o sangue voltar a fluir. O paletó do terno estava apoiado nas costas da cadeira e uma xícara de café se encontrava vazia em minha mesa próximo ao lugar onde ele estava apoiado analisando os desenhos e os organizando de acordo com seus próprios pensamentos. Seu celular tocou algumas vezes durante a tarde, o fazendo sair do quarto para atender ou simplesmente ignorar a ligação ao ver o nome de alguém na chamada. Uma das vezes não pude deixar de ler o nome de Lauren no visor. Achei que ele ignoraria, mas pelo contrário, atendeu imediatamente e se retirou do meu quarto mais apressado do que das outras vezes. Quando voltou, dei meu melhor para não demonstrar curiosidade sobre o que eles falaram, principalmente porque fiquei quase ausente no trabalho por conta da presença dele na minha residência. – O que foi? – me perguntou, vendo que eu não desviava meu olhar surpreso de sua direção.
– Você percebeu que acabou de me elogiar? – apontei para ele, tão descrente que mal sabia como consegui unir palavras que fizessem sentido juntas. jamais havia me elogiado, e se o fez, definitivamente não foi em uma tonalidade que eu pudesse entender com clareza.
Ele não me respondeu de imediato. Parou de se mexer para pensar em suas ações nos últimos três minutos. Ficou calado por um instante até soltar uma pequena risada debochada, como se minha perplexidade fosse exagerada.
– Você falando assim me faz parecer uma pessoa que não admira as qualidades de outra pessoa.
– Mas você não admira. Pelo menos, não demonstra.
Tão logo quanto falei, me arrependi. Durante o segundo que respondi seu comentário não pensei no fato dele ser meu chefe, ou a pessoa que está me contratando por fora, ou que está me fazendo um favor. Apenas deixei-me levar pelo momento, de modo que seus olhos piscaram duas vezes de forma rápida, mostrando sua surpresa em descobrir minha visão sobre sua personalidade. Eu culpo o ambiente. Estarmos em meu quarto me faz pensar que posso ficar à vontade, é meu habitat natural, afinal.
– Você acha que eu não sei admirar as pessoas?
– Bem...
Desviei meus olhos de si, porque minha boca não queria colaborar comigo e voltar com o ambiente controlado entre nós dois. Não pude inventar uma mentira para melhorar a situação e certamente minha expressão estava sendo minha cúmplice, mostrando que eu sabia exatamente o que falava.
– Não é bem assim – tentei começar, mas não pude continuar, pois sua voz rapidamente tomou conta do meu quarto:
– E o que você acha que fiz durante a tarde inteira?

            Não é como se ele estivesse se referindo a me admirar como uma mulher. Eu poderia me iludir, mas seria idiotice minha e, no final, eu apenas passaria o papel de ignorante a . Mas não parecia estar brincando quando disse aquilo. Me perguntei diversas vezes qual a razão dele ter dito que me admirava e apesar de eu saber que era por causa de meu talento, todas as vezes acabei imaginando na possibilidade dele se sentir, nem que fosse um pouco, atraído por mim.
– Há a possibilidade, sim – Amy falou, sentada no sofá na terça-feira, quando finalmente nos encontramos em casa.
Pela primeira vez desde, hum, sempre, Lana chegou em casa antes de Amy – na segunda – e passou a noite sozinha comigo. Não me lembro da última vez que eu e Lana fofocamos sem Amy, o que acabou sendo interessante, já que não havia ninguém para mediar nossas línguas afiadas, principalmente porque eu surgi com o assunto de Hilary Falcet e seu escândalo, e nos regozijamos em rir e falar ainda mais mal da garota que era um tormento na época da escola, como se seu comportamento ridículo de sexta jamais tivesse acontecido e eu não tivesse a odiado durante um final de semana inteiro. Decidi deixar o papo sobre para terça, se Amy estivesse junto, porque Lana apenas jogaria verdades em minha cara e aproveitaria um tempinho para me lembrar da sua vitória na sexta–feira, quando me fez pagar o maior mico na frente dele citando St. Barth.
– Amy, o que nós combinamos sobre “não iludir” a outra quando não há nenhuma sintonia? – Lana olhou feio para Amy, que encolheu os ombros.
– Eu acho que pode estar interessado em , sim, Lan. Até porque nós sabemos que ele fingiu ser seu namorado por livre vontade. E não me venha com esse acordo ridículo, porque ninguém em sã consciência e com a boa aparência e poder econômico de aceitaria algo assim somente para conseguir uma coleção.
Eu e Lana permanecemos caladas e perplexas. Mais por Amy ter dito que achava o acordo “ridículo”, palavra que sempre evitou dizer por achá-lo ofensivo, do que por ela rebater a opinião de Lana, algo que raramente vez em nossa vida inteira.
– Eu concordo que se o problema dele for sexo, ele não precisaria fazer tudo isso só para transar com – Lana cruzou as pernas descobertas e colocou uma expressão pensativa no rosto, me fazendo tacar-lhe um travesseiro em sua cara imaginando ser um tijolo para acabar com aquele rosto perfeito dela. – Amiga, você sabe muito bem que aquela sua chefe, apesar de ser uma garota de programa de elite, vale muito mais o esforço do que a designer que sequer tem uma vida social decente.
– Vamos mesmo começar com esses elogios? Vamos mesmo começar a discussão sobre nossas vidas, Lana? Você não pode, por um momento, pensar um pouco do meu ponto de vista?
, serei sincera com você, querida. Eu jamais conseguiria pensar do seu ponto de vista porque você tem o costume de transformar uma garoa mirrenta em uma tempestade devastadora. Isso porque a rainha da dramaturgia aqui é a Amy.
– Eu não sou dramática, Lana! – Amy exclamou, ofendida.
– É sim, Amy, não mude o meu foco – balancei a mão em sua direção, provavelmente a deixando um pouco mais com seu ego ferido, mas nada do que nós já estivéssemos acostumadas. – Não estou falando sobre eu ser melhor ou pior que a Lauren, não sei nem por que ela surgiu no assunto. O que eu estava falando é sobre ele ter deixado no ar que ficou me admirando a tarde inteira! Como homem, ele deveria saber sobre o que fala e a maneira como ele fala! A sentença foi ambígua! Ambígua! E se eu estivesse apaixonada por ele? Seria apenas mais uma desculpa para me iludir e achar que teria alguma chance com ele!
– E você não está apaixonada por ele? Não está, neste exato momento, arranjando essa desculpa para achar que tem uma chance com ele?
– Você quer arrumar uma briga? – olhei feio para Lana, mas ela já possui anticorpos contra meus olhares. – Eu não estou apaixonada por ele, droga! Ele é meu...
– Chefe, eu sei. Não há uma lei que impeça uma mulher de dormir com o seu chefe, . Isso é apenas uma desculpa que está enfiando nessa sua cabeça para não aceitar que está, mesmo, interessada nele.
Olhei para Amy esperando que ela dissesse o quão absurda Lana estava sendo. Achei que veria uma mulher pronta para entrar em ação como faz quando falamos dos defeitos de Jordan, mas Amy não me pareceu disposta a falar um ‘A’, mostrando que minha situação é muito pior do que imaginava.
– Você concorda com ela? – tento extrair a resposta que procuro, em vão.
– É o que me parece também, .
– Ótimo – coloquei a taça na mesa de centro. – Então por que ele me ignorou ontem e hoje o dia inteiro no serviço? Se ele tem a “liberdade” de aparecer na recepção do meu apartamento como se fosse sempre bem-vindo, não tem também a educação de pelo menos me dizer um ‘bom dia’?
– Convenhamos, , ele é o chefe de uma multinacional e tem uma grande influência na sociedade elite, da cidade mais elite, do país mais elite do mundo. Ele não tem que demonstrar afeição por nenhum funcionário.
– É isso que estou falando! – apontei para Amy. – Ele não sente nada por mim. Meu papel em sua vida é criar projetos que lhe tragam mais dinheiro. É isso mesmo. Eu não sei por que fiz tanto alarde por causa de uma besteira dessa se a resposta está estampada na minha cara todo santo dia útil da minha vida. Você tem razão, Lana, transformo uma garoa mirrenta em um vendaval. Vou dar um jeito nesse comportamento ridículo.
Me levantei do sofá decidida e me retirei para terminar os desenhos da coleção que havia me pedido. Com a mente mais leve, seria mais fácil fazer algo que não envolvesse qualquer emoção relacionada a ele. Antes de fechar a porta do meu quarto, pude ouvir Lana dizer a Amy:
– Não sei se me sinto lisonjeada por ela ter concordado comigo bem quando não está bem da cabeça.

No dia seguinte, o escritório estava em um colapso. A coleção que Erin havia feito para o outono havia sido reprovada pelo conselho e Lauren estava uma pilha de nervos por ter recebido um feedback ruim direto de .
– Parece que ele não poupa nem as amantes – Claire diz de sua mesa com um pequeno sorriso. Ela e Erin nunca se deram tão bem devido à um desentendimento que tiveram uma vez há três anos, quando Erin usou Claire de exemplo a uma pessoa um tanto... fracassada.
Fracassada não é a palavra certa para o que ela usou, mas foi o que todo mundo interpretou, principalmente Claire que ficou um pouco obsessa com essa ideia de trabalhar em um lugar que ela não se identifica. Mesmo tentando entrar em outras empresas que fosse mais seu perfil, nenhum deles quer contratar uma estudante, muito menos que não tem experiência no ramo de design dentro da ; o que eles esperam é ver os projetos de uma pessoa quando ela diz que é designer em uma empresa renomada. Desde o acontecimento, Erin e Claire evitam ficar sozinhas em um mesmo espaço para evitarem ser obrigadas a se comunicar.
– Eu não sei o que pode ter dado errado! – Erin dizia, mais desesperada do que inconformada. – Lauren havia aprovado e já fazem três meses desde o fechamento dessa coleção! Eles podem fazer isso? – ela olhou para mim. – Cancelar uma coleção de última hora?
– Não é ético – concordo com ela, mas, por dentro, achei que a coleção deveria ter sido reprovada desde a época dos esboços. Além disso, esse não é o tipo de pergunta que se faz à única pessoa que jamais teve a coleção cancelada ou devolvida pelo conselho. – O senhor não havia aprovado?
Erin se calou. A ausência de resposta mostrava o óbvio. Lauren aprovou a coleção à frente de , provavelmente antes da nomeação oficial dele, quando a empresa ainda estava um pouco bagunçada por ter de lidar com a saída de Barbara. Olhei para Guy e Tony, que balançaram a cabeça reprovando a atitude de Lauren, mas também de Erin por ter achado que as coisas dariam certo, quando foram feitas na surdina.
– ouvi a voz de Lauren me chamar de sua mesa. Inclinei meu corpo para trás na cadeira e olhei em sua direção, vendo seu olhar de leão visualizando sua presa me encarar. Ela tinha o fone do telefone em mãos e uma mistura de desgosto podia ser vista em seu rosto. Isso só poderia significar que alguém lá em cima estava me chamando para arrumar a burrada que ela e Erin fizeram. – Compareça à sala de reunião rubi daqui a dez minutos.
Bingo.
Olhei para Erin, que estava boquiaberta por não ter sido chamada também. Tentei falar com ela, mas o choque foi muito forte; eu também estaria nessas condições se tivesse uma coleção minha cancelada. Mas é isso o que acontece com as pessoas que jogam sujo. Uma hora ou outra o mundo dá a sua devida volta, e então só o destino para julgar o erro de cada um.
– Sim senhora – respondi, olhando para Erin como se estivesse pedindo desculpas.
Mas não estou. Essa é a oportunidade perfeita de me destacar sob os olhos do conselho e mostrar meu talento para entrar na lista de cogitados da coleção de 50 anos. Peguei minha pasta de esboços que costumo fazer durante o tempo livre, já que Lauren me permite ter bastante dele com os trabalhos inferiores que me passa, e pedi desculpa para Erin antes de sair caminhando em direção à sala de reuniões.
Logo que cheguei, também se aproximava com seu tablet em uma mão e o celular na outra. Paramos na porta e dei-lhe espaço para passar. Surpreendentemente, ele abriu a porta para que eu entrasse antes, como um verdadeiro cavalheiro de Nova Iorque deve fazer para qualquer mulher que estivesse presente. Quando entramos, grande parte da mesa do conselho estava presente conversando em sussurros, e não muito tempo depois que sentei, Lauren entrou em passos pesados dentro da sala, mas mantinha seu porte refinado.
– Marcamos essa reunião de urgência para discutir sobre a coleção de outono que deveria estar sendo encaminhada para nossas lojas em menos de duas semanas – o líder do conselho, Adam Brown, iniciou o falatório.
Adam não é uma pessoa de muitos amigos. Ele sempre evitou manter qualquer contato pessoal dentro da empresa, mantendo seu círculo de relacionamento restrito a somente Barbara e Barbara mesmo. Mesmo não tendo carisma, Adam é o que melhor tem conhecimento sobre qualidade de joias, conquistando facilmente o respeito de todos em sua atual posição. Seus comentários, apesar de muitas vezes ácidas, sempre vêm com uma mensagem escondida que, se desvendada, facilita em 100% no processo de aceitação. Por alguma razão, sempre tive esse dom – pois considero interpretar suas mensagens um dom, já que somente eu e mais uma pessoa do marketing conseguimos – de modo a ser uma das razões a qual minhas coleções jamais fossem reprovadas.
– Devido ao erro de Lauren Beckheart, concordamos em retirar o poder de decisão sobre esta coleção de suas mãos e passá-la a , por possuir o poder de agilizar todo o processo e evitar um desfalque em nossa imagem tão arduamente mantida durante todos os anos desde o início da empresa – ele olhou para Lauren, que estava pronta para discutir, mas era claro que não o fez porque perderia a guerra. – Dessa maneira, senhora Beckheart, manteremos em reunião somente os envolvidos.
– Quantas vezes tenho que dizer que esta coleção foi aprovada por Barbara? Vocês não podem simplesmente cancelá-la! E o esforço da designer? Esse tipo de atitude mancha a reputação dela e a minha, por parecer que não tive boa conduta em minha coordenação.
– A decisão está tomada, Lauren – um segundo homem disse. – Essa não foi uma boa coleção. Foi realmente uma pena que nós tivéssemos acesso somente na segunda-feira. Caso nos tivesse chegado mais cedo, teríamos reprovado mais cedo, dando a oportunidade de Erin Herington de fazer as emendas.
Lauren não teve a oportunidade de retrucar mais uma vez. Assim que olhou para , o olhar que recebeu foi tão direto que até eu tive a vontade de sair da sala. Tão nervosa quanto havia chego, pegou seu celular depositado na mesa de maneira brusca e se retirou da sala sem olhar para trás.
– Por indicação do senhor , selecionamos a senhorita para que nos auxilie em contornar esta situação delicada de maneira ágil – Brown olhou para mim e mexeu no controle da tela localizada ao lado oposto do assento de . – O tema proposto até então era da difusão cultural, um meio de mostrar que a empresa está empenhada em unir etnias e tratá-las de maneira igualitária. Por ser o outono, a combinação de cores que não fossem extravagantes em peças de ouro amarelo foi imaginada como uma coleção refinada e feita para homens e mulheres que buscassem uma alternativa mais discreta.
Olhei para as imagens de brainstorm utilizadas para a decisão do tema e aquilo me parecia um tanto... contraditório. Criar uma coleção pouco extravagante, mas que fosse discreto não me apetecia. Quando se põe ‘extravagante’ em uma descrição, mesmo que seja para minimizá-lo, não faz com que a coleção deixe de ser chamativa; apenas quer dizer que ela será menos estonteante que as coleções das demais estações.
Deixei que eles apresentassem e argumentassem os pontos. Cada vez que surgiam com uma nova descrição, mais certa eu ficava de que aquilo estava errado. Se foi Lauren e Erin que pensaram em tudo sozinhas, elas não deveriam ficar aborrecidas de terem sido vetadas do projeto.
– É muito fácil saber que você não está radiante com a ideia, – a voz de de repente surgiu no meio da apresentação. Todas as cabeças que até então estavam viradas em direção à tela, mudaram de lado, encarando o nosso presidente. Seu olhar me encarava sem nenhum julgamento. Ele apenas estava deixando claro para todos que apresentar aquilo para mim era uma perda de tempo. – Então?
Olhei para o restante dos integrantes da reunião e os vi me encararem com interesse. Talvez o fato da ideia não ter vindo diretamente deles os fazia mais maleáveis com a ideia de eu não concordar que aquele tema era apropriado para o outono.
– Me parece que há algumas falhas de comunicação. O público não irá entender que essa é para ser uma coleção pouco extravagante. Entendo quererem inserir cores que remetem o outono, mas isso é exatamente o que todas as empresas fazem.
– Está sem graça – Adam concluiu.
– É. Está, sim – concordo. – Nós somos uma empresa que oferece a beleza para as pessoas. Nós deixamos as pessoas mais bonitas. Nossos clientes compram nossas joias para parecerem mais belos, mais extravagantes, mais poderosos. Por que iríamos querer nos esconder por debaixo de seus casacos?
– E o que sugere?
– Joias que se sobreponham às roupas. As mulheres empresárias são as mais vaidosas por estarem no mercado constante. Elas procuram por uma novidade que as façam se sobressair; o outono é característico por um clima ameno, mais insosso que o inverno. Se oferecermos uma opção que as façam parecer como raios de sol em um dia em que as folhas caem das árvores, elas não terão duvida em investir nessa nova beleza.
– Há mulheres que não gostam de extravagancia.
– É por isso que lidamos com tamanhos e cores. Podemos abusar nos colares por cima de camisas sociais ou pulseiras que se tornem mangas trabalhadas, mas brincos delicados, que não retirem o valor da joia, nem a atenção dos colares – retirei de minha pasta alguns desenhos que havia feito no dia em que Erin foi escalada para fazer a coleção. Estava tão nervosa por não ter sido selecionada que acabei passando o almoço para colocar as ideias que surgiram em minha mente no papel.
Passei as folhas para os membros do conselho que olharam com cautela e precisão. Aguardei alguns poucos minutos e tentei não focar na reação de , que ouvia os sussurros do membro do conselho sentado ao seu lado; balançava a cabeça de acordo com a opinião ouvida e percorria os olhos para todos os lados na folha. A demora começava a ativar meu nervosismo, mesmo tendo passado por essa mesma situação centenas de vezes nos últimos anos, sempre sinto como se meu estômago não se lembrasse de criar anticorpos para a sensação de ter o trabalho analisado.
– Não é preciso dizer muito para entendermos a proposta da coleção – Adam falou, recebendo murmúrios de concordância dos outros. Olhou para mim com um brilho que imediatamente fez meu estômago parar de embrulhar. – Esperava ter mais trabalho para contornar esta situação, mas me parece que você salvou a empresa, senhorita – um pequeno sorriso surgiu em seus lábios e a imagem de um convite para a coleção de 50 anos começou a surgir em minha mente. – Estou mais tranquilo por saber que nosso presidente conhece o perfil de seus funcionários – Brown virou seu rosto para , que não demonstrou alegria em receber um elogio. – Bem, tenho certeza de que todos concordamos que esta coleção deve ir como está para a equipe de produção – olhamos ao redor e, como esperado, nenhum membro mostrou qualquer objeção. – Ótimo – ele reuniu as folhas e as colocou em uma pasta de couro com o emblema da empresa; em seguida, entregou-a para . – Agora é com o senhor, senhor .
Todos começaram a se levantam e repeti suas ações por impulso. Assim que o fiz, ouvi a voz de chamar meu nome no meio da conversa, agora mais alta, daqueles que saíam e voltavam para seus afazeres:
, compareça na minha sala em 10 minutos – e sem dizer mais nada, se retirou da sala sozinho.
Permaneci parada, estática, sem saber exatamente o que fazer ou para onde ir. Cogitei retornar à minha mesa, mas a ideia de ser alvo de ódio e curiosidade da equipe fez com que meus pés se prendessem no chão daquela sala de reunião até dar os 10 minutos estipulados por .
– Oi, Lottie – falei, vendo-a desviar seu olhar da tela do computador. Sua mesa ficava na parede oposta à porta da sala de e era tão simples que a ideia de trazer um desenho enquadrado para ela colorir um pouco o espaço pacato me pareceu ótima. – O senhor me pediu para comparecer à sala dele.
– Claro, aguarda só um minuto para que eu possa avisá-lo – ela sorriu, tirando seu telefone do gancho. Enquanto confirmava minha reunião com , passei a olhar para os quadros de arte e algumas vitrines com protótipos falsos das joias feitas por Barbara que mais tiveram sucesso. O orgulho dela sempre foi motivo para ter sua própria exposição. – ? Você pode entrar.
– Obrigada.
Abri uma das duas portas que formavam a porta dupla do escritório da presidência para adentrar em um espaço moderno. As venezianas que impediam os funcionários de ver o que fazia em sala estavam fechadas, como sempre. A única parede da sala era coberta por uma obra de arte contemporânea, diferente da que antes ocupava o lugar, e que pertencia à Barbara. mudou tudo depois de tomar seu lugar: as paredes agora eram brancas, opostas ao vermelho . As janelas, ao invés de estarem fechadas por uma cortina automática pelo fato de Barbara não gostar do efeito do sol em sua pele agora era o padrão do prédio, inteiriça de vidro, formando par com a parede que dava para o mezanino. As estantes, não mais de madeira escura, mas sim de um material parecido com o metal portava menos livros do que as bíblias de Barbara.
– Sente-se – ouvi a voz de durante a minha análise. Ele estava sentado em sua cadeira em uma posição confortável. Acompanhou meus movimentos com seus olhos até estar devidamente sentada em sua frente. – Acabei de conversar com a gerência da equipe de produção e eles concordaram em nos receber amanhã de manhã.
– Como?
– Acredito que fui bem claro.
– Você quer que eu acompanhe a produção? – perguntei, vendo-o respirar fundo, mostrando seu aborrecimento por ter de repetir o que disse.
– Sim, , eu quero que você acompanhe a produção.
– Mas nós nunca... Barbara nunca...
– Quem está na direção agora? – ele perguntou.
– O senhor.
– Logo, não compreendo por que você ainda insiste em achar que seguirei os mesmos passos da minha mãe.
– Bem, você é o herde... Sim, senhor – eu estava falando demais. Nós não estamos no meu quarto e não me deu nenhuma abertura para falar com ele de maneira impessoal, como quando estávamos em casa. Limpei minha garganta sem graça. – O senhor passaria o endereço do local?
– Você não sabe onde é a fábrica?
Encolhi os ombros, sem graça. Eu havia ido à fábrica uma única vez com o motorista da empresa. Não é como se eu fosse obrigada a saber o caminho até lá.
– Esteja pronta às oito amanhã – ele disse, pegando o telefone, um sinal para que eu me retirasse. – Eu te ligo.

– Ele poderia ter mandado um carro da empresa – Amy disse naquela noite, durante nosso jantar. – Ah, ele poderia sim.
– Talvez ele mande alguém que irá me ligar quando chegar.
, você não pode se tornar uma tonta quando não quer acreditar em algo – Lana olhou para mim. – Ele disse que ele ligaria, logo, ele virá te buscar. E você ainda tem coragem de negar que ele esteja interessado em você.
– Não fale besteira – falei. – Ele não está interessado, será que nós não podemos ter uma única conversa sem citar esse fato?
– Não – as duas falaram juntas depois de se entreolharem.
Reviro os olhos e desisto de tentar argumentar. Bebo um gole do vinho e ouço Lana resmungar para Amy na cozinha:
– Se ela não quer ouvir de nós que ele está interessado nela, então por que diabos ela sempre vem falar dele para nós?
Olhei em direção ao local em uma expressão ultrajada, que era exatamente como estava me sentindo. Eu não falo toda hora de . Só quando algo sobre ele está perturbando meus pensamentos. Não pode ser toda hora, porque não é possível eu pensar nele a todo momento. Não é?

Eram oito em ponto quando ligou.
– Meu carro está na porta, desça – e sem dizer mais nada, desligou.
– Desça – resmungo. – Não é porque ele é o chefe que deve ordenar assim. O que custa um pouco de educação pela manhã?
Como o usual, ele vestia um terno preto, parecendo um verdadeiro modelo Armani, com os cabelos arrumados pelo gel e a barba por fazer, mostrando seu maxilar perfeito. Seus olhos estavam mais claros que o normal, me lembrando a sensação de encará-los e achar por um pequeno momento, quão maravilhoso ele deve ser quando encarado com ternura.
– Você deve ser precisa nos materiais e evitar qualquer empecilho que possa atrasar mais a produção. Lembre-se que estamos em uma situação de emergência e precisamos dessas peças nas vitrines de todas as lojas do mundo daqui a algumas semanas.
– Sim senhor – falo, olhando para o espaço fora do carro.
Com a presença de seu motorista, não tinha segurança em falar da maneira que queria, como poderia fazer quando estivéssemos só nós dois. jamais iria querer ser tratado com pouco caso na frente de um funcionário, principalmente porque ele sempre tratou a todos com muito respeito – menos eu.
A fábrica da empresa está localizada a meia hora da cidade em um local afastado onde a segurança era maior. Passamos por vários portões até chegar ao setor da gerência. Os quinze minutos até então me pareceram sufocantes. Desde que saímos do carro, não vi um resquício da luz solar até chegar à gerência.
– Esta é , responsável pela nova coleção – me apresentou para os homens, que vieram me cumprimentar calorosamente. – Ela irá explicar sobre as pedras, gostaria que tentassem ao máximo cumprir o prazo padrão...
Sempre que imaginava como seria a produção das minhas joias, achei que fosse um processo pacato em que bastava seguir as orientações prescritas nos esboços; mas era mais que isso. Havia todo um procedimento até o final da joia, o que unido com meu esforço, vale todo o dinheiro cobrado.
Eram quase meio dia quando nossa reunião acabou com a promessa de que as peças para aprovação chegariam na semana seguinte, depois de um compromisso que possui até quarta-feira.
– São eles quem estão fazendo as outras? – perguntei para ele assim que entramos no carro.
– Não. Eles são exclusivos da . Eu estou fazendo com outra pessoa. O que tem para fazer na parte da tarde?
– Hum – olho meu celular “ouvir as lamentações de Erin e reclamações de Lauren”, quis dizer. – Nada importante, apenas finalizar alguns desenhos dos charms que enviaremos para a aprovação da Disney.
– Então vamos comer algo antes – ele olhou para o motorista, que apenas concordou com a cabeça, sendo o suficiente para saber que eu havia sido chamada para almoçar com ele. Só nós dois. Pela primeira vez. Mais ninguém.
Eu tinha razão. Ele se esforça em permanecer na minha mente.

E Lana ainda reclama que eu falo demais dele.

Capítulo 06

Nathan Garden me enviou uma mensagem de texto no início do almoço, perguntando se eu havia programação no dia seguinte. Inicialmente, me perguntei por que deveria encontrar com ele, tirando o fato que ele tem uma posição importante na Thames, é lindo e me mandou cinco mensagens nos últimos cinco dias.
“Você precisa de sexo.” A voz de Lana surgiu em minha mente. Pode ser que minha necessidade fosse maior do que vontade de fazer mais charme; pelo menos será minha justificativa para o caso de alguém me perguntar a razão de ter aceitado sair com um cara que tem segundas intenções em encontrar comigo – e não estamos falando do sexo.
Olhei para frente, onde estava sentado olhando o cardápio do restaurante. Não posso dizer que estou em um impasse. é meu chefe e seu comportamento é ambíguo: tem dias que ele me faz odiá-lo, e dias que... bem, me faz apreciá-lo com açúcar nos olhos.
– Já escolheu? – sua voz grossa me perguntou, provavelmente percebendo meu olhar em cima dele. Senti minhas bochechas corarem, mas respondi fingindo que nada havia acontecido.
– Sim.
Olhei para o celular enquanto esperava ele escolher a opção dele para então chamar o garçom. Nathan não poderia ter escolhido um momento pior para me mandar uma mensagem. Não que eu e jamais tivéssemos tido algum sintoma de que sairíamos ilesos de uma discussão, algo que acontece quando decidimos conversar sério por mais de 10 minutos. Contudo, o fato de ter sido escolhida para a coleção de outono e saber que foi uma indicação dele me faz ser obrigada a lhe dar pontos. Apertei os lábios, sem saber o que fazer. Olhei rapidamente para , que ainda tinha seus olhos no final do cardápio e então voltei para a mensagem de Nathan e sua assinatura com um “aguardo uma resposta positiva”. Se alguém assina dessa maneira, espera que a pessoa não responda caso venha a responder algo negativo, correto? Com este pensamento fixo, deixo o celular escorregar para dentro de minha bolsa no modo silencioso e deixo minha atenção se dirigir por completo ao meu chefe, que chamava um garçom para pegar nossos pedidos.
– Você gosta de espumante?
– Eu achei que eles fossem servidos somente em festas – falei, recebendo uma taça com somente metade completa. – Uau.
– Há bebidas que valem a pena descumprir a regra. O que você achou da fábrica?
É sério? Ele irá mesmo falar sobre trabalho? Quero dizer, mesmo que este seja um dos poucos pontos que temos em comum, ele poderia facilmente abordar os outros temas, como o relacionamento de nossos amigos ou, hum... bem, há muito o que falar sobre os dois casais, eu acho.
– Interessante.
– Interessante? – ele abre um pequeno sorriso. – É interessante você se referir ao local onde suas obras se tornam realidade como interessante.
– Bem, você queria que eu falasse o quê? Formidável? Esplêndido? Fantástico?
– Um pouco mais que interesse, quem sabe.
Decidi não responde-lo. A situação me fez recordar um encontro que tive com um jogador de golfe que tinha orgulho de falar de seus tacos. Os tacos objetos esportivos, sim. O outro taco ele nunca mencionou e depois daquele encontro desastroso que fingi conhecer a sobrinha da prima distante de Tiger Woods, fiz questão de me manter longe. Joe, era o nome dele. Só Joe, como ele disse. Eu não sei o que esperar de um homem que se apresenta somente pelo nome. Em Manhattan, seu sobrenome vale mais do que sua carteira de trabalho e pode lhe trazer mais benefícios do que aparecer no New York Times todos os dias na coluna de fofocas. No entanto, eu ainda era uma novata na cidade e estava louca para ter contatos, já que Amy e Lana estavam começando a se dar bem em suas “profissões” e eu ainda não sabia exatamente o que eu queria fazer da vida. Quando dizem que a faculdade de administração lhe ajuda a trilhar um caminho, eles deviam citar que 1% dos alunos correm o risco de não pertencer ao lado positivo das estatísticas.
Meus olhos chegaram aos olhos azuis de . Os olhos que costumam me fazer ficar de olhos pregados algumas noites, mas que na maioria das vezes esqueço porque sua imagem defasada de um homem arrogante predomina em minha mente.
– Há algo errado? – perguntei.
– Que tipos de peça você imagina quando está brava?
– Como?
– Vamos supor que você esteja em um relacionamento sério. Mais do que sério – ele encosta em sua cadeira. – Casados, por exemplo. E você descobre que seu marido a traiu e quer o seu divórcio. Você tem outras coisas para se preocupar, como a nova coleção de primavera. O que vem à sua cabeça quando senta para criar?
Perco um tempo da linha de raciocínio me perguntando aonde ele quer chegar. Ele não deve estar falando de si, já que sua fama de homem solteiro é tão famoso que duvido que haja alguém do círculo elitista nova-iorquino que não saiba o status de relacionamento de . Penso por mais alguns segundos até enfim chegar à conclusão de que eu não o entendo e que não vale a pena tentar compreendê-lo, à não ser que ele esteja flertando, o que seria divertido, se ele não fosse tão irritante.
– Eu pensaria em joias escuras. Ametista ou pedras negras. E ouro. Se sou uma mulher traída, quero uma joia que mostre que saí por cima. Um anel de ouro com brilhantes cravados em toda sua extensão e uma pedra no formato triangular, suas arestas arredondadas e um belo acabamento em ouro – olho para cima, onde um painel branco toma conta do teto sem graça do restaurante, dando vida à minha joia. – Um par de brincos para combinar e talvez um colar; um colar, com certeza. E usaria, hum, Liberty Ross como modelo de divulgação, porque ela é um exemplo de mulher traída que teve uma vida melhor depois de deixa-lo para trás.
Olhei para assim que terminei de falar e a cor de seus olhos havia mudado para um tom mais escuro. Ele parecia absorto pela minha descrição, o que o fez parecer absolutamente sexy. Ele permaneceu calado por mais um tempo, talvez processando minha ideia brilhante.
– Faça – ele falou.
– Como?
– Eu disse, faça o desenho. Faça o conjunto. O anel, os brincos, o colar. Uma pulseira, quem sabe.
– Isso é um briefing? Você acabou de me fazer pensar em um briefing? – abri a boca, em choque e um tanto ultrajada por estar sendo usada. – Escute, senhor , pode não parecer, mas tenho muito trabalho a fazer.
– Não, você não tem. Sei de todos os trabalhos que você e seus colegas de equipe fazem, e a não ser que esteja trabalhando com outra empresa, , você tem um bom tempo para planejar uma nova coleção.
– E quanto o senhor irá me pagar para fazer esse trabalho? Porque, se sabe bem meu salário, o valor de fora da empresa é bem mais cara.
– Você não se lembra com quem está falando? – ele diz, em um tom deboche tão ridiculamente irônica que quase me levantei da mesa para ir embora. Por sorte, me lembrei que apesar de estarmos discutindo como dois profissionais, ele ainda é meu chefe e pode me vetar do primeiro ápice de minha vida. – Além disso, você irá precisar de mim em breve, . Acredite.
– O que você quer dizer?
– Vamos aguardar, então – ele sorriu. No momento em que terminou a fala, o garçom chegou com nossos pratos, me impedindo de discutir mais, mas não de observá-lo me encarar com o sorriso irritante nos lábios. Assim que o garçom se afastou, ele complementou: – Quando sentir a necessidade de me pedir um favor, você sabe o que irei querer em troca.
– Isso soou muito sujo, – murmuro. Ele não se importou com minha maneira impessoal de falar. Soltou uma risada proveitosa e, antes de comermos em silêncio e permanecermos assim até chegarmos na empresa, ele falou:
– Espero que seja o suficiente para te inspirar, .

No fim do dia, diferente das outras quintas da semana, a equipe decidiu não realizar o happy hour porque havia uma ótima festa de despedida acontecendo em um dos bares mais difíceis de reservar da cidade, mas tudo facilita quando a pessoa que está saindo da empresa é a noiva do dono.
– Você não vai, ? – Claire perguntou com Amber ao seu lado.
– Não, Lauren disse que se esses charms não estiverem em sua mesa até às nove, ela irá me reportar pelo atraso. Mesmo ele não existindo.
– Não sei como ela não cansa de pegar no seu pé – Amber falou. – Já que você vai ficar, queria ter um papo, será que podemos pegar um táxi, Claire? – elas se entreolharam e Claire balançou os ombros, mostrando que não se importava e dispensou a carona de Allan, do setor administrativo da empresa.
Esperamos Erin, Guy, Tony e Nally, que havia voltado de uma folga de duas semanas para resolver o problema de sua tia que havia falecido. Ela havia voltado com uma postura diferente, e não sei se é devido ao luto, já que havia dito que a tia era próxima – razão pela qual deixou uma parte de sua herança para ela –, ou se era pelo fato de ela e Erin serem próximas como eu, Claire e Amber e eu ter pego a coleção que era responsabilidade de Erin.
Amber nos puxou para a saída de emergência, onde sentamos no meio do lance das escadas para que não fossemos pegas de surpresa caso alguém abrisse a porta abruptamente. Amber olhou para os lados mesmo o local estando deserto e então abriu um enorme sorriso branco:
– Eu vou para a Thames.
– Sem essa! – Claire colocou a mão na boca depois de ter percebido a altura com que se expressou. – Sério? Por quê? Quero dizer, eles te ofereceram bem, mas, sei lá, você não tem medo?
– Estou um pouco nervosa, sim – Amber olhou para as mãos, cujos dedos estavam se contorcendo. – Mas eu preciso crescer. Brunelli tem me tentado bastante, até que ontem ela deu a última oferta – ela se inclinou para nós duas, que nos deixamos aproximar dela para que pudéssemos ouvir com precisão. – Eles estão planejando uma nova coleção que envolva um tipo de palhas de ouro. Uma divindade, mas que valem menos do que uma joia. Mesmo assim, eles esperam expandir a empresa para pessoas da classe média que querem parecer pessoas requintadas. E gostariam que eu liderasse o design dessa coleção. Comecei, inclusive, a fazer alguns desenhos em casa e queria que você desse uma olhada.
– Uau – falei, surpresa. Mesmo que a coleção seja para algo que valha menos, ainda é uma coleção importante para a empresa e ter o nome vinculado não era mal. Para dizer a verdade, era ótimo. – Eu com certeza darei uma olhada nos seus desenhos! Só não espere que eu os compre.
– Nah, tudo bem. Eu posso suportar essa – Amber balançou a mão, despreocupada. – E outra, sabe Hunter?
– Hunter? – eu e Claire perguntamos, confusas.
– O acompanhante de Nathan daquela noite – Amber olhou para mim.
– Noite? Que noite?
– A noite que você preferiu sair com seu colega de faculdade – Amber enviou seu pior olhar para Claire, que encolheu os ombros e murmurou um “Ah...”. Amber jamais a perdoou por ter lhe dado um bolo, principalmente porque na segunda-feira seguinte reclamou conosco o dia inteiro do quão mala o cara havia sido, e nem sequer pagou a pipoca do cinema dela. – Bem, nós estamos, hum, saindo.
– Mas você não havia dito...
– Eu sei! Mas ele insistiu. Tipo, muito. A ponto de me fazer querer encontrar com ele para pedir para parar de me perseguir – ela passou a mão pelos cabelos curtos e suspirou. – E então, hum, transamos e, não sei.
– Você se apaixonou pelo cara por causa do sexo?
– Acho que sim. Soa ridículo, mas é exatamente o que parece. Faz sentido? – ela olhou para nós duas.
– Com certeza. Se Josh não tivesse um sexo tão bom, eu jamais teria namorado com ele por três anos – Claire ergueu as mãos, como se não fosse obrigada a suportar o seu próprio namorado enquanto está em um relacionamento com ele. – E sexo faz bem. E você não é muito do tipo que quando quer transar, sai para beber em algum lugar badalado.
– Foi exatamente o que eu pensei! – Amber apontou para a observação de Claire. – Achei que se havia uma oportunidade de eu ter um cara legal e bonito do meu lado, era este. Então por que não?
– E qual a lei da Thames sobre dois funcionários namorarem?
– Bem, é claro que eu não abordei isso com Brunelli, mas eu e Hunter não estamos namorando. Estamos, hum, tendo um tipo de... Bem, um tipo de amizade com benefícios? Aquele igual o da Mila Kunis com o Justin Timberlake.
– Algo com amizade – Claire murmurou, tentando lembrar do nome do filme.
– É importante você ser discreta então, Amber. Eu sei que é bom ter uma pessoa ao lado, principalmente para transar quando quiser, mas você está se mudando para a empresa dele; e havia dito que a posição dele não era tão baixa, não é?
– Ele é mais ou menos o que o Nathan Garden é, só que na área administrativa.
– Caraca, que sexy – Claire abre a boca. – O cara deve ter um papo muito cabeça.
– Bastante – Amber balança a cabeça.
As duas olharam para mim com a expressão que eu conhecia. “É por isso que você continua solteira, , você precisa se arriscar mais...”. Bem, não é como se eu quisesse continuar solteira. Eu apenas tenho minhas prioridades. E também sou ruim em separar vida real da profissional.
 
As duas me deixaram sozinha no escritório cerca de quinze minutos depois. Tony havia ligado para Claire avisando que se elas não chegassem em meia hora, as portas do bar iriam fechar para começar a festa particular da despedida.
Desde o almoço com , a ideia do tema de traição e término não saía da minha cabeça. Eu queria desenhar os rascunhos, mesmo que não achasse que fosse pedir um favor a , até porque, esperava inventar uma boa desculpa de término para minha irmã e Lua, como desculpa por ele não poder mais comparecer aos eventos delas.
– Boa noite, – ouvi a voz de soar no andar e o vi parado em frente à minha mesa, no corredor.
– Ah, boa noite, senhor – respondi em uma falha tentativa de não mostrar meu mau humor. – Tenha um bom final de semana.
– Sobre ele – deixou cair em minha mesa um envelope branco. –, este é um Congresso que acontecerá de domingo a quarta em St. Barth. Eles irão falar sobre o conceito das peças do próximo verão.
Abri o envelope para ver as passagens de ida e volta a St. Barth e a hospedagem em um hotel comum, mas não longe do que Amy e Lana ficariam com Jordan e Klint. Ergui meus olhos para , que continuou em sua postura superior.
– Infelizmente, os voos de sábado estão sendo trocados devido a uma previsão malfeita da empresa, por isso, deveremos ir no amanhã à tarde para evitar transtornos.
– Mas – olhei para os lados. – Não estou cotada para nenhum projeto importante para o ano que vem. Além disso, a não participa de eventos como esse porque não é de importância para a empresa.
– É algo que estou mudando – ele respondeu, sério. – Nossos designers estão se tornando limitados em suas criações, focados somente na identidade visual da empresa. É bom terem conhecimento de algo novo e como você é a pessoa mais antiga da equipe e que possui um reconhecimento maior, o conselho achou que seria a pessoa certa para comparecer ao evento e ver com seus próprios olhos o que os especialistas em pedras estão prevendo.
– Ah! – olhei para o folder do congresso que me pareceu interessante. – Isso é ótimo, gostaria muito de ir – fazia um bom tempo que ninguém me pedia algo desafiador como agora. Analisar e adaptar novos métodos em meus trabalhos poderia agregar uma vantagem maior para as próximas coleções e me daria uma nova oportunidade de chegar às reuniões de debate sobre o designer principal da coleção de 50 anos. – Obrigada!
não demonstrou estar muito feliz com a notícia, mas pude ver um resquício de sorriso em seus lábios, fazendo as maçãs de meu rosto corarem enquanto o observava se afastar para ir embora.
Eu juro que tenho que controlar minhas interpretações sobre seus comportamentos e parar de enviar sinais irrelevantes para o meu coração. Estou começando a parecer patética.

Em casa, Amy e Lana não estavam para eu poder falar sobre a novidade. Elas partiam para a casa dos namorados às quintas de vez em quando, de modo que o apartamento ficava inteiro para mim, o que era ótimo em época que não há nada para fazer, já que tenho a televisão e a garrafa de vinho inteiras só para mim. Contudo, quando estava terminando de arrumar minha mala para o final de semana e então poder sentar e assistir ao episódio da semana de Modern Family, meu celular toca e mostra o nome de Céci no visor.
– Oi, Céci – me jogo no sofá, programando o início do episódio mais novo da série. – Está tudo bem?
– Bem, está sim, é só que, hum... Há algo que eu gostaria de falar com você – ela não me parece nada bem. O nervosismo da chegada da data em que irá experimentar pela primeira vez o seu vestido está tomando conta de si e a solução me parece ser ligar para mim às onze da noite. – Será que você tem um tempo?
– Claro, querida – olho para cima, clamando por paciência. Eu só queria descansar um pouco. – Está nervosa por causa do vestido?
– Não, não, estou perfeitamente bem com meu corpo. Fazendo a dieta indicada pela Milly, lembra? – falou. Claro que lembro, Milly sempre foi uma pessoa gordinha quando éramos crianças e então, de repente, depois de um verão inteiro desaparecida na época das festas de debutante, ela retorna magérrima e pronta para cortar a língua de todas as pessoas que diziam que ela jamais chamaria a atenção dos garotos. Desde então ela criou essa obsessão por dietas, passando uma para Céci quando ela comentou sobre a preocupação de não caber no vestido em dezembro. – É só que... Veja, Taylor e eu fomos ver a reforma da casa em que vamos morar e no meio disso tudo começamos a conversar sobre nosso casamento, os convidados, como estamos animados com tudo, até que chegamos em você.
– Eu?
– É. Na verdade, mais precisamente em .
? – não posso evitar mostrar um certo desespero em minha voz. Eu sei que ele, meu pai e Max adoraram a ponto de toda vez que nos falamos, seu nome ser citado como se fosse um Deus, mas isso não significa que ele possa ser citado fora do meu círculo de contato. – O que tem ele?
– Me parece que Taylor comprou o terno do casamento dele aí em Nova Iorque também – ela disse. – E, hum, foi quem o ajudou a escolher. Taylor disse que ele se ofereceu a fazer a encomenda quando entrou em contato pedindo uma sugestão. Max e papai estavam juntos e você sabe como é quando os três se reúnem... A questão é que, bem, você sabe como Tay tem dificuldade em firmar amizades e a gostar das pessoas de coração. Assim como papai está encantado com e Max não para de falar sobre política e ler mais sobre o assunto, o que é um milagre, já que ele nunca deu muita atenção para nada. E então Taylor pensou: é seu namorado, você disse que estão indo bem...
– Céci – tento interrompê-la, mas ela solta a bomba:
– Taylor convidou para ser o nosso padrinho de casamento.
Fechei os olhos. Então era isso. Era isso o que estava falando na hora do almoço. Taylor havia o convidado para ser seu padrinho. É claro que ele usaria isso como chantagem. Meu Deus, por que fiz a burrada de pedir um favor para ele? Por que estar longe da minha família era mais importante do que manter minha sanidade?
já respondeu?
– Ele disse que deveria falar com você antes, por isso que eu... Bem. Taylor queria muito que ele fosse o padrinho. Você não quer? – ela perguntou, insegura. Eu não poderia falar que não quero, nos vimos faz um mês e meio, e disse que estávamos no início de um relacionamento. O que meu pai diria se eu falasse que estamos em uma fase ruim? Max seria pior, voltaria com o apelido de “tiazona” que tanto odeio.
– Seria ótimo! – fingi me animar. – Quero dizer, entrar com é mil vezes melhor do que com nosso primo Jonah.
– Eu sei, ainda bem que ainda não o convidamos! – ela riu, aliviada. – Por essa razão, Taylor disse que irá comigo para Nova Iorque quando eu for experimentar o vestido, e então ele e irão para a loja dos ternos e nós duas para a Vera Wang.
– Claro! E programações de casais, vocês passarão o final de semana então?
– Sim, acho que Lua e Max estavam vendo de vir junto, além do papai, porque eles querem ver um berço em uma feira que estará tendo aí no Brooklin. Poderemos fazer algo divertido!
Claro. Penso. Será muito divertido.

Jordan e Amy passaram na hora do almoço para buscarem a mala de Amy que havia sido deixada pronta na quarta-feira ao lado da porta de entrada do apartamento. Por essa razão, eles acabaram por me dar uma carona até o aeroporto, onde logo encontramos com seus óculos de sol e o seu uniforme, um terno grafite liso.
– Você está brincando – Amy falou, chocada, enquanto me olhava pelo espelho do banheiro com o batom em mãos. Como sempre, pedi para ela algo que ela não tem na bolsa, mas que os homens jamais desconfiariam, para que ela me acompanhasse até o banheiro e eu pudesse contar a última. Eu precisava desabafar com alguém e Amy foi a primeira pessoa da minha lista de quem poderia ser sincera para falar. – Eles nem ao menos te perguntaram?
falou na resposta do convite que deveria falar comigo, mas Céci estava tão cega com a ideia de nossos “namorados” se darem bem e Taylor finalmente ter alguém com quem conversar, que minha opinião estaria ali somente para atrapalhar.
– Caramba, e agora?
– O que eu posso fazer? Tenho que arranjar uma maneira de abordar o assunto com e dizer que aceito fazer esse novo trabalho. Eu havia acabado de entregar o último pedido dele – suspiro, pesarosa, sentido meus ombros mais pesados.
Apesar de adorar desenhar e amar a profissão que exerço, o cansaço não some somente porque gostamos do que fazemos. me pediu um milagre de 40 desenhos, o que acabei transformando em 60 porque ele não quis vetar várias peças. Não fazia nem cinco dias desde a entrega e agora tenho de me preocupar com uma nova coleção para uma marca que sequer sei da existência.
– Eu não queria estar na sua pele, amiga. Mas pense bem, você tem alguns dias pela frente para surgir com o assunto – ela falou durante nossa caminhada até e Jordan, que conversavam calmamente em frente à área de embarque. – Até mais então, , eu te mando uma mensagem quando chegarmos, espero que vocês tenham tempo para pelo menos uma bebida – ela olhou para , que abriu um pequeno sorriso, um que eu ficaria satisfeita em ver direcionada à mim, já que não possuía nenhum resquício de plano maligno ou ironia estampada. – Lana já está lá, então se quiser...
– Não – falamos juntas, soltando risadas.
– Quando você encontrar com ela, pode me mandar uma mensagem – falo, arrumando a alça da bolsa em meu ombro e acenando para os dois. Amy ainda tinha de fazer uma visita a uma cliente e Jordan possuía uma reunião na Google, de modo que não poderiam sair até o dia seguinte.
entrou na minha frente. Foi somente quando estávamos para embarcar no avião que percebi que minha passagem indicava que eu era uma passageira da classe executiva. Olhei para de canto e ele nada disse, tampouco demonstrou surpresa por eu estar ali com ele. Isso deve ser coisa do conselho.
Nossos assentos eram juntos, mas isso não auxiliou em nada termos de trocar qualquer palavra. Quando estávamos a vinte minutos voando, decidi começar o diálogo.
– Virá mais alguém da empresa?
Tudo bem. A pergunta poderia ter sido mais clara, como “Lauren, aquela vadia, virá ao congresso?”, mas é claro que eu deveria ser bastante discreta.
desviou seu olhar do computador aberto em sua frente na mesa montada e respondeu em tom claro:
– Não. Duas pessoas são o suficiente para cobrir o evento.
– E teremos de fazer alguma apresentação?
– Não – ele volta sua atenção para a tela. – Nós fomos convidados, não precisamos fazer nada além de analisar o trabalho de todos e tirar notas de suas peças. É um evento que não costuma ter como local escolhido para sediar, os Estados Unidos, por isso, sugiro que aproveite o que for ver.
Assenti. Pelo seu tom de voz e o desinteresse em continuar a conversa, ele não queria papo e eu não poderia abordar o assunto do favor. A pasta com os rascunhos que fiquei desenhando ontem antes de dormir e depois do trabalho estavam dentro da minha bolsa pronta para ser entregue a ele, mas eu deveria primeiro saber o momento certo de iniciar a conversa, o que já era outro desafio a ser cumprido.

St. Barth foi uma cidade feita para chamar a atenção das pessoas ricas e que buscam uma beleza que parece ser exótica. Quando chegamos, devido ao ápice do calor que era possível sentir no corredor de desembarque do avião, desabotoou as mangas da camisa e as dobrou cuidadosamente, mas de maneira ágil, como se fazer aquilo tão bem de maneira tão rápida e sem olhar fosse algo comum nas pessoas. Nossas malas não eram grandes. Eu não poderia lhe dar o luxo de olhar para uma mala minha que fosse enorme, afinal, estávamos ali para trabalhar. Assim, tive de fazer um milagre para colocar algumas roupas mais bonitas, sapatos e claro, minha caixa de joias.
– Vamos fazer o check-in no hotel – ele disse, dentro do carro contratado para nos buscar. Quando vi o tamanho comum do automóvel, dei graças a Deus por ter sido esperta em não vir com uma mala maior do que a que trouxe. Era capaz de mandar eu pegar um táxi para transportá-la até o hotel. – Tenho uma reunião às cinco. Como está em horário de serviço e considerando o tempo perdido de voo, você pode permanecer no hotel até o horário do jantar – ele espiou o horário em seu relógio e assim que chegamos na frente do hotel, me entregou um cartão de crédito e uma cópia de seu documento. – Faça o check-in por mim e diga que pegarei a chave quando retornar.
– Sim senhor – respondo, me preparando para sair do carro, cuja porta já havia sido aberta pelo funcionário.
– Esteja no hall às nove para o jantar – ele anunciou pouco antes da porta ser fechada.
Abri a boca, surpresa. Não esperava que fossemos jantar juntos, principalmente porque, bem, ele poderia estar aqui a trabalho, mas nada o impedia de encontrar com os amigos ou sair para encontrar alguma mulher bonita com quem poderia passar a noite. Será que eu devo colocar um vestido bonito? Ou ser casual?
, menos – me controlo. – Ele é seu chefe e provavelmente voltará a falar sobre trabalho – começo a subir os poucos degraus que levava até o hall do hotel, onde um súbito alívio tomou conta do meu corpo assim que minha pele sentiu a brisa vinda do ar condicionado. – Além disso, você tem um assunto pendente a tratar com ele que é mais importante do que pensar no que vestir.
Balanço a cabeça, espantando a ideia do meu foco e abro um sorriso para a recepcionista que esperava que eu lhe entregasse os papéis da reserva do quarto.
Ainda bem que eu trouxe o salto Miu–Miu.

Lauren estava uma pilha de nervos em cima de mim. Me parece que a novidade de eu acompanhar sozinha no congresso chegou ao seu consentimento e ela decidiu descontar toda sua frustração de me ter passando à sua frente mais uma vez.
– E preciso que você me encaminhe ainda hoje os esboços da coleção Andrômeda – seus cabelos louros esvoaçavam na tela cada vez que ela virava a cabeça de um lado para o outro no escritório de sua casa. – Estive conversando com Alan Stiler do setor de marketing e eles gostariam de ter uma noção do que virá para iniciar o planejamento de material de divulgação.
– Lauren, eu estou...
– Eu não me importo onde você está, . Essa é uma responsabilidade sua e você está em horário de trabalho – seus olhos maquiados me encararam com furor. Estava óbvio que Lauren estava pronta para sair e aproveitar sua sexta-feira; fico chocada em como ela se esforça em sempre arranjar um tempinho em sua agenda para conseguir me infernizar. – Você deveria estar se esforçando mais. Depois vem me perguntar por que não passo coleções maiores...
Eu queria poder dizer que ela não tem o direito de falar que deveria me esforçar mais. Eu passei ela com a coleção de outono. Conquistei a confiança do conselho em 15 minutos de reunião e fui convidada pelo presidente da empresa para vir até o congresso. O que diabos ela está falando?
– Vou encaminhar logo mais os arquivos.
– Ótimo. Receberei o retorno da Hayden Pannery, da Disney, para saber a resposta da avaliação dos charms. Preciso que você entre no Skype por volta das 8 da manhã para eventuais dúvidas da criação.
– Mas...
– Algum problema, ? – ela me corta, furiosa.
– Não senhora – agarro o travesseiro da minha cama, apertando-o tão forte a ponto de fazer meus dedos doerem. – Estarei online às 8.
– Ótimo. Não se esqueça das peças de marketing que quer que planejemos para dar de brindes a clientes de potencial da empresa no natal. Quero o briefing pronto no meu e-mail segunda.
E sem se despedir ou pelo menos me desejar um bom final de semana – algo que não terei, graças à sua insanidade e desespero em querer me manter ocupada – ela desligou o Skype.
– Só mais três meses, só mais três meses – respiro fundo, fechando meus olhos.
Três meses. Em três meses haverá o anúncio dos designers que participarão da criação da coleção de 50 anos da empresa. Ela será a maior e mais importante, visto que admiradores, seguidores e concorrentes da aguardam ansiosamente por um espetáculo de peças para a celebração da bodas de ouro da maior empresa de joias do país. Lembro-me bem de Barbara falar sobre personalidades importantes estarem interessadas nas joias só pelo fato de saberem que fará parte da coleção mais importante da empresa, como a nossa primeira dama, Michelle Obama; Kate Middleton, duquesa de Cambridge, Anna Wintour e até celebridades como Beyoncé e Madonna. Não que sejam pessoas que já não usam as joias da empresa, mas para a coleção é esperado que venha em um valor que somente quem tem muito dinheiro para gastar com segundas necessidades poderá comprar.
Às nove em ponto estava pronta para o jantar. Olhei meu reflexo no espelho uma vez mais antes de sair, só para ter certeza de que não havia nada de errado. Um vestido leve de estampa floral, os cabelos soltos e a sandália Miu-Miu que salva a vida de qualquer mulher. Meu bracelete, os anéis e o par de brincos refinam minha aparência. Estou estonteante e mesmo que não veja essa beleza, outras pessoas podem ver.
Desci até o hall onde procurei por seu perfil, mas não o encontrei. Não estou nem cinco minutos atrasada e ele não é tão pontual assim. Cinco minutos é uma tolerância aceitável.
Decido esperar sentada no sofá próximo à porta. Por estar com os braços expostos, o ar condicionado me parece forte demais, pode ser que consiga pegar uma brisa do calor externo. Contudo, antes de conseguir chegar ao móvel, ouço a voz de me chamar.
Ele vestia uma camisa de linho azul clara com uma bermuda branca que batia acima de seus joelhos. É a primeira vez que o vejo sem o terno da empresa e... Bem, quem é bonito, será bonito de qualquer maneira. Seus cabelos não estavam arrumados pelo gel, mesmo assim mostrando-se comportados; ele tinha uma das mãos no bolso enquanto se aproximava.
– Estou lhe chamando desde quando saiu do elevador.
– Ah.
Ficamos calados nos encarando. Ele estava tão bonito que não queria me dar o luxo de parar de encará-lo. Seus olhos pareciam mais azuis e a medida que se aproximava, trazia junto um aroma amadeirado, o mesmo do dia de nosso encontro às escuras.
– O que foi?
– Hum? A-ah... Nada – limpo a garganta e olho para o lado. – Me desculpe, não havia ouvido.
– Um fato estranho, já que você olhou em minha direção e me viu a chamar.
– Eu olhei em sua direção? – arregalei os olhos, imediatamente tentando recapitular meu campo de visão quando saí do elevador. – Acho que estava procurando por uma pessoa com um terno.
não me respondeu. Permaneceu me encarando com uma sobrancelha erguida. Adoraria saber o que se passa em sua mente agora. Talvez sobre como estou bem vestida? Ou bela? Ou sexy?
, cale-se, pelo amor de Deus.” Pensei.
– Vamos – ele falou, deixando meu anseio em ouvir algum elogio sobre minha aparência ser estrangulada. Caminhou até a porta do hotel e por não haver nenhum profissional disponível para abrir a porta, ele o fez para mim.
“É só um ato de educação, sua boba, pare. Apenas pare.” Suspiro, passando por ele e observando o táxi parar em nossa frente.
A cidade estava lotada. Talvez por ser o início do final de semana, juntando com o congresso que acontecerá no domingo, os hotéis estão cheios e as ruas agitadas e repletas de pessoas caminhando e se divertindo. O restaurante escolhido por estava lotado, mas, aparentemente, já havia uma reserva feita em seu nome. O metre nos levou até o local da nossa mesa e antes de ter qualquer reação, Amy e Lana ergueram suas taças em nossa direção.
– Saúde! Achei que haviam se atracado no meio do caminho – Lana sorriu maliciosamente, sendo ignorada por . Infelizmente, não tenho esse mesmo poder de controle, de modo que lhe enviei um olhar terrível, aquele que nem seus fios de cabelos sentem medo, e fui em direção a ela e Amy cumprimentá-las. – Você devia disfarçar mais seu desapontamento, querida. Tinha de ver seu olhar quando descobriu que não jantaria sozinha com ele.
– Cale a boca – murmurei com um sorriso. Olhei para Amy, que parecia uma mãe ciente de que sua filha estava uma graça. – O que foi?
– Você está usando os brincos de ouro – apontou para minhas orelhas.
Lana soltou uma gargalhada ao mesmo tempo que coloquei as mãos no local apontado por Amy. Eu havia mesmo colocado os brincos de ouro. Há um tempo, quando os comprei, jurei que os usaria apenas em ocasiões especiais que envolvessem um homem com quem eu poderia imaginar uma vida junto. O caso definitivamente não se encaixa à situação atual, mas não importa como explicarei para as duas, elas jamais irão entender.
– Foi uma coincidência.
– Claro, querida, claro – Lana me deu palmadinhas em meu ombro enquanto Amy abria um sorriso animado e me enviava uma piscadela enquanto se sentava em seu lugar ao lado de Jordan.
Suspiro, já exausta. Sento-me ao lado de , que tomava conta da ponta da mesa e agradeço o cardápio que me servem. Durante a escolha, ouço Jordan falar, animado:
– Que nostálgico! Essa mesa me lembra o nosso encontro às escuras!
Fecho os olhos ao ter certeza de que meu rosto estava bem escondido pelo cardápio. Jordan e Amy pareciam estar animados com a relembrança daquele encontro, mas se o resultado de hoje for idêntico àquele dia, não me sinto surpresa de já querer voltar para meu quarto no hotel.

Pesadelo.
Este jantar me parece como um. Daqueles em que estou com meus pés presos ao chão enquanto Lauren não para de mencionar erros e defeitos meus na mesa do conselho, e todos decidem que eu não sou a melhor escolha de todas. Ela então solta uma risada maléfica como a que Cruela DeVil faz em 101 Dálmatas e indica Erin e Guy, que riem de mim junto com o resto da equipe inteira.
? – Amy toca em meu braço por estar mais próxima de mim, tirando–me de meu transe. – Está tudo bem?
– Como? – encaro-a. Ao perceber que a mesa está em silêncio aguardando minha opinião sobre o assunto que desisti de acompanhar depois de vinte minutos de conversa, limpo a garganta. – Desculpe.
– Estávamos falando sobre a vida conjugal – Amy começou a explicar. – Eu estava comentando que se um casal se sente preparado para ter uma vida assim, não vejo problema em acontecer.
– Morar junto é um passo para o casamento – Lana retruca. – Não é apenas “estar preparado” – faz as aspas com os dedos, mostrando sua ironia. – Dividir uma casa significa dividir a vida. É deixar de lado várias coisas que você ama porque o outro não gosta.
– Mas isso é o relacionamento, Lana – Amy a retruca, chateada. – Além disso, quando se chega ao ponto de um casal decidir morar juntos, com certeza houve um tempo de adaptação e bastante conversa.
– Por que morar com uma pessoa que não tem certeza que irá casar?
– Acho que entendo seu ponto, Lana – Jordan fala. – Concordo que morar junto é como já estar casado. Há a discussão de assuntos que quando vivemos separados não temos, como o pagamento das contas, a divisão dos afazeres domésticos e a escolha das reformas.
– Exato.
– Mas se um casal deseja viver juntos, estes tipos de situações são banais. Quando há uma conexão entre os dois, para que haja uma harmonia no modo de vida, é possível de abrir mão de coisas que o outro prefere não desistir.
– Conclusão – Klint finalmente fala; acho que é sua primeira vez desde que cheguei. – É um treinamento para a vida de casado, mas com possibilidade de desistir sem sair desfalcado.
– Mais ou menos isso – Jordan ri sem graça.
Klint encara Lana, que levanta sua sobrancelha perfeita em sua direção.
– Deveríamos pensar em fazer algo assim.
– Sim! – Amy diz, animada. – Não é como se fosse mudar muita coisa, afinal, Amy já passa mais tempo em seu apartamento do que no nosso. Seria somente como voltar sempre para o mesmo lugar?
– E você já tem um armário inteiro só seu lá – Klint complementou para Lana, que se remexia desconfortável em sua cadeira. Pelo que eu conheço da minha amiga, ela deve estar pensando que eles estão tentando fazê-la se casar. – A única coisa que precisamos fazer é chamar Victoria e transformar a sala de arquivos em um closet.
Achei fascinante a maneira como Klint, em poucos meses de relacionamento, sabe exatamente como cativar Lana. Ter um closet sempre foi um desejo não atendido em nosso apartamento porque ele pertence ao tio Martin. Mesmo com as diversas investidas, todas sem sucesso, Lana nunca deixou de tentar. Ao ouvir da boca de Klint a possibilidade de possuir seu próprio closet, sua taxa de rejeição diminuiu em 80% e podemos concluir somente por seus ombros relaxados e os olhos presos na conversa por cinco minutos inteiros. Além disso, a ideia de ter Victoria criando o closet de Lana era uma oferta que somente uma mulher maluca recusaria. Victoria é a designer de interiores mais famosa de Nova Iorque, cuja lista de clientes já passou por pessoas importantes como Anna Wintour, Taylor Swift e Madonna. Conseguir uma reunião com ela é praticamente impossível, mas quando se vive na alta sociedade, o impossível se torna uma piada. No caso de Klint, a palavra deixa de existir no vocabulário, já que ele é o advogado principal dos diversos divórcios pelo qual Victoria passou até chegar em seu quinto marido, Evan, um chef de cozinha pouco conhecido. Dizem que a relação dos dois vai bem porque Evan é um workaholic que não pertence à alta sociedade, por isso, não tem tempo para trair Victoria com alguém mais jovem que ela.
– Podemos falar disso quando eu ver a reforma feita na sua casa – Lana finaliza o papo com Klint, que abriu um pequeno sorriso por ter ganho a discussão. Ele é perfeito para Lan. A faz achar que ganhou a conversa, quando, na verdade, ela fez exatamente o que ele queria. – E a conversa não era sobre vocês? – apontou para Jordan e Amy, que limpam a garganta, sem graça.
– Vocês vão morar juntos? – abro a boca, chocada com a novidade.
– Nós só estamos pensando. Não é nada efetivo – Amy disse, exasperada. – Só estávamos aqui comentando sobre assuntos que casais geralmente têm quando estão morando em um mesmo lugar.
– Vocês praticamente já moram juntos – Lana diz, em um tom preguiçoso. – Amy passa tanto tempo na casa do Jordan que já nem sei mais quando foi a última vez que me pediu para analisar suas sobrancelhas.
– Lana! – Amy cobriu as sobrancelhas dela, envergonhada. – Você sabe que fizemos isso essa semana!
– Sim, você foi no meu consultório pela primeira vez desde a inauguração.
– Você foi fazer a sobrancelha no consultório? – olhei para Amy, que encolheu os ombros. – Lana esteve em casa a semana inteira.
– Só aconteceu de Jordan estar por perto de onde eu estava todos os dias e eu acabar ficando na casa dele, nada demais – Amy disse. – Além do mais, não fui eu quem levei duas malas de 40kg e voltei com elas vazias – olhou para Lana, que revirou seus olhos.       
– Meu Deus, será que vocês não podem ter um pingo de sensibilidade? – falei, vendo que Jordan, Klint e estavam tão perdidos na conversa do que se estivéssemos no mercado comprando absorventes.
– Querida, você apenas não tem uma segunda casa para ir, porque está preocupada demais em desenhar joias – Lana olhou para , que ergueu suas sobrancelhas. – Sem ofensas.
– Desculpe se essa é minha profissão––
– Você não deveria reclamar do trabalho de , Lana – me cortou. – Se não fosse por ela, Klint não teria o que dar para você de presente.
Lana ergueu sua taça na direção de , que abriu um pequeno sorriso. Uma troca de informação que não pude entender muito bem. Eles estavam continuando a discussão? Concordando em algum ponto? Suspirei, exausta, e mencionei que estava na hora de ir embora.

O caminho de volta ao hotel foi silencioso. não dizia nada, enquanto eu me esforçava em manter meus olhos abertos e em direção à paisagem que corria afora. Foi quando vi uma loja de noivas e me lembrei do problema que deveria resolver com . Mas os desenhos não estavam aqui. Estavam em meu quarto. Será que haveria problema chama-lo para me acompanhar sem que ele ache que estou flertando?
– Tenho um compromisso agora – quebrou minha linha de raciocínio. Olho para ele, surpresa, e vejo que havíamos chegado no hotel. Descemos do táxi e esperamos que ele fosse embora. Ele virou seu corpo em minha direção e disse: – Você pode ir.
– Ah... Claro. Boa noite.
– Boa noite – ele respondeu e olhou para seu celular. Dei-lhe as costas e comecei meu caminho para dentro do hotel. Assim que passei pela porta de vidro, olhei para trás para eliminar minha curiosidade em saber se havia a chance dele olhar para mim.
Mas é claro que não, afinal, por que ele olharia para uma funcionária se uma mulher tão maravilhosa quanto as modelos da Victoria’s Secret parava ao seu lado em um vestido decotado maravilhoso – e que todo mundo saberia ser da Eliee Saab – depositando um beijo em sua bochecha e deixando–se levar pelo caminho que ele queria com a mão em sua cintura.
“Bem feito.” Penso. “É exatamente isso o que acontece quando você se interessa pelos cretinos.” Olho mais uma vez para , que abria um sorriso brilhante para a morena maravilhosa. “Você se sente uma merda.”
Balanço a cabeça, citando repetidamente qualquer mantra que me faça sentir menos tola. Durante o percurso até o elevador, não olho para os lados ou respondo qualquer cumprimento dos funcionários, que são obrigados a se dirigirem à mim com um sorriso no rosto. É no momento em que estou para entrar no elevador, que sinto uma mão me segurar:
– Eu achei que havia conhecido todas as mulheres difíceis do mundo até te encontrar – Nathan Garden me encara com seus olhos e sorriso maravilhosos. – Honestamente, não sou muito fã das difíceis, mas eu não consigo deixar você para trás.
– Devo dizer ‘que bom’? – tento, da melhor maneira, demonstrar a surpresa prazerosa de vê-lo ali sem fazê-lo achar que salvou minha vida da humilhação. – E o que você faz aqui?
– Este é o hotel para todos os representantes das empresas de joias que participarão do congresso. Esperava ver você em algum momento, mas não tão deslumbrante – olhou para minhas orelhas e abriu um sorriso ainda maior. – Posso dizer que as joias ficam mais bonitas em você do que em seus clientes?
– Se este for um segredo nosso, eu aceito o elogio.
Nathan me ofereceu um sorriso que me fez ter vontade de beijá-lo. Senti meu corpo aquecer com a ideia de finalmente poder me divertir.
– Conheço um lugar ótimo para criarmos mais segredos – sua voz preencheu o meu corpo, o fazendo estremecer – Você me daria as honras? – Sua mão se ergueu, pedindo permissão para me guiar até um lugar que pudéssemos ficar longe dos olhos de outros profissionais de nossa área.
Abri um sorriso tão sedutor que nunca imaginei conseguir, depois de ter ouvido tanto falar dos segredos de Lana. Jamais admitirei na frente dela que usei uma de suas artimanhas durante o processo de flertes. Pousei minha mão em cima da sua, onde ela pareceu tão pequena que me senti feliz de encontrar um homem tão masculino. Nathan olhou em meus olhos, as chamas ardendo dentro deles. Nós sabíamos exatamente onde isso ia parar e, Deus do céu, eu nunca fiquei tão ansiosa. Com uma voz calma e aveludada, mantive nossos olhos conectados até finalmente dizer:
– Hoje é seu dia de sorte.

Capítulo 07

Seus dentes me pareciam mais brancos do que da última vez que os vi. Seus olhos, então, brilhavam em um verde que poderiam ser as esmeraldas da coleção irlandesa que fiz há dois anos. Nathan falava na quantidade certa e eu respondia da maneira que meu cérebro permitia, o que parecia ser o suficiente, visto sua afeição de prazer. A brisa de St. Barth me parecia mais refrescante enquanto caminhávamos na orla, as mãos dadas como se fossemos amantes e a troca de olhares capaz de esquentar qualquer um até mesmo no inverno torrencial. se tornou um fantasma malquisto do meu passado.
– Você já ouviu falar dos bangalôs de St. Barth? – ele me perguntou, enquanto adentrávamos em uma área privada protegida por seguranças que trajavam ternos pesados e escuros. Mesmo com o calor da estação, eles não suavam um pingo, nem mostravam-se calorentos com o excesso de roupa.
– Não, é um ponto turístico imperdível? – sorrio, deixando meu interesse de olhar para o lado e me concentrando somente no momento.
– Não é um ponto turístico, mas ele é imperdível – Nathan me puxou para uma praia particular com alguns bangalôs espalhados tão longe um do outro que nem a pessoa com a melhor vista do mundo poderia distinguir quem estava no bangalô mais próximo.
– Estou achando que isso era planejado – comentei durante nosso caminho até o bangalô 6, quase no meio da praia.
– Isso muda alguma coisa? – Nathan me deixou sentar primeiro enquanto chamava por um garçom, que prontamente vinha com as taças e garrafa de vinho em mãos. Olhei para as taças sendo preenchidas e em seguida para Nathan, que se deu o trabalho dele mesmo me servir, dispensando o garçom.
– É claro que sim – aceito a taça, aproximando-o dos meus lábios, mas permitindo que minhas narinas sentissem o aroma primeiro. – Eu gosto de planejamentos, principalmente aqueles que me surpreendem.
Nathan abriu um sorriso ainda maior e deslizou até meu lado, parando quando seu rosto estava muito próximo à mim. Quando fez menção de me beijar, coloquei uma mão em seu peitoral, uma desculpa para lhe fazer se sentir inseguro perante minha presença. Vi seus olhos confusos e suas mãos na incerteza de se mexerem em minha direção ou para longe de mim. Achei divertido vê-lo em um impasse, mas sabia que estava sendo demais. Em um pequeno impulso, aproveitei minha mão pousada em seu peitoral e agarrei sua camisa, puxando–o para perto de mim em um beijo surpresa.
A mão insegura que até a pouco estava pousada ao lado de minha perna agora deslizava pela lateral do meu corpo. Não nego estar satisfeita com suas mãos ágeis; o gosto de sua boca era uma mistura de bala de menta com champanhe, combinação simples, mas suficiente para excitar. Nathan decidiu passear seus lábios pelo dorso de meu pescoço até meu colo, causando pequenos arrepios durante o percurso. Suspirei, satisfeita, sinal suficiente para que ele ouvisse e decidisse ser a hora de encontrarmos um lugar privado para, finalmente, termos uma noite de final feliz.

O dia seguinte amanheceu mais cedo. Talvez por ser uma cidade praiana ou pelo fato de eu estar nua, acompanhada de um representante do meu concorrente. Deitada de bruços na imensa cama de uma cabana particular reservada por Nathan, olhei sua expressão tranquila durante o sono. O peito subia e descia de acordo com a respiração e agora podia ver os braços fortes, mas não enormes, os cabelos escuros bagunçados – parte da culpa cai sob minhas mãos – e a barba sempre por fazer, mas que não lhe agregava um ar desleixado, e sim, sexy. Virei meu rosto para o lado em que o som das ondas quebrando pareciam compor uma música. Havia também os pássaros que cantarolavam. Olhei no relógio e ainda eram seis da manhã. Há quanto tempo não acordo sozinha neste horário? Provavelmente desde a última vez que tive uma noite marcada pelo sexo. Suspiro, antes de decidir me levantar para fugir de ter de cumprimentar Nathan com o rosto amassado e a voz rouca. Tenho um pouco de dificuldade em encontrar o segundo pé do calçado, mas consigo ter sucesso em me trocar e sair sem que ele sequer se mexesse.
Demorei dez minutos para pegar um táxi e mais dez para chegar no hotel. Passo pelo hall sem olhar para os lados, em passos decididos e com a oração na mente para que não encontre ninguém conhecido ou que possa me reconhecer mais tarde. Apesar de não me arrepender nada de minhas ações na noite passada, ser encontrada neste estado não é o que se diz de boa primeira impressão às pessoas que trabalham na mesma área e que podem tanto contribuir com você ou destruí-la.
Abri meu e-mail depois do banho de quarenta minutos que tomei para completar o meu bom humor, e nem a mensagem de Lauren cobrando os trabalhos que deveria entregar hoje e na semana que vem conseguiu me deixar emburrada. Por me sentir revigorada, finalizei os retoques nos últimos desenhos em um tempo que considero rápido e me vi satisfeita o suficiente para enviar o trabalho. Quando terminei tudo, o relógio batia às dez e meia. Com a falta do café da manhã, pedi um serviço de quarto que me trouxe uma tigela de cereais e frutas da estação. Finalizei com o suco de laranja e então percebi as mensagens de Amy me chamando para fazer um passeio em um iate reservado por Jordan. Decidi ligar para ela:
– Meu Deus, achei que você dormiu fora do hotel e a bateria do seu celular havia acabado! – sem nem ao menos um ‘oi’, fui atacada com suas paranoias matinais. – Se você tivesse me ligado em 10 minutos, eu já estaria no meio do mar.
– Desculpe, estava trabalhando – falei.
– Eu preferia que ela tivesse dormido fora do hotel com um estranho – Lana comentou ao fundo, me fazendo descobrir que elas estavam no viva voz. – Venha para a marina, .
– Lana, você quer parar? – Amy resmungou. – Desculpe, , ela pegou o celular e o colocou no viva voz de propósito. Então, venha para cá, vamos te esperar.
– Ah, bem, tudo bem. Nós não voltaremos tarde, não é? Tenho que preparar...
– Fale para ela que se ela nos trocar pelo trabalho mais uma vez, eu terei de começar a cobrar as sobrancelhas dela – a voz de Lana me cortou ao fundo. Fiz uma careta; para querer me cobrar dessa maneira, ela tinha um péssimo coração.
– Nós voltaremos no fim da tarde, não queremos voltar no escuro. É perigoso.
– Não é perigoso, amor, eu já disse que o Malcom é um capitão com uma vasta experiência...
– Jordan, nós não vamos voltar no escuro! – Amy aumentou sua voz para o namorado, que logo se calou. – Enviarei a nossa localização por mensagem, não demore muito ou o sol ficará ainda mais insuportável.
Suspirei e concordei sem pestanejar. Pela maneira que Amy estava falando, sua TPM estava em alta e eu sou a última pessoa que gosta de arranjar uma discussão com a melhor dentre eu, ela e Lana no quesito “machucar com as palavras”. Assim, percorri todo o caminho de volta que havia feito pela manhã, passando a área dos bangalôs e casas residenciais que descobri nesta madrugada serem alugadas diariamente por pessoas importantes que querem ter uma boa dose de sexo refinado.
O iate era maior do que eu imaginava; o máximo que havia entrado até então foi em um de 100 pés com Dylan, um cara que conheci em Mikonos, na Grécia, na primeira vez que fui passar as férias da faculdade sozinha. Eu havia planejado essa viagem como desculpa para não precisar voltar para Maine, afinal, qualquer lugar do mundo era melhor do que ser acordada pelas clientes da minha mãe trazendo seus enormes cães ou gatos de olhares assassinos. No entanto, este possuía 156 pés, como informou Jordan quando fui servida de champanhe.
Assim que entrei no hall, dei de cara com a mulher estilo modelo da Victoria’s Secret em pé com sua taça de champanhe conversando com Lana, Klint e . Observei bem a situação em que me encontrava e não consegui evitar enviar meu pior olhar para Amy, que só então percebeu a burrada que havia feito ao insistir em me esperar.
– Ah, hum... Jacqueline, acho que você não conhece – Amy disse, sem graça, chamando a atenção do grupo. – , essa é Jacqueline, a... Hum, acompanhante de .
– Ah! A designer de joias! – seus cabelos escuros pareciam ter acabado de sair de um comercial de shampoo. Os cílios eram tão grandes que mal precisavam de rímel para destaca-los e seu corpo era tão perfeito que parecia ter sido moldado por um tipo de deus grego. Eu não posso culpar de se sentir atraído por ela; eu mesma me interessaria se fosse um homem. Mas para ter bom gosto não é preciso ter algo entre as pernas; a tal de Jacqueline era uma deusa e cada parte do meu corpo a inveja por essa razão. Não é à toa que Lana não me parece muito feliz. Apesar dela ser linda, não é linda de morrer como Jacqueline e seu sorriso de dentes retos e brancos. – Espero estar fazendo jus à beleza delas – foi seu comentário que me fez perceber o uso das minhas criações. Até então, estava preocupada em comparar todas as minhas partes medíocres do corpo com as dela.
Estava pronta para elogiá-la, quando a própria decidiu tomar a iniciativa de continuar nossa apresentação:
disse que a coleção foi feita para mim. Não achava, até usá-las; e ele tinha razão. Elas são formidáveis e me fazem sentir como se fosse única.
– Talvez porque essa coleção seja única. Foram pouquíssimas peças produzidas. Que bom que conseguiu algumas, pois ficaram muito bem em contraste com seu tom de pele – sorri, vendo meu colar de brilhantes encravados em ouro amarelo reluzirem em sua pele naturalmente bronzeada.
– Desta maneira fico ainda mais maravilhada com o presente – ela virou-se para que, pela primeira vez, abriu um sorriso tranquilo, o mesmo que me peguei pensando como seria vê-lo em seu rosto.
Jacqueline continuou conversando o assunto que Amy havia cortado entre ela, Klint e . Jordan rapidamente entrou na conversa e Lana se esgueirou para fora do círculo, juntando-se a mim e Amy. Demos a desculpa de irmos conferir o almoço no segundo andar do iate e fomos rapidamente dispensadas, pois a nova namorada de dava conta do recado em entreter os três homens.
– Me desculpe! – Amy fechou os olhos e segurou uma de minhas mãos com as duas dela. – Eu não me toquei que havia trazido uma companheira...
– Só você não viu aquela mulher entrar com todas aquelas joias, como se estivesse em um desfile – Lana revirou olhos e então me encarou: – Eu nunca a odiei tanto por ter criado algo tão magnífico. Poderia ter ficado um pouco menos chamativo. Klint olhou direto para seu colo.
– Sinto muito se essa era a intenção da coleção. Ela foi inspirada na Sharon Stone, em Instinto Selvagem – relembro o tanto de vezes que assisti aquele filme até encontrar uma cena fatídica de Sharon usando uma joia que não se encaixava no quadro. Uma mulher sempre quer diamantes, e por mais que um delicado brilhante faça o bom trabalho em passar um ar feminino, estava claro que, para uma personagem que não usa calcinha em frente aos policiais e desafia a lei fazendo o que eles proíbem exatamente na frente deles, ela merecia algo mais requintado.
Encaro a imensidão do oceano de acordo com que vamos saindo da área de lazer e entramos em alto mar. Já era mais difícil encontrar barcos ou iates com visitantes aproveitando a maré quase inexistente na área permitida próxima à baía; mesmo assim, Malcom, o capitão, acelerava em velocidade máxima em direção ao nada. Amy e Lana tiveram de cumprir a lei do anfitrião e entrar na conversa formando quatro casais. É claro que eu tentei também. Não poderia ser taxada como esnobe apenas porque não estou acompanhada, além disso, Jacqueline se mostrou uma pessoa simpaticíssima, logo conquistando o carinho de nós três. Mesmo assim, quando o papo de casais se iniciou, fui automaticamente excluída e não fiz questão de continuar na roda, me afastando para tentar acessar meus e-mails com a internet remota que havia no iate. Viva o século 21.
Por um milagre, não havia muita coisa. Lauren estava pedindo para que eu antecedesse a entrega da nova coleção de charms que deveríamos entregar à Pandora em uma semana e meia, mas sabia que isso era apenas mais um ataque de inveja porque estou em St. Barth com . Se ela soubesse...
Então, logo decidi responder aos e-mails que estavam parados há algum tempo em minha caixa. Alguns convites para o lançamento de novas coleções, algumas que poderiam ser interesse de Céci e que me fez separá-las em uma pasta para discutir com ela se há interesse antes de responder às pessoas; outros desconhecidos que conseguiram meu e-mail por alguém e que gostariam de fazer uma entrevista ou enviar o currículo para que eu pudesse analisar e, “se possível”, mostrar ao RH. Entre um e-mail e outro, fui chamada para o almoço. Só então percebi ser quase uma e meia da tarde.
– Os funcionários da trabalham mais do que eu imaginava – Jacqueline sorriu, durante a refeição. – poderia ser um pouco mais maleável, afinal, o fim de semana serve para descansar, não?
– Quando oferecemos um salário a um funcionário, ele deve esperar o trabalho que virá até em horários que acha inoportuno – rapidamente respondeu a opinião de Jacqueline em um tom direto; ela não lhe respondeu, pelo contrário, olhou em minha direção, esperando que eu respondesse suas palavras de ataque sem motivo, mas era claro que eu não lhe daria este prazer. Abri um pequeno sorriso que poderia dizer muita coisa e comi calada.
Durante todo o almoço tentaram me inserir na conversa, mas estava com a língua afiada e sempre possuía uma resposta pronta para ser colocada em ação. Assim, não pude participar muito e odiei seu comportamento infantil. Me lembrava minha mãe.
O maior motivo para eu e minha mãe não termos nos dado bem foi pelo comportamento intrometido dela em minha vida. É claro que o papel de mãe é saber o que acontece na vida de sua filha e tentar ajuda-la o máximo que pode, mas há fases de nossas vidas, principalmente na adolescência, que queremos nos virar sozinhos porque achamos que sabemos de tudo. Dependendo da maneira que os pais se comportam nessa fase, a imagem permanece grudada na mente dos filhos para sempre, por isso, quando minha mãe dizia querer conversar comigo sobre o comportamento de algumas pessoas com quem eu andava ou chama-los em casa para dar uma de terapeuta, eu e ela acabávamos gritando uma com a outra e batendo as portas de casa. Somente depois de crescer soube que o que ela fazia era para o meu bem, mas com atitudes erradas. Quando eu já estava em Nova Iorque e possuía a aceitação dela e do papai porque lhe dava joias de presente e provei possuir um futuro que desse dinheiro, nós conversávamos como gente grande e acabamos quitando nossas diferenças. Foi só um ano antes dela falecer. Nós só passamos um ano juntas como mãe e filha vivendo em harmonia, mas o pequeno tempo foi suficiente para tê-la como uma boa lembrança, uma lembrança melhor do que a que eu teria se nós não tivéssemos nos reconciliado.
– Como você pensa nos projetos? Suas joias são sempre magníficas e quem as observa por um tempo ou lê a apresentação da coleção, consegue saber que há uma história por detrás de cada peça – Jacqueline e eu conversávamos com à tiracolo na volta à baía. Os casais estavam tendo um momento de romance no estilo Jack e Rose, do Titanic, e Jacqueline me pareceu desconcertada em me deixar sozinha observando o mar.
Obviamente, aceitei conversar com ela, afinal, o que eu pudesse fazer para irritar mais e dar-lhe uma lição por ter sido estupidamente imbecil nas últimas horas, eu faria com prazer.
– Noventa por cento das pessoas que entendem de joias me fazem essa pergunta. A resposta varia de acordo com a coleção que estamos nos referindo – troquei risadas com ela. – Mas basicamente, é a mesma coisa que um autor de livro faz, um jornalista, um publicitário ou estilista. As ideias surgem na mente de acordo com que pesquisamos sobre um tema e como já estamos acostumados a criar, para coloca-las em prática é muito fácil.
– Você recebe temas? Como o quê? Primavera? Dia dos namorados? Noivado?
– Mais ou menos isso. Nós sempre recebemos uma proposta meses, quase um ano antes da estreia. Temos de ter tempo para pesquisar as coleções antigas, saber o que já foi feito, o que a concorrência já fez e buscarmos algo que seja tendencial e novo para os clientes.
– Ter uma visão do que será bom um ano antes é um dom, não acha? – ela olhou para , que finalmente deu atenção à nossa conversa.
– Eles já estão acostumados – respondeu. – E trabalhamos com tantos designers que podemos considerar esse dom, algo adquirido, não vindo de berço.
Ele estava inferiorizando o meu talento? Eu estava ouvindo bem?
Encarei seu rosto inexpressivo por longos segundos. Queria saber exatamente o que estava acontecendo para ele se comportar de maneira tão arrogante. Sei que não deveria estar conversando com sua namorada, mas há uma lei da boa convivência a ser seguida, mesmo em situações de desgosto.
Cansada de ter de forçar uma conversa agradável, pedi licença para fazer uma ligação agora que estávamos com sinal e me afastei para lhe dar privacidade e, quem sabe, espaço para Jacqueline “trabalhar” nele e fazê-lo parar de ser tão estúpido.
 
Amy e Lan se encontraram comigo no píer, já que não pudemos nos despedir no iate, porque sabe-se lá o que elas fizeram com seus namorados enquanto eu estava suportando a arrogância de e tentando ser gentil com Jacqueline. Inventei uma desculpa de que teria uma reunião via Skype para fazer às sete e fugi da obrigação de fazer mais uma refeição sob a pressão ridícula de .
– Ele realmente se descontrolou – Amy concordou, assim que entramos no assunto.
O píer estava cheio, principalmente de pessoas da área de joalheria que vieram para o congresso. Era possível ver a diferença na maneira com que se vestiam. Me parecia mais um desfile de joias em extravagancia. Olhavam para o lado, procurando comparar as peças que usavam com as de outras pessoas, encarando como se fossem melhores que todos. Vi Nora Blender, da Kastus, a terceira maior empresa depois da e Thames. Ela tinha uma expressão convencida por detrás dos cabelos ruivos e olhos verdes. Era uma das poucas que não possuía sardas no rosto. Trocamos um olhar quando eu atravessei o restaurante sob os olhos daqueles que conhecem meu trabalho – e que não eram poucos.
Nora e eu temos uma rivalidade saudável. Nós nos suportamos porque sabemos nossos lugares. Enquanto eu tenho uma posição inferior na , Nora é a própria gerente, podendo pegar todas as melhores coleções da Kastus e jogando os que não eram de seu interesse para seus subordinados. Por outro lado, meus desenhos são muito melhores e os dela... Bem. A Kastus estar em terceiro lugar já explica tudo.
– No início, achei que ele fosse bipolar, mas hoje vi que realmente possui algo com ou contra você – Amy apontou para mim enquanto levava a azeitona de seu Martíni à boca.
– Algo comigo? Está maluca?
– Bem, se isso for maluquice, então trate de me enviar junto com ela para um hospício – Lana cruzou suas pernas bronzeadas e jogou o cabelo antes de se inclinar para que pudesse ouvir mais o que tinha para falar. – Você sabe quem é aquela Jacqueline?
– Nunca ouvi falar – respondi.
– Nem eu – Amy se uniu a mim.
– Ela não é muito conhecida, mas tenta. A conheço porque a ex-namorada dela é minha cliente.
– Como é que é? – eu e Amy falamos juntas.
– NamoraDA? – perguntei, chocada – Com A?
– Com A, meu bem – Lana concordou com a cabeça. – Ela e não estão juntos, mas ele teve de compra-la para conseguir ganhar um processo que está participando. Não sei sobre o que é esse processo, mas Klint mencionou algo sobre capital aberto.
– Ele está abrindo um novo negócio? – Amy perguntou, enquanto utilizava esse tempo para pensar no assunto. Seria relacionado às minhas peças?
Repentinamente, começo a pensar nos pedidos de e se havia alguma similaridade entre elas. Todas as pastas dos briefings não possuíam marca e vinham em cores e formatos diferentes; ele sempre queria discutir e saber mais sobre os desenhos fora do horário de trabalho e jamais questionou qualquer coisa que fiz – bem, esse último eu já esperava que fosse acontecer.
?
– Hum? – ela virou o rosto para as duas amigas que esperavam uma reação – Desculpe, me perdi nos pensamento.
– Nós estávamos dizendo que agiu daquela maneira por uma razão compreensível – Amy disse, como se fosse sábio proteger dos meus pensamentos de quem quer amaldiçoa–lo.
– Não há uma razão compreensível para ser um verdadeiro imbecil – retruquei.
– Nem quando ele sabe que você dormiu com o cara da concorrência? – Lana abriu um sorriso. Eu sabia que ela estava louca para falar sobre esse assunto, mas jamais imaginaria que elas soubessem sobre ele antes de eu mencionar. – Achei que fossemos amigas – comentou, fingindo falso aborrecimento.
– Cale a boca – dei-lhe um empurrão, enquanto ouvia sua risada. – Vocês sabem que não houve um segundo do nosso dia hoje em que pudesse comentar sobre o assunto com vocês. Além do mais, foi só uma noite.
– Não foi o que achou – Lana ergueu os ombros.
Assim como sabia que ela queria muito tocar no assunto, também sabia quando ela estava louca para me fazer sofrer em curiosidade. Aquele momento, era O momento. Suspirei e aproximei minha cadeira da dela; assim que o fiz, seus lábios avermelhados abriram um sorriso de quem havia ganho a batalha.
– O que ele achou? – perguntei.
– Você acha que eu...
– Lana, qual é! Eu vim para cá para trabalhar, me dá um desconto. Tive que suportar todos aqueles e-mails chatos enquanto achava que queria comer Jacqueline.
– Ela é bissexual, a propósito.
– Como se isso fosse fazer alguma diferença para minha curiosidade – semicerrei os olhos, nervosa. – Você sabe que eu não tenho...
– Preconceitos, eu sei, só queria te irritar, calma querida – Lana jogou seus cabelos brilhantes e ondulados para trás e suspirou, voltando seu olhar para mim. – Klint veio me falar enquanto estávamos fazendo algumas brincadeiras na suíte do iate, vocês sabem, aquela...
– Lana – eu e Amy falamos juntas. Lana fingiu bufar e soltou uma risadinha.
– Desculpe querida, eu só estou feliz que você finalmente decidiu entrar no jogo dele – e fez um carinho em meu braço. – Foi uma boa lição para o .
– Que lição? O que ele sabe?
– Oras, se você deixasse eu terminar de falar...
– Se você não decidir descrever sua transa no meio de um restaurante, eu com certeza não farei questão em cortá-la.
– Tudo beeem – ela respirou fundo. – Klint comentou comigo que hoje de manhã veio reclamar com ele sobre falta de conduta e tudo mais. É claro que ele ficou do seu lado, principalmente porque eu estava no banheiro ouvindo tudo, mas também por ser advogado e saber que ontem e nem hoje você está em horário de serviço, portanto, não precisa necessariamente não transar com uma pessoa.
– Mas foi Nathan Garden.
– Exato. E foi isso o que deixou mais aborrecido. Foi como se perdesse o controle por você e isso o deixasse maluco – ela deu uma alta risada, jogando a cabeça levemente para trás e chamando a atenção de alguns rapazes a duas mesas distantes da nossa. – Enfim, ele começou a reclamar de coisas que não faziam sentido e que só firmou mais a hipótese de que ele estava com um baita ciúmes – ela abriu os braços expressando o tamanho do ciúmes de . – E então age como um canalha na frente de todos e resolve levar a Jacqueline junto.
– Ele saiu com ela ontem.
– E adivinha onde os dois foram? – Lana abriu um sorriso malicioso. Antes que eu pudesse ter qualquer pensamento impuro, ela riu: – No restaurante perto da área dos bangalôs na praia privada, onde ele pode ter uma vista privilegiada de alguém saindo com um outro alguém, que na lista negra dele está no top 3.
Abri a boca, em choque. havia me visto com Nathan?
No único dia que eu decidi ouvir minha emoção ao invés da razão, sou pega no flagra? Onde a sorte entra nessa brincadeira? O que ele poderia pensar agora? Como poderei trabalhar os próximos quatro dias ao lado dele? E o favor do casamento de Céci?
O casamento de Céci.
– Não – fecho os olhos. Uma ligeira dor de cabeça começa a martelar minha cabeça. – Não, não, não...
– O que foi?
– Eu não falei com ele sobre o casamento de Céci ainda – olhei para Amy.
– O que tem o casamento de Céci a ver com a situação? – Lana perguntou, olhando de uma para a outra, confusa.
– Ela ligou para anteontem falando que Taylor havia ligado para e o chamado para ser seu padrinho em parceria com . Sem pedir para nenhuma das duas.
– Caramba, sua família realmente criou um fã–clube – Lana começou a rir. – Podemos começar a chama-los de Lowerzetes?
Gargalhamos com a ideia do meu pai, Taylor e Max usando uma camiseta escrito “Lowerzetes” e o rosto de estampado. Foi como meus pais fizeram com Max na festa de formatura da faculdade. Vergonhoso. Lembro–me bem que naquele dia Max jurou que se os dois não desaparecessem com aquela camiseta, ele nunca mais voltaria para casa. Meu pai teve de pedir para Boswell, nosso empregado, dar um fim nas roupas.
– Mas amiga... Você precisará de muito jogo de cintura e sorte para pegar com bom humor. Ele não me pareceu nada feliz em te ver com o cara da concorrência.
– Para começar, foi ele quem me dispensou na porta do hotel e saiu todo cheio de toques com a Jacqueline. Se ele quer ser galã com qualquer mulher, ótimo, mas não fique agindo de maneira tão infantil porque eu fiz a mesma coisa. E mais, nós não temos um relacionamento. Ele é meu chefe, fim.
– Seu chefe só na vida real, querida – Lana sorriu. – Sei bem o que você imagina quando está perdida nos seus pensamentos. Você se esqueceu que menciona alguma delas com a gente?
Aperto os lábios, nervosa. Odiava quando Lana jogava algumas verdades justo no momento em que eu menos precisava ouvir.
– Isso não importa agora – resmungo. – A questão é que ele poderia agir pelo menos de maneira profissional ao invés de ser o mesmo arrogante insuportável de sempre.
– Amiga, deixe–me explicar uma coisa, caso você não tenha percebido, mesmo morando naquela cidade horrenda e ao mesmo tempo maravilhosa que é Nova Iorque – Lana pousou sua mão em meu ombro como se estivesse me consolando, seus olhos demonstravam certa piedade; era como se fosse uma mãe tentando explicar à filha que ela não poderia comprar a Barbie Malibu que todas as amigas tinham porque devia usar o dinheiro para por a comida na mesa – Pessoas como o nascem em um berço de diamante vermelho e crescem no meio de pedras jadeite. Você sabe exatamente os valores delas, não é? Esse tipo de ser humano não está acostumado a ter de correr atrás de uma presa. No momento em que você transou com o arqui-inimigo dele, é claro que seu lado macho alfa tomou conta e ele se sentiu ameaçado.
– O que Lana quis dizer – Amy a cortou. –, é que esperava que você ficasse na dele como todas as outras mulheres que passaram em sua frente. Ter relação sexual com Nathan Garden foi além do que ele imaginava.
– Bem, isso é um baita egoísmo! – apontei para Amy, que ergueu as mãos, livrando-se da culpa de . – Ele pode comer qualquer mulher e eu tenho de ser a Virgem Maria?
Lana bateu palmas para mim, concordando com a cabeça. Isso sempre acontece quando estamos começando a ficar bêbadas. Começamos a nos expressar de maneira exagerada e um pouco inconveniente. Bati na mesa, animada pelo apoio:
– Mas isso não ficará assim! – me levantei. – terá de investir em um negócio de perucas, porque eu irei acabar com todo o cabelo dele de tanto estresse que colocarei em seus ombros!
– Isso! – Amy ergueu o copo do drink vazio. – Ninguém mexe com as garotas de Maine e sai ileso! Nós não suportamos 10 anos da nossa vida escondidas da alta sociedade!
– É isso mesmo, garota! – Lana assobiou, aprovando nosso comportamento. – Sabe o que você vai fazer, ? Você irá continuar encontrando com esse concorrente.
– Vou!
– E você continuará empinando a sua bunda para ele! – ela se levantou de sua cadeira, apontando para mim.
– Vou mesmo!
– Você irá aceitar todos os convites de encontros e tentativas de beijos que esse cara tiver com você!
– É! – Amy repentinamente se ergueu, ainda com o copo vazio em mãos.
– E se aquele reclamar, você irá fazer tudo isso de novo na frente dele!
– Isso! – dou pulinhos, animada.
– E agora nós vamos pegar nossas bolsas e sumir daqui, porque todos estão nos olhando – Lana pegou sua bolsa, assim como eu e Amy milagrosamente reagimos rápido, talvez por estarmos prestando atenção ao nosso redor tanto quanto ela.

– Você não irá ceder a ele, está me ouvindo? – Lana segurou meu rosto no banco de trás do táxi que iria me deixar primeiro no hotel onde estava hospedada. – Está me ouvindo, ?
– Como posso não ouvir se você está quase deslocando meu pescoço? – murmurei, sentindo o alívio de ter meu rosto solto.
Lana estava sentada no meio de Amy e eu. O ambiente dentro do carro era mais agitado do que a última vez que pegamos um táxi juntas, no dia do nosso encontro às escuras com Jordan, Klint e . É irônico pensar que de lá para cá as duas entraram em um relacionamento sério com os dois, enquanto eu e travamos uma guerra entre nós.
Respirei fundo e me encorajei. está afim de mim e eu estou mais perto dos 30 anos do que dos 20, então posso parar de agir como uma adolescente nervosa para o seu primeiro encontro. Já tive diversos homens e me relacionei com dezenas deles, por isso, não preciso pensar em N melhorias. Posso ser apenas eu. Mesmo que sempre extraia o pior de mim, consigo ser pior que ele. Talvez. Quem sabe. Espero.
– Você estará em ambiente de trabalho amanhã, por isso, demonstre afinidade, mas responsabilidade – Amy se inclinou para frente a fim de me ver. – Se você for muito íntima de Garden, poderá acusa-la de má conduta e com razão. Contudo, se você mostrar que já conhece o concorrente de um lugar fora do ambiente de trabalho, será o suficiente para que fique de olho em você e nas pessoas que se aproximam.
Ficamos encarando Amy por alguns segundos até percebermos que ela realmente estava me dando uma lição – ou dica – de como me comportar amanhã.
– De qualquer maneira – Lana se virou para mim. –, o que quer que aconteça, não deixe-se levar pela sua personalidade passiva. Você está no ataque agora, amiga. Haja como uma centro avante!
– Desde quando você entende de futebol? – Amy olhou para Lana, surpresa.
– Quem ataca não é o atacante? – perguntei.
Olhamos uma para a outra, sem saber o que dizer. Nós não sabíamos nada sobre futebol e Lana só sabe que existe uma posição chamada centro avante no time, porque Klint, como um bom europeu, é viciado em futebol.
– Enfim! – nós três dizemos juntas, quebrando o constrangimento.
– Ele está na sua mão, – Lana falou. – Pelo amor do que é mais sagrado para você, não seja uma tola.
– Uau. Obrigada amiga.
– Você sabe que estou falando de coração – ela tocou em seus seios siliconados e não pude deixar de encará-los, assim como o motorista do táxi pelo retrovisor.
– Você sabe que o coração dela só age dessa maneira uma vez por ano, por isso, aproveite – Amy ergueu o dedo, tendo um ponto importante nele, por isso, abracei Lana, que não se viu ofendida por quase ser comparada Frankenstein ou o Homem de Lata.
– Merriott – o motorista anunciou o nome do meu hotel quando estávamos trocando o carinho da amizade que sempre fazemos quando estamos as três alteradas. Percebi que recentemente/desde quando Amy começou a namorar, temos feito muito mais o carinho; para ser sincera, eu esperava que Amy fosse ser a mulher correta dentre nós três.
Mas não é ela quem está em uma relação de atração e ódio com o chefe e transando com o cara da concorrência, e sim eu. Há dez anos, quando cheguei em Nova Iorque, esperava tudo, exceto ter uma vida sexual menos ativa que a de Amy.

O congresso de joalheiros geralmente ocorre na Itália, onde peças novas e tendenciais são apresentadas por profissionais respeitados da área. É como uma feira do livro, só que de joias e sem vendas. Basicamente, as empresas do mundo inteiro se reúnem para se gabar das peças que têm até encontrar outra com uma ideia muito mais original que a dela. A nunca participou porque é líder de mercado na classe A, público-alvo da empresa. Nossos catálogos são apresentados através de um trailer bem elaborado que criamos com profissionais publicitários prestigiados. Todos os dias o trailer é apresentado doze vezes nos telões que são instalados espalhados pelo espaço onde o evento ocorre. Não há quem não veja a novidade da e a semana seguinte é sempre muito cheia de agendamentos para conferir de perto as peças e ligações com perguntas sobre início da pré-venda e valores.
Este era o primeiro ano desde 2006 que o evento era sediado em outro lugar. Para entrar aqui é necessário ser um profissional da área ou possuir credencial, seja concebido pelas próprias empresas do ramo, patrocinadores ou organizadores. E claro, a mídia selecionada, que está sempre preparada para ou apresentar as novidades das maiores empresas e ousadias das menores, ou informar quais nomes conhecidos compareceram ao evento, afinal, mesmo o evento sendo referido como “congresso”, ele é, em grande parte, feito para os clientes de potencial do mundo inteiro que possuem muita grana para comprar até três coleções completas de uma só vez. Os mais ricos do mundo geralmente preferem comprar aqui ao invés de irem até a loja ou encomendarem.
e eu nos encontramos no café da manhã, quando coincidentemente saímos dos dois elevadores disponíveis no lado esquerdo do hotel, ao mesmo tempo. Nos encaramos por um tempo e utilizei o que Lana havia me dito na noite anterior como mantra:
“Não seja uma tola, não seja uma tola, não seja uma tola.”
– Bom dia, senhor – disse, tentando parecer profissional.
– Bom dia – ele respondeu, fazendo pouco caso da minha educação. – Vamos primeiro pegar nossos crachás. Não gosto de filas e me parece que temos de assinar a lista nós mesmos para retirá-lo.
– Sim senhor – respondi, colocando-me atrás dele e caminhando silenciosamente, cumprimentando com a cabeça aqueles que reconhecia e outros que vinham saudar .
Como ele quis, pegamos nossos crachás e fomos tomar café da manhã. O salão estava lotado, mas como esperado, tinha sua própria mesa reservada. Hesitei, sem saber se eu deveria segui-lo ou não, afinal, Jacqueline poderia surgir a qualquer momento para fazer-lhe uma boa companhia.
– Está esperando alguém? – ouvi sua voz soar ao fundo e saí de meu transe para então vê-lo parado na metade do caminho me encarando.
– Não, eu... Não – abri um pequeno sorriso e fui até ele em passos apressados.
Não irei negar que nosso café da manhã foi esquisito. não puxava conversa como fazia na maioria das vezes e sempre que eu tomava uma iniciativa, ele respondia de maneira desinteressada.
Assim permanecemos todo o primeiro dia do evento e metade do segundo. Seguimos para o local do congresso em um carro contratado pela empresa. Compareci somente duas vezes no evento; a primeira quando ainda era uma aprendiz de Barbara e ela me enviou para Copenhagen com Vincent para aprender sobre concorrência; a segunda foi um ano depois de ter sido contratada. O novo vice–presidente da época achou necessário que os designers comparecessem a um evento desse para ver a grandeza da em comparação às outras empresas. Para Barbara, foi uma perda de tempo e dinheiro, o que resultou na eliminação do cargo de vice-presidência seis meses depois.
Eu fazia meu trabalho da melhor maneira possível, seguindo , lembrando de todos os nomes importantes que Lottie havia me passado por e-mail na quinta-feira de madrugada e observando as tendências e apostas que as empresas estavam fazendo.
Foi próximo ao horário do almoço que nos deparamos com a seção da Thames, onde pude ver Nathan Garden paparicando um cliente potencial da . Assim que nos viu, deu um jeito de se livrar do homem para vir até nós. Meu coração disparou ao ver ele e se dirigindo à direção do outro. Eu não havia falado com Nathan desde a noite que dormimos juntos; esperava que ele me ligasse ou me procurasse ontem, mas não foi o que aconteceu. Achei que talvez ele estivesse me dando um espaço, afinal, estamos rodeados de pessoas que nos conhecem e falariam se nos vissem juntos.
O problema foi que a disposição que eu tive no dia anterior para agir de maneira íntima-mas-não-tão-íntima de Nathan foi-se por água abaixo no segundo dia.
– A presença de um no evento é uma surpresa e tanto – foi a maneira como ele iniciou o diálogo entre os dois. Seus olhos encararam , erguendo a mão para cumprimenta-lo – É um prazer conhece-lo, senhor . Meu nome é Nathan Garden.
– Sei quem é – olhou para os lados – Está fazendo um bom trabalho este ano. A vitrine chama a atenção.
– Espero que esteja se referindo ao que temos dentro da vitrine, e não ela mesma – Nathan sorriu, recebendo um tipo de riso deboche de . – Gostaria de ter conhecimento sobre alguma coleção? Estamos com essa nova designer, Singy Pemsey, da Áustria – ele nos mostrou uma série de peças nas cores amarela e marrom café. – Ela é nossa nova aposta. Você deve conhecer, bastante seletiva, uma ótima designer.
– Áustria – abriu um sorriso. – Expandir os horizontes sempre foi uma aposta para a Thames.
– É o que dizem: quando dá certo na primeira vez, você mal vê a hora de chegar a segunda. – em um breve segundo, seus olhos encontraram os meus e recebi uma piscadela, entendendo a ambiguidade de sua resposta.
não falou nada, mas sua pose se tornou mais séria. Ignorou os comentários de Nathan e no fim, pegou um catálogo, entregando-o a mim.
– Estou ansioso para ver o trailer da este ano – Nathan disse, no fim de nosso tour pela sua seção. – Ouvi dizer que estão dando oportunidade a novos designers. Ou designers mais novos – olhou para mim. – É uma pena. Com uma chave de ouro em mãos, quer abrir as portas com as de bronze.
– Será mesmo, Garden? – voltou à sua posição de sempre: as mãos nos bolsos da calça.
– Eu desejo que não – Nathan desviou seu olhar para mim. – Afinal, seria desastroso perder sua melhor designer para a concorrência.
– A concorrência terá de se esforçar muito para conseguir ter nossa melhor designer – falou. – Mas sinta-se livre para tentar – sua provocação chamou a atenção de Nathan. – Não que você vá conseguir. Nossos melhores designers possuem uma conexão importante com a empresa.
Nathan soltou uma risada e balançou a cabeça.
– É realmente importante confiar em sua equipe. Agora, até a qual altura, isso poderemos discutir em um momento menos inconveniente.
e Nathan trocaram um olhar intenso. Se estivéssemos em um desenho, raios sairiam dos olhos dos dois. Permaneci calada sem saber o que falar. Eles estavam misturando a vida pessoal com a profissional, mas não pude deixar de me regozijar na cena dos dois brigando pela minha atenção. Queria poder sorrir livremente, mas isso apenas causaria mais problemas com .
No momento em que os dois se separaram, ouvi Nathan dizer em um tom alto suficiente para ouvir:
– Podemos nos encontrar mais tarde? – seu sorriso convencido não era tão charmoso quando ele queria surpreender somente a mim. Estava óbvio que ele fazia aquilo para afetar e mesmo sendo uma oportunidade para eu “não ser uma tola”, ainda assim não gostei de ser usada como ferramenta.
– Me liga – envio-lhe uma piscadela e então dou-lhe as costas, seguindo , que não falou comigo até a hora do jantar.
Ele decidiu que jantaríamos juntos. No almoço, tivemos de comer com alguns clientes de potencial da e outros da Thames, em que se esforçou em conquistar para dar o gosto de mais essa perda a Nathan. Como ele havia dito antes, era necessário uma grande dose de jogo de cintura e falsidade, e um pouco mais de carisma para que ele logo conseguisse marcar uma reunião de apresentação com as vítimas do dia.
O jantar era em um restaurante em uma colina próxima à cidade. Achei que, como na sexta-feira nós dois encontraríamos Amy, Jordan, Lana e Klint, não me preocupei em fazer uma boa produção, nem de usar os brincos de ouro. Este último, principalmente, prestei atenção em não usá-los.
Mas me enganei. O jantar era somente nós dois e o restaurante, um arraso. Me olhei no espelho do hall de entrada só para ter certeza de que eu pelo menos estaria um pouco à altura das mulheres com quem se relaciona.
“Por que você se preocupa tanto, ?” Pensei. “Você é você, pare de ser uma tola.”
– O menu planejado – falou para o métre, que concordou e logo pediu licença para se retirar. – Ouvi dizer que se você reserva a refeição com antecedência, o chef prepara um bom set de entrada, principal e sobremesa – olhou para mim, pegando em seguida a taça de vinho servida para analisar se estava boa. – Pode servir – falou. Assim que sua permissão foi concebida, minha taça foi servida também.
– Não sou uma pessoa fresca – falei, olhando ao redor. – E duvido que um lugar deste faça uma comida que não seja ao menos formidável.
abriu um pequeno sorriso e mexeu na taça de vinho. Ele estava pensando no assunto em que abordar. Conseguia ver as palavras que deveria ou não dizer percorrendo sua mente e não pude evitar abrir um pequeno sorriso enquanto levava a taça do vinho à boca. Eu estava por cima. Ele procurava uma maneira de ter uma conversa agradável, por isso, eu não poderia soltar o pedido dele ser o padrinho no casamento de Céci. Só daria uma razão dele voltar à personalidade arrogante e orgulhosa, e eu terminar sendo o que Lana sempre me chama quando ajo como uma menininha: uma tola.
Diferente de todas as outras vezes que tivemos uma refeição juntos, agora parecia diferente. Saber que ele estava, nem que fosse ligeiramente, interessado em mim me dava uma segurança que nunca havia sentido antes. Era como se eu soubesse que poderia jogar qualquer número na loteria, porque sabia que iria ganhar o prêmio.
Decidi não ajuda-lo e me mantive calada observando com vigor seu comportamento hesitante. Ele estava se esforçando em começar um diálogo que não nos levasse a qualquer discussão, podia ver em seus olhos. Esse comportamento fez meu corpo inteiro formigar. Sua dificuldade em encontrar um assunto harmonioso se devia ao fato dele não saber o que falar que não fosse o trabalho. Como temos perspectivas diferentes dele, é claro que ele levaria o fato em consideração, colocando–o contra a parede.
– Tivemos um problema com a passagem de retorno – ele ergueu os olhos, chamando minha atenção.
Mesmo? Ele iria falar sobre nosso retorno?
– Que problema? Gostaria que eu verificasse e arranjasse alguma—
– Não, não. Aparentemente, o voo foi cancelado devido a problemas na nave. Eles estão procurando novas alternativas.
Concordei com a cabeça. Lottie, sua secretaria, me enviou um e-mail naquela tarde, avisando que eu poderia voltar na terça ao invés da quarta, porque o último dia do congresso seria ignorado na agenda de e ele teria uma reunião com alguns clientes. Assim, preparei minhas malas para que pegasse o voo no dia seguinte:
– Hum... Senhor ...
– ele me cortou. Não pude reagir de imediato, porque quis mostrar minha surpresa em ser tratada de modo pessoal. – Não estamos em ambiente de trabalho, não é?
– Bem – fingi estar sem graça. Ah, como era divertido! – Você não está usando o terno.
soltou um protótipo de riso e concordou com a cabeça.
– Exatamente. Não estou usando.
– Você sabe que havia mudado meu voo de quarta para amanhã, não é?
– Sobre isso – ele mexeu as mãos, parecendo desconcertado. – Hum, a troca do voo não foi feita.
A maneira como ele falou, foi como se não conseguir trocar o voo fosse a coisa mais comum do mundo. Era assim que ele conquistava seus clientes. Sua maneira despreocupada, mas sempre com uma solução dentro daquele terno, conquistava qualquer um disposto – ou nem tão disposto – em se tornar um cliente ou investidor nas ações da empresa. sempre conseguiu o que queria, é o que diziam. Ele não tinha um coração quando se tratava de negócio, e talvez fosse assim que ele tratava sua vida pessoal, por isso não sabe disfarçar suas saídas com as mulheres tão bem como sabe me enrolar.
– Bem, então...
– Você pode tirar o resto da semana livre – ele anunciou, sem mais nem menos.
Abri a boca, chocada de verdade. Era assim? Ele me dava três dias de folga somente porque queria assim? Como explicaria minha ausência a Lauren? Quero dizer, não seria melhor se ele avisasse a ela sobre minha folga repentina?
E então me veio a ideia.
– Eu não sei se poderia, Lauren jamais deixaria que eu tirasse os dias livres.
– Você está em posse de algum projeto importante?
– Bem... Não, mas...
– Então não se preocupe – ele bebeu um gole do vinho e devolveu a taça no momento em que os garçons chegaram com nossos pratos. – Deixe que eu resolvo tudo.
“Mais um pouco, ...” Pensei.
– Não seria melhor se eu me justificasse—
– ele olhou em meus olhos. Meu nome sempre foi divertido de se falar. Dizem que é fácil transformar em algo sexy quando querem, mas até então só havia visto uma pessoa conseguir suceder, e ela estava sentada bem à minha frente. –, eu disse, não se preocupe.
Bingo!
– Bem... Então obrigada – abri um pequeno sorriso inocente.
Talvez seja essa a sensação que Lana e ele próprio se referiam sobre “jogar sujo”. A pessoa não sabe que você está brincando com ela e, neste caso, jamais saberá, porque isso é algo entre nós dois. Não há ninguém que diga que eu estava mentindo para sobre não achar certo tirar uma folga do trabalho. Só Deus e Lauren sabem quantas vezes pedi a ela por essa folga.
– Estamos quase em setembro – ele comentou, durante nossa refeição. Concordei com a cabeça por estar com a boca cheia de comida, mas acho que ele considerou que deveria continuar a falar. – Ouvi dizer que logo mais sua irmã virá para a cidade ver coisas do casamento.
Sempre achei impressionante como as coisas vão bem quando os ares estão a nosso favor, mas acho que nunca senti tanto quanto agora.
– É, ela tem a primeira prova do vestido de noiva – pousei meus talheres no prato e o encarei. – Como você sabe?
pareceu ter sido pego de surpresa. Não saberia descrever como estava me divertindo vê-lo em tais condições. Ele poderia não ver tanta maldade nas minhas ações, e dou graças aos deuses, porque caso visse, minha vida se tornaria um verdadeiro inferno.
– Taylor, seu pai e seu irmão às vezes me ligam.
– Eles te ligam? – finjo surpresa. – Meu Deus, me desculpe! Eu juro que não sabia—
– Eu nunca reclamei, reclamei? – seu tom arrogante surgiu como de costume. Ergui as sobrancelhas e ele limpou a garganta, sem graça. – Eles são pessoas, hum, interessantes.
– Minha irmã disse que gostam muito de você – jogo no ar enquanto mexia na comida.
Assim que ergui os olhos para encará-lo, vi uma expressão que jamais havia visto antes. Seus olhos estavam vidrados, como se jamais tivesse ouvido algo parecido antes; os talheres estavam bem presos entre os dedos e a boca havia parado de mastigar a comida. não estava somente surpreso. Algo naquela frase o tocou mais do que eu esperava.
– É mesmo? – ele tentou disfarçar, segundos depois.
– É. Não ficaria surpresa se eles quisessem chama-lo para ser o padrinho de casamento. Céci me liga bastante para falar sobre como os três estão mais interessados em política depois de terem te conhecido.
– Por que eles se importariam tanto?
– Porque é isso o que as pessoas fazem. Elas tentam se manter atualizadas para nunca faltar assunto na conversa? Ou não parecerem tolos em um diálogo. Como em uma entrevista de emprego, entende? – explico, vendo-o consentir em um aceno de cabeça. Limpou a garganta e mexeu na comida algumas vezes, sem realmente tocá-las.
Ficamos calados sem trocar nenhum olhar, apenas pensando em como nós conseguíamos ter um momento harmonioso sem provocar o outro ou jogar na cara quem está errado e por quê.
– Esse é um comportamento atípico – ele soltou uma risada.
– Por quê?
– Você vê alguém sendo como eles em Nova Iorque?
– Ser como eles é errado? – ergui uma sobrancelha e soltou sua risada deboche.
– Você sabe que eu não quis dizer isso.
– Bem, foi a única interpretação que eu tive.
– Eu não sou tão insensível assim.
– Isso quer dizer que você diria de uma maneira ainda mais sutil que minha família é uma aberração? Uma conclusão dessas só porque eles gostam de você de verdade?
– Você está falando que não existem pessoas que gostem de mim de verdade?
Parei para analisar a situação por um breve momento. encostou suas costas na cadeira, visivelmente mais confortável por agora estar na retaguarda. Tinha o sorriso que ainda não me decidi se gosto ou desgosto, e não parecia mais se importar com a comida à sua frente.
– Eu não sou tão insensível assim – o imitei, vendo–o desviar seu olhar ao redor do salão enquanto dava mais uma risada de quem estava se preparando para retrucar. Ele inclinou seu corpo para mais próximo a mim, e sussurrou:
– Eu sei que você sabe sobre o convite que Taylor fez a mim – seus olhos azuis não desgrudaram dos meus por um segundo sequer, o que me deixou ainda mais irritada. – Sua família faz um revezamento para me ligar todos os dias, sabe? Ele me disse que sua irmã havia conversado contigo.
– E onde você quer chegar com essa acusação?
– Pare de se fazer de boba e faça o pedido, – ele sorriu, sabendo que eu deveria pedir para me acompanhar no casamento em dezembro, mas eu ainda não queria ceder. Havia gostado da ideia de estar por cima. – Você sabe o que eu quero em troca, deve se lembrar.
– Você é muito seguro de si, . Eu não sei sobre o que você está falando e o que Céci supostamente deveria ter me dito, mas não se preocupe. Você não precisa fingir também no casamento da minha irmã. Eu espero que até lá consiga desmentir esse relacionamento, porque não vou entrar no altar dela com uma mentira sobre meus ombros.
– Você ainda está jogando errado – ele balançou sua cabeça, em negação.
– Não é porque não estou obedecendo as regras do seu jogo, que ele será errado.
apoiou seus braços na mesa, empurrando o prato para o lado. –, você está se envolvendo com as pessoas erradas.
– Você quer dizer, com as pessoas que você acha errado – fiz o mesmo com meu prato e me inclinei para que não pudesse falar mais alto. – Por que você está sendo tão arrogante desde ontem? Porque eu saí com Nathan Garden?
– Quem você sai ou deixa de sair não é da minha conta—
– Então por quê? – perguntei. – Por que agir como um imbecil? Porque é divertido me ver te odiar? Você não acha nem um pouco que eu possa estar negociando sair da para ir à Thames?
Sua expressão se fechou mais rápido do que desejava, aposto. agora parecia nervoso, bravo, querendo enforcar meu pescoço ou a de Garden.
– Você não faria isso.
– Eu não faria isso se sua mãe estivesse na presidência. Mas ela não está – falei, séria. – Eu tenho uma meta na , você sabe qual ela é. Estive sendo boa contigo até agora, mas você parece se esforçar em me tirar do sério.
, você—
– E daí que eu esteja negociando com a Thames, ? Você diz que tenho valor, mas não me dá o valor. Uma hora é gentil, e no minuto seguinte estamos trocando bombas como se fôssemos dois países em guerra. De repente me faz participar de projetos e eventos importantes, e então permite que eu seja humilhada por Lauren na frente da equipe que participo! Sabe, , ninguém aguenta isso por muito tempo. Posso ter um grande respeito pela empresa , mas eu tenho meu valor e a Thames a reconhece mais do que vocês têm reconhecido nos últimos anos – peguei o guardanapo de pano em meu colo e o depositei sobre a mesa. – Eu não tenho mais fome – abri a carteira e por sorte tinha uma nota de cem. – Desculpe, é tudo o que eu tenho, mas pode me mandar a conta e pagarei a diferença. Boa noite, senhor .
Dei-lhe as costas, andando em passos rápidos e pesados até a saída. Eu estava de bom humor até dez minutos atrás. Tudo estava indo bem, eu me sentia bem. Admito que falei mais do que gostaria ou que deveria, mas fui sincera quando disse que ninguém aguenta tudo isso por muito tempo. Ele pode me chamar de boba, tola, idiota, mas jamais permitiria ouvir minha família ser chamada de aberração somente porque eles gostam dele. Que pessoa mais mal amada! Como é que eu posso sentir atração— Não. . Não. Você está sendo tola agora. Sim, ele é bonito. Sim, ele tem um sex appeal. Mas é um canalha e falou mal de sua família. Você não deve ser estúpida assim. Lana pode lhe chamar de tola o quanto quiser.
! – ouvi sua voz me chamar assim que sua mão tocou em meu braço.
– Me deixa em paz! – desvencilhei–me de seu toque até perceber que não era , e sim, Nathan. – Oh.
– Acho que cheguei em má hora? – abriu um pequeno sorriso de quem surgiu realmente em um péssimo momento.
– Hum, não. Sim. Não. Você não tem nada a ver. Me desculpe.
! – a voz de então surgiu de verdade atrás de Nathan, que virou para vê-lo com o terno em mãos e a expressão de quem saiu apressado do restaurante.
Assim que viu Nathan à minha frente, a postura de mudou para uma de macho alfa. Eu acharia divertido, se não estivesse o odiando.
– Senhor ! – Nathan abriu um sorriso.
– Garden – respondeu ao cumprimento. – Se não se importa, gostaria de falar com a senhorita .
Nathan olhou para mim e meu olhar, voltando-se em seguida para .
– Pela expressão dela, não me parece seguro deixa-los à sós.
olhou para Nathan com uma expressão que eu mesma não gostaria de receber. Colocou a mão esquerda no bolso enquanto segurava o paletó do terno com a outra. Aproximou-se alguns passos de nós e olhou para mim:
– Você e eu temos um assunto pendente.
– Nathan tem razão, não é seguro nos deixar a sós.

– Não estamos em um ambiente de trabalho, não é? – Nathan cortou , colocando-se entre nós. – Isso quer dizer que posso roubar minha acompanhante de uma conversa estressante de trabalho? Estamos em Saint Barth e gostaria muito de sua companhia, . Se não se importar, senhor .
não desviou seu olhar de mim. Sabia que agora era uma questão de machucar ou não o seu orgulho. Por um segundo, achei que poderia perdoá-lo, porque sei o quão difícil é se desculpar por palavras ditas, principalmente quando não há o hábito de fazê-lo com frequência. Mas ele havia machucado o meu orgulho primeiro, por isso, só dessa vez, ou pela primeira vez, eu não me importava nem um pouco com a humilhação que ele iria sentir.
Dei a mão a Nathan e disse:
– Adoraria deixar a conversa estressante de lado agora.
Nathan abriu seu sorriso vitorioso, enquanto não ousava piscar. Seus ombros estavam tensos e os braços me pareciam bem mais fortes, provavelmente pelo estado que seu corpo reagia à minha resposta:
– Bem, então estamos decididos – Nathan disse, cruzando nossos dedos. – Tenha uma boa noite, senhor .
Demos as costas a para iniciar nossa caminhada a qualquer lugar longe dele. Dessa vez eu estava saindo com um acompanhante e ele estava sendo deixado para trás. Tomara que ele não goste. E se possível, que passe o resto da noite em seu quarto pensando em mil maneiras de me torturar. Assim o deixaria ainda mais com raiva, principalmente nos momentos em que reviveria esta cena.
– Ah, aguarde um momento – disse a Nathan, soltando nossas mãos e voltando até , que ainda se encontrava parado no mesmo lugar, de olho em nós.
Seus lábios estavam semicerrados e por mais que ele quisesse me humilhar de volta ali mesmo, sabia que ainda assim eu sairia por cima. Era melhor que ele me ouvisse.
– Por que você me faz ter esse tipo de comportamento? – perguntei, vendo seus olhos se arregalarem levemente, surpreso. – Se você não quer que eu saia com outra pessoa, então me trate melhor e haja como se estivesse interessado em mim.
E sem olhar para trás, deixei-o sozinho com seus próprios pensamentos, assim como fez comigo diversas vezes.
Essa noite, ele quem não teria um bom sono.
E para ser sincera, fiquei feliz em saber que a razão fui eu.

Capítulo 08

Naquela noite não dormi com Nathan. Culpei o estresse e a vontade incessante de dormir sozinha, descansar, para acordar no dia seguinte revigorada. Mesmo meu corpo estando sempre pronto para o sexo, naquele momento, sexo não me parecia a solução, por isso, pedi que ele me deixasse no hotel depois de um longo passeio. Achei respeitoso de sua parte não tocar no assunto, nem mencionar na conversa. Eu sabia de sua satisfação em ter vencido essa batalha contra o presidente da , mas isso não significava que ele havia ganho a guerra.

No dia seguinte, acordei com o som da campainha do meu quarto soando em meu ouvido. Demorei para compreender que estavam tocando em minha porta e levantei de qualquer jeito para atender.
– Serviço de quarto – a funcionária do hotel anunciou quando perguntei quem era.
– Mas não pedi nenhum serviço – respondi com a voz rouca, abrindo a porta para ver um enorme carrinho de café da manhã parado em minha frente.
A moça olhou para a porta do meu quarto e então para sua prancheta.
– Quarto 542, é este mesmo – ela sorriu e deu uma leve empurrada do carrinho. – Foi um pedido de entrega – enviou–me uma piscadela. – Ao finalizar o café, caso venha a sair do quarto, pode deixa-lo dentro e nossas camareiras retirarão durante a arrumação, se não, deixe o carrinho no corredor e um funcionário se encarregará de retirá-lo. Tenha um bom dia!
Não sei se foi por eu ainda estar sonolenta ou a mulher ter falado tão rápido, mas meus pés não se moveram até meu vizinho de quarto me cumprimentar com um ‘bom dia’, como se eu fosse maluca por ficar parada de pijama, com o café da manhã na minha frente.
Trouxe o carrinho para dentro do quarto, tentando me livrar do mico, e o empurrei até perto da mesa próxima à sacada. Coloquei as mãos na cintura, encarando a comida. Eu deveria comer? Ou deveria ligar para a recepção e dizer que houve um engano? Se está no número do meu quarto, significa que será me cobrado, não é? Permaneci alguns segundos na mesma posição, olhando para a refeição pronta à minha frente para só então perceber o cartão colocado estrategicamente em cima do meu prato.
 
“Desculpe pelas palavras rudes. Não tive a intenção de ofendê-la.
Aproveite o café da manhã.

.

Ps. Eu sei exatamente o seu valor.”

Abri um sorriso que, na minha opinião, era inevitável. Parada em frente ao carrinho, puxei uma cadeira para me sentar e poder contemplar a primeira atitude positiva de . Eu deveria guardar aquela carta, porque ela poderia ser uma prova de que ele tem um coração e sabe usá-lo de vez em quando.
“Eu sei exatamente o seu valor.” Que tipo de valor ele acha que sabe? Valor profissional? Valor... Bem. Outro valor?
Mordi o lábio para que não gritasse. Eu estava feliz, é claro. Lana tinha razão quando disse que eu deveria começar a jogar um pouco sujo para conseguir as coisas. Mas se eu não soubesse que teve um ataque de ciúmes de mim na frente de Klint – e Lana, sem saber –, eu jamais teria a coragem de brincar com seus sentimentos. Ele poderia misturar as coisas e me demitir. Ou poderia fazer Lauren transformar minha vida em algo pior que o inferno. Haviam várias razões. E então elas já não eram mais tão importantes.
– Ponto para – abri um sorriso.
Nem o e-mail de Lauren reclamando pelos sete mares sobre a minha folga anunciada por conseguiu estragar a minha manhã. Para dizer a verdade, ler as palavras dela foi um prêmio bônus. Nunca fiquei tão feliz de ver as palavras “irresponsável” e “antiprofissional”.

Tomei o café da manhã o mais relaxada possível. O voo que deveria pegar estava marcado para às três da tarde, mas quando cheguei à recepção para o check-out, a funcionaria me falou que havia pago a estadia até domingo. Olhei ao redor à procura dele, mas ele estava em um almoço com clientes.
– Bem, então irei voltar para o quarto – falei, com um pequeno sorriso. – Obrigada.
Assim que cheguei no quarto, liguei para Lana e Amy. Elas me matariam se eu não contasse ou demorasse para contar, e eu também estava louca para falar do assunto com alguém.
– Você gostaria que eu fale “eu não te disse?” agora ou mais tarde? – Lana perguntou. – Queridinha, só de você ter jogado um pouquinho sujo, já recuperou dois anos da sua vida mal amada.
Revirei os olhos. Lana nunca foi a pessoa certa para te parabenizar; é preciso muita intepretação para saber que ela estava, sim, feliz por você.
– Bem, e agora? Ele não chamou você para almoçar? – Amy perguntou, mais animada que eu. A ideia dela termos namorados que sejam amigos parecia próxima e já até podia imaginar os planos de viagens e saideiras juntos. Coisas de Amy.
– É claro que ele não vai encontrar com ela agora – Lana respondeu por mim. – Ele irá deixa-la com seus pensamentos até pelo menos o final do dia, para que possa conversar com ela e se desculpar devidamente. Esse café da manhã foi apenas uma maneira que ele encontrou de não fazê-la dar as costas quando tentasse falar com ela.
– Acho impressionante como você conhece os homens – murmurei, ouvindo sua risada. – Bem, se essa foi realmente a intenção dele, então pode ser considerada sucesso.
Amy deu a ideia de passarmos a tarde juntas, onde eu poderia comprar roupas para passar o resto da semana, já que vim preparada somente com roupas de trabalho e para até o dia seguinte. Vesti o único conjunto de short jeans, bata e uma sandália para poder me encontrar com as duas.
Fazia tempo que não saíamos juntas para fazer compras e aproveitar para opinar no estilo. Apesar de sermos três mulheres formadas, ainda gostávamos de falar mal da maneira como outras mulheres se vestiam e como ficaria melhor as roupas que elas usavam. Entramos nas lojas para verificar as coleções e, como sempre, eu apenas comprava as roupas que combinavam com as joias que eu já tinha.
De nós três, Lana sempre foi a mais consumista. Apesar disso, é a que gasta menos, por conta de conseguir ganhar tudo o que quer de seus relacionamentos.
– Klint não tira da cabeça essa ideia ridícula de morarmos juntos – ela disse, enquanto olhávamos a arara de roupas da terceira loja. Amy havia ficado para trás, porque queria escolher novas camisas para Jordan, e Lana queria seguir em frente para ver roupas para ela mesma, então apenas a segui, porque o foco da tarde era eu comprar roupas para mim, não ser a consultora de moda delas – Só porque eu disse que ele poderia falar com a Victoria, ele já fez uma ligação e ela passou no apartamento dele ontem para tirar medidas e ver o que poderia fazer para melhorar a cobertura. Dá para acreditar?
– Que alguém está apaixonado por você a ponto de fazer essas mudanças? – não pude evitar um tom de voz irônico. Lana sempre foi a que teve mais homens apaixonados aos seus pés. Alguns prometendo dar-lhe jatinhos particulares, chauffeurs e mansões em todos os seus lugares favoritos no mundo; contudo, Lana gosta tanto de ficar solteira, que nem se o homem prometesse dar-lhe o mundo, ela ainda assim não aceitaria.
– Homens não gostam de cumprir promessas, apenas de fazê-las – ela falou.
– Lan, não é porque um homem fez isso com você, que todos também terão a mesma atitude.
Lana foi apaixonada por um cara. Nós tínhamos 14 anos, mas éramos maduras o suficiente para distinguir o que era amor e o que era atração. Entretanto, não sabíamos separar a verdade da mentira.       
Seu nome era Thomas Mavel. Ele era o terceiro garoto mais popular da sala, porque era um dos poucos que tinha olhos acinzentados, e não azuis, castanhos ou verdes. Lana se apaixonou por ele quando a salvou de tomar o maior tombo da escola, na escada que os alunos tinham de usar para chegar até as salas de aula, já que os elevadores eram exclusivos para o corpo docente, pais e visitantes agendados. Durante oito longos meses, eu, Amy e Lana arranjávamos maneiras de marcar um encontro entre ela e Thomas. Ele parecia um cara legal, admito, foi o primeiro e único que conseguiu enganar meu sensor de canalhas. Se sentava na carteira da frente, tirava notas boas, os professores nunca chamavam a atenção e não era um mulherengo. Aos 14 anos, o sexo era um assunto tabu entre nós e só discutido entre os grupos de amigos.
Foi então que Thomas chamou Lana para ser sua parceira no baile de inverno que rolava todo ano. Foi um prêmio para nós três. Fomos até a capital de Maine comprar o vestido de Lana, que havia convencido seu pai de emprestar-lhe o cartão de crédito para o que seria “o melhor baile de sua vida”.
Thomas havia apostado transar com Lana e ganhar uma boa grana dos garotos da escola. Eu e Amy soubemos tarde demais e isso acabou com o pouco coração que Lan tinha. Depois disso, ela apostou com todas as garotas mais más da escola um vídeo pornô de Thomas, que acabou sendo expulso do no último ano por atos maliciosos nas dependências do colégio. Foi uma vingança ótima, que ensinou os garotos a não mexerem com ela.
É claro que houve resquícios de sua dor. Desde então, Lana não se apaixona por ninguém e concorda em ter relacionamentos abertos em que ela ganha mais do que oferece, já que os homens contentam-se em ter uma mulher da alta sociedade maravilhosa e proporcionando-lhe o melhor sexo que já tiveram e terão na vida. Tudo o que precisam fazer, é continuar sendo ricos para arcar com os gastos dela.
– Os homens, querida, são todos iguais. Você não vê o seu ? Ele compra-as com joias e quando as consegue, apenas as deixa de lado – seu tom rancoroso veio à tona.
Mantive-me calada para que ela percebesse o que estava falando e para quem falava. Não era justo comigo, afinal, eu ainda botava fé que todas as pessoas tinham alguém preparado para fazer feliz pelo resto da vida.
– Não que ele vá fazer isso com você – ela colocou a mão em meu ombro. – Você sabe como sou – enfim desistiu de argumentar ou corrigir seus erros e continuou a falar: – Eu não quero que ele se iluda achando que ficarei com ele para sempre. Mudar seu apartamento não é nada do que eu preciso.
– E você já disse isso para ele? Ou você continua agindo como uma mulher de valores errados? – caminhei com ela até a área dos provadores, onde me sentei na poltrona em frente ao provador dela. – Vamos falar com sinceridade agora, Lan. Você tem que cair na real. Os homens são todos os mesmos porque você os trata como o mesmo. Aposto que nunca deu chance a Klint de conhecer a verdadeira você, que definitivamente não é essa que ele vê. Pode ser que ele não goste de você verdadeira, mas isso fará com que você caia fora – cruzei as pernas enquanto a via se despir para experimentar suas roupas. – Você tem medo de levar um fora como foi com Mavel. Quer dispensar o homem antes que ele a dispense. É errado a maneira como você entra em uma relação já programando o fim dela.
– Você deveria sentir a sensação de ser enganada antes de dar conselhos – ela me olhou feio. – Você não sabe o que é transar com um cara que você ama e no momento seguinte, ele rir dizendo que você foi uma tola.
– Eu não preciso de um homem para rir de mim e dizer que sou uma tola, porque tenho você para fazer isso por eles. Mesmo assim, eu não corto meus laços com você porque sei que você é uma boa pessoa com um hábito ruim de falar a verdade nos momentos errados.
Lana olhou para mim séria. Eu havia um ponto. O defeito dela, na opinião dela, era que sua memória era extremamente boa, o que a fazia lembrar de coisas que não gostaria, como agora, todas as vezes que me disse que eu era uma idiota por ter feito isso ou aquilo; que era bem merecido o resultado, porque eu não havia lhe ouvido...
– Klint não é diferente dos outros homens – ela murmurou, olhando-se no espelho com o vestido tubo branco que acentuava seu quadril.
– Ele não é diferente, porque você o trata igual os outros, eu já disse. Dê-lhe uma oportunidade, mostrando a ele quem você realmente é, e se ele se decepcionar, será melhor para você, que estará se livrando de alguém que não a ama como você é – suspirei e me levantei para ir até ela. – Lan, você é uma mulher formidável, com uma personalidade de invejar. Sentir dor faz parte do amor, mas é o que dá vivacidade ao relacionamento. Superar barreiras juntos é a melhor coisa.
– Talvez você esteja certa.
– Eu sempre estive certa – abri um sorriso. – Você apenas está concordando agora porque não tem um contra-argumento para apresentar.
Lana soltou uma gargalhada e abriu o zíper de seu vestido. De repente, ela me parecia ainda mais bonita do que antes. Talvez fosse o brilho do amor que ela finalmente decidiu irradiar.

Amy ficou emocionada quando soube que Lana daria uma chance para Klint. Isso significava que ela iria se mudar em breve para a cobertura dele.
– Bem, então isso quer dizer que poderei me mudar com Jordan – ela sorriu. – Na verdade, eu iria dizer apenas para , porque ela não me colocaria na cruz – olhou feio para Lana, que ergueu os ombros e bebeu um gole de seu coquetel.
Estávamos sentadas à beira da praia, em um quiosque com cadeiras mega confortáveis e garçons que nos serviam a cada dez minutos. As compras foram finalizadas e enviadas pelas lojas diretamente para os hotéis, então tudo o que precisávamos fazer era lembrar o horário do jantar.
– Jordan e eu achamos que estamos com idade suficiente para sabermos quando um relacionamento tem futuro ou não – ela se remexeu em sua cadeira, animada, provavelmente esperando a mesma animação de mim e Lana. – E decidimos que o nosso relacionamento tem um grande futuro. Nós gostamos um do outro, nos respeitamos, dizemos “eu te amo” todos os dias, temos gostos comuns e também diferentes, para não entrar na mesmice e viver no tédio.
– Vocês vão casar – Lana concluiu. Balancei a cabeça concordando, porque era o que parecia. Amy não precisava fazer todo esse discurso para justificar uma escolha que só iria atingir a vida dela, mas sempre foi assim, ela sempre precisou de uma “aprovação” minha e/ou de Lana para seguir em frente com seus planos.
– Não! Claro que não! Estamos namorando firmes e fortes! Casamento é... é muito mais sério do que isso. É uma promessa perante toda sua família e amigos...
– Achei que ela iria dizer ‘Deus’ – Lana riu. Nós três nunca fomos pessoas religiosas, mas temos nossas próprias crenças. – Mas querida, deixe-me explicar. Morar junto é como casar. Vocês terão uma vida conjugal, discutirão assuntos conjugais e todo aquele blábláblá que eu já havia dito no iate.
– Eu sei. Mas isso não quer dizer que eu e ele estaremos casados. Nós estivemos pensando nessas últimas semanas, no quanto passamos tempo juntos desde o início do relacionamento e se eu me mudar, não mudará nada na nossa rotina.
– Na minha opinião, se os dois estão dispostos a tentar, por que não? – disse, recebendo um olhar feio de Lana e um sorriso de Amy. – Mas você não acha um pouco... cedo?
– Cedo?
– É. Como vou dizer, hum... vocês começaram a namorar não faz nem seis meses...
, você sabe mais do que ninguém como eu sou – Amy suspirou. – E eu saí um pouco da minha linha de conforto. Eu jamais iria a um encontro às escuras, muito menos organizado por Lana. Sem ofensas – ela olhou para a tal, que já se preparava para responder à altura. – E deu certo. Encontrei o cara da minha vida. Que me ama, me respeita, é trabalhador e apesar de ter uma família que parece uma unha encravada, tem prestígio e educação. E ele está para fazer 30 anos. Está começando a procurar mulheres com quem possa namorar sério e um dia casar. Eu não sou mulher de namorar dezenas de homens antes de achar o par perfeito, você sabe – ela mordeu o lábio e respirou fundo. – Eu sei que é uma atitude precipitada e que o tombo pode ser feio, se acontecer. Mas a vida inteira eu vivi de se’s e agora que eu consegui me desapegar da insegurança, eu quero tentar.
Eu e Lana não pudemos dizer mais nada. Amy tinha um ponto e saber que ela estava deixando para trás de verdade aquela Amy chata, insegura e cheia de frescura era, mesmo, algo positivo em sua vida. Troquei um olhar com Lana, que havia sido convencida depois do discurso. Se ela não possuía nada contra, que dirá eu.
– Se é o que você mais quer agora, não tem nada a perder. Às vezes esta é a decisão correta, ao invés de pensarmos se não é – sorrio e a vejo suspirar aliviada. Martin sempre reclamou que Amy ouviu mais a nós, suas amigas, do que ele próprio, o pai que ajudou a coloca-la no mundo e deu-lhe tudo de melhor para que pudesse crescer saudável e feliz. – Então quer dizer que demos dois passos hoje – peguei minha taça de champanhe. – Amy finalmente se livrou da personalidade certinha dela e Lana finalmente se decidiu dar a si própria o prazer de amar.
Três passos, você quer dizer – Amy e Lana se entreolharam, sorridentes. – finalmente admitiu que gosta de e ele praticamente se declarou para ela.
– Saúde! – as duas falaram, erguendo suas taças.
– Quando eu disse isso? Quando ele se declarou? – perguntei, no meio de suas risadas.

Como havíamos feito da última vez, pegamos um táxi juntas, que me deixaria primeiro em meu hotel e depois as levaria direto para o hotel delas. Assim que desci, pude perceber o hall já vazio. Eram quase sete da noite e as pessoas ainda estavam no local do congresso.
Nathan havia dito que não poderia falar comigo nesses dois dias finais do evento. A programação da Thames estava intensa e ele teria de ficar o dia inteiro fazendo apresentações e acompanhando possíveis novos clientes, que logo descobri não serem da .
, por outro lado, não deu as caras em momento algum. Achei que ele me chamaria para jantar, mas não foi o que aconteceu. Talvez o café da manhã realmente tenha sido um pedido de desculpas e de reconsideração sobre negociar minha transação para a Thames.
Logo que cheguei em meu quarto, conferi se todas as sacolas das compras estavam presentes e separei os conteúdos para coloca-los em minha mala. Tão cedo, vejo que teria de comprar outra mala no dia seguinte, pois tudo não caberia em uma só. Sabendo disso, deixei a arrumação de lado e entrei em meu computador apenas para conferir se havia algum e-mail importante. Lauren me enviou dezenas, como sempre, e respondi as mais rápidas. Havia outra da Amber, que dizia ter avisado sobre sua saída da equipe, e que todos estavam planejando uma festa de despedida na quinta-feira da semana seguinte, seu último dia de trabalho. Havia um e-mail de Claire, chorando às pitangas com a saída de Amber; e uma de Céci, dizendo que minha família viria no final de semana seguinte para a primeira prova de seu vestido e do terno de Taylor.
Arregalei os olhos. Final de semana seguinte?
Abri meu calendário correndo para confirmar que a data era realmente na semana seguinte. Eu não havia feito nenhuma reserva de hotel e Céci não me avisou com antecedência como eu havia pedido.
Oi, sis! – ela disse, animada. – Que milagre uma ligação sua no meio da semana! Recebeu meu e-mail?
– Recebi e me pergunto por que você não me avisou antes como tinha pedido, para que eu fizesse a reserva do hotel! – disse, nervosa.
Ah, achei que havia lhe dito! Ele fez as reservas para nós!
O quê?
Taylor falou com ele hoje pela manhã de novo para confirmar, porque ele havia se oferecido para fazer as reservas. Não se preocupe, disse que estava tudo certo. Até marcou de um carro nos buscar na estação! Foi muito gentil da parte dele, principalmente porque Max disse que ele e Lua queriam comprar as decorações do quarto do bebê nesse final de semana!
fez as reservas? – perguntei, não conseguindo processar a informação.
Foi o que eu falei! Você está trabalhando ao mesmo tempo que fala comigo? – sua voz rapidamente pareceu aborrecida. – ! O que eu disse sobre isso? Que falta de respeito!
– Me desculpe, desculpe. Parei – respirei fundo. – Uau. não me disse nada.
Acho que foi a correria, ele disse que vocês não conseguiram se falar nos últimos dias por causa do seu congresso. Não acredito que você está em St. Barth! Nem me disse!
– Foi de última hora, soube na quinta passada e tinha de sair na sexta...
Nós nos falamos quinta passada.
– Falamos? – coloquei minha mente para trabalhar, até me lembrar que foi o dia que Céci me deu a notícia de que Taylor havia convidado para ser o padrinho.
Ah! Isso. Eu ainda tinha de falar sobre isso com . Como poderia? Não sei nem como estará o clima entre nós dois quando nos encontrarmos. E se for somente em Nova Iorque? Será que ele não virá falar comigo até lá?
!
– Hum? Oi! Estou na escuta.
Não, não estava. Olha, podemos nos falar mais tarde, achei que fosse uma urgência...
– Eu estava perdida em meus pensamentos, não estava trabalhando. Isso acontece de vez em quando com as pessoas Céci, você tem que controlar esse seu temperando, por Deus! – respirei fundo e a ouvir bufar. – Só liguei porque achava que vocês não tinham hotel, mas já que está tudo combinado com ...
Papai está super animado. Ele não para de falar em como será bom visitar Nova Iorque novamente e já falou para seus amigos sobre . Acho que irá convidá-lo para vir aqui.
trabalha muito, não tem tempo para ir...
Diga isso para ele, o homem não para de inventar argumentos, está sendo até engraçado. Você conseguiu agendar a reunião do chá de bebê da Lua e do Max para semana que vem? Eu marquei com Shay na sexta às três, você faz home office essa semana, não é?
– Espero que sim – murmuro, pensando na fúria que Lauren virá para cima de mim na próxima semana. – Quero dizer, claro – me corrijo ao ouvir os resmungos da minha irmã. – Mesmo que eu trabalhasse, eu daria um jeito – ouço o som da campainha do quarto e estico meu pescoço, como se pudesse ver através dela quem era. Por fim, me levantei com o celular em mãos, ouvindo Céci falar o quanto esperara pela primeira prova do vestido, que havia avisado com antecedência e todo um blábláblá que eu não prestei atenção ao ver parado do outro lado da porta. – Céci, tenho que desligar, vou fazer uma apresentação agora – corro para dentro do banheiro, onde vejo o estado do meu rosto, cabelo, roupa. – Não se preocupe, estarei sexta às três em ponto na loja para a sua prova. Te amo, irmãzinha – e sem ouvir qualquer protesto, desliguei a ligação. – Droga – murmuro. – Quem é? – grito, para ganhar tempo.
– Eu.
Eu? Mas que diabos de resposta é essa? Eu, quem? Ele não poderia pensar nem um pouco no que seria apropriado dizer?
– Só um minuto – falo, tentando não parecer desesperada. Prendo meu cabelo em um coque malfeito, passo uma base no rosto só por precaução e um batom cor de boca para não parecer que meus lábios estão secos. Por sorte não havia trocado a roupa que havia saído mais cedo, por isso não precisei me preocupar com isso.
Ao abrir a porta, parecia... Normal. Não normal, irritado ou pronto para fazer algum comentário maldoso. Não estava com uma pasta em mãos, o que significava que não havia trazido trabalho para mim. A roupa era casual ao invés de seu uniforme de trabalho; até os cabelos estavam mais naturais, sem todo aquele gel deixando-o engomado. Uma vista para se apreciar. Sua expressão mostrava que não havia nada de especial vir até meu quarto e surgir com algum assunto.
– Boa noite – ele começou a conversa. – Espero que não esteja trabalhando – olhou para um ponto atrás de mim, onde ao fundo era exatamente a mesa que vinha usando para trabalhar. Nela, o notebook estava aberto e ligado, mostrando que eu talvez estivesse trabalhando.
– Ah, hum. Não, eu... Talvez tenha enviado alguns e-mails para Lauren, mas nada demais. Estava mais verificando a minha agenda porque minha família, bem... Você sabe. A propósito, obrigada por cuidar das reservas. Céci acabou de me dizer – apontei para o telefone em mãos. – E pelo café da manhã. Ele foi... Delicioso. Obrigada por ele também.
Deus do céu, como eu consegui fazer isso parecer uma conversa entre Lana e Klint, eu não sei.
– Então devo considerar que minhas desculpas foram aceitas – ele abriu um pequeno sorriso.
Parte de mim entrou em pânico. Aquele sorriso nunca significava coisa boa. Primeiro que sempre que aparecia, permanecia cravada em meus pensamentos por dias; segundo que era um sinal de que seu verdadeiro ‘eu’ estava voltando à tona.
– Eu prefiro um pedido de desculpa verbal, afinal, não sei quão verdadeira ela foi, quando escrita em um cartão – ergui meus ombros, tentando parecer despreocupada. Ele jamais saberia que o cartão será guardado como prêmio meu.
manteve O sorriso em seu rosto e então começamos nossa competição sobre quem desvia o olhar do outro primeiro. Desta vez, venci.
– Qual a sua programação para o jantar? – ele olhou em seu relógio. – São oito horas.
– Oito? – olho no visor de meu celular. – Ah, bom. Serviço de quarto era minha programação.
– Ótimo. Consegue descer em meia hora?
– Meia hora? – arregalo os olhos. estava me chamando para um jantar de pedido de desculpas. É claro que eu conseguiria. Se ele me pedisse para me trocar no mesmo momento, eu conseguiria. – Acredito que sim – respondi.
– Estarei esperando no hall então – e se afastou com sua pose habitual; as mãos nos bolsos da bermuda de linho, deixando seus ombros parecerem ainda mais largos, assim como suas costas. – Ah – virou-se, não parando de caminhar até a área dos elevadores. Possuía aquele sorriso que me atormentava nos lábios, e em conjunto, os olhos azuis brilhavam de uma maneira que até Jacqueline abriria uma exceção. –, vista algo leve.
Fechei a porta devagar, segurando meus ânimos. Esse era um encontro de verdade então. Quero dizer, poderia pensar dessa maneira, se quisesse. me chamou para jantar e pedir desculpas por seu comportamento ridículo na noite passada. Eu não teria problemas em abordar o assunto do casamento de Céci e nós não abriríamos a terceira guerra mundial, como aconteceu em todas as vezes que ficamos no mesmo espaço por mais de 30 minutos.
Foi sorte eu ter saído com Amy e Lana para fazer compras durante a tarde. Caso contrário, eu estaria bastante desesperada, já que a única roupa que havia trazido era o vestido que usei na primeira noite. Agora, com novos vestidos e novos sapatos, tomei uma ducha rápida para perfumar o corpo, pus uma maquiagem básica para não mostrar minha preocupação em estar linda de morrer, e um salto leve. Ao terminar toda a arrumação, olhei no relógio e vi que o prazo de meia hora estava para acabar. Abri minha nécessaire de joias e pensei em qual usar. Para um vestido de seda, peças delicadas são boas, mas as robustas podem dar um ar mais moderno e descolado. Coloquei um colar de quartzo rosa com a finalização feita em ouro; uma pulseira da mesma coleção e, por fim, quando pegava o brinco para combinar, minhas mãos foram direto nos de ouro, o mesmo que usei na primeira noite e que significava muito para mim. Me olhei no espelho, incerta se deveria dar esse passo. Pessoalmente, usar essa peça consciente era um sinal de que eu estava interessada em .
Caminhei de um lado para o outro, gastando os minutos finais do prazo pensando se deveria ou não ir com eles. Nunca fiquei tão incerta sobre o uso de uma joia, e quisera eu que fosse por causa da combinação. O meu buraco era mais em baixo.
Por fim, na pressa, decidi que seria isso mesmo. Se não fosse um cavalheiro e acabássemos discutindo, o brinco não teria valor simbólico nenhum e eu me desapegaria dele de uma vez por todas.

estava, como combinado, no hall de entrada. Com as mãos nos bolsos, olhava para a vista fora do hotel, onde turistas passavam em grupos, casais ou sozinhos, aproveitando a noite que, mesmo numa terça-feira, era tão agitada quanto sábado. Via as pessoas que o conheciam parar para cumprimenta-lo ou passar o encarando, na esperança de serem reconhecidas, mas isso nunca aconteceria, porque é . A não ser que você seja alguém importante para a lucratividade dele, ele jamais fará questão de decorar seu nome.
Caminhei lentamente até ele, imaginando a cena do Titanic em que a Kate Winslet e o Leonardo DiCaprio se encontram na escada do relógio. parecia o Leo; a diferença é que ele não parecia se esforçar em parecer um cavalheiro. Ele exalava cavalheirismo, e essa era a razão para a maioria das mulheres o olharem com cobiça.
– Desculpe o atraso – falei atrás de si, chamando sua atenção.
Uma leve satisfação percorreu meu corpo assim que vi suas sobrancelhas se erguerem em surpresa. Os milésimos de segundo passaram como longos minutos em que pude me regozijar no prazer de ter um vestido bom para a ocasião.
– Para quem só tinha trinta minutos para se arrumar, você se saiu muito bem, – em outras palavras, eu estava bonita. Ótimo.
– Não foi fácil me virar com o que tinha, mas obrigada. Fico mais aliviada – sorrio.
– Um carro está nos esperando, venha.
Tentei não parecer surpresa quando ele ofereceu o braço para que eu pudesse apoiar minha mão. Era a primeira vez que tocava ali desde aquele dia no Hard Rock Café com meu pai. Saber que não era atuação dava um frio na barriga maior do que esperar que ele concordasse comigo quando o chamei de “querido”.
O carro nos levou até um restaurante ao ar livre. Eu nunca imaginaria que St. Barth teria um lugar assim, reservado, fino e ao mesmo tempo confortável. Este é o tipo de local que só quem cresceu na elite Nova Iorquina, californiana ou vindo de Miami conheceria. Quando paramos na entrada, fomos recebidos pela equipe de recepção, com bandejas de canapés e taças de champanhe geladas para nos deliciarmos até o caminho à nossa mesa, próxima ao mar.
As mesas eram posicionadas tão afastadas uma das outras, que não havia tempo para prestar atenção ou querer saber mais sobre o que as pessoas do lado conversava. Coincidentemente, apenas casais se encontravam sentados nas mesas ocupadas e as demais vazias, também já reservadas, possuíam duas cadeiras, o que significava que esta era uma noite de flertes, romance e, com sorte, finais felizes.
– O que achou do lugar? – perguntou, depois de ter feito a escolha do vinho. – Eles possuem um menu próprio, há algo que você seja alérgica?
– Nada – balancei a cabeça e olhei ao redor. – É aconchegante – sorri. – As pessoas falam baixo e a música não me parece alta quando estamos do lado de fora, mas aqui dá para se ouvir muito bem. O contraste com as ondas batendo nas pedras também é magnífico – me curvei para perto da sacada que separava nossa mesa, do mar, mas não enxerguei nada mais do que as pedras e a água escura iluminadas pela luz da lua. – Esse é um lugar difícil de imaginar, porque parece perfeito.
– Ele é muito bom. O chef é um amigo meu, estou devendo essa visita há anos – ele olhou ao redor.
– Então é sua primeira vez aqui?
Ele virou seus olhos em minha direção assim que ouviu minha pergunta. Se fosse esperto, o que sabia que era, entenderia que eu queria saber se ele já havia trazido outra mulher aqui, não questionando a qualidade da comida.
– Em um jantar acompanhado, sim.
Abri um pequeno sorriso, aprovando sua resposta. Ponto para , diria Lana.
– Céci me falou hoje sobre o que Taylor pediu – ocultei a verdade, vendo o olhar de me analisar à procura de evidências sobre meu blefe. Mas sou , filha de Lucy , que possuía o melhor detector de mentiras do mundo.
– Foi uma surpresa – ele disse.
– Eu sei, me desculpe pelo pedido.
– Por quê?
– Como? – o encarei, confusa.
– Por que está pedindo desculpas?
Não lhe respondi de imediato. Havia várias razões para eu me desculpar. Primeiro, pelo simples fato de que nada daquilo era uma verdade e que ele não era obrigado a passar por tudo.
– Porque eu comecei essa mentira – falei. – E você somente concordou—
– Nós fizemos um acordo – ele me cortou. – Se eu não quisesse—
– Você nunca concordaria, eu sei – finalizei. – Mesmo assim, não consigo deixar de me sentir ligeiramente culpada. Um casamento é uma cerimônia especial para o casal e eles estão convidando uma mentira.
não respondeu. Permaneceu me olhando, como se quisesse dizer algo imprudente que pudesse ser o estopim de uma nova discussão. Resolveu ficar calado, preso em seus pensamentos enquanto eu tentava desvendá-los. Olhei para o céu bastante estrelado e então para os lados, vendo quase todas as mesas que antes estavam vazias, ocupadas por casais de sorrisos apaixonados.
– Você pode me entregar a pasta do briefing – falei. – Mulheres prestes a se separarem, não é?
– Ótimo – apenas murmurou.
Voltamos ao silêncio, que começava a se tornar constrangedor. Um garçom passou para encher nossas taças com o vinho e outro para nos servir a entrada.
– O chef Fawell enviou seus cumprimentos e a entrada por conta da casa. Ele informou que virá, no fim da sobremesa, cumprimenta-los.
– Obrigado – fez o possível para não manter contato visual comigo durante o tempo em que os garçons estavam à mesa.
Iniciamos a refeição calados. O som das ondas quebrando nas pedras agora era tão alto que chegava a ser ensurdecedor. Olhei para , que mantinha seu olhar entre o prato e o local.
– Quando eu era pequena e meus pais tinham de me levar ao dentista ou para tomar vacina, eles me prometiam que em seguida me levariam a uma praia – comecei a falar, chamando sua atenção para mim. Por ele não ter assunto nenhum, decidiu manter-se calado, ouvindo. – No interior de Maine, o máximo que temos de praias é o que vemos no National Geographic, por isso, sempre fui fascinada pela vista e meus pais sempre souberam me comprar muito bem – solto uma risada que saiu mais graciosa do que imaginava.
– Por isso você mudou para uma cidade que é uma ilha? – ele brincou e acompanhou meus risos.
– Faz sentido, não é? – comentei. – Mas não... Manhattan é um lugar que as pessoas não apreciam a vista do mar. Elas veem arranha-céus, letreiros e monumentos.
– Por que você escolheu Manhattan?
– Hum – olhei para cima, pensativa. – Eu só queria fugir da minha cidade, da minha família. Para mim, ficar lá sob os olhos de todos, seguir um protocolo hereditário... Essas coisas não combinam comigo. Você viu meus irmãos, um é tão acomodado que acabou tendo a vida mais tranquila possível. A outra é a favor dos protocolos. Ela só parece doce, mas é pior do que eu – solto uma risadinha. – A elite de lá é diferente da que vemos em Nova Iorque. Lá, as famílias seguem costumes que vêm dos tataravós dos pais, enquanto aqui todos têm suas próprias regras, contanto que continue rico.
– Sua família não me parecia...
– Rica? – concluí, vendo-o abrir um sorriso desconfortável. – Isso é culpa do meu avô, pai da minha mãe. Ele foi o que seria agora um novo rico em Nova Iorque; tinha medo de perder tudo o que lutou para conseguir, por isso era muito econômico. Não era extravagante e procurava usar o dinheiro para se viver bem, com luxo, mas sem luxúria.
– É possível? – ergueu as sobrancelhas, completamente absorto pela minha história. Se eu parasse para observá-lo agora, ele seria um homem completamente diferente daquele que vi pela primeira vez na farmácia, com um pacote de absorventes em mãos.
Ergui meus ombros enquanto bebia um gole do vinho para umedecer a boca.
– Para ele era. Isso acabou influenciando no modo de vida da minha mãe e do meu pai, que sempre foi um homem que respeitava as pessoas, e era enganado por elas também. As regras do meu avô, que foram passadas para a minha mãe, falava que as mulheres nascidas na família deveriam seguir os passos da mãe, por isso Céci é formada em medicina veterinária. Minha mãe também era. Quando eu disse que não queria fazer esse curso, ela surtou. Meu avô surtou e meu pai acabou surtando também.
– Então você fugiu para Manhattan – ele disse e apontei o dedo, mostrando que havia acertado. – Sua mãe...         
– Minha mãe faleceu há dois anos de câncer. Agora que passou e olho para trás, me parece uma doença comum, já que tantas pessoas morrem dessa mesma causa todo tempo. Mas na época era como se fosse um raio que caiu em nossas cabeças duas vezes – mexo na comida, já fria, lembrando de todos os finais de semana que saía do serviço para ir a Maine visitar minha mãe, e quando ela recusou o tratamento em um hospital em Nova Iorque porque não queria morrer longe de sua cidade. Ela sabia que no final das contas, apenas traria mais trabalho e mais dor para nossa família em ter de transportá-la de volta para Maine em um caixão. – Eu e ela éramos pessoas de um mesmo polo, entende? Nós não podíamos ficar mais de alguns minutos juntas sem discutir.
– Por incrível que pareça, isso não me é estranho – ele comenta, me fazendo rir. – Se me permite perguntar, por que você não voltou para Maine depois que sua mãe se foi?
Suspirei, olhando para o céu. Observando melhor, ele parecia o céu que eu encarei até sumir pelo nascer do sol, em um dos últimos dias da minha mãe.
– Eu fiz uma promessa a ela – sorri. – E prometi a mim mesma que não contaria a ninguém até que ela fosse realizada. Dizem que falar atrai mau agouro.
– Não farei a pergunta fatídica então – ele encostou em sua cadeira.
– E agradeço, senão teria de mentir para você – sorri, vendo seus olhos brilharem novamente. – E você? Nenhuma história?
– Minha vida foi mais pacata do que as pessoas imaginam – ele soltou o ar e pendeu a cabeça para trás por alguns segundos. – Eu cresci em uma escola interna na Itália. Entrei com 7 anos e saí com 16, quando fui para a Inglaterra, estudar em Oxford.
– Você é formado em Oxford? – abri a boca.
– Administração internacional, sim – ele disse, não muito animado. – Era um protocolo que deveria seguir, você entende. Eu escolhi lá porque não queria voltar para Nova Iorque e encontrar meus pais. Nunca tive um relacionamento familiar com eles. Quando voltei, meu pai estava para sair de casa e minha mãe ficava enfurnada dentro de seu escritório ou na empresa.
– Uau – abri a boca. – Você os odeia?
– Tenho motivos para odiá-los, mas não os odeio – ele pegou a taça e começou a mexer nela enquanto pensava em seu passado. – Eles nunca fizeram nada para me machucar. Me mantiveram longe de todo o caos da fofoca dessa sociedade que você conhece, pagaram todos os estudos que quis me dedicar e nunca me fizeram passar vergonha.
– Você voltou para Nova Iorque para tomar o lugar da sua mãe – concluí, mas ele negou com a cabeça.
– Eu voltei porque estava em um negócio novo. Klint veio comigo e Jordan voltou mais cedo. Foi uma sociedade interessante, mas éramos novos e em questão de três anos, fomos esmagados pela crise. Pessoas ricas também perdem – ele me encarou de uma maneira que não pude deixar de abrir um sorriso. – Era uma empresa de jogos. Na Inglaterra, nos dias que eu não ficava imerso nas contas, Klint nos livros de legislação e Jordan nos códigos, nós jogávamos RPG e videogame.
– Sem festas? – tentei não soltar um tom irônico, mas não foi possível. trocando noite com os amigos, a festas europeias? Mesmo?
– Haviam as festas, sim – ele concordou. – Mas se somarmos o tempo de diversão das reuniões de jogos e das festas, os jogos ganham.
– Agora isso é uma novidade que me choca – apontei para ele, vendo-o rir.
– O que se espera de uma pessoa que tem como amigos um nerd e um advogado?
Paro para pensar. Fazia sentido. Jordan nunca me pareceu uma pessoa que gostava de festas e Klint é tão reservado que às vezes acho que ele é uma pessoa muda.
– Por sorte, Jordan trabalhav no Google ao mesmo tempo em que ajudava a dirigir nossa empresa, minha mãe não parava de me mandar trabalhos da para eu tomar conta e Klint conquistou dezenas de clientes durante os dois anos em que estivemos abertos. Decidimos, então, continuar aqui nos Estados Unidos.
– O fato de trabalhar com a sua mãe não os reaproximou?
Assim que perguntei, vez um barulho com a boca que foi resposta suficiente.
– Eu e minha mãe somos pessoas de um mesmo polo – me explicou, usando meu argumento. – Por sorte, somos também pessoas de negócio. Ela sabe que precisa de mim para tocar a empresa, e que se não fosse por ela, eu seria um rico desempregado.
– E por que você me pede desenhos que não entrarão para a ? – apoiei meus cotovelos na mesa assim que os garçons retiraram nossos pratos. permaneceu me encarando por um tempo, até apoiar seus braços na mesa, inclinando-se levemente:
– Esse é um segredo que eu apenas divulgarei quando ele realizar. É mau agouro falar antes.
Soltei uma risada, descrente. Ele estava tão inserido em nossa conversa, que usava meus argumentos para benefício próprio.
Entramos em um silêncio que, diferente do anterior, valia mais do que palavras. Nossos olhares permaneceram fixos no outro até o chef Fawell se aproximar para nos cumprimentar. Os dois permaneceram longos minutos conversando enquanto eu fingia prestar atenção na conversa, quando apenas observava o semblante de . Ele sorria como um homem que não vê um amigo há anos. Seu corpo está relaxado, os dentes, brancos e retos, combinavam perfeitamente com seu rosto grande e olhos azuis. Seus braços pareciam maiores, principalmente com o enorme relógio de prata da própria . Não usava anéis, nem pulseiras, o que mostrava o valor da marca para ele. De vez em quando, por estar sem o gel nos cabelos, deslizava as mãos para retirar os poucos fios que caíam de volta à frente do rosto, um movimento que o via realizar em câmera lenta, como se fosse um modelo em comercial.
A conversa finalizou e saí de meu transe, me despedindo do chef, que nos acompanhou até a porta. disse que sua secretaria realizaria o pagamento e Fawell pediu que não se preocupasse. No fim, descobri que foi o próprio quem havia aberto o lugar para o amigo, há quatro anos.
– Que tal uma caminhada? – ele perguntou. – A não ser que queira voltar para o hotel – olhou para meus pés em cima do salto.
– Eu uso um salto desse todos os dias para ir à empresa, . Posso correr uma maratona com eles – olhei para os lados. – Para onde?
– Venha – ergueu seu braço como fez quando estávamos vindo do hotel e pude mais uma vez sentir seus músculos dos bíceps. Eles eram enormes e não pareciam possuir nem um resquício de gordura. – Como foi seu primeiro dia de folga?
– Revigorante – respondi. – Não me lembrava como é ficar sem desenhar um dia inteiro, quando o tenho livre.
– Isso não faz bem para a mente? – ele me encarou. Olhei para os lados, onde alguns homens não disfarçavam nos seguir com as mãos pendentes ao lado do corpo. – Não se preocupe, são seguranças.
– Ah – olhei mais uma vez, e agora os tais me pareciam mais, hum, inofensivos. – Não sabia que você precisava de seguranças.
– Eu geralmente não preciso, mas é porque não tenho o hábito de andar a pé.
– Ah. Claro. Nova Iorque – soltei uma risada. – O que você faz nos seus dias de folga?
– Meus dias de folga são sempre nos mesmos dias que os de Jordan e Klint. Nós costumávamos utilizá-los para a noite de jogos, mas parece que eles foram diminuídos para somente uma vez por semana.
Assim que ele comentou a nova regra na vida de seus amigos, logo Amy e Lana surgiram em minha mente. Abro um sorriso sem graça e mexo em meu cabelo, que esvoaçava com o vento.
– E agora você usa os dias que eram dedicados aos seus amigos para...
– Para cuidar de minha própria vida? – ele me cortou, evitando mais uma indireta. Olhei para seu rosto e seus olhos encontraram-se nos meus. – Sim, está certa.
– Que bom – comentei. – Porque homens que sabem cuidar de suas vidas são mais respeitosos.
– É mesmo? – seu sorriso irônico surgiu e não pude deixar de ter a sensação de que vinha comentário por aí. – Você achava que eu não era um homem respeitoso?
– Bem – olhei para o lado. – Que tal uma caminhada na praia? – aponto para o lado, desconversando e, antes dele tentar puxar o assunto, caminhei apressadamente até o início do trajeto na areia, tirando minhas sandálias. – Estou surpresa que não pegamos um dia de chuva até agora.
– Apesar dessa época ser propícia a chuvas, esse mês geralmente é seco em Saint Barth – ele comentou ao meu lado. – Por que você quer tanto fazer a coleção de 50 anos da ?
Olhei para ele, esperando que estivesse tentando abrir uma discussão, mas assim que meus olhos colidiram com os seus, pude ver que sua curiosidade era algo pessoal e de momento. Não saberíamos quando teríamos um momento de descontração como esse, então acredito que fizemos um pacto de que diríamos qualquer coisa sobre nós, mesmo que fosse um resgate doloroso do nosso passado.
– Eu vim para Nova Iorque para ter um diploma. O que eu faria depois que conseguisse ele, não sabia – olhei para as sandálias em minhas mãos, que brilhava mais com a luz do luar. Haviam pessoas na praia. Paquerando, jogando futebol noturno ou apenas aproveitando a vista. – Amy e Lana estavam começando suas carreiras atuais e tendo sucesso; via suas animações e as invejava. Também queria ter algo em que me focar. Quando me dei por mim, passava horas vendo fotos de joias e tentava desenhá-las em meu tempo livre. Naquela época, ainda discutia muito com a minha mãe. Foi em uma das brigas que ela me disse que tudo seria mais fácil se eu ganhasse dinheiro com meus desenhos, para que pudesse saber o valor da economia – abri um pequeno sorriso. – A partir daí, me peguei pesquisando as empresas de joias, tentava desenhá-las e fazer pequenas mudanças. A tinha meus designs favoritos, mas sempre imaginava algo diferente toda vez que os via. Foram esses desenhos modificados que coloquei no para-brisa do carro da sua mãe – ouvi sua risada ao meu lado, me fazendo rir também. – Ela foi gentil em me ensinar tudo o que eu sei, e o que não cabia ela me ensinar, me enviava para congressos e indicava cursos que meus pais pagavam contra vontade. Acho que andei tanto com sua mãe naquela época, que acabei tendo esse mesmo sonho dela.
Caminhamos alguns metros calados. Durante o percurso, me lembrava de todas as lições que Barbara me ensinava e as broncas que recebia. No início pensava em desistir, porque ela era exigente demais. Depois de um tempo com ela, percebi que as broncas, na verdade, era para o meu bem.
– Você parece ter se dado melhor com a minha mãe do que eu – de repente disse.
Olhei para ele, que parou de caminhar para encarar o mar ao nosso lado. Parei um pouco à frente para observá-lo com as mãos nos bolsos. O brilho de seus olhos não eram lágrimas de tristeza, nem de felicidade, mas da relembrança de possíveis situações em que precisou de um pai ou uma mãe para contar e não os teve ao seu lado. Será que Barbara compareceu à sua formatura? Ele havia feito o curso que ela queria, afinal. Meus próprios pais foram no meu, visitando Nova Iorque pela primeira vez.
Algo em meu estômago embrulhou. Inicialmente, pensei que fosse a comida, mas minha mente tirou a possibilidade assim que pude ver os lábios de . Eles não estavam cerrados, mas não pareciam alegres. Se a vida dele foi naquele internato na Itália e mais tarde nas dependências de Oxford, então não houve espaço para ele aprender mais sobre o carinho familiar.
Sem tomar conta dos meus próprios pés, caminhei até sua frente, tirando a atenção de seus olhos do mar, para mim. Não encarei seus lábios, agora que tínhamos a atenção do outro. E não senti nenhuma tensão sexual rolar entre nós dois.
Ali, naquela praia iluminada pela luz do luar, com uma brisa vinda com a maré, rodeada de alegria de casais e amigos se divertindo, não me parecia um completo canalha que imaginava antes. Depois de toda a conversa que tivemos, para mim, ele era só mais um ser humano que não sabia amar, porque nunca foi amado.
De repente, eu queria lhe mostrar um lado da vida que ele provavelmente desacreditava. Ao encarar seus olhos, vi que era aquilo o que ele também desejava saber.
Foi por isso que tomei a iniciativa de beijá-lo.

Capítulo 09

O gosto do vinho ainda estava em sua boca. Se eu tivesse visitado a Itália, com certeza fechando os olhos, conseguiria relembrar os vinhedos exorbitantes que o país possui. Quando ouvia, na época de escola, as garotas de minha sala que beijaram antes de mim dizerem que a língua dos garotos eram ásperas, sempre dei atenção ao toque, mas nunca no momento do beijo. Com , apenas pensei que elas estavam erradas. Sua língua era macia e firme, massageava a minha com tanta precisão e força, que ninguém jamais imaginaria que um doce beijo teria aquela intensidade. Assim que toquei seus lábios, ele demorou um tempo para se recompor, mas quando o fez, suas mãos circundaram minha cintura e pressionaram o local para que eu desse um passo mais próxima dele, acabando com qualquer espaço existente entre nós. De acordo com que o beijo acontecia, suas mãos subiam minhas costas e às vezes sentia uma delas acariciar minha nuca, enquanto eu dividia as minhas entre tocar seus braços, abdômen e ombros.
Não posso dizer que nunca imaginei como seria beijá-lo. Para dizer a verdade, todas as vezes que ele me parecia atraente – a grande maioria, ou quando eu não estava o odiando por ter feito algo que não gostei –, me perguntava sobre seu beijo. Agora que a ação se tornou realidade, entendi porque em alguns países esse tipo de afeto é contra lei em público. sabia exatamente onde tocar, como tocar e a melhor intensidade. O movimento de seus lábios e línguas – que quando dei por mim, apenas o obedecia – variavam entre lento, muito lento e de tirar o fôlego, fazendo com que ondas de calor percorressem meu corpo. Era como se ele soubesse exatamente como prolongar um beijo.
E então ele chegou ao fim. Ao nos separarmos, percebi que estava em seus braços, com minhas mãos apoiadas em seu peitoral. A primeira coisa que vi foram seus lábios inchados e nunca tive tanta vontade de voltar a senti-los. Dizem que quando sabemos da sensação é que sentimos faltam; uma suposição corretíssima.
Ergui meus olhos até encontrar os seus. Não me deparei com uma expressão serena, nem apaixonada como acontece nos filmes de romance. estava sério, mas não se moveu um centímetro para me largar. Seus olhos olhavam toda a extensão do meu rosto, mas não se desviavam para outro lugar. Parecia-me uma luta de opostos.
Aguardei pacientemente ele tomar uma iniciativa. Imaginava que fosse me soltar e começar a falar no erro que cometemos, já que temos posições opostas na empresa e que seria um motivo a mais para as pessoas falarem. Entretanto, nada disso aconteceu. Não houve troca de palavras. simplesmente aproximou seu rosto do meu e voltou a me beijar. Dessa vez, eu quem demorei para reagir. Sua ação foi inesperada, mas muito bem-vinda. Vi seus olhos se fecharem para aproveitar nosso segundo beijo e a combinação de seu rosto com o céu estrelado atrás de si me parecia, sim, uma cena de filme.
Ousei levar minha mão até seu rosto, onde iniciei uma carícia que o fez apertar-me ainda mais contra si. Parecia que estávamos presos entre quatro paredes sem poder nos mover. Tudo o que se mexia até então, eram nossas mãos no corpo do outro, os lábios e as  línguas, num beijo sem fim.
Foi somente depois de vários minutos, quando a bola de futebol dos garotos que jogavam mais à frente veio parar em nossos pés, que obrigamos a separar-nos para que devolvesse com um chute desajeitado. Ele passou a mão no rosto antes de olhar para mim. Limpou a garganta e olhou para o lado, sem saber o que fazer:
– Esse é o momento para você falar sobre o que aconteceu – digo, achando um tanto charmoso o desconcerto dele. – Ou está arrependido?
– Aparento estar arrependido? – seu tom frio saiu de maneira tão repentina que até mesmo ele se surpreendeu. Ao ver minha reação contrária, afastando-me dele, teve de se recompor rapidamente – Desculpe.
– Você está se desculpando muito hoje, .
– Você deveria agradecer, não tenho o costume de fazer isso com frequência – me olhou sério.
– Eu devo agradecer?
Eu sabia que estava tendo um problema com sua própria personalidade. Se ele nunca se interessou por uma mulher, talvez não soubesse como se comportar bem em frente a uma. Não que ele esteja interessado em mim, mas convenhamos, aquele beijo falou mais que palavras.
Ficamos calados porque ele não queria abrir a boca para soltar mais uma pérola e eu queria ouvir dele tudo o que estava sentindo. Os homens geralmente são sempre assim: eles fingem ser arrogantes, mas dentro de si ainda são imaturos suficiente para baixarem a bola em uma situação de desconcerto. tentava manter sua postura séria, mas não queria me ofender. Eu poderia ficar observando-o assim a noite inteira, já que sei que independente do que decidirmos fazer, ele voltará à maneira anterior.
– Você está interessado em mim, não está? – perguntei, com um sorriso maroto no rosto. É claro que ele não deixou passar, mas o que poderia fazer? Negar?
– Não fui eu quem iniciei o beijo.
– Da primeira vez, você quer dizer – o corrigi, vendo-o limpar a garganta. Soltei uma risada e me coloquei ao seu lado, de frente para o mar.
– Qual a graça? – ele perguntou.
– A graça é ver uma pessoa que me maltratou até agora não saber o que falar depois de termos nos beijado – digo, de bom humor. fez um som esnobe com a boca e respirou fundo:
– Você acha que eu te maltratei todo esse tempo? Foi assim que você interpretou?
– Como você interpretaria? – o encarei. – Todas as vezes que ficamos juntos, trocamos tiros como se estivéssemos em uma guerra de egos. Você quis me dar dicas de como jogar sujo com as pessoas e só porque disse que não era do meu feitio, riu de mim.
– Eu não ri de você.
– Você disse que eu jamais chegaria aonde queria sendo honesta! – o encarei.
– Porque é uma verdade – ele virou seu rosto para mim. – Você acha que minha empresa afundou porque eu joguei sujo?
Me calei. Ele tinha um ponto em mãos.
– Éramos três jovens, mas jovens ricos. Herdeiros e sem medo de gastar toda a grana para fazer mais grana – virou seu corpo para mim, enquanto cruzava seus braços, deixando-os ainda maior. – , você não sobrevive se não jogar sujo. Não em Nova Iorque. Não com toda a corrupção. Por que você acha que os pobres continuam pobres, e os ricos se tornam mais ricos? Porque Deus quis assim? – ele disse, com ironia em sua voz. – Não, . Os menos afortunados quem são honestos e trabalham em dois, três empregos para sustentar uma família, enquanto os ricos passam ¾ do tempo gastando o dinheiro que tem e outro ¼ fazendo negócios clandestinos.
– Você é um deles, sabia?
– Mas você não me vê gastando todo o meu dinheiro com festas.
– Já com mulheres... – resmunguei. Pelo seu olhar, soube no momento que ele ouviu tudo.
– Que mulheres?
– Eu já disse, . As pessoas falam – o encarei. – Vai me dizer que você não sabe que todas as mulheres do mundo que o veem desejam dividir uma cama com você? Que não percebe o olhar que todas as mulheres da empresa te dão quando você passa?
– E você percebe? Ou você também me olha dessa maneira? – ele abriu um sorriso. O encarei, séria e ameacei me afastar, sendo logo segurada pelo antebraço. – Foi uma brincadeira, você sabe.
– Eu não perco o meu tempo olhando para um homem que todas as mulheres querem e você sabe disso – apontei para ele, que logo revirou os olhos. – É isso mesmo! Se você não tivesse aparecido no encontro às escuras de Jordan e Amy, nós jamais teríamos qualquer intimidade.
– E você se arrepende?
Sua pergunta foi a chave para me deixar sem saída. Vi sua expressão séria e não soube o que falar na hora. Ele estava tão calmo e fazendo comentários brincalhões que eu me esqueci sobre sua verdadeira personalidade.
Cruzei os braços e murmurei:
– É claro que não.
– Então não há motivos para reclamar – ele finalizou nossa discussão em seu sempre manjado tom de macho alfa. – Só estava tentando lhe dizer que você não chegará no lugar que quer sendo uma simples funcionária.
– O que você quer que eu faça então? Peça a você para demitir Lauren e me colocar em seu lugar? Que me dê mais coleções importantes?
– Eu já te dei uma coleção importante, – ele mencionou, paciente, me lembrando do deslize cometido por Lauren e Erin, que foi colocado em minhas mãos. – Eu, obviamente, não irei falar para você me usar, principalmente porque não sou uma pessoa fácil de se lidar – a vista para o mar de repente sumiu do meu campo de visão, quando se pôs em minha frente. Ele abaixou seu rosto até a altura do meu e com nossos olhos grudados e lábios quase se tocando, disse: – Mas seria um bom começo.
Ele não me beijou como achei que iria. Tampouco se afastou. Permaneceu naquela mesma posição por longos minutos, testando minha paciência. Com a proximidade, mal conseguia pensar. Tentei não encarar seus lábios, pois sabia que se o fizesse, seria o fim. E como uma pessoa boa em descumprir combinados consigo mesma, meus olhos desceram até os lábios ainda inchados de , o que me fez perder a resistência, acabando com o espaço restante entre nós.
Pouco nos importava se estávamos na praia ou próximos à calçada, onde dezenas de pessoas passavam conversando. Ninguém me julgaria se eu lhes contasse nosso histórico de relacionamento; além do mais, é tão bonito, que aposto que qualquer mulher sentiria, no mínimo, muita inveja por eu estar presa nos enormes braços dele, banhada pela luz do luar e ao som das ondas do mar quebrando.
Assim que o beijo terminou, ele fez questão de encarar meus olhos e abrir um sorriso que não era nem maroto, nem tranquilo. Era apenas... . O olhar de ser. Nos afastamos e nossas mãos se uniram, os dedos entrelaçados enquanto caminhávamos até o hotel à beira-mar.
Amber provavelmente brigaria comigo por ter beijado logo quando ela decidiu sair da empresa.

foi exatamente como um cavalheiro deveria ser. Assim que chegamos ao hotel, ele me acompanhou até meu quarto, onde trocamos mais alguns beijos e não me pressionou a convidá-lo a entrar, nem mostrou querer ir para a cama comigo.
Assim que a porta se fechou atrás de mim, encostei nela com minhas pernas trêmulas, sem saber o que fazer. Em seguida, corri até minha cama onde me joguei e tirei o celular da carteira, vendo mensagens de Amy e Lana no Whatsapp pedindo detalhes do encontro. Comecei a digitar fervorosamente e, por incrível que pareça, mesmo sendo quase duas da manhã, as duas ainda estavam acordadas – e não transando com seus namorados.
 

Adivinha quem beijou essa noite? :D
Lana Menger
Você está brincando? São duas da manhã, o que está fazendo com celular na mão? Ele gozou rápido, foi? Ou foi você?
Lana Menger
Me diga que foi vocêe usarei esse fato como chantagem todas as vezes que não quiser fazer o que eu pedir.
Amy Steins
Lana, pare de ser tão você! não precisa transar com no primeiro encontro dela! Existem pessoas assim, sabia?
Lana Menger
Não sei por que você está se ofendendo, se nem VOCÊ passou a noite do primeiro encontro sem transar.
Lana Menger
Ou você e Jordan ficaram conversando a noite inteira?

Não sei por que não tive vontade de transar com ele essa noite. É claro que tive atração e tudo mais, mas acho que nosso papo era tão pessoal e envolvia tantos sentimentos que acabei me focando neles ao invés do corpo dele.
Amy Steins
OMG! ELE SE DECLAROU PARA VOCÊ? :OOOO
Lana Menger
Gay.

Não foi bem uma declaração, mas não acho que muitas pessoas saberiam de grande parte do assunto que eu e ele conversamos essa noite. Foi muito legal.

Lana, faça-me o favor e cale a boca. não é gay por não me fazer transar com ele em nosso primeiro encontro que, a propósito, não discutimos feito cão e gato. Klint está disposto a pintar a casa inteira dele de rosa para fazer você se mudar para lá, peloamordedeus!
Lana Menger
Com licença??? Quem é a protagonista da conversa???
Amy Steins
, mudar-se para a casa do namorado não tem nada de errado. Lana acabou de superar um nível difícil da vida dela, vamos apoiá-la, sim?
Lana Menger
Exatamente. É disso o que eu preciso. Apoio. Rs.

Como eu estava dizendo. Nós dois estávamos em algo legal. E foi melhor que não acabamos transando, porque pareceria como as outras mulheres da vida dele.
Lana Menger
“Mulheres”, você quer dizer. Uma é casada, a outra jogava no mesmo time dele e vai saber quantas mais ele tem no histórico...
Amy Steins
Hahahahahahahahahaha!

O QUE IMPORTA é que ele me respeitou. Quantas vezes esperamos esse respeito dos homens e não os temos?
Lana Menger
Nunca. Nós sempre nos preparamos para terminar a noite transando. É o que faz valer a pena, querida, lembra?
Amy Steins
Não ligue para ela, . Você sabe que não é verdade. Há pessoas que sabem amar.

Aught
Lana Menger
Vamos deixar claro uma coisa aqui, Amy. A vadia desse trio sou eu. Mais de uma será um grande problema.
Amy Steins
ENFIM
Amy Steins
Fale sobre o encontro, !

Bem...
Lana Menger
Nós não podemos nos encontrar amanhã e colocar esse papo em dia? Klint está saindo do banho e alguém nesse grupo tem de transar essa noite ou será uma noite perdida para nós.
Amy Steins
Lana, o que nós falamos sobre deixar as amigas para segundo plano?
Lana Menger
Eu não estou deixando para segundo plano. Ela sempre foi meu primeiro plano, assim como você, ou eu teria vindo para a maravilha de Nova Iorque sozinha. Eu apenas estou priorizando o sexo, visto que são duas e pouco da manhã e eu passei a tarde inteira fazendo compra com vocês.

Lana, se eu não conhecesse tanto você, juro que iria odiá-la.
Amy Steins
Eu não preciso desconhecê-la para odiá-la de vez em quando.
Lana Menger
O que nós falamos sobre ser má, Amy?
Lana Menger
Que bom que vocês me conhecem, queridas, por isso sei que não ficarão bravas em me ver saindo deste chat agora. Beijinhos!
Amy Steins
Ela não vai realmente sair, vai?

É claro que vai, Amy. Você não viu? Ela usou o ponto de exclamação.
Amy Steins
Ah. Sim, é verdade. Bem, se você quiser conversar, posso te ouvir.

Nah, Lana tem razão. Vá transar. Você ainda precisa fazer isso, tipo, 32582974239 vezes para conseguir quitar o atraso.
Amy Steins
Você é muito engraçada, . Faça isso na frente de e levará um belo chute na bunda.

O que Lana falou sobre ser má, Amy?
Amy Steins
Cale a boca.
Amy Steins
Boa noite, . Te ligo amanhã para combinarmos de almoçar ou tomar um café juntas.

Café, por favor. Quero ver se ele virá me chamar para o almoço. Ou será que não devo?
Amy Steins
Pelo amor de Deus, , até EU sei que ele deve ir até você. Fique tranquila. Ele irá. Tente dormir, faz bem para o corpo, principalmente para os olhos. Você sabe, sem olheiras.

Abri um pequeno sorriso depois da conversa ter finalizado. Mesmo não tendo falado quase nada sobre o encontro com , as discussões entre Amy e Lana sempre são revigorantes. Como o sono não estava nem perto de me contagiar, me levantei para tirar a maquiagem do rosto e colocar o pijama.
Ao me olhar no espelho, havia um certo brilho a mais em meu rosto. Talvez fosse o meu sorriso. Meus olhos rapidamente pousaram nos brincos de ouro. Ele, de fato, era um amuleto. Retirei-os como se fossem relíquias e retirei os brincos de brilhante que eu havia comprado há alguns anos, mas que agora valiam muito menos do que os de ouro. Pelo menos sentimentalmente falando.
Depois de terminado toda a higiene da pele e me trocado, permaneci deitada em minha cama. Olhei meu celular dezenas de vezes para ter certeza de que ele não enviara nenhuma mensagem. realmente era uma pessoa diferente. Não recebi nem um ‘boa noite’, mas, por incrível que pareça, aquilo não me afetou nem um pouco.

Assim que acordei na manhã seguinte perto das dez horas, lembrei-me de tudo o que ocorreu na noite anterior e um sorriso tomou conta de meu rosto, aumentando a cada lembrança retomada. Suspirei enquanto pensava se foi ou não verdade, por isso, tive de ler as mensagens trocadas com Amy e Lana para ter certeza de que foi real.
– Você parece uma adolescente, . Amadureça um pouco – disse para mim mesma entre risos.
Pelo bom humor, levantei da cama, tomei um banho relaxante e me arrumei da maneira mais bonita e natural que conseguia. Esperei que me chamasse para um café, já que o horário do café da manhã havia acabado. Nada. Permaneci no quarto, como um cachorro à espera de seu dono. Ora sentada na cama, ora deitada ou então na sacada, observando o movimento na rua.
tampouco veio falar comigo na hora do almoço. Chequei meu celular tantas vezes que tive de tacá-lo longe para que pudesse parar. Quando o relógio marcou duas da tarde, ouvi o som do meu toque soar ao fundo e corri, pensando ser ele, mas era Amy.
Onde você está?
– No meu quarto – disse, mau humorada.
Ah... bem. não está com você?
– Amy. Eu não lhe darei o prazer de ouvir uma resposta grosseira.
Claro, claro. Que tal tomarmos um cafezinho? Você já almoçou, não é?
Olhei para as folhas de desenho que me obriguei a começar para que o tempo passasse mais rápido e um embrulho no estômago me lembrar que não havia comido nada até então.
– Já, onde você está? Vou praí.
Não! Eu vou até seu hotel. Lana não atende o celular, deve estar com Klint. Jordan tem de resolver algumas questões do trabalho via vídeo conferência, então disse a ele que estaria com você. Chego em quinze minutos.
Olhei em meu relógio, extremamente chateada. Ele deveria ter vindo falar comigo. Pelo menos um cartão? Uma mensagem? Um aviso! Coloquei um chapéu de aba longa que havia comprado no dia anterior e os óculos de sol, parecendo prestes a enfrentar um velório, se não fosse o short jeans curto e a camisa de linho bege.
Como combinado, encontrei com Amy no hall e decidimos ir até um café ali próximo. Amy não estava com uma boa expressão e com meus pensamentos em outro lugar, não me dei ao trabalho de lhe perguntar se estava tudo bem.
– Ele não veio falar com você? – Amy perguntou, chocada, depois que fiz o pedido de algo para comer e um suco natural. – Nada?
– Nada.
– Mas que otário! – ela deu um tapa na mesa, mais nervosa que eu. – Como pode ser uma pessoa tão bipolar?
– Estou me fazendo a mesma pergunta.
– Você enviou alguma mensagem para ele? – ela perguntou. – Será que ele está esperando alguma iniciativa sua?
– Ele é o homem, pelo amor de Deus! – ergo meus braços, desistindo de manter a compostura. – Eu já fiz o trabalho de roubar-lhe um beijo e agora tenho de tomar outra iniciativa em falar com ele? Juro que se esse for o caso, terei de concordar com Lana sobre ele ser gay.
– Gays não são...
– Eu sei, Amy! É apenas uma expressão – respirei fundo. – Bem, eu não vou mandar uma mensagem para ele, porque estou extremamente chateada de ter sido deixada de lado. Posso ter gostado do que rolou entre nós dois ontem, mas eu não irei ceder.
– Você tem razão – Amy segurou em minha mão. – deve ser homem o bastante para correr atrás de uma mulher. Se ele não sabe nem fazer isso, estará perdendo uma enorme oportunidade!
Meu corpo tremeu com a ideia de não poder mais beijá-lo. A verdade é que eu queria muito enviar uma mensagem a ele. Seja dando-lhe um bom dia ou perguntando se ele tem alguma programação no meio da tarde. Parte do tempo que gastei olhando para meu celular, foi tentando me convencer se deveria clicar no botão ‘Enviar’ ou aguardava a chegada de uma mensagem que nunca veio.
– Escuta – Amy falou, depois que o garçom deixou nossos pedidos. –, você acha que eu me mudar para o apartamento de Jordan é absurdo demais?
– Mas você não estava certa de que vai se mudar?
– Foi apenas uma cena para Lana parar de me amolar – ela balançou a mão, como se fosse normal fingir uma coisa para sua melhor amiga, apenas porque a conhece o bastante para evitar levar um sermão dela. – Eu quero muito morar com ele, mas...
– Mas... – a incentivei falar. Amy olhou para os lados. Sempre que ela faz isso significa que está prestes a fazer uma confissão.
– Às vezes sinto que eu não deveria investir muito em Jordan. Ele é meu primeiro namorado sério – ergo uma sobrancelha enquanto a ouço desabafar. – Eu sei, isso não algo que eu deva falar, mas de vez em quando sinto que devo passar por outras experiências antes de entrar em uma situação tão séria.
– Você quer dizer, ter encontros casuais? Sexo casual?
– Bem... É – ela concordou, seu rosto corando com a ideia.
– Não há mal nenhum você querer fazer sexo casual com outros homens, mas deve saber primeiro distinguir o que você sente por Jordan para então saber se vale a pena deixa-lo de lado para curtir uma aventura.
– Mas você não acha que é tarde demais para eu curtir uma aventura?
– Amy, pelo amor de Deus, você só tem 27 anos. Não é porque todas as garotas da nossa turma do colégio se casaram, que você também deve. Além do mais, devo lembra-la que a vida rotineira de Maine é diferente da que vivemos agora. Aqui as pessoas têm 50 anos e ainda estão solteiras E felizes.
– Você sabe que eu sempre sonhei...
– Com casamento e família. Eu sei. Mas você colocou à frente do seu sonho a ideia de ser uma mulher com uma carreira e independente, caso contrário, teria permanecido em Maine e tido o mesmo futuro que todas as outras garotas. Veja Céci, ela tem 24 e está para se casar. Casar! Com 24! Lembra quando nós tínhamos 24 e íamos naquele bar com show ao vivo para beber cerveja e rir das piadas dos poetisas?
– Isso não ajuda, ...
– Amy. Olhe. Nós somos pessoas diferentes. Você acredita no amor. Eu acredito em ser feliz comigo mesma. Lana acredita em ser feliz com sexo. É a vida. Não posso te falar para fazer algo que eu acho ser certo, porque para você não é, entende?
– Você não pode tentar olhar pelo meu lado? – ela mordeu o lábio.
Amy sempre foi uma pessoa insegura. Na verdade, ela sempre foi meio que uma irmã mais nova para mim e Lana, mas sempre gostamos muito dela porque era a pessoa que estava ao nosso lado quando entrávamos em uma encrenca ou precisando de nota para passar no colégio. Em sua própria maneira, ela nos salvava como nós a salvávamos.
Respirei fundo, concordando. Se ela precisava disso, então eu deveria ajuda-la. Jamais imaginaria que ela teria algum problema sobre esse assunto, mas é o que Nova Iorque costuma fazer com as pessoas puritanas.
– Jordan é a pessoa que você sonhou para si? Ele te respeita? Tem carinho? Já disse que te ama?
– Sim, sim, sim e sim – ela disse. – Eu o amo. Sei que agora ele é a pessoa certa para mim. Meu medo é chegar lá na frente e me arrepender de não ter tentado outros caminhos.
– E por que você quer tanto acabar com seu presente por causa de um futuro que mal sabe?
Minha pergunta lhe calou. Ótimo. Agora ela havia no que pensar. Bebi um gole do meu suco enquanto a via pensativa. Em seguida, olhei ao redor para ver o movimento do café, que não estava vazio, e, enquanto observava a movimentação na rua pela parede de vidro, pude ver o semblante de passar com uma roupa de passeio e uma mulher ao seu lado. Ele falava com um sorriso no rosto, como se estivesse aproveitando o passeio.
Semicerrei os olhos para ter certeza de que havia visto certo. Ao confirmar minha teoria, deixei o copo na mesa, terminando meu almoço. A fome tinha ido embora. Meu estômago, na verdade, começou a doer.
Lauren estava aqui e muito próxima a .

, o que foi? Pra quê a pressa? Você nem pegou o troco! – Amy corria atrás de mim na calçada.
Assim que vi e Lauren caminhando do lado de fora do café, tirei uma nota de cinquenta da carteira e a deixei em cima da mesa. Me levantei e saí com Amy atrás de mim me perguntando o que estava acontecendo. Eu estava cega. De curiosidade e de raiva. Não podia ser.
Eu não o encontrei em nenhum lugar, por isso, decidi voltar para o hotel com Amy. Ela pegaria um táxi de lá para voltar para Jordan e eu voltaria para meu quarto.
No momento em que entrei no ambiente refrescado por um ar condicionado potente no hall do hotel, ouvi a risada de Lauren e pouco mais à frente, seu perfil ao lado de conversando com um outro casal de pessoas que nunca havia visto na vida.
– Ah não – Amy disse ao meu lado. – Ela é...
– É – a cortei, impedindo de citar o nome de Lauren. – É ela.
– O que faz aqui? A folga não era somente sua?
– Eu também queria saber, mas não estou nem um pouco afim de falar com ela, tampouco com ele – falei, rancorosa. Permanecemos paradas próximas à porta do hotel até sermos tiradas do transe com o pedido de um funcionário do hotel em livrar o caminho para outros hóspedes.
No momento em que voltei meu olhar para e Lauren, o vi olhando para mim sério. Apertei os lábios, nervosa, e então cortei o contato entre nós dois.
– Vá, Amy, está tudo bem. Voltarei para o meu quarto e vou desenhar um pouquinho.
– Tem certeza? – ela olhou para um ponto atrás de mim. – Parece que ele te viu.
– Isso não me importa mais – disse. – Não se preocupe, o que pode acontecer de pior?
– Veja só quem está aqui! – fechei meus olhos ao ouvir a voz de Lauren. Isso pode acontecer de pior. – Então é por isso que não está respondendo aos e-mails. Você está de folga, , não de férias. Há uma equipe que precisa de seus contatos e Amber não se encontra mais conosco, por isso, a nova integrante precisa de um cumprimento – sua voz me parecia mais irritante do que eu me lembrava. Uma semana sem ouvir Lauren foi como uma viagem à Toscana. Relaxante e delicioso.
– Veio para o último dia do congresso, senhora Beckhart? – perguntei, sorridente.
– Os trabalhos mais árduos terminaram e eu havia falado a sobre tirar alguns dias extras de folga. Por sorte, consegui tirar esses três dias e coincidentemente uma amiga minha me chamou para vir conhecer a casa nova dela aqui.
– Então não está hospedada aqui? – perguntei, vendo-a rir.
– É claro que estou – olhou para e tocou-lhe o braço. O braço que eu havia tocado a noite anterior. – disse que é um ótimo hotel, e como há bastante pessoas do ramo, achei que seria uma oportunidade perfeita para unir o útil ao agradável. Sempre continue trabalhando, mesmo estando fora da sua zona de conforto – e me enviou um olhar tão significativo que até Amy pode entender. – Bem, nós estávamos de saída. Vamos, ?
– Claro – ele respondeu, me fazendo semicerrar os olhos. – Aproveite sua folga, .
Filho. Da. Puta.
Abri um pequeno sorriso, mostrando para ele que eu iria aproveitar minha folga o amaldiçoando. Assim que Lauren e ele se retiraram, minhas mãos se fecharam em dois punhos e Amy tocou em meu ombro.
– Você precisa de uma massagem. Vou agendar uma sessão para você.
– Está tudo bem, Amy. Coisas assim devem acontecer logo no início. Foi ótimo – abri um sorriso para ela. – Saber o caráter das pessoas é fundamental. Só estou me sentindo um pouco tola, mas acredito que se ficar um pouco sozinha, coloco meus pensamentos no lugar – tentei lhe passar a mensagem mais clara de que não queria companhia. Amy hesitou por alguns segundos como uma boa amiga deve fazer e então cedeu.
– Bem, se você quer assim, eu irei voltar. Mas se quiser desabafar, me liga.
– Ligarei sim – sorri, recebendo um abraço forte. A observei fazer o mesmo caminho de Lauren e para fora do hotel e caminhei em passos duros até o elevador.
De relance, olhei para o espelho que havia de enfeite na parede ao lado dele. Meu semblante estava o oposto do que havia visto pela manhã. “Ele é um canalha, . E você continua sendo uma tola.”
Com o aborrecimento, passei toda a tarde e o início da noite em meu quarto, desenhando minha parte do trato no novo briefing passado por . Humor negro era tudo o que eu tinha também, e não havia coleção melhor do que essa para me fazer descarregar toda a frustração.
Meu celular tocou quando eram quase nove horas. Não me importei em me animar para ver se era com alguma explicação, porque já havia entendido seu comportamento. Ele apenas queria se divertir ou estava passando por algum momento ruim e precisava de um consolo. Queria se divertir, assim como Nathan Garden e todos os outros homens do mundo. Talvez eu estivesse me tornando uma Lana, mas pelo menos eu havia tentado.
Eu não acredito no que eu ouvi de Amy no jantar! – Lana sempre foi o tipo de pessoa que não perde tempo com saudações obrigatórias. – Mas que grande otário!
– Acho que eu quem sou a otária, Lana – falei, desanimada.
Não. Você é a vítima, querida, ele é o otário. Até Klint o acha otário.
– O que Klint sabe sobre mim e para acha-lo um otário? – perguntei, não ouvindo nenhum som em resposta. – Lana...
Ora, eles são amigos! Também se falam sobre isso. Não venha achar que eu sou a fofoqueira! Tenho mais o que fazer do que contar as histórias das minhas amigas.
– Tudo bem, irei desconsiderar. Não se preocupe. Estou me sentindo bem menos tola – sorri. – Acabei criando uma coleção inteira.
Ah, amiga – Lana resmungou, mostrando-se chateada. – Da última vez que você desenhou uma coleção inteira em um dia foi quando sua mãe...
– Morreu, eu sei. Mas uma coisa não tem nada a ver com outra. São questões diferentes e não tem a mesma importância para mim do que a minha mãe teve.
Você quer sair para beber?
– Você está trocando sexo com Klint para sair comigo? – brinquei, ouvindo-a reclamar.
Nós não transamos o tempo todo! Além do mais, eu já passei por isso antes e sei como você está se sentindo. Sei que sou a melhor pessoa para te consolar....
– Você já transou com ele, não é?
Lana é uma pessoa que nunca se explica. Sempre que isso acontece, é porque se sente mal com algo e quer se redimir. Ouvir seu silêncio mais uma vez apenas confirmou um hábito que eu conhecia desde quando éramos crianças. Soltei uma risada. Não me senti nem um pouco ofendida por ter sido deixada para depois porque ela era assim. Ela pensava em si antes de pensar no outro, e apenas de estar em sua lista de “pessoas para quem deve dar a mínima” já era um bom sinal. Nessa lista haviam somente quatro pessoas: eu, Amy, tio Martin, por ser o dono do apartamento em que moramos, e o pai dela, por querer que a coloque no testamento da herança. Se ela realmente se mudar para o apartamento de Klint, é possível que tio Martin perca seu posto para ele.
– Está tudo bem, Lan – suspirei. – Acho que já sou madura suficiente para saber controlar minhas emoções. Foram só alguns beijos, afinal.
Você está no estado de negação – ela disse, fazendo-se de entendida. – Negar é uma das fases mais importantes da superação.
– Lana, nós não estávamos em um relacionamento sério para eu ter de superá-lo. Você acha mesmo que...
Fui interrompida pelo som da campainha. Se me mandasse um carrinho de comida achando que eu iria desculpá-lo, ele então estava subestimando minha bondade. Caminhei em passos preguiçosos até a porta, onde o olho mágico me mostrou o semblante dele próprio ali parado.
– Lan – corri de volta até o local mais longe da porta e, sem percebei, comecei a sussurrar.
O que foi? Por que começou a falar tão baixo?
– Ele está na minha porta.
Mande-o embora, oras! Você está passando por um processo de superação, não pode ter recaídas!
– Eu não vou ter uma recaída! – briguei e olhei para a porta, nervosa. – Ou talvez...
. Não. Eu sei que você quer ouvir o que ele tem para falar, mas neste momento, se você ouvir um “vamos transar”, é capaz de esquecer tudo e ir para a cama com ele – Lana suspirou e disse:– Lembre-se do que você sentiu quando o viu com a vadia. Você é quem manda na sua vida, me ouviu? Ele pode ser rico, muito rico ou rico no nível de , mas isso não significa que aceita-lo de volta mudará seu comportamento.
Suspirei e ouvi a campainha mais uma vez. Por que ele simplesmente não vai embora? Desiste? Esquece? Olhei para a porta, com medo que ela se abrisse sozinha e mostrasse uma eu insegura e com medo de encará-lo por não querer ouvir algumas verdades ridículas.
Você quer que eu peça para Klint ligar para ele e manda-lo sair daí?
– Por Deus, claro que não! Por que Klint faria isso? – balancei a mão, achando a ideia absolutamente ridícula.
Porque eu pedi? – ela respondeu, como se fosse óbvio. O respeito que eu tinha por Klint começou a se esvair. Eu compreendia o amor que ele sentia por Lan; mas a ponto de fazer tudo o que ela queria era idiotice. Idiotice porque eu havia visto o resultado de todos os homens que fazia tudo o que ela queria; não era legal.
– Eu ligo para você depois. Obrigada por se preocupar.
Não transe com ele, .
– É sempre fácil falar, você transaria com Klint se fosse vocês no nosso lugar.
Sim, mas eu o faria sofrer em minha mão até o momento do sexo.
– Tchau, Lan – balancei a cabeça, desistindo de tentar coloca-la em seu lugar. Lana sempre será segura demais para deixar-se levar pelas opiniões e suposições dos outros.
Caminhei até a porta, olhando novamente pelo olho mágico e vendo ainda parado na porta. Mexia em seu celular alguma coisa e pude ouvir o meu tocar ao fundo. Quando ouviu o som do meu toque, olhou em direção ao olho mágico; pude ver seus olhos azuis me encararem, como se estivesse me enxergando de verdade.
– Eu sei que está aí, – ele disse, me fazendo dar um passo para trás com o susto. – Vamos conversar.
Cruzei os braços, pensativa. Ele está falando como se eu fosse uma adolescente mimada. Não fui eu quem não deu as caras o dia inteiro. Ou que apareceu com a Lauren, a chefe vadia.
– Beckheart surgiu do nada pela manhã. Não pude me comunicar com você durante todo o tempo em que ela estava ao meu lado.
Enquanto ele jogava desculpas sobre a razão em ter sido o maior otário, comecei a pensar se valia a pena dar-lhe uma chance de se explicar. Ele se deu ao trabalho de vir até meu quarto se desculpar, não é?
– Pare de ser contraditória, – dei um tapa em minha cabeça, seguida de uma careta por ter doído mais do que eu esperava.
– Abra a porta, mandou, desviando minha atenção de volta para ele. – Eu não ficarei aqui a noite inteira, e se for embora, você quem terá de vir atrás para termos uma conversa decente.
Ao invés de eu abrir a porta, abri a boca, indignada. Com licença? Ele era perfeitamente um o–tá–ri–o! Virei meu rosto para ver minha expressão pelo espelho do armário chapeleiro. Eu estava mais ansiosa do que abismada; se Lana visse, ela me daria um belo beliscão por estar cedendo com tanta facilidade. Mas o que eu poderia fazer? Eu já admiti estar atraída por ele, e quando esse tipo de coisa acontece, cega os olhos de uma maneira que nos faz tomar a decisão errada, como a que tive, abrindo a porta.
ergueu os olhos em minha direção. Não abriu a boca por um longo tempo. Queria saber como ele faria para ganhar minhas desculpas, já que uma coisa era eu perdoá-lo em minha mente, e outra expressar meu perdão.
Seus passos se moveram em minha direção, fazendo com que desse outros para trás, tentando fugir dele. Não percebi que ele havia entrado no quarto até ouvir o som da porta se fechando. abriu a boca para falar, mas desistiu. Senti minhas costas encostarem na parede; minha mente estava tão atordoada com a proximidade, que no momento pensei que estava sem saída, mesmo os braços dele ainda imóveis ao lado do corpo.
Fui pega de surpresa pelos seus lábios tocando levemente nos meus. Ele não fez questão de movê-los para aprofundar o beijo, nem me tocou com suas mãos. Unidos por um toque pequeno, senti toda minha raiva ser transformada em ânimo.
– Me desculpe – ele murmurou, seus lábios ainda grudado nos meus. – Eu esperava encontra-la no café da manhã para passarmos um bom dia, como foi a noite anterior. Mas parece que somos destinados a nos encontrar somente à noite.
Se afastou assim que terminou de falar, mantendo-se ainda muito próximo a mim, como se soubesse que estando a essa distância, me impediria de pensar. Me mexi, visivelmente desconfortável por ter sido calada com um simples gesto. Eu esperava uma discussão calorosa, como aquelas que costumamos ter por possuirmos opiniões diferentes, mas tudo o que me vinha à mente, era argumentos que o favoreciam.
– Você poderia tê-la dispensado – falei.
– Até parece que você não trabalha para ela – ele respondeu de forma irônica. – Sabe como ela é quando quer algo.
– Bem, você deve saber lidar com esse tipo de situação muito bem – ergui uma sobrancelha, finalmente vendo a faísca da nossa briga.
deu um passo para trás e após cinco segundos, abriu um pequeno sorriso:
– Sei o que está tentando fazer – apontou para mim.
– O quê?
, eu conheço as mulheres muito melhor do que você imagina.
– Não me surpreendo, visto que cada semana você surge com uma nova – dou-lhe as costas, seguindo para dentro do quarto, deixando-o parado ali na entrada. – Por que você não volta para sua opção anterior? Ou você precisa de uma designer para seu projeto?
– Você está falando sério? – ele perguntou em tom de descrença. – Está achando que...
– Você está fingindo? Sim, estou – me virei, encarando-o nervosa. – É assim que você consegue as coisas que quer, afinal. Você joga sujo, não é? Faz com que as mulheres sejam atraídas apenas porque tem um ótimo sex appeal e então as usa para benefício próprio.
– E desde quando eu uso as pessoas para meu benefício?
– Culpe somente a si mesmo – ergui meus ombros. – Não se lembra de nenhuma discussão que nós tivemos, não é? Qual a razão de você ter levado Jacqueline no iate aquele dia? Porque sentiu que gostaria de uma companhia? Sei quem ela é, . Sou funcionaria da sua empresa por opção. Conheço a sociedade, apesar de não gostar da conduta dela.
não soube responder. Ter ciência de que eu sabia sobre Jacqueline o pegou de surpresa, e mesmo que esse tenha sido um golpe baixo, não me arrependi de ter desabafado somente para calar sua boca.
– Se você quer a droga de desenhos, basta me pagar – resmunguei, jogando a pasta com o desenhos que havia finalizado naquela mesma tarde. Ele olhou para o conteúdo, não se lembrando de fingir o tamanho de sua surpresa ao vê-los. – Não me use como as outras mulheres da sua lista. Eu não sou um objeto, . Ao contrário delas, eu tenho sentimentos – e sem olhar para trás, peguei meu roupão de banho e me tranquei no banheiro.
Liguei o chuveiro para evitar ouvir qualquer tentativa de argumentação que pudesse surgir, mas, como sempre, minha suposição estava errada. Ele não disse mais nada, e desconfiei que havia ido embora, já que eu coloquei um ponto final na conversa e lhe entreguei o que queria.
O banho foi longo e cheio de pensamentos. Tentei fazer com que a água corrente do chuveiro levasse consigo todo meu estresse, mas ao terminar, ainda sentia um pouco de mágoa por não ter ouvido nem um pedido de reconciliação de .
Minha mãe tinha razão quando eu disse que me casaria em Nova Iorque e moraria ali para sempre, longe dela: “Os nova-iorquinos não prezam a família como as pessoas de Maine. Por mais que você, como indivídua, preze a independência, você nasceu e cresceu em torno do amor familiar e com certeza um dia desejará estar dentro dele novamente. Os homens de Nova Iorque não proporcionarão isso, porque eles nasceram preocupados demais em manterem-se no berço de ouro.”
Bufo, limpando o vapor do espelho. Meu rosto estava inchado. Por estar em baixo da água, não percebi as lágrimas se juntarem com os pingos. O resultado foi catastrófico. Enxuguei bem meu corpo e me enrolei dentro do roupão macio oferecido pelo hotel. Eu estava pronta para passar o resto da noite e talvez o dia seguinte inteiro presa dentro do quarto, sendo abastecida de porcarias para comer pelo serviço de quarto, assistindo aos clássicos do canal TCM.
Ao sair do banheiro, meus pés travaram ao ver sentado em minha cama. Observava com atenção os desenhos que eu havia criado. Seu celular estava desligado em cima da cômoda localizada na parede onde a TV estava disposta. Vi seu olhar se erguer até a mim e não me olhar com a cobiça por estar somente de roupão.
Lentamente, guardou todas as folhas dentro da pasta que eu havia jogado em si e se levantou, vindo em minha direção, deixando-a na mesa atrás de mim, voltando a me prensar entre ele e ela.
– Eu estou aqui pelos seus sentimentos – ele murmurou, seus olhos presos aos meus.
– Obrigada – ergui minhas mãos até apoiá-las em seu peitoral, empurrando-o a fim de afastá-lo de mim. – Mas não preciso dessa compaixão.
– Você pode, por um segundo, parar de ser egoísta? – ele não se moveu um centímetro, mesmo com a minha tentativa de manter distância. – O que estou colocando em jogo aqui não é somente os seus sentimentos.
– O quê? Você quer dizer que tem sentimentos seus nesse jogo?
– Você acha que sou feito de pedra? – ele abriu um pequeno sorriso. – Ou apenas não confia no seu próprio charme? Você acredita no que as pessoas falam de mim, mas não no que você conhece de mim?
– O que quer dizer?
– As pessoas sempre acham que os solteiros são mulherengos somente pelo fato de estarem solteiros. Nós não podemos ter colegas de trabalho, funcionárias ou qualquer contato com alguém do sexo oposto, ou elas automaticamente se transformam em possíveis affairs – não sei se foi a maneira como ele estava falando, em tom de desabafo, ou se era minha consciência pesando devido à veracidade de suas palavras. – E então, de repente, somos homens sem coração; impossíveis de se apaixonar ou se interessar por uma mulher por causa de sua essência. Elas têm de ser visivelmente perfeitas. E por causa desse preconceito, somos taxados como prepotentes. Jogadores. Infiéis.
– Eu não...
– Você não disse com as palavras, – ele deu um passo para trás. – Mas foi exatamente o que pensou, não foi? Você, como todas as outras pessoas, considerou o que é mais plausível.
– Foi você quem falou que não se sobrevive nessa sociedade...
– Você não pensou por nem um segundo, que tudo o que eu falei para você, foi para te ajudar? Ou você tem o hábito de sempre se vitimizar?
Não pude pensar muito para descobrir a resposta de sua pergunta. Pela primeira vez, estava certo e eu estava errada.
– Quer que eu haja como você e ironize essa situação, tratando-a como um jogo? – ele perguntou, voltando a dar um passo para perto de mim. – Ou você vai ouvir a mim, ao invés dos seus colegas de trabalho, e entender que eu posso, sim, estar interessado em você?
Ergui meus olhos tão rápido que toda a cena foi um borrão para mim. estava com seu rosto tão próximo a mim, que só pode ver seus cílios e a cor de seus olhos azuis magoados me encararem. Apertei os lábios e em seguida encarei o chão, envergonhada por ter de ouvir suas palavras de acusação para finalmente entender que ele só queria que eu pensasse em nós dois, ao invés do julgamento da sociedade.
Era verdade, da mesma maneira que julgávamos os novos ricos e sua vontade incessante de aparecer na mídia, também acontecia de julgarmos as ações dos herdeiros como pessoas ruins e sem coração, cuja importância é somente chegar ao ponto máximo, independente do número de pessoas que iriam usar e enganar.
Mas não cresceu em Nova Iorque.
Ele não queria ter voltado.
– Sou uma tola – abro um pequeno sorriso, ouvindo a voz de Lan ecoar na minha cabeça.
– É sim – seus dedos tocaram meu queixo, erguendo-o de volta à direção de seus olhos. – Mas isso não faz de você menos interessante.
Sua mão agilmente enlaçou minha cintura e sua boca encostou na minha em um beijo diferente daquele que dividimos na noite anterior. Dessa vez, eu possuía parte da culpa e pedia o perdão no ato. Alguns segundos depois, com seus braços fortes, ergueu-me, de modo que acabei sentando na mesa atrás de mim. Meus braços enlaçaram seu pescoço enquanto suas mãos, pela primeira vez, percorriam meu corpo coberto somente pelo roupão de banho. O toque, mesmo que impedido pelo grosso tecido, me tirava o ar, fazendo com que eu separasse nossos lábios com mais frequência do que gostaria.
Foi quando sua mão tocou a região da minha coxa, já descoberta por tanto me movimentar, que voltei à realidade, separando-me por completa de . Observei nosso estado, em que tinha seus cabelos e a camisa que usava amassados, enquanto o laço que prendia meu roupão se encontrava afrouxado e ligeiramente aberto na altura do colo. Ele olhou para mim por um longo tempo; meu corpo estremeceu ao finalmente me deparar com sua cobiça sobre mim. Mordi o lábio, incerta sobre a decisão que deveria tomar.
tomou a iniciativa, tocando minha mão apoiada na mesa. Seus olhos estavam pregados nos meus, hipnotizando-os. Eu queria desviá-los para observar o caminho que seguiria com as mãos, mas não conseguia. Senti o laço do roupão se desfazer e as mãos subirem espalmadas por cima do algodão até a altura dos ombros, onde tão lentamente quanto subiu, desceu com o tecido bem preso entre os dedos. Vi seus olhos encararem meu corpo desnudo; se não fosse por seu olhar, eu jamais teria deixado a razão de lado.
Lembro-me bem da dica de Lana sobre as pessoas acharem errado dormir ao lado do parceiro após o sexo; mas ali, deitada nos braços de , sendo alvo de seus olhos e da carícia que continuava a fazer, foi como se tivéssemos acabado de alcançar o nirvana.
Contanto que ele estivesse na cama ao meu lado no dia seguinte, pouco me importava a regra imposta pela sociedade. Eu havia acabado de quebrar uma, e nunca me senti tão bem.

Capítulo 10

Abri os olhos devido à claridade. Respirei fundo e senti a brisa do mar localizada no outro lado da avenida; percebi a janela da sacada aberta, fazendo com que as cortinas esvoaçassem, mostrando a corrente de ar que entrava e saía, tornando o quarto mais refrescante. A noite anterior havia sido uma mistura de amargura e prazer. Ainda de bruços na cama, estiquei meu braço a fim de conferir a presença de ao meu lado com o receio rente a mim.
Vazio.
Fechei meus olhos, esperando que aquilo fosse um pesadelo. Quando os abri de volta, a cama continuava somente com a minha presença.
– Como você é burra – foi o que consegui murmurar.
Repentinamente, o ar já não parecia mais fresco e meu corpo já não estava mais tão leve. Afundei meu rosto no travesseiro e soltei um berro abafado, como se pudesse descontar ali toda minha raiva por ter sido feita de idiota mais uma vez. Assim que o ar acabou, me obriguei a virar meu corpo, encarando o teto branco. Respirei fundo, tentando voltar à realidade.
O que eu esperava dele, afinal? é um homem de negócios que não sabe nada sobre o amor verdadeiro. Como poderia esperar qualquer tipo de afeição da parte dele? E ainda mais por mim? Eu, que apenas sou uma das formas dele ganhar dinheiro?
Decidi voltar à estaca zero e o plano A da minha folga. Passar o dia inteiro trancada no quarto comendo baboseiras e assistindo filmes antigos no canal da TCM. Coloquei os pés no chão e nem o toque macio do carpete me trouxe um pouquinho mais de alegria. Caminhei em passos arrastados, embolada no meio do lençol branco do hotel em direção ao banheiro, mas, antes de chegar nele, fui interrompida de chegar ao destino final pelo som da porta sendo aberta e então, para minha surpresa, aparecer arrumado e com uma pasta em mãos.
– Ah, você já acordou – ele fechou a porta, deixando a pasta e os óculos de sol na mesa de enfeite que havia no minúsculo corredor e logo me prensou contra a parede ao lado da porta do banheiro, dando-me um longo beijo, fazendo com que o lençol caísse.
– Espere! – coloquei minhas mãos em seu peitoral e o afastei. – O que você está fazendo?
fez uma careta de quem não entendia o motivo do afastamento. Ele abriu a boca, mas logo a fechou, sem saber o que dizer:
– Você não foi embora? – apontei para ele, confusa.
– Eu tinha uma reunião na parte da manhã com alguns acionistas e fui fechar nossa conta. Estamos indo para outro lugar.
Ele abriu um sorriso, dando como explicado minha dúvida e um cartão verde para voltar ao que fazia, ameaçando voltar a me beijar, mas o parei mais uma vez:
– Como? Outro lugar? Que lugar?
– Um novo lugar onde possamos caminhar tranquilos sem sermos atrapalhados – ele me roubou um beijo e olhou para o banheiro. – Devo me juntar à você? São dez horas e o check-out será feito às onze e meia, portanto...
me ergueu, fazendo com que eu enlaçasse minhas pernas ao redor de sua cintura.
Enquanto ele se despia, encarei meu reflexo de quem havia acabado de acordar, pelo espelho. Diferente do que imaginava, minha expressão era de alívio. Então ele não havia ido embora. Apenas foi fazer novos planos para nós dois.
“Ele ainda vai me deixar louca.” Pensei.
Mas a verdade era que eu já estava maluca.

O novo lugar citado para também estava localizado no Caribe. O que, na minha opinião, foi ótimo, já que eu não precisaria retirar meu passaporte do fundo da mala.
Ao desembarcamos na ilha de Providenciales, pude logo perceber que era um local menos habitado por turistas, mesmo estando em uma época típica de viagens a praias exóticas. Havia ouvido algo sobre o mundo estar em uma crise econômica, mas não imaginava encontrar um lugar tão vazio quanto aquele.
Logo que descemos do avião de pequeno porte – talvez o maior que pudesse pousar na ilha, mas que não chegava nem perto de um jato –, eu e fomos recebidos por um grupo de profissionais do hotel onde nos hospedaríamos. Pelo tratamento, o colar de flores coloridas e os drinks alcoólicos, logo soube que não era um lugar qualquer. Olhei para os lados, abismada principalmente com a transparência da água do mar. St. Barth tinha seu valor nos termos praianos, mas Providenciales conseguia abrir a boca ligeiramente mais do que qualquer outro lugar.
Um carrinho aberto motorizado nos levou até o hotel, que mais tarde descobri ser um resort especializado em SPA. olhava ao redor, como se estivesse conhecendo o lugar comigo. Me perguntei se ele já havia estado ali antes, e se sim, com quem.
Nosso check-in havia sido feito por alguém funcionário de , já que ao passarmos pela recepção, não precisamos fazer nada mais senão retribuirmos os cumprimentos dos funcionários. Os outros hóspedes eram, em sua maioria, casais e solteiros em busca de uma paquera. Nossa suíte era afastada dos demais quartos e possuía uma própria praia particular. Jamais imaginaria que hotéis oferecessem praias destinadas somente aos hóspedes do quarto, mas os funcionários pareciam não achar nada demais.
A suíte, na verdade, era um chalé com os cômodos principais de uma casa. Um hall enorme com uma mesa redonda de madeira polida localizada ao centro, dividindo espaço com um lustre de cristal enorme pendurado bem acima dela. As paredes que não eram abertas a outro cômodos foram cobertas por quadros que remetiam a paz. O gerente do resort deixou que conhecêssemos os cômodos por nós mesmos, imaginando que gostaríamos de alguma privacidade, o que era exatamente o que queria. Por outro lado, eu estava mais interessada em conhecer o espaço que iríamos dividir nas próximas três noites, imaginando se até lá estaríamos nos considerando um casal ou tão irritados com o outro a ponto de querer me demitir.
Entrei na sala completamente iluminada pela luz do dia. No lado da praia quase não havia paredes de concreto, somente as portas balcão de vidro com cortinas automáticas para o caso de querermos mais “privacidade”. Os móveis eram sempre no mesmo tom amadeirado ou estofados em branco, mantendo a fineza do local junto às paredes brancas parecidas recém-pintadas. Havia uma cozinha americana com os apetrechos principais, como a geladeira, fogão e micro-ondas, mas duvido que alguém tenha usado, a não ser que estivesse com crianças junto. Crianças sentem sede e fome o tempo inteiro, afinal. A suíte principal foi a única que entrei durante o trajeto de reconhecimento. Diferente dos quartos presidenciais que costumamos ver, o cômodo era mesmo maior do que o resto dos demais cômodos juntos. Apesar de haver um banheiro com pias, assentos sanitários e chuveiros individuais do casal, a banheira com hidromassagem estava dentro do quarto. O fato de eu não ter conhecido os demais cômodos do chalé se deve a ter me proibido de sair da suíte principal assim que enlaçou minha cintura com seus braços malhados.
– Podemos conhecer mais do lugar depois – sua voz saiu abafada no dorso de meu pescoço. – Gostaria muito de um segundo banho. Ou um banho de banheira? – ele olhou na direção dela, próxima a nós. – O que acha?
– Tentador – respondi, virando meu corpo em sua direção, meu melhor sorriso posto em meu lábios, vendo-o encará-los com vontade. – Mas eu queria ir para à praia.
– A praia também pode ser uma opção – seus olhos percorriam meu corpo de cima a baixo. – Você ouviu o que eles disseram, ela é privada.
– Uhum – murmurei, desvencilhando-me de seus braços e dando-lhe as costas, caminhando em direção à praia enquanto despia minhas roupas de passo em passo, até chegar nua na água supreendentemente quente.
Graças a Deus não comi toda a porcaria que queria ou eu jamais ganharia do corpo trabalhado de Lauren. Mas não parecia se importar com as curvas do meu corpo, mesmo suas mãos dizendo o contrário depois que entramos no mar. O que ele parecia querer era somente nós dois juntos à par dos olhos de todo o resto de Nova Iorque.

Quando finalmente paramos de agir como cachorros no cio, eu e decidimos que era um bom momento para nos alimentarmos. Ele pediu o serviço de quarto completo e duvidava que fosse querer ir até o restaurante mais tarde.
– Coma mais – ele disse, colocando mais comida em meu prato. Ergui uma sobrancelha e o vi balançar a cabeça, dizendo-me para não lhe retrucar e apenas fazer o que ele mandava.
– Estou satisfeita com o tanto que peguei – disse.
– Nem um canário estaria satisfeito com esse tanto – ele ironizou. – Você precisa se alimentar melhor. Sabia que todas as vezes que comemos juntos, você quase sempre deixou comida no prato?
– Você observava o modo como comia? – abri a boca, chocada. ignorou minha reação, como se fosse normal descobrir que estava sendo analisada. – Eu comi bastante na primeira vez.
– Somente porque você estava preocupada demais em ser desagradável comigo – ele abriu o New York Times que o hotel importava diariamente para os hóspedes importantes como que vinham de lá e precisavam manter-se atualizados com as notícias. Seus olhos desviaram do jornal por dois segundos: – Admita, você se esforçou bastante aquele dia.
– Eu? Você tem noção do quão insuportável foi?
– Eu estava te testando – ele respondeu, voltando sua atenção para a primeira página do jornal, em seguida abrindo-o na seção que costumava ler. – Eu nunca gostei de encontros, muito menos os escuros.
– E você acha que eu estava lá por livre e espontânea vontade?
– Foi o que você disse.
– Eu não disse isso! – protestei, tentando me lembrar da verdade. – Eu disse... Que minha amiga precisava de mim lá.
– Claro – ele sorriu, mostrando que apenas fingiria acreditar em mim.
Mantive minha boca aberta, incrédula com o retorno de seu jeito prepotente. achava realmente que eu estava me esforçando em ser insuportável por causa dele? Bem, pode ser que seja verdade, mas ele não precisa saber disso!
No momento em que ponderava uma maneira de responde-lo à altura, meu celular tocou, mostrando o nome de Nathan Garden no visor. Olhei para e então de volta para o celular. Um pequeno sorriso brotou inesperadamente em meus lábios. O mundo nunca me pareceu tão justiceiro.
– Você disse que não ligaria até o final de semana, Garden – peguei uma fruta e saí da mesa, indo até o lado externo do chalé e me certificando que havia ouvido o sobrenome de Nathan.
E você não me disse que estava de folga, então estamos quites – ele disse, mostrando-se nem um pouco aborrecido. – Já voltou para Nova Iorque?
– Não, ainda estou aqui no Caribe. Tirei uma folga.
Você poderia ter me falado, eu teria estendido minha estadia também.
Soltei uma pequena risada.
– Eu preciso desse tempo para mim. Você sabe.
Ah, então estou atrapalhando um processo de inspiração da minha musa?
– Inspiração? – olhei para o lado, esperando que estivesse se corroendo em curiosidade. – Diversão, quem sabe?
Eu adoraria fazer parte da sua diversão.
– Ah, eu sei que sim – abri um sorriso, imaginando que se Nathan estivesse aqui, talvez a ligação de um outro alguém não tornaria a situação mais divertida. – Quem sabe outra vez?
Me avise quando chegar na cidade para discutirmos melhor sobre isso.
– Irei anotar – respondi, antes de ouvi-lo se despedir de mim e finalizar a ligação.
Suspirei e deixei meu corpo pender para trás, apoiando-se no encosto da cadeira. Uma leve brisa passou, relaxando meu corpo e me fazendo prestar mais atenção na água cristalina e areia branca. Se aquele mar possuía piratas, eles deveriam roubar a própria combinação da água com a areia; o que elas valiam provavelmente ainda não havia quantia de dinheiro que pudesse pagar.
Repentinamente, uma nova ideia surgiu em minha mente de maneira tão vívida, que não pude evitar correr para dentro do chalé até minha mala e pegar meu conjunto de folhas e lápis de desenho, e a aquarela. Antes de sair, meu braço foi segurado bruscamente por :
– O que ele queria?
– Quem? – olhei para ele, tão centrada na minha ideia que não pude perceber de imediato que ele falava de Nathan. – Ah, nada.
– Ninguém liga para não querer nada – ele disse assim que tentei me desvencilhar de sua mão.
– Será você poderia...
olhou no material que eu segurava em mãos e soltou uma risada descrente:
– Ele te inspirou, foi?
– É claro que não – respondi. – E mesmo que tivesse, o que você faria? – o encarei, vendo seus olhos revirarem em tédio.
, não comece com esse jogo.
– Então pare de ter um ataque ridículo de ciúmes – virei as costas para voltar ao assento que estava antes. – Eu estou com você aqui, não estou? – disse, antes de sair do chalé.
Ele não veio atrás de mim. Talvez eu tivesse mexido em seu ego, ou talvez ele tivesse percebido que havia agido estupidamente. Minha nova coleção poderia ser um dos esboços para a coleção de 50 anos. As belezas do Caribe. Podia até imaginar as modelos nos biquínis usando as joias para os catálogos. Uma coleção inspirada em um lugar como este poderia ser exatamente o que o público espera que seja lançado no verão. Uma mistura das quatro estações, talvez, para que fosse possível usar as joias em qualquer época do ano, jamais saindo de moda. Pedras preciosas amarelas, como o próprio diamante amarelo, tão raro de se encontrar no mundo e que combina com qualquer tipo de peça ou material. Ele no ouro branco, fino, delicado; no ouro amarelo, poderoso, extravagante. Toda mulher poderia usar. No catálogo, o brilho do diamante destacaria sob as ondas azul turquesa. Em cima da pele clara e escuras das modelos, será fácil mostrar que qualquer pessoa no mundo poderia usufruir da joia. Perfeito. Eu jamais havia imaginado algo tão expansivo e que envolvesse todas as características importantes. O melhor de tudo isso, era que a coleção era o típico exemplo que Barbara me daria como lição na época de treinamento. “Uma joia praiana que possa ser usada no inverno.”; “Uma pedra que seja destaque tanto de dia, quanto de noite; seja no Brasil ou na Mongólia.”
Desenhei a coleção inteira de uma única vez. Jamais imaginaria que pudesse fazer uma coleção de 12 peças em menos de 10 horas. me trouxe uma bebida ou outra, mas raramente tocava nelas. Eu queria terminar; colocar no papel tudo o que estava fluindo.
No momento em que finalizei, minha mão estava dormente. Abri um pequeno sorriso, tão satisfeita que poderia ir correndo daqui até de volta nos Estados Unidos. Peguei uma garrafa de refresco que havia trazido mais cedo, mas que parte de seu gelado estava em formato líquido na mesa. Percebi que ele estava sentado ao meu lado com algumas folhas em mãos, olhando como se fossem obras de arte. E como eram! Sabia que jamais algo parecido existiria com um diamante amarelo. Apesar de sua raridade e beleza, os designers possuíam dificuldade em criar algo que fosse inovador, diferente, mas ao mesmo tempo, requintado e extravagante. Seus lábios estavam curvados em um sorriso tão satisfatório que eu queria beijá-lo.
– O sol nas quatro estações – ele disse, maravilhado. – Fabuloso.
– Eu sei – olhei para as folhas espalhadas ainda em cima da mesa, orgulhosa.
– Elas são para...
– Sim.
desviou seus olhos azuis para mim e eles estavam tão escuros, que pensei que fossemos nos agarrar ali mesmo. Mas sua excitação era sobre outra coisa. Ele podia ver a quantidade de dinheiro que as pessoas gastariam naquela coleção de 50 anos. Barbara ficaria extremamente orgulhosa de mim e eu finalmente poderia me desvencilhar da imagem de funcionária e criar meu próprio negócio, vendendo meus desenhos a um preço absurdamente alto para todas as empresas, incluindo a , que quisessem comprar. E eles iriam querer. Depois dessa coleção, tenho certeza absoluta que seriam capazes de venderem suas almas para comprar um desenho meu.
Guardei os desenhos bem guardados em minha bolsa. Qualquer lugar seria menos seguro do que estar junto comigo o tempo inteiro. não pareceu querer pegar os desenhos para ele, o que me deixou ligeiramente confusa, afinal, qualquer empresário da área estaria louco me paparicando pra ter aquele projeto em mãos.
Nós não falamos sobre trabalho o resto da semana inteira. , secretamente, pegou meu celular e bloqueou o número de Nathan, ato que percebi assim que mexi nele depois do jantar na quinta-feira. É claro que fingi não ter descoberto; se ele se deu o trabalho de fazer tudo isso para que eu não falasse com Garden, eu apenas permaneceria observando seu esforço em me ter somente para ele.

Providenciales é um paraíso na Terra. Ter de me separar do povo simpático e acolhedor, e da vista maravilhosa de todas as manhãs me fazia sentir uma dor no coração. Se minha família tivesse o interesse conhecer além de Maine – ou Nova Iorque – saberiam quantos lugares maravilhosos o mundo nos oferece.
Nosso voo foi o último a sair do Caribe. Nós havíamos pego um que nos levasse até a capital, para podermos pegar outro internacional que nos levasse até o JFK, em Nova Iorque. Chegamos quando eram quase onze da noite e apesar de ser um domingo, o local estava lotado de turistas:
– Venha, eu a levo para casa – ele disse, pegando em minha mão quando comecei a procurar pelas placas de táxis. Seu motorista havia pego o carrinho que carregava nossas malas e caminhava logo à nossa frente junto a dois seguranças que costumavam acompanhar para todos os lados.
Olhei para os lados no receio de encontrar com alguém conhecido, eu não queria dar o que falar na empresa, principalmente porque estava mais perto de conseguir conquistar o posto de uma das designers da coleção de 50 anos. Barbara viria até a empresa para anunciar os escolhidos em meados de outubro para que estes pudessem começar a criação.
– Pare de se preocupar com os outros, disse, sua mão segurando fortemente a minha.
– Mas e se...
– Está tudo sobre controle – ele olhou para mim e abriu um pequeno sorriso. Um que me acostumei a ver nos últimos dias.
O carro blindado estava estacionado em frente ao local de saída com uma placa especial. Ele viajava tanto que poderia ter recebido do aeroporto a facilidade.
– Sobre nós dois – olhei para ele depois que o motorista deu partida no carro. virou seu rosto para mim, a sobrancelha esquerda erguida, como se desconfiasse que eu fosse falar alguma besteira. – Seria melhor se, hum...
– Somos profissionais, – ele disse, sério. – Não faremos nada que prejudique a minha carreira ou a sua.
Isso queria dizer que mesmo tendo tido uma ótima relação nos últimos dias, voltaríamos a não nos falar durante o trabalho, a não ser que fosse uma questão completamente profissional. Endireitei minha postura, voltando minha atenção para o lado externo do carro, onde a paisagem ainda era de estrada. Me perguntava se nossa relação voltaria a ser o que era, em um jogo de adoração e ódio. Eu deveria me preparar para o caso.
– Hey – ouvi sua voz me chamar somente quando o carro estacionou em frente ao meu apartamento e o motorista saiu para retirar minhas malas. –, não se preocupe muito – seu corpo aproximou-se do meu. – Você pensa demais – deu dois tapinhas em minha cabeça, fazendo com que eu encolhesse meus ombros durante o toque. – Deixe que eu cuido de tudo – e antes que eu pudesse protestar contra, seus lábios grudaram nos meus, um ato sujo que ele aprendeu a usufruir exageradamente para evitar uma discussão entre nós dois. Todas as vezes que sua boca calava a minha com um beijo, minha mente perdia o fio de raciocínio para continuar meus argumentos contra ele. – Boa noite – ele sussurrou assim que nossos lábios se separaram.
Abri a boca para agradecer, mas decidi que seria dar-lhe um prêmio maior do que o combinado. Enfim, apenas retribuí o cumprimento e deixei o carro.
Durante o percurso até o apartamento, pensei no que ele queria dizer sobre “cuidar de tudo”. Não havia muito o que cuidar, a não ser sua personalidade que eu odiava lidar. Se ele não voltasse a me provocar, nada mudaria do final de semana. Ou pelo menos era o que pensava.
Fui interrompida de continuar a pensar, com Amy e Lana conversando na cozinha. Assim que ouviram a porta abrir, olharam em minha direção. Lana tinha uma taça de vinho em mãos, enquanto Amy se preocupava em terminar de organizar a louça do jantar que provavelmente haviam dividido.
– Ah, olhe só ela com a pele bronzeada e o sorriso no rosto de quem transou a semana passada inteira – Lana sorriu, colocando a taça na bancada e vindo até mim. – Deixe-me ver se existe uma marca de biquíni ou se vocês fizeram... SA–FA–DI–NHOS! – me deu um tapa assim que viu que não havia marca nenhuma e que o bronzeado era uniforme em todo o corpo. – Eu queria ir para Providenciales ao invés de Saint Barth.
– Oras, isso foi bastante rude, Lan – Amy esguiou o corpo em minha direção. – Vocês transaram ao ar livre? Mesmo?
– É assim que se tira o atraso, querida – Lana moveu suas mãos em minha direção como se eu fosse um carro em exposição e ela a vendedora que mostrava o modelo, orgulhosa. – Você e o Jordan poderiam permanecer sem sexo por uma semana e então combinarem de irem até alguma praia deserta...
– Uma semana? – olho para Lana, as mãos paradas na cintura. – Uma semana é tempo o bastante para você considerar “tirar o atraso”?
– Você fica mais de uma semana sem transar? – ela perguntou, como se eu fosse a pessoa esquisita. Troquei um olhar com Amy, que balançou a cabeça pedindo para eu ignorar a questão e partisse para o próximo tópico. – Ok, me fale como foi.
– Eu criei a MELHOR coleção da minha vida! – abri o maior sorriso e quando estava pronta para tirar a pasta com as folhas da minha bolsa para mostrar às duas, Lana me interrompeu:
– Meu Deus, como pode ser tão tola? Não, ! Pare, apenas pare, querida – pegou minha bolsa de minhas mãos e a pasta também, jogando as duas no sofá mais longe de nós. – Eu não quero saber de trabalho. Eu quero saber de você e . Sabemos que vocês transaram, mas foi só isso?
– Vocês começaram a namorar? – Amy arregalou os olhos, maravilhada com a ideia.
– Não, claro que não! – olhei feio para as duas, pegando uma taça e me servindo de vinho. – Pelo menos não falamos sobre o assunto...
– Cinco dias que passam juntos e não houve nem um, “e aí? Namoro ou benefício?” – Lana mexeu a mão, de acordo com que me imitava.
– Primeiro, não foram quatro dias. Segundo, falar sobre isso seria estragar o clima. E se ele não quiser namorar?
– Então quer dizer que você quer – Lana abriu um sorriso, satisfeita por ter extraído a resposta que ela queria saber. Abri a boca e gaguejei algumas palavras, mas o olhar me enviou, pela primeira vez, me calou de uma maneira que não queria argumentar. – Você diz para mim que eu devo dar uma chance a Klint, mas você mesma não se dá a chance.
– Eu sempre disse para fazer o que eu falo, sem levar em consideração os meus atos – resmunguei. – E só quero o seu bem, por isso falo. Já eu sou masoquista, você sabe. Quanto mais difícil, mais me apego.
– Percebe-se – Amy balançou a cabeça em pesar. – Escuta, por que você não senta com ele um dia desses e joga um verde?
– Vocês ao menos decidiram como será a relação no trabalho? – Lana voltou a se sentar no assento da bancada.
– Foi um tanto bizarro – fiz uma careta, lembrando meu comportamento no carro há pouco. – Eu tentei abordar o assunto, mas ele logo me cortou, vindo com aquele tom autoritário, dizendo que somos profissionais e que eu pensava demais e me preocupava demais... arght! – me joguei no sofá mais próximo à bancada. – Eu não sei.
– Bem, está bastante claro que ele irá fingir que nada rolou entre vocês dois – Lana incorporou o seu personagem favorito, a de Samantha em Sex and the City. – O problema é se você irá conseguir fingir também, .
– Para ser sincera – Amy deixou as luvas de borracha que usava para lavar as louças mais delicadas de lado e pegou sua taça quase cheia de vinho. –, me parece que foi uma decisão sensata dele. Se as pessoas souberem que vocês dois se relacionaram, os rumores podem começar...
– Foi exatamente isso o que passou pela minha cabeça e que me fez decidir tentar abordar o assunto com ele – apontei para Amy. – Mas ele sempre quer tomar conta da situação. Vocês acreditam que ele mandou eu comer mais?
– Ai se o Klint me mandasse fazer alguma coisa – Lana riu só de pensar no resultado.
– Jordan é do tipo que faz as coisas de uma maneira que você automaticamente acaba fazendo o que ele quer – Amy disse, pensativa.
– O que é ótimo para você, amiga – eu disse. – Afinal, com esse seu jeito controlador, apenas um santo como ele poderia arranjar uma maneira de fazê-la concordar sem entrarem em uma discussão.
– Falando em discussão, deixe-me interromper o seu caso para um muito mais urgente – Amy puxou a banqueta ao lado de Lana e se sentou. – Ontem nós dois estávamos voltando de um passeio para o hotel e a mãe de Jordan ligou. Estávamos quase entrando no elevador quando ele mencionou estarmos pensando em morar juntos. Foi embaraçoso. Ela começou a falar tão alto que eu pude ouvir quase tudo.
– O que ela disse? – perguntei.
– Ah, o de sempre. Que ele ainda é muito jovem e o relacionamento é novo demais para dar um passo maior do que nossas pernas. Jordan ficou extremamente sem graça, mas não havia muito o que fazer, porque estávamos dentro do elevador. Ela não gosta mesmo de mim.
– Bobagem – Lana balançou a mão. – Jordan é filho único, é claro que ela ficaria toda preocupada em perde-lo para outra mulher.
– Acho que ela esperava que ele fosse namorar alguém que não fosse um novo rico.
– Você não é um novo rico, Amy – falei, pacientemente. – Você é bastante rica, uma herdeira, assim como ele. E se considerarmos o salário de vocês dois, não é grande a diferença de valores.
– Mesmo assim... Semana retrasada fui a um jantar com os dois. Fomos pegos de surpresa, decidimos ir naquele restaurante mediterrâneo no SoHo e os pais dele estavam lá também. Acabamos sentando juntos e por acaso, quando eles encontraram um outro casal de amigos e dei a desculpa de ir ao banheiro, na volta ouvi ela falando de mim à amiga. Ela acha que sou uma caipira – de acordo com que foi contando, o rosto de Amy foi tornando-se mais vermelho. Eu e Lana sabíamos que não era o efeito do vinho, por isso ficamos chateadas por ela. Era um fato que Ursula e Adam não gostavam dela, mas esperávamos que fosse somente uma birra inicial. – É impossível reverter essa situação.
– Bem, então apenas a ignore, querida – Lana olhou para suas unhas, despreocupada. – Veja bem, eu não posso dizer muito, já que a mãe de Klint graças a Deus está na Inglaterra, mas se Ursula fosse a minha sogra, eu lhe mostraria que o período dela mandar em sua vida passou quando ele atingiu a maioridade.
– E como você faria isso?
– Oras, agiria como se nada tivesse acontecido – ela ergueu seus ombros. – Veja bem, se você fingir que a adora e faz tudo por ela, e ela acaba percebendo que você é apenas mais uma tola que não precisa da permissão dela para namorar seu filho, acabará sendo esquecida. Deixe-a puxar os cabelos quando se casarem, só isso.
– Você quer dizer que eu a faço pensar que eu sou um caso passageiro?
– Querida, você quer ou não uma sogra no seu pé?
– Estou com a Lan – ergui a mão, encarando o visor do meu celular, esperando que pelo menos tivesse a decência de me enviar uma mensagem de boa noite. – Amiga, você já sabe que ela não fará nenhum esforço para gostar de você, então para quê perder anos da sua vida se estressando com isso? Ela é uma sogra, não Deus.
– E nem Deus atrapalharia minha felicidade, querida – Lana ergueu a taça. – Ele criou o mundo, não pode destruir o meu, seria erro de conduta.
– Lana, você já está falando besteira – levantei do sofá, vendo-a soltar uma gargalhada. – Vá dormir ou amanhã terá uma enorme dor de cabeça.
– Levarei uma aspirina para você assim que terminar de arrumar a cozinha – Amy disse, enquanto nós duas assistíamos Lana cambalear até seu quarto. – Vou fingir que ela estava sóbria quando me deu a última dica.
– Claro, Amy. Você deve fazer isso mesmo. Eu estou sóbria, pode confiar – enviei-lhe uma piscadela, ouvindo sua risada. – Você vai se mudar mesmo?
– Acho que sim. Preciso conversar melhor com Jordan. Há várias coisas na casa dele que devem ser mudadas ou eu não viverei em paz. Você sabe como são esses caras tecnólogos. Nem os códigos que eles criam costumam ser organizados.
Soltei uma risada com ela, ajudando-a a colocar as taças no lava-louças. Assim que o silêncio tomou conta do local, nos perdemos em nossos próprios pensamentos. Olhei para o visor do meu celular mais duas vezes até coloca-lo no bolso do short jeans que usava.
– Você está apaixonada? – sua voz soou tão baixo que mal pude ouvir.
Olhei em direção à janela onde o céu estava tão cheio de estrelas que era óbvio que o dia seguinte seria de sol. Suspirei e cocei a nuca, um ato que costumo fazer quando estou nervosa:
– Eu não queria...
– Você não pode mandar no coração, – Amy fez um carinho em minhas costas. – Ele não é uma má pessoa.
– Mas eu não consigo entende-lo, Amy – olhei para ela sentindo uma ligeira mágoa tomar conta do meu peito. – Como posso me apaixonar por alguém cujo comportamento eu não sei qual será no dia seguinte?
– O amor é sempre um jogo, . Para alguns mais fácil, para outros mais difícil. Independente do trajeto, nada impede todo nós de chegarmos à linha de chegada.
– Eu não tenho tempo para ficar correndo atrás dele como uma tola.
– Tempo você tem sim – ela abriu um pequeno sorriso, como de uma mãe. – Você não tem é coragem.

Toda segunda-feira era a mesma coisa. Lauren estava de mau humor por não ter conseguido obter sucesso nas suas investidas em cima de – ou o oposto – e a equipe fofocava aqui e ali sobre seus finais de semana.
Amber ainda estava conosco, mas junto dela uma nova garota falava sem parar tão animada que jamais imaginaria alguém que pudesse ignorar os comentários ácidos de Lauren ou o mau-humor matinal que Nally tinha todos os dias. Seu nome era Camille e ela era a nova estagiária – com mais chances de ser efetivada que Claire, o currículo de Camille mostrava que ela veio de uma boa formação acadêmica. Apesar de não ter trabalhado em nenhum lugar tão renomado quanto a , seu diploma vem da Institute Rochester, considerada uma das melhores do país em questão de design produtivo e criação em materiais diversos. Inicialmente, quando cheguei e fui atacada por ela ao invés do tão comum “você não sabe!” de Claire, achei que este não era seu lugar. Uma garota que aprendeu a criar joias em vidro e madeira não me parece compreender bem o ponto de vista da , mas assim que me mostrou seus desenhos, vi ali um potencial que a fazia uma designer melhor que Erin e Guy juntos.
– Como anda a coleção de natal, Guy? – perguntei no horário do almoço, quando a equipe se reuniu para conversar e aproveitar os últimos dias de Amber na empresa. – Ouvi dizer que Lauren está gostando dos seus desenhos.
– Eles estão, hum, diferentes do que costumo fazer. Achei melhor partir para um outro lado – ele sorriu, não parecendo querer entrar no assunto. Mas eu queria saber o que ele estava planejando; é claro que iria tentar algo novo. Seus desenhos até então não era atrativo nem para uma criança de 9 anos, que dirá para os clientes VIPs da .
– Qual tema escolheu?
– Como? – ele olhou para mim, quando tentou voltar à conversa com Nally. – Ah, o tema? Bem, você sabe. Segui sua sugestão sobre o clichê, já que ele combina tanto com o tema de natal.
– E Lauren concordou? – Amber ergueu as sobrancelhas. – Você vai usar ouro então?
– Ouro e diamantes, sim.
– Caramba, mais clichê, impossível – Claire disse e eu dei uma mordida na minha salada.
– A coleção está incrível! – Tony disse em um tom que parecia ser a própria mãe de Guy, orgulhoso por seu filho ter feito algo tão genial. – Vi os primeiros esboços há algumas semanas e vocês não irão acreditar no talento que surgiu nessa mente!
– Adoraria ver os desenhos – sorri para Guy, que abriu um pequeno sorriso.
– Eu queria que fosse uma surpresa. Estou um pouco nervoso e só Lauren e Tony viram até agora. Ainda há muito o que fazer nesse próximo mês.
– Lauren gostou tanto que marcou uma reunião com no final do próximo mês para que os desenhos cheguem até a mesa do conselho a tempo – Tony olhou para Guy, que respirava fundo. – Ele não tem dormido bem desde que recebeu essa responsabilidade. É a chance dele de chegar perto da coleção de 50 anos.
– E você, Tony? Não irá arriscar para a sua coleção de natal? – abri um sorriso simpático, vendo-o revirar os olhos aborrecido.
– Eu tentei, mas parece que não aprovou alguns traços e cores. Achou que estava colorido demais ou simples demais.
– Dizem que ele é pior do que Barbara – Amber disse, suspirando. – Não sei da onde veio tanta exigência; ele não estudou design, estudou?
– Isso não significa muito, Amber – me senti na obrigação de protege-lo não por ele, mas por mim. – Eu também não estudei design – e dei uma pequena risada.
– Mas você veio com um dom! – Claire sorriu. – Não há quem não goste das suas joias!
Soltei uma risada maior e abracei Claire, que voltou a falar sem parar sobre meus desenhos e sua repentina vontade de desenhar algumas joias para coleções menores. Ela e Camille entraram em um papo hiperativo sobre cores e acabamentos, parando somente na hora que a conta chegou.
No retorno à empresa, paramos em uma barraca de esquina onde costumamos comer um donut. Chaz, o senhorzinho que prepara a própria massa e recheio, adora inventar novos sabores, oferecendo os minis gratuitamente quando comprávamos um grande. Enquanto todos faziam seus pedidos, fiquei mais para trás tomando um café de viagem que comprei na Starbucks e observando a movimentação. O prédio da era no quarteirão seguinte, de modo que pude ver a porta automática da entrada e saída, e aparecer acompanhado de Lauren falando sem parar ao seu alcance.
Era a primeira vez que eu o via no dia. Esperei por uma mensagem, mas nem isso ele enviou. Lana havia dito para eu não esperar muito, porque essa era a personalidade dele. De acordo com o que Klint lhe disse, estava disposto a evitar ao máximo que as pessoas achassem que estávamos tendo alguma relação mais próxima, mais para o meu bem do que para o dele.
Mesmo assim, vê-lo acompanhado de Lauren me trouxe um breve desconforto no estômago. Podia desconfiar ser a comida, mas eu sabia quando tinha ciúmes ou não. Permaneci com meus olhos fixos nos dois, que foram em direção ao carro de .
“Vocês não estão em um relacionamento, . Pare com isso.” Minha mente tentava me dizer. Entretanto, no mesmo momento vi a mão de Lauren tocar seu bíceps, um dos meus locais favoritos de tocar por ser firme e o dobro do meu braço, o sangue me subiu à cabeça e a raiva foi tão intensa que não pude disfarçar meu olhar quando o carro passou ao meu lado e, mesmo com o insufilme fazendo um bom trabalho em escurecer o vidro, pude ver traços da mão de Lauren indo em direção aos botões da camisa de . Para mim, aquilo foi o fim. Ele estava brincando com o fogo. Quando ele disse a Klint que não falaria comigo durante o horário útil da semana, não me importei, achei profissional. Mas isso não queria dizer que ele podia aproveitar do tempo para satisfazer os desejos de Lauren. Justo Lauren.
– Estou com dor de estômago, vou na frente – anunciei para o grupo, que concordou, querendo aproveitar ao máximo a hora do almoço.
Durante minha caminhada em passos pesados no meio quarteirão que faltava para chegar à empresa, senti meu celular vibrar no bolso da calça social que vestia. Ao retirar o aparelho, pude ver uma mensagem não lida de :
Foi ciúmes que vi em seus olhos, ?”
Abri a boca, indignada com seu comportamento hipócrita. Ele estava se aproveitando do meu ciúmes para tornar uma diversão! Em passos desordenados até o elevador por estar com os olhos focados no visor do celular relendo sua audácia, decidi me esforçar em não responde-lo. Ele veria que eu havia recebido a mensagem, talvez até suspeitasse que eu tivesse aberto. Mas isso o faria lidar com sua curiosidade; quem sabe não receberia uma ligação sua?
Antes de chegar no andar, meu celular apitou novamente, mostrando uma nova mensagem dele:
Eu já disse, está tudo sobre controle.”
Parte de mim queria acreditar. Queria acreditar que Lauren não estava tocando no corpo do homem que praticamente se declarou meu na semana passada. Passei toda a tarde imaginando o que os dois haviam feito naquele carro, principalmente depois de Lauren entrar sorridente, seguida de com suas mãos sempre dentro dos bolsos. Cumprimentou todos os funcionários como sempre fazia, e olhou para mim com a mesma simpatia que olhou para Camille, elogiando sua entrada e dizendo-lhe que esperava um bom trabalho na empresa.
No horário da saída, me apressei a ir embora. Não queria ficar nem mais um segundo naquela tortura e estava maluca para chegar em casa e tomar um banho relaxante. Meus ombros tensos e o pescoço travado estavam me matando. Nem quando tive de criar minha primeira coleção para Barbara me senti tão nervosa.
Foi quando estava no meio do caminho até o metrô que percebi o carro de diminuir a velocidade ao meu lado, acompanhando meus passos. Fingi não tê-lo enxergado e continuei andando. O carro, então, acelerou um pouco mais e parou por completo; a porta do lado da calçada abriu e logo pude ver com um sorriso nos lábios, esperando que eu fosse até ele.
– Venha – mandou, ao perceber que eu não movi meus pés. Sem tomar conta dos meus atos, obedeci seu pedido e me sentei, fechando a porta ao meu lado. O som das travas tomou conta e o vidro que separava o lado de trás do carro, da área do motorista subiu. somente utilizava esses tipos de carros criados sob demanda; disse que precisava porque havia conversas que seu motorista não precisava ouvir. – Parece que você teve um dia logo.
– Engraçado, a primeira parte dele passou bem rápido – comentei, os braços cruzados sob as pernas, que também estavam cruzadas. Ouvi sua risada ecoar e então meu corpo estremecer com o toque da ponta de seu nariz no dorso do meu pescoço.
– Você está querendo colocar a culpa sobre mim?
– Bem, eu estive sentada o dia inteiro trabalhando como uma pessoa normal – insisti em não olhar em seus olhos, mantendo minha cabeça virada na direção da janela.
– E eu estive em reuniões de negócio, trabalhando como um chefe normal – soube pela tonalidade de sua voz que ele estava se divertindo. Às minhas custas. – Você não acha?
– Não, eu não acho – olhei para ele, emburrada. – Se quer saber mesmo, ou você começa a se abrir mais e parar de me provocar, ou eu realmente irei interpretar da maneira que me convir. E você não irá gostar disso.
– Em plena segunda-feira e você já está estressada pelo trabalho – ele se moveu tão rápido que não tive tempo de grudar meu corpo na porta, para evitar que ele tivesse qualquer contato comigo. Suas mãos vieram em direção aos meus ombros, massageando-os e eliminando de pouco em pouco a tensão que ali existia. – O que eu disse sobre parar de se preocupar?
– Irei sair com Nathan Garden e vamos ver quem fica mais preocupado – resmungo, sentindo um aperto mais forte. – Ai!
– Vamos manter o foco em nós dois, sim? – ele disse. – Ou você quer que eu também fique nervoso?
Nada respondi. É claro que eu não queria que ele ficasse nervoso. Enquanto eu era a única que podia resmungar e ficar aborrecida, tudo estava bem. Mas se ele também decidisse entrar nesse humor, nós certamente iríamos brigar e só Deus sabe quem teria de ceder primeiro para poder voltar a este patamar de relacionamento.
Seus lábios tocaram a parte nua do meu dorso. Eu não queria discutir com ele, por isso, me limitei a aceitar o toque, fechando meus olhos e sentindo a textura carnuda de sua boca em mim. Não sabia para onde estávamos indo ou qual a ordem que ele havia dado a seu motorista, mas assim que senti a língua de auxiliar na massagem em meu pescoço, eu não queria mais saber de nada. Inclinei minha cabeça para trás, mostrando minha aprovação sob seus atos. As mãos que até então se moviam em meus ombros, desceram gradativamente até a frente de minha camisa de seda, tocando meus seios por cima do tecido. Os cinco primeiros botões se abriram como se fosse mágica e quando as pontas dos dedos de entraram em contato com minha pele, não pude evitar que meu corpo se inclinasse mais para trás, tentando apressar seus movimentos.
Minhas mãos estavam ora no assento de couro, ora bagunçando seus cabelos enquanto suas mãos abriam meu sutiã, livrando-se dele; por sorte, a camisa de seda era larga e não tive problema em escorregar as mangas dela e da lingerie pelos braços, parando o tecido na minha cintura. Me posicionei mais confortavelmente em cima de seu colo, de frente para si, ficando perfeito para ter a visão de meus seios.
– No carro – queria lhe dizer que não achava uma boa ideia transarmos dentro do carro em movimento, mas como quase sempre, não ouviu com a razão, mas sim sua cabeça inferior.
– Cale-se – foi o que disse antes de grudar sua boca na minha e mover suas mãos em direção ao zíper de minha calça.
Para quem transou dentro do mar, o carro era um lugar muito mais privado. Ainda assim, quando a razão surgia em minha mente durante o sexo como flashes, meu corpo se reprimia em vergonha pelo motorista que estava dirigindo, e o movimento que o carro causava quando parado em algum semáforo.
Chegamos em meu apartamento meia hora depois. Achei que fosse apenas me deixar, mas ele saiu do carro sem seu terno, dizendo para o motorista que trouxesse seu carro e o deixasse estacionado em uma das minhas vagas.
– Como você sabe que eu tenho vaga? – perguntei no caminho até o elevador.
– Jordan me disse – ele respondeu, segurando a porta para que eu pudesse entrar na frente. – Você fará o jantar hoje? – perguntou, com um sorriso nos lábios, segurando minha cintura enquanto me prensava entre o canto do cubículo e ele. Abri um sorriso quando senti sua testa encostar na minha.
– O que quer comer?
– O que você quiser preparar.
– Massa será – anunciei o prato, ouvindo o som de termos chego no andar ao mesmo tempo.
Não tanto para minha surpresa, Jordan e Klint já estavam acomodados, sentados no sofá, conversando. foi até eles cumprimenta-los:
– Amy e Lana não chegaram? – olhei em direção à cozinha, que estava vazia.
– Amy está no banho. Nós estávamos perto, então ela decidiu que queria passar aqui antes de irmos em um jantar beneficente que uma das clientes dela está dando – Jordan sorriu, me cumprimentando.
– Lana foi preparar algumas coisas em seu quarto – Klint apontou para trás, em direção ao corredor dos quartos. – Você sabe que Victoria está reformando meu apartamento...
– Ah, ela já vai se mudar? – ergui as sobrancelhas, chocada com a rapidez.
– Não, não. Ela disse que quer levar as coisas dela aos poucos. Passaremos toda segunda para buscar o que ela quiser levar. Combinou com Victoria algo sobre mostrar parte de tudo o que tem para irem testando as mudanças no novo closet.
– Ela finalmente terá um closet, então?
– Sim. E eu perderei um quarto de hóspedes – suspirou.
– Você nem o usava, Klint – Jordan deu dois tapinhas em seu ombro. – Ele será muito mais aproveitado agora.
– Meus pais gostam de ficar em casa quando vêm me visitar aqui.
– Falando em seus pais – voltei à conversa, olhando rapidamente para o corredor dos quartos, apenas para ter certeza de que Lana não estaria ouvindo. – Eles já a conheceram?
– Não. Ela está evitando. Eu já disse para irmos à Inglaterra, mas ela disse que há muito trabalho e prefere recebe-los aqui quando vierem – ele passou sua mão nos cabelos escuros. – Eles estarão aqui final de semana.
– Como? – eu, Jordan e perguntamos juntos.
Este final de semana? – Jordan perguntou. – E você a avisou?
– Irei avisar na quinta. Ela ficará nervosa, mas saberá lidar com a pressão. Meus pais não são pessoas difíceis como os seus, Jordan, eu posso evitar mais dias de briga – Klint explicou especificamente para Jordan, que desde o primeiro encontro desastroso de Amy com seus pais tem tido cuidado extra com esses eventos.
– Não sei, Klint, você deveria preparar melhor o campo – Jordan disse, inseguro.
– Miller, ele está reformando o apartamento e criando um closet para ela – se sentou no sofá próximo aos dois. – Ela está sendo preparada.
– Isso é verdade – apontei para . Ele tinha um ponto. Desde nossa conversa no iate, quando Klint disse que ele permitiria que ela tivesse seu closet criado por uma das designers mais famosas de Nova Iorque, Lana tem estado mais carinhosa com ele.
– De qualquer maneira, conto com você para acalmá-la se algo der errado, – Klint olhou para mim com um sorriso de quem não se sente nem um pouco culpado por me colocar como sua cúmplice.
Se Lana soubesse que estou ajudando Klint a enganá-la, é capaz dela depilar toda minha sobrancelha na próxima seção, só para eu ter de ser obrigada a fazer uma tatuagem temporária no lugar. E ela sabia que eu tenho pavor a dor.

Klint e Lana jantaram conosco, já que Jordan e Amy tinham o jantar beneficente. Depois que os dois saíram do apartamento com três malas enormes lotadas de roupas de Lana, e eu fomos para meu quarto, onde deitamos em minha cama no escuro e passamos a encarar o teto.
Olhar para a janela e ver o céu escuro é sempre – ou na maioria das vezes – uma inspiração. Como eu já havia criado todas as coleções que pediu, inclusive a de 50 anos cuja inspiração veio na paisagem da ilha de Providenciales, minha mente ocupou-se em pensar no meu atual problema: o status de relacionamento com ele.
? – o chame, depois de um tempo, quando decidi que iria abordar o assunto.
– Hum? – ele murmurou.
– Qual o nosso status de relacionamento?
Não ouvi resposta. Ele parecia mais um boneco, de tão imóvel que estava. Não sabia como interpretar sua falta de reação. Sabia que ele havia sido pego de surpresa, mas esperava ou uma resposta enrolada imediata, ou um corte rápido, negando. Mas ele não respondeu nada. Permaneceu calado com as mãos atrás da cabeça, olhando para o teto. Respirou fundo várias vezes, mas mesmo assim continuou silencioso. Prometi a mim mesma que não iria falar até que ele dissesse algo, o que não demorou muito:
– Estamos em um relacionamento – ele confirmou.
– Sério? Como o de Amy e Lana?
– Não a ponto de querermos morar juntos...
– Mas sérios? – virei meu rosto para ele, tentando enxergar com a pouca luminosidade que entrava no meu quarto. – Do tipo, não vamos nos relacionar com outras pessoas?
– Você pensava em se relacionar com outra pessoa, ?
– Você me entendeu – dei-lhe um tapa, que não foi reclamado. – Eu só quero ter certeza.
– Do quê?
– Que não estou perdendo meu tempo.
não respondeu. Ficou pensativo por longos minutos, prolongando minha agonia.
Até que então ele virou seu corpo em minha direção e prendeu meu queixo entre seu dedão e indicador, sussurrando muito próximo a mim:
– Você não está perdendo o seu tempo.
E então me beijou.

Durante os dois dias que seguiram na empresa, continuamos não nos encontrando no horário de serviço e limitando nossas conversas via mensagens. Ele me levava para casa, onde no caminho, acostumamos a nos divertir como na primeira “carona” para, como ele próprio dizia, aliviar o estresse do dia. De fato, passei a ficar muito mais bem humorada.
Saber que estava em um relacionamento sério com fez com que eu sentisse mais responsabilidade em colaborar com o humor dele. Na terça, acabou dormindo em casa depois de falar sem parar sobre o conselho da empresa e o mau hábito de acharem que podem mandar em tudo no lugar dele. Esse ainda era uma das poucas coisas na empresa na qual não havia se habituado. O conselho, apesar de ser composto por 16 pessoas, pareciam colaborar-se entre si, enquanto era o único que aparentava ir em contra-fluxo.
Apesar de termos realizado esse esquema nos três primeiros dias após a viagem ao Caribe, senti, na quarta-feira, enquanto me dedicava a organizar a cozinha e lidava com mais questões do trabalho, que esse era um ritmo que continuaríamos a ter sempre. Quando confirmou nosso status de relacionamento na segunda, achava que fossemos ser um casal mais ativo e menos caseiro, mas estava totalmente enganada. se mostrou um homem que gosta de ficar em casa assistindo a algum filme ou no silêncio lendo um livro enquanto eu me dedico aos desenhos. Isso mostrou-me que ainda havia muito de a conhecer.
Ao chegar quinta-feira, todo o andar estava se preparando para a festa de despedida de Amber. A notícia já havia se espalhado e eu havia avisado que não iria voltar com ele. Nós iríamos em um bar, o favorito de Amber, e Lauren não havia sido convidada. Na verdade, ela foi, mas não passamos o endereço depois, como havíamos dito que faríamos. Tampouco acho que ela se importou.
– Como você está se sentindo? – perguntei para Amber no local, onde eu, Claire e ela finalmente arranjamos um canto para fofocarmos juntas.
– Aliviada, ansiosa e já com saudadeees! – ela passou seus braços pelos meus ombros e de Claire, que rimos e a abraçamos. – Temos que continuar saindo, mesmo que eu não esteja mais na equipe!
– Você continua sendo nossa amiga, Amber! – Claire sorriu. – Além do mais, nada impede de você nos apresentar uns gatinhos da Thames, não é? E se eles pagarem as estagiárias melhor, você tem que me avisar!
Dividimos risadas quando meus olhos viram Nathan Garden no local. Olhei para Amber, que abriu um sorriso, indo cumprimenta-lo, mas se demorando mais em seu companheiro, o tal colega que a conquistou com o sexo. Nathan abriu seu sorriso e eu não tive como evita-lo.
– Ora, ora, mas que sorte – ele colocou uma mão em minha cintura. – Achei que estivesse me evitando, .
– E por que eu faria isso? – abri um sorriso, encostando na bancada do bar, vendo-o esticar o braço para pedir duas bebidas. – Sei que isso pode parecer um pouco rude, mas estou de saída.
– Está mesmo parecendo rude – ele disse, logo entregando-me uma das bebidas. – Vale arriscar pedir para me acompanhar somente nessa rodada?
Olhei para a bebida e então para Nathan. Eu estava em um relacionamento com e sabia de seu temperamento. Mas também havia dito que viria para a despedida e não precisava necessariamente mudar minha vida por ele. Assim, cheguei à conclusão que somente uma bebida não faria mal a ninguém.
– Só essa então.
Aceitar sempre foi um problema. Principalmente depois de uma dúvida.
Assim que peguei a taça da mão de Nathan, surgiu no bar com a desculpa de que estava por perto e foi convidado por uma das coordenadoras, que corou ao ter seu convite sendo atendido. Seus olhos encontraram os meus e tão logo os de Nathan a minha frente. Senti minhas maçãs do rosto corarem e meus olhos automaticamente se fecharam, não querendo passar por todo o processo de explicação; principalmente porque sabia que tinha um comportamento ciumento e um tanto egoísta.
– Nunca esperei ver o dono de uma empresa comparecer na despedida de uma funcionaria – Nathan ergueu a taça na direção de quando este se aproximou. – Devo dar-lhes os parabéns.
– Valorizar os funcionários até o momento em que saem da empresa é uma conduta que realmente poucos chefes sabem ter. Não preciso receber os méritos por uma ação que tenho sempre – ele enviou-me um olhar fulminante de quem não gostava nada do que via.
– Não sei bem sobre essa história de valorização, já que a razão principal de Amber vir para a Thames foi a baixa oportunidade de desenvolvimento na empresa e a falta de estrutura salarial – olhei para Nathan, cujos olhos estavam ardendo em chamas para provocar . Achei incrível como ninguém naquele bar, principalmente os que conheciam os dois, pareciam se importar de vê-los dividindo um mesmo espaço. Mesmo parecendo estarem tendo uma conversa agradável, as palavras saíam com tanto ácido, que logo comecei a arquitetar um plano de me salvar e sair dali.
– O mercado não está fácil para designers, você deve saber melhor do que ninguém – pegou uma bebida que lhe foi servida e tomou um gole. – Ela é uma ótima profissional e se decidiu ir para a Thames, é porque vocês ofereceram uma oferta melhor. Nós apoiamos a decisão da pessoa como o melhor para ela.
Admirei o esforço de em não desvalorizar Amber, caso contrário, além da discussão sobre o que eu fazia com Nathan no bar, colocaria na pauta a maneira como ele propaga os funcionários dele. Parte de mim ficou um pouco aborrecida por não poder discutir sobre isso; seria um ponto a favor meu.
Nathan pareceu perceber meu olhar de admiração em , pois remexeu-se no lugar e brindou sua taça na minha, chamando minha atenção:
– É uma pena que não pudemos aproveitar nosso drink. Você quer que eu a leve para casa?
– Está tudo bem – falei, colocando a taça cheia de volta no balcão do bar. – Preciso passar em uma loja antes que ela feche. Obrigada mesmo assim, Garden.
– Sempre à disposição – ele abriu um sorriso tão descarado que não culparia de gritar comigo enquanto tento me explicar. – Vamos nos falando – e sem pedir permissão, depositou um beijo no canto de minha boca. – – balançou a cabeça em cumprimento, não recebendo nada em retorno da parte de .
Limpei a garganta ao ser deixada a sós com ele. Minhas mãos suavam, pois queria me explicar ali mesmo e não ter que esquentar a cabeça em casa, mas me deu as costas e foi até a direção de Amber, ignorando minha presença completamente. É claro que aquilo afetou parte do meu orgulho, mas não pude falar nada. Quando o vi com Lauren na segunda-feira, ele logo me enviou uma mensagem, mesmo sendo provocativa, o que mostrava que estava pensando em mim, enquanto eu me mantive calada e deixei que Nathan beijasse o canto de minha boca, um local proibido quando se está em um relacionamento sério com outra pessoa.
No momento que me despedia de Amber, dava atenção para os funcionários e coordenadoras, criando um ambiente ainda mais aconchegante entre eles. Dei graças a Deus que Lauren não estava ali, mas é claro que não pude comemorar por muito tempo.
– Achei que não encontraria este lugar nunca! – sua voz saiu tão animada que quase tive vontade de vomitar.
Toda nossa equipe se entreolhou, provavelmente perguntando quem havia enviado o endereço para ela, mas se estava aqui, então é claro que ela estaria também. A vi permanecer ao lado dele o tempo todo. Suas mãos tocando seus braços, o busto inclinado em sua direção com o decote absurdamente aberto. Os homens do mercado não paravam de babar em seus seios. Ridículo.
– Você tem mesmo que ir? – Amber, um pouco mais alegre, me perguntou. – Queria que ficasse maaaais!
– Você está muito bem acompanhada, pare de ser egoísta – olhei para seu “namorado” e ouvi sua risadinha. – Além disso, amanhã minha família está chegando e se eu não pegar o catálogo para Lua e Max, não viverei para ver o sol de sábado.
– Ta bem, ta bem, então vai, né? Justo agora que nosso chefinho chegou – ela olhou para . – Hey! O que Lauren está fazendo aqui?
Não me dei ao luxo de responder. Amber, quando bêbada, tinha uma linha de raciocínio tão lenta que mal parecia a garota esperta que gosta de ir para locais isolados do mundo conhecer grupos carentes. Dei-lhe um abraço forte, desejei sorte e então fui até Claire, que já estava muito próxima de Camille.
– Nós estávamos apostando quantos orgasmos consegue causar em uma só noite. – Claire riu alto, chamando a atenção do grupo ao lado – Eu apostei três. Camille apostou quatro.
Cinco, pensei. Abri um pequeno sorriso, compreendendo a embriaguez das duas.
– Não vão embora muito tarde ou acabarão dormindo na rua – falei, ouvindo suas gargalhadas. – Até segunda-feira.
, você não acha que Camille parece aquela menina da Rapunzel? – Claire pegou nos cabelos compridos e muito louros da nova estagiária. Olhando bem, ela tinha razão. – Vai me dizer que o nome do seu namorado é Flynn Ryder?
As duas desataram a rir descontroladamente e não pude fazer nada mais do que me desculpar com a mesa ao lado depois de enviarem um olhar feio. Empurrei elas para mais longe do grupo e mais perto das pessoas da empresa, que as tolerariam mais.
Respirei fundo ao sair do bar, sentindo a brisa gelada do verão passar pelo corpo mega quente. Eu ainda tinha de passar no escritório da organizadora que contratei para cuidar da preparação do chá de bebê de Lua e Max, e do casamento de Taylor e Céci. Eu tive todos os dias anteriores para pegar o catálogo de cores e texturas de tecido, mas por ter pego carona com todos os dias, deixei para fazer isso logo hoje. No fim, a decisão me pareceu mais salvar minha pele, do que me privar de divertir com a turma do trabalho. Qualquer lugar que Lauren estivesse grudada em , eu queria evitar ao máximo.
Iniciei minha caminhada em direção aos cinco quarteirões que deveria andar até chegar ao escritório. Por sorte, a despedida de Amber começou logo após o horário do serviço, às 4 da tarde. O sol continuava alto, já que, no verão, ele costuma sumir somente em torno das nove da noite.
– Você está fugindo ou realmente tem um compromisso? – a voz de soou ao meu lado. Com o susto, dei um pulo para o lado, trombando em uma adolescente, que apenas me olhou feio, mas continuou caminhando com seus fones de ouvido enormes.
– O que está fazendo aqui?
– O que mais faria aqui? – ele colocou as mãos no bolso e olhou para frente. – Estou tirando satisfações. Ou deseja que tire conclusões precipitadas?
– Não! – falei, rapidamente. – Ele surgiu do nada, acho que o namorado da Amber o chamou. Me ofereceu um drink naquela hora.
– E você aceitou – ele me olhou, sério.
– Bem... Achei que não faria mal beber um gole – encolhi os ombros. – Mas você apareceu...
– E isso foi um problema?
– É claro que não! – olhei para ele, que desviou seu olhar do meu assim que o fiz. – Foi mais um alívio. Eu estive mesmo o evitando.
– Eu sei – ele falou, ainda olhando para frente. – Eu vi.
Virei meu rosto para ele, indignada.
– Como assim, você viu? Viu o quê?
– Ele oferecendo a bebida.
– E por que está me fazendo passar por essa situação toda? – abri meus braços e vi seu sorriso antes de me responder:
– Estava apenas te testando, claro – e enquanto eu caminhava, prestes a gritar com ele, seu rosto se virou, vindo muito próximo ao meu e a mão que estava no bolso veio em direção à minha. – E você passou – disse, dando-me um rápido beijo.
Sem dizer nada, ele segurou minha mão firmemente, de modo que caminhamos, pela primeira vez, como um verdadeiro casal de namorados. Em público, no meio de Nova Iorque. Olhei para os lados, uma reação de achar que alguém poderia nos ver, mas ele logo me lembrou:
– Pare de pensar – sua voz soou. – Não se preocupe, está tudo sob controle.
Olhei para ele, admirada. Então, meus olhos desceram para nossas mãos e não ignorei a vontade de cruzar nossos dedos, tornando a caminhada ainda mais íntima. Assim que arrumei nossas mãos, olhei de relance para , que tinha um sorriso nos lábios. Encarei o céu claro sentindo uma mistura de sentimentos percorrer meu corpo. Eu estava muito feliz.
E muito apaixonada.

Capítulo 11

O escritório de Emma Rose ficava no meio do quarteirão da 19 com a 47, o que significava que eu e caminhamos de mãos dadas como um verdadeiro casal por 17 minutos. Todo esse tempo foi utilizado para manter-se cravado em minha memória. Para dizer a verdade, usei tanto da minha cabeça, que quando vi, uma ideia de coleção para o dia dos namorados surgiu em minha mente.
Não que fossemos namorados.
Emma é uma das garotas com quem estudei design de joias depois de terminado a faculdade. Ela, porque queria ter bom gosto para indicar às suas clientes e eu, porque queria me tornar uma profissional. É uma das poucas pessoas que não trabalham comigo e que mantenho contado frequente; ela vive enviando suas clientes noivas, debutantes ou formandas para comprar joias na . Quando disse que estava em uma enrascada por ter de organizar dois eventos importantes da minha família e que deveria ocorrer em Maine, ela apenas me disse:
– Querida, você está desabafando com a pessoa certa. Irei lhe enviar um formulário de clientes especiais para que eu possa saber mais sobre os dois eventos e então farei questão de organizar algo espetacular e num preço de amiga!
Com ‘preço de amiga’, ela quer dizer que não cobrará o serviço de sua assistente, já que o valor para cada evento é tão abusivo que se eu não fosse parcialmente rica, iria manda-la para o inferno.
Seu escritório era em um andar de um prédio comercial tradicional de Nova Iorque. Diferente do hall decorado de uma forma mais, hum, humilde, seu espaço era muito branco, com muitas fotos de eventos de sucesso seu e flores, muitas flores. No dia que vim pela primeira vez eram girassóis, algo que ela disse indicar o início da estação. Agora são as orquídeas, que conseguem sobreviver mais ao calor – mesmo o andar inteiro ser refrescado pelo ar condicionado potente.
, minha grande amiga! – ela abriu seus braços antes de eu pedir para sua secretaria me anunciar. Estava saindo com algumas clientes que imaginei serem importantes – Queridas, essa é , designer das joias que lhes mostrei para combinar com o vestido e—oh! !
Assim que Emma e suas clientes avistaram com suas mãos nos bolsos logo atrás de mim, suas posturas mudaram, como todas as outras mulheres que sabem quem ele é. O peito para frente, a barriga murcha e a bunda empinada. Seria cômico se não fosse tão patético.
– Boa noite – ele abriu um pequeno sorriso educado, como sempre faz com as mulheres. Mais patético ainda. – me disse sobre suas indicações, por isso vim pessoalmente agradecê-la.
– Ora, mas isso não é nenhuma obrigação! – Emma arrumou seu cabelo tão graciosamente que somente teria a chance de não perceber, se ele não fosse tão observador. – A é minha empresa favorita, então é natural que eu sugira para minhas clientes. Inclusive, elas estavam animadas em ver as joias para formandas.
– NYU? – perguntei, vendo-as abrir um sorriso para , concordando. – Vocês com certeza irão querer nossa coleção. Ela foi criada pensando nas alunas de lá.
– Deem uma passada em nossa loja na próxima semana e pedirei que meus funcionários separem algumas peças que podem ser uma boa escolha para seus vestidos – sorriu para o grupo de cinco mulheres recém-formadas que não paravam de ser descaradas demais.
– Emma, vim apenas pegar os catálogos da escolha das cores dos tecidos – anunciei, querendo terminar logo essa seção social no hall do escritório dela. – Estou com um pouco de pressa, se não se importar – apontei com meus olhos para trás, como se fosse a razão de toda a pressa.
– Claro, claro! – ela deu um sobressalto pequeno e olhou para uma das secretarias que continuava a encarar com a boca aberta. – Pegue os dois envelopes no nome de , por favor – e sem esperar uma resposta, olhou para mim. – Fui até Maine esses dias para dar uma passada no local e pesquisar bons lugares para realizar o casamento e o chá de bebê. Para o casamento, um evento maior, a igreja no centro da cidade para a cerimônia e o salão do country club me parece ser uma boa solução. Sua irmã disse que queria algo noturno, então tive de descartar a fazenda como você havia sugerido. Estaremos no inverno e será terrível para os convidados lidarem com o frio da noite. Principalmente em Maine.
– Tem razão.
– Para o chá de bebê... Que tal se eu der uma passadinha na casa do casal ou do seu pai? Geralmente esses eventos são feitos em locais mais seguros para a mãe e o bebê, já que na maioria das vezes elas estão no final da gestação.
– Irei conversar com meu irmão e meu pai para ver qual o melhor local e te informo até segunda-feira, pode ser?
– Perfeito. Me passe o número deles também e irei ligar para marcar o melhor dia para ir visita-los. Com o início das aulas chegando tenho mais tempo para sair da cidade. Obrigada, Jen – ela pegou os envelopes da mão da secretaria. – Aqui, . Lembre-se que quando menos opções me enviarem, melhor.
– Não se preocupe. Céci é a pessoa mais decidida que irá conhecer. Agora, Lua...
– É, eu percebi. Ela tentou colocar a mãe na jogada, mas não se preocupe, disse que resolveria com você – ela disse rapidamente antes de eu protestar. Eu havia dito que não faria nada se a mãe de Lua se envolvesse nas decisões e Emma concordou que ter a mãe na jogada é fria.
– Conversarei com ela esse final de semana e se ela não decidir nada, eu mesma decido.
– É disso que eu gosto – ela enviou-me uma piscadela. – Bem, tudo bem, pode ir agora, desculpe segurá-la, senhor .
ergueu a mão, mostrando que estava confortável me esperando. Dei um abraço de agradecimento em Emma e segui para o elevador com os envelopes em mãos.
– Me perguntava como iria organizar um evento em Maine estando em Nova Iorque – ele disse assim que as portas se fecharam.
– Até parece que você não me conhece – olhei para ele com sorriso convencido estampado em meu rosto. Ouvi sua breve risada e então dizer:
– Eu apenas gosto de deixar que você me surpreenda – ele abriu um pequeno sorriso, que não escapou de meus olhos. – Mais alguma coisa ou podemos ir para sua casa?
– Por que não a sua casa? – brinquei, vendo-o me encarar por alguns minutos, logo em seguida abrindo um sorriso malicioso.
– Minha casa será.

Como era de se esperar, morava na cobertura de um apartamento de luxo. Não que o que eu morasse não fosse, mas comparado à moradia do presidente da , o meu parecia um quarto de Chinatown.
Logo que fomos deixado à porta do prédio pelo motorista de e o funcionário uniformizado do prédio abriu nossa porta, hesitei em sair. Assim que vi os olhos do homem cair em mim, lembrei que haviam pessoas ao redor que estavam sempre dispostas a observar e as pessoas com quem anda.
– O que eu disse sobre se preocupar? – ouvi seu sussurro em meu ouvido. Olhei para o lado, vendo parte de seu semblante e abri um sorriso, mostrando que eu não estava preocupada. Mesmo estando.
Saí do carro e andei apressada até o hall que, graças a Deus, estava completamente vazio. Aguardei para que não parecesse uma intrusa e esperei que ele cumprisse sua quota de educação diária cumprimentando os funcionários; em seguida, me guiou até um elevador onde digitou as únicas letras do teclado que havia no lugar de onde normalmente seria os botões de subir e descer.
PH. Penthouse. Eu nunca imaginaria que fosse ver um prédio próximo à área turística de Nova Iorque que tivesse os botões P e H no teclado dos apartamentos.
O som do elevador me tirou do transe. colocou a mão na área do sensor, deixando que eu entrasse primeiro e então entrou em seguida. Logo que a porta dupla de aço maciço se fechou, uma voz tomou conta do ambiente:
Por favor, digite sua senha.”
já estava no lado direito, onde botões de acrílico iluminados em um painel do mesmo material aguardava a senha para que o elevador finalmente pudesse se mover. Olhei para o lado oposto, mesmo não ajudando muito, já que tirando a parede onde ficava a porta, e a oposta a ela onde um espelho cobria do teto ao chão, as duas demais eram banhadas em um material que fazia parecer ouro, podendo ver o reflexo atrás com facilidade.
Não ousei comentar sobre o luxo do elevador, já que ele provavelmente seria o menor de todos os males. De fato, eu estava certa. No momento em que a porta dupla voltou a se abrir, um hall de madeira escura com uma mesa de centro de mármore claro me deu as boas-vindas. Pondo o pé para fora, luzes automáticas se ascenderam, assim como as demais que mostraram dois caminhos. À minha direita, uma sala enorme e parte de uma cozinha; do outro, uma porta dupla de madeira que provavelmente era o escritório de , visto que uma das portas mostrava uma fresta pequena com uma decoração mais parecida com ele do que seu escritório na empresa.
– Você quer beber algo? – ele perguntou, passando por mim e indo para a direita, onde a sala podia ser facilmente iluminada durante o dia pelas janelas de vidro enormes. Apesar de não haver sacada, nem maçaneta para abrir uma fresta, ninguém se importaria de perder essas funções, tendo uma parede inteira cuja vista era a própria Nova Iorque.
– Uau – murmurei, quase sem ar, assim que vi a cidade iluminada.
Inconscientemente, caminhei em passos pequenos para evitar tomar um tombo por não prestar atenção aonde pisava. Por essa razão, se não fosse o braço de me segurar na altura do estômago, eu teria tropeçado forte; não havia visto os dois degraus que me levava até a área dos sofás. Eles eram escuros e de couro, com almofadas que não me pareciam ter uma função cômoda, mas sim decorativa.
– Desculpe – murmurei, tentando me recompor. Olhei ao redor, onde um pé direito mostrava o caminho para um mezanino. – Eu nunca imaginaria que pudesse haver um lugar tão grande estando tão alto – voltei a encarar a vista de Manhattan, ignorando o sorriso de , divertindo-se em me ver estática.
– É uma vista de tirar o fôlego mesmo – ele falou, um pouco mais longe. Passados breves minutos, uma taça com vinho surgiu em minha frente e sua voz absurdamente perto de meu ouvido. – Mas você tem vistas melhores com que perder o fôlego agora.
Meus olhos encontraram os seus enquanto minhas mãos seguravam firmemente a taça. havia tirado o paletó do terno e a camisa estava levemente desabotoada, mostrando parte de seu peitoral definido. Mordi o lábio, lembrando que pela primeira vez na semana, não havíamos feito nada no carro.
– De fato, estou sem fôlego – disse baixo, mas tão baixo que fiquei surpresa por ele ter aberto um sorriso, mostrando que havia entendido.
Sua mão livre deslizou pela minha cintura até poder forçar meu corpo a grudar no dele. Minhas costas encontraram seu peitoral e abdômen enrijecidos, causando um pequeno tremor entre minhas pernas. De repente, conhecer o lugar onde ele mora não era tão importante quanto aproveitar a atenção que eu nunca tinha durante o serviço.
 
dormiu pela primeira vez antes de mim depois do sexo. Enquanto via suas costas nuas subirem e descerem mostrando uma respiração compassada e tranquila, olhei para o teto enorme de seu quarto, quando finalmente decidimos parar de transar devido ao cansaço. Eu ainda tinha de trabalhar no dia seguinte e meu notebook estava em casa; além disso, havia combinado com Céci de me encontrar com ela e Lua na loja onde deve fazer a primeira prova de seu vestido de noiva.
Lentamente e o mais silenciosamente possível, levantei da cama e fui em direção à primeira porta que encontrei. Infelizmente, não era a do banheiro, como eu procurava, mas pude ver um closet masculino tão enorme, que nunca imaginaria que pudesse ter tantas roupas que não fossem tons de azul, preto ou branco. Vi sua coleção de relógios exposta em um móvel bem ao centro do retângulo do closet e o armário de gravatas perfeitamente enroladas. Havia um painel de óculos de sol e outro com várias divisórias quadradas, cada uma preenchida por camisas sociais tão bem dobradas que pareciam terem vindas direto da loja. Para os casacos e paletós abertos não havia um armário, somente uma arara enorme com cabides espaçados em uma distância meticulosa. Ousei abrir um armário composto por gavetas, mas o susto de ver luzes se ascenderem dentro dela me fez desistir rapidamente.
Voltei à porta, onde vi a combinação do chão encapetado em um tom gelo com os móveis de madeira escura e detalhes em metal. A cara de . A definição da riqueza masculina. Fechei a porta lentamente para evitar algum barulho e tentei abrir a próxima, dando sorte de não ser a do quarto, mas sim o banheiro que eu tanto queria encontrar.
Ele era claro, com o chão e paredes em um mármore creme. Abri um dos armários e pude encontrar uma pilha de roupões e toalhas dobradas e cheirosas. Peguei um de cada e fui em direção ao chuveiro, subindo os três lances de degraus até chegar à porta de vidro. Aquilo era insano. Quando Lana disse que o apartamento em que morávamos não era nada comparado aos ricos herdeiros, minha imaginação nunca chegaria a imaginar um lugar tão imenso quanto a mansão da Jennifer Aniston.
Enquanto enxaguava meu cabelo, um par de mãos tomaram conta do meu corpo, me assustando e quase empurrando três lances de escada abaixo.
– Achou divertido conhecer meu quarto? – ele disse, seus lábios grudados nos meus.
– Eu não fiz de propósito – senti minhas maçãs do rosto corarem. – Não sabia qual era a porta do banheiro.
– Fingirei que acredito – seus lábios desceram pelo dorso de meu pescoço. – Eu estava mesmo afim de um banho.
– Você sabe que eu tenho que voltar para casa, não é?
– E por quê? – suas mãos começaram a trilha que ele sabia que me fazia sair de órbita.
...
– Eu disse que cuido de tudo – ele murmurou, tocando o lado interno de minha coxa.
– Amanhã eu trabalho – minha respiração começou a se tornar ofegante. Fechei meus olhos, tentando não perder o fio da meada, mas não estava fácil.
– É home office – ele disse, massageando meu seio com sua mão livre. – E aqui é um lar.
– Minhas coisas estão em meu notebook.
parou com as carícias e afastou de mim, apoiando suas mãos na parede, me prensando entre ela e ele. – Pare de pensar. Eu já disse que cuidei de tudo.
– Nem tudo está sob o seu controle...
– Está – ele me cortou, seus olhos azuis sérios, a água escorrendo por seus cabelos louros. – Você quer começar uma discussão? Aqui? Agora?
Mordi o lábio. É claro que eu não queria; nós estávamos nus dentro do box de seu banheiro. Como eu poderia querer discutir e esfriar o cenário?
– Confie em mim. Eu sou o chefe, lembra? – seu rosto voltou a se aproximar do meu e as mãos desceram, tornando a trabalhar nos locais que estavam antes de se interromper.
Fechei meus olhos, desistindo do plano de voltar para casa.
Eu cederia para ele. Mas só dessa vez.

Meus olhos se abriram eram quase dez e meia. Saí da cama em um pulo e não vi ali, o que me deixava ainda mais nervosa ainda, porque eu estava nua, minhas roupas não estavam espalhadas no chão do quarto como eu imaginava que estariam e assim que abri a porta para o corredor, ele era tão imenso que eu não sabia onde estava.
Me enrolei no roupão que lembrava que tinha no banheiro – e que acabei não usando –, e saí do quarto à procura das minhas roupas. Depois de aproximadamente cinco minutos, encontrei as escadas que levavam para o mezanino. Ao descer em passos apressados, vi meu notebook em uma mesa com um café da manhã completo e fresco.
– Achei que dormiria até às onze – falou, vestido e com uma xícara de café em mãos. O jornal estava aberto na outra e ele não me parecia nem um pouco apressado em sair ou me acordar.
– Por que não me acordou? Lauren vai me matar!
abriu um pequeno sorriso, que me deixou ainda mais nervosa. Corri até meu notebook e o liguei, sentando-me do lado oposto de onde ele estava.
– Nem um beijo de bom dia? – ele perguntou, exalando sarcasmo em seu tom.
– Receberia, se tivesse me acordado no horário e evitado meu mau humor.
– Hey, não me culpe pela sua falta de organização. Meu despertador tocou às sete, você quem tem um sono pesado – ele soltou uma risada que me fez encará-lo com meu pior olhar.
– Não me enche – murmurei, ouvindo sua risada.
Enquanto ligava o notebook e via os e-mails de Lauren perguntando aonde diabos eu estava, lia seu jornal tranquilamente e tomava seu café.
– Coma – ele disse, tempo depois. – Ou você prefere almoçar direto?
– Preciso trabalhar para sair às duas. Tenho de estar às três na loja da prova do vestido de Céci ou ela me mata.
não me respondeu. Não prestei atenção em seus movimentos, apenas quando um prato com ovos mexidos, torradas com presunto defumado e um copo com suco de laranja natural foram postas ao meu lado, que percebi que durante todo esse tempo ele esteve preparando minha refeição.
– Coma – ele mandou novamente.
Antes que eu pudesse protestar sobre seu comportamento, ele me ignorou, dando-me as costas e indo até a cozinha para atender a campainha que havia soado. Inclinei meu corpo para ver se conseguia enxergar aonde era a saída de serviço. Sabia que o elevador social se movia apenas sob as ordens de , mas a de serviço não me parecia ser tão limitada assim.
– Quem fez o café? – perguntei, assim que ele voltou. Seus olhos vieram até mim e então para o prato que havia posto ao meu lado. Ao ver que eu não havia tocado em nada, ergueu uma de suas sobrancelhas, me obrigando a pegar o maldito sanduíche.
– Eu – ele respondeu, satisfeito.
Sua resposta me fez mastigar com mais cautela, surpresa por não haver ninguém fazendo esse tipo de coisa para ele.
– Você não tem uma funcionaria que faça isso para você?
– Não sou aleijado – respondeu enquanto passava geleia em sua torrada.
– Eu não quis dizer isso – fechei os olhos, impaciente com seu comportamento naquela manhã. – Eu quis dizer, por que você fez o café?
– Qual o problema de eu fazer o café da manhã?
– Geralmente pessoas como você não têm o costume de realizar esse tipo de esforço – disse entre uma mordida e outra.
– Isso não quer dizer que regra seja válida para todas as pessoas do mundo – com a mão livre, ele ergueu uma mala que reconheci ser minha na cadeira ao lado da dele.
– O que...
– Meu motorista foi buscar – começou a explicar antes de ser indagado. – Steins estava no apartamento pela manhã, então pedi que ela preparasse algumas roupas para ele trazer.
Engoli a seco o sanduíche, vendo que ele tinha mesmo o controle sob a situação.
– Hum... Obrigada – disse baixo, não ouvindo uma resposta e vendo o jornal abrir-se novamente, quebrando o contato entre nós dois.
Até às duas da tarde, trabalhei sem parar, fazendo tudo o que Lauren queria e pegando meu conjunto de material rascunhos para fazer os esboços que ela geralmente queria que eu fizesse, já que nunca entendia minhas explicações de briefings.
No momento em que estávamos para finalizar o expediente, ela anunciou no grupo aberto que Guy teria de entregar os desenhos para a coleção de natal até o final da próxima semana, para que desse tempo de todas as pessoas importantes avaliarem o trabalho e ele ter a chance de ser chamado para a lista de designers da coleção de 50 anos. Meu sangue subiu à cabeça ao ouvi-la falar sobre essa maldita coleção que deveria ser minha. Por um segundo, cogitei tirar o fone de ouvido do plug e conversar com para que ela soubesse que nós dois estávamos juntos. Mas eu iria aturá-la mais um pouco. Pelo menos até o anúncio dos designers.
Ao dar o horário, tomei mais um banho, dessa vez em um dos quartos de hóspedes por preferência minha – eu podia trancar a porta – e às duas e meia estava pronta para sair. Para a minha surpresa, também estava pronto, e logo que entramos no carro, descobri que ele não me daria somente uma carona até a loja, mas sim pegaria meu pai, Max e Taylor para darem uma olhada no terno.
– Quando você combinou isso com eles? – perguntei, boquiaberta.
– Taylor me ligou na terça – ele disse, olhando para a vista fora do carro. – Algum problema? – seu rosto se virou para mim, meus olhos encontrando os seus.
– Não. Só, bem, não estou acostumada a ver você sendo próximo deles dessa maneira.
– Eu não sou próximo a eles – sua voz fria tomou conta do carro. – Apenas não os ignoro.
– Você escolheu ser gentil com eles então?
Assim que fiz minha pergunta, se calou. Ele percebeu que sua resposta não havia sido favorável e pelo meu tom sarcástico, eu não gostei nada do que havia dito.
– Eles são pessoas interessantes e você me pareceu ligeiramente feliz por estarmos tendo contato. Então, que mal tem?
– Você está fazendo isso porque acha interessante lidar com pessoas que são gentis e também porque eu gosto, de modo que seja mais fácil para você lidar comigo?
– Por que é que você sempre leva as coisas para o lado ruim?
– Desculpe se você me acostumou assim! – urrei, nervosa. – Escuta, se você não quer fazer isso de verdade, não precisa se obrigar só por causa de mim. Já temos que...
– Quando é que eu disse que não queria fazer isso? No começo? Sim, eu não queria fazer. Estava fazendo para obriga-la a realizar um trabalho para mim. Mas agora, depois de todo esse tempo, você ainda acha que eu faço as coisas para transar com você? Para tornar nossa relação mais “fácil”? Todas as minhas tentativas genuínas de tornar as coisas mais fáceis, você interpreta como algo ruim!
Não pude responde-lo, porque nunca havia visto seu tom de voz subir de maneira tão rancorosa. Era verdade, ele estava tentando. E também era verdade que eu sempre via o mal em suas ações. Mas também era uma verdade que eu havia acostumado a esperar coisas ruins vindo dele. Porque nós sempre acabávamos discutindo e nossas opiniões sempre divergiam; além das provocações que fazíamos ao outro para nos irritarmos.
Respirei fundo, pensando no agora.
– Você tem razão – concluí. – Me acostumei com seu comportamento grosseiro e acho que tudo o que você faz é por algum interesse chulo.
Olhei para ele pelo canto dos meus olhos e seu corpo continuava tenso. Fechei meus olhos, pensando em como pedir desculpas para um homem que sempre quis derrubar com minhas palavras. Tentei, pela primeira vez, acalmá-lo da minha própria maneira.
Aproximei meu corpo do seu e uni nossos lábios em um beijo sem malícia. Aos poucos, senti seu corpo voltar a relaxar e a boca abrir, dando espaço para nossas línguas acabarem com a tensão restante.
– Eu vou me esforçar mais – murmurei. – Mas você tem que aprender a lidar com o tom de sua voz – reclamei, vendo seus olhos abrirem. – Ele me confunde!
Os lábios de se apertaram em uma tentativa de não me retrucar. Sorri ao ver que ele havia conseguido e voltei a lhe beijar, como prêmio.
– Obrigada – sussurrei antes de abrir a porta do carro, já que ele havia parado fazia um bom tempo. continuou dentro do carro e eu logo pude ouvir um “lá está meu recheio!” de meu pai. Abri um sorriso e olhei em sua direção, vendo minha família toda reunida em frente à loja, como havíamos combinado.
– Céci estava prestes a parir um filho – Max disse, assim que o cumprimentei. Nosso pai logo arregalou os olhos, tão inocente que era.
– Pare com isso, Max! – Céci lhe deu um tapa. – Eu não estou grávida, pai – olhou feio para o nosso irmão mais velho, que limitou-se a rir.
– Nós combinamos três horas – olhei em meu relógio, vendo o ponteiro maior na casa dos dez. – Cinco minutos de atraso não é o suficiente para parir um filho.
– Até parece que você não conhece a sua irmã – Max revirou os olhos. – Será que vocês podem entrar? Lua não pode ficar muito tempo no calor e está extremamente abafado aqui fora.
– Desde quando você fala “extremamente”, Max? – abri um sorriso sarcástico, vendo suas bochechas corarem por ter sido pego tentando parecer mais culto. Palavras maiores que ‘refrigerante’ nunca foram o forte dele, mas sabemos todos – exceto papai – que a razão disso tudo é a influência de .
– Onde está meu último genro? – papai falou, em um meio abraço. – Taylor disse que ele viria nos buscar para testarmos os ternos.
– Não é testar, papai – Céci resmungou. – É provar...
– Mas não se prova comida? – ele a encarou, confuso.
– Deixa, Céci, deixa – fiz um carinho em suas costas.
Céci quem parecia ser a pessoa no meio de uma gestação. Enquanto Lua mantinha-se calada e reclamando somente para Max, que era quem vinha nos mandar fazer o que ela queria, Céci não parava de resmungar para lá e para cá, deixando sua personalidade doce de lado para que pudesse tornar sua programação perfeita em realidade.
apareceu minutos depois, depositando sua mão em minha cintura. Mesmo mostrando através de sua voz que não estava incomodado com a presença da minha família, sua expressão continuava fria. Todos pareciam estar acostumados com esse jeito dele, mas algo me dizia que não sabia lidar com esse tipo de atenção.
– Bem, então nós vamos até a loja da Boss—
– Hugo Boss – Céci cortou Taylor, recebendo um olhar feio de todos nós.
– Da Hugo Boss – ele se corrigiu, vendo um sorriso brotar nos lábios da minha irmã. –, e combinamos de nos encontrar...
– Aqui, claro – Céci disse. – Nós demoraremos um bom tempo. Vamos discutir vários detalhes do casamento e ainda tem o chá de bebê da Lua—
– E do Max – ele complementou, sendo o novo alvo do nosso olhar aborrecido. Max sempre teve uma personalidade de quem não gosta de ser deixado de lado. Me parecia que essa seria uma característica que não mudaria nunca.
– Enfim – Céci continuou. –, é melhor que venham para cá e daqui vamos jantar.
– Jantar? – Max perguntou. – Quanto tempo vocês esperam ficar dentro dessa loja?
– Max... Não pergunte – Taylor fechou os olhos. Achei interessante o modo como ele conhecia Céci, já que no segundo seguinte, ela estava com as bochechas extremamente coradas e as mãos na cintura, exatamente como mamãe fazia quando estava prestes a nos dar um sermão.
– Escute, mano, vocêjá se casou. Ótimo! Mas este é o meu casamento e eu quero que ele seja perfeito. Então pare de querer opinar e apenas faça o que estou falando!
– Eu não estou opinando—
– Tudo bem, tudo bem – ergui meus braços, recebendo o olhar de alívio de Taylor, Lua e papai. – Nós entendemos. Max não quis opinar e Céci quer ficar aqui para acertar todos os detalhes possíveis. Hoje o dia é dela, tudo bem? – olhei para o meu irmão, que quis protestar. – Pelo menos até às oito da noite – virei a cabeça para Céci, que aceitou o horário. – Perfeito! – olhei para , que achava engraçado eu ter de entrar no meio da briga para acabar com a discussão. – Querido, se houver algum problema, é só me avisar – me aproximei dele para lhe dar um beijo estalado em seus lábios e sussurrei o mais rápido possível. – Suma com eles daqui logo.
abriu um pequeno sorriso, provavelmente achando divertido em me ver no meio de todo esse apuro. Por mais que estivéssemos em uma relação, ele ainda era o cara que gostava de me provocar e me ver nervosa.
Entramos na loja assim que os quatro entraram no carro de e partiram para a loja ver os ternos. A representante responsável por apresentar o vestido de Céci não prolongou muito a introdução, visto que a noiva não parava de olhar para os lados à procura de seu vestido.
– Espero que não fique como aquela ali – murmurou para mim, mostrando uma noiva magra como ela, mas com um vestido que definitivamente não lhe caiu como uma luva.
– Pare de ser má, Céci – ri, fingindo achar graça. – E sua sogra? Não verá o vestido? 
– Ah, você sabe como é Molly. Contanto que o filho dela se case e saia de sua casa, está tudo bem eu fazer da maneira que eu quiser – ela ergueu os ombros, pouco interessada em falar sobre a mulher. – Eu comentei com ela sobre vir para cá em um chá que tomamos no início da semana e ela logo inventou um evento para ir no final de semana. O pior é que eu queria que ela viesse, faz sentido?
– Céci, não é porque suas amigas não gostam das sogras, que deve ser o mesmo com você. Molly sempre foi uma mulher adorável, tanto que já cheguei a imaginar que Taylor era adotado, devido sua personalidade oposta.
! – ela me deu um tapa no ombro. – Eu não acredito que você ainda tem birra com Taylor!
– Há certas coisas que nunca mudam – peguei a taça de champanhe que uma funcionária veio nos servir. – Sempre que o vejo, lembrarei de quando ele apareceu com os pés descalços na escola... Tudo bem, não mencionarei esse fato agora.
– Nem no seu discurso de casamento – ela me olhou feio e abri a boca, fingindo estar indignada. – ...
– Só estou brincando! Meu Deus, como você está chata, Céci.
– Eu sei! – o desespero tomou conta de sua expressão. – Taylor é gentil demais para falar, mas até papai pediu para eu pegar mais leve. O papai!
– Bem, isso sim é um sinal de que a coisa está feia – murmurei, observando-a ficar ainda mais em pânico. Nosso pai não nasceu com o dom da percepção; logo, quando ele comenta algo, significa que era grave. – Eu sei que você é controladora, alguém tinha que puxar a mamãe nesse lado; mas não significa que você deva mudar sua personalidade. Lembre-se que Taylor está casando com você pela menina doce que você é.
– E se eu for essa pessoa chata? E se essa for minha ‘eu’ madura?
Suspirei, desanimada. Se essa fosse realmente a Céci que teríamos de lidar a partir de agora, bem, Lana não a permitiria vir em suas festas de aniversário e Amy não a ajudaria mais a organizar suas coisas com a mudança. Somos três amigas que gostam de ser a própria voz de comando.
– Você não é chata. Sempre que for abrir a boca para falar algo, pense nisso. Não quer dizer que você não deva se expressar, apenas analise a situação e veja se o que for dizer fará diferença na vida da pessoa.
Céci suspirou, desanimada, mas logo teve seu humor bom de volta ao ver a funcionária trazer um enorme vestido de princesa, da maneira que ela queria. Abri a boca. Jamais imaginaria um vestido melhor para ela.
– Não é perfeita?
– Vera Wang sabe como representar as noivas – concordei, me levantando do sofá e dando uma volta no vestido. – Uau!
– Ele é lindo, Céci – Lua abriu um sorriso tímido. – Dá até vontade de se casar.
– De novo, você quer dizer – Céci brincou, tirando risadas de todas nós.
“Diga por você, querida.” Pensei, vendo as duas falarem animadas sobre o design, acabamento e detalhes. Durante todos esses anos me preocupei tanto em trabalhar, me tornar uma profissional melhor e ter os homens como uma válvula de escape, que nunca me importei com a questão do casamento. Mesmo meus pais pressionando para que eu levasse alguém para Maine e lhes apresentasse como namorado, minha mãe nunca teve a oportunidade de tirar uma foto minha de mãos dadas com um cara na noite de natal.
Outra funcionária da loja trouxe uma caixa de lenços, já que Céci ficou emocionada em ver o vestido que até então era uma ilustração no catálogo, se tornar realidade, e Lua, por relembrar do dia de seu próprio casamento e estar mais sensível devido a gravidez. Suspirei, somente para não acharem que sou insensível.
– Vá experimentar, querida! – dei um leve empurrão nas costas de Céci, que me olhou com os olhos mais brilhantes que um diamante polido. – Ele ficará perfeito em você. Vocês têm tiaras de cabelo? – olhei para as funcionárias, que concordaram e saíram apressadas para pegar, enquanto isso, duas levaram o vestido de Céci até o provador com ela atrás dizendo quão maravilhoso ele era.
Voltei a me sentar e Lua tentava arranjar uma posição perfeita e confortável. Peguei uma almofada que estava ao meu lado e coloquei atrás de si, na altura do meio de suas costas, recebendo um sorriso aliviado.
– Obrigada – disse, em sua voz doce.
– E então. Emma me disse que falou com você essa semana – abri um sorriso, achando o momento perfeito para tirar a bendita decisão sobre os detalhes do chá de bebê dela, agora que ela estava animada com o fato de organizar um evento depois de visto o vestido. – Nós estávamos pensando em realizar o evento lá na casa do papai. É seguro para você, confortável, cabe bastante pessoa e é o único lugar que conheço que podemos fazer o que quiser tão em cima.
– Seria ótimo se pudéssemos fazer em um local seguro. Cada dia mais sinto o peso do bebê e tenho que me manter sentada – ela fez uma careta. – Você quer ver a casa dos meus pais?
– Não, não – balancei a mão, tentando não parecer desesperada para negar. Casa dos pais dela? Já custei em não deixar sua mãe vir palpitar no evento e me arriscaria em fazer com que ele acontecesse em sua casa? Seria suicídio – Papai adoraria ver um pouco de agitação na casa dele. Como você concordou, pedirei que ela dê uma passada na casa esse final de semana. Magnolia, a vizinha do papai, tem uma chave reserva e poderá abrir a casa para ela dar uma olhada – peguei meu celular e enviei uma mensagem para Emma falando que o local estava estipulado. – Viu? Pronto. Fácil.
– Bem, se você acha que tudo bem – Lua disse.
– Agora, sobre a cor. Você quer algo bem estilo Nova Iorquino, certo? Nada de Maine?
– Nada de Maine – ela sorriu. – Vi algumas decorações pela internet e achei todas especiais.
– Você pode me mandar as que gostar e posso ver o que Emma pode organizar que se aproxime dele. Será o chá de bebê mais fino de Maine, pode acreditar – sorri, tocando sua mão e vendo-a dar um sobressalto.
– Preciso ir ao banheiro – anunciou, fazendo com que me levantasse e a ajudasse em seguida.
– Quer que eu vá junto? – a olhei, preocupada. Max havia me dito sobre ela querer ir ao banheiro toda hora. Pediu que eu fosse junto, mas Lua não gosta de parecer uma princesinha quando está sozinha comigo. Acho que ela lembra bem da minha personalidade e das minhas amigas, por isso, não quer passar a imagem de alguém dependente, mesmo sendo.
– Está tudo bem – ela sorriu, se afastando.
Olhei meu celular, vendo uma mensagem de Emma falando que tem um horário ainda hoje. Ela estava Massachussetts para organizar uma festa a pedido de alguns alunos da Harvard e disse que tinha algumas horas para subir até Maine. Liguei para Magnolia e disse sobre Emma; a mulher é tão doce que disse que deixaria algumas guloseimas prontas; em seguida, confirmei com Emma e lhe passei o endereço de casa. Se bem conheço meu pai, ele pediu que a funcionaria passasse em casa ontem para que limpasse antes dele vir para Nova Iorque. Apesar de enrolado e um pouco esquecido, meu pai ainda tem um senso de organização e limpeza que geralmente fazia parte da personalidade da mamãe.
Céci surgiu alguns minutos depois, o vestido de caimento perfeito em seu busto, as mangas de princesa valorizando seu colo e a cauda maravilhosa.
– Ela não quis a tiara – a funcionária me disse.
– Eu irei querer um véu, para que Taylor possa subi-lo, sabe? Como nos filmes? – ela fez o movimento do véu em frente ao seu rosto, tapando a visibilidade. Só uma garota como Céci para não querer entrar com o rosto estampado nas fotos da entrada da cerimônia. Abri um sorriso dizendo que ela tinha razão, mesmo achando a ideia um pouco ultrapassada.
Céci se olhava no espelho em formato meia-lua que lhe dava uma visão abrangente de como o vestido estava em seu corpo. Pude ver algumas noivas a olharem com inveja e cochicharem algo para suas vendedoras, apontando para o vestido.
– Esse vestido, ele é único? – perguntei para uma funcionária.
– Vera faz um vestido por estado, mas este é o último disponível. Como sua irmã reservou com antecedência antes do lançamento, agora não há mais nenhum, a não ser que alguém desista.
– Você consegue ver se algum dos vestidos reservados foi para Maine, New Hamptons, Boston, Massachussetts...?
– Darei uma olhada para a senhora – ela sorriu, afastando-se de mim.
Céci queria ser a noiva do século na nossa região e eu a ajudaria realizar seu desejo.

Quando Taylor chegou com , meu pai e Max, o vestido de Céci já havia sido guardado. Além disso, eles fizeram questão de chegar às oito, para que Max e Céci não tivessem mais uma cena de discussão. Lua já havia concordado com as cores que eu havia sugerido e agora não havia mais nada que ela pudesse opinar, pois eu e Emma faríamos todo o trabalho.
disse que seu motorista nos levaria até a feira amanhã – Max disse, orgulhoso por dizer que um motorista os levaria até lá. – Ele disse que há cadeiras para gestantes como Lua, mais, hum, sensíveis – sorriu sem graça para a esposa, que pareceu não ouvir sua descrição.
– Que ótimo! Vocês querem eu vá junto? Para o caso de terem de realizar entrega...
– Não, não, nós conseguimos nos virar. Vamos passar um bom tempo lá – ele suspirou, já exausto por imaginar o quanto Lua demoraria para escolher o berço perfeito ou a cômoda perfeita.
– Você vai passar um dia comigo, filhotinha, lembra? – meu pai disse, animado. – Da última vez não fomos ao Brooklin Bridge. E dessa vez eu queria conhecer os Hamptons.
– Hamptons? – arregalei os olhos. – O que o senhor quer fazer lá, pai?
– Bem, ouvi dizer que é a área dos artistas morarem. Meu amigo Buddy disse que é um lugar bom para conhecer.
– Pai, que tal passearmos pela quinta avenida ou pegarmos um barco até a Estátua da Liberdade?
– Querida, estes são lugares comuns de turismo. Esse velho aqui já viu tudo isso – meu pai sorriu, dando mais uma vez o seu “chega pra lá” para que eu fizesse o que ele queria.
– Talvez eu possa dar uma melhorada nessa programação? – surgiu na conversa, as mãos nos bolsos. Meu pai olhou para ele maravilhado e não ousou retruca-lo como fizera comigo há pouco.
– Eu e Taylor vamos ver as gravatas para os padrinhos. , você acha que consegue organizar um chá-bar para final de outubro? – Céci perguntou, durante a saída da loja.
Se tudo desse certo, final de outubro eu estaria entregando os desenhos da coleção que preparei para os 50 anos da empresa. Barbara analisaria e então eu somente acompanharia o processo de produção.
– Claro, Céci – sorri, tentando parecer tranquila. – Mas pode ser início de novembro?
– Início? – ela olhou no calendário em seu celular. – Só se for na segunda semana. A primeira eu e Taylor temos um Congresso no Texas para cirurgias veterinárias. Queremos melhorar um pouco a clínica.
– Sem problemas, é até melhor – pensei, imaginando que não ter Céci por perto querendo controlar os funcionários de Emma e ela era bem melhor. – Falarei com Emma esse final de semana. Podemos fazer o chá-bar na casa do papai.
– Adoro festas! – ele disse, logo concordando. Sorri para ele e fiz um carinho em suas costas. Eu diria mais tarde sobre o chá de bebê de Lua e Max que ocorreria em uma semana.
Emma deu graças a Deus que escolhi uma cor fácil para a decoração. Azul era o mais comum entre gestantes que estavam esperando um menino. O que mais daria trabalho era o buffet e as lembrancinhas; mas Emma era ótima no que fazia, por isso, não haveria nenhum problema com o prazo, considerando que ela fez um casamento inteiro com 500 convidados no Ano Novo, quando tudo está fechado, em apenas três dias. Que bruxaria ela fez, eu não sei, mas uma semana e meia de antecedência para um chá de bebê íntimo é um alívio para ela.
, como da primeira vez, fez uma reserva em um restaurante fino. Olhei para ele antes de entrarmos, quando minha família ainda se preparava para entrar, e ele logo entendeu minha mensagem:
– É por minha conta dessa vez – abriu um sorriso sarcástico. Retribuí com um mais aliviado e me apressei a entrar antes que ele mudasse de ideia.
Por sorte, o local era como o outro restaurante e uma sala havia sido reservada. Quando estamos conversando, costumamos ser barulhentos e não ter controle sobre a altura de nossas risadas. Principalmente Taylor e Max.
Durante nossa conversa sobre a vida das pessoas de Maine, tirei um tempo para observar o ambiente em nossa mesa. Era a primeira vez que nós estávamos reunidos como uma família de verdade, quero dizer, não posso considerar a vez do 4 de julho verdadeira, já que eu e estávamos em pé de guerra um com o outro. Olhei para ele, vendo-o conversar com meu pai como se ele estivesse na família há tempos. Meu pai lhe fazia comentários sobre assuntos de direito, provavelmente por ter estudado um pouco mais sobre o assunto de julho para cá, e respondia com a maior tranquilidade.
A ideia deles acharem que era de direito ainda me perturbava. Se não tivéssemos inventado essa profissão, eu estaria tranquila em fingir que sempre fomos um casal, mas este pequeno detalhe servia como assombro para mim.
Encarei por um longo tempo o sorriso genuíno do meu pai. Ele estava muito feliz. Talvez fosse a idade e o fato de seus filhos todos estarem independentes e ele estar passando o início da velhice sozinho. Apertei meus lábios, me sentindo um pouco mal por vê-lo tão feliz, quando se sentia tão solitário. Mesmo com um mar de dinheiro na conta, papai nunca gostou de ficar sozinho, por isso nos obrigava a realizar as refeições do jantar juntos, e depois que saí de casa, alguns feriados, principalmente o natal. Ele acreditava que a base de uma vida vem da família e é apaixonado por cada um de nós, seus filhos, que mesmo na época de rebeldia nos dava amor incondicional.
– Querida? – meu pai me chamou. – Você está bem?
– Hum?
– Você está chorando, – Céci falou, sentida.
Arregalei meus olhos e levei os dedos ao local para sentir algumas lágrimas presas nele. Ri, sem graça, e gaguejei algumas palavras. Max quem me salvou, lançando um novo assunto na mesa e chamando a atenção de todos para ele. Depois da cena, tentei não me deslocar da conversa para não dar mais nenhum bola fora.
Na saída, Max, Lua e Taylor foram à frente chamar um táxi enquanto apresentava meu pai ao chef de cozinha, um pedido de Logan . Sempre que ele gostava muito de uma comida, fazia questão de conhecer quem preparou tudo para parabenizar. Uma virtude que só meu pai tinha.
– Você estava pensando na mamãe, não estava? – Céci me perguntou quando os três foram à frente chamar um táxi e eu dera a desculpa de querer esperar e papai.
Virei meu corpo em sua direção e ela tinha um olhar de quem queria conversar. Me lembrei que, apesar de ter amadurecido e se tornado uma mulher independente, ela ainda tinha 24 anos e era minha irmã mais nova.
– Foi um lapso de memória, só isso – sorri, me sentando no sofá de espera já vazio do hall de entrada. Céci se sentou ao meu lado e suspirou:
– Quando fico pensando no meu casamento antes de dormir, às vezes me pego pensando em como queria que ela estivesse aqui para participar dele – sua voz rapidamente embargou pela vontade de chorar. – Uma mãe quem ajuda a noiva a se arrumar, não é?
– Ah, querida – a abracei, sentindo o quente de suas lágrimas pingarem em meu ombro. – Eu estarei lá para te ajudar. Sei que não é a mesma coisa, mas será o seu dia. E ele será perfeito.
– Sei que você e ela não eram muito próximas, mas... Bem, você não sente sua falta?
Não abri minha boca. Era claro que eu sentia falta. Toda filha, por menor que tenha sido a relação, comparado aos outros filhos, sentia falta de sua mãe.
– Hoje, no jantar, estava pensando em como ela ficaria feliz de estar sentada conosco na mesa – abri um pequeno sorriso, vendo-a abrir o seu também. – Mais do que o papai, ela também gostava quando todas as cadeiras estavam preenchidas.
– Eu gostava quando ela batia o garfo no copo de cristal, imitando os filmes – Céci riu. – Acho que ela só acostumou a utilizá-los como louça normal para fazer isso toda noite.
– E quando chegávamos da escola e sentíamos o cheiro do almoço quase pronto – suspiro, como se conseguisse sentir o aroma que tanto adorava. Naquela época, jamais imaginaria que sentiria tanto a falta dele. – Achei que mesmo que saíssemos de casa, continuaríamos a senti-lo quando fossemos visita-los.
– Papai está muito solitário – ela desabafou, seus ombros caindo aos poucos. – Você não pensa mesmo em voltar para lá? – me olhou, com um pouco de esperança. – Sei que a clientela de lá não se compara a daqui, mas... Nós somos família, certo?
Pelo olhar que recebi de Céci, não tive coragem de lhe dizer que não possuía planos para voltar a Maine, que não fosse a turismo. Todas as vezes que falava com meu pai pelo telefone, ele dizia que o mercado de joias estava crescendo, mesmo eu sabendo que era uma mentira. Dessa maneira, evitava falar com ele com frequência, porque mesmo não sendo completamente apegada à família como eram Max e Céci, sabia que uma hora ele conseguiria me convencer.
– O táxi chegou? – papai perguntou, tirando-nos de nosso momento de relembranças, nos recompondo como verdadeiras .
– Acho que sim, pai. Eles estão esperando lá fora, vamos? – Céci cruzou seu braço com o dele, vendo um sorriso enorme surgir em seus lábios, por lembrar que ela fazia o mesmo quando era pequena e dizia que iria se casar com papai.
Olhei para , que me olhava com atenção. Não disse nada, apenas veio até mim e me deu a mão, cruzando nossos dedos e me puxando para o lado externo do restaurante, onde os cinco discutiam como fariam com o taxi. No final, papai iria com Max e Lua, porque Céci não era a melhor opção do momento.
– Amanhã às nove então! – meu pai disse antes de entrar no carro. Acenei com e esperamos seu motorista chegar, minutos depois.
Respirei fundo, aliviada pelo dia ter acabado. Mesmo amando minha família, ainda era da opinião de que eles davam muito trabalho. Minha atenção foi desviada para o aparelho de , quando ele tocou pela milésima vez; pensando bem, durante todo o dia seu celular tocou insistentemente e em todas as vezes desligou.
– É o aniversário de Barbara – ele explicou assim que percebeu a demora de meu olhar sobre si.
– Meu Deus, e por que você ficou conosco? – levei as mãos à boca, assustada. – Você pode me deixar no meu apartamento, ainda são dez horas, dá tempo de passar em uma floricultura e...
– Não precisa fazer estardalhaço por isso – ele olhou para mim, sério. – Nós não temos o hábito de nos parabenizar em nossos aniversários. É só uma das secretarias dela me ligando para me obrigar a lhe desejar um parabéns.
– Você e sua mãe não se parabenizam? – abri a boca, chocada. não me respondeu. Ele não costumava repetir o que havia acabado de dizer e só agora aprendi a não me sentir ofendida.
Pensei em como eles passavam o dia das mães. Como , quando estava na Itália ou na Inglaterra, esperava por uma ligação, mas não recebia nada de sua mãe. Comparado aos meus aniversários, quando minha mãe me acordava com um bolo enorme de chantilly com morango e obrigava meus irmãos a acordarem mais cedo para cantarolar com ela e meu pai a música de parabéns, parecia um homem ainda mais frio. Eles não possuíam um laço. O relacionamento deles era nada mais do que profissional.
– Quando minha mãe estava doente, achei que fosse uma gripe – comecei a falar, chamando sua atenção. – Dizem que o câncer sempre começa com uma gripe – abri um pequeno sorriso. – Logo descobriram o tumor. Minha mãe pediu que não me contassem, porque sabia que eu não era a pessoa mais próxima da família. Na verdade, eu não achava que a doença fosse tão grave – olhei para a paisagem noturna de Nova Iorque enquanto me lembrava do dia em que estava em Maine a pedido do meu pai. – Eu fui para casa comemorar o aniversário do meu pai. Foi a primeira vez que a vi tão frágil. Minha mãe é uma versão bem mais teimosa que eu e Céci – olhei para , que logo ergueu sua sobrancelha, me fazendo rir. – É, eu sei. Acho que foi por isso que ela casou com meu pai. Apesar dele não ser de família tradicional e trabalhar na época como funcionário na fábrica, ele era honesto e era isso o que ela via nele. Depois de seu primeiro ataque, o médico disse que não havia muito tempo. É claro que ela durou muito mais do que o previsto; foram nove meses de luta, enquanto ele dava apenas três. Meio ano faz uma grande diferença. Durante nove meses fui todos os finais de semana para Maine, a fim de passar um tempo a mais com ela.

Flashback

O dia estava bastante ensolarado, típico de primavera. Olhei para minha mãe, impossibilitada de sair da cama e caminhar no jardim como sempre gostava. Uma mulher que sempre foi vivaz, debilitada daquela maneira, era triste de se ver. Mas Lucy jamais mostraria suas fraquezas, mesmo seu estado deixando claro que sua saúde não era das melhores. Seus cabelos estavam presos em um coque. Ela dizia que uma mulher em sua idade com os cabelos soltos e desgrenhados não era feminino, e ela adorava se sentir bonita.
Tricotava uma blusa, hábito que adquiriu depois que se aposentou como veterinária. Naquele final de semana eu havia lhe levado uma lã com fios que lembrava ouro, algo que só poderia ser encontrado em Nova Iorque. Céci pediu um casaco para ir a uma festa na família de Taylor, algo leve, mas que pudesse esquentar no final do dia, quando a brisa se tornava mais fresca.
Enquanto seus dedos, ainda ágeis, iam de um lado para o outro, fazia círculos e dava nós, o som da voz de mamãe soava no quarto particular do melhor hospital da capital de Maine, o máximo que ela se atreveu a ficar longe de sua casa.
Eu estava sentada na cama com ela, mas do lado oposto. Havia feito um bem bolado com a colcha e os travesseiros oferecidos pelo hospital e usava a mesa de apoio que era feito para depositar a bandeja das refeições. Mamãe só precisava de um pequeno espaço para apoiar sua lã, afinal, ela já não precisava mais de livro como guia. Seus dedos se moviam automaticamente, de acordo com que sua memória, ainda muito boa, a mandava fazer.
– Existem joias para serem usadas com casacos de lã? – ela perguntou, seus olhos ainda depositados sob o trabalho que fazia.
– Como assim? Em cima dos casacos? – perguntei. Aquilo não existia. Pelo menos no momento. As tendências também não apontavam uma criação em que uma joia pudesse ser utilizada em cima de uma blusa ou casaco. – Isso não existe, mãe.
– Oras, mas você não é uma criadora? Se você o faz, é porque pode existir, não é? – ela finalmente me encarou, não entendendo por que eu me mantinha cética, seguindo as regras da sociedade. Eu poderia sair da minha zona de conforto, algo que sabia que minha chefe me obrigava, e criar algo inovador, como joias que pudessem ser usadas em cima das roupas, não somente quando o colo das mulheres estavam nus.
– Bem...
– Eu gostaria de uma que tivesse muitos brilhantes – ela sorriu. – Como aquela que você me deu no ano passado de natal. Você misturou belas pedras, minhas amigas acharam fascinante!
Ouvir minha mãe elogiar meu trabalho depois de tanto termos discutido sobre esse futuro era um ganho para mim. Mesmo não agradecendo ou demonstrando, meu coração batia mais forte por ter a aprovação dela. Agora sim eu era um orgulho, não uma preocupação.
– E se nós fizéssemos uma coleção juntas? – perguntei-lhe, vendo seus olhos se arregalarem e os dedos pararem de se mexer.
– Nós poderíamos?
– Claro! – empurrei a mesa e fui até seu lado, onde ela se mexeu cuidadosamente para que eu pudesse me sentar confortavelmente e a mesa pudesse ficar em frente a nós duas. – A senhora pode entrar de colaboradora e então ter seu nome na coleção. Não seria incrível?
– Sua avó não iria acreditar – ela disse, sorridente. – Muito bem, eu tenho várias ideias que podem te surpreender, mocinha.
– Quero só ver, dona Lucy . Se fizer uma combinação como a que fazia com minhas roupas quando era pequena, eu me recuso a desenhar!
– Mas que ousadia, ! – ela riu, me dando um leve beliscão. – Saiba que sua criatividade e bom gosto veio herdado de mim.
– Claro, porque papai jamais saberia distinguir os tons de azul das camisas que ele tem, não como a senhora – demos risadas juntas e logo ouvi suas ideias que, ela tinha razão, eram surpreendentes.

Fim do flashback

– E onde está essa coleção? – perguntou, curioso. Sabia que ele queria ver como era essa ideia de usar joias por cima da roupa. A moda ainda não previu essa tendência e qualquer coisa que fosse inovadora, era típico da querer ser a primeira a mostrar ao mundo.
Me perguntei se era seguro lhe dizer. Eu ainda não havia pensado se queria lança-la pela . O que sabia, era que esperaria meus planos de lançar a coleção de 50 anos no início do ano que vem para que meu nome fosse reconhecido como nunca no mundo inteiro. A partir daí, esperaria receber boas propostas de empresas e faria uma edição especial de dia das mães com o nome de Lucy na coleção. Esse seria o meu presente para ela. Talvez o melhor que ela pensaria em receber.
– Guardada – decidi responder. – Ainda não estou pronta para coloca-la em prática. Quero que a situação seja a mais especial possível. É a última coisa que fiz com a minha mãe e provavelmente a única que ficou marcada em minha memória, de nós duas felizes e nos dando bem.
balançou a cabeça, concordando. Achei encantador ele entender meu lado, mesmo não compreendendo bem essa relação que eu tinha com minha mãe. Ela não estava aqui para demonstrar o amor que tinha sobre seus filhos, então ele poderia muito bem dizer que era apenas fruto da minha imaginação. Entretanto, escolheu manter-se calado e deixar que eu expressasse minha adoração, um sentimento longe dele sentir pela própria mãe.
– Se me permite perguntar – olhei para ele com cautela, vendo seus olhos encontrarem os meus mais uma vez. – E seu pai? Você não fala com ele?
desviou os olhos e respirou fundo, não querendo falar sobre o assunto. Aguardei, pois sabia que se ele não quisesse falar de verdade, diria na mesma hora.
– Depois que saiu de casa, nunca mais nos falamos. Se for contar, acho que vi meu pai cerca de trinta a quarenta vezes em toda minha vida.
– Mas...
– Uma coisa que você tem que saber, , é que aqui em Nova Iorque as famílias não são o que parecem ser – ele me encarou. – Nós não temos a vida perfeita de uma família do interior e não sentimos falta, porque estamos preocupados demais em continuarmos ricos. Meu pai, minha mãe, eles não podem ser chamados assim. Um sumiu pelo mundo com suas amantes e a outra focou-se no trabalho. Se isso irá fazê-los se arrepender mais tarde, não me importa. Tenho uma vida para tocar e sinto muito se você não concorda com esse modo de vida, mas foi assim que eu fui criado.
– Você não tem uma família – disse, sem querer. demorou para processar, mas disse:
– Não, eu não tenho uma família.
– E você não quer ter uma? – perguntei, curiosa.
Ele me encarou por um longo tempo. Manteve-se pensativo enquanto eu imaginava qual resposta iria me dar. Tentei desvendar seu olhar, mas era impossível. Ele era um muro. Por uma fração de segundo, seus olhos desviaram-se dos meus e então a resposta veio:
– Nós chegamos, nos vemos amanhã às nove – e com um aceno de mão, o motorista se retirou do carro e abriu a porta para eu sair. – Boa noite, .

Capítulo 12

Passei a noite em claro. É claro.
Assim que me deitei aquela noite, sozinha, diferente da última semana, me peguei pensando no último diálogo que tive com sobre o círculo familiar. Por uma fração de segundo, senti como se tivesse regredido no tempo, quando ele desconversava para não responder o que queria. Escondia coisas de mim.
De alguma maneira, não me senti aborrecida com ele, porque sabia que era ele quem estava perdendo entre nós dois. nunca teve uma família, nunca soube o que é receber amor, por isso a dificuldade de oferecer. Sua vida sempre foi os estudos e, quando essa fase foi finalizada, o trabalho tomou lugar. Encarei o teto, tão pensativa que não pude ouvir o estrondo com que a porta se abriu e uma Lana descabelada, com as bochechas vermelhas de raiva e os olhos lacrimejados apareceu. Sim, Lana.
! – ela gritou ao meu lado, me fazendo dar um sobressalto tão grande, que não sei como não morri com a força com que bati a cabeça na parede.
– Mas que diab... O que aconteceu? – arregalei meus olhos ao ver o estado da minha amiga, algo que jamais imaginaria ver em vida. – Lana, meu Deus, o que aconteceu? Você está bem? Foi assaltada? Ameaçada?
– É claro que não, ! – ela me deu um tapa, tomada pelo nervosismo. – Acha que eu ficaria nesse estado se tivesse sido assaltada ou ameaçada?
“Tem razão.” Pensei. “Você jamais se afobaria depois de ter sido roubada ou ameaçada.”
Balancei minha cabeça, espantando os pensamentos e pensando o que poderia ser pior do que roubo ou ameaças para Lana, a ponto de fazê-la chegar em casa naquele estado.
– Você está grávida? – abri a boca, olhando para seu ventre e recebendo um tapa tão forte que o local em meu braço com certeza ficaria roxo no dia seguinte. – Mas o que é, caramba!
– Me deixe falar, droga! – ela xingou, dando mais um tapa, mas dessa vez em minha cama. – Você não vai acreditar no que Klint aprontou comigo!
“Ah.” A razão logo me veio à cabeça. “Aquilo.”
– O que foi que ele fez? Comprou um novo apartamento para você ter um closet maior? – ergui a sobrancelha, vendo suas bochechas ficarem ainda mais vermelhas.
– Você quer me levar a sério??? Eu estou à beira de um colapso! – Lana jogou seus saltos para qualquer canto em meu quarto e se levantou, começando a andar em círculos. – Eu estava há pouco no apartamento dele tratando de alguns detalhes com Victoria, que decidiu passar lá para verificar os armários maravilhosos que haviam sido instalados...
– Menos detalhes, tenho que estar no hotel do meu pai...
, isso é sério! Você quer calar a boca e me ouvir, droga! – ela virou seu rosto inchado para mim e não pude deixar de me calar. Talvez estivesse andando muito com e me tornando uma pessoa insensível. – Quando estava prestes a fechar negócio com a iluminação interna, Klint me chega.
– É a casa dele, Lan.
– Eu sei, sua besta. Ele chegou com a família inteira dele! A família! Da Inglaterra! Mãe, pai, irmãs e irmãos, sobrinhos encapetados... Deus do céu! – ela deu um berro, abrindo os braços. Olhei imediatamente em direção à janela, só para me certificar que elas estavam bem fechadas. – Eles começaram a falar sem parar, dizer como eu sou linda, que eles mal acreditavam que estavam me conhecendo... Pelo amor do paraíso, eles são ingleses! Não deviam falar tanto assim! Sequer deviam ter uma família grande!
– E você, como sempre, não soube se portar perto deles.
– Eu? – ela apontou para si, brava. – Eu? Ainda se fosse! Nós estávamos no meio do jantar quando a irmã de Klint deu a maldita ideia de chamar meus pais para as duas famílias se conhecerem. Mas por que diabos meus pais precisam vir aqui para conhece-los?
– É o que casais normais fariam – falei baixo.
– Eu suportei o jantar inteiro ter de ouvir histórias irritantes sobre a infância de todos e como Klint era antissocial até conhecer o seu namorado e o de Amy, coisas que eu não queria saber!
– Deve ter sido um verdadeiro pesadelo – revirei os olhos, encostando minhas costas na parede grudada à cama e cruzando minhas pernas em posição de índio para assistir todo o drama dela.
– Pesadelo é o paraíso perto disso, querida – ela mexia suas mãos desordenadamente. – Mas o pior foi quando ele decidiu me trazer para casa.
– O que ele fez?
– Você não vai acreditar.
– Ele quer um cachorro?
– Eu preferia que fosse.
– Quer que sua clínica fique mais perto do apartamento.
– Seria bom demais para ser verdade.
– Informou que precisará colocar limite no seu cartão de crédito?
– Apesar de isso ser um absurdo impensável, não é tão terrível quanto o que aconteceu.
– Então o que aconteceu, criatura? – olhei para ela, estressada. Ela não poderia ser uma mulher normal, menos egocêntrica? Às vezes ainda acho que Lana não tem noção de que ela não é o centro do mundo.
Vi seus olhos se fecharem e iniciar a contagem até o número que a fizer parar de pensar, mas eu não estava com tempo para ouvi-la contar até cem ou duzentos. Eu queria pensar sobre , sua falta de carinho familiar e como mudar isso.
– Lana, se você não me falar agora, eu é quem vou lhe dizer umas boas verdades.
– Tudo bem. Ele... Ele começou a falar sobre casamento.
Não respondi de imediato. É claro que a palavra casamento me pegou de surpresa. Eu sabia que haveria um dia que Klint a pediria em casamento, já que tomou a iniciativa de fazer de tudo para convencê-la a morar com ele, mas a mulher nem fez as mudanças e ele já falou sobre matrimônio?
– Falar sobre casamento não quer dizer que ele vá pedi-la em casamento – murmurei, vendo-a bagunçar seus cabelos, me fazendo entender a razão deles estarem tão bagunçados.
– Eu nunca falei sobre casamento. Eu não pretendo me casar. Já falei isso um milhão de vezes para ele, mas ele insiste em falar que estamos ficando mais velhos e precisamos pensar em nosso futuro. Eu tenho 27 anos, droga! Não tenho que pensar no meu futuro, muito menos em casamento! – ela tacou sua bolsa no chão, o que queria dizer que ela estava fora de si. – Não tenho culpa se ele já passou dos 30 e está sendo cobrado pela família!
– Lana, eu não acho que Klint é do tipo de homem que ouve o que os outros falam – comentei e recebi seu olhar cortante. – Você está fazendo tempestade em copo d’água.
– É porque não é você quem está sendo ameaçada de ser pedida em casamento! – apontou para mim. – Está aí, toda feliz com seu novo namorado, transando à beça, tendo vários orgasmos e longe de pensar em casamento!
– Você quer se calar e ouvir as besteiras que está falando? – me levantei, nervosa. – Agora você me deixou nervosa, Lana. Senta aí e me ouve!
– Eu não—
– Cala a boca e só senta! – gritei, estressada. O problema para Lana é que eu quase nunca ganhava uma discussão entre nós duas, mas quando acontecia, ela não tinha coragem de me encarar, obedecendo minhas ordens, como naquele momento, quando ela se sentou na minha cadeira. – Se você não quer se casar agora, é só falar para o Klint. Vocês não estão juntos nem a seis meses, pelo amor de Deus! E mesmo que ele ache que o amor dele por você seja eterno, não há motivos para você fazer todo esse estardalhaço. Se apaixonar e querer se casar com a pessoa que ama não é um crime, Lana. Você é quem tem preconceito contra o matrimônio porque sofreu uma merda de trauma quando criança e fica achando que todos os homens serão iguais! Mas veja só: você está há três meses com Klint e ele nunca te traiu! Pelo contrário, ele está gastando meio milhão pra fazer uma porcaria de reforma no apartamento dele! Se você acha que mudaria para lá e não ouviria o papo de casamento, quer dizer que você é burra!
Lana não respondeu. Vi sua cabeça pender para baixo, mostrando que pensava sobre o que eu estava lhe falando. Apenas costumo falar verdades para ela uma vez por ano, quando, por alguma razão, ela exagera em seus ataques. Essa era a quota deste ano, logo, decidi falar tudo o que estava entalado.
– Você disse que tentaria aceita-lo mais, que pensaria mais no amor, no romance. Ninguém te falou que por causa disso você tem que casar. Se ele quer falar, ótimo, diga que você não quer. Mas lembre-se, Lan. Ele já tem mais de 30 anos. Já tem a vida feita, profissionalmente falando. Tudo o que ele tinha de conquistar, ele já conquistou. Todas as ambições de jovem foram realizadas e agora basta ele manter. O que mais ele iria querer? Uma família, é claro – respirei fundo e me sentei à beira da cama, de frente para Lana. – Às vezes você precisa tomar decisões que não gosta e não quer, para fazer com que a relação dê certo. Se você o ama, entenderá o lado dele.
, você sabe melhor do que ninguém que eu não quero me casar...
Eu sei, Lana. Mas não sou eu quem estou apaixonada por você. Você é minha melhor amiga, eu estarei para sempre ao seu lado, eu entendo o seu lado. Mas as pessoas pensam em casamento. Elas não querem ficar sozinhas para sempre. O amor muda, Lan. Só você quem não enxergou o tanto que mudou desde quando começou a se relacionar com ele.
– Eu não mudei nada.
– Ah, é? Quem disse que um homem nunca seria sua prioridade e agora passa quase vinte e quatro horas do seu dia com ele? Quem falou que morar com homem é puro estresse por causa da desorganização dele, e está prestes a se mudar para o apartamento do parceiro? – enquanto começava a jogar verdades em sua cara, Lana mordeu o lábio, nervosa. – Você deixou de cortar seu cabelo agora no verão porque ele disse que gostava deles compridos – suspirei, vendo-a bufar. – Você não transa com outro homem, se não ele, fazem três meses. Seu celular já não toca mais como antes e não há mais pacotes com brinquedos sensuais chegando pelo correio toda semana. Você está, sim, se dedicando ao Klint, Lan. Só você não viu.
Ela não respondeu. Vi as lágrimas tomarem conta de seus olhos e respirei fundo, me levantando e indo até ela abraça-la.
– Se você tem medo, converse com ele. Vá a uma psicóloga. Isso tem cura, Lan. Você quer ser amada. Você ama ser amada. E admita, Klint foi a pessoa que lhe amou melhor até agora – abri um pequeno sorriso, vendo-a revirar os olhos. – É, é isso mesmo. Houveram outros homens que gastaram muito mais dinheiro com você do que ele está para gastar agora. Você deu-lhes um fora assim que a palavra “relação” foi colocada em pauta. Agora, me diga: – agachei em sua frente, procurando seus olhos no meio de todas aquelas lágrimas. – Você terminou com ele essa noite?
Lana não respondeu. Vi seus dentes branqueados morderem os lábios avermelhados; o nariz fungou e a mão esquerda secou a lágrima que escorria no início de sua maçã do rosto. Com a voz embargada, ela respondeu:
– Não.
– E por quê?
Ouvi seu resmungo. Ela estava me amaldiçoando, mas amaldiçoando mais a si mesma. Havia cedido para o amor, um trauma que a fez manter-se longe de relacionamentos. Ela achava que chegaria aos 40 anos e encontraria um homem milionário com quem poderia casar, deixar seu negócio de lado e viver uma vida cheia de luxúria e amantes. E daí se aconteceu, tipo, 10 anos antes? Sorte a dela, não é?
– Por que, Lan? – perguntei mais uma vez, vendo seus ombros encolherem.
Ela pensou por mais um tempo, até enfim suspirar e responder:
– Porque eu o amo.
– Exatamente, amiga – abri um sorriso e me levantei, graças a Deus, já que minhas pernas estavam formigando e dormentes. – Você ama Klint a ponto de não se importar vê-lo todo dia, dividir uma vida com ele e deixar ser cuidada por ele.
– Mesmo assim, um casamento...
– Eu concordo que seja cedo – voltei para minha cama. – Mas é você quem tem que conversar com ele e fazê-lo entender que só quer casar aos 35.
– Eu não quero...
– Querer não é poder mesmo, amiga, você sabe disso melhor do que ninguém – sorri. – Vá ligar para ele. Dê uma boa noite de sono ao homem, ele tem uma família para aguentar nesse final de semana – disse, sentindo uma parte do lado de Klint.
Lana suspirou uma última vez e se levantou, vindo até mim dar-me um abraço.
– Nunca mais grite comigo desse jeito – ela disse, durante nosso momento de afeto.
– Então não fale do meu relacionamento como se ele fosse uma coisa qualquer – sorri, vendo seu rosto se contorcer enquanto nos afastávamos. – É só um relacionamento, Lana. Você não está falindo ou enrugando.
– Eu não sei por que ainda me espanto sobre sua criatividade, . Você fala cada uma – ela pegou seus saltos e a bolsa, cada um jogado em um canto do meu quarto. – Não é à toa que você é boa no que faz – e sem dizer mais nada, jogou um beijo no ar e fechou a porta atrás de si depois de sair.
Joguei meu peso para trás, voltando à posição que estava antes de Lana fazer o estardalhaço. A imagem de surgiu em minha mente assim que voltei a apagar as luzes. Talvez ele fosse como ela. O trauma de sua família o fez se afastar do amor. Obrigá-lo a aceitar não tornaria as coisas mais fáceis.
Olhei para a janela, onde o céu estava escuro e sem estrelas.
Se eu quisesse que entendesse o amor, devia transformá-lo de pouco em pouco.

A programação de não era ordinária, claro. Para começar, assim que cheguei ao hotel, ele e meu pai saíam da área do restaurante acompanhados do chef do hotel, que lhes dava inteira atenção por, claro, ser quem estava lá. Meu pai mostrou-se muito feliz por estar recebendo toda aquela atenção – ele provavelmente achava que era uma pessoa adorável, por isso os funcionários o tratavam com tanto respeito. Ele disse que havia chego às oito para tomar o café com ele e, claro, falou sobre tudo o que os dois conversaram durante a refeição. Em seguida, o motorista de nos levou até o escritório de Klint e me vi surpresa por ele ter combinado muito bem com o amigo sobre usar seu escritório, fingindo ser seu. Em cima do prédio havia um heliporto, que Klint parece ter agendado para permitir que o helicóptero da família pousasse para buscar nós três.
– O melhor de Manhattan é a vista que ela nos proporciona – ele disse, quando meu pai abriu a boca. É claro que ele já havia andado de helicóptero antes, afinal, a família da mamãe tinha um que era usado para ir da nossa pequena cidade até à capital. Nada comparado a este automóvel, nesta cidade.
Nosso voo durou cerca de uma hora até o helicóptero pousar no edifício ao lado da One World Trade Center, próxima ao memorial das torres gêmeas. Em seguida, nos levou até ao Brooklyn Bridge, perfeito para tirar as fotos que sempre quis com meu pai. Enquanto observava-o falar sobre a arquitetura do local, via a expressão de mostrar que estava ligeiramente interessado na conversa que meu pai se esforçava em manter. Desde a morte da mamãe queria leva-lo à ponte para que pudéssemos criar uma memória de nós dois e assim fosse possível usar de base quando a saudade da mamãe batesse. O local, um ponto turístico comum de Nova Iorque, era algo que as pessoas apenas passavam e tiravam fotos mas, em sua maioria, não percebiam como dali podia sair tanta coisa boa. Nos momentos que planejei essa artimanha, nunca imaginei que quando acontecesse, eu teria o filho da minha chefe nos acompanhando, principalmente como meu namorado. Acabei tirando mais fotos dos dois do que minha e de papai. Ver seu sorriso era um grande alívio, mas também apertava ligeiramente meu coração. Amy e eu às vezes falávamos sobre voltarmos a Maine para acompanhar o envelhecimento de nossos pais. O pai e a mãe de Amy conseguem muito bem sobreviver, já que um tem ao outro. Mas meu pai não. Max e Céci sempre me ligaram, desde a morte da mamãe, perguntando se eu não pensava em voltar. A pergunta continua sendo feita até então, mas achei que tendo dois de nós lá com ele o faria não sentir tanta falta de mim.
Naquele momento, senti que queria passar mais tempo com meu pai. É claro que logo em seguida o pensamento sobre meu trabalho eliminou a possibilidade de eu voltar para Maine; eu ainda tinha uma meta para cumprir e meu pai jamais aceitaria se tornar um peso na vida de qualquer um de seus filhos, por isso nunca pediu para que eu voltasse ou fosse visita-lo com mais frequência. Céci diz que ele finge muito bem, mas eu percebo, nas conversas que eu e ele temos, as indiretas sobre a vontade de me ter perto como ele tem meus outros dois irmãos.
Em torno da uma hora, nos levou a um bateaux mouche, onde almoçamos uma comida mediterrânea com a vista da ilha e da Estátua da Liberdade pelo mar. Meu pai pareceu extasiado e nunca mostrou-se tão animado por estar em Nova Iorque. Acredito que Taylor não se sentiria ofendido de ver meu pai tão alegre com um genro, porque ele mesmo divide o sentimento quando o papo é .
– Quando chegarão em Maine na semana que vem? – papai perguntou, quando somente aproveitávamos o passeio no enorme barco. De vez em quando um garçom ou outro vinha preencher a taça de vinho ou o copo de água para que não sentíssemos sede com o tanto que falávamos.
Olhei para , afinal, eu não o havia convidado para o chá de bebê de Lua, mas imaginava que ele havia sido convidado, já que Max devia ter feito como Taylor e ligado para confirmar sua presença.
– Estarei livre a partir de sexta na hora do almoço – ele olhou para mim. – Qual a melhor maneira de chegarmos lá? – voltou seu olhar para meu pai, aliviando meus ombros, pois queria muito abrir um sorriso, bem pequeno, alegre por tê-lo planejando algo para nós dois em minha frente.
– Ah, vocês podem vir de avião ou trem até a capital e nós iremos busca-los – meu pai endireitou sua postura, provavelmente chocado por ter ouvido a confirmação da ida de . Da última vez eu havia dito que talvez ele fosse, pensando que jamais permitira um absurdo desses. Quão irônico é o modo que minha vida segue, eu não sei.
– Na verdade, eu já estarei lá na sexta – falei para os dois. – Tenho algumas horas extras que troquei pela quinta-feira, pois preciso estar mais cedo na sua casa, pai, para ajudar Emma com a organização das coisas. É sempre bom ter uma responsável pela casa para qualquer eventualidade.
– Bem, eu posso ajudar também – meu pai disse, ligeiramente ofendido.
– É claro que pode, pai. Por isso o senhor quem irá buscar e mantê-lo ocupado enquanto eu arrumo tudo para sábado – abri um pequeno sorriso, como se tivesse planejado isso há tempos. Lana tinha razão quando disse sobre minha criatividade. Ela está fluindo de uma maneira que até eu estou me espantando com o resultado.
Meu pai pareceu entender o seu papel no evento. Para ele, esse era um dos mais difíceis, já que era um homem viajado e ele teria de fazer uma programação muito boa para não entediá-lo, visto que o que ele programou para nós no final de semana tinha um passeio de helicóptero e outro de bateaux mouche. Desembarcamos do barco eram quase quatro horas e Céci me ligou para que fossemos a uma reunião com a assistente de Emma, responsável por pegar as informações de suas escolhas, já que Emma estava em Harvard e ainda passaria em Maine para dar uma olhada na casa do papai.
– Eu quero que ela faça uma cerimônia aconchegante. Estaremos no natal e todos estão deixando seus lares para vir celebrar o nosso matrimônio, por isso, quero proporcionar o máximo de conforto que pudermos para eles.
– Achei que o casamento fosse para o casal – ouvi Taylor murmurar atrás, acompanhado de e papai. – Quando teremos as provas dos doces e da refeição?
– Taylor, querido, nós ainda estamos decidindo sobre as cores – Céci abriu um sorriso calmo e olhou para trás, praticamente dizendo para ele se calar e deixa-la resolver tudo. – Será que conseguimos fazer isso? – ela olhou para a assistente, que assentiu.
– A senhorita Rose pensou em algumas decorações. Ela imaginou que iria querer algo relacionado ao natal, já que marcou o casamento para a data. A refeição, inclusive, seria inspirada no natalino – ela olhou para Taylor ao fundo, que balançou a cabeça, aprovando a escolha. – Estamos trabalhando na planta digital do projeto só para que tenham uma noção de como ficaria a decoração, mas ela teme que somente ficará pronto daqui a duas semanas.
– Duas semanas? – Céci mordeu o lábio. – Bem, tudo bem. Eu terei de vir daqui a um mês para a segunda prova do vestido. Ela tem algum evento por perto ou terei de vir antes?
– Ela não possui mais eventos próximos à Maine, mas podemos verificar com ela um dia para ir à cidade ou fazerem uma conferência em vídeo.
– Ah! Isso mesmo! Conferência, isso é ótimo – Céci apontou para a segunda opção. – Não tenho muito tempo para vir a Nova Iorque, então gostaria que ela encaixasse a agenda de nossos encontros pessoais com as provas do meu vestido – e retirou um papel com todas as datas já pré-definidas pelas vendedoras da loja Vera Wang.
– Passarei esse pedido a ela e entraremos em contato via e-mail para confirmar. Sobre o número de convidados...
Abri a boca em um bocejo e tive sorte de Céci estar tão compenetrada na conversa com a assistente. Ela diz, desde pequena, que bocejar passa a mensagem de tédio no assunto. Papai, Taylor e quiseram sair para tomar um café, mas quando voltaram, duas horas depois, nos falaram sobre as compras que fizeram e como conhecia os lugares certos para ir.
, nossa mudança está marcada para o final de outubro, logo antes de irmos para o congresso veterinário – Céci me disse quando saímos do elevador para irmos em encontro de Lua e Max no hotel. – Será que você consegue marcar com Amy a organização da...
– Vamos tentar marcar para a época que vocês estiverem fora e então ela trabalhará nisso. Lembre-se que ela é alguém que organiza closets e os mantêm atualizados com roupas da estação. Não deve julgar...
– O método de trabalho dela, eu sei, – ela tocou de forma delicada em meu braço, como se quisesse acalmar meu coração. – Eu não sou nada organizada...
– Isso é de família – papai comentou, entre risos.
– E estarei absolutamente exausta na época, então qualquer coisa que me faça ter menos estresse, melhor.
– Sim, por favor – Taylor disse, quase suplicando. – Qualquer coisa que a faça ter menos estresse.
– Darei um jeito, maninha, não se preocupe – sorri, quase me matando por dentro, por ter mais um trabalho que fazer.
Papai disse estar cansado quando chegamos no hotel e mencionou querer apenas pedir um serviço de quarto e aproveitar o resto da noite em sua cama. Céci disse que ela e Taylor o levaram para passar alguns dias em Québec, no Canadá, já que nossa cidade era próxima da fronteira, tornando possível irmos de carro. Esse, inclusive, era um dos únicos passeios que meus pais nos obrigavam a ir todo verão. No hotel canadense, Céci ensinou papai a pedir coisas para comer no quarto e agendar massagens; como o hotel que reservou era um dos melhores da cidade, papai queria aproveitar para ver como era o serviço e se eles tinham massagem para lhe dar.
– Eu também preciso ir – falei para meus irmãos. – Tenho alguns trabalhos a fazer, já que ontem saí mais cedo do trabalho e semana que vem não trabalharei na quinta e na sexta.
– Achei que fôssemos jantar todos juntos – Max olhou mais para do que para mim. Quase quis esganá-lo pela sua falta de sensibilidade.
– Desculpe, , tenho uma causa para revisar. A corte está marcada para quinta de manhã e eu ainda tenho que organizar o questionário para meu cliente – inventou uma desculpa qualquer que prontamente foi aceita pelos quatro; dez minutos depois, estávamos em seu carro indo para meu apartamento. Suspirei, aliviada por ter terminado o dia inteira. São nesses momentos de paz que tenho certeza de que não quero voltar para Maine porque estou muito bem em Nova Iorque. desabotoou o segundo botão da camisa e mexeu no cabelo.
– Obrigada pelo dia – disse, inclinando meu corpo em sua direção e depositando um beijo em seus lábios. Quando estava prestes a me afastar, sua mão impediu que eu voltasse ao meu lugar, trazendo meu corpo totalmente para perto de si.
– Você acha mesmo que um beijo paga tudo o que fiz hoje?
– Foi você quem se ofereceu para organizar a programação – abri um pequeno sorriso, vendo-o soltar uma risada de ironia. – Estou errada?
Ninguém faz as coisas não esperando receber algo em troca – ele olhou diretamente para meu colo e em seguida voltou sua atenção em meus olhos. – Eu, principalmente.
– Ah, sim. Você está arranjando uma desculpa para dormir comigo.
– Eu não estou arranjando uma desculpa – seus dedos acariciaram meu rosto, enquanto me analisava como se eu fosse um de meus desenhos. – Estou reivindicando meus direitos depois de ter passado um longo dia ao lado de sua família e não, eu não disse com a intenção de ofender – antes que eu pudesse demonstrar minha interpretação, sua mão que estava em minha cintura se firmou para que eu não me afastasse, a fim de observá-lo melhor e lhe fizesse ver meu olhar ofendido. – Você deve saber quando eu uso sua família para me aproximar de você ou mantê-la longe de mim.
– Claro, porque seu comportamento mudou muito nessas conversas que temos logo após um encontro com eles – revirei os olhos, deixando meu corpo ereto, tentando me desvencilhar de seus braço, mas ele era insistente.
– Seja sincera, , eu mudei muito nessas conversas – seu nariz roçou na altura do dorso de meu pescoço, me fazendo estremecer. – Veja só, eu explico quando não estou sendo ofensivo.
– Mudar significa parar de fazer certos comentários – tento manter a discussão na ativa, mas com o início de pequenos beijos estalados em meu pescoço, estava difícil me concentrar.
– Se eu mudar meus comentários, serei perfeito demais – finalizou a conversa sem mais, nem menos, tirando uma enorme risada de mim por ver seu ego inflar de uma maneira que ninguém jamais viu.
Com o fim da conversa, a mão que tocava minha perna passou a trabalhar na área interna dela, bem próxima à região da minha virilha, causando um calor quase insuportável em meu corpo. começou a utilizar sua língua para me fazer sentir espasmos com a carícia no dorso de meu pescoço. Abri a boca para conseguir respirar melhor, já que o ofegar estava acabando com o pouco ar que percorria dentro daquele carro. Assim como em todas as vezes que me ofereceu uma carona até em casa, essa corrida não acabou diferente. Chegamos em casa somente meia hora depois, quando nossos corpos estavam menos quentes e poderíamos sair do carro sem a preocupação de passarmos a imagem errada para as pessoas que nos vissem.

No dia seguinte, levei minha família para um almoço no SoHo. havia agendado um carro para pegá-los no hotel três horas antes do voo, assim, eu tinha tempo de leva-los para almoçar e tomar um café. encontrou conosco na loja do Cake Boss, ao lado da rodoviária da cidade. Céci queria experimentar os cupcakes da loja para ter uma noção do paladar que gostaria para os doces de seu casamento; foi uma das poucas vezes que vi Taylor tão animado com a organização da cerimônia.
Depois de deixarmos os cinco no hotel sob minhas promessas de atender todos os telefonemas de Céci, e informar a Max, Taylor e papai o horário do voo de na sexta-feira – algo que não compreendo a razão de me cobrarem tanto, quando sabemos que eles mesmos ligarão para durante os próximos dias –, eu tinha o resto do dia para me dedicar a mim.
– Você enviou flores à sua mãe? – perguntei, curiosa, vendo sua expressão se fechar ao ouvir o assunto da nossa conversa.
– Por que enviaria, ela não está morta.
...
, você pode querer que eu faça várias coisas por você e eventualmente eu poderei atender aos seus desejos, mas eu jamais farei algo para Barbara que não seja manter sua empresa.
– Você não pode guardar rancor dela para sempre.
– Eu não tenho rancor por ela – ele me encarou. – Eu já te disse. Eu não a odeio, apenas sou indiferente quando o assunto dela está em pauta.
– Indiferença é uma forma de evitar a dor de enfrentar...
– Você realmente quer falar sobre isso? – ele virou seu corpo para mim, algo que não costumava fazer, por isso me calei. – Obrigado.
Apertei os lábios, pensando que se ele não queria ter relação com sua família, então eu não iria me intrometer. Mesmo querendo que ele tenha uma família feliz como a minha, se ele próprio não tinha interesse em mudar, talvez fosse melhor que eu me mantivesse afastada da vontade de fazer essas mudanças em sua vida.
 
No final do dia, eu estava observando Amy falar sem parar em como o encontro com o sogro e a sogra fora menos dolorosa do que as vezes anteriores.
– Eles parecem estar aceitando que eu sou a namorada de Jordan – disse, animada. – Mesmo ainda sendo frios, pelo menos não me excluem mais de suas programações.
– Honestamente, eu não sei como você consegue querer participar de suas programações – Lana revira os olhos, estressada. – Tudo o que eu queria era que a família de Klint me odiasse tanto, mas tanto, que eles nem viriam para Nova Iorque passar o desgosto de ver a nora ou cunhada com o último homem solteiro da família.
– Você está reclamando de mãos cheias – Amy resmungou.
– Vocês apenas estão lidando com o que não gostam porque prezam muito o que gostam – disse, enquanto Lana cuidava de minha sobrancelha. – Se não fossem tão centradas em seus desejos e tornassem-se pessoas mais maleáveis, não teriam de estar passando por essas provações.
– Pode ser que tenha razão – Amy disse. – Mas eu queria mesmo poder ter uma relação legal com os pais de Jordan, porque ele os ama muito.
– E eu queria que Klint jamais viesse com esses encontros novamente, sendo que nem ele mesmo suporta dar uma de cicerone. Vocês acreditam que eu tive que passar o final de semana inteiro lá, sorrindo, dizendo que gosto de fish and chips e que adoraria tomar um chá com leite, típico britânico? Pelo amor de Deus, eles acham que sou magra de ruim?
– Se eles acham isso, então têm razão – falei, dando um grito de dor em seguida, por Lana ter beliscado minha pálpebra com a pinça.
– E você? Quando irá conhecer sua sogra? – Amy preencheu nossas taças de vinho.
– Pelo jeito que o é, nunca – resmunguei e acabei contando sobre o aniversário de Barbara, os telefonemas ignorados e a preferência de passar o tempo com a minha família ao invés da dele mesmo.
– É este comportamento que eu esperava de Klint – Lana murmurou emburrada.
– Pois eu acho errado – Amy olhou feio para Lana. – A mãe dele ainda é a mãe dele. Querendo ou não, eles estão unidos pelo fato de ter herdado a empresa dela. O mínimo que poderia fazer, era apresentar sua namorada à ela.
– Não sei se ela agiria como uma mãe, Amy – falo, pensativa. – Não é que eles se deem mal. Os dois apenas não têm uma relação de mãe e filho, entende? Ele pode até me apresentar a ela, mas Barbara não terá uma reação de quem gosta ou desgosta de mim, porque para ela não importa muito o que o filho faz ou deixa de fazer, contanto que ele mantenha a empresa nos eixos.
– Isso é perfeito – ouço mais um resmungo de Lan enquanto Amy abri a boca, chocada com a ideia de uma mãe e um filho não terem nenhum laço fraternal entre eles.
– Eu tentei jogar algumas diretas para ele, mas fica extremamente nervoso quando toco no assunto. Então decidi não me intrometer. Se ele achar que devo conhece-la como sua namorada, não sua designer, ele tomará a iniciativa.
– Eu queria ter esse autocontrole, – Amy disse, admirada. – Queria poder não ligar sobre o que os pais de Jordan acham ou deixam de achar.
– Essa é sua personalidade, amiga. Você não tem que querer que a sua vida seja igual a de outra pessoa, porque são apenas obstáculos por onde você deve passar para que a chegada seja mais satisfatória – abri um sorriso.
A semana seguinte foi um verdadeiro caos. Camille, a nova estagiária, estava enlouquecendo Lauren com desenhos naturalistas e nada a ver com a . Achei que eu seria incumbida de tomar conta dela, já que era o que geralmente acontecia quando alguém era vista “fora do percurso”, mas o dever foi passado para Tony, que se viu animado por ter um papel importante de “aparar as arestas” de Camille.
– Eu acho que isso foi obra para que ela não se apegue a você – Claire disse no almoço. – Lauren está decidida a subir Tony e Guy de posição, e Nally e Erin sabem que serão as próximas.
– Está tudo bem, Claire – digo da boca pra fora. Eu sabia que Lauren estava priorizando os quatro e é claro que eu estava preocupada, mas eu queria dar meu jeito antes de ter de apelar para .
– Não sei como consegue ter tanta compostura num momento desses – ela resmungou. – Falou com a Amber?
– Não. Combinamos de nos falar só na semana que vem, depois dela ter completado uma semana de serviço. Podemos combinar um almoço para discutirmos as novidades com ela, o que acha?
– Acho ótimo, estou com saudades dos quebabs dela – Claire riu – Escuta, será que você poderia, hum, dar uma olhada em... Bem. Alguns desenhos?           
– Desenhos? – ergui minhas sobrancelhas, surpresa. – Seus?
– É, eu fiz uns rabiscos, só por curiosidade. Não tenho muita técnica, mas sempre assisti muito você e Amber fazerem as coisas – ela tirou uma pasta de plástico e lá de dentro, algumas folhas. Deixei o prato da salada de lado e dei uma olhada nos traços e nas explicações.
– Eu sempre disse que você era talentosa, Claire – abri um sorriso para ela, tirando outro de seus lábios. – Estão bons! Se você quiser, posso leva-los para casa e fazer algumas observações para que possa melhorar.
– Nossa, sim! Se você puder, eu gostaria muito! – ela pulou em sua cadeira, animada. – Quero ver se levo jeito mesmo para a coisa. Minha mãe viu um deles e está espalhando para todas as suas amigas que eu finalmente saí de meu casulo – Claire revirou os olhos e dei risada por vê-la parecendo ser uma adolescente, não uma adulta.
Lauren estava insuportável, cobrando Guy pelos desenhos do natal e tentando parecer sexy para . Ouvi dizer que seu marido estava na cidade, a impedindo de fazer as programações que queria, principalmente a que envolvia “caçar ”. Mantive-me tão calada que provavelmente a fiz achar que não trabalhava mais em sua equipe. Para mim, foi ótimo. Permaneci a semana inteira sem ouvir grandes desaforos e quando vi, me deixava no aeroporto na quinta-feira.
– Já estou me desculpando por amanhã – disse, enquanto o motorista tirava minha mala com as lembranças do chá de bebê que havia pego no dia anterior. Para vestir, eu estava levando apenas uma mala menor, já que Amy separou-as sem minha permissão e brigou quando eu disse que queria escolher minhas próprias roupas.
– E por quê? – ele perguntou.
– Pelos momentos que você pensar que quer me matar quando meu pai, meu irmão e Taylor falarem sem parar no seu ouvido e querer apresenta-lo a todo mundo da cidade – suspirei. Dei-lhe um beijo que deveria ser rápido, mas que estendeu por longos minutos. Me afastei, vendo um sorriso malicioso em seus lábios, praticamente dizendo que seria uma escolha melhor se eu ficasse ali com ele ao invés de fazer o despache das minhas malas. Sem dúvida eu concordava, mas se não pegasse esse voo para Maine, Max daria uma de pai em cima de mim e me daria um enorme sermão. E se há algo pior que Céci estressada, é ouvir o sermão sem fim de Max. – Use sapatos confortáveis – disse, antes de fechar a porta do carro.

O bom e o ruim de ser de uma cidade tão pequena que até os cachorros reconhecem os moradores dela, é que ela dificilmente muda, mesmo depois de mais de dez anos afastada. Eu, Emma e Amy nos encontramos na área dos táxis por coincidência. Nós não havíamos vindo no mesmo voo, mas como o meu atrasou, o de Amy saiu na hora e Emma ficou esperando notícias do quase extravio de sua mala de acessórios, o destino fez com que nos encontrássemos no mesmo lugar.
– Meu pai está vindo me buscar, vocês podem vir comigo – Amy disse.
– Que ótimo! – Emma celebrou. – Podemos ir direto para a casa de deixar o material, eu oriento a empresa de decoração e do buffet para deixarem tudo preparado e aí você me leva para o hotel para o check-in, ?
– Claro! – sorri, adorando o cronograma tanto quanto Amy, que não costuma viver em bagunça. – Meu pai estará um pouco ocupado organizando os planos de amanhã. Ele está feliz de finalmente ter uma responsabilidade importante desde sua saída do cargo de professor do colégio, em julho.
Essa era uma grande verdade. Papai começou a trabalhar desde os 13 anos de idade na fábrica onde agora Max trabalha. Por essa razão, sua vida inteira foi ativa e, mesmo que um pouco rotineira, o fazia se levantar da cama e ter o que fazer todos os dias. Depois da morte da mamãe, achamos melhor que ele se aposentasse, já que era perigoso para um homem de mais idade continuar trabalhando em uma fábrica, na área de produção. Ele então foi convidado para ser professor de educação física no colégio estadual da cidade e era até bem pago. Agora que ele foi demitido, Céci disse que o tempo usado no trabalho se converteu em atrapalhar os filhos. Até a semana anterior, quando disse que ele cuidaria de ciceronear ; Max disse que deveríamos agendar mais visitas dele na cidade.
– Queria que meu pai visse o comportamento do seu pai com o – Amy suspirou. – Ah! Lá está ele!
Martin Steins é o típico fazendeiro que se tornou rico e gosta da posição em que está. Trabalhar com gado não é a coisa mais fácil do mundo, mas basta dez minutos de conversa e ele faz parecer ser uma atividade que até uma criança de cinco anos que sabe montar em cavalo poderia fazer.
– Veja só minha filha postiça! – ele abriu um sorriso com seu bigode bem aparado. – Estava falando com seu pai essa semana, ele queria mostrar um pouco da fazenda ao seu companheiro.
– Boa tarde, tio Martin – coloquei a mala na parte de trás da picape com Emma e Amy, e entrei no carro, parando para dar-lhe um beijo no rosto. – É. Meu pai está muito animado em tê-lo aqui.
– Logan me disse que ele é um advogado. Falou sobre o escritório dele. Eu gostaria muito de um genro advogado – ele disse, dando partida na picape.
– Pai – Amy disse, chateada. – Não vamos começar com isso.
– Começar com o quê, pequena? Eu estou apenas expressando minha vontade de ter um advogado na família! Os advogados ganham bem o suficiente para dar-lhe uma boa vida. O seu companheiro CDF tem um motorista? Logan disse que o acompanhante de tem.
Amy não respondeu. Jordan tinha seu próprio carro, mas é claro que ele não tinha um motorista. Ele não precisava de um.
– Ah, tio Martin, não seja tão mau com Amy e Jordan. Ela teve muita sorte de ter encontrado um homem honesto e trabalhador, e ainda por cima inteligente! – tentei ajuda-la, vendo o olhar de tio Martin me encarar pelo vidro do retrovisor central.
– O Google não é uma empresa ruim. Eu pesquisei um pouco sobre ele, a sede é na Califórnia, não?
– Se Jordan chegar à presidência, terá de ir para lá – Amy olhou de lado para tio Martin, que ergueu uma sobrancelha.
– E como seria o relacionamento de vocês?
– Ora, papai. Se ele me pedir para ir com ele, é muito mais fácil manter meu negócio lá do que se dependesse de uma empresa para estar empregada.
Saber que Amy ficaria ainda mais afastada de Maine calou tio Martin. Apesar de ter seu orgulho fluindo em suas veias, ele também era um pai coruja e não gostava da ideia dela ir para mais longe do que já estava.
– E quem é nossa outra convidada? – ele mudou de assunto e tenho certeza que Amy abria um sorriso vitorioso por ter ganho a batalha.
– Essa é Emma Rose, a organizadora do evento. Ela irá cuidar da despedida de solteiro da Céci e da cerimônia e festa também. Estudamos juntas em um curso lá em Nova Iorque – apresentei Emma, que logo começou a falar com tio Martin sem parar. Ele, como sempre, estava interessado em saber sobre a profissão dela e se ele dava muito dinheiro. Ao saber o tamanho da empresa que ela dirigia, tornou-se um pouco mais dócil com Amy.
– Parece que é comum abrir seus próprios negócios em Nova Iorque – ele comentou.
– Ah, sim. Para nós que vivemos na alta sociedade, é difícil encontrarmos empresas que façam os tipos de trabalhos que queremos, por isso é normal algumas de nós abrirmos nossos negócios ao invés de arranjar um marido em quem depender.
– É por isso que vocês estão casando tarde. Vocês não controlam direito o tempo de vocês – tio Martin balançou a cabeça em reprovação.
– Bem, a probabilidade de passarmos por uma dificuldade financeira é ainda menor – Emma ergueu os ombros. – Nós também podemos lidar com nossas próprias despesas. Não somos um estorvo para ninguém.
Tio Martin não soube o que falar. Ele sempre ensinou Amy, e quando eu e Lana estávamos juntas também ouvíamos, para que não trabalhássemos por trabalhar. Nós deveríamos nos destacar e, de preferência, sermos as melhores, o que explica bastante a personalidade perfeccionista e pirada de Amy.
Ele nos deixou 40 minutos depois na frente de casa. Os caminhões da empresa estavam estacionados aguardando a chegada de Emma. Amy foi embora com o pai, viria mais tarde para organizar a seção dos presentes e da decoração.
A casa em que morei não havia mudado nada, nem a tintura perfeita que mamãe tanto prezava. O jardim estava bem aparado e verde, o carro de papai estacionado na vaga da garagem e as janelas abertas para refrescar o interior. Abri a porta com a chave laranja que eu fiz para mim quando tinha 16 anos. Era difícil perde-la, sendo a única coisa que mantive de minha adolescência. Papai estava na sala, a mesa coberta de papéis de panfletos, rascunhos rabiscados e a impressora montada ao lado do notebook. Eu insistia em organizar o escritório dele, mas papai gostava de ter a desculpa de montar suas coisas na sala e fazer dela o seu próprio espaço. Mamãe nunca o deixou ter liberdade para fazer o que quisesse, então essa era uma das coisas boas desde sua morte.
– Achei que o veria só de noite, pai – passei meus braços ao redor de seu pescoço e dei-lhe um forte abraço por trás, vendo-o tomar um susto. – Compenetrado?
– Ah, sim. Estava finalizando alguns detalhes. Que bom que você chegou, há algumas dúvidas que gostaria de tirar com você – ele se levantou da cadeira e cumprimentou Emma assim que a viu parada atrás de mim.
– Podemos fazer isso daqui a pouco? Emma vai orientar as equipes para organizar aqui dentro, então o senhor terá de ceder o espaço para nós. E eu vou levar minhas coisas lá para cima.
– Tome o tempo que precisar, senhor – Emma disse, tirando os óculos de sol da gola da blusinha que usava e o colocava dentro do case para guardar de volta na bolsa. – Começarei pela cozinha e o jardim.
– Perfeito. Este velho aqui não tem tanta agilidade para organizar toda essa bagunça em pouco tempo – meu pai riu. – Quando você tiver um tempinho...
– Virei até o senhor – sorri e lhe dei mais um beijo antes de ver Emma nos dar as costas para chamar as equipes para entrar na casa e eu ir até a cozinha pedir para a faxineira acompanhar Emma na organização.
Peguei minhas malas para levar até o andar de cima. A última vez que vim, no natal, tudo estava exatamente igual. Os quadros nas paredes, um hábito americano de ser. Fotos de papai e mamãe jovens e nós três também. O segundo andar era composto por uma sala de estar e as portas de ligação para os quartos. O meu era o mais afastado devido a época de minha rebeldia, quando somente o som da televisão era motivo para gritaria. O tapete bordado pela minha mãe dois anos antes dela falecer, quando criou o hábito de mexer com tecidos, estava, como sempre, estendido ali. Apesar de termos uma sala no andar de baixo – muito boa por sinal –, essa era a sala que ficávamos de noite assistindo filmes juntos. Manter o tapete da mamãe ali era como ter sua presença. No natal, aquele continua sendo o nosso lugar para a troca de presentes e onde a árvore é depositada, mesmo sendo muito difícil carrega-la para cima.
Meu quarto era o único que havia mudado desde a adolescência. Mamãe aproveitou minha saída para deixa-la como os outros quartos, próprio para visitantes dormirem. Eu tinha vários pôsteres, pregos na parede para pendurar meus colares e cachecóis, e a porta para o banheiro que eu dividia com Amy na época era pintada de vermelho sangue. Agora, tudo estava a cara de Lucy . Cores pasteis, colcha florida e móveis brancos. Não era tão mal, mas minha antiga ‘eu’ jamais aceitaria a decoração. Para começar, as paredes antes tomadas por fotos minhas, de Amy e Lana, agora estavam cobertas por um papel de parede cáqui e batentes brancas. Pequenos quadros de pintura feitas por mim quando eu era pequena enfeitavam e davam o tom colorido. As cortinas foram trocadas do azul marinho blackout para o branco. Nem a cama era a mesma. Agora, um dossel enorme tomava conta do centro do quarto, entre as duas janelas balcão que havia para iluminar o espaço. Deixei minha mala no criado-mudo que era utilizado somente para essa função e entrei no banheiro cuja porta estava na parede oposta das janelas. Meu banheiro e de Amy tinha duas pias, um espelho enorme que tomava uma parede inteira em sua largura e todos os apetrechos que garotas precisam desde o momento que decidem cuidar de sua própria beleza. Nos momentos em que nós duas nos dávamos bem, brincávamos de recriar a cena de Julia Roberts em Uma Linda Mulher, aquela que ela faz um enorme banho de espumas e se diverte cantando sua música favorita. Amy cantava I Want It That Way, dos Backstreet Boys, e eu, If You Wanna Be My Lover, das Spice Girls. Depois que saíamos, colocávamos nossos roupões e cantávamos Ain’ No Mountain High Enough do Marvin Gaye, como Susan Saradon fez com seus filhos no filme Lado a Lado. Soltei uma risada, lembrando de quando mamãe entrou para nos dar uma bronca, mas acabou dançando conosco porque adorou nos ver em um dos poucos momentos de paz.
Sentei no assento sanitário, relembrando dela com seu pijama por debaixo do roupão e alguns bobes na cabeça. Nos dávamos bem durante o natal. Sempre achei que ela pegava leve conosco na época. Todas as vezes que venho visitar papai, pego-me pensando em como nós rimos naquele dia. Se os celulares tivessem câmeras, teríamos gravado para que os detalhes não fossem esquecidos.
Respirei fundo e voltei para o meu quarto. Dois anos, apesar de distante, ainda era muito recente. Para mim, que visito a cidade uma ou duas vezes por ano, Céci disse que é comum que relembrar seja mais difícil para mim. Com o tempo, quem vive no lugar consegue se acostumar, mas quem não vive precisa tomar cuidado para não transformar a visita em um mar de lágrimas.
– Você tem muito o que fazer, . Pare de pensar na mamãe – disse a mim mesma, trocando os sapatos de salto para um mocassim confortável e descer, pronta para colocar a mão na massa.

O chá de bebê foi mais do que um evento para celebrar a vinda do primeiro neto do meu pai. Foi também uma vitrine para mostrar três personalidades novas que estavam sendo muito comentadas em nossa cidade.
– Quem diria, – Kyle, um mala que era do grupo de Taylor no colégio, disse para mim. – Quando North disse que você estava namorando um poderoso de Nova Iorque, eu achei que o cara era poderoso no ramo da carne, se é que me entende – ele e o resto de sua turma de imbecis riram, como se fosse engraçado agir como adolescentes. No entanto, com a quantidade de provocações que estava recebendo, não pude evitar voltar alguns anos da minha vida para lhe dar uma resposta à altura.
– Vire sua inveja para lá, Benjamin – abri um meio sorriso. – Só porque North foi o único que deu sorte de namorar uma pessoa especial, não significa que você pode descontar suas frustrações em pessoas bem-sucedidas como eu.
nunca me pareceu tão sociável. Para dizer a verdade, me fez lembrar o seu primeiro dia de trabalho na empresa, quando todos diziam quão adorável ele era e eu só via o diabo maligno em pessoa. As mulheres, principalmente, vinham falar com frequência com ele, conversar sobre todo o tipo de assunto que, por incrível que pareça, ele sabia muito bem levar. Além dele, Klint estava mais tagarela, já que finalmente realizava seu desejo de conhecer os pais de Lana. É claro que ele não levou sua família para Maine, mas isso não significava que não fosse convencer, de alguma maneira, o tio Harry a ir fazer uma visita durante a próxima semana. O fato de Klint ser alto, com uma boa aparência e um profissional de sucesso encantou tia Ornélia, que logo se mostrou praticamente uma tiete.
– Parece que Nova Iorque faz bem para as mulheres – ela comentou, em uma conversa com Jordan, e Klint. Tio Martin se mantinha longe de Jordan, o que deixou Amy extremamente mau humorada a festa inteira.
– Ele não podia nem disfarçar? – resmungou, quando eu e Lana fomos pedir que ela mascarasse um pouco sua má vontade de estar no mesmo espaço que seu próprio pai. – Toda a cidade praticamente está aqui, vão pensar que namoro um cara qualquer.
– Todo mundo sabe que você não tem esse mau gosto, amiga. Além disso, Jordan disse que virá fazer um serviço extra para a escola estadual. Não há quem não esteja gostando dele – fiz um carinho em suas costas, amenizando sua raiva.
– Não sei por que você reclama tanto. Seria tão melhor se eles não se dessem bem – Lana desviou seu olhar para Klint, que estava imerso em uma conversa de negócios com seu pai.
– Pelo menos o seu pai não baba no seu acompanhante e faz com que todos saibam que é “da família” – reviro os olhos. Meu pai parecia a namorada de , já que não saía de seu lado e falava para todos que ele era meu novo namorado com uma profissão que exigia até um motorista.
– Você tem motorista, Wood? – ele perguntou a Klint em um momento da festa. Vi fazer um sinal tão discreto para o amigo, que se não os conhecesse tão bem, jamais teria percebido.
– Claro – Klint sorriu. – É praticamente um requerimento dos advogados.
– Você ouviu, Muller? – tio Harry gritou para o filho de seu melhor amigo, que cuidava de seus casos relacionados à empresa – Você precisa de um motorista!
– Me pague melhor então! – ele respondeu, fazendo com que todos rissem.
Lua me pareceu alegre e sua mãe – megera – não teve como reclamar, principalmente porque ela tinha uma poltrona especial da “futura vovó”. Como minha mãe não estava lá para ter direito sob o lugar tanto quanto ela, a mulher foi tratada como uma rainha por todos os funcionários, uma ordem de Emma, que estava de olho principalmente nela.
– Não imaginava que fosse fácil enrolar as mulheres vadias de Maine – ela murmurou para mim quando fui na cozinha verificar se estava tudo bem. Soltei um riso de deboche.
– O problema não é na hora, Em – peguei um canapé da bandeja do garçom que estava para sair. – É depois. A mulher vai dizer que seu serviço não é nada demais, etc.
– Ela não irá ousar – Emma abriu a boca, ofendida.
– É claro que não. Eu convidei todas as pessoas importantes da cidade – enviei-lhe uma piscadela, ouvindo sua risada e as palmas de aprovação. – O problema será o número de pedidos que você irá receber daqui para frente.
– Está brincando? Já recebi seis – ela riu, fazendo o número com os dedos. – Sorte que estou solteira novamente, precisava pairar minha mente, esse evento veio em bom momento. Esse pessoal daqui não é tão exigente quanto os nova-iorquinos e aceitam qualquer dica que envolva a frase “eu nunca fiz algo parecido antes, então você será exclusiva”.
– Ora, então de nada – balancei a mão e a ouvi me xingar enquanto ria e continuava a organizar os salgados com a equipe do buffet.
No fim, as coisas deram certo. Apesar de não ter visto por mais de 10 minutos inteiros, ele ficaria em casa e dormiria comigo. Papai disse que era um pai moderno, além disso, com um filho casado e outra noiva, seria muita caretice privar a última filha em um relacionamento de dormir em quarto separado de seu namorado respeitável.
– Só meu pai faz isso – Amy resmungou, durante o tempo que organizava os presentes de Lua. Ela e Lana ficaram até mais tarde para ajudar, enquanto meu pai, Taylor e seu pai levaram Klint, e Jordan para saberem o que é uma verdadeira festa do interior. Eu tinha certeza que ouviria muito de naquela noite e estava rezando para eles cansarem bastante papai, pois não queria que ele ouvisse o serviço que eu teria de fazer para perdoar minha ausência e o esforço extra em ter de fingir ser legal.
– Isso realmente é algo que só seu pai encana hoje em dia, Amy – Lana riu. – Você tem 27 anos e ele ainda acha que você é virgem. Quão, com todo respeito, caipira ele é?
– Ai, não vamos entrar no assunto! – ela ergueu a mão, irritada. – Vamos terminar tudo isso logo para podermos acabar com todas as caixas de vinho que sobraram. Eu precisarei de muito para poder sobreviver até amanhã depois do almoço.
Eu e Lana trocamos olhares, nos divertindo. Amy poderia estar nervosa com o pai dela, mas jamais deixaria de ouvir o que ele a mandava fazer. Além disso, eu senti que tio Martin estava um pouquinho mais próximo de Jordan, depois de ter visto tio Harry e meu pai aceitarem tão bem e Klint, e, principalmente, depois do prefeito ter vindo agradecê-lo por ter dado a ideia de Jordan trazer algumas das tecnologias do Google para cá. Receber os créditos importantes como investidor da educação sempre foi algo bom para tio Martin; Jordan era muito mais esperto do que imaginávamos.
Pela primeira vez no ano, Lana quem foi a mais sóbria de nós três. Isso porque tio Harry não gostava de vê-la bêbada. Lana teve um primo que morreu num acidente de carro e a causa do óbito apontou embriaguez. Depois disso, beber foi a única coisa que fazia tio Harry parecer um pouco mais ‘pai’, considerando que ele nunca se preocupou com nenhuma atitude de Lana, contanto que ela não lhe trouxesse dor de cabeça.
Ela quem acabou levando Amy para casa, ao invés do contrário. As duas foram embora no carro de tia Hilary, que havia deixado na responsabilidade de Amy. Cinco minutos depois delas terem virado a esquina, e papai apareceram na SUV que eu dei para ele na época que mamãe estava doente e precisava de aparelhos médicos em casa.
– Vou precisar de uma ajuda – disse, pegando meu pai no colo com um pouco de esforço e o levamos para cima.
– O quanto ele bebeu? – arregalei meus olhos, vendo meu pai rir sozinho de algo que se passava em sua mente embriagada. – Você também bebeu?
– Não pude. Quando vi, ele já estava andando torto.
Tirei a coberta fina da cama de papai e o deitou ali. Retiramos seus sapatos, a blusa que havia levado por seu corpo velho sentir mais frio. Enquanto eu trocava papai, foi tomar seu banho em meu quarto.
– Pai... O senhor está tão feliz assim? – resmunguei, vendo-o soltar mais uma risada, enquanto eu o virava de um lado para o outro para colocar seu pijama. Quinze minutos depois, ele estava sereno em sua cama e eu preparava a aspirina para lidar com a ressaca do dia seguinte.
Caminhei até meu quarto, onde o som do chuveiro ainda estava ligado. Pensei se deveria entrar e fazer o que ele fez comigo da vez que fui pela primeira vez em seu apartamento, mas a verdade era que eu estava exausta. Coloquei uma camisola fina e corri para me deitar e tentar dormir antes de chegar, mas é claro que ele iria me acordar, e foi exatamente o que fez:
– Você acha que pode dormir assim tão facilmente? – seus beijos eram distribuídos pelos meus ombros e a parte nua de minhas costas.
– Nem se eu pedir por favor?
– Você está brincando? Sabe o que eu passei hoje?
Me virei para ele, interessada em saber sobre sua programação com meu pai. Logan não quis me dar muitos detalhes do que iria fazer com ou aonde iria leva-lo. Só sabia que eles iriam na fazenda da família de Amy, mas acabei não sabendo se vingou.
– O que você passou?
percebeu minha entonação, claro. Ele pode ver minha curiosidade e, como um bom e velho , aproveitou da situação para me chantagear.
– Você quer mesmo saber?
– É claro que eu quero, apesar de não achar que tenha sido tão ruim, ou você já teria voltado para Nova Iorque – apoiei meu braço em seu peitoral, vendo uma de suas sobrancelhas se erguer enquanto tentava me enxergar no meio daquela escuridão.
– Bem, se você quiser mesmo saber de tudo, deverá me convencer.
– Convencer?
– Você entendeu – ele abriu um sorriso malicioso. – Nenhum homem faz fofocas assim, de graça.
– É claro que faz. Você não viu como foi a festa hoje?
– Eles apenas estavam interessados em saber mais sobre a vida de quem não vive aqui. Sem ofensas.
– Bem, você tem razão – fiz um esforço enorme para me posicionar em cima de , acariciando seu peitoral. – Que bom que eu sei exatamente o que fazer para convencê-lo, então.
– Você terá de se esforçar bastante – ele murmurou.
De fato, eu tive que me esforçar bastante. deveria estar cansado, mas seu orgulho fez com que fosse mais difícil relaxá-lo, uma atitude teimosa e que exigiu toda a energia restante presente em meu corpo. Assim que despenquei ao seu lado depois de termos chego ao ápice, não pude nem ao menos me mexer para cobrir meu corpo. Por sorte, havia trancado a porta para evitar que meu pai entrasse e nos visse naquele estado – aposto que seu discurso de pai moderno mudaria em um segundo. De bruços, observei respirar de forma ofegante e então virar seu rosto em minha direção. Pela primeira vez, nos encaramos como se nunca tivéssemos visto o rosto do outro.
– O que você achou da minha família? – perguntei, depois de um longo tempo, quando o ar já estava de volta em nossos pulmões e havia subido o lençol até à altura das minhas costas.
– O conceito de família aqui é bem diferente do de Nova Iorque – ele murmurou.
– Em que sentido?
– No sentido de que vocês se importam uns com os outros.
Vi seus olhos brilharem não pelas lágrimas, mas por ter sentido a tranquilidade de estar em um ambiente onde as pessoas não estavam dispostas a julgar qualquer ação.
– Quando você fala algo para essas pessoas, elas se mostram extasiadas, como se nunca tivessem ouvido na vida – ele leva os braços à altura da cabeça e vira seu rosto em direção ao teto. – Não há malícia ou segundas intenções. Ao invés de fazer você querer provar que é perfeito, eles quem se esforçam em tentar parecer perfeito para você, é diferente.
– Por sermos uma comunidade pequena, aprendemos a viver em harmonia. Aqui as pessoas se ajudam mais do que querem derrubar as outras. É claro que há desavenças, traições, assaltos, etc. Mas o fundamento aqui é outro.
não falou por um longo tempo. Achei que ele havia dormido, justo no momento que eu havia perdido meu sono. Mudei meu corpo de posição e quando estava para fechar meus olhos e me obrigar a dormir, ouvi sua voz soar:
– Posso lhe fazer uma pergunta?
– Hum?
Seu corpo se virou em direção ao meu e pelo modo como eu estava, acabamos de frente um para o outro. Assim, tão de perto, pude ver seus olhos azuis brilharem pelo filete de luz que entrava por entre as cortinas fechadas. Eles se moveram de lado para o outro até enfim dizer:
– Como você sobreviveu em Nova Iorque?
Soltei uma risadinha. Neste momento, parecia mesmo uma loucura. Em Maine as coisas eram tranquilas e não sofríamos grande pressão da sociedade como em Nova Iorque.
– Eu queria viver algo novo – suspirei. – Se ficasse aqui, faria o que meus pais queriam que eu fizesse. Faculdade de veterinária, herdar o negócio da minha mãe, arranjar um marido que provavelmente estudou com meu irmão, ter filhos e nunca conhecer lugares lindos como o Caribe – abri um pequeno sorriso, lembrando de como nossa relação realmente começou. – Quando se quer tranquilidade, essa vida parece o suficiente, mas eu via nos programas de televisão os jovens se divertirem, viajarem, terem uma vida repleta de aventuras. Eu queria viver tudo aquilo. Nova Iorque é próxima daqui, então não seria absurdo para meus pais se eu me mudasse para lá.
suspirou e manteve-se calado. Eu sabia o que ele queria dizer. Que eu era maluca. Ir para a loucura de Nova Iorque, querer entrar na sociedade que ele quis evitar durante toda a vida... Vendo por esse lado, nós éramos polos opostos.
– Se você tivesse a oportunidade de sair de Nova Iorque, você o faria? – ouvi sua voz enquanto o sono começava a voltar com uma intensidade muito maior. – Não Maine, mas definitivamente um lugar mais calmo que lá.
– Eu gosto de Nova Iorque – respondi, sonolenta. – Quero continuar lá.
Pode ser que a partir daquele momento, eu tenha entrado em sono profundo, mas tinha certeza de que ouvi fazer um último comentário depois de dar minha resposta. E ele dizia: “É uma pena...”

Capítulo 13

não tocou mais no assunto da noite anterior e, pela correria do final de semana e a atenção que minha família queria dele, me deixando excluída, fez com que passássemos a maior parte do tempo separados. Tivemos uma refeição na casa de Amy, onde o pai dela decidiu fazer um churrasco no jardim, e então à noite o pai de Lana nos chamou para um lanche na casa dele. , Jordan e Klint tiveram de ir embora no domingo de manhã porque o voo deles fora remarcado para mais cedo, ao invés de mais tarde como o meu, de Lana e Amy. Minha família sentiu a mudança mais do que nós mesmas.
– Vocês podem remarcar para segunda, se quiserem – meu pai dizia, enquanto o motorista encarregado de busca-los e leva-los até o aeroporto carregava o porta-malas com as malas dos três.
– É uma pena que tenhamos de ir mais cedo, senhor – Jordan, como sempre o porta-voz dos três, tomou as rédeas da situação. – Mas temos trabalho a fazer.
Meu pai ainda olhou para Klint e , na esperança deles mudarem de ideia, mas é claro que eles não mudariam. Enfim papai desistiu de insistir e apenas assistiu o motorista fazer seu trabalho, enquanto o resto de nós nos despedíamos dos três.
– Venham mais vezes! – Céci anunciou, animada. Ter conhecido os amigos de tornou a situação ainda melhor para ela, já que eram dois homens a mais para distrair papai ao invés de deixa-lo atrás de si perguntando sobre tudo o que ele não entendia.
Amy e Lana passaram a tarde conosco ao invés de suas famílias. Amy, porque estava irritada com seu pai, e Lana porque nunca foi muito apegada à família e achava que seria trabalhoso ter de ir sozinha mais tarde direto para o aeroporto. Vindo para casa, pelo menos alguém nos levaria. Devido à permanência das duas, Céci acabou ficando também para discutir sobre sua mudança com Amy, e papai, Max e Taylor resolveram assistir a um jogo de futebol americano na TV, costume de domingo.
– Minha despedida será em novembro, mas disse que seria melhor fazerem a mudança no final de semana anterior, porque eu e Tay estaremos fora da cidade em um congresso veterinário.
– Perfeito! – Amy logo disse, desmarcado qualquer evento que aconteça no dia para encaixar Céci. Não é que minha irmã tenha prioridade por ser a minha irmã. Amy sabe quão exigente Céci é com suas coisas e não tê-la por perto opinando em seu serviço a manterá gostando da minha irmãzinha como sempre foi.
– Deixarei algumas anotações, porque há algumas coisas que eu não gosto que esteja junto, mesmo sendo normal estar – ela disse. – Você pode dar uma passada na nossa casa quando vier uma próxima vez para Maine. Eu diria para irmos hoje, mas o gesseiro não terminou de fazer os acabamentos dos batentes das portas, então está tudo uma bagunça – vimos seu olhar feio se dirigir a Taylor, provavelmente responsável pelo tal do gesseiro, mas ele não demonstrou nenhum arrependimento, principalmente porque sua atenção estava focada no jogo.
Deixamos Maine em torno das nove da noite. Assim que o avião se estabilizou no voo, tiramos nossos cintos de segurança e nos aconchegamos em nossas poltronas confort, as melhores disponíveis na conexão Maine-Nova Iorque.
– Eu não acredito que ele disse “até mais” para o Jordan – Amy começava, como sempre, a reclamar da maneira como tio Martin tratava seu namorado. – Dá para acreditar? Nós vamos morar juntos, pelo amor de Deus! Ele não pode perceber a seriedade do nosso relacionamento?
– Se quer saber, seu pai me pareceu muito mais à vontade com ele – Lana disse, olhando-se em seu espelho portátil. Ao ouvir a bufada de Amy, desviou seu olhar para ela e fechou o espelho: – Veja bem, “até mais” significa que ele espera vê-lo novamente.
– É, Amy, você está sendo um pouco precipitada – concordei com Lana. – Seu pai tratou o Jordan da mesma maneira que tratou o e o Klint.
– Pode ser que da primeira vez ele não estivesse acostumado em vê-la compromissada, porque, convenhamos querida, a única pessoa que você levou para apresentar aos seus pais não deu muito certo, né? – Lana abriu um sorrisinho, nos lembrando de Garrett Stone. Seu nome, na verdade, era Anthony Monavie, nada a ver com sua aparência roqueira. Garrett e Stone eram dois nomes muito famosos na nossa época de adolescente. Amy namorou com Tony por um ano e meio, quando descobriu que ele a traía na cara dura com várias “groupies” de sua “banda”. – Não culpe seu pai pelo seu mau gosto, amiga. Ele só estava com o perfil de pai protetor.
– Bem – Amy coçou atrás da orelha, quando tinha de aceitar algo que falávamos. – Pode ser que seja verdade, mas... Hum, tudo bem. Eu só achava que, porque ele quem me obrigou a arranjar um namorado, fosse trata-lo melhor.
– Ele está o tratando melhor.
– Sim, mas ele não poderia se dar mais? Olhem seus pais!
– Meu bem, meu pai só tratou Klint daquela maneira porque ele acha que eu “tomei jeito” – Lana pegou o copo do champanhe e deu uma beliscada. – Ele perguntou cinco vezes para mim se era verdade que eu me mudaria para a casa do meu namorado. Dá para acreditar?
– Ah, dá sim – eu e Amy falamos juntas.
– Se não morássemos com você, jamais iriamos entender como Klint conseguiu convencê-la de ir morar com ele – eu disse. – Falando em mudanças, Amy, você conseguiu pelo menos conversar com seu pai sobre o apartamento?
– Ah, sim, conversei – ela depositou seu corpo de água na mesa e me encarou. – Nada irá mudar. Meu pai decidiu não vender, porque acha bom ter um imóvel em Nova Iorque, mas os custos deverão ser pagos por você.
– Sim, eu já estava me planejando para isso. O pior para mim seria se seu pai decidisse vende-lo.
– Ele disse que tudo bem se você continuar morando lá – ela sorriu. – Além do mais, eu continuarei passando para dar uma organizada, você sabe.
– Você pode passar no meu apartamento e de Klint também, se quiser – Lana comentou, tirando risadas de nós duas.

Esperei que me ligasse para saber se eu havia chego bem, mas não ouvi notícias suas até segunda-feira no horário de saída. Lauren, como sempre, estava a seu alcance, os seios pareciam maiores, mas não posso culpar uma nova cirurgia, porque a vi na quarta passada. Ela falava sem parar sobre os trabalhos e possíveis reuniões que eles deveriam marcar; , como sempre profissional, respondia tudo com a maior tranquilidade e em momento algum olhou para mim.
– Dizem que ela está partindo para uma nova estratégia – Claire me disse durante o café. – anda sumido da sociedade e todos querem saber onde ele anda se metendo. Ela quer se aproximar dele para saber se ele está em um relacionamento.
– Ouvi dizer que ela está apressada porque logo mais Barbara estará de volta para cuidar da última coleção – Camille preparava o café na máquina. Ela havia se dado muito bem com Claire, ao contrário do que todos imaginavam, quando se tornou pupila de Tony. – E então ela perderá a chance de paquerar no serviço.
– Para você ter percebido em tão pouco tempo as intenções de Lauren com , é porque ela não está mesmo preocupada no que as pessoas falam aqui dentro – abri um pequeno sorriso, esperando ansiosamente pelo dia em que Barbara entrasse por aquela porta de entrada e mudasse o comportamento de várias mulheres para cima do meu namorado.
– Semana que vem é a entrega do projeto de natal de Guy e Tony. Queria poder dar uma olhadinha nos desenhos deles – Claire disse, animada. – Achei que Tony viria pedir ajuda a você como sempre fez, mas ele e Guy estão tão focados juntos que eles parecem mesmo estar em um relacionamento.
Eu, ela e Camille demos risadas enquanto ouvíamos a voz de Lauren se aproximar e aparecer depois de dois segundos na cozinha do andar:
– Que tal demonstrarem essa animação toda em seus rascunhos? – os braços conseguiram, de alguma maneira, se cruzar em frente ao peito e uma das sobrancelhas feitas por uma concorrente da Lana se ergueu. – , a Disney quer trabalhar em uma nova coleção para o final do ano que vem. Preciso que pense em conceitos e assista à nova leva de animações que eles produziram.
Suspiro, desanimada. Criar charms de algo já existente não é a melhor maneira de exercitar a criatividade. Mais uma vez, Lauren empurrou o trabalho que menos exige esforço.
– Claro, senhora Beckheart – disse, me levantando e olhando para Claire, que revirou os olhos por eu estar tapando a visão de Lauren sobre si.
Segui ela até a área do escritório, onde vi parado perto de sua mesa, aguardando que ela voltasse de onde quer que estivesse. Ele não olhou para mim, nem abriu um sorriso, o que de vez em quando admito me deixar perturbada.
Eu e não costumamos falar sobre nosso relacionamento. Estamos sempre falando sobre assuntos aleatórios, tentando não comentar sobre o trabalho ou as pessoas dele, e saber mais sobre o outro. Contudo, não sei a opinião de sobre a sociedade saber sobre nós dois. É claro que haverá aqueles dizendo que sou oportunista e estou tentando subir na minha carreira pela maneira mais fácil; outras dirão que está arranjando uma maneira de me manter na empresa. Mesmo assim, não podemos ficar nas sombras para sempre. Quero sair para qualquer lugar e andar de mãos dadas como fizemos uma vez antes; quero poder tirar fotos e postar no Instagram como um casal normal. Enquanto ele continuar fingindo que não temos qualquer relação pessoal ou mais íntima, não sinto a segurança de tomar a atitude. Sempre que falamos sobre o assunto, é como se tivéssemos medo do que o outro responderá, deixando o assunto mais para frente. Ele conhece a minha família e, por mais que Barbara me conhecesse, o que ela pensaria ao saber que sou a namorada de seu filho? Não é possível que, no meio de toda essa frieza que os dois têm entre si, ela não sinta nem um pouco de curiosidade em saber com quem o filho se relaciona.
Como sempre, saiu da empresa logo depois de mim e me pegou de carro um quarteirão depois da empresa, quando estava próxima à entrada do metrô. Dessa vez, conseguimos esperar até em casa para fazermos o que não pudemos fazer direito no final de semana. Amy e Lana não estavam em casa, claro, e não voltariam até pelo menos terça de noite.
Tão logo entramos em casa, me surpreendeu com um abraço que durou muito mais do que um ou dois minutos. Ele não parecia apressado em chegar no sexo e, quando chegamos, a pressa continuou ausente. Mesmo assim, era possível sentir sua urgência em me dizer algo. Suas mãos deslizavam sob meu corpo com veemência e seus beijos eram mais longos, mesmo a falta de ar sendo fator constante entre nós dois. Sua voz sussurrou meu nome muito mais vezes do que a minha chamava a dele, outra situação inesperada. Adormeceu logo em seguida, algo inusitado para quem costumava gostar de ser o último a pregar os olhos. Seu corpo estava tão relaxado que me fez sentir vontade de protege-lo do que quer que estivesse o perturbando. Através de seus toques, senti que ele precisava se expressar de uma maneira que não fosse necessário falar; o olhar não era mais o suficiente para suprir a necessidade de me dizer o que as palavras não queriam mostrar.
A junção de todos esses fatores me fez despertar. Fiquei com os olhos pregados, acariciando seus cabelos um pouco suados, pensando quais problemas ele estava enfrentando para estar tão carente. Sei que ele jamais me falaria. Sua necessidade em parecer mais forte que eu jamais o permitiria mostrar-me suas fraquezas; mesmo que eu quisesse saber para fazê-lo se sentir melhor, sei que falar o faria ter uma reação oposta ao que eu esperaria. Primeiro, pensei em minha família. Algum deles poderia ter dito algo desnecessário, mas jamais os levaria a sério. Em seguida, pensei em minhas amigas. Temos o costume de nos encontrar uma vez por semana, os três casais, para que a relação entre todos nós seja amigável e confortável, já que é bastante claro que, para sermos felizes como casais, temos de nos dar bem com os melhores amigos dos nossos parceiros. Eu, inclusive, achava que Lana e se bicariam um pouco, mas me surpreendi ao vê-los se dar tão bem um com o outro. Elas poderiam ter-lhe dito algo que não deveriam, mas a insensibilidade das duas é limitado somente a mim.
Enfim cheguei em sua família, ainda uma incógnita para mim. Todas as vezes que tentava entrar um pouco em seu mundo, ele erguia sua muralha e me impedia de conhecer mais sobre ele. Não sei se era por medo de eu descobrir verdades que ele não gostaria que soubesse, talvez até fraquezas que pudesse usar contra si; ou se era porque ainda não se sentia confortável em se abrir comigo. Tudo o que sei foi o que ele me disse quando estávamos no Caribe. Sua mãe não era sua mãe, ele cresceu sozinho na Itália e então mudou-se para a Inglaterra, onde continuou sozinho, mas pelo menos firmou duas fortes amizades que permanecem firmes até hoje; além disso, não mantém contato com seu pai, que ainda não sei quem é, mas preferiu seus affairs, ao filho recém-chegado da Europa.
Observei os traços de seu rosto formarem uma expressão serena, algo difícil de se ver no dia a dia. Ele parecia estar tendo um sonho tranquilo. A prova de que estava vivo era seu peitoral subindo e descendo de acordo com sua respiração. Estava tão exausto que mesmo quando um trovão tomou conta de Manhattan inteira anunciando a chuva de outono, seu corpo sequer se moveu. Quando eram quase uma da manhã, desisti de pensar em seus problemas. Eu já não estava mais suportando o sono e tudo o que queria era me aconchegar perto de e adormecer. Seus problemas poderiam ser desvendados no dia seguinte. Eu jamais conseguirei descobri-los só de olhar para si adormecido, independente do tanto de horas que permanecer deitada ao seu lado, vendo um lado seu que ninguém jamais imaginaria ver. De todas as conclusões que poderia tirar dessa ação, a única seria que eu poderia fazer dela, um hobby em minha vida.

Acordei no dia seguinte sozinha. Um bilhete no espelho do meu banheiro dizia que havia saído para poder se arrumar em seu apartamento. Ele poderia se arrumar aqui, se quisesse. Na verdade, eu poderia jogar no ar a ideia dele trazer algumas de suas roupas para cá, apesar de seu senso de organização não ser muito o meu estilo – ou talvez fosse o oposto, já que minhas roupas devem ser passadas no dia, se eu quiser que elas fiquem lisas.
Me arrumei ainda pensando em seus toques na noite anterior. Ao invés de querer senti-los novamente por me fazer enlouquecer, estava mais afim de desvendá-los. Passei o dia inteiro avoada pensando no assunto e somente quando voltei sozinha para casa no final da tarde, pude discutir com Amy e Lana.
– Amiga, você já foi mais inteligente – Lana me encarou com sorrisinho.
– Eu te pedi uma sugestão do que seja, não uma ofensa – fiz uma careta, colocando a mesa enquanto Amy terminava de cozinhar o molho da massa que iríamos comer.
– Seu aniversário é no domingo, você acha que ele não está preocupado pensando no que lhe dar?   
Abri a boca. Era verdade. Meu aniversário estava chegando. Olhei no calendário que mostrava o início do outono ter acontecido há dois dias. Logo, meu aniversário estava próximo, assim como o resultado dos nomes dos designers da coleção de 50 anos da . Mais duas semanas para o anúncio. Só duas semanas.
– Você está pensando no maldito anúncio, não é? – Lana me entregou a taça de vinho. Abri a boca para negar, mas acabei desistindo ao ver seu olhar enquanto ela se sentava em seu lugar na mesa. – Você deveria se dar mais o valor, querida, eu já te disse. E se der algo de errado? Como você lidará com a decepção?
– Que horror, Lan! – Amy protestou da cozinha. – está se preparando há meses para esse serviço. Você não poderia oferecer mais apoio?
– Eu não estou desestimulando ela, Amy – Lana revirou seus olhos e comeu um tomate da salada que havia montado para nós. – Estou querendo dizer que ela poderia se preocupar em passar seu primeiro aniversário com um namorado de verdade e esquecer um pouco esse estresse de anúncio.
Lana tinha razão. Essa era a primeira vez que passaria meu aniversário com um namorado de verdade. Não que eu nunca tivesse tido namorados antes, mas, bem... Eu levo muito mais a sério do que jamais levei outro homem antes. Posso culpar a idade; parece que quando mais velhas ficamos, mais sentimentais nos tornamos.
– Você deveria se preparar para um final de semana emocionante, afinal, mesmo sendo péssimo em demonstrar seus sentimentos, ele ainda consegue surpreender você quando quer – Lana abriu um pequeno sorriso, tirando outro de mim. – Gostou da ideia, não é?
– É claro que não irei desgostar – murmuro. – É verdade que estou muito focada no anúncio. E há uma pequena probabilidade de eu não ser escolhida.
– O que não irá acontecer – Lana ergueu sua taça de vinho em minha direção. – Afinal, se há uma mente brilhante para joias nesse mundo, essa mente pertence a você, querida.
– Saúde! – Amy ergueu sua taça da cozinha, nos fazendo rir.
– Então talvez seja bom eu me preparar para um final de semana emocionante! – dei um tapa na mesa e ouvi os murmúrios de aprovação das minhas melhores amigas. – E também farei com que tenha certeza de que sou a melhor mulher do mundo em sua vida.
– É isso aí! – Amy gritou mais uma vez.
– Depois desse final de semana, ele não irá querer mais esconder o nosso relacionamento para o mundo!
– É assim que se faz, ! – Lana sorriu, orgulhosa. – Aproveite os 27 anos enquanto pode, porque você será outra com 28!
– Realizarei todos os meus sonhos com 28 anos! – disse, animada, recebendo palmas das minhas amigas.
– Por causa de sua animação, lhe darei meu presente de aniversário mais cedo – Lana correu até seu quarto e voltou com uma enorme sacola da La Perla.
– Não! – levei as mãos à boca e a vi sorrir, balançando a sacola em minha direção. – Você não comprou aquela...
– Edição limitada? Veja por si só, querida – ela apontou para a caixa envolta por um enorme laço de presente. Assim que a desfiz, senti o aroma típico da loja e um conjunto de lingerie maravilhoso que venho querendo desde o anúncio da coleção, há um mês. Tentei comprar, mas já estava tudo esgotado. – Quem é sua melhor amiga?
– Você, claro! – corri até ela e lhe dei um enorme abraço. – Meu Deus, é a coleção completa! – olhava todas as peças que estava dentro. Dentre elas, o robe era meu favorito. Semitransparente, em combinação com o sutiã meia-taça mega sexy. Eu seria uma nova mulher usando ela.
– Hey! – Amy se aproximou com a travessa da massa fumegando. – Como assim Lana é sua melhor amiga? O que ela—Não! É a edição limitada? – e de repente a comida já não era mais tão importante para nós três. – Lana, você também é minha melhor amiga, onde está minha coleção?
– Querida, você precisa fazer 28 anos E me dar uma joia exclusiva magnífica de aniversário – Lana sorriu para mim, que enviei-lhe uma piscadela, ouvindo os protestos de Amy. No meio de todo o blábláblá, comecei a fantasiar todos os tipos de presentes e surpresas que poderia preparar para mim naquele final de semana.
Ele deveria fazer valer tudo a pena, não deveria?

Sexta-feira chegou como água em tempestade. Eu e o pessoal do trabalho havíamos comemorado o meu aniversário antes da data, no dia anterior, porque eu não queria deslocar ninguém de suas programações para passar algumas horas comigo no final de semana. Além disso, ele deveria ser inteiro somente para e nada, nem ninguém, poderia atrapalhar esse momento.
Foi uma ótima comemoração porque todos estavam relaxados. A entrega do projeto de natal, o maior de todos os trabalhos de nossa equipe, foi pela manhã, então no fim da tarde, Guy e Tony eram os que mais estavam aproveitando o álcool que ganhei gratuito por ser a aniversariante.
não foi para casa na quinta, o que me deixou um pouco decepcionada. Apesar do meu aniversário ser somente no domingo, eu esperava que ele fosse passar o final de semana inteiro comigo. E sexta-feira é considerada um final de semana, principalmente quando você faz home office.
Ele só foi chegar às sete da noite com uma roupa casual. Ao invés de se desculpar pelo atraso, ele manteve o comportamento de que eu tanto amava e odiava, e então anunciou:
– Use um sapato confortável.
Sobre sapato confortável, eu não sabia o que pensar. Talvez fossemos andar muito e eu precisaria colocar um tênis? Ou então ir até uma praia e os chinelos fossem necessários? Que tipo de conforto ele queria dizer? Porque ele não me explicou melhor, coloquei um tênis e uma sandália sem salto dentro de um saco de calçado para colocar dentro da minha bolsa. Uma mulher prevenida vale por duas, afinal.
No final, o que ele queria dizer com confortável, era um calçado que eu pudesse usar por horas de viagem até chegarmos no destino final, em Rhode Island. Olhei para ele confusa, afinal, não havia muito o que fazer em Rhode, principalmente naquela área mais isolada, onde artistas como Taylor Swift comprava mansões para permanecerem longe dos holofotes.
– Tenho uma casa aqui – ele informou. – É um bom lugar para se descansar.
– Descansar? – ergui uma sobrancelha, tentando enxergar algo além da cidade iluminada. De noite era mais difícil ver a beleza, apesar de reconhecer que era uma cidade linda, principalmente quando passamos pelo centro, onde um imenso lago tomava conta da área turística da cidade.
– Descansar, relaxar, passar um tempo afastado dos nova-iorquinos – ele falava enquanto dirigia o próprio carro.
– Bem, para você vir dirigindo todo o caminho, é porque quer realmente se ver livre de todos eles – comentei, vendo-o abrir um pequeno sorriso, mas não me responder. – Por que quer tanto sair de lá?
– Você não quer? – ele perguntou.
– Eu gosto da cidade, já disse.
– Por quê? – seus olhos encararam os meus por milésimos de segundo, em um dos momentos que ele desviava o olhar do trânsito. – Por que você gosta tanto de lá?
– Porque foi lá onde eu consegui a liberdade que queria.
– Liberdade? – ele riu. – O seu conceito de liberdade é bem diferente do meu.
– Ora, me desculpe se eu vivi presa nas regras dos meus pais durante toda minha vida em Maine e queria ir para um lugar onde pudesse tomar minhas próprias decisões – disse, ofendida. logo ativou seu lado perspicaz e decidiu não me questionar. – Eu não sei por que você, sendo quem você é, não gosta tanto de morar lá.
– Por que eu iria gostar de viver em um lugar onde as pessoas me julgam pelo meu dinheiro?
– E você acha que isso irá acontecer somente em Nova Iorque?
Minha pergunta o calou. Pela primeira vez desde quando nos conhecemos, eu havia ganho uma briga. Honestamente, esperava que fosse me sentir melhor, mas não foi o que aconteceu. Eu sabia que havia algo de errado com , mas a ponto de fazê-lo perder um argumento contra mim, talvez eu devesse me preocupar mais com ele.
– Há algo de errado? – perguntei, vendo-o me olhar, surpreso. – Você está esquisito.
– Esquisito como?
– Não sei... Só... Esquisito.
Não ouvi sua voz por um tempo, mas continuei o encarando para pressioná-lo a me dar uma resposta. pensou e pensou até decidir me dar a seguinte resposta:
– Não é nada de importante.

Sua “casa” não poderia ser chamada exatamente de casa. A mansão era à beira-mar e tão enorme que eu quase não via seu final. Os seguranças abriram os portões de metal enquanto guardas com cachorros se aproximavam para escoltar e ver se não havia ninguém nos seguindo, se não o carro da segurança que veio conosco de Nova Iorque. Quando questionei a sobre o exagero da segurança, ele disse que era comum que empresários de negócios como os dele fossem sequestrados para exigir um resgate absurdo.
A casa era toda moderna, daquelas que não precisa de muitos móveis para satisfazer as necessidades do dono da casa e mais uma dúzia de convidados que poderiam se hospedar nos oito quartos que havia ali. É claro que eu teria de conhecer a casa por mim mesma, já que não tem o hábito de ficar me apresentando o local. O jantar nos esperava assim que entramos no hall. Um cheiro delicioso tomou conta do ambiente e eu pude ver, no lado externo, com a vista para a imensidão do mar e a lua cheia, uma mesa montada na varada e iluminada somente pela luz das velas.
arrastou minha cadeira, empurrando-a para que eu me sentasse em seguida. Me deliciei em vê-lo se sentar à minha frente e fazer um sinal com a mão para que começássemos a ser servidos com uma entrada maravilhosa, seguida do prato principal ainda melhor.
– Estou pasma – comentei, assim que a garçonete se afastou depois de deixar a entrada em nossa frente. – Posso desconfiar desse tratamento todo? – olhei para os lados, abismada com a decoração tão perfeita em conjunto com o mar ao fundo. – Você sabe que dia é domingo.
– Você acha que eu não saberia?
Ergui meus ombros.
– Você está me subestimando, – ele abriu um sorriso que costumava odiar. Na verdade, dependendo da circunstância, admito me obrigar a não cair de amores, ou começarei a agir feito uma tola apaixonada. – Eu não disse que tenho tudo sob controle?
– Quando você diz ter tudo sobre controle, eu não imaginava que dentro disso estava incluir meu aniversário – ergui uma sobrancelha que, combinada com meu sorriso maroto, o fez encostar em sua cadeira e me observar por um longo tempo. – Você sabe que domingo é meu aniversário, não é?
não mudou de expressão, o mesmo sorriso que eu disse que costumava odiar, mas que estou me obrigando a odiar de verdade por ele não dar a resposta que eu gostaria de receber. Aguardei por um tempo até tirar a conclusão de que tudo isso foi mera coincidência. Olhei para o lado e tirei o sorriso do meu rosto. Ele não poderia pelo menos disfarçar? Homens geralmente fazem isso quando não querem que suas namoradas tirem as conclusões erradas como estou fazendo agora.
– Você não vai ficar nervosa por isso, vai? – ele me provocou. Voltei meu olhar para ele, furiosa.
– Claro que não, . Porque mulheres nunca ficam chateadas quando seus aniversários são esquecidos – respondi da maneira mais rude que consegui, mas, como sempre, não pareceu afetá-lo. Não sei porque diabos pensei que sentia falta de nossas discussões no início da semana. De um segundo para o outro, voltei a ser a tola que Lana sempre se referiu quando falamos sobre . Sou uma tola por sentir falta de me sentir estressada com ele.
– É apenas um aniversário, . Você faz aniversário todo ano – ele disse, entre uma garfada e outra no prato. Abri a boca, indignada com sua falta de sensibilidade e me obriguei a comer para que não dissesse o que queria. – Achei que fosse menos preocupada com esse tipo de coisa.
– Sabe de uma coisa? Deixa para lá – olhei feio para ele, que soltou uma pequena risada, me fazendo sentir o rosto tornar-se vermelho de tão quente que estava.
Eu comi tudo o mais rápido que podia porque não queria mais ficar ali. Não estava mais com humor de lidar com a ironia de . Se ele não se importava com o aniversário dele, então pelo menos poderia se importar com o meu. Quero dizer, é a primeira vez que estamos juntos em uma comemoração, o final de semana tinha tudo para dar certo e eu poderia ouvir uma declaração desse homem de pedra que ele é. Seria um aniversário feliz. Mas não. Ele tinha que estragar tudo. Tinha que fazer aquela cara de tonto.
– Tem sobremesa – ele disse, quando fiz menção de me levantar.
– Não estou a fim de doce hoje, obrigada – respondi apressadamente e lhe dei as costas, agradecendo o chef pelo jantar.
Voltei para o interior da mansão e não avistei nenhum funcionário para me dizer onde era o quarto. Como não veio atrás de mim de imediato e nem vinte minutos depois, tive de abrir porta por porta até encontrar a suíte principal, onde nossas malas estavam postas.
Eu poderia ter ficado mais surpresa com o tamanho daquela suíte, que mesmo não sendo a moradia principal de , era maior do que a suíte dele em Nova Iorque. Por sorte, o quarto não possuía closet, o que facilitou para encontrar o banheiro. Nervosa, decidi que seria uma boa punição para ele trancar a porta enquanto estava no banho. E eu fazia questão de demorar muito nele. Abri minha mala e tirei de lá um roupão macio, minha camisola de seda e a pantufa que adoro usar dentro de casa. Ao contrário da residência dele em Nova Iorque, a decoração dessa era a típica casa de veraneio. Ao invés do mármore, o que predominava era a madeira. Dentro do banheiro havia uma ligação com um pequeno jardim; o aroma de floresta depois da chuva me pegou de tal maneira que foi impossível não querer relaxar na banheira ofurô. Abri a torneira e deixei a banheira encher enquanto tomava meu banho. Assim que meu corpo entrou em contato com a água misturada com os aromas de figo e folhas, ele automaticamente relaxou, esquecendo de qualquer tensão que tenha passado mais cedo.
No meio de toda aquela harmonia da brisa que entrava pelo jardim e a música que coloquei pelo celular, comecei a pensar sobre tudo. Sobre o resultado da coleção que seria divulgada em duas semanas, a mudança de Amy que ocorreria na próxima quinta e o principal, como seria se as pessoas descobrissem minha relação com o . A primeira pessoa que iria se opor definitivamente era Lauren. Não que ela não merecesse, mas as pessoas costumam dizer que ela é uma das poucas mulheres que ninguém gostaria de ter como inimiga. A maior prova disso é que ela trabalha. Lauren casou-se com um homem rico, que mal passa tempo em casa e lhe dá tudo o que quiser em troca de sexo e companhia. Quando dizem que o amor é a base de tudo, significa que não conheceram o relacionamento dos Beckhearts. Mesmo depois de casada ela continuou trabalhando, ganhando seu próprio dinheiro (o juntando, já que gasta somente no cartão vinculado à conta do marido) e mantendo-se no mercado (em todos eles). Saber que a rejeitou para ficar com uma funcionaria seria um mico na empresa, já que ela não disfarça nem um pouco suas intenções com o chefe. Pode até ser que todas as mulheres da empresa tenham a mesma intenção que ela, mas o fato de Lauren ter tido a iniciativa primeiro fez com que as outras logo arredassem o pé – desconfio que mesmo que algumas das outras tivesse tomado a iniciativa antes dela, Lauren ainda seria cara de pau o suficiente para investir descaradamente.
Em seguida, Nathan Garden. Durante os últimos dias ele têm me enviado várias mensagens perguntando se eu não gostaria de encontrar com ele. Em todas as vezes, inventei uma desculpa ou outra para não parecer ainda mais ofensiva e deletei as mensagens porque ainda acha que o número dele está bloqueado em meu celular. Nathan, apesar de ser uma pessoa com quem tive ligeira afinidade, nunca foi nada mais do que alguém que eu “usei” para eliminar minhas necessidades. Seria injusto, se não tivéssemos falando de Nathan. Amy sempre tem mania de pesquisar sobre os homens com quem eu e Lana nos envolvemos, porque diz que devemos fazer isso para evitar constrangimentos como o que ela passou com um de seus ex rolos em Maine. Na época que eu mostrava meu interesse em passar uma noite com ele, ela me disse sobre sua fama de dormir com mulheres para extrair o melhor delas para si e então jogá-las fora quando se vir por satisfeito. Por sorte, as coisas com melhoraram durante nossa viagem ao Caribe, que coincidentemente foi quando eu dormi com Nathan e desde então ele continua sendo um número bloqueado na minha lista.
Meus pensamentos foram interrompidos pela tentativa da abertura da porta. Olhei em direção à maçaneta, que girou mais uma vez em uma tentativa falha de abrir o que estava trancado.
, não seja infantil.
Abri um pequeno sorriso e voltei à minha posição anterior, fechando meus olhos e pensando como era bom lidar com homens. Castigá-los era fácil.
, abra a porta – ele mandou e mais uma vez ficou sem resposta.
Deixei que meu corpo voltasse a amolecer com a água quente e não ouvi quando a porta foi destrancada pelo lado de fora, nem senti quando me tirou de dentro da banheira e chamou por meu nome:
! ! – dava leves tapas em meu rosto.
– Pare de me bater! – abri os olhos e vi sua camisa completamente encharcada, a expressão assustada e nós dois deitados na cama. – Mas que diabos...
– Você desmaiou no banheiro – ele explicou.
– Eu não desmaiei no banheiro, eu acabei tirando um cochilo! – tentei empurrá-lo para longe, mas não consegui. era muito mais forte que eu – Eu ouvi você me chamando e dizendo que sou infantil. Você deveria lidar melhor com a ausência de resposta das pessoas – olhei para os lados à procura de algo para vestir, já que meu corpo ainda estava nu. – Com licença?
– Você quer me matar do coração? – ele disse, nervoso, saindo de perto de mim enquanto eu ia em direção ao banheiro pegar meu pijama.
– Ah, agora resolveu se preocupar comigo? – falei alto lá de dentro. Quando saí, ainda pude ver seu semblante em pé perto da janela, as mãos na cintura mostrando os bíceps tensionados sob a camisa molhada. Eu admito, ele estava incondicionalmente sexy. Me aproximei de si e o abracei na altura da cintura. – Eu estava te testando – brinquei, fazendo o mesmo comentário que ele fez para mim quando me viu com Nathan na despedida de Amber. Deslizei para a frente dele vendo seus olhos descerem até os meus. Ergui-me nas pontas dos pés para meus lábios ficarem bem próximos ao seu: – Você passou.
Ele deu uma risada em tom de deboche e olhou para o lado, impaciente. Em seguida, não hesitou em me agarrar e selar nossos lábios, tentando me punir por tê-lo enganado com tanta facilidade. Lana tinha razão quando disse que conhecer a pessoa é um martírio para ela.
Tadinho de .

Passamos o sábado inteiro dentro do quarto. Quando um ameaçava sair, o outro segurava com uma boa dose de beijos espalhados por todo o corpo. Saímos no fim da tarde, quando decidiu que queria jantar fora.
Ele me levou em um restaurante no centro de Rhode Island. Localizado na avenida mais conhecida da cidade; era considerado o point de um sábado à noite para as pessoas que queriam passear em casais, como nós, se divertir com a turma ou fazer novos amigos. O restaurante era no meio de um quarteirão com todos os tipos de casas de comida; na calçada, mesas com narguilé e imensas taças de coquetéis expunham a qualidade do local. Quanto mais pessoas, melhor a comida. Apesar disso, entramos no, provavelmente, local mais chique do quarteirão, o único com uma recepcionista para pegar a quantidade de pessoas na porta e leva-las até suas respectivas mesas; ainda assim, não se igualava ao nível dos restaurantes de Nova Iorque, que eram sempre repletos de mimos, principalmente para pessoas como .
– Por que você escolheu aqui? – perguntei, depois de perceber que olhava demais para as paredes cobertas por fotos de pessoas famosas que já haviam passado no restaurante antes. – ?
– Como? – olhou para mim, surpreso.
– Este restaurante. Você já veio nele antes?
– Claro que já, venho para Rhode Island com frequência – ele deixou de olhar para as molduras e focou-se em procurar por um garçom para vir até nós.
– Não me venha com esse tipo de resposta. Acho que estamos íntimos o suficiente para saber sobre o outro, não estamos? – digo, nervosa. – Você esteve esquisito nos últimos dias. Fora de órbita e pensativo demais. Me faz perguntas estranhas e agora fica olhando para os lados como se estivesse vendo como o lugar mudou depois de tanto tempo que veio aqui.
não respondeu de imediato. Ele provavelmente estava chamando sua própria atenção por ter sido tão descuidado. Talvez eu esteja mais observadora. Tenho o observado com mais frequência de um tempo para cá. Pode ser que ele tenha sempre sido assim, mas isso não importa. O que importa, no momento, é que ele está perturbado com algo e eu quero saber o que é.
– Durante minha infância vim poucas vezes para os Estados Unidos – ele suspirou, fazendo um sinal para a garçonete trazer o menu. – Em todas elas, meu pai me trazia para Rhode Island e vínhamos comer pizza nesse restaurante.
Não fiz questão de abrir o cardápio colocado em minha frente. Minha atenção estava inteira em , pois queria ouvir mais sobre aquela história. Queria saber sobre o pai dele, tão ausente em sua vida.
– Foi uma das poucas vezes que nós dois passamos um tempo juntos – ele finalizou, como se somente aquilo fosse o suficiente para suprir a curiosidade que pairava entre nós dois. Me mantive calada e imóvel, esperando por mais. – Não comece.
– Você não acha injusto que sabe tanto sobre minha família quando não sei nada sobre a sua?
– Isso é porque você tem uma família e eu não.
– Não me venha com essa, – revirei os olhos, nervosa. – Você tem uma família, sim. Por mais que ela seja péssima e nem de perto se pareça com uma, seus pais um dia tiveram interesse mútuo um no outro, transaram, engravidaram e aceitaram ter você. E adivinhe só, eles mandaram você para a Itália, mas, como você próprio disse, nunca deixaram você passar por qualquer dificuldade. Até onde eu sei, isso é uma família. Podre, mas família.
– É engraçado ouvir esse tipo de comentário de alguém que teve uma família que te amava – ele respondeu, com amargura, meu comentário.
Senti minhas orelhas começarem a queimar, algo que acontecia somente quando eu estava muito nervosa com alguma coisa. Permaneci calada até eu saber que se abrisse a boca, não sairia um belo grito dali.
– Então esse é o seu problema – disse, vendo-o erguer uma sobrancelha. – Você tem remorso porque não recebeu amor de sua família.
– Faça-me o favor – ele revirou seus olhos.
– É isso, não é, ?
– Por que eu iria ficar ressentido com a falta de algo que nunca tive?
– Todos esses comentários que você faz carregam ressentimento! – apontei para ele, vendo-o mais uma vez desviar os olhos de mim enquanto soltava uma risada. – Eu não acho isso engraçado, .
– Pois eu acho – ele me retrucou, sério. – Eu acho engraçado como você acaba de entrar na minha vida e acha que pode opinar sobre tudo dentro dela. Devo lembra-la, , que apesar de estarmos em um relacionamento, nem sempre o outro quer se expor da maneira que um se expõe.
Sua maneira agressiva me calou. Nós dois sempre brigamos, mas ele nunca chegou a parecer rancoroso em suas palavras como havia sido então. Deixei o guardanapo de pano que havia posto há pouco em meu colo e peguei minha bolsa.
– Bem, senhor , devo lhe dizer então, que não há relacionamento que dure quando um dos dois não é sincero com o outro – ameacei me levantar, mas me lembrei que queria dizer mais. – Eu nunca pedi para você se expor, eu só pedi para você se abrir comigo. É querer muito saber mais sobre a pessoa com quem está tendo um relacionamento sério? Você nem pensou em me apresentar a algum familiar seu. Eu não sei nem o nome do seu pai, , e acredito que também não saberia o nome da sua mãe se ela não tivesse sido minha chefe antes de você.
Não percebi que estava com os olhos cheio de lágrimas prestes a cair. Somente quando saí do restaurante às pressas que soube, pois minha visão estava deturpada por elas. Limpei com raiva meus olhos e caminhei em uma direção qualquer. Nós tínhamos que discutir em um lugar que não conheço?
Comecei a andar no caminho que havia reconhecido levar até uma cafeteria 24 horas. Eles saberiam me dizer sem embriaguez onde eu poderia encontrar um ponto de táxi para me levar até a rodoviária do local, mas antes de eu chegar perto, meu braço foi segurado fortemente por uma mão. não disse nada, apenas me puxou para um forte abraço. Se não fosse o perfume de sua roupa que tanto conhecia, poderia ter armado um escândalo. Pela fragilidade do momento, enterrei meu rosto em sua camisa e tentei respirar fundo, mesmo a vontade de chorar quase explodindo minha garganta.
– Não me chame de senhor – ele murmurou em meu ouvido, já que a rua estava barulhenta demais pelo som das pessoas e da música dos bares e restaurantes.
– Então não me chame de – retruquei durante o deslaço de nosso abraço. Surpreendentemente, o carro de já estava ao nosso lado com um de seus seguranças aguardando com a porta aberta.
– Vamos para casa – ele disse, me levando até o automóvel.
Retornamos em silêncio. O tempo para chegarmos até a mansão me fez pensar muito no assunto. Como sempre, eu estava arrependida do que havia acabado de falar. Mesmo tendo sido somente verdades, toda vez que eu e acabávamos brigados, sentia um pouco de remorso.
A empregada que morava na casa dos fundos nos fez uma salada e um sanduíche quente para o jantar. Comemos assistindo a um filme que passava na TCM, canal que ele já sabia ser o meu favorito, e então caminhamos ainda calados para o quarto, onde enquanto um escovava os dentes, o outro se trocava. No fim, estávamos deitados na cama de frente para o outro.
– Por que você iria querer conhecer as pessoas que abandonaram o cara por quem você está apaixonada? – ele perguntou tão baixo, que se houvesse algum ruído ao fundo que não fosse as ondas quebrando, não seria possível ouvir. Por um momento, queria questionar da onde ele sabia ou desconfiava que eu estava apaixonada por ele, mas não me pareceu certo desviar o assunto de forma tão despreocupada.
– Porque foram eles quem colocaram o cara por quem eu estou apaixonada no mundo – respondi, sincera.
não disse mais nada. Com seus braços, me puxou para bem perto de seu corpo, sendo necessário que eu abraçasse seu tronco, e não me deixou continuar a conversa. Ali, no silêncio, sob o som das ondas quebrando, nós dois dormimos, cada um com seu próprio pensamento. Eu, me perguntando se aquela breve discussão havia aberto seus olhos sobre o que eu queria dele daqui pra frente. Ele, provavelmente se perguntando se deveria dar um passo mais longo, me inserindo em seu mundo, este que até eu estou receosa por entrar.

A manhã seguinte chegou mais tarde do que o costume para nós dois. Chuto dizer que foi o cansaço de nossas mentes depois de termos pensado tanto durante a noite.
Por incrível que pareça, nós acordamos exatamente na posição que fomos dormir, de modo que esforcei meu corpo preguiçoso em subir um pouco mais para que meus lábios pudessem alcançar os dele para lhe dar um beijo de bom dia.
– Feliz aniversário, – ele disse, a voz tão rouca que meu estômago imediatamente começou a embrulhar, como se fosse a primeira vez que ele me chamara pelo meu primeiro nome.
– Você sabe o que eu quero de aniversário? – perguntei, me aconchegando ainda mais, se é que era possível, em seus braços.
– Achei que fosse eu a chamando pelo seu nome – ele abriu um pequeno sorriso deboche, me fazendo calar. – O que você quer?
– Eu quero – fingi pensar, mas sabia que ele tinha noção que eu já estava com a resposta na ponta da língua. – Que você me faça uma declaração.
– Declaração? – ele ergueu uma de suas sobrancelhas, começando a se afastar de mim.
– Veja bem. Você não me pediu em namoro, apenas disse que estávamos em um relacionamento quando lhe perguntei – comecei a contar com os dedos. – Ontem, concluiu que eu estava apaixonada por você e nem disse que era recíproco – olhei para o teto, pensativa. – E ainda acha esquisito que eu não queira ao menos uma declaração.
– Há homens que fazem uma declaração comprando presentes – ele disse, se espreguiçando e começando a sair da cama.
– Você deve se considerar um cara de sorte por eu não querer gastar o seu dinheiro então. Não precisa fazer uma declaração imensa. Uma pequena está bom – olhei para ele na esperança de que ele entendesse minhas indiretas.
Nós estávamos a pouco mais de um mês namorando. Durante todo esse tempo, nunca dissemos ao outro sobre nossos sentimentos. Como uma verdadeira mulher crente do amor, para a relação parecer mais real, é preciso que ele me diga que me ama ou pelo menos que está apaixonado por mim. Dizer que sou interessante e “boa” não é algo que se diz para a mulher com quem está dormindo sem fazer sexo. Além disso, é meu aniversário, portanto, eu mereço muito mais.
– Eu irei pensar – foi a resposta que me deu antes de fechar a porta do banheiro.
Esperei ansiosa pelo momento que ele saísse de lá, afinal, dizem que o banho é o melhor lugar para se concentrar e pensar na vida. Apesar de achar que ele demoraria mais para sair, me vi esperançosa por ouvir algo bonito sair de sua boca, mas tudo o que saiu foi:
– Você não vai entrar?
 
É claro que eu faria um drama. Ele havia quebrado toda minha expectativa sobre a cena que eu imaginava. Era fácil. Ele sairia com a toalha enrolada na cintura secando o cabelo, ergueria seus olhos para mim e diria em uma voz maravilhosa que eu era dele, então nós teríamos um ótimo início de café da manhã, substituindo a comida pelo sexo e no final ele apenas diria que me ama. Simples e sincero.
Sua reação, mais do que me decepcionou, quebrou minhas pernas e me mostrou que eu continuo sendo a rainha das tolas. Passamos a manhã inteira tomando sol na área da piscina e então, logo após o almoço ser retirado, começou a trabalhar.
T R A B A L H A R.
Ele poderia ter trabalhado no dia anterior. Ou na sexta-feira. Ou enquanto eu estava dormindo. Aquilo, de todas as maneiras possíveis, me tirou do sério. Sem perceber, estava ignorando todos os seus comentários e digitando sem parar no chat que eu, Amy e Lana tínhamos. Como sempre, uma estava pedindo por paciência enquanto outra dizia que isso era comum dos homens, fazerem pouco caso de coisas que eles não acham ser grande coisa. Nós dois havíamos acabado de ter uma enorme discussão na noite passada, o mínimo que ele poderia fazer seria fazer do meu dia, algo especial. Ao invés disso, fiquei o resto da tarde com meus fones de ouvido, lendo as mensagens de felicidades no Facebook e atendendo os telefonemas de quem era mais próximo.
Foi quando, por obra do destino – ou a vontade imensa de voltar a sair comigo – recebi o telefonema de Nathan. Olhei para , me perguntando se eu deveria fazer aquilo. Ele estava sendo um completo mala e essa era uma das maneiras mais fáceis que eu utilizava para obriga-lo a tomar uma atitude:
– Garden – decidi atender sem nenhum receio.
– Fiquei sabendo que hoje é seu aniversário – ouvi sua voz soar do outro lado enquanto erguia o rosto de seu notebook para me encarar. Por sorte, desviei meu olhar antes que ele pudesse perceber o meu sorriso vitorioso.
– Gostaria de saber que pauzinhos você mexeu para conseguir essa informação.
– Mexi vários deles – imediatamente pude imaginar seu sorriso malicioso. – Aonde está? Que tal uma saída para comemorar?
– Estou fora de Nova Iorque, mas provavelmente volto mais cedo do que imaginava.
– Está no tédio? – ele perguntou, me fazendo olhar para , que pelos seus ombros tensionados, com certeza estava ouvindo com muita atenção.
– Completamente.
– Isso é para você aprender a ser uma boa garota e aceitar meus convites. Sabe quantas vezes eu te chamei para sair desde o Congresso?
– Eu tenho de parecer mais difícil, afinal, não posso perder um admirador.
Para , o comentário foi o fim, já que se ergueu bruscamente de sua cadeira e tirou o celular de minhas mãos.
– Por que está falando com ele? – me perguntou, extremamente nervoso. Ponto para .
– Ele estava me desejando um feliz aniversário.
– Para te fazer querer garanti-lo como seu admirador? – ele semicerrou os olhos. Ergui os ombros. – ... . Se você não quer que eu entre nessa brincadeira, é melhor você parar.
– É engraçado, . Eu não quero entrar nessa brincadeira, mas me parece que ela é a única que você está disposto a entrar – ameaço pegar meu celular de suas mãos, mas ele o leva para longe. – Me devolva o celular.
– Nós vamos embora. Vá arrumar suas malas – ele disse, dando-me as costas e voltando a se sentar em frente ao seu computador.
Abri a boca para protestar, mas ele fingiu não me ver mais. Empurrei a cadeira como se fosse uma adolescente que havia acabado de receber um sermão da mãe e fui para o quarto fazer a maldita da mala. Ao terminar, permaneci deitada na cama olhando para o teto e xingando todas as gerações da família de . Apesar dele ter dito que nós já estávamos de saída, nós apenas entramos no carro quando já estava noite. Todo o percurso foi em pleno silêncio. não me devolveu meu celular, tampouco pediu desculpas pela cena dele. Eu sei que havia exagerado, mas pela sua reação, eu comprovei que estava certa quando sabia que ele apenas se movia quando achava que estava sendo ameaçado.
Estacionou seu carro na garagem do meu apartamento e estranhei que ele me acompanharia ao invés de somente me deixar depois de mais uma discussão. A surpresa parou por aí, já que ele não se mostrou cavalheiro em sequer carregar minha mala até o elevador. Suspirei e desisti de ter um bom aniversário. Mesmo com todos os desejos de sucesso e felicidade e com tantas pessoas se lembrando de mim, a pessoa que eu mais criei expectativa em fazer o meu dia atípico dos anos anteriores acabou se tornando uma verdadeira decepção.
Abri a porta do apartamento esperando que ao menos Amy e Lana estivessem com um jantar pronto para alegrar o fim do meu dia. Havia um jantar pronto, mas Amy e Lana não estavam lá. A sala havia sido modificada; os sofás e poltronas foram afastadas para próximos da parede, dando um espaço enorme para a mesa de jantar e as velas que iluminavam o local. Aquilo era definitivamente uma organização de Amy, com um toque sensual de Lana. O ambiente estava decorado com rosas vermelhas, diversas delas, e um buque espetacular em um vaso de cristal. Olhei para , que me observava encarar ao redor boquiaberta.
– Você...
Fui calada por seus lábios. Pelo susto, não tive tempo de fazer o mesmo que ele e me desculpar com o ato. O beijo foi finalizado rapidamente e assim que nos sentamos na mesa, o jantar de um prato estava pronto.
– Você preparou tudo hoje? – perguntei.
– Não – ele disse. – Desde a semana passada, quando sua irmã veio me dizer que seu aniversário era hoje.
– Ah – abri a boca, começando a sentir o peso das minhas ações e meus pensamentos durante o final de semana. – Então ir para Rhode Island...
– Elas só me pediram para te tirar de casa durante os dois dias – ele começou a comer, logo após ter servido a nós dois com um vinho maravilhoso, o meu favorito. – A casa de Rhode Island não era minha. Eu aluguei.
Não sei como era possível abrir mais a boca, mas a cada coisa que ele desvendava, eu sentia que estava cada vez mais perto de deslocar minha arcada. A história do restaurante era tão falsa quanto a ideia de que a mansão era de . Parte de mim estava chateada por ter sido enganada sobre um assunto que considero tão importante, principalmente porque no final, eu apenas disse verdades em cima de uma mentira que ele havia contado. No entanto, olhando ao redor e vendo seu esforço – ou de Amy e Lana – em fazer aquele jantar dar certo, nenhuma mentira dele poderia superar o peso das palavras que disse e que estou sentindo agora.
Enquanto pensava em todos esses problemas, a refeição passou. retirou sozinho nossos pratos e os deixou na máquina de lavar louças, uma proeza que eu ainda não me acostumei a ver, mesmo depois de ter comido um café da manhã preparado por ele. Ele voltou, então, com um prato e um pequeno cupcake red velvet com cobertura e recheio de baunilha, que Lana sabia ser o meu favorito. Em cima dele, uma pequena vela estava acesa. Vê-lo vindo em minha direção com o bolinho me fez finalmente sentir a alegria do meu dia. Mesmo sem palavras, aquela cena disse muito mais do que eu queria ouvir. Me lembrou minha mãe, quando era pequena, chegando em meu quarto à meia-noite para me desejar um feliz aniversário antes dos meus irmãos e meu pai. Ela gostava de ser a primeira. Naquela época não existia o cupcake; o bolo era feito por ela mesma, um dote que as mulheres de sua idade têm por terem aprendido nas aulas de etiqueta e culinária.
– Você não quer que eu cante, quer? – mesmo seu tom debochado não pode acabar com a magia do momento. Senti duas lágrimas grossas escorrerem de meus olhos assim que pisquei, logo após negar.
Ele puxou sua cadeira para mais próxima de mim e colocou o cupcake em minha frente.
– Dizem que deve-se fazer um pedido antes de assoprar a vela – ele murmurou por estar muito perto de mim.
– Eu não preciso fazer pedido – olhei para ele com um sorriso emocionado. – Tudo o que eu quero está bem aqui – apertei os lábios, limpando as lágrimas que começavam a se acumular novamente em meus olhos. Assoprei a pequena e única vela do cupcake e ri sozinha, feliz por, ao mesmo tempo que passei esse momento íntimo e emocionante com , poder lembrar um pouco mais de minha mãe. Desde sua ida, as únicas vezes que me lembrei dela foi no dia de seu próprio aniversário, feriados ou aniversário de morte.
Encostei minha cabeça em seu ombro e respirei fundo, deixando outras duas grossas lágrimas escorrerem. Dessa vez foi ele quem as secou:
– Me desculpe por ter causado tanto estresse nos últimos dias. Eu apenas sou ruim em disfarçar – ele murmurou, depositando um beijo no topo de minha cabeça.
– Desculpe ter atendido aquele telefonema. E dito aquelas palavras – falei, chorosa. – Eu acho que só queria...
– Eu sei o que você queria – sua voz me cortou e, de repente, seus braços viravam minha cadeira para que ficasse de frente para ele. – Sei que quer fazer parte da minha vida e sei que há vezes que sou duro demais com seus sentimentos. Mas o que você deve saber sobre mim, e não deve esquecer, é que você já é parte da minha vida, maioritária, devo dizer. E aos poucos irei inserir você na minha vida... Passada. Você sabe que a única pessoa próxima da minha vida pessoal agora é você, então não interprete como se eu não quisesse que estivesse nela. Como é que eu poderia não querer você comigo, se estou diariamente tentando mostrar para você o quanto é importante para mim?
Devia ser seus olhos mais azuis do que as pedras que uso para meus designs, ou o fato de eu ter acabado de lembrar minha mãe, ou quem sabe a emoção de vê-lo dizer que sou importante para ele. Ou tudo. Todas as ações que ele teve desde quando começamos a ficar juntos e todas as vezes que ele aparecia do além para me provocar antes de nos tornarmos sérios voltarem à tona em minha mente... Eu só soube chorar.
Enlacei meus braços ao redor de seu pescoço enquanto ele calmamente me ouvia desabar em seu colo. Eu estava tão feliz que não me lembrava da última vez que me senti assim. Pode ser que nunca tivesse chego a me sentir de tal maneira. E isso era o que me fazia mais feliz.
No fim, disse que deveria dormir em sua casa, já que teria uma reunião em outra cidade no dia seguinte e o motorista lhe buscaria cedo em sua residência. Entre beijos e carinhos, nos despedimos na porta do apartamento. Aguardei ele sumir no elevador e ao fechar a porta de casa, pude ver o resquício de que tudo havia sido real. Ele havia feito uma declaração no seu estilo, mostrando sua maneira autoritária, mas de forma tão sutil que somente seus olhos poderiam causar o efeito. Se ele tivesse se expressado por telefone, as coisas não seriam tão emocionantes.
Apaguei as velas e, depois de escovar os dentes, fui deitar em minha cama ainda sonhando acordada. Tão logo quando encostei minha cabeça no travesseiro, senti algo bater, causando uma dor repentina. No escuro, tateei o local até achar uma pequena caixa.
Liguei o abajur ao lado da cama para enxergar a caixa vermelha da com um laço dourado a lacrando. Arregalei os olhos, surpresa com o embrulho. Talvez fosse o presente de Amy e Lana.
Mas não era.
Assim que abri a pequena caixa, pude ver uma chave de ouro. Uma chave. De verdade. Ergui o travesseiro, onde a caixa estava escondida, e encontrei um pedaço de papel dobrado.

“Eu poderia dizer que é a chave do meu coração, mas você já o abriu com seu sorriso.
Na chave, há o código de segurança do meu apartamento.
Agora ele é seu também.

Feliz aniversário.
Eu te amo.
.”

Capítulo 14

Antes mesmo de abrir meus olhos, eu ouvi o canto dos pássaros. Talvez não pássaros, mas sim, pombos. Essa era a primeira segunda-feira da minha vida que acordei de bom humor mesmo antes de levantar da cama. Permaneci deitada por cinco minutos até decidir começar a semana.
Olhei para o lado, onde a caixa que guardava a chave do apartamento de estava depositada com carinho e cuidado. Na noite passada, ao invés de observar a janela e imaginar se ele estava curioso sobre minha reação, virei meu corpo na direção do criado-mudo, olhando o embrulho que significava uma nova fase da minha vida.
O relógio dizia que eram seis da manhã. Eu nunca havia acordado sozinha às seis da manhã. Nem no dia de natal, tão esperado por mim e meus irmãos quando éramos crianças. Decidi preparar uma pequena surpresa para em seu apartamento. Não faria mal usar seu presente menos de 12 horas depois, afinal, se ele deu, eu poderia estar livre para usá-lo.
Passei no mercado que havia ao lado do prédio para comprar os ingredientes da minha surpresa. havia demonstrado um interesse maior na minha comida desde quando ficamos juntos e eu queria agradecer pelo presente. Peguei um táxi até o apartamento cujos funcionários logo me reconheceram, não questionando como eu havia conseguido passe livre de para entrar em seu apartamento.
No elevador, olhei para os ingredientes dentro da sacola, tentando memorizar a lista dos pratos que iria querer preparar mais tarde, no jantar, para ele. Assim que o apito do andar soou, digitei a senha que memorizei da chave e logo as portas se abriram, mostrando o hall que eu já conhecia. Caminhei com cautela, esperando ver alguma empregada limpando o local, mas ainda era muito cedo para ela chegar. Abri um sorriso ao ver que já havia saído. Ele costuma deixar sua pasta de reuniões no chapeleiro próximo ao elevador; como o objeto não estava lá, significava que a desculpa para dormir aqui ao invés de em casa era uma verdade. Iniciei a cantoria de uma música qualquer que vinha em minha mente, algo que costumo fazer quando estou muito feliz.
Infelizmente, não pude chegar à cozinha no mesmo humor.
? – a voz soou logo atrás de mim, surpresa e confusa.
Eu conhecia bem aquela voz. Fazia um tempo que não a ouvia. Engoli seco e virei meu corpo, deparando-me com minha ex-chefe e tutora, Barbara . Ela, com um elegante vestido Elie Saab, como se estivesse aproveitando bem suas férias, me encarava com as sobrancelhas erguidas e a pele plastificada pasma com minha presença no apartamento.
– Senhora ... Quanto... Tempo – tentei sorrir, mas estava em choque demais para reagir da maneira que somente pessoas como Lana e Lauren conseguiriam fazer.
– Você está para entregar algo a ? Ele não está aqui – ela disse, olhando para as sacolas em minha mão.
– A–ah – olhei para as mesmas, sem saber o que dizer. Se ela estava fazendo essa pergunta, então significava que não sabia sobre nosso relacionamento. – Bem – minha mente não estava acordada o suficiente para elaborar uma boa resposta à sua pergunta. Eu deveria mentir? Ou dizer a verdade? Enquanto me martirizava sobre o que responder, ela manteve suas sobrancelhas erguidas, esperando um parecer, como fazia quando eu não tinha o que falar sobre a razão de eu ter escolhido uma pedra ao invés de outra – A senhora precisa de alguma coisa?
Barbara não me respondeu de imediato. Fez uma análise corporal demorada, como se seus olhos fossem um aparelho de tirar raio-x. Deixou sua bolsa na mesa próxima à entrada e caminhou em minha direção com uma expressão indecifrável:
– Você não está aqui pela empresa, não é?
Olhei para os lados, nervosa. O que eu poderia fazer? Não podia mentir para a pessoa que é responsável por escolher os designers da coleção que venho me esforçando tanto em conquistar. Mas também havia o receio dela não gostar da ideia de ver seu filho namorando uma funcionária.
Decido, finalmente, que o melhor era não mentir. teria de lidar com ela mais tarde e eu teria de explicar por que diabos decidi vir até aqui a essa hora da manhã para lhe preparar uma surpresa que queria surpreendê-lo à noite. Eu e minha maldita ansiedade.
– Não – respondi.
– E então – ela ergueu sua mão, mostrando que somente uma resposta ‘não’ não era o suficiente para satisfazer sua curiosidade. Limpei minha garganta e pensei mais uma vez se era o certo a fazer. Eu ficaria muito ofendida se brigasse comigo por ter contado a novidade para ela antes dele, mas se eu mentisse, estaria contradizendo sobre o que eu falei de querer conhecer sua família como ele conhece a minha.
– Eu e estamos em um relacionamento – falei. – Na verdade, vim deixar os ingredientes para o nosso jantar.
– Vocês estão o quê?
A maneira como sua voz soou não foi das melhores. Sua expressão estava ligeiramente pior do que até há pouco e seus olhos semicerravam com minha audácia em namorar o seu filho. Limpei minha garganta e respondi sua pergunta:
– Em um relacionamento.
– E você está morando aqui? – aos poucos, vi seu rosto suavizar da expressão agressiva que estava mostrando. Barbara tinha uma característica admirável de se mostrar calma quando seu mundo estava acabando. Aconteceu assim com seu último affair, que decidiu colocar na mídia que apesar dela parecer enxuta, seu corpo não estava tão no ponto quanto imaginávamos. Foi uma dor de cabeça e Lottie, a secretaria, passou por maus bocados com o mau humor de Barbara até que o problema sumisse.
– Não – respondi. – Só vim hoje deixar os ingredientes.
– E quem abriu o elevador para você? – ela cruzou os braços. Apesar de sua voz estar transparecendo sua desaprovação, seu corpo não estava tenso, muito menos sua expressão, que agora demonstrava suavidade.
– Eu... Bem... Fui eu mesma. Tenho o código de acesso. Ele me deu.
– Ele te deu? – ela ergueu as sobrancelhas tão alto que me perguntei se elas eram reais. – Sente-se – apontou para uma das poltronas na área social, dois lances de degrau abaixo no mesmo ambiente da sala. Deixei as sacolas no chão e obedeci sua ordem, sentando-me no local indicado.
Barbara, muito fina, deixou-se sentar na ponta do sofá próximo à poltrona em que eu estava. Eu sabia que ela estava se recompondo e processando a informação antes de começar seu jogo psicológico para cima de mim. Eu podia ver em seus olhos o cérebro trabalhando no método de abordagem que iria usar. Vi esse comportamento com muita frequência em nossas reuniões no trabalho.
– Desde quando estão juntos? – ela perguntou, tentando não parecer a sogra megera que estava começando a achar que ela era.
– Fazem quase dois meses.
– E quando começaram a sair?
Ela estava fazendo contas. Eu sabia. Barbara não é uma pessoa ordinária. A não é uma empresa qualquer, é a melhor. E ela fez essa proeza sozinha, com sua própria mente, comportamento frio e personalidade forte. Apesar do marido ser o proprietário oficial da empresa, Barbara quem tomou conta de tudo e acabou sendo dona da maior parte das ações.
Essa, na verdade, é uma história muito mal contada ao público. Todos sabem que Barbara era uma designer de muito talento para a melhor empresa de joias na França. Os franceses sempre tiveram bom gosto em peças finas, assim como os italianos. Ela se casou com Thomas , o herdeiro da empresa , que foi lhe passada por direito pelos pais falecidos. Thomas não queria saber da empresa e seus irmãos o obrigaram a se casar com Barbara, um talento nato que manteria o nível das joias que antes eram criadas pelos pais. O casamento aconteceu, mas Barbara quem tomou as rédeas da empresa, saindo de Paris e vindo para os Estados Unidos, onde fez o império ascender até aonde ele está hoje.
No entanto, depois de vinte anos de casado, os dois anunciaram o divórcio e Thomas, pelo que disse, sumiu de vista. Ninguém sabe como os dois lidam com o fato da empresa carregar o sobrenome de Thomas e Barbara tê-lo mantido em seu próprio nome e no de . As coisas fluem, como se fosse comum a esposa cuidar da empresa do ex-marido e este sumir do mapa sem protestar por um pouco mais de dinheiro.
Pensei no que lhe responder. Eu não tinha muita escolha. Barbara me conhecia muito bem. Um mestre deve conhecer seu aluno para que possa lhe dar a devida educação.
– Vocês se viam antes dele ser anunciado? – ela perguntou, séria.
– Não – respondi, mas logo me lembrei de nosso encontro às escuras. – Quero dizer, nos vimos uma vez.
– Uma vez?
– Nós participamos de um encontro às escuras de nossos amigos em uma sexta-feira, mas eu não sabia quem ele era. Apenas soube quando o vi na empresa na segunda seguinte.
– Você não sabia quem era? – então eu soube da onde ele herdou aquele ar sarcástico. Assim que Barbara curvou um pouco o canto de seus lábios para cima, pude perceber que, de fato, ela era mãe dele.
– Não – neguei.
– Isso é impossível. Você sempre soube que eu tinha um filho.
Não pude deixar de me mostrar ofendida. Barbara estava fazendo o que sempre fazia quando queria testar alguém. Tirava a pessoa do sério. Isso é algo comum entre os Lowers, pelo que vi. Esperei que a porta do elevador voltasse a se abrir, mostrando , ou que o interfone na cozinha tocasse para desviar sua atenção de mim e me dar mais tempo para pensar em como sairia daquela situação.
– Eu sempre soube que a senhora tinha um filho, mas nunca imaginei que ele teria uma idade próxima à minha.
– Você nunca pesquisou?
– É claro que não – a maneira como respondi a fez erguer as sobrancelhas, surpresa com minha ousadia. Para dizer a verdade, eu estava surpresa com toda essa coragem. – Eu sempre estive mais preocupada em fazer projetos competentes ao invés de ganhar mais dinheiro.
Barbara permaneceu com seus olhos em mim por tanto tempo, que achei que estava hipnotizada. Por sorte, o som do toque de seu celular a tirou de seu transe e fez com que meu coração voltasse a bater de forma compassada. Ergueu uma sobrancelha como fez antes e me mandou um olhar antes de atender:
– Estou em sua casa com – anunciou a , me fazendo remexer desconfortável na poltrona. Assim como eu não queria tê-la visto aqui por achar que era seu filho quem deveria lhe passar a notícia de seu relacionamento, também não queria que ele soubesse que a primeira coisa que fiz no dia foi usar o seu presente de aniversário. Parte do meu orgulho esquecido foi atingido, de maneira que minha garganta secou em questões de segundo. – Você não deveria saber o que ela faz aqui? Afinal, estão em um relacionamento, não é?
Fechei meus olhos, sentindo minha vida ser exposta ao público. Barbara nunca foi interessada na vida alheia, mas parecia estar gostando de mexer com a minha e de . Poucos segundos depois, desligou o aparelho, me encarando:
– Parece que ele ainda não está completamente certo sobre a relação de vocês.
– Para dizer a verdade, neste momento, nem eu estou – comentei, vendo suas sobrancelhas se erguerem em surpresa. – Acho que devo ir, preciso chegar na empresa no horário – me levantei, sentindo os olhos de Barbara em mim.
– O que você sente por ele? – ela perguntou, quando estava prestes a pegar minha bolsa deixada no chão junto com as sacolas de compras. A empregada provavelmente cuidaria delas quando chegasse.
Encarei o hall de entrada logo à frente, mas em minha cabeça a pergunta de Barbara ecoava de forma infinita. Respirei fundo até tomar coragem de virar parte do meu corpo em sua direção e vê-la ainda sentada de costas para mim, como se soubesse que não me encarar ajudaria a ter uma resposta sincera.
– Estou apaixonada por – falei. – Sei que é recíproco.
– Como pode ter tanta certeza? – ela voltou a me questionar.
Voltei meu corpo à posição anterior, de frente para o hall e de costas para Barbara. Em poucos segundos, toda minha trajetória com passou por minha cabeça até a noite anterior, quando ele disse que faço mais parte de sua vida do que sua própria mãe. Abri um pequeno sorriso, feliz de ter relembrado suas palavras que podiam parecer agressivas à Barbara, mas que mostrava para mim que ele estava apaixonado tanto quanto eu.
– Ele me disse com seus olhos.

Embora achava que ficaria nervoso por ter descoberto que passei em sua casa para visita-lo escondida e quisesse tirar uma satisfação, não tive notícias suas nos três primeiros dias da semana. Me parece que a programação na outra cidade havia se estendido por uma razão desconhecida e mesmo quando enviei uma mensagem para ele ou tentei ligar, recebi uma mensagem automática dizendo que ele estava fora de área ou a caixa postal atendia para que eu deixasse uma mensagem.
No serviço, Lauren estava em seu mau humor de sempre, descontando sua frustração em nossa equipe, como costuma acontecer quando ela não consegue ter nenhum sucesso em suas investidas com . Seus olhos claros estavam mais escuros que o normal e os cabelos, ligeiramente descuidados. Não queria admitir, mas entendia seu nervosismo. Podia ser que eu estivesse tão desarrumada quanto ela.
– Ela devia desistir – Claire disse, depois que Lauren passou em frente à nossa área conversando seriamente com o coordenador da equipe de planejamento. – Ele deve ter tirado uma lasquinha dela, como todos costumam fazer, e então a descartou.
– Meu primo faz isso o tempo todo – Camille disse, girando em sua cadeira, um hábito infantil que tem. – Ele é arquiteto naquela associação Styles, sabe? Por causa dele, há várias mulheres atrás. Todo evento de família é uma nova namorada; dizem que os homens ricos de Nova Iorque fazem isso o tempo todo.
– Pode ser que tenha sido o que o amigo de Nathan Garden fez com Amber – Claire disse, e eu finalmente abri meus ouvidos para escutar o papo das duas.
– Como é que é?
Claire e Camille me olharam, surpresas.
– Você não ficou sabendo? – Claire perguntou, como se eu fosse maluca de não ter ouvido no assunto até então.
– O quê? – perguntei, chocada com a notícia. Amber estava apaixonada pelo homem, como pode ter lidado com o fato de ter sido usada? – O que aconteceu?
– Amber foi demitida da Thames – Claire apertou os lábios e começou a mexer seus dedos das mãos, demonstrando nervosismo. – Tudo bem – desistiu de se segurar porque ela era Claire, a garota que começava minha segunda-feira com um “você não sabe!”. Aproximou sua cadeira de mim junto de Camille e olhou para os lados antes de voltar a falar: – Foi semana passada. Ela disse para não te falar, mas eu acho injusto.
– Não me falar o quê? Por que ela não me falaria uma coisa dessas? Todo mundo sabe? – perguntei, olhando para as cadeiras vazias de Guy e Tony, que haviam entrado em uma reunião sobre a coleção de natal entregue na semana anterior, e Erin e Nally, que foram até a cozinha preparar um café para todos nós.
– Todo mundo – Claire concordou.
– Até mesmo eu – Camille suspirou, desanimada. Abri a boca, parte indignada, parte chocada.
– Mas o que aconteceu? Por que ela foi demitida? Acabou de ser contratada! Estava namorando, não era? Com o amigo de Nathan?
Claire e Camille se entreolharam, provavelmente perguntando-se se deveriam me falar sobre Amber. Eu estava preocupada. Mesmo que eu não fosse a melhor amiga de Amber, nós ainda éramos companheiras de equipe e o sentimento era o mesmo. Eu sabia que Amber estava sumida demais, mas imaginei que fosse por conta do excesso de trabalho que recebeu da Thames, afinal, eles disseram que ela poderia ter uma coleção com seu nome.
– Vocês já comentaram na minha frente, não tem escapatória – mencionei para lembra-las de que seria uma falta de respeito soltarem as faíscas do incêndio e quando ele começou, não quererem apaga-lo. – O que aconteceu com Amber? Onde ela está agora?
– Me parece que Nathan Garden a demitiu na semana passada – Claire suspirou, depois de eu ter soltado meu comentário. Antes que eu pudesse fazer qualquer comentário, ela continuou a falar: – Parece que na época da negociação com a Thames, Amber havia prometido a eles que levaria você para lá, mas acabou não conseguindo. Quando ela nos falou sobre assunto, pediu para não te falar para que não se sentisse mais culpada; ela estava muito nervosa consigo mesma por ter achado que aquele cara com quem ela estava saindo moveria seus pauzinhos para fazer Garden mudar de ideia. Disse que ele havia dito que iria, mas acabou fingindo que nada tinha acontecido entre os dois. Foi ridículo e humilhante.
Abri a boca, em choque. A situação era muito clara. Amber havia sido usada para me tirar da e ser levada para a Thames. Inocente e cega pela possibilidade de ter sua vida melhor, ela até deixou se apaixonar por um imbecil. Fechei meus olhos, querendo que isso fosse mentira. Nathan não faria uma coisas dessas.
“É claro que faria.” Meus pensamentos surgiram. Qualquer um jogaria sujo para conseguir chegar ao topo. Com a saída de Barbara, as empresas concorrentes viram a oportunidade de começarem a se mexer para derrubá-la e/ou ultrapassá-la. Eu já havia visto a conversa de com Nathan. Os dois se odiavam, isso é fato. podia me ver conversando com qualquer homem, menos ele, enquanto Nathan estava sempre falando sobre meus desenhos, não sobre mim. De repente, tudo fazia sentido. Nathan não estava mais correndo atrás de mim com a mesma frequência de antes. Eu não recebia suas ligações e nem mensagens; no meu aniversário, domingo passado, ele apenas me ligou para saber se eu estava disposta a inseri-lo de volta em minha vida, como uma última tentativa. Sei disso porque desligou em sua cara quando pegou meu celular de minhas mãos e Nathan não ligou de volta para saber o que poderia ter acontecido. Eu poderia ter sido assaltada e ele não se importou. É óbvio. Tão óbvio que o nojo que senti foi indescritível.
– Ela estava maluca? – minha vontade era de gritar. Amber nunca foi uma pessoa inconsequente, mas essa atitude foi absolutamente insana. Como poderia achar que um cara com quem transou algumas vezes poderia mantê-la no serviço? Eu não havia falado para não confiar nos homens? Eu não falei que empresas como a Thames não se importam de usar seus funcionários, contanto que eles continuem lhes trazendo dinheiro?
– Ela se mudou para Atlanta. Sua irmã, aquela advogada com um escritório recém-aberto, disse que a ajudaria tirar um bom dinheiro da Thames, afinal, o contrato era de um ano de serviço e ela não ficou nem um mês. Mesmo assim, ela só virá para Nova Iorque quando for marcada as audiências.
– É provável que a empresa pague a multa para não dar mais trabalho – Camille ergueu os ombros. – Meu pai é advogado e ele disse que é possível que seja assim, já que são só alguns poucos milhares de dólares, diferente se fosse com alguém mais importante.
– Ela foi embora assim, do nada? Não quis se encontrar com ninguém? Foi sozinha?
, vamos ser sinceras. O que você poderia fazer? Pedir para Nathan reconsiderar sem que você fosse para lá? – Claire disse. – O que nós poderíamos fazer? Amber foi uma das melhores pessoas que conheci, mas ela realmente foi burra de ter achado que isso daria certo.
– Você já sabia?
– Eu? – ela abriu a boca. – Claro que não! Jamais teria concordado! Estava na cara que Garden queria você lá e levou um companheiro para ajudar a cumprir sua vontade. Não quis comentar isso quando ela narrou o encontro, porque achei que pelo menos o amigo dele teria caráter de trata-la com respeito. Amber foi uma vítima, mas isso acontece com frequência por aqui, você sabe. Para conseguir o que quer, as pessoas, elas... – e suspirou.
Olhei para a tela do meu computador, esquecendo do problema com . Amber havia sido enganada por Nathan, que não se preocupou em prejudica-la. Fechei meus olhos, totalmente exausta e irritada. Me lembrei de Amber animada com sua transferência para a nova empresa, onde achava que poderia ter uma nova vida, com um salário melhor e um cara por quem estava apaixonada.
Abri meus olhos e me encarei na tela adormecida do computador. Eu também estava cega de alegria por ter entrado em um relacionamento com . Estamos sem nos falar há três dias e meu nervosismo se limita somente em meus pensamentos, quando imagino sua reação ao nos encontrarmos. Não pensei no que ele poderia estar pensando agora ou a razão de não ter retornado nenhuma das minhas ligações e mensagens; seja o que for, eu deveria ficar mais esperta. Mas antes, preciso encontrar com Amber e saber como ela está.

Deixei dezenas de mensagens na caixa postal de Amber, assim como SMS e todos os meios possíveis de comunicação. Amy me disse que ela deveria estar em um momento de sofrimento, tentando entender por que tudo deu errado tão de repente. Mesmo tentando me levar para a concorrência, ela nunca tentou efetivamente me convencer a ir para a Thames. Com o pensamento de que ela precisa de um tempo para colocar as ideias no lugar, deixei estar. Eu tentaria novamente na semana seguinte. Ainda que ela não atenda minhas ligações, poderá ouvir e ler minhas mensagens, e entrar em contato comigo para esclarecermos toda a situação.
Céci apareceu em casa na noite seguinte. Ela disse que não havia voos na manhã do dia seguinte, então Taylor mudou suas passagens da tarde de sexta para a noite de quinta, já que a vendedora da loja dos vestidos havia ligado, pedindo para mudar o horário da tarde para manhã devido a um evento importante que Vera Wang faria na loja, causando o cancelamento de todos os horários daquele período. Com o problema de falta de comunicação de e a demissão de Amber, eu havia me esquecido que aquela sexta era dia da segunda prova do vestido de noite de Céci.
– Você e estão brigados? – ela me perguntou assim que saiu do banho enquanto eu preparava nosso jantar. Amy e Lana não estavam em casa, para variar. O closet de Lana estava no meio da reforma e ela gostava de passar mais tempo na casa de Klint do que na nossa; já Amy praticamente havia se mudado para a casa da Jordan. Nós apenas estamos aguardando uma folga de dois dias dela para que pudesse fazer a mudança com a calma necessária. Por ser organizada demais, Amy não queria fazer tudo às pressas e correr o risco de esquecer algo e ter de contratar mais um dia do caminhão. Para ela, ser rica não significava que podia gastar seu dinheiro despreocupadamente com coisas desnecessárias, mesmo gastando centenas de dólares com divisórias de armários e bolsas.
Encarei Céci, que me encarava com a taça de vinho em mãos. Eu podia ver em seus olhos que ela estava curiosa em saber a resposta, mas eu não entendia o motivo da pergunta.
– Até onde eu sei estamos bem – respondi. – Por quê?
– Ah, não é nada – ela deu um gole em seu vinho e encostou na bancada da pia. – É só que Taylor não está mais falando tanto nele, nem papai e nem Max. Achei que fosse porque vocês tivessem brigados e eles não queriam deixa-la desconfortável.
– Por que eu ficaria desconfortável, se nem ao menos estou em Maine?
Céci ergueu os ombros, mostrando que também não entendia.
– Você sabe como são os três. Eles combinam de fazer algo e de repente estão tendo a mesma atitude para determinados assuntos. Devem estar treinando para quando você for nos visitar.
– E por que Taylor não veio? Ele não tinha de pegar os ternos de todos? – perguntei, achando muito esquisito a desanimação dos homens da nossa família de virem para Nova Iorque. Mesmo não tendo a menor vontade de se mudar para cá, os três eram os que mais se preparavam para a próxima vinda, mesmo ainda estando aqui.
– Ah, parece que há um evento que eles precisavam ir. Pediram que eu pegasse para eles.
– Evento? Os três?
– Também não entendi. Max disse também que não queria ficar longe de Lua por muito tempo por causa da gestação quase no fim. Mas ele foi pescar com tio Brian no final de semana passado inteiro. Tenho certeza que os três tramaram algo.
– Que estranho. Ligarei para o papai depois e verei se consigo tirar alguma informação dele – abri um pequeno sorriso maroto, tirando risadas de Céci. – Pode até ser uma surpresa para você – tentei desviar o assunto, sabendo que daria certo, já que Céci fica animada com qualquer coisa que tenha a ver com ela. Do outro lado, parte de mim estava com suspeitas. Pensando no assunto enquanto ouvia minha irmã falar das amigas que queriam saber como era seu vestido, lembrei que papai e Max não perguntaram sobre na ligação de aniversário no domingo. Balancei a cabeça, querendo tirar os pensamentos da mente e focar só em Céci.
Falamos sobre as preparações, como Emma estava fazendo um ótimo trabalho com a organização e o chá-bar que teríamos em novembro. Contei a ela sobre o meu aniversário e como me surpreendeu com o presente. Ela logo surtou, achando que eu também me mudaria para sua casa como Amy e Lana, mas eu esclareci tudo dizendo que não tinha a intenção de morar com alguém que acabei de começar um relacionamento.
Antes de dormir, verifiquei meu celular, só para garantir que não havia tentado entrar em contato comigo. Nenhuma chamada não atendida. Nenhuma mensagem não lida. Suspirei e comecei a digitar uma mensagem que estive pensando em enviar nos últimos dias.
“Precisamos conversar. –

Nova Iorque é uma ótima cidade no outono. Ele não é caracterizado pelas chuvas torrenciais que caem sem avisar no verão, e nem morremos de frio com a temperatura negativa que faz no inverno; para mim, é a melhor época do ano, onde podemos nos vestir sem nos preocupar de passar frio ou calor. Além disso, a cidade sempre parece mais vazia, com menos turistas, de modo que podemos ir a qualquer restaurante sem enfrentar uma fila de espera de duas ou três horas.
Céci e eu temos uma programação fixa toda vez que ela vem à cidade sozinha. Beber e tirar fotos é a melhor maneira que duas irmãs encontraram para aproveitar o melhor de Nova Iorque. Além de desestressá-la com toda a história do casamento, também tiro minha cabeça do problema /Amber, mesmo olhando em meu celular a cada dez minutos com a esperança de ver a chamada perdida de qualquer um dos dois.
Decidimos por um piquenique no Central Park. O sol já havia passado do ápice e nenhuma de nós duas queríamos andar muito mais que algumas quadras do metrô. Optamos entrar pelo lado do Plaza Hotel, onde passamos pelo ringue de patinação em reforma devido à estação e a ponte do lago que nos levava a ele. Alguns minutos caminhando e pudemos enxergar um amplo verde da grama e árvores que formavam um dos parques mais famosos do mundo. Crianças correndo, adultos fazendo cooper, turistas tirando fotos de todos os ângulos possíveis, enquanto houvesse pessoas ali, não havia problema algum.
Escolhemos uma vaga milagrosa em baixo de uma imensa árvore, onde esticamos nossa toalha e a garrafa de espumante. Espumante era minha bebida com Céci, da mesma maneira que o vinho era com Amy e Lana. Nós gostávamos dele porque marcou nossa adolescência. Quando jovens, nós não costumávamos gostar das bebidas alcoólicas porque elas possuem um gosto amargo, que faz arder a garganta enquanto desce por ela. No espumante, encontramos o paraíso. Uma bebida que é doce, pouquíssimo amarga, com um teor de álcool que se mostra suave em frente aos outros, mas potente depois de bebermos com descuido. Céci e eu fingíamos que ele era um champanhe, enlouquecendo nossos pais e causando risadas em Max.
Com o espumante, vieram as cerejas e os canapés improvisados que fizemos com torradas do supermercado e patê industrializado. Brindamos com as taças de plástico e demos risadas depois de posarmos para uma foto que automaticamente foi para o Instagram de Céci. Ela amava o aplicativo, mas não tanto quanto Lan.
– Como é ficar noiva? – perguntei, depois de darmos várias risadas com as fotos. Céci alisava o guardanapo de pano que apoiou em seu colo e passou a pensar com carinho em toda a situação.
– Você se sente enfim especial – ela diz com um sorriso delicado e bonito no rosto. Céci é uma mulher linda. Mesmo jovem, todos nós sabíamos que ela se casaria cedo. Nossa única surpresa foi o noivo, já que Taylor nunca foi um exemplo de cara de compromissos na época da escola. Ainda assim, foi premeditado a mudança dele depois do início do namoro. Achei que Céci fosse sofrer mais, já que ele sempre gostou de chamar a atenção do modo que garotos faziam: gritando, fazendo arte e piada das outras pessoas. – Todos os dias você acorda, olha para seu dedo e vê que existe alguém que quer passar o resto da vida inteira ao eu lado. Não é todo mundo que tem essa alegria. Saber que é importante para outra pessoa que não seja um familiar.
– Você sempre foi muito romântica, Céci – soltei uma breve risada, sendo acompanhada por ela. Minha irmã bebeu um gole de seu espumante e suspirou logo em seguida:
– Pode parecer um defeito ser toda sonhadora dessa maneira, mas parece que é menos doloroso quando você não pensa nas possibilidades de dar algo errado. Eu sei como Taylor era antes de namorarmos, eu sempre o via nas suas festas e na escola. No dia que ficamos pela primeira vez, achei que o veria com outra no dia seguinte, mas não foi o que aconteceu. O que aconteceu foi que ele veio falar comigo na faculdade e começamos a sair. O amor muda as pessoas, .
– Muda? – perguntei mais para mim mesma do que para Céci. Enquanto ela me respondia, pensei nas mudanças no meu relacionamento com desde nosso primeiro encontro às escuras. De comentários ácidos, passamos a fazer brincadeiras de provocação com o outro, até chegarmos ao ponto de nos declaramos da forma mais indireta possível. Agora que eu havia lido as três palavras que estava esperando ouvir, queria retribuir.
E então Barbara surgiu em minha mente. Será que ela e conversaram depois da segunda-feira? Será que essa é a razão dele não ter entrado em contato comigo até agora?
Olhei para meu celular mais uma vez e novamente não encontrei nada. Eu havia enviado uma mensagem extremamente seca a ele. Uma pessoa normal ficaria com receio e retornaria o mais breve possível, mas era diferente. Apesar de ser uma pessoa com suas inseguranças que jamais mostraria a pessoas desconhecidas, ele ainda possuía uma dose de orgulho que o fazia ter um comportamento seguro. Em momentos como este, eu me sentia irritada.
? – Céci tocou em meu braço, tirando-me do transe. – Está tudo bem?
– Claro, claro – balancei a cabeça. – Só com algumas coisas em mente.
– Você quer conversar? – ela perguntou, sempre carinhosa.
– Está tudo bem, Céci, obrigada – sorri para ela, tentando convencê-la de que não era nada demais.
Me esforcei em manter o foco na minha irmã, que havia vindo de tão longe para me visitar, mesmo que o propósito principal da visita fosse a prova do vestido que estava quase perfeito em seu corpo, considerando os detalhes finais da última prova que seria no próximo mês. Na janta, Amy e Lana se uniram a nós em casa, já que as duas adoravam Céci como se fosse irmã delas.
– Você matou o meu look casando-se no inverno, Céci – Lana reclamou durante o jantar. – Veja bem, que tipo de roupa sexy usaríamos com o frio que estará em Maine?
– Qualquer coisa que você use ficará sexy em você, Lana – Céci riu. – E essa é minha maior preocupação, afinal, eu sou a noiva!
– Sempre a resposta perfeita – Lana sorriu satisfeita, enviando-lhe uma piscadela. – Ficará tudo bem, querida, darei meu melhor para não me sobressair.
– Dá para ser menos convencida? – comentei, recebendo a aprovação de Amy, que bateu palmas, um ato que costuma fazer quando está com a boca cheia.
– Vocês já se mudaram daqui? – Céci olhou para os lados. – A sala me parece mais vazia do que da última vez.
– Temos levado as coisas aos poucos – Amy disse, depois de dado um gole em seu vinho. – Não estamos com muita pressa, então podemos levar uma coisa ou outra toda semana.
– Ah, que ideia fantástica! – vimos os olhos de Céci brilhar. – Eu adoraria fazer o mesmo, se nossa casa não estivesse completamente suja. Os eletricistas ainda estão fazendo as últimas instalações essa semana e então teremos o acabamento final e a pintura. Só poderemos entrar na casa na época da mudança, uma loucura!
– É por isso que Amy estará lá para arrumar tudo – Lana deu um tapinha nos ombros de Amy, que só não a olhou feio porque não queria passar uma imagem errada de seu profissionalismo a Céci.
Permanecemos conversando durante toda a noite como se fosse uma festa do pijama. Diferente do que eu imaginava, Céci não ficou até domingo, anunciando no sábado de manhã que seu voo de volta era no próprio sábado após o almoço. O táxi a pegou antes de podermos fazer a refeição, mas me vi livre para fazer o que quisesse, uma coisa ruim, já que logo que vi o carro amarelo virando a esquina, voltei a pegar meu celular.
No momento em que entrei no apartamento, eu já estava estressada. Em um ato de estresse, desbloqueei o aparelho e fiz a ligação para . Como todas as outras vezes desde terça, ele não atendeu, deixando que caísse na caixa postal:
– Sou eu. Pela última vez – murmurei. – Como você pode dizer que me ama se some no minuto seguinte? – parei para pensar, mas nada mais veio à cabeça. Desliguei a ligação e taquei o celular do outro lado do quarto, na pilha de roupa suja. Joguei-me na minha cama e me pus a dormir. Eu só queria que esse momento acabasse. O que custava me ligar? Enviar uma mensagem dizendo que ele havia se arrependido? A agonia de não obter nenhum parecer era o que mais doía.
Por fim, antes de adormecer decidi que se ele não falasse comigo até a noite, eu o trataria como um erro no meu passado.

Meus olhos se abriram e foi quase como se não os tivesse aberto. Não sabia que meu corpo estava tão cansado até ver o relógio do criado-mudo mostrar quase oito da noite. Eu havia dormido nove horas direto e, de fato, meu corpo se sentia mais revigorado. Espreguicei-me na cama, no luxo de saber que não precisaria dormir novamente para acordar no dia seguinte, já que meus domingos costumam ser bem preguiçosos. Senti minha barriga roncar pela fome de não ter comido o dia inteiro.
Antes de sair do meu quarto, olhei para o celular no topo da pilha de roupa suja. Não conseguindo conter minha curiosidade, peguei o aparelho para conferir o visor, mas ele havia desligado por ter acabado a bateria. O coloquei para carregar e fui até a cozinha em busca de algo para saciar minha fome.
Não precisei procurar muito, já que assim que coloquei o pé no cômodo a campainha soou.
Eu sabia que era .
Caminhei em passos contidos e olhei através do olho mágico da porta, quem era o visitante. É claro que era ele. Vestia a roupa comum do trabalho e não parecia nem um pouco exausto do que quer que tenha feito nos últimos dias, que não pode me atender. Tocou a campainha mais uma vez, mas não quis atender. Ele não poderia ter vindo. Faltavam apenas quatro horas para que eu devesse cumprir minha promessa de deixa-lo para trás.
Na terceira vez que ele tocou a campainha, decidi abrir a porta. Minha intenção era fechá-la na sua cara, mas não consegui:
– Antes de qualquer coisa, ouça o que eu tenho a dizer – ele começou a falar.
– Você não deveria usar esse tom de voz comigo – retruquei, vendo seus olhos semicerrarem por ter de engolir seu orgulho em minha frente. Ele sabia que estava errado. A questão não era só ter ficado uma semana sem dar as caras, mas também o problema de sua mãe. O que Barbara estava pensando sobre nós? – Eu vou te dar uma chance para se explicar, aí, em pé no corredor.
...
– Não me venha com ‘’! – falei alto, sentindo todo o estresse que passei pela sua falta de comunicação e a agonia de esperar por algum sinal subir à minha cabeça. – Você sabe o que eu passei essa semana? Você nem veio querer saber o que eu falei com a sua mãe! O que você queria que eu pensasse?
– Eu sei que Barbara não foi a pessoa mais...
– A questão não é a maneira como ela me tratou, . Eu já estou muito acostumada com o temperamento dela. Mas o que diabos ela estava fazendo na sua casa? Por que você não me ligou durante uma semana inteira? O que havia de mais importante do que me dar um sinal de vida?
– Eu não posso lhe dizer a razão de—
– Então não tenha o trabalho de se explicar – tentei fechar a porta novamente, mas ele, mais forte, conseguiu impedir. – Você sabe o que é um relacionamento, ? Você sabe sobre confiança?
, eu não estava fazendo nada que pudesse aborrecê-la—
– Você não entende nada, não é mesmo? – senti minha voz embargar enquanto tentava não transformar minha frustração em lágrimas. – Eu nunca comecei a namorar você achando que você não iria me aborrecer. Mas a base de um relacionamento é a confiança. Se você não confia em mim...
, não torne isso mais difícil. Eu não estou lhe escondendo um segredo porque não confio em você. Eu estava resolvendo problemas pessoais.
– Você não havia dito que eu era a pessoa mais próxima de sua vida pessoal? – perguntei. – Então por que você não quer dividir comigo seus problemas? Por que só tenho que ver suas qualidades?
não soube me responder. Respirou fundo, como se tentasse manter a si mesmo paciente e eu fosse uma criança. Era ele quem não entendia o que eu queria. Olhei em seus olhos, tentando ver respostas para qualquer uma das perguntas que estiveram martelando nos últimos seis dias.
– Eu preciso que você espere algumas semanas. Mais algumas semanas e eu lhe contarei qualquer coisa que quiser sobre os últimos dias – ele apoiou seus braços na porta, como se a exaustão tivesse tomado conta de seu corpo. – Você não pode saber de nada agora. Se souber, estará envolvida na questão e eu não quero que esteja. Um problema que eu iniciei sozinho, gostaria de termina-lo sozinho.
– Mas...           
– sua voz rapidamente tornou-se fria e bruta. Arregalei levemente os olhos com o susto, ato que não passou despercebido por ele. – Eu estou falando sério. Sei que está nervosa e achando que estou a afastando da minha vida, mas não estou. O que eu estou fazendo, é resolvendo todos os meus problemas para que você possa fazer parte da minha vida sem nenhum resquício do meu passado atrapalhando o nosso futuro.
– E eu não posso ajudar em nada? – perguntei.
– Você irá me ajudar se fingir-se de cega só dessa vez – ele respirou fundo. – É um tiro no escuro que estou pedindo para dar, mas eu não pediria, se não fosse extremamente necessário.
Parei para pensar. poderia ter qualquer mulher que quisesse e um relacionamento não seria grande problema, afinal, homens de seu patamar traem as esposas e namoradas com mais frequência do que trocam suas roupas íntimas. Desde o início de nosso relacionamento, ele nunca mostrou-se desrespeitoso com qualquer coisa; aceitou minhas mentiras à família e deixou-se abrir, um ato que disse jamais ter feito.
E o fato principal, é que mesmo estando nervosa e à beira de um colapso, não quero passar mais uma noite sem ele. Deve ser um dos efeitos de estar apaixonada, voltar a ser uma tola. Ele não me deu motivos para não confiar nele agora e isso é o que mais me irrita. Queria poder jogar algo contra si e obriga-lo a me falar tudo, mas tinha tudo sob controle.
De pouco em pouco, diminuí a força de meu braço, que estava prestes a fechar a porta em sua cara. Ao perceber, voltou à posição ereta e se afastou para que eu pudesse abri-la de vez. Respirei fundo, ainda na dúvida se fazer-me de cega era a escolha certa. Eu deveria dormir com ele e tomar a decisão no dia seguinte, já que meu nível de carência estava tão elevado.
Não demorei a sentir seus braços ao redor de mim e sua respiração no dorso de meu pescoço. Ele fechou a porta atrás de si e eu me deixei ser abraçada, quase coberta por seus braços enormes, fazendo com que meu corpo entrasse em modo avião, desligada de toda a preocupação que passei nos últimos dias.
– Você não deveria ter sumido – resmunguei.
– Eu sei – ele respondeu com sua voz abafada em meu pescoço.
– Eu estava tão feliz com o meu presente, queria retribuir de alguma forma e ao invés de encontrar com você, vejo sua mãe no hall do seu apartamento.
– Me desculpe por isso – ele se separou de mim, puxando-me consigo para o sofá, onde nos sentamos tão juntos que mais um pouco nossos corpos poderiam se fundir. – Barbara me ligou aquele dia, mas eu havia acabado de descer do avião. A propósito, eu estava em Los Angeles – ele me olhou, como se isso fosse ajudar a acalmar meu coração apertado. – Não poderia voltar todo o caminho, principalmente porque o próximo voo de volta àquela hora da manhã era somente às dez, horário do meu compromisso.
– Você não falou com ela sobre nós? – perguntei, virando meu rosto para observar o dele.
– Eu vim da casa dela, para ser sincero – ele respirou fundo.
– E...
– Haviam alguns assuntos a serem tratados com relação à empresa...
– me afastei dele, olhando feio em sua direção. – Quero saber sobre o que ela falou de nós dois.
– Nada – ele disse, como se fosse a resposta mais óbvia do mundo. – Barbara não tem nada a ver com a minha vida. Ela não palpita sobre minhas decisões fora do negócio.
– Ela não foi a favor? Nem contra? Nem estava curiosa para saber mais sobre nós dois? Ou se isso ia afetar a empresa?
– Afetar a empresa foi o mais próximo que ela mencionou sobre você – ele pareceu se lembrar do assunto, balançando a cabeça. – Nós temos a questão da proibição de relacionamento entre funcionários, afinal.
– Eu serei demitida? – arregalei os olhos, pensando no anúncio do da coleção que seria na próxima semana.
– É claro que não – ele riu. – A empresa é minha agora, . Eu quem mando nela. E se eu quiser dormir com a minha designer, eu irei – ele grudou seus lábios nos meus. Eu poderia aceitar a surpresa, se não houvesse um problema maior do que ser ou não demitida.
– Mas eu poderei concorrer à escolha dos designers da coleção de 50 anos? Barbara é a responsável pela seleção, não é?
– Você poderá concorrer à escolha – ele disse, com segurança. – Ela sabe sobre seu talento e eu disse que caso isso atrapalhasse sua decisão, nós simplesmente nos separaríamos.
O quê? – me afastei dele de vez, sendo somente impedida de levar porque seus braços, com o susto, me seguraram com mais força. – Como assim nos separar?
, eu sei lidar com Barbara – ele sorriu, pela primeira vez na noite, tranquilo com o assunto que estávamos conversando. – Ela não irá desconsiderar sua participação e você terá mais chance de ser escolhida do que aquele Tony Bridall e sua coleção de natal baseada nos Teletubies.
Encarei seus olhos por um tempo mais, perguntando-me se era verdade. era mesmo o dono maioritário da agora. Se Barbara não me escolhesse, o que era quase impossível em questão de talento, ele poderia abrir um pedido de reavaliação, como disse mais tarde para mim que faria se sua mãe “fosse maluca em não me escolher”. Saber que ele me garantia um lugar na lista de designers da coleção que vivi para participar nos últimos anos me fez esquecer um pouco mais dos problemas que ele esteve resolvendo em Los Angeles.
Enquanto deixada em meio a seus braços durante o resto da noite, abri um sorriso. Lana estaria muito orgulhosa de mim. Era a primeira vez que eu estava jogando sujo em Nova Iorque, e nunca me senti tão bem.

Segunda-feira começou em clima de tensão. A segunda semana de outubro estava iniciando e todos os designers esperavam pelo dia em que Barbara sairia do elevador para o anúncio da lista de designers. Na hora do almoço, foi divulgado a lista com os designers renomados da história da empresa que concordaram em participar da celebração. Eram grandes nomes, grandes personalidades, garantindo uma coleção jamais vista antes no mundo. Nós sabíamos ter nossos nomes naquela lista era finalmente se tornar autossuficiente, ou seja, a precisaria mais de nós do que o oposto.
, como sempre, não me tratou diferente de todos os outros funcionários. Eu também me esforcei em não me mostrar mais empolgada, já que as pessoas poderiam desconfiar e eu ser colocada como alvo a ser investigado. Nossa equipe fazia isso com frequência. Antes de Camille ser selecionada, a pesquisa de seu perfil foi além da folha de seu currículo. É uma vergonha admitir, mas a razão da escolha não foi pelo seu talento – que por sorte ela tem –, mas porque ela tem ligação direta com um fornecedor importante de diamantes vermelhos, uma pedra exclusiva que só a tem e que se tornou a característica principal da empresa, por isso a cor vermelha como primária da marca. Com a contratação da sobrinha favorita do fornecedor, Lauren permitiu que usássemos mais da pedra nas coleções para encarecer o valor das peças, dizendo que nosso estoque havia aumentado.
No final da segunda, Lauren anunciou à nossa equipe que Barbara viria na empresa quarta ou quinta-feira, ainda a decidir. Ela explicou que seriam escolhidos somente dois designers da equipe atual e que os critérios de avaliação são os mesmos que ela sempre usou antes de se aposentar.
– Bem, acredito que tenhamos uma grande chance de sermos escolhidos – Guy olhou para mim e Nally, que foi a pessoa que mais se esforçou em melhorar. Abri um sorriso, mostrando empolgação, mesmo achando que apesar de Nally ter melhorado visivelmente, suas peças ainda não eram boas o suficiente para estarem em uma coleção de tanta importância na empresa. – Lauren mostrou-se satisfeita com os meus desenhos. Acho que acertei bem dessa vez. Não foi preciso fazer muitas emendas – ele bateu palminhas, mostrando sua animação.
– Fiquei surpreso que foi necessário emendas! – Tony disse. – , se você visse, ficaria orgulhosa.
– Eu queria muito ter visto! – sorri para Guy, que me retribuiu rapidamente antes de virar para responder um comentário que Erin havia feito. – Qual foi o tema?
– A moda de Milão – Tony respondeu. – Foi visionário – ele riu. – Tão inteligente que poderia ter saído da minha cabeça, não da dele.
Demos risadas e seguimos em direção ao elevador. Estava feliz que o ambiente na equipe estava mais brilhante do que o costume. Achei que fossemos estar em uma agonia só, mais calados, receosos. Mas não se deve esperar pouca coisa dos designers da . Mesmo com uma ligeira rivalidade entre nós, a harmonia que paira na equipe ainda prevalece.
Em casa, Amy colocava em caixas tudo o que levaria para a casa de Jordan.
– Ele virá me buscar mais tarde – ela anunciou, quando perguntei como ela levaria tudo para o apartamento dele. – Marquei o caminhão para esta sexta-feira. Como já levei grande parte das coisas, só restará alguns móveis e eletrodomésticos. Você irá querer a cama?
– Não, não – fui para a cozinha preparar o jantar. – Vou esquentar a lasanha e já te ajudo. Você vai jantar aqui?
– Não, os pais de Jordan nos convidaram para ir a um jantar beneficente no SoHo. É às nove. Quem marca um jantar para as nove da noite, afinal?
– Quem não precisa se importar em acordar cedo no dia seguinte – ergui meus ombros, pegando a fita adesiva e ajudando–a a lacrar a caixa.
– E onde está ? – ela perguntou. – Acho que é a primeira vez que não o vejo te dar uma carona. A não ser semana passada – disse, pensativa. – É mesmo! Vocês brigaram? Achei esquisito não vê-lo aqui.
– Ah, tivemos um contratempo, sim – disse. – Para dizer a verdade, não sei se chegou a ser uma briga – prendi meu cabelo enquanto Amy abria uma nova caixa. Durante nossa sessão de organização de seus livros, roupas e alguns materiais de cozinha que ela havia comprado, contei sua declaração, o encontro com Barbara e o sumiço.
– Nossa, se fosse eu, teria infartado – ela murmurou. – Mas não sei, isso é meio que a cara dele, não acha? 
– A cara dele?
– É. Querer resolver os problemas antes que eles cheguem a você.
– Mas não é um tanto... – mexi a mão, tentando achar a palavra correta. – Você sabe.
– Suspeito? – ela me olhou. – Pode ser suspeito, mas eles fazem isso com frequência. Veja só, Jordan pediu para que eu fingisse que não havia visto ele com uma mulher misteriosa em um restaurante no mês passado, antes do seu aniversário. Achei que seria o nosso fim, mas então, no último final de semana ele esclareceu tudo.
– Como você conseguiu transar com ele pensando que ele havia a traído? – arregalei meus olhos, parando o que fazia para encará-la. – E por que não fiquei sabendo disso?
– Agora você se importa com o sexo? É? – ela semicerrou os olhos e eu não pude fazer nada senão encolher os ombros, envergonhada por me parecer tanto com Lana. – Não sei, na hora pensei que se contasse, seria mais difícil lidar. Acabei guardando para mim – ela ergueu seus ombros. – Ele me disse que a mulher era a filha de um casal de amigos dos pais que estavam combinando um casamento entre os dois.
– Como é que é?
– Eu sei, eles declararam guerra – ela apertou o prato de cristal em mãos. – Ainda assim, decidi confiar nele, porque você sabe, Jordan nunca fez nada para perder a minha confiança.
Exato! – apontei para ela. – Foi isso o que eu pensei quando me pediu para esperar o momento certo.
– Ele irá dizer, , não se preocupe – ela sorriu. – Você sabe melhor que ninguém o que ele sente por você. Há certas coisas que nós não precisamos saber de imediato. Outras, que é melhor nem sabermos. Você sempre foi aberta demais.
– Amy está me dizendo que sempre fui aberta demais – resmunguei, ouvindo sua risada. – Amy. – repeti.
– Mas em conta sobre esse presente! – recebi um pequeno tapa no braço. – Você irá se mudar? A chave é de ouro?
– Não, não! – mexi as mãos. – Muito cedo. Ela é de ouro, mas não tem a função de uma chave normal, é só algo decorativo. Você sabe, a porta do apartamento é o elevador, então...
– Ainda assim, eu não acredito que lhe deu a chave de seu apartamento! – ela riu. – Me faz lembrar quando você vivia falando mal dele.
– Eu ainda tenho motivos para falar mal dele – resmunguei, fechando a última caixa. – Apesar de estarmos próximos e termos mais autoridade de abusar do outro, às vezes esquece que sou sua namorada.
– Como assim?
– Ele me trata, hum, com o mesmo charme de antes. Aquele jeito frio e seco que eu amo e odeio.
– E por que isso seria ruim? – Amy perguntou. – Preciso mover as caixas para a porta de serviço – disse, tomando a iniciativa de pegar a primeira caixa.
– Há dias que eu só quero que sejamos um casal de namorados comum. Que ele chegue em casa com o jantar e possamos assistir um filme tranquilos. Mas aí ele começa com as provocações...
– E tudo termina em sexo. Ainda não vi qual o problema?
– Caramba, Amy, o espírito de Lana baixou no seu corpo agora? – coloquei as mãos na cintura depois de deixado a caixa no chão. Amy deu uma gargalhada alta.
– Minha mãe mencionou que eu dei uma leve mudada no meu comportamento. Disse que estou menos “quadrada” – ela fez o sinal das aspas com os dedos. – Eu acho que ela tem razão. Mas foi uma mudança para melhor. Quero dizer, o sexo não diminuiu, eu quem estou mais apta a falar sobre o assunto sem ficar vermelha.
– Sabe por quê? – perguntei, vendo seus olhos responderem por si. – Porque agora você está namorando. Pode falar sobre o sexo e ninguém irá lhe taxar de vadia. Você está transando com o mesmo cara.
– Faz sentido – ela riu. – Esse defeito de ter medo de ser julgada pelos outros sempre foi um grande problema meu – suspirou. – Mas falar sobre sexo é um bom começo.
– Eu ouvi sexo? – Lana apareceu na porta da cozinha. – Você já está mudando, querida? Que coincidência! Aproveitarei que vocês estão com a mão na massa para abusar de suas pessoas. Klint, querido, leve as caixas para Amy, sim? – ela falou mais alto, mas Klint já estava com duas caixas em mãos, surgindo na área de serviço.
Eu e Amy nos entreolhamos enquanto Klint cuidava do transporte das caixas.
– E onde está ? – Lana perguntou assim que todas as suas tralhas estavam na sala para encaixotarmos.
– Ele ficou ausente da empresa semana passada, então o conselho lhe pegou de vez hoje na hora da saída. Teve de entrar em reunião às seis da tarde, mas disse que viria para cá depois que finalizar – expliquei. – Por que você está levando toalhas de mão?
– Pode não parecer, mas Klint acha que no mundo existe somente um tamanho de toalha, as de banho – Lana revirou os olhos. – Ainda bem que estavam aqui, eu não queria me demorar muito, acho que encherei somente umas três ou quatro caixas.
– Que bom, porque preciso me arrumar para um jantar – Amy se levantou, sem ter a permissão de Lana, que a olhou feio. – Me desculpe, amiga, mas há sogro e sogra envolvido.
– Ah. Bem, não tem solução então. Vá, vá – ela balançou a mão. – Klint, amor, se você quiser encaixotar os sapatos, eu agradeço!
– Achei que você fosse esperar mais para se mudar – comentei, vendo Klint obedecê-la sem fazer alarde, uma qualidade que admiro muito, já que sempre faz cara feia e Jordan costuma questionar o motivo de tudo.
– Eu iria deixar para o final do mês ou final de novembro, mas meu pai me ligou hoje de tarde dizendo que viria para Nova Iorque na quinta-feira e adoraria conhecer nossa casa.
– Seu pai? – arregalei os olhos, vendo o pesar de Lana em seus ombros caídos.
– Eu sei. Klint o convenceu de alguma maneira. Não é impressionante como ele consegue tudo o que quer? – ela o olhou, admirada. – Cada vez que vejo atitudes como essa, me surpreendo mais em como somos parecidos.
Fiquei olhando para Lana, pensando o que costuma passar em sua mente. Desde o dia de nosso encontro às escuras, que me lembro bem ter cobiçado seu namorado por breves 10 minutos – e eu culpo mais seu sotaque do que sua aparência –, nós sabíamos que os dois eram parecidos em questão de conseguir o que querem. Apesar de Klint não ser de muitas palavras, ele sempre agiu de maneira que beneficiasse a si mesmo; depois de começaram a namorar, os benefícios dele se tornaram a satisfação de Lana, de modo que acaba fazendo tudo o que quer para vê-la feliz. Além de saber que para ela ceder em fazer o que ele quer, deve realizar algum desejo seu.
Jordan apareceu meia hora depois já arrumado para o jantar. Ele ajudou Klint a levar as caixas de Lana para o carro, já que não poderia levar as de Amy devido o jantar que tinham. Saíram às oito e meia, enquanto Lana e Klint se despediram de mim às nove.
Foi uma surpresa para nós vermos meu pai, Céci e Max parados no hall, prestes a tocar a campainha quando Lana abriu a porta para ir embora.
– Família ! – ela sorriu, vendo a tensão no ar entre os três. – É uma pena que eu tenha que ir – olhou para mim, perguntando com seu olhar o que era. Ergui meus ombros, mais confusa ainda.
Ela deixou que eles entrassem antes de sair, meu pai, ao ver Klint, foi até ele e o encarou por longos segundos até perguntar:
– Você é mesmo um advogado?
Arregalei os olhos com Lana, que me encarou, surpresa com a pergunta. Klint olhou para nós, confuso, e respondeu com calma:
– Sou.
– Prove – meu pai ordenou.
– Pai, o que...
– Fique quieta, – ele disse, nervoso, erguendo sua mão para me parar. Voltou a olhar para Klint, que retirou de sua carteira o documento que provava que era um advogado por lei.
Olhei para Max e Céci, que não me pareciam ser contra esse comportamento repentino de papai. Lana e Klint se retiraram assim que papai lhe deu as costas para olhar para mim.
– Vocês precisam de alguma coisa – ela começou a dizer, mas dessa vez foi Céci quem interrompeu:
– Desculpe, Lana, mas precisamos falar a sós com a minha irmã.
Troquei um olhar de confusão com Lana. Ela se despediu dos três com Klint e logo se retirou, antes vindo me dar um abraço e dizendo para lhe ligar depois da encrenca passar.
Meu pai esperou o som do elevador e os dois irem embora para olhar para mim com sua expressão amarga:           
– Quando é que você pretendia nos contar a verdade sobre ?

Capítulo 15

– Advogado, ? – ele jogou uma folha impressa do perfil de em minha direção. Abri a boca, vendo a descrição dizer sobre ele ser o herdeiro da empresa em que trabalho.
– Pai, eu posso explicar – foi a primeira coisa que saiu de minha boca.
– Você precisa explicar, sim, – Max disse em uma voz que misturava amargura e decepção. – Como é que teve a coragem de mentir para sua família dessa maneira?
– Eu não... Não foi uma mentira.
– Ah, não? – Max olhou para mim, sério. – Então ele é advogado? Ele não é o dono da empresa que você trabalha? Ele não é seu chefe?
, você está vendendo seu corpo para ele? – meu pai perguntou. Inicialmente, minha vontade era de rir. Mas logo que vi sua expressão preocupada de quem achava que era provável que algo que via na televisão acontecesse na vida real, fechei meus olhos pensando em como iria reverter a situação.
Meu pai, apesar de sua ingenuidade, tende a tratar os assuntos como se eles fossem os mais sérios do mundo. Olhei em seus olhos e vi o medo estampado neles, como se fosse morrer se eu dissesse que sim.
– Eu não estou vendendo meu corpo para ninguém – falei da maneira mais calma que consegui, vendo os ombros de papai relaxarem com a resposta. – Sentem, vou explicar tudo e se, bom, se não quiserem acreditar...
– Você acha que não acreditaremos em você? – Max abriu um sorriso irônico. – Depois de termos sido enganado por uma mentira? Você tem 28 anos, , pelo amor de Deus.
– Eu sei, Max, eu sei! Eu sei que tenho 28 anos! Eu sei que inventei essa mentira de que ele era advogado porque não queria que achassem que eu estava vendendo o meu corpo! – massageei minhas têmporas ao perceber que havia os calado. Respirei fundo, tentando manter o controle sobre minha linha de raciocínio. Eu não podia falar nada de errado ou eles poderiam interpretar de maneira oposta ao que eu quero e esse seria o fim da nossa relação. – Vocês sabem quão difícil é ver que vocês estão tendo a vida que papai e mamãe sempre quiseram para nós três e eu ter que me esforçar o dobro para conseguir manter o sentimento de satisfação?
Eu poderia me sentir pior sobre estar inventando uma nova mentira para acobertar a outra. É o que costumam dizer, quando você começa, é difícil sair do ciclo. Céci estava com uma expressão de quem havia acabado de descobrir que a lua era quadrada. Descrente e chocada eram as palavras que descreviam sua reação.
– Vocês não têm culpa – comecei a falar ao ver que Max estava prestes a atirar em mim com suas palavras. –, eu quem escolhi essa vida, quis vir para cá. Ainda assim, é difícil encontrar todos vocês e o papo ser sempre o casamento de um, a gravidez de outro e ninguém se preocupar em saber como vai meu emprego. Se eu estou empregada. Se eu ganhei algum prêmio por ser uma ótima designer. Agora, imaginem se eu chego em vocês e digo, “hey, este é meu namorado, o meu chefe.” Max não parava de me chamar de ‘tiazona’, Céci noivou, Amy estava namorando Jordan, Lana saindo com Klint e papai não parava de falar sobre casamento e como era seu sonho ver seus três filhos casados. Eu queria mostrar que estava tendo uma vida amorosa em Nova Iorque. Queria que parassem de falar sobre como eu continuava solteira, mesmo depois de ter deixado Maine, como se isso fosse um problema. Ninguém costuma entender que há pessoas que gostam de trabalhar mais do que amar. Para dizer a verdade, essa foi a razão principal de eu ter saído de Maine. Eu queria ser independente, trabalhar, ter minha vida, poder cuidar de mim sem me preocupar em ser uma boa filha, irmã ou esposa. Eu queria fazê-los parar de se preocupar comigo, só porque eu não tinha um acompanhante. Não consigo enxergar qual o problema de querer viver sozinha ao invés de ter sempre alguém do lado a quem dar satisfação.
Respirei fundo e enxuguei parte das minhas lágrimas que insistiam em cair, antes que rolassem pelo meu rosto. Aquilo deveria ser uma explicação, não um desabafo. Mas assim que vi as expressões culpadas dos três, decidi que aquele era o caminho certo a ser seguido. Prometeria a mim mesma que nunca mais me aproveitaria de suas ingenuidades para me safar de um problema, mas não podia fazê-los me excluir de suas vidas, muito menos , a quem estiveram amando mais do que eu mesma fui amada minha vida inteira.
– Quando eu conheci , foi por mera coincidência. Disse a verdade quando falei que foi naquele encontro às escuras. Realmente foi – olhei para papai, que apesar de não conseguir disfarçar sua decepção consigo mesmo, prestava atenção em minhas palavras. – No início nem nos dávamos bem direito, nossas opiniões eram divergentes e estávamos preocupados demais em cuidar de nossas vidas para se importar com o outro. Mas então, em um ponto, nós começamos a nos dar bem. E o que eu mais gostei, foi que mesmo estando juntos, ele não era uma pessoa com quem eu precisasse me preocupar. Eu podia continuar a ter minha vida, ele a dele e nós viveríamos bem – funguei meu nariz, percebendo na hora que estava chorando. – Desculpe se eu tive de mentir para todos, para que vocês pudessem aceita-lo. Nós nem estávamos juntos direito quando vocês os conheceram, eu apenas o apresentei porque... bem. Vocês parariam de me perguntar sobre namorados.
Olhei para meu pai, que de repente não me olhava mais com decepção. Me parece que ele estava magoado de, a essa altura do campeonato, ouvir dizer de sua filha que esteve tratando ela da maneira errada durante toda vida.
– Nós estamos namorando de verdade – expliquei, olhando para eles. – Nada do que passamos foi mentira, mas tivemos que mudar a profissão dele porque há essa regra na empresa que...
– Era o que eu ia perguntar – Céci me cortou. – Toda empresa tem uma lei que fala sobre funcionários.
– A questão não era nem essa – disse. – Eu posso ir para outra empresa, mas queria continuar nessa. Há a coleção de 50 anos que irá subir meu nome no conceito de vários profissionais e então poderei me desvincular da para seguir minha carreira individual. Mas meus planos não podem ser deixados de lado por causa da relação. O mesmo acontece com . Ele acabou de herdar a empresa e não pode mostrar que ao invés de estar cuidando dos negócios, paquera as funcionárias. Não mentimos só para vocês. Mentimos para todos.
– Todo mundo? – Max perguntou. Concordei com a cabeça. – A mãe dele não sabe?
– Na verdade, soube essa semana – fechei meus olhos, mostrando meu pesar. – Eu não sei o que ela acha ainda, não me disse nada...
Pareceu um toque de mágica. Assim que mencionei seu nome, ouvi o som da chave abrir a porta do apartamento e aparecer com uma expressão preocupada, mas serena ao mesmo tempo. Ele estava, como sempre, no controle.
– Boa noite – ele disse, olhando para todos nós, parando seu olhar em mim e meus olhos vermelhos.
– Nós já sabemos de tudo, – Max disse, enquanto assistíamos fechar a porta atrás de si e jogar o molho de chaves que pertence a Lana no prato depositado no móvel ao lado da porta.
– Eu imaginava – disse, em um tom de voz que eles provavelmente nunca ouviram antes. – Foi por isso que vim. Desfazer qualquer mal entendido – olhou para meu pai, que agora não parecia mais saber se deveria ou não culpar pela mentira. – Estou disposto a responder qualquer pergunta – se sentou em meu lado, olhando para os três.
– Eu tenho uma – Céci se remexeu na poltrona próxima ao nosso sofá. – Você ama minha irmã?
Arregalei os olhos, surpresa. Essa era uma pergunta que eu mesma me perguntava até pouco tempo atrás. Max e papai olharam para curiosos. Eu sabia que Max estava tão interessado em saber da resposta quanto meu pai e Céci. Apesar de se fazer de machão, ele é tão carinhoso quanto minha mãe em dia de natal. Sempre foi o que se preocupou mais com Céci e tentou, em vão, ser um bom maior para mim, mesmo eu sendo autossuficiente demais para o gosto dele.
– Amo – respondeu tão tranquilo quanto sua expressão mostrava. – Se sabem de tudo sobre mim, também sabem sobre minha relação familiar – olhou para os três, que se remexeram desconfortáveis. é o tipo de cara com um péssimo exemplo familiar, algo que, para eles, ainda é mais importante do que uma reputação rica. – É a primeira vez que amo alguém em minha vida – ele virou seu rosto em minha direção e me encarou. Abri a boca, perdida em sua declaração. Era a primeira vez que ouvia direto de seus lábios que ele me amava. Para ser sincera, mesmo não esperando ouvir nas atuais circunstâncias, ele me soou tão lindo quanto se estivéssemos naquela praia privada de Providenciales.
Desconfortável, Max limpou a garganta para nos fazer lembrar de suas presenças. Voltamos a encarar minha família, que nos encarava de maneira mais serena.
– Peço desculpas por ter mentido este tempo todo – disse. – A ideia foi minha – virei meu rosto bruscamente para ele, assustada com sua atitude tão protetora. – Farei qualquer coisa para redimir nossa culpa.
Meu pai não sabia o que falar. Seu rosto mostrava sua compaixão sobre a pessoa que mais admirou nos últimos meses, mas os lábios cerrados me fazia ter certeza de que ele ainda tinha uma sobra de resquício pairando e o impedindo de fazer o que queria fazer, que era esquecer o caso e recomeçar bem.
– Gostaria de falar com você primeiro, – ele se levantou, decidido a ir até meu quarto.
Sem nenhuma contestação a fazer, me levantei, separando minha mão da de , que continuaria a lidar com Céci e Max. Caminhei atrás do meu pai até meu quarto, onde nos sentamos próximos à minha mesa de desenhos.
– Pai – comecei a falar, mas parei ao ver sua mão se erguer, me impedindo de continuar.
– Parte de mim está decepcionado, – ele me encarou. – A essa altura da vida, o que menos achamos é que nossos filhos mentirão para nós dessa maneira. Você sabe que essa atitude que tiveram mostra somente que você não confia em sua família, certo?
Abaixei minha cabeça, envergonhada. Ele tinha razão, afinal. Estive tanto tempo pensando somente em mim que não percebi o quanto isso os machucaria. Mesmo dizendo a verdade, essa ideia ainda poderia surgir em suas cabeças, os decepcionando da mesma maneira, talvez até na mesma intensidade.
– Ouvindo sua explicação, compreendi a parcela da minha culpa. Você tem razão, houve muita pressão em seus ombros sobre essa questão de namoro e família. Sei que você se esforçou em não nos aborrecer, em ser uma boa filha – ele segurou minha mão, seus olhos encarando os meus. –, você não devia duvidar nem um segundo que nós ficaríamos menos orgulhosos de você porque decidiu seguir um caminho diferente do que achávamos ideal. , minha filha, você mostrou para todos nós que é muito mais capaz do que nós mesmos. Todos tivemos vontade de sair de Maine, mas a única com coragem suficiente para fazê-lo foi você. Jamais pense que eu e sua mãe achamos você menos do que seus irmãos, porque decidiu seguir o seu sonho. Nosso maior orgulho é saber que você está feliz e saudável – ele deu um tapinha no meu rosto, fazendo com que minhas lágrimas caíssem. – Me desculpe por tê-la feito sofrer todo esse tempo achando que devia provar algo para mim, que devia construir uma família para ser feliz. Estou vendo quão feliz está só de realizar seus sonhos. E também entendi a mensagem que sua mãe quis me passar antes de ir. Deixe-a ser feliz, ela disse. Achei até agora que a felicidade se limitava em ter uma família ao lado, ter pessoas que a amasse junto de si. Mas este era só o meu conceito, não é? – ele sorriu.
– Eu sou feliz com a minha família – disse, chorosa. – Não preciso de muito mais para continuar feliz. Eu só queria ter certeza que vocês não ficariam tristes...
– Eu sei, me desculpe, filhota – ele abriu os braços para um abraço. – Devo saber de algo mais que não pude saber antes? – perguntou, ao mesmo tempo que acariciava minhas costas. Balancei minha cabeça, negando. – Ótimo, acho que esse coração idoso já não aguentaria mais novidades assim. Eu vim de Maine para cá assim que soube, acredita? É impressionante como as empresas de avião conseguem ter tantos voos disponíveis para todo lugar – ele disse, voltando a ser o Logan que sempre conhecemos. Afastei meu corpo do dele e soltei uma pequena risada, limpando as lágrimas que caíram e vendo seu rosto iluminado sorrir de volta. – Você o ama?
– Amo – sorri. – Mas não tanto quanto amo o senhor.
– Perfeito – ele respirou fundo. – Melhor que isso, impossível. Agora vá chama-lo. Não posso perder a chance de causar uma impressão em cima de . Martin me disse que ele é um dos caras mais poderosos do país.
– Não é para tanto, pai. Talvez um dos mais poderosos de Nova Iorque só – dei uma risada, vendo-o se preparar para dar uma de pai protetor. – Pegue leve, ele nunca falou com um sogro antes.
– Um homem deve aproveitar as oportunidades quando elas vêm a eles de graça – ele disse, tentando parecer sério. Abri um pequeno sorriso, aliviada por vê-lo tentar dar uma de inteligente para cima de mim, como sempre costuma fazer para causar uma boa impressão. O abracei forte mais uma vez e deixei um beijo estalado em sua bochecha antes de ir para a sala e ver falando com Max como nunca havia visto antes. Tive de esperar que Céci percebesse minha presença para que então pudesse chamar a atenção dos dois e eu anunciar que meu pai queria falar com no quarto.
– Quer dizer que vocês fizeram uma troca? – Max perguntou. – Não vendeu o seu corpo, é? – ele ergueu uma sobrancelha e não pude deixar de inclinar a cabeça para o lado, confusa com a acusação. – falou que convenceu você a criar essa mentira, se ele fizesse uma coleção sua de primavera.
– Ah – olhei em direção ao corredor. era mesmo o rei do jogo sujo. – Pois é...
– Você tem noção do meu nervosismo, ? – Céci se levantou e me deu um tapa, sendo segurada por Max antes de me dar um segundo. – Taylor estava furioso! Nós quase tiramos vocês da lista de padrinhos! Não! Pior! Da lista de convidados!
– Me desculpe, Céci – falei, tentando parecer arrependida. Para dizer a verdade, eu sabia que ela jamais faria isso. Chegaria a tirar da lista, mas eu, sua irmã querida, sei que Céci nunca teria coragem. – Sei que causei uma boa enxaqueca, pagarei com uma aliança de casamento fantástica.
– Não, outra coisa – ela mexeu a mão. – já me prometeu isso.
Abri a boca, indignada. estava realmente anos luz à minha frente.
– Bem, então o que você quer?
– Você sabe que eu sempre quis aquele conjunto de joias – fechei meus olhos. Eu sabia. Eu sabia.
Nossa mãe, como herança, deixou um conjunto de joias para cada uma antes de morrer. Céci, com os que eu havia dado para ela, já que não teria o mesmo valor para mim do que receber algo que era dela. E para mim, o conjunto de joias que ela usou no dia do seu casamento, peças raras que seu pai havia lhe dado como presente de casamento de sua única filha. Desde quando Céci viu aquele conjunto, não importa que tenha ganhado mais peças do que eu, ela trocaria todos os meus desejos para ter algo de valor sentimental muito maior para nós.
– Esqueça – falo rapidamente. – Me desconvide, não vou te dar aquelas joias.
– Ah, qual é, ! Veja sua situação agora!
– Você está sendo uma sacana, Céci! – falei alto de volta, de modo que Max logo se pôs entre nós.
– Hey, hey, hey! Brigar por um conjunto de joias agora não! – ele se virou para mim. – Empreste-os para ela se casar e então pegue de volta. E você – voltou-se para Céci, que estava com seus braços cruzados. –, contente-se em entrar no altar com eles. Mamãe deu o conjunto para .
– Quem foi que falou para vocês sobre ? – perguntei, pegando algumas bebidas para nós na cozinha, não sem antes olhar para o corredor dos quartos e me perguntar como estava indo a conversa entre os dois.
– Papai recebeu uma ligação semana passada – Max falou. – Céci estava com Taylor dando uma passada lá quando ligaram. Eles falaram sobre o relacionamento de vocês e o fato de ser um empresário ao invés de advogado. Taylor pesquisou na internet para se certificar da autenticidade daquela ligação e logo apareceram milhares de fontes falando sobre a verdadeira profissão de .
– Não sei como nós nunca vimos isso antes – Céci apoiou-se na bancada que separava a cozinha, da sala. – Ele é uma pessoa tão pública que está até nos sites de fofocas.
– Eu disse para vocês usarem mais a internet – murmurei, recebendo o olhar reprovador dos dois. – Mas quem ligou?
– A pessoa não disse o nome. Era um homem – Céci falou. – Taylor tentou rastrear o número pela bina do telefone, mas era anônimo.
Olhei para a bancada, pensativa. Poderia ser Nathan. Se ele fez o que fez com Amber, então achar minha família era o menor de seus problemas. Ele tinha contato, estava sumido a um bom tempo da minha vida, mas armou contra Amber nesse meio tempo. A puniu por não fazer sua parte do acordo. Talvez Amber tenha passado o telefone da minha casa em Maine para ele?
Mordo o lábio, pensando na possibilidade dela ter me traído. Mas Amber não sabia nada sobre eu e . Ninguém além dos nossos amigos sabe sobre nós dois.
“Apesar de terem sido discretos e não saído muito em público, houveram vezes que vocês saíram às ruas mostrando a Deus e o mundo que estão juntos.” Meus pensamentos logo me pegaram de jeito. Era verdade. No dia que fui até o escritório de Emma depois da despedida de Amber, eu e caminhamos até o prédio de mãos dadas. Qualquer um poderia ter visto a cena.
! – saí de meu transe ao ouvir o grito de Max no meu ouvido. Estava prestes a gritar de volta, quando vi com meu pai parados na porta do corredor dos quartos. Limpei minha garganta e voltei à sala, encarando os dois com ansiedade.
– Então o mal entendido foi explicado – meu pai falou, tentando quebrar a tensão que rolava da minha parte. – Eu e tivemos uma boa, hum, conversa.
– É minha vez, então? – Max ergueu uma sobrancelha e eu lhe dei um beliscão. – ! – ele urrou uma mistura de susto e dor. Fiz-lhe uma careta, que o calou.
A sala permaneceu em completo silêncio por um longo minuto. Um olhava para a cara do outro esperando que alguém tomasse a iniciativa de dialogar. Pela primeira vez, quem tomou partida:
– Creio que esteja muito tarde para retornarem à Maine. Vocês querem que eu veja reservas em um hotel?
– Um hotel é bom – meu pai disse, animado com a ideia de poder usufruir do serviço de quarto.
– Eles ficarão aqui em casa – olhei para ele, vendo-o ficar ligeiramente decepcionado. – Amy e Lana não estão mais morando aqui, então vocês poderão dormir no quarto delas, enquanto eu e Céci dormimos no meu.
– Ótimo, tenho várias coisas que falar com você! – seu tom mostrou que o aborrecimento da mentira era supérfluo. Ela apenas estava se fazendo de brava porque atingi seu ego por algumas horas, mas a ideia de falar comigo sobre a preparação de seu casamento era mais convidativa do que continuar numa greve de contato comigo.
– Para ser sincero, agora que estou aqui, penso em ficar um tempo mais – meu pai disse, pensativo. – Bob e Lorenzo, meus amigos da caminhada, sabe? Eles não estão na cidade; Bob fez uma operação na capital semana passada e ficará de repouso por quinze dias, enquanto Lorenzo foi visitar a netinha que acabou de nascer no Texas. Tenho tempo livre e pensei em gastá-lo aqui.
Recebi um tapa de Céci, provavelmente por minha expressão de incredulidade em ter de recepcionar meu pai por alguns dias. Estou em uma fase absurdamente delicada da minha vida e justo na semana mais importante que terei, ele decide vir passar suas férias comigo.
– Se você quiser, ficarei com ele durante o dia. Taylor consegue cuidar da clínica por alguns dias. Ouviu, papai? Dias? Não mais que uma semana – assim que Céci se pronunciou, a abracei forte, dizendo que a amava. Max soltou uma risadinha, enquanto papai achava que eu estava me relacionando à cena que eu e acabamos de passar com a nossa “mentirinha”.
– Eu tenho de voltar, não sou dono do meu negócio e minha esposa parece que todo dia está prestes a entrar em processo de parto – Max olhou em seu relógio, vendo que às onze da noite ele não conseguiria uma passagem de volta. – Qual será o primeiro voo de amanhã?
– Verei isso para você – disse, pegando seu celular.
Semicerrei os olhos ao ver o sorriso vitorioso de Max. Ele estava começando a abusar de , como sempre faz com Taylor em dias de jogo: solta uma indireta para que eles façam o que ele mesmo não quer fazer em seu lugar. Dei-lhe um leve chute, mostrando que entendi sua má intenção e, como resposta, ele ergueu os ombros, como se não pudesse fazer nada se seus cunhados gostavam de lhe paparicar.
acabou fazendo a compra da passagem de volta para Max, além de lhe providenciar um motorista que o levasse até o aeroporto. Disse a Céci e papai que no momento em que decidissem o dia que voltariam, eles poderiam lhe avisar e ele providenciaria tudo para os dois. No final, pedimos uma comida chinesa, a favorita de Max, enquanto assistíamos à reprise de Modern Family.
 
– Como você descobriu? – perguntei a , enquanto o acompanhava até o estacionamento. Minha vaga estava vazia porque eu não tinha um carro próprio. Na verdade, eu usava sempre o de Amy ou Lana, já que todos os lugares que costumo ir fica próximo da estação de metrô. Caso contrário, prefiro pagar um táxi, a lidar com valores de impostos.
– Menger me ligou assim que saiu daqui. Eu estava na empresa, então não demorei muito para chegar. Ela me deu sua chave antes de ir embora.
Entrei no banco traseiro para passar o tempo que não pudemos ficar juntos no dia e tão cedo quanto fechei minha porta, capturou meus lábios.
– Você estava com medo do meu pai? – perguntei, ofegante por ter sido pega de surpresa. soltou uma pequena risada e se afastou de mim para que pudesse me mostrar seus lábios em um formato de riso e o absurdo que aquela pergunta significava para ele.
– É claro que não. Com todo respeito, seu pai não bota medo nem em uma formiga, – ele comentou, me fazendo dar risada. – Mas para todos os efeitos, eu estava com medo.
– Max disse que foi um homem quem ligou para eles dizendo sobre você – me afastei dele antes que seus lábios grudassem em meu dorso e eu perdesse minha sanidade para seus toques. – Acho que é Nathan Garden.
– É possível – ele respirou, concordando que este assunto era muito mais sério do que dar uns amassos escondidos da minha família.
– Ele está fora de controle – estico minhas pernas, apoiando-as no espaço entre os bancos da frente. – O que ele fez com Amber foi ridículo.
não me respondeu. Ficamos em silêncio, já que nós dois sabíamos que eu sabia que ele não estaria por fora dessa notícia. Virei meu rosto para ele, vendo sua expressão de quem não achava que aquilo era um absurdo.
– Você não acha? – perguntei, pasma.
ergueu seus largos ombros em um sinal de que não achava nada demais.
– Ele não fez nada mais do que jogar o seu próprio jogo.
– Você o está defendendo? Ele enganou Amber!
– Ele não a enganou, – ele disse, paciente. – Por mais que eu não suporte ele como pessoa, Garden é um dos poucos que sabe jogar bem nesse meio. Ele fez um acordo com Amber Carvall, um acordo justo, sem mentiras. Era levar você para a Thames. Ela achou que conseguiria ficar lá se mostrasse que era uma designer espetacular vinda da , um pensamento que todos têm quando saem daqui – olhou para mim, apostando que este era o meu pensamento, o que era muito certo. Ele poderia não saber muito sobre ser empregado de alguém, mas as pessoas valorizam o currículo, caso nele não haja uma demissão repentina depois de algumas semanas contratada. – Havia um prazo em questão que ela não cumpriu. Ele então a demitiu. O único déficit que teve foi arcar com o processo de demissão por causa injusta, mas ele já previa essa perda.
Fiquei pensativa, imaginando o quão maligna era a mente dos empresários. As pessoas não tinham medo de comprar e enganar as outras, se isso fosse favorecê-las.
– É o que você faria, não é?
– Não posso negar ter sido uma ideia inteligente – ele disse. Olhou para mim e meu olhar; ao fazê-lo, respirou fundo: – , quantas vezes tenho de falar para você não misturar o pessoal em seus negócios?
– É isso então? Se acontecer de eu for sacaneada na minha vida profissional, você me deixará cair porque não deve misturar sua vida pessoal com a profissional? – perguntei, ofendida.
– É claro que não, isso não tem nada a ver com nós dois...
– Bem, agora tem – me virei para ele, decidida a discutir essa questão. – Você não acha que sua mãe irá planejar algo grande para nós dois? Você não me falou nada sobre ela e no dia que nos encontramos, ela disse que você ainda não estava certo sobre nossa relação.
me pareceu mais aborrecido ao perceber que eu queria falar sobre Barbara. Passou a mão pelo rosto, impaciente, e encostou a cabeça no encosto do banco, encarando o teto muito próximo a seu rosto.
, você está preocupada com o fato de minha mãe não aprova-la ou dela te prejudicar e tirá-la da lista de designers da coleção de 50 anos? – ele me encarou sério, me pegando de surpresa.
O que eu poderia dizer? A verdade era que eu estava, sim, mais preocupada em ser excluída da coleção do que da a aprovação dela, já que se o próprio não se importava com sua opinião, eu também não deveria fazer grande alarde.
– Essa é a questão de inserir sua vida pessoal, na profissional – ele apontou para mim – Você não quer ser deixada de fora na lista, eu já disse que você não será. Por que continua preocupada?
– Eu só acho que se a coleção é da sua mãe, a sua opinião pode não valer tanto quanto se fosse qualquer outro assunto da empresa – comentei. Seus olhos me encararam por um longo tempo, onde neste espaço pude perceber que eu o havia ofendido. Estava duvidando de sua autoridade na empresa, algo que qualquer empresário receberia como um tiro na testa; eles gostam de serem tratados como os reis do negócio que atuam. – Não estou dizendo que...
– Então você continua achando que eu não sei lidar com a minha empresa e Barbara? – ele perguntou.
– Não, mas você disse que essa coleção era a última coisa que ela...
, você precisa deixar de ser egoísta – ele soltou, causando um furor enorme dentro de mim. Estava revidando a minha ofensa, com outra. – Pare de pensar em você. Sei dos seus planos. Para ser sincero, se eu fosse egoísta como você está sendo, não permitiria que você entrasse na coleção porque sei que irá pedir demissão depois do lançamento dela.
Arregalei meus olhos, surpresa com meus planos sendo jogados em minha cara. Abri a boca para retrucar e tirar essa ideia de sua mente, mas ele me parecia estar nervoso demais para reconsiderar. Por uma fração de segundo, desejei que não estivéssemos em uma relação e eu não pensasse mais antes de falar com ele. Se fosse como antes, eu apenas diria algo para ofendê-lo ainda mais e lhe daria as costas, deixando-o aflito com seus pensamentos para trás. Mas agora havia a questão de eu me importar com seu bem-estar.
– Sua família deve estar a esperando – ele finalizou nossa conversa, abrindo a porta do carro para sair e entrar no banco do motorista.
Fechei meus olhos, sentindo o pesar de ter ouvido de sua boca que ele sabia sobre minha intenção de deixar sua empresa e abri a porta lentamente, por estar presa demais nos meus pensamentos, que tentava a todo custo arranjar uma maneira de pedir desculpas por não ter comentado sobre isso com ele antes. Eu devia mesmo anotar tudo o que deveria falar com as pessoas antes que elas descobrissem.
Quando fiz menção de abrir a porta para me despedir dele, ligou o carro e, sem se importar comigo, deixou o estacionamento. Fui deixada para trás, aflita com meus pensamentos, algo que eu mesma queria ter feito a apenas alguns minutos atrás. Pensei durante todo o tempo no peso da minha consciência que insistia em me manter acordada. Para melhorar, ela me lembrou que eu não havia dito as três palavras que vinha treinando há tempos para responder a .
Mais um dia sem dizer a ele que o amo.

No dia seguinte, acordei com o café da manhã pronto. Max havia preparado para nós antes de sair e deixou um bilhete, dizendo que avisaria quando chegasse em Maine. Céci havia dito antes de dormir que eu não precisava me preocupar com ela e papai, pois os dois passariam o dia procurando as lembranças de casamento e os dotes para os padrinhos de casamento que deveriam entregar na semana seguinte com o convite. Emma havia dito que dois a três meses é um bom tempo para enviar os convites aos convidados. Eles teriam tempo de organizar as roupas, a questão de acontecer no dia de natal e os presentes. Além disso, para os mais chegados, os convites para o chá-bar dela e Taylor também já estava pronto para ser enviado junto. Por não precisar me encontrar com os dois na hora do almoço, o horário foi ocupado para Lana e Amy, que assim que cheguei disseram que seus pais também souberam do caso e ligaram perguntando da autenticidade da informação sobre as profissões de Jordan e Klint.
– Meu pai já não gostava de Jordan, agora então... – Amy suspirou, desanimada.
– Desculpe, amiga – toquei em seu antebraço, recebendo um sorriso de volta.
– Você não tem culpa do meu pai não gostar dele, . Ninguém entende da onde veio esse desgosto repentino, sendo que foi ele quem praticamente me obrigou a sair em um encontro.
– Na verdade, Amy, seu pai esperava que você jogasse em suas mãos a questão da parceria do encontro – Lana disse. – Então ele poderia sugerir que você saísse com aquele capiau da fazenda dele que ele diz tanto querer passar as terras quando se aposentar.
– Faz sentido – comento, lembrando do perfil de Augusto Servey, um russo muito charmoso, provavelmente o homem mais bonito de nossa cidade. Mesmo sendo um colírio para nossos olhos, nenhuma mulher tem muito interesse em um homem que passa 24 horas do dia sujo de terra, adubo e suor, e não mostra nem um pingo de senso de humor e moda. Ainda que ele seja um novo-rico de Maine, enquanto não for oficial, ninguém olha para aqueles bíceps dos deuses. – Ele não a está tratando diferente?
– Diferente? Ele me tirou de seu testamento – ela riu. – Ainda bem que estou morando com Jordan.
– Mas ele estava se dando melhor com Jordan, não estava? – perguntei a Amy, que soltou uma risada, engolindo de má vontade a salada.
Estava, você disse certo. Só faltou ele dizer que queria que nós dois terminássemos. Foi o que quase aconteceu, para ser sincera – ela suspirou. – E não era nem culpa dele, mas os pais deles estavam inspirados noite passada. Me ignoraram com a maior classe que uma pessoa poderia ter na vida. A rainha Elizabeth ficaria admirada com o comportamento dos dois.
– Mentira – disse.
– Queria que fosse. Jordan estava tão sem graça que tivemos de dar uma fugidinha no meio do evento para eu poder aliviar minha frustração em, vocês sabem, sexo.
– Cada dia mais me surpreendo com esse nerd – Lana ri, batendo palmas de aprovação. – Bem, querida, então você não está tão nervosa quanto imaginava.
– Não tanto assim – Amy abriu um sorrisinho. –, para dizer a verdade, quando Jordan, em um ato de rebeldia, deu a entender sobre nossa escapada a sua mãe, eu quase tive outro orgasmo de prazer – sussurrou, nos fazendo rir. – Mas como eu disse, ontem eles estavam inspirados e decididos a não me fazer estragar sua noite.
– Duvido que não tenha estragado – comentei. – É capaz do próprio pai dele ter de apelar para a mesma solução com a mãe dele antes de dormirem – rimos. – E seu pai, Lan?
– Ah, vocês sabem. Mesmo que Klint não fosse advogado, ele continuaria sendo rico e tendo me feito mudar para a casa dele, então meu pai o aceitaria da mesma maneira – ela ergueu os ombros, despreocupada. – Estava mais preocupada com você e o seu pai, do que o meu, para ser sincera.
– Peça desculpas a Klint sobre o comportamento dele. Ele estava bastante ofendido comigo.
– Foi o que imaginei. Eu nunca havia visto seu pai tão nervoso desde a descoberta da falta de cura na doença da sua mãe – ela disse. – Mas pelo menos a questão foi resolvida. Quando sai o resultado dos designers?
– Entre amanhã e quinta, disseram.
– Você não deveria estar tão nervosa – Amy comentou. – Por que está?
– Bem, na verdade, por incrível que pareça, não estou nervosa por conta do resultado. Ontem eu e tivemos nossa primeira briga em que a culpa foi minha – aquilo, de alguma maneira, pareceu interessar às duas. Eu sempre estive em problemas com por minhas birras, mas jamais admiti que fui a culpada. Dessa vez, diferente das outras, meu desânimo era por não saber como lidar com o sentimento de culpa e arranjar uma maneira de pedir desculpas a ele.
Contei-lhes toda a história, a começar pelo que aconteceu com Amber e o fato de nós desconfiarmos que Nathan Garden foi o autor da ligação para minha família. As duas faziam comentários em resmungos durante a história e eu apenas as ignorava, já que os murmúrios eram somente sinais de que estavam prestando atenção em mim. Ao finalizar, vi nos olhos de Lana que ela já planejava estratégias para afetar Nathan, enquanto Amy pensava em maneiras de eu me desculpar com .
– Você deveria ir se desculpar com sinceridade – ela disse, calma. – Ele sabe que você não tem como evitar esse sentimento de insegurança. Esteve esperando anos por essa oportunidade e mesmo que ele garanta para você que será uma das duas escolhidas, você é assim, insegura. Acha que dará tudo errado até o resultado apontar que deu tudo certo.
– Eu sei, eu só acho que ele ficou magoado porque todo esse tempo tem tentado me ensinar a viver nesse mundo maluco. Mesmo antes de começarmos a namorar, ele vem me preparando sobre jogar sujo. Não esperava que de “jogar sujo”, eu deveria lidar em ser a caça, não o caçador.
– Eu fico surpresa de ver você nessa situação, porque me conhecendo bem, eu achava que eu seria a pessoa que menos se adaptaria a esse modo selvagem que é a elite de Nova Iorque – Amy disse, dando um gole em seu suco natural. – Honestamente, , aqui ou você cuida de você, ou as pessoas a devorarão. É a típica lei darwinista onde somente os fortes sobrevivem.
– Ah, agora entendi sobre essa questão maluca de Darwin! – Lana arregalou ligeiramente os olhos, mostrando-se orgulhosa e surpresa por finalmente ter entendido a questão darwinista. Sinceramente, não sei como ela conseguiu se formar no colégio, já que na faculdade todos nós temos noção do seu truque infalível.
– Bem, acho que no fundo tenho um coração muito mais mole que o de vocês. Parece que nasci para ser feita de trouxa pelas pessoas, mas ainda tenho esperança de aprender a lição e ser tão vadia quanto Lauren – ergo meus ombros, aceitando o fato de minha ingenuidade.
– Tudo bem, vamos ao ponto principal – Lana ergueu as mãos. – Só eu acho que o foco principal desse assunto é como fazer o concorrente sofrer?
Eu e Amy nos entreolhamos, crentes de que Lana estava preocupada comigo. Mas, aparentemente, seu modo de me proteger é derrotar o inimigo, não primeiro dar atenção ao aliado.
– Eu acho que o próprio irá lidar com este Garden – Amy disse, pensativa. – Jordan me disse que ele tem um sentimento de obrigação em lhe proteger, que não sabemos da onde surgiu. E tem todo aquele papo de “confie em mim” que você disse.
– Exatamente – apontei para Amy. – Eu fico pensando em maneiras de descobrir os planos de Nathan para poder derrubá-lo de alguma forma, mas todas sabemos que se tem alguém que pode fazer isso muito bem, é . Além dele ter os contatos, ainda é o dono da própria empresa, ao contrário de Nathan, que no final das contas é somente um funcionário. A não ser que ele esteja concorrendo à presidência da empresa – desisto de tomar meu suco, voltando o copo na mesa no meio do caminho até minha boca. – Meu Deus, e se for isso?
– Há essa possibilidade? – Lana perguntou – Não é como na , em que a empresa é passada para alguém da família? 
– Faz duas presidências que a Thames não passa a empresa de pai para filho. Na verdade, acho que desde a primeira vez em 1993, com a morte do John Thames, que não possuía filho, essa questão se extinguiu na empresa. É possível que eles estejam em meio a um negócio de transação de cargos lá dentro e Nathan esteja concorrendo ao cargo.
– Então isso faz totalmente sentido – Lana disse. – Você está na há anos. Sua carreira já foi muito maior do que agora; culpa da vadia, ainda acho que deveríamos acabar com ela – seus olhos brilharam com a ideia de derrotar Lauren, que um dia apareceu com a mesma sandália Louboutin que ela em um evento, mas por ser mais influente na época, Lana quem acabou apagada, o que foi um ultraje para ela. – Por que ele iria querer chama-la justo agora? Ele poderia ter corrido atrás de você antes.
– Concordo – Amy apontou para Lana com seu garfo. – Principalmente porque antes não havia para servir de obstáculo para ele. Se ele sabe de vocês dois, deve ter mudado sua estratégia ao perceber que você não cairia em seus braços porque já estava na de .
– Por isso ele mandou Amber embora – concluí o mistério, olhando para as duas. – Eu não acredito, faz todo o sentido!
– É claro que faz sentido, meu bem, eu disse que deveria ter virado policial investigativa em casos de elite – Lana olhou para as unhas, não surpresa com o seu desempenho sensacional há pouco. – Por essa razão que eu ainda digo que devemos derrubá-lo antes que o novo plano seja colocado em prática.
Combinamos de nos falarmos em breve, já que aquela noite eu tinha meu pai e Céci para levar a um evento de obras de arte que meu pai de repente quis visitar. Recebi sua mensagem no final do expediente, quando todos não paravam de falar que o dia seguinte poderia mudar a vida de dois integrantes da equipe.
– Você acha que Nally tem mesmo a oportunidade? – Camille perguntou a Claire, que fez um barulho cômico com a boca. – Não, é sério, Claire! Ela foi uma das mais esforçadas desde que entrei.
– Bem, isso foi só nessa época – Claire riu. – Honestamente, sem ser , eu acho que Guy entra. Ele está todo suspeito com essa ideia maluca que Tony está surtando e Lauren parece ter gostado, e aquela vaca nunca gosta de nada, então só posso esperar uma joia feita para Buda.
– Guy sempre foi uma pessoa talentosa, ele apenas não sabe como torna-las perfeitas – comentei na altura em que saíamos do prédio. – Você conseguiu ter contato com Amber? – perguntei a Claire, que suspirou, deixando seus ombros caírem.
– Desde o dia que ela me ligou, não. Tentei ligar para ela, mas o celular está sempre desligado. Já mandei vários e-mails, mas ela nunca respondeu.
– Eu também tentei ligar para ela, mas está fora de serviço. Pode ser que ela tenha cancelado o número dela – suspirei. – Tentarei enviar um e-mail hoje à noite e ver se tenho sucesso. Bem, tenho que ir antes que receba a ligação de Céci.
– Vá, antes que irmã-noiva-possessa entre em ação – Claire brincou, acenando com Camille, enquanto eu fazia o caminho oposto das duas.
não me pegou no meio do caminho como estávamos acostumados a fazer. Tentei ligar para ele, mas não me atendeu. Acabei deixando uma mensagem avisando sobre o evento e o local que iríamos jantar em seguida. Tive de inventar desculpas a meu pai e Céci sobre a ausência dele, já que os dois estavam crentes que ele viria passar um tempo conosco.
No final, não compareceu nem no evento, nem no jantar.

O dia seguinte poderia ter sido iniciado com caos, mas foi mais tranquilo do que esperava.
Acordei uma hora antes do usual. Como não sabia se era o dia fatídico do resultado – tudo indicava que era –, tomei um banho e me arrumei para não fazer feio quando fosse anunciada. Olhei para meus desenhos pendurados na parede e sorri, tentando ser positiva em achar que não precisaria tomar nenhuma ação para me colocar na coleção. Eu havia trabalhado anos e anos, aperfeiçoando meus traços só para este momento – e o momento posterior a ele também –, então era mais do que normal eu ser escolhida pelo meu próprio talento. E não havia pessoa que mais reconhecia minhas habilidades do que Barbara. Apesar dela ter sido minha tutora, eu também nasci com um ótimo dom com desenhos. Ela poderia tentar me ensinar o que sei, mas se eu não fizesse minha parte, provavelmente estaria na Kastus, que está abaixo da Thames.
Na empresa, nossa área estava toda ansiosa. Ninguém conseguia trabalhar, até porque não havia projetos mais importantes em pauta do que a coleção de 50 anos. Quando entrei no andar, só pelo aroma de café da manhã perfeito que a empresa contratava do buffet em dias importantes, soube que quarta era o dia. Eu sempre gostei das quartas mais do que das quintas, porque as quintas são marcadas de correria, cobrança de Lauren e hora extra. As quartas são ótimas e esta seria a melhor.
Do outro lado da entrada do elevador, o delicado palco que sempre foi montado quando Barbara queria anunciar algo estava de volta. A última vez que o vimos foi quando ocupou o lugar da presidência na empresa.
Sem perceber, comecei a pensar em como aquele palco era um significado de mudança em minha vida. Primeiro minha contratação como funcionaria efetiva na empresa; em seguida minha primeira coleção com minha própria assinatura, debutando como designer principal da empresa; então a entrada de Lauren, minha decadência; a entrada de e meu namoro, e agora, por fim, o anúncio que irá mudar minha carreira.
Liguei meu computador para ficar olhando para a tela sem rumo. Lauren chegou no horário, diferente dos dias comuns, em que ela se dá o luxo de entrar com alguns minutos – ou horas – de atraso porque o cabeleireiro que frequenta todos os dias estava lotado. Olhou em direção à nossa área no caminho até sua mesa e então nos ignorou, vendo que não havia motivo para chamar nossa atenção, já que todos estavam devidamente vestidos para receber Barbara e .
Às dez horas, a equipe de fotógrafos que marcaria o evento para a empresa chegou com os equipamentos e começou a arrumar a iluminação e área de refúgio da equipe. Os diretores e coordenadores das equipes que pertenciam à fábrica chegaram para participar do café. Em seguida, os designers já confirmados na seleção e, às onze, Barbara e .
Olhei para meu namorado, que não parecia estar nem um pouco nervoso de nossa discussão há dois dias. Infelizmente, o conhecia suficiente para saber que ele possui um grande talento na área de atuação. Minha observação foi comprovada quando ele cumprimentou nossa equipe e não me olhou nos olhos como costumava fazer quando queria me provocar antes de nosso relacionamento.
– Hoje é um dia que, apesar de parecer diferente com toda a equipe reunida e os fotógrafos para marcar o fim da minha carreira, todos irão termina-la da mesma maneira que terminaram ontem e terminarão amanhã – Barbara disse, com o microfone em mãos. – Trabalhando – finalizou, fazendo todos rirem por educação. – Há cinquenta anos, o pai de meu ex-marido, Thomas , iniciou a empresa com a ousadia de querer ver as mulheres brilharem mais que os raios de sol. Vinte anos depois, herdei a empresa com Thomas para que pudesse continuar com a missão de tornar as mulheres mais bonitas com o brilho de nossas joias. Desde o dia em que comecei a lidar com questões da empresa, antes mesmo de me tornar presidente, soube que a chegaria ao topo mundial com facilidade, visto que sempre temos os melhores profissionais do ramo junto a nós. Com essa coleção, tenho a intenção de marcar o trabalho de cada um de nossos melhores designers, que marcaram todas as fases da empresa com suas criações maravilhosas e de incrível sucesso – ela apontou para o grupo que se localizava em seu lado direito, próximos ao elevador que levava ao escritório de . – Hoje, fecharemos essa equipe sensacional com dois de nossos designers atuais – ela virou seus olhos puxados pela plástica, mas com a mesma força que tinha em seu olhar quando entrei na empresa.
Ela passou seus olhos em cada um de nós de acordo com que foi falando sobre os desenhos que recebeu no decorrer dos últimos meses, e que o fato de trabalhos anteriores, da época em que ela ainda presidia a empresa, também fazia peso na escolha final. Eu era a última de sua lista de “quem observar durante meu discurso”. A razão, óbvia para nós duas e , era que ela gostaria de ver, uma última vez, o que eu lhe diria com meus olhos antes de receber o anúncio. Barbara sempre disse que os olhos das mulheres e a intensidade que eles passam uma mensagem é o que as torna maravilhosas. Não é à toa que ela iniciou sua carreira inspirando-se nos olhares que observava das mulheres que passeavam no parque unido à Torre Eiffel. Lá, onde ela dizia ser o centro do turismo francês, em que mulheres de todo o mundo vinham para dividir um momento de amor, alegria e de vez em quando recebia joias, era possível ver todos os tipos de sentimentos fluir em seus olhares. Passou uma quantidade enorme de horas e dias sentada naquela grama ou na neve nos dias de inverno, observando, inspirando-se e desenhando. Desta maneira, através do meu olhar, queria passar a mensagem de que eu era a pessoa perfeita para a coleção e também para seu filho. Mesmo eles não tendo uma relação fraternal, ela ainda era uma mãe e seria para sempre seu filho. Ainda que os dois não se falem, há o interesse no bem-estar do outro, caso contrário, Barbara jamais teria dado sua empresa, que se dedicou anos em cuidar, para o filho; e este jamais aceitaria toma-la como seu, voltando a ter contato com a mãe que passou tantos anos separado por um oceano.
– Nosso primeiro designer possui um talento que foi descoberto aqui na e desenvolvido nela. Não há uma escolha mais certeira do que alguém que nasceu para trabalhar em uma empresa como a nossa, por possuir um dom que muitos ainda estão em busca de conseguir adquirir – ela olhou em nossa direção. – As peças desenvolvidas por esse designer foram reconhecidas não somente por nosso Conselho, como por mim e vários clientes, milhares deles, que compraram com afinco todas as coleções lançadas até então.
No momento em que meu desenho para a minha primeira coleção de Dia dos Namorados surgiu na enorme tela de televisão instalada na diagonal de onde Barbara estava parada, meu coração parou. Por mais que eu esperasse ser selecionada, saber que realmente fui era outra coisa. De acordo com que minhas peças foram aparecendo, senti as pálpebras de meus olhos tremerem com a vontade de chorar. Claire estava me abraçando aos gritos enquanto todos me parabenizavam com as palmas.
foi uma das poucas designers que teve a audácia de deixar folhas de seus desenhos no para-brisa de meu carro – Barbara olhou para mim, tirando risadas de quem a ouvia. – Uma pessoa que tem essa força de vontade não pode-se esperar menos. A coleção que convenceu a mim e ao Conselho foi um dos últimos trabalhos que fizemos juntas no início do ano, para o 4 de Julho – apontou para trás, onde pude ver a coleção inspirada em fogos de artifício tomar conta da tela. Com ela, pude lembrar do 4 de Julho que passei com meu pai e suas lembranças sobre mamãe. – Apesar de não ser a única vez que me satisfez com suas criações, foi a primeira vez que a vi desenvolver uma coleção sem precisar de minhas emendas para ser lançada. Essa também foi a primeira vez em toda minha carreira que aprovei uma coleção sem precisar de emenda, então não é uma surpresa que minha escolha seja certeira – ela abriu um sorriso convencido, não conseguindo evitar dar-lhe os créditos pelo meu sucesso. Naquela altura do campeonato, ela poderia dar os créditos que quisesse a si e eu ainda não iria me importar.
Foi depois do abraço sem jeito que Lauren me deu que meus olhos finalmente se encontraram com os de . Ele pareceu respeitar meu momento, abrindo um pequeno sorriso de parabenização, mostrando que eu havia conseguido por mérito próprio. Ele não havia convencido ninguém que eu era a melhor escolha, eu quem provei com meus próprios desenhos.
– Nosso segundo e último designer mostrou um trabalho incrível para a coleção do Dia Internacional da Mulher em maio do ano que vem. Durante os anos em que esteve presente em nossa equipe, mostrou uma evolução surpreendente, que chegou a tocar todos os membros de nosso Conselho.
Enquanto Barbara continuava a falar sobre a pessoa escolhida, os desenhos sem graças de Erin começaram a aparecer na tela, e, claro, a reação da equipe não foi tão aquecida quanto a minha, principalmente porque todos nós esperávamos que, além de mim, Guy fosse ser a pessoa escolhida. Inclusive, Lauren era a que estava mais pasma com o resultado final, já que obviamente ela esteve apostando tudo em Guy.
– A coleção do Dia Internacional da Mulher jamais foi tão importante desde o desenho de nossa querida Margareth, que faleceu no ano passado – ouvi, com dificuldade, Barbara dizer. – Erin Herington mostrou autenticidade e uma criatividade jamais vista em qualquer designer no mundo. Sua visão à frente pode ser chamada como a descoberta do século. A coleção, além de ser extremamente feminina, mostra o poder da mulher em uma sociedade ainda predominada pelo machismo. Com a atenção que os movimentos feministas estão recebendo na mídia atualmente, essa coleção será um lançamento de uma nova tendência no mundo da moda.
Abri a boca quando Barbara apontou para a tela da televisão. Olhei para Erin, que estava somente em sorrisos olhando para Nally, que era a única a celebrar de verdade sua vitória. Encarei Guy, que estava devastado, já que sua coleção havia dito ser de grande potencial. Tony, ao seu lado, o consolava enquanto abria um pequeno sorriso para Erin, já que os quatro ali sempre foram muito unidos.
Não pude sorrir. Encarei a tela da TV mais uma vez para ter certeza de que eu estava vendo certo. Encarei , que jamais saberia a causa da minha seriedade. Ergueu uma sobrancelha, me questionando a razão de não estar mostrando felicidade sobre a escolha de minha colega de equipe.
Voltei a encarar a tela, descrente. Em questão de segundos, minha felicidade se transformou em raiva, angústia, ódio. Eu apenas queria gritar e dar-lhe uns bons tapas até ver seu rosto ficar inchado e repleto de vergões. Mas não conseguia desviar meu olhar da televisão. Não podia ser verdade.
Ali, em tamanho maior do que possivelmente as joias serão, estava a coleção de Dia dos Namorados que Erin havia “criado”. O tema eu já sabia muito bem qual era. “A possibilidade da mulher utilizar joias por cima das roupas, como baby-looks e casacos.”
Estampado na televisão estava a coleção que eu havia feito com minha mãe.

Capítulo 16

Quem visse poderia achar que eu estava respeitando o momento de Erin e sua vitória em entrar na lista de designers, mas a verdade era que eu ainda estava em choque para ter qualquer reação. No momento seguinte em que fui tirada do transe, nós duas éramos encaminhadas à sala de reunião com a equipe de RH, Barbara, e Lauren para acertarmos o contrato sobre a coleção de 50 anos, mas assim que a porta foi fechada atrás de nós por Albert, do RH, me virei para Erin:
– Aonde você conseguiu essa coleção?
Meu tom de voz calou até Lauren, que não conseguia entender a razão da minha pergunta com tanta amargura e ódio expressos ao mesmo tempo. Erin me olhou em uma falsa surpresa:
– Bem, eu me questionava sobre o uso de joias pesadas somente em estações de clima mais leve...
– É mentira – a cortei e me aproximei mais dela, sem controle sobre meu corpo. – Pare de mentir, Erin! – ergui meu tom de voz, fazendo com que se obrigasse a colocar-se entre nós duas. – Você não imaginou nada disso!
– Senhorita , posso saber o motivo...
– Essa coleção é minha – olhei para Barbara, que arregalou os olhos, surpresa com minha acusação. Lauren levou as mãos à boca e parou de tentar me parar. – Você achava que eu simplesmente ficaria calada vendo um projeto meu ser pego por você, Erin? O que você tem na cabeça?
– Ela está maluca, acho que a fama lhe subiu à cabeça – Erin balançou a cabeça, olhando para o resto dos integrantes da sala. – Estou trabalhando nesta coleção há meses, . A senhora sabe disso porque entreguei o projeto faz mais de um mês.
– A senhorita Herington tem razão – Barbara disse. – Recebi o briefing neste tempo e em momento algum vi qualquer resquício de plágio.
– É claro que não viu – olhei para Barbara, que ergueu o queixo como meio de me fazer perceber com quem estava falando. – Este é um projeto que eu fiz com a minha mãe no seu leito de morte. Ninguém sabe sobre ele senão eu – no momento em que virei meu rosto para Erin, pude ver os olhos de se arregalarem, lembrando da existência da única coleção que não quis lhe mostrar e que ele não insistiu em ver. – Você não viu o nome da minha mãe assinado no fim de cada folha, Erin? Você não viu nossas anotações? Vai me dizer que você disse à senhora que a questão de ter as mulheres terem uma nova visão do mundo quando puderem sair da zona de conforto e atribuírem o uso das joias no dia-a-dia, por cima de casacos de frio ou cardigans era ideia sua?
Olhei para Barbara, que estava pasma com minha descrição, mostrando o óbvio que Erin não tinha nem se dado o trabalho de mudar a argumentação. Aquilo, de alguma forma, me pareceu um bom ponto para atacar.
– Posso falar todas as peças que existem nessa coleção. Todos os materiais usados, todos os detalhes, desde o uso de fitas de cetim e seda ao invés de fechá-las com fechaduras de ouro – comecei a falar, vendo os olhos de Barbara ir de um lado para o outro, a mesma mania que tem quando está associando as informações.
, você está fazendo uma acusação grave – Albert disse, tentando me separar de Erin, uma ação que parou de fazer ao me ouvir mencionar minha mãe. – Plágio é um crime. Você tem alguma prova?
– Vocês podem me perguntar qualquer coisa sobre essa coleção. Qualquer coisa! Se Erin tivesse somente se baseado na ideia, então tudo o que eu falar sobre sua descrição será errada e eu poderei ser punida pela acusação. Mas Erin não tem a capacidade de mudar, e pelos esboços mostrados na tela, também não tem a capacidade de ser criativa! – olhei para ela, que finalmente me olhava com uma raiva que tenho certeza ser menor que a minha. – Essa coleção, como todas as outras minhas que não foram para a , foi desenhada em papel timbrado com lápis azul ao invés do comum preto que usamos na ...
– Você está maluca! Ela está maluca! – Erin me interrompeu, sentindo a pressão. – Vocês não irão acreditar nessa louca, não é? – olhou para o resto dos das pessoas presentes na sala. Ao ver que ninguém respondia, voltou-se a mim: – Você não pode fazer isso somente porque surpreendi mais que você, ! Essa é minha ideia! Eu a fiz!
– Quanto tempo você levou para pensar nisso tudo, Erin? Três meses? Em três meses você não conseguiu fazer sequer e coleção de primavera que foi reprovada pelo conselho! Como pode, nesse mesmo tempo, ter criado uma coleção como essa? – apontei na direção da televisão ainda posta no palco do lado de fora da sala de reuniões. – Essa coleção foi feita em oito meses, Erin, oito! Com duas cabeças pensantes ao invés de uma! Foram duzentas e vinte e sete cores utilizadas em sua totalidade, você consegue dizer todas elas? Você fez os traços ou apenas entregou a versão digital?
– Senhorita , é melhor se acalmar – Albert disse em mais uma tentativa de não chamar a atenção de quem estava do lado de fora da sala, mas eu já havia perdido o controle há muito tempo. E Barbara e não me pareciam dispostos a me calar.
– Como é que eu posso me acalmar se ela plagiou a minha coleção? – olhei para ele, furiosa. – Não é qualquer coleção! – virei-me para Erin, que provavelmente pensava em uma maneira de me retrucar. – Quer ficar com a ideia, fique com a merda da ideia! Mas ela foi feita com Lucy ! Minha mãe! Ela não morreu na esperança de ver seu nome em uma produção em vão! Você está me ouvindo, Erin? – tentei me aproximar, mas parece que o sexto sentido de finalmente ativou, me segurando e me mantendo longe de Erin, já que mais alguns passos e eu lhe daria uns belos socos na cara. Soco. Uma pessoa como ela merece socos, não míseros tapas!
– Albert tem razão, , sei que a situação é delicada, mas acalme-se – segurou em meus ombros, me passando o famoso olhar de quem cuidaria de tudo. Mas eu não queria que ele cuidasse de tudo, eu queria que minha coleção saísse debaixo do nome de Erin, queria que ela fosse punida! – Herington, você possui os desenhos a mão? – olhou para Erin, que abriu a boca.
– E-eu devo ter em minha casa.
Deve ter? – Barbara perguntou, desconfiada.
– Ela não os tem – disse, com raiva.
– Senhorita , mais um comentário desnecessário e teremos de ouvir seu depoimento em outro lugar – Barbara olhou feio para mim, me calando. respirou fundo e olhou para sua mãe, erguendo uma mão, provavelmente o sinal dele para ela de que ele cuidaria de tudo.
Barbara estava tão nervosa quanto eu, era possível ver em seus olhos. Qualquer um perceberia, já que seu corpo se torna mais tenso e congelado, de modo que somente seus olhos e a boca se movem – e para todos é o suficiente, já que os dois fazem um bom trabalho em nos passar medo. Essa era a primeira vez que ela vivenciava uma situação de possível plágio. Enquanto ouvia minhas acusações e os surtos de Erin em me responder, via em seus olhos as informações percorrendo seu cérebro para que tomasse uma atitude pertinente à situação; isso, de alguma forma, me incentivava a acusar Erin ainda mais. Barbara me conhecia, foi minha tutora, saberia dizer quando estou mentindo ou não. Além dela, Lauren também me via com confusão, já que jamais havia demonstrado esse lado meu até então.
– Pedirei ao meu motorista que a leve agora para lá, gostaria de vê-lo – dizia durante meus pensamentos. Ele encarou Barbara, iniciando a seguinte pergunta: – A entrega foi feita...
– Em digital, sim – ela respondeu, séria, como se soubesse exatamente o que se passava na mente de . – Lauren, você não acompanhou o desenvolvimento de sua funcionária?
Lauren, ao ver que estava sendo inserida no meio da confusão demorou alguns segundos para responder. Seus olhos percorreram Erin, eu, e Barbara até finalmente dizer:
– Ela mencionou estar trabalhando em um projeto inovador, mas não tive acesso aos desenhos.
– Você não teve o acesso aos desenhos e ainda assim os enviou para mim? – Barbara ergueu a sobrancelha, mostrando-se finalmente perturbada. – Você aprovou uma coleção sem analisá-los?
– Eu pude ver os desenhos, sim – Lauren voltou atrás rapidamente. – Para mim era somente mais uma ideia genial a ser lançada como tendência pela ...
– E você viu a versão digital ou em rascunho? – perguntou. Mais uma vez, Lauren parou para pensar antes de responder. – Beckheart, eu lhe perguntei se viu em versão digital ou rascunho.
– Digital, como foi entregue à Barbara.
– É mentira! – Erin disse, recebendo o olhar de repreensão e desespero de Lauren. – Ela acompanhou todo o processo, me incentivou a continuar! Lauren sabe que a ideia é minha! Você sabe, Lauren!
– Sabe mesmo, Lauren? – Barbara perguntou. – Você está dizendo que só viu a versão digital final, enquanto sua funcionária está dizendo que você acompanhou o processo de criação. Me parece que há uma divergência nesta argumentação.
Aguardamos por uma resposta de Lauren, mas ela não veio. Estava tão atordoada por estar sendo posta contra a parede que sua mente provavelmente havia travado, a impedindo de dar uma de suas estúpidas desculpas que sempre utilizou para fazer as coisas da maneira que lhe convinha.
– Herington, traga a pasta com os rascunhos – disse, olhando seriamente para Erin. – Você tem uma hora para voltar com eles em mãos.
– Traga minha pasta com os meus desenhos – mencionei, recebendo o olhar sério de Barbara e , que se não estivéssemos em um momento de tensão, eu poderia facilmente compará-los por serem tão parecidos.
– Enquanto isso, Lauren, gostaria de conversar com você na sala de . Agora – Barbara a encarou, mandando um olhar que todos nós sabemos o que significava. Lauren seria demitida.
Assim que Lauren e Barbara saíram da sala acompanhadas de Albert, rapidamente pegou o celular para falar com seu motorista, dando a ordem de levar e trazer Erin para a empresa em uma hora. Ela saiu em passos pesados e, ao contrário do que eu esperaria por ter sido uma grande vadia por roubar meu desenho, não olhou para mim em sua saída.
Com todos fora da sala, deixei o peso de meu corpo cair em uma das cadeiras e a sensação de pranto tomou conta de mim tão rápido quanto uma correnteza em meio à tempestade. Eu sabia que a única prova disponível que tinha era minha própria memória, mas o que isso poderia valer? Não é um documento, não é uma prova concreta de que o desenho era meu e da minha mãe. Eu não fiz uma cópia porque achei que ela estava bem guardada dentro do meu quarto.
Lágrimas começaram a cair de acordo com que o sentimento de repulsa pelo meu descuido tomava conta da minha mente. Meu projeto com a minha mãe, a única prova de que nós duas tivemos uma boa relação entre mãe e filha ao invés de somente brigarmos por eu ter saído de casa contra sua vontade e agido como uma filha incorreta com desejos egoístas. Era um dos poucos resquícios de memória que eu tinha das tardes no hospital com ela antes de vê-la no caixão, prestes a ser empurrada para debaixo da terra, longe de mim. Como eu poderia me explicar para ela? Como eu poderia me lembrar de seus olhos arregalados e um protótipo de sorriso ao ouvir que ela poderia ter seu nome vinculado à uma coleção? Tenho certeza de que durante as visitas de suas amigas no hospital antes de falecer, disse que esse era um projeto futuro que eu colocaria em prática. Que ela também poderia se tornar uma designer de joias. Que poderia ser alguém diferente de todas as outras mulheres da cidade, que sucumbiram à regra de ter o emprego que seus pais decidiram, casar-se cedo e ser mãe de filhos e dona de casa. Eu era o resquício de esperança dela e agora ele estava sob o poder de Erin, que não faço a mínima ideia de como irá provar que a coleção é dela. E se ela realmente fez os desenhos? E se conseguiu apagar a minha assinatura e da minha mãe? Ela não deve ter sido tão burra de ter feito os traços digitais, achando que ninguém pediria a versão rascunho, principalmente sabendo que eu estaria observando, não é? Que pessoa estúpida faria isso?
Em meio ao desespero de meus pensamentos, uma mão acariciou minhas costas. Encolhi, na vergonha de estar passando um vexame, chorando de desespero na sala de reunião da empresa. Eu nunca havia feito isso na vida; por mais que a situação fosse péssima e eu não estivesse suportando a pressão, sempre consegui me controlar, descontar minha frustração pelos meus pensamentos e desabafar com Amy e Lana em casa no fim do dia. Mas agora era tudo diferente. Agora, percebendo toda a situação, vi que, na verdade, meus planos sempre foram conquistar um posto alto no mundo das joias para que pudesse lançar a coleção que fiz com minha mãe. Esse era o meu foco. Era completar a última promessa que nós havíamos feito juntas. É por isso que permaneci na até agora. Por isso esperei tanto pela coleção de 50 anos. Eu só queria a fama para chamar a atenção do mundo, e então surpreendê-lo com a ajuda da minha mãe.
E agora tudo estava acabado. A coleção estava nas mãos de Erin. Ela poderia ter roubado qualquer desenho meu. Qualquer um. Eu poderia dá-lo para ela, se ela quisesse tanto entrar nessa coleção.
– Eu não vou fazer perguntas sobre a autenticidade das suas acusações, disse, logo ao meu lado, enquanto sua mão espalmada acariciava minhas costas. Sua voz tentava me passar tranquilidade, mas eu podia sentir sua cautela em não dizer a coisa errada, como costuma sempre fazer por ser insensível demais. – Qualquer pessoa ouviria o seu desespero...
– Ela podia t-ter roubado q-qualquer desenho – comecei a falar, meu rosto ainda escondido no meio de meus braços. – Mas da minha m-mãe...
– Ela não devia ter roubado nenhum desenho – disse, sério. – Como ela fez isso?
Funguei meu nariz para voltar à sanidade e começar a pensar. Não era impossível que Erin tivesse roubado de verdade meu desenho, porque ela já esteve em minha casa, assim como todos da equipe. Por que Erin faria isso? Por que ela seria tão malévola a esse ponto? Ela não viu a mensagem que minha mãe escreveu naquele esboço? Nossas esperanças? A confiança dela em mim para lançar a única coisa que fizemos juntas desde uma boneca de papel machê quando eu tinha 8 anos? Ela não teve um pingo de compaixão.
– E-eu não sei o que fazer – coloquei as mãos na minha cabeça, apertando meus olhos em dor.
– Você irá se acalmar – disse. – Sei que está desesperada, mas preciso que você fique sóbria, . Você não pode deixar se levar pelas emoções. Chore, mas volte a si. Quando ela voltar, teremos de resolver essa questão da autenticidade, porque uma de vocês será demitida da empresa hoje. Se não ela pelo plágio, será você pela falsa acusação.
Funguei meu nariz, pouco me importando com a demissão. Para ser sincera, eu já não tinha mais vontade de fazer parte da empresa, eu não tinha mais vontade de desenhar. Achava que Lauren era a única pessoa imprestável no meio de nós, mas me parece que não se pode confiar em ninguém. Amy tinha razão quando disse sobre a questão do darwinismo. Sou o exemplo perfeito de uma pessoa fraca que será eliminada pela sociedade.
– Eu não tenho nenhuma cópia que possa provar – disse, baixo. – Eu não tenho nada senão minha memória – sussurrei, desesperada. – Vocês podem me demitir, apenas não deixem que a coleção saia no nome dela. Não coloquem o meu nome, mas coloquem o da minha mãe! – olhei para , agarrando bem seu terno. Vi seus olhos se arregalarem com a surpresa de me ver tão vulnerável. Ele não sabia lidar com essa parte de mim. Olhou de um lado para o outro, como Barbara fez quando ouviu minhas acusações, mostrando que estava pensando em uma maneira de solucionar o caso. Eu claramente estava pedindo por sua ajuda; pela primeira vez, me deixando ser feita de tola para que ele fizesse o que eu pedia por mim. – ...
– Essa coleção não será lançada se não for em baixo do seu nome e de sua mãe, – ele disse, sério. Meus olhos o encararam, estupefata. Ele estava falando sério? Ou apenas estava dizendo o que eu queria ouvir para que voltasse logo à sanidade?
Antes mesmo de eu pensar em uma resposta ou uma solução, gritos foram ouvidos do lado de fora da sala de reuniões em que estávamos. Viramos nossas cabeças na direção da voz de Lauren quando ouvimos nossos nomes serem berrados como se ela estivesse sendo torturada por milhares de facas.
–... E vocês adorarão saber, que no meio de toda as regras que somos obrigados a seguir, nosso querido chefe e sua funcionária estavam em um relacionamento secreto!
Olhei para com pavor. Ele estava petrificado. Sem tomar conta de seus atos, ergueu-se da cadeira e disparou em direção afora da sala. Enxuguei minhas lágrimas e caminhei apressadamente atrás dele, vendo Lauren com o rosto vermelho, Barbara tão travada quanto na porta do elevador que levava até a sala deste e todos com seus rostos vidrados na tela que há pouco mostrou nossos desenhos.
– Viram? Os dois estavam aproveitando o momento para celebrarem a vitória dela! – Lauren apontou para nós dois e em seguida iniciou as palmas acompanhadas de altas risadas. estava à minha frente, olhando para as fotos que passavam na televisão. Fotos nossas. No Caribe. Aqui em Nova Iorque. Em Maine. Em todo maldito lugar que fomos! – Vocês acham que seria assim? Que podem roubar a entrada de na coleção mais importante da história da , me demitir e saírem ganhando?
– Chamem os seguranças – ouvi Barbara dizer para Lottie, que estava tão chocada quanto todos aqueles presentes no escritório.
Lauren não poderia ter escolhido momento melhor para soltar sobre nosso relacionamento. Todas as pessoas importantes da empresa estavam presentes. Todos os diretores, coordenadores, funcionários, jornalistas.
– Não – murmurei, ao ver os jornalistas erguerem suas máquinas fotográficas na minha direção e de , disparando flashes e mais flashes de luz.
– Vocês todos achavam que a entrada de nessa empresa foi para uma melhoria. Para Barbara se aposentar... Besteira! – Lauren disse.
– É melhor você se calar – disse, mas ela soltou uma grande risada como resposta.
– Me calar? – seu corpo, que então não parecia mais tão sexy, se virou em sua direção. – Meu querido, você precisa me matar para eu me calar! Eu não trabalhei todo esse tempo aqui para sair calada! Não foi por isso que você me manteve aqui? – ela riu. – Não foi por isso que transou comigo?
Levei as mãos à boca ao ouvir a confissão de Lauren. Olhei para as costas de , que havia se posto em minha frente para me proteger das fotos dos fotógrafos, descrente do que havia acabado de ouvir. Então ele havia mesmo se relacionado com Lauren? Ele havia mesmo transado com ela?
– Tirem-na daqui – Barbara disse, eu sua melhor postura, para os seguranças que chegavam em peso. Os homens vestidos em paletós escuros, faziam seu trabalho carregando uma expressão medonha no rosto, mas que não amedrontou Lauren nem um pouco.
transou com todas as mulheres influentes desse escritório, divulguem isso, meus queridos! – ela apontou para os jornalistas, que faziam de tudo para gravar tudo o que ela dizia. – E para garantir que sua namoradinha fizesse parte da coleção, ele derrubou várias pessoas, inclusive sua própria mãe! – apontou para Barbara, cuja expressão no rosto mostrava frieza. A frieza que via nos olhos de quando nos conhecemos. – Você não lembra o que eu disse, Barbara? – Lauren virou o rosto para Barbara enquanto os seguranças começavam a arrastá-la para fora do escritório. – As coisas acontecem da minha maneira – ao passar pelos jornalistas, ela ainda disse: – Quem quiser saber mais sobre este caso, estou inteiramente à disposição. Tenho muito mais fotos para dividir com o público. Inclusive um vídeo de transando com Nathan Garden, da Thames!
Meus olhos se arregalaram de uma maneira que não sei como os globos não saltaram para fora. Senti os olhos de todos se virarem para mim assim que Lauren mencionou a última acusação.
transou com a concorrência para conseguir um cargo maior lá e deixar a ! – Lauren mudou pelo seu celular, via bluetooth com a televisão, as fotos minhas e de , para minha e de Nathan. No bar, no bangalô do Caribe, na cama.
Imediatamente murmúrios começaram a percorrer o escritório. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Ouvi as risadas de Lauren sumir assim que as portas do elevador se fecharam, mas a ausência de sua voz não me acalmou como deveria. As pessoas estavam se falando entre si sobre o caso, enquanto os fotógrafos tentavam ainda mais tirar fotos minhas atrás de . Minha imagem estava destruída. Os longos anos de esforço e honestidade detonados em cinco minutos.
– Gostaria de pedir calma a todos – disse, engolindo todo seu orgulho. – Todos os acontecimentos serão explicados—
– Senhor , o senhor e estão realmente em um relacionamento? – um jornalista iniciou a bateria de perguntas, dando brecha para que os outros fizessem o mesmo.
– Lide com isso – disse a Albert, que logo fez sinal para a equipe de RH entrar em ação. – Eu não quero nenhum jornalista fora desse andar até eu falar com eles – instruiu o homem e pegou em meu braço. – Vá para o meu escritório com Barbara – me empurrou para sua mãe, que por me ver estática, segurou em meu braço e, delicadamente, me guiou até o elevador, onde tive tempo de ouvir dar suas instruções para Lottie. – Chame meus assessores e advogados, e verifique onde diabos está Erin Herington.

Eu sequer tinha força para chorar. As lágrimas estavam ali, escorrendo pelas minhas bochechas, certamente uma reação que meu corpo estava tendo. Minhas mãos tremiam como as folhas das árvores em dia de chuva. Sentia meus olhos vidrados em algum ponto, mas sem enxergar. Minha vida estava acabada.
– Tome este chá – Barbara disse, chegando com uma xícara. – Você não vai se sentir melhor, mas irá se acalmar – se sentou ao meu lado, na poltrona à frente da mesa de .
– Acabou – murmurei, chamando sua atenção. – Minha vida. Ela acabou.
– Não diga besteiras – Barbara murmurou. – Esse tipo de coisa acontece todo tempo com as pessoas aqui em Nova Iorque. Você nunca viu alguém passar por um escândalo?
Olhei para Barbara, descrente. Eu havia voltado em mim, mas achava estar sob o efeito do dope da notícia, pois não conseguia entender como ela podia ser tão fria.
– Como consegue? – pergunto, vendo-a virar seu rosto para mim após depositar sua xícara no pires que segurava. – Como consegue ficar tão tranquila depois do que ouviu?
– Não sou eu a vítima – ela abriu um pequeno sorriso. – Ou talvez seja, já que serei a mãe enganada pelo filho que teve a coleção arruinada pela imprudência do próprio.
Deixei a xícara cair no chão, indignada com o que havia acabado de ouvir. Ela estava falando sério? Ela deixaria que tomasse culpa de tudo? Não agiria como uma mãe? Não tentaria proteger seu filho?
– E se eu fosse você, faria o mesmo, senhorita – ela olhou para o lado, onde as persianas da sala que dava visibilidade ao escritório estavam fechadas, impedindo de vermos o que acontecia no andar de baixo, mas mais importante, deles nos verem. – Diga que foi vítima do charme de .
– Como é que é? – me levantei.
Barbara ergueu uma sobrancelha enquanto me observava. Em seguida, respirou fundo, como se buscasse paciência para me explicar toda a situação:
– É bastante óbvio que Nathan Garden se uniu à Lauren Beckheart para armar esta cilada para . As fotos que foram tiradas não são de um paparazzi profissional. Elas foram estrategicamente planejadas. Se você disser que é mentira, Garden negará, dizendo que vocês transaram por algum motivo que piorará sua reputação. Por outro lado – ela voltou seu olhar para a xícara. –, se você disser que a seduziu, dirá que estava apaixonada por Garden, algo que ele não poderá negar, e sairá como a mulher que foi seduzida pelo chefe. Uma vítima tola.
Abri a boca, chocada. Quando achei que sabia sobre a personalidade víbora de Barbara, nunca iria imaginar que ela se estenderia até para seu filho. sempre foi claro sobre sua relação incompatível com sua mãe, mas achei que foi somente pelo fato dela tê-lo abandonado em um colégio interno desde pequeno. Agora, em pé em sua frente, ouvindo de sua própria boca para destruir o seu próprio filho, entendi a razão dele odiá-la tanto.
– A senhora não tem vergonha? – perguntei, vendo seus olhos olharem para mim, sérios. Eu conhecia aquele olhar. Eles eram feitos para calar as pessoas que queriam iniciar uma discussão. Mas o respeito que eu tinha por Barbara havia ido embora. – é seu filho.
– Que infelizmente puxou ao pai – ela suspirou, em pesar. – Um empresário que se importa com o bem-estar das pessoas não pode ser considerado um empresário. Quando se lidera uma empresa, , você deve saber que há duas opções: valorize as pessoas ou valorize a empresa – ela ergueu os dois dedos. – Se você é dono de uma empresa com o valor da , então está em um patamar em que não precisa dos funcionários, eles quem precisam de você. nunca soube enxergar isso. Achava que manter as pessoas próximas de si o faria ter total controle da situação. , escute uma coisa – ela deixou a xícara em cima da mesa e descruzou as pernas, para então cruzá-las de novo. –, lidar com pessoas é muito mais complicado do que lidar com máquinas. As pessoas possuem sentimentos que as fazem tomar atitudes desnecessárias, como a traição. Você teve bons exemplos de traição hoje.
não me trairia.
Barbara soltou uma grande risada como resposta.
– Ele está em uma relação com Lauren Beckheart desde antes de entrar na posição da presidência.
– Ele pode ter tido uma relação com ela antes, todo mundo já desconfiava – falei, calando-a. – Mas desde que nós dois começamos a sair, ele nunca mais olhou para ela.
– E o que te faz pensar que foi assim mesmo? – ela estava se divertindo às minhas custas, eu podia ver em seus olhos. Ser retrucada naquele momento não era algo ruim para Barbara. Era uma boa distração. Mas eu estava angustiada. Queria continuar falando até pegar em um ponto que ela demonstrasse desconforto, por menor a probabilidade daquilo efetivamente acontecer.
– O que te faz pensar que não tenha sido assim? – sorri, perdendo meu respeito por ela. – Você não o conhece. Eu o conheço mais que você. Melhor que você. Se tem alguém neste mundo que pode dizer sobre com mais certeza do que ele próprio sou eu.
– Até onde sei, a mãe dele sou eu.
– Dar a luz não significa que você é a mãe – digo. – Mãe é aquela pessoa que cuida do filho até o leito de sua morte. Que se preocupa e faz de tudo para que ele seja feliz. Você não é uma mãe. É apenas um corpo reprodutor que colocou no mundo uma pessoa. Você não tem um pingo de amor por dentro desse seu corpo metálico – apontei para ela. – Todo o amor que ele tem é porque fui eu quem dei. Eu mostrei a ele o que é ser amado. E é por causa desse amor que irei permanecer ao lado dele, independente do que me acontecer daqui pra frente.
Meu discurso a calou. É claro que Barbara estava furiosa. Eu a havia acusado de ser péssima em algo e, para piorar, disse que eu era melhor que ela. Para Barbara, não havia ninguém melhor que ela, nem mesmo Deus.
Durante nossa troca de faíscas pelo olhar, entrou na sala acompanhado de seus advogados.
– Erin Herington não voltou – ele disse, mas logo parou ao ver o ar entre nós duas. – O que está havendo?
Barbara permaneceu alguns segundos mais me encarando, para então, em questão de segundos, voltar ao seu comportamento anterior, tranquilo e comedido. Encarou , que a encarava desconfiado. Ignorando seu olhar, ela apenas perguntou:
– E onde ela está?
– Meu motorista disse que ela fugiu.
– Fugiu? – a vi erguer uma sobrancelha. – Como ela pode ter feito isso?
– Ele não me disse detalhes, mas disse que ela pediu que subisse sozinha. Ele permaneceu no carro a aguardando, mas ao passar vinte minutos sem notícia dela, tentou subir, mas o porteiro havia dito que ela havia saído.
– Então ela é culpada – Barbara concluiu, mostrando-se um pouco mais aborrecida do que antes, o que me fez sentir um pouco mais calma.
– É o que parece – ele disse. – Mandei o motorista ficar por lá, caso ela saia escondida – ele informou e logo olhou para mim, tocando em meu braço. – , você está bem?
Eu não conseguia tirar meus olhos de Barbara. Queria poder entende-la, mas ela era tão misteriosa quanto o próprio . Vendo-a da maneira que estava há pouco, era nada mais do que uma cópia malfeita dela. Quando digo ‘malfeita’, significa que mesmo usando as pessoas para seu bem pessoal, ele ainda possuía um resquício de humanidade dentro de si que o fazia se preocupar com o outro e tomar atitudes menos absurdas. Além disso, eu jamais imaginaria que nosso primeiro encontro com Barbara seria nas atuais circunstâncias. Todas as vezes que imaginava a cena, eu pelo menos alimentava a esperança de que ela fosse me aceitar por me conhecer até melhor que eu, afinal, convenhamos, se ela quer mesmo o bem para o próprio filho, saberia dizer que sou muito melhor que mulheres como Lauren, que apenas querem seu corpo, não ele como pessoa.
– E o meu desenho? – perguntei, desistindo de encará-la e virando-me para . Ele olhou para mim e Barbara mais uma vez, como se estivesse tentando entender o que estava havendo entre nós antes de ele entrar, mas ao perceber que não conseguiria, respondeu:
– Brandon irá abrir um pedido de invasão domiciliar como meio investigativo no caso de Herington. Por sorte, Albert estava junto na sala e fez seu depoimento há pouco à polícia em um salão do térreo, então temos um boletim de ocorrência que irá servir para receber a permissão. Enquanto isso, Lamar irá cuidar de Beckheart e Garden – ele disse, falando os nomes de seus advogados com tanta naturalidade que parecia que eu os conhecia. – Stuart está fora da cidade agora, mas disse que verificará junto com Lamar sobre as fotos, principalmente o vídeo – ele olhou para mim, fazendo com que minhas bochechas corassem com a vergonha. Uma das fotos mostradas por Lauren na televisão era claramente um screenshot de uma cena de sexo entre eu e Garden. A única vez que transamos no Caribe, e que inclusive soube do ato antes de eu mesma decidir realiza-lo. – Klint está chegando para me ajudar a lidar com a mídia. Ele dirá a melhor solução, não se preocupe – ele olhou para mim.
– Bom, já que tudo está encaminhado, vou para casa – Barbara disse, respirando fundo e se levantando de sua poltrona. – Peça a Lottie que marque uma reunião com os designers da coleção para que eu possa verificar qual deles gostaria de permanecer no projeto. Apesar de ter quase certeza de que não haverá desistências, gostaria de amolecer seus assentos para que se sintam seguros em ficar conosco – ela olhou para mim e não perdeu tempo em me analisar dos pés à cabeça como as mulheres costumam fazer quando estão avaliando outra pessoa; com seus olhos claros me encarando sérios, disse: – Considere o que eu disse, . Você sabe melhor que ninguém que é para seu próprio bem.
Semicerrei os olhos enquanto ela me enviava um pequeno sorriso antes de sair. Dois seguranças surgiram do além para escolta-la e garantir que nenhum fotógrafo atrapalhasse sua saída do escritório, muito menos os designers, questionando sobre o futuro da coleção com a notícia da minha polêmica. Isso porque eles mal sabiam do caso de Erin e o plágio.
fechou a porta atrás de si assim que Barbara passou por ela e olhou para mim:
– Está tudo sob controle.
– Não me venha com esse papo – digo, nervosa, dando-lhe as costas e ouvindo o som da porta sendo trancada. – Você não tem como controlar isso, é o projeto da sua mãe e é Lauren e Nathan que estão armando contra mim! – aumentei meu tom de voz, vendo permanecer calado, como se a solução de nossos problemas fosse somente o meu desabafo.
– Você me parece mais nervosa do que perturbada – ele observou, me deixando ainda mais brava.
– Você tinha razão sobre sua mãe – solto o ar e desabafo, vendo-o se aproximar de mim sem me tocar. – Ela é uma vaca.
– Até imagino o que tenha lhe dito – ele abriu um pequeno sorriso de ironia. – Me trair?     
– Como se eu fosse fazer isso! – falei mais alto, lembrando-me que havia jornalistas perto de nós dois no andar de baixo ao mezanino.
manteve seu sorriso estampado, mas os olhos percorriam todo meu rosto. Era como se ele estivesse orgulhoso de algo, mas não achasse que deveria expressar sua satisfação naquele momento. Eu achava que ele poderia estar pensando que finalmente pude enxergar Barbara como ela é, uma víbora, e parasse de tentar fazê-lo ter uma relação familiar com ela, mas ele estava focado em outra coisa:
– Você sabe o que tem de fazer, não sabe? – perguntou, sereno.
Admito que vê-lo daquela maneira me assustou um pouco. geralmente era, ou estúpido demais, ou despreocupado demais. Mostrar-se sereno não era uma maneira boa de se expressar naquele momento. Significava que ele estava prestando atenção em mim e em todas as minhas palavras. No meu estado, não sabia se gostaria que ele prestasse atenção em tudo o que dizia e levasse-as em consideração, pois a probabilidade de falar alguma besteira era imensa.
– Planejar a morte de Erin? – respondi, vendo-o revirar seus olhos.
, você viu como as coisas funcionam por aqui – ele apontou para fora, finalmente mostrando-se um pouco mais “humano” e falando com uma ligeira estupidez. – Até quando você irá se permitir ser a vítima?
Não lhe respondi de imediato. Eu sabia o que ele queria dizer. Sabia aonde ele queria chegar. estava claramente me pedindo para começar a jogar em seu time. Jogar sujo. Derrubar os outros sem dó nem piedade. Mas como uma pessoa que sempre foi contra esse tipo de comportamento poderia fazer isso? Como eu poderia me adequar a esse tipo de coisa? Derrubar alguém? Fazê-la sofrer a ponto de se matar? Essas coisas só aconteciam em filmes. Mas me parece que os filmes tem, sim, um pouco da realidade. Ninguém jamais pensaria que todos os planos que acontecem por detrás dos rostos inocentes dos personagens poderiam acontecer na vida real; que há pessoas que dormem com outras para mantê-las em seu papel no plano e outras que não se importam de roubar-lhes todo o dinheiro, contanto que ela mesma não ficasse sem.
– Você dormiu com Lauren? – perguntei, assim que o fato surgiu em minha cabeça pela minha linha de raciocínio. Imediatamente o sorriso saiu do rosto de .
– Você não quer falar sobre isso agora, não é? – ele perguntou, incrédulo, movendo-se para longe de mim, indo se sentar em sua cadeira. Não lhe respondi. É óbvio que eu queria. Ele era meu namorado, e Lauren, minha inimiga. Se esteve dormindo com ela ao mesmo tempo que esteve comigo, eu... Eu poderia tentar terminar com ele. – , você não...
– É só me falar. Dormiu com ela? Sim ou não? Se sim, por quê?
– Que diferença isso irá fazer? – agitado, foi até o bar que havia montado para si na semana que se apossou do cargo da presidência e serviu-se um copo de whisky, não dando tempo do gelo derreter na bebida, tomando-a em um só gole.
– Você sabe o tipo de diferença que irá fazer na nossa relação – me virei para ele, vendo-o encarar a janela que dava para a vista de Nova Iorque. – Eu posso aceitar jogar sujo daqui para frente, mas meu passado permanecerá limpo. Quero saber com que tipo de pessoa estou lidando.
– Eu não mudei, . Sempre fui assim—
– Para mim, você não era assim – o cortei, vendo seus olhos finalmente encarar os meus. – Talvez quando nos conhecemos, sim – olhei para o lado, sem graça de ser o alvo daquelas íris azuladas. Imediatamente lembrei do quanto o odiava naquela época. – Mas a partir do momento que entrei em um relacionamento com você, passei a confiar em tudo o que você faz e diz. Não é isso o que você sempre quer? Que eu confie em você? – perguntei, não recebendo uma resposta. A ausência dela me deixou nervosa. Não poderia ser pior do que transar algumas vezes, poderia? – Olhe, Lauren já colocou as cartas nas mesas. Você não tem como fugir desse assunto e eu não irei continuar nessa relação se você não for sincero comigo. Eu estou fazendo tudo o que você pediu. Contra minha vontade, mas estou – faço questão de deixar essa observação para que ele veja o sacrifício que venho fazendo para si e para o nosso bem. Fui até ele para que parasse de fugir dos meus olhos, tentando ignorar a conversa. Parei bem à sua frente e segurei seu rosto. – Será que você não pode fazer o mesmo por mim?
Senti minhas bochechas corarem ao ver seus olhos azuis me encararem de novo, mas desta vez permaneci firme, certa de que não desviaria o olhar e nem o deixaria fazer o mesmo. Eu iria convencê-lo a se abrir comigo ou não terei segurança para seguir em frente com toda a sujeira que ele quer criar.
– Você irá se afastar se eu lhe disser a verdade – ele murmurou. Apertei meus lábios, sentindo sua preocupação tocar meu coração.
– Bem, eu conheço você – comecei a falar. – Conheço Lauren. Acredito que sei o que vocês fizeram – engulo seco. – Eu só preciso ouvir de você e saber que não há mais segredos entre nós dois. Depois de você me falar o que esteve fazendo em Los Angeles e por que pediu para eu lhe desenhar tantas coleções que não pertenciam à – falei, me lembrando de mais algumas coisas que ele vinha fazendo misteriosamente às escuras e que eu estava morrendo de curiosidade em saber o que era.
, você...
– Não me venha querer adiar esse assunto, ! – o ameacei, vendo-o arregalar levemente os olhos azuis, quase fazendo me perder dentro deles de novo. – Eu quero saber agora.
O som de batidas na porta o salvou. Tão rápido quanto as notícias vieram à tona, se livrou de minhas mãos e foi até a porta da sala para destrancá-la e deixar a pessoa entrar, me deixando parada no lugar. Klint apareceu com seu uniforme de advogado, o mesmo que usava para vir todos os dias ao trabalho: terno escuro com a gravata combinando. Ao contrário de , ele não parecia gostar muito de estampas.
– Já conversei com os jornalistas – Klint entrou já falando. – Você está mesmo disposto a pagar todos eles para não dizerem nada? – perguntou, abrindo sua pasta na mesa de , que voltar a tomar seu lugar na cadeira do chefe. – Olá, – ele disse, desviando seu olhar para mim quando entregou algumas folhas de papel para . – Você está bem?
– Melhor do que há pouco – murmurei, ainda olhando para , que tentava a todo custo me ignorar.
– Resolverei esse problema o mais rápido possível – ele disse. Fiquei tocada pela sua tentativa em me consolar. Se estivéssemos ao telefone era possível que eu não sentisse sua compaixão e gentileza, já que sua voz permanecia travada, como sempre foi. Mas vi em seu olhar a intenção de me ajudar, e aquilo pareceu acalmar um pouco a minha ansiedade. – Preciso que você também dê o seu depoimento.
– Como faremos? – perguntou, chamando sua atenção.
– Pelo que conversei com Blade, o advogado responsável pelas questões da empresa, Beckheart já está sofrendo alguns processos pela sua falta de ética aqui dentro. Conversei com ele por telefone e me disse que confirmaria, mas tinha quase certeza de que ela recebeu várias denúncias desde sua entrada, sobre seu posicionamento e falta de profissionalismo em ambiente de trabalho – ele puxou a cadeira em frente à mesa de e apoiou a região dos cotovelos nos braços do móvel. – Vamos pedir um teste psicológico para ela. A ideia é que as pessoas comecem a acha-la maluca. Pelo que você me disse mais cedo, o comportamento dela foi absurdamente exagerado e se as câmeras do escritório estavam funcionando corretamente, podemos assisti-las para, quem sabe, utilizar como prova. Assim, você poderá dizer que foi ameaçado por ela a ter relações sexuais ou ela machucaria – apontou para mim. – Por esse motivo, deixou-se suportar essa pressão e obedeceu às ordens.
– Quem é que acreditaria nessa desculpa? – riu, jogando o bolo de papéis na mesa e encostando-se em sua cadeira. – Eu sou um , Klint, você sabe que nós sempre conseguimos o que queremos.
– Exatamente – Klint apontou para ele, animado. – Você poderia ter feito algo, mas não fez porque estava na jogada. Calma, me ouça, – ele ergueu a mão, impedindo de retruca-lo. Para dizer a verdade, até eu estava achando esse plano um pouco falho. Ele me parecia simples demais ou então complexo demais. Provar que Lauren tem problemas psicológicos é difícil, pois ela sabe muito bem o que faz. – Veja bem, as fotos mostradas por Beckheart de vocês dois, mostram momentos de romance em vários lugares. Sorrisos sinceros, olhares apaixonados... As pessoas irão comprar que vocês dois estão, mesmo, em um relacionamento sério – durante a explicação Klint olhou para mim. Ouvir da boca dele sobre sua perspectiva em nossa relação me deixou um pouco feliz, mas bastante desconcertada. – Se recebermos a aprovação do psicólogo informando que Lauren não está nas melhores condições, as pessoas não se darão ao trabalho de pensar que ela só é uma pessoa perturbada ou tomada pela luxúria, mas sim que ela é maluca. Além disso, as próprias denúncias feitas dentro da empresa poderão mostrar que a conduta dela como profissional mostrava que ela já não tinha plena sanidade de seus atos. Blade disse que irá pensar nas questões que o juiz fizer caso chegue a interpretar que há também uma falha na administração da empresa com relação a seus funcionários. Para finalizar, há a questão do senhor Beckheart, que lançou o pedido de divórcio.
– Como é que é? Ele já sabe? – arregalei meus olhos.
– Ele sempre soube – Klint abriu um pequeno sorriso. – Assim como ele sempre soube que tinha relações sexuais com Lauren; que Nathan Garden tinha relações sexuais com ela e vários outros homens.
– Lauren está transando com Nathan Garden? – arregalei meus olhos, chocada. – Desde quando? Mas... Como?
– Faz um bom tempo – Klint respondeu, pensativo.
– Ele é o advogado do marido de Lauren, me explicou, esclarecendo a razão de saber tanto da vida dela. – É ele quem está cuidando do processo de divórcio.
– Fiquei feliz que isso aconteceu, pois tornará mais fácil de ganhar o caso e a questão da separação de bens. Lauren estava sendo bem difícil com algumas propriedades dele na Europa – Klint soltou uma breve risada com .
– Ele abriu um processo de divórcio porque descobriu sobre todas as traições? – perguntei, abestalhada com a notícia.
– É claro que não, respondeu, rindo de minha ingenuidade.
– Senhor Beckheart também não é flor que se cheire – Klint explicou. – Ele só é discreto. As viagens de negócio dele nunca são exatamente negócios. Ele trabalha, sim, mas seu trabalho permite que ele possa fazê-lo em qualquer lugar, de modo que escolheu sempre ir para a Europa encontrar todas as suas namoradas. Lauren estava tão preocupada em conquistar os milionários de Nova Iorque que não viu que seu marido estava se divertindo com o triplo de mulheres em Ibiza.
– Se ele sabia, por que continuou casado com ela?
– Por causa do papel de Lauren na sociedade nova-iorquina. E o sexo, claro – respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Ele precisava de alguém que o mantivesse na alta sociedade mesmo estando longe daqui. Mesmo tendo a fama de traído, todo mundo que vive a nossa vida saberia dizer que ele não é tão tolo quanto parece. Uma pessoa que faz sua própria fortuna nunca é tolo, . Nós apenas nos fazemos para que seja mais fácil chegar aonde queremos.
– Mas claro que a questão do sexo também pesa. Ele não gosta muito das mulheres daqui. As acham magras demais ou cabeludas demais. Prefere as alemãs, como o próprio diz – Klint abriu um pequeno sorriso. – Agora que ele fixou seu maior negócio na Europa, não precisa mais da sociedade de Nova Iorque para mantê-lo no pedestal. Ele já arranjou outra mulher que faça o papel de Lauren por lá.
– E onde entra Garden nessa história? – perguntou, fazendo com que Klint abrisse sua maleta e retirasse de lá fotos dos dois juntos. – Você só pode estar brincando – soltou uma risada. Peguei algumas fotos de suas mãos e arregalei meus olhos.
, você mesmo pediu para que investigasse os dois – Klint ergueu uma sobrancelha. – Vai me dizer que achava que não fosse possível?
– É claro que não – ele olhou feio para o amigo. – Bem, isso facilitará bastante as coisas – respirou fundo. – Se os dois eram realmente amantes, poderiam estar planejando seduzir a mim, dono da empresa, e a , nossa melhor designer.
– Bingo – Klint sorriu, apontando para . – E caso encerrado.
– Caso encerrado? – perguntei, chocada. – Simples assim? Inventamos essa mentira fácil de ser elaborada e caso encerrado?
– Não estamos em uma série de televisão, disse. – Quanto menos complicados as coisas, mais fácil será para todos compreenderem a causa e acreditarem nela. Estamos lidando com a mídia, não a polícia. Se os dois são amantes e estão na mesma posição das empresas, eles poderiam querer unir as forças para chegar à presidência e tomarem as duas maiores empresas do ramo para eles.
– Isso se não foi a verdadeira intenção – Klint disse. – Com a história do divórcio, ela se mostrava mais decidida em arranjar um novo alvo ou novo meio de manter-se aonde está. Foi uma mão na luva ter se envolvido com Garden.
– Mas ela tem os advogados dela, não? – perguntei, insegura. – Eles não poderiam inventar mentiras como nós estamos fazendo?
– O que eles podem falar? – me olhou – Que mantivemos um relacionamento escondido da empresa e essa foi uma falta de conduta? E se for? Não somos proibidos. Além do mais, podemos dizer que não estamos em algo sério. Apenas saímos algumas vezes.
– Pelo que li das regras na época que pediu para revermos alguns conceitos, a empresa nunca impediu ninguém de paquerar seus companheiros, apenas de que se firmarem uma relação, não devem permanecer no mesmo ambiente de trabalho, ou seja, somente em caso de noivado ou morarem juntos – Klint concordou com a teoria dele.
– Além do mais, veremos com Blade depois, mas é praticamente uma certeza que Lauren possui muito mais processos e casos de antiética cravados em seu nome do que nós dois juntos – sorriu. – Este é um caso fácil para você, Klint. Apenas lide com a mídia, e Lamar e Stuart farão o resto com relação a Lauren e Garden. Não quero que você entre nesse processo, porque já está lidando com o divórcio de Beckheart. Pode atrapalhar os seus planos e os meus – deu dois tapas no ombro de Klint, que suspirou e concordou, pegando os papéis. – Não há necessidade de mudar nada mais. Quero estar junto quando eles assinarem esse contrato. Todos devem sentir a pressão de estarem combinando algo comigo. , fique aqui na sala, voltarei em breve.
Assenti, sem responder nada. Não havia como opinar quando estava em seu papel de macho alfa. Agora sim ele parecia ter tudo sob controle. De tudo, o que eu mais esperava era que ele recuperasse meus desenhos das mãos de Erin, mas talvez não receba nenhuma notícia sobre isso hoje. Eu ainda tinha de pensar em como meus desenhos foram parar nas mãos dela. Queria descobrir a todo custo e fazê-la pagar junto com qualquer pessoa que estivesse envolvido neste roubo.
Klint reuniu tudo o que havia tirado de sua maleta e as devolveu no lugar, abrindo um sorriso tranquilo para mim, como fazia quando conversávamos.
– Sugiro que ligue para Lana, ela está bastante preocupada. Tive de falar para ela porque estávamos no meio de um almoço com Victoria. Infelizmente, não consegui falar com Jordan para ele avisar Amy, mas Lana disse que o faria. Então agora devem ser duas pessoas ansiosas pelo seu telefonema ao invés de uma só.
– Obrigada, Klint – sorri, aliviada. – Em um ato de desespero, eu me esqueci que você era advogado – ri, sem graça. Ele balançou a cabeça.
– Você irá se acostumar a dar os mesmos passos das pessoas daqui – ele comentou, dando-me a entender que aprovava a vontade de em me fazer ser um pouco menos trouxa. – Se precisar de um advogado, tem meu número.
– Obrigada – disse, mais uma vez, tendo a certeza de que ligaria para ele, já que não havia ninguém mais que pudesse me ajudar caso eu precisasse, mesmo provavelmente colocando todos os seus advogados para me representar.
Assim que ele fechou a porta atrás de si depois de sair, voltei a me sentar na poltrona, pegando o celular que havia trazido há pouco. Fiz a ligação conjunta pelo Facetime e não demorou dois toques até Amy e Lana atenderem com seus olhos bem arregalados.
– Menina, o que foi que aconteceu? – Lana perguntou, vendo pelo fundo de sua imagem, que estava em seu consultório. – Klint saiu correndo da mesa falando que você estava em uma encrenca!
– Você está bem? – Amy perguntou da casa que estava morando com Jordan. – Estava preocupada, mas Lan disse para não ligar para você agora.
– É, está um caos. Erin roubou meus desenhos que fiz com a minha mãe.
– MENTIRA! – as duas gritaram, surpresas. – COMO É QUE É?
– Quem é essa vagabunda que eu vou correr atrás dela com uma coleira de espinhos de titânio! – Lana jogou sua pinça no chão, tão nervosa quanto eu quando recebi a notícia.
– Erin, vocês lembram? Que trabalha comigo?
– Eu só conheço Claire e Amber, . Elas eram as únicas que você trazia para casa quando nós estávamos lá – Amy disse sob a concordância de Lana na outra parte do visor, tentando passar tranquilidade pela sua voz. Ela sempre fazia isso. Achava que quando as pessoas estavam em um momento de desespero, não precisavam de outra para deixa-la ainda pior, por isso, acreditava que era importante controlar sua tonalidade de voz para uma tranquila, de modo a acalmar a pessoa. – Você não disse que Amber havia sumido?
Era verdade. Amber. Amber havia sumido. Como posso não ter pensado nisso antes?
– Mas ela e Claire nunca se deram muito bem com Erin – murmurei, vendo as duas resmungarem qualquer coisa. – Não pode ter sido ela, gostava muito de mim.
– Eu gostava muito da esposa do reitor Brown, mas minha vontade de ter o diploma era maior – Lana disse, olhando para as unhas. Amy teve tempo de falar um “Lana!” como repreensão antes que eu pudesse interpretar da maneira errada o que Lan havia acabado de dizer: – O que eu quero dizer, é que nem sempre as pessoas podem ser boas como aparentam. Não dá para se confiar em ninguém, por isso eu só tenho vocês duas como minhas confidentes.
– Não deixo de concordar com Lana – Amy disse. – Amber sabia que você ficaria sabendo quando contou para Claire. Ela poderia ter te ligado e dado alguma satisfação ou pelo menos enviar uma mensagem dizendo que quando estiver com a mente pairada, ligaria para você a fim de esclarecer qualquer mal entendido.
Apertei meus lábios, tentando não acreditar nessa questão.
– Pare de arranjar motivos para não desconfiar dela, – Lana disse.
– Tudo bem. Talvez ela seja uma boa suspeita – cedi um pouco. Eu pensaria melhor sobre Amber depois de terminada a nossa ligação. Iria fazer mais uma tentativa de falar com ela para saber de tudo e se ela não me responder, eu a colocaria como uma das principais suspeitas da minha lista. – Eu vou sair da empresa.
– COMO É QUE É? – elas gritaram novamente.
– Sair? Por quê? Eles não têm culpa da vadia ter roubado o seu desenho! – Lana disse, escandalizada. Amy tentava falar diversas coisas ao mesmo tempo, mas apenas jogava palavras sem nexo.
Respirei fundo, pensando em toda a reviravolta que aconteceu nas últimas horas. havia dito sobre a possibilidade de eu ser demitida, caso Erin provasse que os desenhos eram dela; com sua fuga, eu estava salva, mas agora com a notícia do meu relacionamento com e o suposto vídeo com Nathan Garden, minha carreira estava um desastre. Eu não tenho cabeça para fazer nada além de pensar; estou com um bloqueio tão grande que mal consigo pensar no formato de uma aliança.
Contei para as duas todos os acasos, o que as deixaram ainda mais agitadas de raiva. Amy parecia querer saltar para dentro de seu celular e sair aqui para dar uns bons tapas em Lauren e Barbara, mesmo comigo lhe dizendo que elas já não estavam mais no prédio. Já Lana queria vingança. Na minha atual circunstância, deixei-me ouvir o que ela tinha para dizer, afinal, quem melhor para me dar ideias de como trapacear bem, senão Lana?
– Você deveria derrubá-los de suas posições. O problema de uma pessoa que claramente traía o marido, é que surgir com essa fofoca não é uma surpresa para ninguém e ela não será tão afetada quanto merece.
– Klint não te falou? – perguntei, vendo-a erguer sua perfeita sobrancelha para mim. – Ele é o advogado do marido de Lauren.
– Ah, sim, isso eu sei – ela balançou a mão. – Nunca vi alguém gostar tanto de ficar sob as ameaças de uma separação. Para ela, é melhor isso do que ser uma divorciada sem o dinheiro do marido para gastar.
– Você sabia? – perguntei, boquiaberta. – Você sabia e não me contou? – abri a boca, ofendida. Lana suspirou. Quando ela tinha essa reação, significava que já sabia que essa cena poderia vir a acontecer e não a evitou porque alguém a impediu.
– Klint me pediu que não falasse com ninguém sobre os casos de seus funcionários.
– E desde quando você obedece a ordem de alguém?
– Desde que ela o ama – Amy respondeu por Lana, recebendo um xingo da mesma. – Estou mentindo? – ela abriu um sorrisinho.
– Então – comecei a falar, pausando para ter tempo de raciocinar sobre os acontecimentos do passado. – Então você sabia que ela estava dormindo com ! – Lana encolheu os ombros, mostrando-se arrependida. – Você sabia que ela estava no meio de um divórcio na época do Caribe!
– Para ser sincera, eu descobri lá – ela sentou na maca de seus pacientes. – Você lembra quando disse que havia ouvido o surto de com Klint do banheiro? – assenti, concordando. – Então. No meio da discussão, Klint protegeu você, , dizendo que ele não podia descontar a raiva em ti, já que ele mesmo estava em um relacionamento escondido com Lauren. Na verdade