Another life

Escrito por Mylla Martiniano | Revisada por Andressa (até capítulo 19) | Angel (até capítulo 23) | Natashia Kitamura (20-22 / 24-)


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Capítulo 1

Aeroporto Tegel - Berlim, Alemanha.
Uma voz feminina anunciou que o meu vôo e de John iria partir. Fomos até o portão de embarque cinco. Despedi-me de todos, demorando em especial em Jennifer, minha melhor amiga, que agora, chorava como um bebê, e Sam, que me apertava contra si a todo o segundo. Ele não queria que eu fosse e eu não queria ir.
- Não se esquece de mim, Sam. - Eu pedi, quando ele segurou meu rosto em suas mãos. Sentindo as lágrimas brotarem dos meus olhos e deixei que elas saíssem.
- Eu não vou esquecer, eu prometo. - E então ele me beijou. Me beijou como nunca. Um beijo de despedida. Um beijo de adeus.
Enquanto a funcionária do aeroporto verificava os meus documentos, olhei para trás, dando uma última olhada nas pessoas que me amavam, e John colocou a mão nas minhas costas, me encorajando a entrar no corredor que nos levaria para o avião.
Eu não pude mais vê-los. Meu coração se partiu.

FlashBack – Uma semana atrás.

– O que houve, Sam? O que aconteceu com você? – Perguntei, vendo Sam com uma cara horrível, branco feito papel. Uma mescla de medo, horror e.. Pena. Ele ficou olhando para mim sem dizer nada. Pude ver que seu peito subia e descia rapidamente. Aquilo me assustou.
- Você não viu o noticiário das oito? Não está sabendo de nada? – Perguntou receoso, ainda olhando fixamente pra mim.
- Claro que não Sam! – Falei como se fosse uma coisa óbvia. - Eu acabei de acordar. – Não estava entendendo nada do que ele estava falando. Por que ele não me contava logo o que tinha acontecido?
- , a sua mãe. – Ele disse com a voz carregada, totalmente diferente da sua voz carinhosa. - Ela sofreu um acidente.
- Minha mãe? – A mensagem demorou a processar, estava confusa. Eu tinha escutado bem? – Onde ela está?
Ele não respondeu. Ficou olhando pra mim como antes. E uma angústia no meu peito surgiu com uma força abrupta. Meu coração acelerou, e o desespero começou a crescer dentro de mim.
- Sam.. – Comecei, tentando ficar calma. – O que aconteceu com a minha mãe? Onde ela está?
- Ela.. – Ele respirou fundo, olhando para outra coisa em vez de mim. – Houve um acidente de estrada para o aeroporto de Dublin. Vários carros bateram e o da sua mãe foi um deles e acabou não sobrevivendo.
Eu não podia acreditar no que Sam estava dizendo. Era mentira! Minha mãe num acidente de carro? De repente, foi como se o chão se abrisse sob meus pés, e eu fosse engolida por um buraco negro sem ter onde me segurar. Meu peito doía, meu coração estava mais acelerado do que um dia eu podia imaginar que fosse possível. Fiquei paralisada, olhando para Sam a minha frente. Ele estava receoso, esperando uma reação minha, mas a única coisa que eu consegui fazer foi começar a chorar desesperadamente. Grossas lágrimas desciam para minhas bochechas, pela minha boca, deixando um gosto de água salgada nela. Minhas pernas ficaram bambas, frágeis, como se eu não tivesse ossos para sustentá-las. Eu sabia que elas não agüentariam muito tempo e quando me dei conta, estava no chão, tremendo compulsivamente. A dor no meu peito estava aumentando de uma forma assustadora, me corroendo por dentro, tomando cada parte do meu corpo, entranhando pela minha pele. Meus batimentos cardíacos estavam acelerados, descompassados, era como se o meu coração fosse parar a qualquer momento. Depois de algum tempo, pude sentir a respiração de Sam do meu ouvido. Ele estava sentando ao meu lado, me abraçando de lado com certa força, com o rosto perto do meu, dizendo palavras que eu não conseguia entender. Minha audição não estava boa, meu tato e o resto dos meus outros sentidos também não. Mas eu não poderia prestar atenção em mais nada.
Eu estava sozinha agora.
As lágrimas desciam com mais força e em mais quantidade a cada segundo, a cada instante que eu me lembrava que não teria mais minha mãe comigo.
Uma tristeza tão grande, tão profunda se apoderou de mim, que eu pensei que nunca mais fosse ser feliz. Quando me deu por conta, estava chorando aos berros, e Sam, sem saber o que fazer, continuava me abraçando, me consolando, mas nada daquilo faria diferença agora porque nunca mais eu iria ver minha mãe. De repente aquela sensação que eu senti o dia inteiro fazia algum sentido pra mim como se fosse uma intuição e percebi que a última vez em que eu havia visto a minha mãe, nós estávamos conversando no meu quarto, dias antes, sobre nossa viagem de férias de natal. Nós nunca mais faríamos planos de viagens ou de qualquer outra coisa. Nunca mais riríamos juntas, contaríamos coisas uma pra outra. Nunca mais o cheiro do seu café de manhã antes de ir pro colégio invadiria minhas narinas, nunca mais sentiria o seu perfume ou seu abraço de consolo.
O nosso laço inquebrável que eu pensei que existisse, não estava mais ali. Ele tinha se partido em milhões de pedacinhos e estavam espalhados pelo ar, invisíveis.
Senti ódio. Ódio de todas as pessoas, das envolvidas no acidente ou não. Ódio de mim por não ter tempo de me despedir dela, de dizer o quanto a amava, o quanto ela era importante de mim. Isso só fez meus gritos ficarem mais e mais altos, minhas lágrimas mais grossas, mais pesadas e mais dolorosas. Senti-me sufocada com aquela dor que não cessava, não parava de aumentar, apertando meu coração de uma forma esmagadora.
Meu peito doía a ponto de eu querer arrancar meu coração. Angústia, medo, tristeza, desespero, ódio.. Tudo junto num só corpo. No meu corpo. Fechei meus olhos com força na intenção de fingir que tudo era mentira, abraçando minhas pernas, querendo que aquela dor passasse, mas eu sabia que ela passaria nunca. Ela só aumentava e aumentava, tomando conta de todas as partes do meu corpo. Eu queria que aquilo parasse, que tudo fosse uma brincadeira horrível que Sam tinha feito.
Parei de gritar. Não porque não tinha mais vontade, mas sim porque não havia mais forças. Meu corpo foi sendo erguido por mais braços além do de Sam e quando vi, Jennifer estava me segurando. Ela e Sam me carregavam com certa dificuldade porque meu peso todo estava nos braços deles. Eu estava paralisada a tal ponto que não sentia nenhum dos meus membros.
Fui colocada no sofá, eles se entreolharam na minha frente, conversando baixinho, enquanto eu voltava a abraças minhas pernas. As lágrimas continuavam descendo sem pedir permissão, sem aviso prévio. Minha cabeça girava como se eu tivesse acabado de sair de uma daquelas xícaras de parques de diversão, senti uma náusea muito forte, uma louca vontade de vomitar, mas não tinha nem forças para tentar colocar algo para fora.
Entrei em um estado de choque desesperador.
- .. – Jennifer se ajoelhou na minha frente, acariciando meu braço. – Precisamos falar com o seu pai. – Ergui meus olhos nublados de lágrimas, tentando entender o que ela queria dizer com aquilo. – Você sabe onde podemos encontrar o número dele?
- Na gaveta da estante. – Respondi com a voz fraca. Fraca demais.
Sabia que minha mãe guardava um caderno com todos os números dos meus amigos, clientes e é claro, de John. Jennifer discava os números enquanto Sam sentava ao meu lado, me abraçando como antes.
- Vai ficar tudo bem, - Ele beijou minha testa, colocando minha cabeça em seu ombro.
Eu duvidava muito que isso fosse acontecer, mas não respondi nada. Deixei me levar pelo seu consolo.
Olhei de soslaio para Jennifer e vi que ela estava ao telefone falando freneticamente com alguém. Podia ser John, mas eu não pensei muito sobre isso.
- Ele vai pegar o primeiro vôo e vai vir o mais rápido que puder. – Ela avisou, sentado do meu outro lado.
Sabia que ela e Sam trocavam olhares. Estavam com pena de mim, odiei-os por isso. Não queria que sentissem pena de mim, porra!
Sam levantou, dizendo que teria que ir em casa e mas que voltaria logo. Jennifer continuou sentada, segurando minha mão.
Meu choro foi diminuindo gradativamente, só restando os soluços fortes e altos, e minha respiração ainda acelerada, também foi diminuindo. Fechei os olhos, descansando minha cabeça numa almofada qualquer. Jennifer sentava, olhava para mim com um olhar tão estranho que mal a reconheci.
Não era pena, nem tristeza. Era frieza, pura e simples frieza.
A porta de entrada foi fechada e Sam apareceu no hall, chamando Jennifer.
Fiquei perdida em pensamentos, alheia a todos ao meu redor. Meus olhos estavam abertos, mas era como se não estivessem.
Sam voltou e nem me dei conta de quanto tempo ele estivera fora. Ele deu um sorriso fraco para mim, sentando no espaço vazio, fazendo carinho na minha cabeça. Não dissemos nada. Não havia nada para ser dito.
Jennifer voltou trazendo uma caneca, entregando-a a mim, dizendo que me faria bem. Os meus sentidos estavam de volta e eu pude sentir um gosto estranho na bebida, mas continuei entornando-a para dentro. Depois de colocar a caneca em cima de mesinha de centro, me ajeitei no sofá, e Sam saiu para me deixar deitar direito. Alguns minutos depois meus olhos começaram a ficarem pesados, me obrigando a fechá-los. Eu estava cansada demais para lutar para deixá-los apertos. Minha cabeça ficou pensada e por fim, adormeci.

Fim do FlashBack

- Você vai gostar de York, é um lugar lindo. - John comentou quando nos acomodamos nas cadeiras quinze e dezesseis. – Eu sinto muito, . Sinto muito. - Ele colocou a mão em cima da minha brevemente, mas eu não relutei aquele toque. Mantive meus olhos fixos lá fora, ainda chorando.
Eu não estava feliz com isso e não fazia questão nenhuma de esconder. A ideia de morar com ele e sua família não me agradava, mas o que eu podia fazer? E mesmo que eu não queira admitir, eu precisava dele. John era meu pai e responsável pelo meu bem estar, mesmo que depois de tanto tempo. E ainda tinha a história dos calmantes. John me dopava por todos os dias desde que chegara e eu ainda me pergunto se era para evitar que eu assistisse os preparativos para o enterro ou se apenas me dopava por medo de que eu pudesse fazer alguma coisa.

FlashBack dois dias atrás.

A cabeça de John preencheu minha visão. Deveria estar frio, pois ele segurava o mesmo casaco grosso preto de quando chegara. Parou perto do armário, encostando-se nele, me encarando. Suspirou algumas vezes, passando a mão nos cabelos, como eu fazia quando estava preocupada, nervosa, ansiosa ou tudo junto. Irônico pensar na nossa semelhança não só fisicamente.
- Você está bem, ? – Foi tudo o que ele disse, ou melhor, perguntou. Não gostava do fato dele me chamar pelo apelido, só as pessoas íntimas me chamavam assim, mas deixei pra lá.
- Não. – Eu respondi francamente, desviando meus olhos para as paredes do meu quarto. Elas pareceriam ridículas com aquele tom alegre e feliz. Elas deveriam estar pretas.
- Precisamos conversar, você e eu, – Ele dizia enquanto voltava a mexer nos cabelos. – sobre como as coisas vão ser agora.
- O que quer dizer? – Perguntei aumentando o meu tom de voz, encarando-o. Parecia que uma pedra de gelo estava descendo pela minha garganta e caindo com estrépito no meu estômago.
- Você sabe o que eu quero dizer. - John falou num tom calmo e cauteloso. Totalmente diferente do meu. - Você não pode ficar sozinha aqui e eu não posso vir pra cá pra ficar com você, então, você vai voltar comigo...
Eu levantei abruptamente, ficando de pé, com os olhos semicerrados.
- Você só pode estar louco por pensar uma coisa dessas. - Cruzei os braços como uma criança faz quando é contrariada, mas que se foda! Naquele momento eu não ligava por estar parecendo infantil.
- ... – Ele voltou a falar em tom de quem vai começar a fazer uma concessão.
- Não! – O interrompi, protestando, quase batendo o pé. – Não! Não vou com você! Eu tenho uma vida aqui, tenho meus amigos, e além do mais, está é minha CASA!
- Não , não é mais. – Ele balançou a cabeça pra mim, falando o meu nome como se estivesse explicando uma coisa muito difícil a um retardado. – Você não vai ficar aqui sozinha, você vai pra minha casa, porque você é minha filha.
- Você deixou de ser meu pai desde que largou a minha mãe há dez anos e voltou para a Inglaterra para se casar com outra mulher! – Berrei, e eu acho que isso não deve ter machucado o bastante os sentimentos dele, se é que ele tinha algum sentimento por mim. John apenas balançou a cabeça, em sinal de negação.
- Você sabe muito bem que eu não larguei a sua mãe, apenas voltei para o meu país e lá conheci outra pessoa. Mas não vamos discutir isso, não nesse momento. - Ele soltou um suspiro longo antes de continuar. - O fato , é que você vai pra Inglaterra comigo. Já consegui uma transferência de colégio pra você e Helen já está providenciando o seu quarto.
Eu abri a minha boca para protestar mais uma vez, mas nenhum som saiu dela. Eu estava chocada, a raiva borbulhando na minha corrente sanguínea como a mesma velocidade de um carro de fórmula um. Minha vontade era pular na garganta daquele desgraçado, e apertá-la com toda a minha força até que seu o último estoque de oxigênio acabasse.
- Você não fez isso... – Foi tudo o que eu consegui dizer quando minha voz voltou. – Eu não acredito que você fez isso...
- ... – Ele começou de novo, e novamente o interrompi. Não ia desistir sem lutar.
- Você fez tudo nas minhas costas, você me dopou e brincou com a minha vida como se eu fosse uma boneca!
- Nosso vôo parte segunda de manhã. – John anunciou como se não fosse uma bobagem tudo aquilo. Como se ele estivesse apenas dizendo o dia que sairíamos para viajar com a família.
- Não vou a lugar nenhum com você. – O desafiei, voltando a estreitar meus olhos.
- Eu sou seu pai, você querendo ou não, e vou exercer o meu direito como tal. Não posso e não vou deixar você a cuidados dos outros. Segunda pegaremos um avião para Londres e não há nada que possa fazer pra mudar isso, já foi decidido! - Ele falou de uma vez só, sem parar nem para respirar, despejando tudo em cima de mim ainda com seu tom irritantemente calmo.
E agora? O que eu iria fazer? Eu o odiava a cada segundo que nos fitávamos. John estava lá, calmo, agora longe do meu armário, segurando o casaco, com seus olhos me perfurando, me desafiando a dizer que não iria com ele, me desafiando a não ir com ele. E foi aí que eu explodi. Eu achei que não seria capaz, mas lá estavam as lágrimas que pareciam ter secado. Lá estavam elas descendo sem parar, mas eu não estava triste, eu estava me rasgando de raiva e John sabia que era dele. Ele sabia que as minhas lágrimas eram de ódio e não de tristeza, dei um último berro, batendo a porta do meu quarto com força. Desci as escadas, derrubando tudo que aparecia na minha frente. Precisava descontar toda aquela raiva que estava contendo desde que soube a morte da minha mãe. Todos aqueles sentimentos ruins afloraram dentro de mim, e eu não vi mais nada diante dos meus olhos. Quando me dei conta, estava na sala, pegando o abajur favorito da minha mãe, jogando-o contra a parede, gritando de fúria. A próxima coisa que foi meu escape de raiva foi um vazo de flores do campo, ao que teve o mesmo destino do abajur; a parede. Eu estava pouco me importando com o que estava fazendo, eu só queria quebrar tudo, gritar e chorar. Escutei passos vindos da escada, e John apareceu diante de mim, mas não ousou entrar na sala e tentar me impedir. Apenas assistia enquanto eu estava tendo minha crise histérica. Eu berrei mais uma vez, procurando como uma leoa procura sua caça, mais algum objeto que eu pudesse quebrar e logo vi a mesinha de centro. Bati com toda a minha força contra a mesa, tendo sorte por nenhum caco de vidro me cortar. E mesmo que isso acontecesse, eu duvido que pudesse sentir. Nenhuma dor poderia ser comparada com a dor gigantesca que estava despedaçando o meu coração. Eu não queria ir! Não queria deixar Sam, Jennifer, nem muito menos a minha vida para trás. Eu precisava deles, por que John não entendia isso? Eu estava revoltada porque minha mãe havia morrido e havia me deixado com aquele homem horrível.
Minha raiva não passou, e quando vi, estava atacando a estante de livros, tirando as prateleiras do lugar, quebrando os objetos dali, abrindo os livros e rasgando-os sem pensar duas vezes. Rasguei até mesmo os meus prediletos, sem remorso algum. Tinha completa e absoluta certeza que não era uma cena agradável de ver, mas eu continuei destruindo cada parte da sala que conseguia que minhas mãos eram capazes de tocar. Meus olhos baixaram para uma foto, que agora se encontrava com o porta-retrato quebrado, meu e da minha mãe que havíamos tirado nas férias do ano passado na capital, em Berlim. Ver aquilo foi como se minha mãe estivesse morta na minha frente. Tudo estava acabado, e eu estava desesperada. E então, eu caí de joelhos no chão, sem gritos ou mais ataques loucos. Apenas chorava, chorava e chorava, sem saber o que fazer diante da realidade que se opunha para mim sem nenhum pouco de delicadeza. Senti braços em volta de mim, mas dessa vez não era Sam, pois logo eu escutei John me pedindo desculpas, em tom quase tão desesperado quanto eu me encontrava. Eu não iria desculpá-lo. Nunca.

Fim do FlashBack

Desembarcamos no aeroporto londrino de Heathrow, e John ligou para alguém enquanto eu ia numa loja comprar chocolate para ver se melhorava o meu humor. E funcionou. John mal me viu chegar e já começou a me bombardear de informações sobre a "nova família". Primeiro de tudo: eu tinha uma irmã de nove anos chamada Emma. Dá pra acreditar nisso? E então ele falou sobre , o tal cara com quem Jennifer falou pelo telefone quando o avisou sobre tudo. Ele tinha dezessete anos, e para o meu alívio ou não, John me contou que , ou , para os íntimos, não era meu irmão de sangue. Era na verdade filho do outro casamento de Helen, sua atual esposa. Bom, pelo menos isso. Já basta ter uma irmã, não precisava de mais um! Nem entendi porque ele continuava a me contar tudo aquilo, afinal eu só vou terminar o colégio esse ano e voltar para Kassel. Sim, esse era o plano. Eu vou me formar e voltar para a minha casa de verdade, ao lado dos meus amigos.
Continuamos andando para a entrada do aeroporto, empurrando nossas bagagens, enquanto John me contava que ele tem uma empresa de engenharia e Helen é fotógrafa numa agência de modelos famosíssima. O que me fez pensar que ambos tinham muito dinheiro.
- Ali está ela. – John apontou para algum ponto do aeroporto.
De repente, uma mulher de cabelos castanhos claros e lisos até os ombros, acenou para nós. Logo reparei na sua bolsa azul clara da Chanel e as sapatinhas claras, deixando aparecer sua estatura média. Magra, mas não aquela coisa magricela, a mulher mais parecia uma modelo ou uma daquelas atrizes coroas de Hollywood com um rosto bem conservado. A melhor palavra para defini-la era chique. Mas não com a aparência arrogante, na verdade ela parecia ser bem simpática com um sorriso enorme estampado no rosto quando chegamos mais perto.
- Seja bem vinda, , - Ela tirou os óculos de sol, deixando um belo par de olhos a mostra. Me abraçou e deu um beijo na minha bochecha, me pegando totalmente de surpresa. Ela era muito mais linda de perto e seu sorriso bem sincero, deu pra sacar. - Acho que você já ouviu falar de mim, sou a Helen. Como foi a viagem de vocês?
- Tranquila. - respondi sem graça, dando um sorriso fechado.
- Foi ótima, querida. - John lhe deu um beijo na boca e eu olhei para o lado, fingindo olhar para outro lugar. - Por que não veio com você?
- Ele teve treino hoje. - Helen passou o braço pelos meus ombros, me levando para fora do aeroporto com John atrás de nós. - Acho que quando chegarmos ele já vai estar em casa.
- E Emma? Ela já chegou da casa da Mia? - John perguntou, enquanto andávamos a procura do carro de Helen.
- Não, deve chegar amanhã de manhã. – Ouvi um barulho do alarme sendo desativado e procurei pelo carro, um Toyota Prius. Logo me veio à cabeça que Helen devia ser uma pessoa que preserva o meio ambiente.
Ajudei John e Helen a colocarem as bagagens dentro da mala e partimos. Eu atrás, olhando a cidade, Helen dirigindo e John no carona.

Capítulo 2

Duas horas depois de tédio total, e de ver muitos campos bem verdes, cheios de ovelhas, vacas e todos aqueles animais, Helen anunciou que estávamos chegando. A primeira visão que tive de York foi a muralha que cerca toda a cidade, uma placa perto de portão dizia que tinha o nome de Micklegate. Helen me contou que era o portão mais importante da cidade, pois ligava York a Londres. Num momento de imaginação, pensei nos reis, rainhas e outras figuras importantes passando por ali. Não muito tempo depois, tive a primeira visão de York, quero dizer, da cidade mesmo, e eu fiquei sem fôlego. A cidade era realmente linda, John não exagerou em dizer, ainda mais com o sol se pondo, uma bela visão. Inconscientemente, coloquei a cabeça para fora da janela, para ver melhor. Passamos pelo rio enorme que banha a cidade, que Helen me disse ser chamado de Ouse. Vi diversos barcos oferecendo passeios turísticos pela cidade e como se John lesse minha mente, avisou que me levaria para um passeio qualquer dia desses. Fiquei animada. Algumas pessoas andavam de bicicleta, outras a pé, e durante todo o caminho, eu vi mais de dez pubs. Passamos por outro rio chamado Skeldergate Bridge, e depois de uns cinco minutos, entramos numa rua residencial sombreada, cheia de antigas casas, outras modernas. Viramos e paramos em frente a uma casa bem moderna de dois andares em cor bege e telhado marrom, e um jardim enorme com um pequeno lago logo perto com várias vitórias régias flutuando sobre ele. Árvores ao redor da casa dão impressão de ser um lugar bem calmo, distante de tudo. No instante em que coloquei meus olhos naquela casa, senti uma paz. Uma sensação boa, que não sentia desde... Que o inferno começou.
- É linda, não é? - Helen perguntou quando viu que eu continuava a babar pela casa mesmo depois de alguns minutos.
- É sim.. - Concordei, olhando ao redor, vendo as outras casas. Nenhuma era tão encantadora quanto essa.
- Seu pai quem projetou. - Ela pegou minha mão, virando a palma dela para cima e me entregando um molho de chaves. - Entre e conheça um pouco enquanto eu ajudo a descarregar as coisas.
Logo que entrei, me senti numa daquelas casas de filme. O hall exibia uma escada larga, de madeira, que levava para o segundo andar, mas o que me atraiu mesmo foi a porta dupla de madeira. Sem hesitar, abri os dois lados, me deparando com uma sala de estar luxuosíssima toda em pêssego, com o teto branco, uma lareira bem moderna e bonita num canto, um sofá grande no meio da sala em formado de L aparentando ser bem macio com algumas almofadas coloridas jogadas neles e mais duas poltronas da mesma cor, em frente a uma estante planejada bem grande na cor tabaco, que suportava uma TV de LCD tão grande quando o móvel, na parte de baixo havia dois aparelhos de DVD, outro de Blue-Ray e as caixas do home theater espalhadas por ali. Mais em frente ficava uma porta de correr de vidro que ia do teto ao chão, levando para a parte de fora da casa, mostrando uma piscina gigantesca.
Escutei uma música vinda do segundo andar e saí da sala, fechando a porta atrás de mim, antes de subir. Exatamente cinco portas espalhadas pelo corredor tomavam a minha visão. Mal coloquei os pés no patamar, e uma das portas foi aberta.
E aí foi que eu o vi.
Eu fiquei atônita, paralisada. Ele devia ser da mesma idade que eu, senão alguns meses mais velho, e estava com uma toalha branca ao redor da cintura, descalço, com os cabelos molhados e bagunçados, deixando cair algumas gotas de água no seu peito nu - e diga-se se passagem, bem definido - e ombros. Sua barriga era tanquinho, daquele estilo barrinha de chocolate, sabe? Eu fiquei babando mesmo e não teve como evitar aquela sacada, nem mesmo me lembrei que Sam existia. Na verdade Sam nem chegava aos pés dele e olha que Sam era um dos garotos mais gatos da escola! Ele não me viu de imediato porque sua atenção estava voltada para o Iphone em sua mão, mas não por muito tempo. Não sei dizer se foi por acaso, ou porque sentiu que estava sendo observado - O que eu não duvido que tenha acontecido muitas vezes na vida - Ele me encarou claramente surpreso, e parou. Estávamos alguns passos um do outro, e eu pude ver que ele tinha os olhos mais lindos, mais claros, cintilantes e intensos que eu já vi na vida. Talvez iguais aos da Helen, só que com outro tipo de brilho.
Ele me olhou de cima abaixo, demorando um pouco com os olhos no meu busto que estava um pouco exposto com a camisa com os botões apertos, e voltou a me olhar fixamente nos olhos.
E então ele sorriu.
Um sorriso maroto, daqueles bem sacanas mesmo, e não sei por que, meu coração acelerou drasticamente, deu cambalhotas e falhou miseravelmente. Não sei como, mas minhas bochechas não ficaram vermelhas, graças a Deus, mas eu posso dizer que fiquei toda arrepiada.
- Ei, você deve ser a famosa . - Ele falou, passando uma mão pelo cabelo, chegando mais perto de mim e eu me vi sem saber o que dizer ou fazer. Seu sotaque inglês preencheu os meus ouvidos como uma música. Juro que poderia ouvir sua voz gostosa e sexy o dia inteiro. - Eu sou o
- Oi.. - Falei o mais rápido possível com medo da minha voz parecer trêmula. A cada instante que ele me olhava, um novo arrepio percorria meu corpo dos pés a cabeça.
- ! - A voz de Helen nos fez desviar nossos olhares. Ela vinha segurando uma mala e subia as escadas. - Isso é maneira de receber a ?
- Desculpe, mãe.. - Ele passou a mão novamente nos cabelos. - Mas de qualquer forma eu já conheci a moça chorosa. – Ele disse olhando pra mim, com um sorrisinho.
Oi? Esqueça que ele era um tremendo gato, ok? Como assim moça chorosa? Ele tem problemas mentais é? Não se diz isso! Ele estava me sacaneando, estava na cara! Ele ainda falava isso com aquele sorriso de lado. Que pilantra! Helen lançou um olhar zangado pra ele e eu estreitei meus olhos. Desde o momento que John disse "você tem um meio-irmão" eu já senti que algo nada bom vinha por aí, e não é que eu estava certa? O cara estava me zoando e não tinha nem dez minutos que nos conhecemos! E o pior de tudo, era que por mais que a vontade de acertar a cara dele fosse grande, ele continuava sendo gostoso.
- ! - Helen disse, usando um tom que até o momento ela não usou.
- Ei, só estou brincando! – disse sorrindo pra ela e voltou a olhar pra mim. – Tudo bem com você ?
É. Ele estava realmente me zoando.
- Tudo. – Eu respondi da forma mais zangada e azeda possível, desviando meus olhos do rosto angelical dele.
- Aquele ali é o quarto da Emma. - Helen apontou para uma porta fechada do outro lado do corredor. - E aquele é o meu e do seu pai. - Ela apontou para outra porta perto do quarto da Emma. - Os outros são de hóspedes. - Depois se virou para . - Já que você está aqui, que tal colocar uma roupa e ajudar o John com as malas enquanto eu mostro o quarto da pra ela?
- Tudo bem. - revirou os olhos. Helen foi seguindo o corredor, passando pela porta que tinha saído há poucos minutos atrás e parou na porta ao lado. Quando fiz menção de segui-la, escutei a voz de sussurrando pra mim:
- Assim você me decepciona, Princesa.
Princesa? PRINCESA? Mané Princesa! Eu tenho cara de donzela por acaso? Tenho cara de que tenho uma fada madrinha com uma varinha mágica pronta para realizar os meus desejos? Eu abri a minha boca pra mandá-lo ir para num lugar nada simpático, mas quando me dei conta, já não estava mais perto de mim e sim prestes a entrar no seu quarto e fechar a porta.
E agora eu volto a perguntar: Qual era o problema desse cara? Eu não fiz nada pra ele, eu nem o conhecia direito e ele já estava todo arrogante pro meu lado. É realmente uma injustiça que Deus faça os lindos e gostosos serem esses pilantras que ficam sacaneando a gente! Princesa? Quem é Princesa aqui? Eu é que não sou!
Deixei isso pra lá e fui até onde Helen estava me esperando.
Eu tive vontade de dar um grito quando abri a porta. Grande, o quarto tinha a parede da frente quase sendo tomada por inteira por uma janela daquelas que a gente consegue sentar e ficar olhando a rua, com uma cortina meio transparente num tom de lilás, pra combinar com a parede cor de uva, e nas outras paredes um tom de lavanda bem claro e delicado. Próxima a janela, ficava a mesa do computador todo equipado e um aparelho de som tão moderno quanto o resto da casa e uma dessas cadeiras de escritório com rodinhas. Encostada na parede que liga ao quarto do , havia uma cama de casal com uma colcha grossa lilás e branca, com muitos travesseiros, acompanhada por dois criados mudos. Na frente da cama ficavam uma porta dupla e bem ao lado outra normal, todas na mesma cor tabaco que os móveis.
- Aquela porta dupla te leva para o closet. - Ela apontou para a porta - E essa. - Ela apontou a porta ao lado. - É o seu banheiro. As toalhas estão dentro de um armário perto do chuveiro, caso você queira tomar um banho. E aí, gostou?
- Nossa, Helen, é lindo! – Falei, finalmente entrando no quarto. Não tinha reparado que havia um pufe cor de uva com mais algumas almofadas jogadas no chão de tábua corrida. Quando me virei para a parede da porta, dei de cara com uma televisão de plasma. - Mas não precisava disso tudo...
- Bom, eu tive bastante ajuda da Emma. - Helen deu de ombros. - Ela disse que você ia gostar, e não estava errada. Bom, vou pedir ao que suba com as suas malas e depois vou providenciar o jantar. - Obrigada, mas não precisa se incomodar comigo.
- , não é incômodo nenhum. Eu quero que você se sinta em casa. - Quando fiz menção de falar, ela continuou. - Não quero substituir sua mãe, apenas quero ser sua amiga. Mais uma vez, seja bem vinda. - Ela me deu um beijo na bochecha e fechou a porta quando saiu.
Fui até a porta dupla, abrindo-a, dando de cara com um closet espaçoso, bem iluminado e totalmente vazio, com um espelho tomando uma parede inteira. Sem dúvidas minhas roupas não tomavam nem metade dele, mas mesmo assim gostei. Sentei num dos bufes jogados no meio do cômodo e fiquei observando o quarto daquele ângulo por algum tempo que não sei dizer ao certo.
Minha mente voou de volta a Alemanha, para a minha cidade.. O que Jennifer poderia estar fazendo? E Sam? Será que ele estava no treino? Eu daria tudo para ser uma mosquinha e voar de volta até lá. Eu não pensei na minha mãe. Não queria chorar agora, não enquanto todos estavam acordados, podendo escutar meus soluços. Mas antes que aquela pontada pudesse ficar latejando em mim, senti a presença de mais alguém, e apareceu, sorrindo.
- Suas malas estão aqui. - Ele depositou duas pesadas malas perto da cama, e ficou me encarando do lado de fora do closet, com as mãos dentro da calça jeans que vestia agora. A blusa pólo preta realçava ainda mais os seus lindos olhos. - John pediu pra eu te perguntar se você quer ajuda com elas.
- Não, eu estou bem, obrigada. – Sai do closet, e puxei a primeira mala pra perto de mim, para tirar uma muda de roupa limpa. Eu achei que ele estivesse indo embora, mas ele continuou parado, me estudando, com se eu fosse chorar a qualquer momento.
- Escute – colocou a mão no meu ombro, apertando-o delicadamente, sem aquele jeito debochado de antes. – Eu sei que agora está doendo e não vou mentir pra você, ainda vai doer por um bom tempo e você ainda vai se pegar chorando a noite. Sei como é. Eu não tenho pai. - Ele parou, respirou fundo e continuou. - A dor vai ficar mais fraca com o tempo. Não digo que vai sumir, mas vai ficar mais fácil de encará-la, de senti-la. Então, de todo jeito, você vai melhorar. – ele terminou com um sorriso.
Eu me virei para ele, e sorri também. Eu tive muita vontade de abraçá-lo naquele momento. Tudo aquilo que ele disse.. Foi a melhor coisa que alguém havia me dito até agora. E foi mesmo, porque ele não mentiu pra mim. foi sincero comigo. Ele não me deu tapinhas nas costas e disse que as coisas iam ficar bem. Ele sabia que não era verdade, pelo menos não agora. Pelo menos por um tempo.
Eu me segurei demais dessa vez. Por mais que ele tenha falado tudo aquilo para me ajudar, eu não queria chorar na sua frente. Não queria ver seus olhos cheios de pena.
- Obrigada, . - Gaguejei.
- Disponha – Ele disse, parecendo um pouco envergonhado. – Mas, por favor, não me chama de , ok? está ótimo!
- Tudo bem, . - Quando eu disse seu apelido, o sorriso dele pareceu se alargar mais.
- Vou deixar você tomar banho agora, e depois desça para jantar. - Ele tirou a mão que estava no meu ombro, e quase pedi para que ele me tocasse de novo. - Bom banho, Princesa.
E eu ri. Eu não fiquei irritada por ele me chamar de Princesa dessa vez, por que de repente eu me toquei do por que ele estar tentando me irritar a toda hora.
Ele queria me distrair. Queria que eu não pensasse no que esta fazendo o meu coração sangrar e isso ajudou, isso me ajudou muito. Por alguns momentos meu coração não estava sangrando, ele estava ocupado demais sentindo raiva do meu suposto meio-irmão. Eu estava bem ocupada ficando totalmente fula da minha vida com ele pelos apelidos e sorrisos zombeteiros pra me lembrar do que tinha me machucado, pra me lembrar do que eu tinha deixado pra trás e como eu sentia falta daquilo tudo. Então eu sabia, não era tão ruim quando eu achei que fosse e talvez eu não estivesse tão ferrada quanto eu achei que estaria. E com certeza não me senti culpada por dar uma sacana na bunda deliciosa dele, antes da porta ser fechada.

Capítulo 3

Mesmo sabendo que os raios solares estavam invadindo o meu quarto através das cortinas, mesmo sabendo que já era dia, eu não queira abrir meus olhos. Estava exausta demais para fazer isso porque passei a noite anterior chorando, depois que terminei o jantar. Helen, John e haviam sido muito receptivos comigo, mesmo que o último citado tenha tirado mais um pouco com a minha cara - Isso já está se tornando um hábito - Depois do jantar, eu subi, negando o convite insistente de John para assistir Senhor dos Anéis - me contou aos sussurros, que John ama a saga e adora fazer sessões com a família para assistir os três filmes. - E então eu voltei ao meu quarto, ficando sozinha, deitada na minha nova cama, imaginando o que Jennifer estaria fazendo naquele momento, ou o que Sam estava fazendo. Será que eles estavam sentindo minha falta tanto quanto eu sentia a deles? E então eu deixei que as lágrimas que eu reprimi o dia inteiro, viessem à tona, sem tentar contê-las. Na verdade eu nem me atrevi a fazer isso. Apenas me entreguei à tristeza que se apoderou do meu coração. Por que as coisas tinham que acabar desse jeito? As coisas nunca mais seriam as mesmas, mesmo que eu voltasse para Kassel. A saudade aumentou de uma forma tão abrupta ao lembrar que a minha vida era tão diferente há semanas atrás.. Saudade de escutar a Jennifer contando as novas fofocas da escola ou apenas falando sobre aqueles assuntos bobos como o vestido que ela comprou para a tal festa. Saudade do meu namorado, de ouvi-lo dizer que me ama, mesmo que eu nunca diga o mesmo simplesmente porque não sinto o mesmo. Saudade de receber um abraço dele ou apenas de sentir que estava sendo observada por daquele jeito malicioso, e principalmente, saudada da minha mãe. Só de lembrar que ela nunca mais estaria comigo nem para me dar um simples esporro, a dor parecia aumentar de uma forma horrível e esmagadora. Merda, nem um esporro!
E então foi essa a minha noite. Entre o macio edredom branco e lilás, chorando silenciosamente até adormecer com o rosto molhado, inchado e vermelho.
Já estava acordada há alguns minutos quando escutei a porta do meu quarto sendo aberta, mas ainda assim, continuei com os olhos fechados. Talvez fosse uma empregada para pegar a toalha que eu usei ontem, ou sei lá. Mas mesmo depois de algum tempo, não houve o barulho da porta sendo fechada, anunciando que o meu visitante já não se encontrava mais aqui. Aos poucos, abri meus olhos, vendo uma menina me encarando com os mesmos olhos que os meus e do John. Os cabelos da mesma cor dos do Danny, e o rosto parecido com o meu. Na verdade, ela parecia até um pouco comigo quando eu era pequena. Ela era a coisa mais lindinha e fofa que eu já vi na vida! Não devia ter mais de um metro e quarenta de altura e estava usando uma saia pregueada xadrez, num tom de verde oliva e uma blusa social branca de mangas longas, com o emblema da escola. E então eu me dei conta que a figura que se encontrava parada me observando de um jeito curioso, sentada no meu bufe cor de uva, era nada mais, nada menos que a Emma.
- Bom dia. - Ela falou, abrindo um sorriso fofo e totalmente inocente. - Eu sou a Emma, sua irmã.
Eu demorei um pouco para processar aquilo, afinal de contas, eu não estava acostumada a ter uma irmã. Sentei na cama, bocejando.
- Eu sei. - Eu sorri também, batendo num lugar vazio da cama. - Por que você não se senta aqui, Emma?
- Você é linda, . tem razão. – Ela sentou perto de mim, com os olhos brilhantes, cheios de curiosidade.
Eu levantei uma sobrancelha, achando aquilo meio estranho. disse que eu sou linda? WTF?
- Ele disse pra você que eu sou linda? - Perguntei, ainda não acreditando.
- Não. - Ela balançou a cabeça, e olhou para a porta. – Ele estava falando com o no celular hoje de manhã e eu escutei. Mas não conta pra minha mãe, tá? Ela odeia quando eu escuto a conversa dos outros, mas não teve como não escutar. Aquele idiota ficou falando alto na sala.
- Tudo bem, Emma, eu não vou contar. - Sorri de novo, achando engraçado uma criança de nove anos chamando de idiota. Parecia que ela era mais esperta do que a maioria das garotas da sua idade. Mas.. Então realmente havia dito que eu sou linda. Não que eu ligue para isso, mas bem, é um elogio, não é? Mesmo que tenha sido indiretamente. - Você também é linda, sabia? Parece comigo quando eu tinha sua idade, só que numa versão mais bonita.
- Obrigada. – Ela desceu da cama, e apontou para o banheiro. – Vai lavar o rosto, todo mundo está te esperando para tomar o café.
Eu quase recusei e inventei uma desculpa, mas não consegui, por algum motivo. Levantei, fui até o banheiro lavar o rosto, constatando a cara horrível que me encontrava. Eu não parecia nenhum pouco linda naquele momento. Definitivamente não.
Coloquei um roupão para cobrir minha camisola curta e calcei minhas pantufas de joaninha com direito a antenas. Emma me deu a mão e descemos juntas, em silêncio. Do hall já dava para escutar as vozes de John e Helen, conversando sobre algum assunto que eu consegui entender.
- Ela já disse que quer nossa presença esse ano lá e não adianta fazer uma comemoração aqui, de qualquer maneira. Ela já convidou a família toda. – Helen disse para John, enquanto se servia mais de café. Todos estavam sentados numa mesa redonda de granizo preto. estava alheio, comendo cereal e tomando suco. – Bom dia! – Ela olhou para nós e sorriu. – Venham tomar café.
olhou para mim e depois para as minhas pantufas, balançando a cabeça. Algo me dizia que ele iria usar isso contra mim na próxima piadinha.
- Bom dia, meninas. – John abaixou o jornal, e Emma foi até ele, dando lhe um beijo na bochecha e saiu, indo até a sala.
Eu não fiz nada, só fiquei parada na porta da cozinha, vendo aquela cena tão família e me senti uma invasora. Talvez tivesse sido má ideia descer. Olhei para a cozinha com os móveis todos em preto e branco, e quase sai correndo escada acima.
- Você não vai tomar café, ? – John falou comigo, e eu olhei para ele, meio sem jeito. Todos na cozinha me observavam.
- Ei Risadinha, – se pronunciou quando sentei na sua frente e me servi de cereal como ele. – Minha nossa! Você está horrível! Sua noite foi tão ruim assim?
Agora ele tinha mudado o apelido? E que papo é esse de Risadinha? Eu sou o Bozo agora e esqueceram de me avisar!
Eu estreitei meus olhos e fiz um "Haha" pra ele, sarcasticamente, pra mostrar que a piada dele não teve a mínima graça. Então, em meu socorro, Emma apareceu novamente da cozinha, trazendo uma mochila rosa de carrinho.
- Pare de encher o saco da minha irmã, ! – Ela deu um tapa no braço nele, e duvido que tenha doido, mas mesmo assim fiquei feliz em ver Emma me defendendo.
Os olhos de se estreitaram do mesmo jeito que os meus haviam se estreitado quando ele disse que eu estava horrível.
- Ah sua traidorazinha... – falou com falsa indignação.
Mas Emma não deu atenção a ele, ela veio até mim sorrindo, e confirmando a teoria dela ser mais inteligente do que a maior parte das garotas de sua idade, e sentou ao meu lado para tomar café.
- Não liga pra esse estúpido, . - Ela lançou um olhar feio para , colocando leite na sua caneca. - Ele adora encher o saco de todo mundo.
- Isso está realmente tocante.. – olhou debochadamente pra nós duas. Eu posso até dizer que ele era especialista em quebrar climas. – Já são melhores amigas.
- Ah, cala a boca! - Emma revirou os olhos. E a impressão que eu tive foi que ela quase mandou um dedo do meio pra ele, só não fez isso porque Helen e John estavam perto. Definitivamente ela herdou o meu temperamento.
- Bom pessoal, eu vou indo. – John se levantou, terminando de tomar seu café e depois se dirigiu a Helen. – Você vai comigo, querida?
- Vou sim. – Ela se levantou, dando um beijo no topo da minha cabeça, depois em Emma e depois em . – , não esqueça que a Emma sai mais tarde hoje por causa do ensaio para o recital, entendeu? Não vai se esquecer de buscá-la dessa vez! Só voltamos na hora do jantar. Tenham um ótimo dia.
- Até mais tarde. – John fez o mesmo que Helen, mas apenas em Emma. No ele apenas bagunçou os cabelos e para mim, lançou um olhar de despedida e saiu atrás de Helen.
- Ei, vocês não vão para a escola, não? – Uma mulher rechonchuda, com cara de boazinha, com os cabelos começando a ficar grisalhos presos num coque e vestindo uma roupa da empregada azul escura e branca entrou na cozinha por uma porta que eu nem reparei que tinha.
- Bom dia, Molly. – acenou para ela e levantou para levar seu pires para a pia.
- Molly, olha a minha irmã ! – Emma apontou para mim e a tal de Molly sorriu. – , a Molly é nossa cozinheira e cuida de mim quando ninguém está em casa.
- Ah, bom dia. – Tentei ser simpática, e sorri.
- Vamos logo, Emma, ou então a dona Molly aqui vai contar para a mamãe que eu te levei atrasada para escola. – deu um beijo em Molly e eu percebi que ela não era uma simples cozinheira/babá nas horas vagas.
- Tchau . – Emma me deu um beijo e um abraço apertado. – Nós podemos jogar vídeo game quando eu voltar, que tal?
- Acho uma ótima idéia. – Falei animada, vendo Emma dar um beijo em Molly e sair, arrastando sua mochila rosa cozinha a fora.
- Tchau . – se despediu de longe, segurando a chave de um carro na mão e jogando uma mochila preta no ombro. De repente me perguntei qual era o carro dele.
- Tchau . Bom dia pra vocês. – Me despedi, já achando péssima a ideia de ter concordado com John em só ir para a escola daqui a dois dias.
Na verdade foi Helen quem sugeriu ontem, durante o jantar, dizendo que eu deveria me acostumar com o fuso horário primeiro, e arrumar minhas coisas e tudo mais.. Eu só concordei porque queria subir o mais rápido possível. Mas agora eu não tinha nada para fazer, a não ser dormir.
- E então, , o que você quer fazer hoje? – Molly limpou as mãos molhadas num pano de prato e sentou na cadeira onde estava há minutos atrás.
- Bom, eu não sei, exatamente.. – Dei de ombros, empurrando a língua contra a minha bochecha por dentro da boca. – Não tenho nada pra fazer.
- Que bom, eu também não. – Ela sorriu amigavelmente – Por que você não sobe, toma um banho quente enquanto eu termino de ajeitar a mesa do café e me espera no seu quarto para desfazermos as suas malas? Com certeza a maioria está intocada.
- Me parece uma boa ideia. – Não, não parecia nada. Eu só não tinha nada pra fazer e bem, Molly estava sendo simpática e seus olhos meigos acabaram me convencendo.
Poucos minutos depois que eu saí do banho, Molly bateu na porta do meu quarto. Fiquei pensando se ela não tinha nada pra fazer mesmo ou apenas queria me deixar minha mente ocupada, como tentava me chamando de Princesa/Risadinha. Só que a diferença foi que ela não me colocou apelidinhos ridículos e ficou tirando uma com a minha cara. De qualquer forma, Molly foi muito carinhosa e amigável. Ela parecia aquelas vovós super modernas e sem um cheiro estranho que todo mundo sonha em ter. Até mesmo me contou um pouco sobre a sua vida, durante o resto da manhã, enquanto desfazíamos minhas malas e colocávamos tudo organizado no closet. O resumo: Molly era escocesa e se mudou para York quando dia a minha idade e aqui, conheceu seu ex-marido com quem teve dois filhos, agora já crescidos. Antes de se separarem, ela era dona de casa, mas como depois precisou de dinheiro, começou a trabalhar como cozinheira. Acabou parando aqui quando Emma nasceu. E pelo que deu pra confirmar meu pensamento mais cedo, ela era quase uma integrante da família. Ela me contou também que já cansou de dar umas palmadas na bunda do quando ele era menor, o que me fez rir imaginando a cena.
Molly até mesmo me prometeu que me ensinaria a cozinhar uma típica comida escocesa, quando eu quisesse! Isso me fez gostar mais dela.
Depois disso, mudando de assunto várias vezes. Ela não me perguntou sobre a minha vida antiga - Quem lê pensa até que eu tenho um passado negro - E eu de certa maneira, agradeci. Na verdade, não houve nenhum tipo de silêncio constrangedor com a Molly. Ela foi totalmente falante e alegre e adorou os meus CDs. Ela disse que eu tenho um gosto bem eclético pra música depois de ver minha coleção de CDs do Muse e Elton John. Disse até que traria a sua coleção do Phil Collins pra eu ouvir.
Fizemos uma pausa para o almoço e depois voltamos a mexer nas malas. Eu não pensei que fôssemos demorar tanto, mas quando me dei conta, já eram quase duas da tarde. Foi bem legal. Ocupou realmente a minha cabeça.
Quando ajeitei meu par de sapatos preferidos, e Molly estava prestes descer para preparar o lanche, ouvimos a porta da sala sendo fechada e passos apressados escada acima.
- ! ! Ufa, cheguei. - Emma apareceu na porta do closet, ainda segurando sua bolsa rosa. - Podemos jogar agora?
- Primeiro a mocinha vai tomar um banho, trocar de roupa e lanchar, depois eu deixo vocês jogarem até o jantar ficar pronto. - Molly empurrou Emma delicadamente para fora do meu quarto.
- Você está perdida. Vai ter que jogar com a Emma até morrer ou por sorte, seu pulso quebrar. - entrou quando fechei a porta do closet atrás de mim e me preparava para descansar um pouco na cama. Ele estava com uma coleira na mão e a mochila na outra. - Vem, vou te apresentar ao Jack enquanto a Emma toma banho.
- Quem é Jack? - Questionei, mas me levantei e o segui até o primeiro andar.
- O John não te falou? Eu tenho um cachorro. Um labrador. Você não o viu porque ele estava no adestramento, mas pelo que eu já vi, não adiantou muito. A Molly não o deixa ficar por muito tempo aqui dentro, porque bem.. Digamos que ele não seja um cachorro muito comportado.
- Então ele é igualzinho ao dono. - debochei e fez uma careta.
Passamos pela cozinha, e senti um cheirinho delicioso do fogão. sentiu o mesmo, já que foi direto pra lá, mas antes que pudesse levantar a tampa da panela, Molly apareceu e o mandou para fora.
Eu até esqueci de ver como era aquela parte da casa, e dei de cara com um quintal enorme, uma piscina gigantesca, com várias espreguiçadeiras de madeira, e duas mesas com guarda-sol. Algumas árvores ficavam um pouco mais atrás, e até dava pra ver uma casinha de cachorro bastante grande, perto de uma delas. De repente, um labrador da cor chocolate apareceu, correndo na minha direção, com a língua pra fora como se eu fosse um pedaço de carne bem suculento, mas antes que o cachorro pulasse em mim, se meteu na frente e o segurou.
- Calma amigão! - O cachorro era enorme, quase do tamanho de um homem. coçou atrás da orelha dele e depois o soltou. - Essa aqui é a , a nova moradora da casa.
Eu levantei a sobrancelha vendo aquela cena. O cachorro estava prestando atenção no que o dizia e depois olhou para mim, como se estivesse me avaliando. Confesso, ele era lindo. Seu pêlo era brilhante, bem cuidado e ele ainda tinha um cheiro ótimo! Não é nenhuma mentira quando dizem que o cachorro é a cara do dono. Jack era igualzinho ao . Os mesmos brilhos nos olhos, o mesmo jeito brincalhão. Até baba como o .
Brincadeira.
- Ele gostou de você. - comentou, fazendo Jack chegar mais perto de mim. - Vem, chega mais perto.
- Como você sabe? - Agachei na altura do cachorro e cocei a orelha como fez. Ele fechou os olhos, cheio de charme.
- Olha como ele está por você.. Está de quatro, literalmente! - agachou-se ao meu lado, também fazendo carinho no Jack.
O cachorro abriu os olhos, e se jogou na grama, para que eu fizesse carinho na sua barriga.
- Eu também gostei dele, não é Jack? - Esfreguei minha mão na barriga lisinha e macia dele.
- Parece que você conquista as pessoas facilmente, Risadinha. - disse olhando nos meus olhos de um jeito estranho e eu fiquei sem saber o que dizer. Apenas sorri e continuei acariciando o Jack.
- Então você já conheceu o Jack! - Emma apareceu vestindo um vestido azul bebê que realçava ainda mais os seus olhos e os cabelos presos num rabo-de-cavalo, fazendo minha atenção ficar voltada para ela agora. - Ele é lindo, não é?
- É sim. - Concordei, ficando de pé. ainda manteve seus olhos em mim, mas eu não ousei voltar a olhá-lo. - Bom, estão vamos jogar?
- Vaaaaamos! - Emma bateu palmas e saiu correndo para dentro.

Emma escolheu jogar Guitar Hero. Eu era péssima nesse jogo, então eu perdi todas as rodadas que jogamos antes de John e Helen chegarem para jantar, à noite. Não foi tão chato quanto deu a entender que seria. É claro que eu não pretendia passar todas as minhas tardes jogando, mas alguns dias não fazia mal nenhum, não é? Além do mais, a companhia da Emma era ótima, acredite. Depois de reclamar pela vigésima primeira vez o quão eu era ruim, ela me prometeu que eu aprenderia a jogar direitinho até o fim de semana e quem sabe vencê-la. Enquanto jogávamos, Emma passou o relatório completo do . Nem sei explicar como tal assunto surgiu, apenas quando me dei conta, ela já estava falando dele, me contando que aquele pentelho já foi suspenso quatro vezes junto com mais três amigos só esse ano e advertido cinco. Deu pra sacar que ele não era nenhum santo né? Aí vão mais algumas bombas: Ele colocou fogo num dos armários da escola, botou taxinha na cadeira do professor de física, jogou um livro/club social no ventilador, levou cup noodles pra fazer na sala, jogou o livro pela janela e acertou o carro novinho do diretor, quebrou o nariz de um colega de classe, tirou a roupa e correu nu depois de ganhar o campeonato de futebol no segundo ano.. Quer mais? O cara era o demônio em pessoa! Ele e os amigos, né. E eu que pensei que ele fosse todo certinho.. Que nada, só tinha cara. E ainda devia ser um mulherengo brabo com aquela carinha toda lindinha. Agora me explica isso: Como uma pessoa inteligente, que tira notas boas, consegue fazer tanta merda? Depois Emma começou a contar algumas coisas boas.. era atleta, capitão do time de futebol da escola, na verdade. E até já ganhou algumas taças. Eu quase questionei o porquê dele ainda não ter sido expulso por causa de tantas advertências e suspensões. Bom, pelo menos graça ao treinamento ele tinha um corpo ótimo! - É, eu não esqueci que ele era gostoso. E bota gostoso nisso! - Ah, mas tirando tooodas às merdas, ele até que era responsável - tirando, é claro, o fato de ele ter feito a Emma esperar por três horas na porta do colégio, quando na verdade, ele estava na casa de um dos amigos. - Ou seja, ele só era responsável quando lembra/quer/pode. Então pra quem achou que ele era o Sr. Perfeição, se ferrou bonito! Ahá, ele não era apenas um simples suposto-irmão-irritante-gostoso. era um suposto-irmão-irritante-gostoso-que-vivia-fazendo-merda!
Finalmente a Emma cansou, e nós duas ficamos deitadas no tapete felpudo e rosa do quarto dela, enquanto eu olhava para a coleção completa de Barbies que ocupa uma estante inteira. A garota tinha todas as Barbies! To-das. O meu sonho era ter essa coleção, quando era pequena, é claro.

A comida da Molly estava realmente deliciosa. Ela tinha feito carne assada e batata frita para o jantar, e só estávamos os barulhos dos talheres. Talvez por educação ou pela fome, ninguém abriu a boca por algum tempo. Até que John quebrou o silêncio e me perguntou, meio hesitante, se eu queria ir para a escola no dia seguinte. Eu aceitei, é claro. Não para agradá-lo, nem nada, mas é que como as minhas malas já estavam desfeitas, não havia mais nada para ser arrumado. Ou seja, eu ficaria sem fazer absolutamente sem fazer nada o dia inteiro, entregue ao tédio e as lembranças.. Mesmo que Molly entrasse no meu quarto e tentasse puxar assunto, como certamente ela faria.
Ele pareceu feliz quando eu concordei, e como se estivessem esperando que essa pergunta fosse feita, todos resolveram falar sobre seu dia.
Depois do jantar voltei para o meu quarto e deitei na cama, sem ter nada para fazer. Então me veio a ideia mais óbvia do mundo. Eu tinha um computador todo equipado só pra mim, por que não usá-lo? A coisa era tão moderna que eu nem precisei conectar a internet. Entrei no Live Messenger, procurando que nem uma louca o bonequinho verde de Sam, Jennifer ou qualquer outra pessoa que poderia me dar notícias sobre o que estava se passando em Kassel.
Fiquei um tanto frustrada quando não vi nenhum dos dois disponíveis na minha lista de contatos. Mas então eu vi o bonequinho da Megan verde. Logo que eu mudei meus status para on-line uma janela se abriu bem na minha frente.
Megan diz: , como você demorou! ANDA, ME CONTE TUDO SOBRE A INGLATERRA! - Ela digitou em um segundo.
diz: Não há muito que contar, Megan. Eu nem vi nada ainda, nem sai de casa.
' Megan diz: Oh, minha nossa! Mas os ingleses são lindos, não são? E o sotaque deles?
diz: Sim, alguns são. - E eu me lembrei de nesse momento. Mas vamos combinar, ele era uma referência e tanto. - Hm, você viu o Sam ou a Jen por aqui?
' Megan diz: Bem, na verdade não. Não tenho encontrado com eles, a não ser na escola. - Ela mandou a mensagem e depois emendou mais uma. - Como foi a despedida?
diz: Foi como uma despedida... – Eu disse simplesmente.
' Megan diz: Poxa, , que pena! De ter sido horrível quando vocês terminaram. Quero dizer, um ano de namoro né? Vocês eram tão perfeitos!
diz: Nós não terminamos, Megan! - Digitei imediatamente. De onde ela tirou uma ideia tão absurda?
' Megan diz: Não? – ela perguntou, tão rápido quanto eu.
diz: É claro que não, Megan! Por que terminaríamos? – digitei calmamente. É óbvio, não é? Afinal ele estava em Kassel, Alemanha. E eu estava em York, Inglaterra. Mas não. Nós não terminamos!
' Megan diz: Bem.. Eu não sei, só achei que vocês fossem terminar. – Ela me mandou e antes que eu pudesse digitar uma resposta Megan emendou – Você sabe o que dizem de namoros à distância.
Eu respirei fundo. Respirar faz bem quando a gente começa a pensar em coisas ruins. Tipo o meu caso, pensar no fim do meu namoro por causa da distância. Isso estava fora de cogitação, eu tinha certeza.
diz: Bom, é o que dizem. Mas será diferente nesse caso. Eu e Sam somos diferentes. E a Alemanha nem fica tão distante assim! O avião não demora tanto. Eu não moro do outro lado do mundo! – mandei, satisfeita pelo meu texto coerente.
' Megan diz: Bom, se você está dizendo..
É, eu estava dizendo mesmo. Porque era isso que iria acontecer. E Sam poderia vir aqui, John mesmo me disse. E eu também poderia visitá-lo! Eu só precisava fazer John concordar em me deixar ir sozinha.
Depois disso Megan começou a fazer outro interrogatório. Eu respondia prontamente, mas pulando é claro a citação sobre de "meu suposto-irmão-gostoso" e então outra janela do Messenger subiu na minha tela. Meu coração deu um pulo, e meus lábios se curvaram num sorriso.
' @Sam diz: Como você está se sentindo amor? - Ele disse daquela forma carinhosa. Eu quase dei um grito de tão empolgada. É idiota, eu sei, mas eu me senti mais leve, mais aliviada.
' @ diz: Estou morrendo de saudade, Sam, você nem pode imaginar!
' @Sam diz: Também estou sentindo sua falta. - Ele digitou e depois emendou mais uma frase. - Como estão às coisas por aí? Como está John?
E eu contei tudo, como fiz com Megan. Contei sobre todo mundo, sobre a casa, a cidade.. E conforme eu contava as novidades, lágrimas começaram a ameaçar a molhar os meus olhos. Eu pensei seriamente em pegar minhas malas e voar direto para o meu namorado. Deus, como eu estava com saudade! Ficamos horas e horas conversando, e minhas lágrimas continuavam descendo sem parar, mas de felicidade. Agora eu me sentia realmente aliviada por ver Sam sendo tão fofo comigo. Ele disse que precisava dormir e eu, relutante, me despedi. Não foi aos beijos e aos choros quando nos despedimos pessoalmente, mas ainda sim foi triste. Mas ele prometeu que me ligaria amanhã, o que me relaxou um pouco. Então ele se desligou, e quando vi a hora no relógio da barra de ferramentas, já passava da meia-noite. Resolvi desligar o computador também, afinal de contas, daqui a algumas horas eu estaria indo para a escola.
Liguei o meu novo aparelho de som, e coloquei meu CD do The Fray, deixando tocar Never Say Never, enquanto tomava banho no chuveiro de ferro do meu banheiro. Peguei um edredom branco dentro do armário e abri um pouco a enorme janela. Estava frio, mas eu queria sentir o vento gelado. Não me importava. Dei uma espiadela nas luzes das casas ali perto, e até mais além. Do outro lado havia algumas montanhas, e se estivesse sol, daria para ver o campo bem verde que eu vi no caminho pra cá. E depois olhei para o Jack lá em baixo, no jardim. Aquele também não se importava com o frio. Estava deitado na grama, de barriga para cima. Inclinei-me um pouco no peitoril e respirei profundamente o ar puro. Pelo canto do olho, eu percebi que também havia deixado sua janela aberta e de lá dava pra ouvir uma música baixinha, tão lenta quanto a minha. Eu não sei o porquê, mas sorri. Talvez por ser uma estranha coincidência.
Voltei para o quarto, mas deixando uma fresta da janela ainda aberta. Apaguei as luzes, deixando apenas um abajur aceso, por causa do meu medo de escuro. Sim, eu nunca superei, e daí?
Afundei-me na cama confortável, sentindo a maciez do edredom e dos milhões de travesseiros ao meu redor. Mas em vez do sono chegar com todo aquele conforto, a única coisa que veio foi o pensamento na minha mãe. E então eu comecei a chorar. Chorar muito, de verdade. Mais do que eu chorei quando estava falando com Sam.
Minha fronha ficou molhada, assim como uma parte do meu edredom. Revirei-me diversas vezes na cama, tentando tirar aqueles pensamentos ruins da minha cabeça, mas eles não foram embora. Eles queriam me torturar, e assim estavam fazendo. A dor veio mais forte do que nunca, e eu me contorci, querendo gritar. Mais forte do que no dia da morte dela, mais forte do que no enterro dela e mais forte do que na minha despedida.
Eu pedi inconscientemente que estivesse do meu lado, enchendo o meu saco, me chamando de Risadinha. Talvez assim eu não sentisse dor. Talvez assim eu não sentisse aquela coisa horrível no meu peito. Aquele bolo na minha garganta.
Meu coração estava sangrando de novo.
Por um momento, eu pedi para morrer e parar de sentir tudo.
Não seria nenhuma surpresa que todos tivessem me ouvido chorar naquela noite. Não foi baixo. Eu não chorei silenciosamente como na noite anterior. E então eu me lembrei, tarde demais, de que a janela estava aberta e a de também. E torci para que ele já estivesse num dono profundo, impedindo-o de me ouvir chorar. Assim como Emma, John e Helen.

Capítulo 4

Estremeci ao sentir a brisa gélida vinda da janela atingir o meu corpo. Maldita seja essa mania horrível de ficar me descobrindo a noite. Puxei o edredom, me cobrindo por inteira e me afoguei entre meus travesseiros, agarrando um como se fosse um ursinho de pelúcia daqueles bem grandes e fofos. Eu sempre gostei de dormir agarrada a um travesseiro, e esse era tão macio que eu poderia ficar agarrada a ele o dia inteiro. Levantei um pouco a cabeça em direção a janela, vendo que já era dia e voltei a afundar minha cabeça no travesseiro, rezando para que todos se esquecessem de mim e não viessem me chamar para levantar. Logo que esse pensamento veio na minha cabeça, ouvi uma batida na porta.
- Bom dia . – Emma entrou, como se soubesse a minha intenção e nem esperou que eu respondesse. Eu levantei um pouco a cabeça, e vi que ela ainda vestia a camisola rosa da Barbie de meia manga, que cobria quase todo o seu corpinho. – Hora de levantar.
- Ah, não. – Soltei um muxoxo, sonolenta, voltando a enterrar a cabeça no travesseiro, querendo que ela sumisse e me deixasse dormir por mais cinco horas. – Ainda é cedo demais.
- Anda sua preguiçosa. – Ela pulou na minha cama, bem em cima de mim, me fazendo acordar completamente. Satisfeita, ela saiu e foi até a janela, abrindo totalmente a janela, deixando a claridade entrar. – Levanta logo! Não vou voltar aqui para te chamar.
E saiu batendo a porta.
Vai dizer que ela não pareceu uma mãe falando daquele jeito? Só faltou colocar a mão na cintura e dizer “Se você não fizer o que eu estou mandando, não vai naquela festa sábado, mocinha”. Que menina mandona, hein. Adorei isso.
Relutante, sentei na cama e me espreguicei. Fui até a estante para desligar o som que eu deixara ligando ontem à noite e me encaminhei para o banheiro. Tomei um banho quente um tanto quando demorado e sequei o meu cabelo, deixando o mais natural possível, e o enfeitei com um headband preto. Passei um pouco de maquiagem no rosto, carregando um pouco mais no blush, querendo deixá-lo mais nítido do que o normal, disfarçando a cara horrível que eu estava. Tirando o fato do meu rosto não estar inchado como ontem, ele não tinha muita diferença. Eu ainda estava com uma cara péssima e não queria que ninguém tomasse um susto comigo logo no primeiro dia de aula.
Fui até o closet e peguei a roupa mais simples que eu achei: Uma calça jeans skinny escura, uma blusa branca de alça um pouco larguinha e mais comprida daquelas que estão se usando bastante e é claro, meu All Star branco de couro. Peguei um casaco, juntei meu fichário, estojo, celular, óculos de sol e todas aquelas coisas que mulheres carregam e coloquei numa maxibolsa verde clara.
Só estavam Emma, e Molly quando cheguei na cozinha. Os dois primeiros estavam sentados na bancada branca com cadeiras pretas, comendo cereal. desviou seus olhos do seu jornal, onde fazia palavras cruzadas e olhou de cima a baixo pra mim.
- Ei, resolveu descer é? Pensei que ficaríamos o dia inteiro te esperando. – Ele disse com aquele sorriso de deboche que já estava começando a me irritar. - Mas pelo menos valeu à pena, você não está tão ruim hoje.
- Dá pra deixar minha irmã em paz, ? – Emma deu um tapa nele como ontem, mas dessa vez deu forte e riu. Depois ela virou-se pra mim sorrindo. – Você está linda, . Adorei a sua bolsa. Os caras da escola vão babar em você.
- Você é uma fofa, Emma. Obrigada por me defender desse troglodita. – Dei um beijo na bochecha dela e sentei ao seu lado.
- Eu não vou mais encher o saco da Risadinha então. – falou voltando sua atenção para o jornal.
- Não enche, ! – Revirei os olhos, e voltou a me encarar, estranhando por eu tê-lo chamado pelo sobrenome. Fez uma careta e eu apenas ignorei, voltando para Molly que ainda não tinha falado nada. – Onde estão John e Helen?
- Saíram mais cedo, e avisaram para vocês não os esperarem para o jantar. Vão a um jantar de negócios do seu pai.
- Hm. – Murmurei, ocupando minha boca com um pedaço de torrada com geléia.
Molly perguntou o que gostaríamos de comer no jantar, e Emma bateu na mesa dizendo que queria batata frita. resmungou dizendo que ele precisava ter uma dieta saudável para não engordar e não ter o treinador no pé dele. Depois de uma pequena “discussão” entre eles dois, Molly decidiu que ela mesma iria escolher o jantar. Nos despedimos dela, com direito a beijo na bochecha e tudo, e fomos até o carro do , pelo qual eu babei muito antes de entrar. O cara já era gato, ter um carro daqueles era maldade demais, não? Mal entrei no carro, e senti o perfume do tomando conta do ar, me deixando meio lerda. Não que eu não tivesse sentido antes, mas agora ele estava bem ao meu lado, no banco do motorista, e então eu pude sentir mais de perto. Uma mistura de loção masculina com alguma coisa que eu não saberia explicar, mas realmente gostosa. Daqueles que a gente sente e não esquece mais sabe? Aquele tipo de cheiro que se entranha em você e deixa seus pulmões complemente tomados, sufocados, viciados. Eu quase me pendurei no pescoço dele para sentir mais, por um súbito momento eu me vi grudada nele, dando uma cheirada bonita no seu pescoço. Mas esses pensamentos foram afastados assim que paramos em frente ao Headington School, uma escola só para meninas. Eu nem tinha me dado conta de como fomos parar ali, tal era a minha atenção ao cheiro delicioso do .
Emma deu um beijo em mim e depois em , antes de descer e se meter num grupo de umas cinco meninas da mesma idade. Uma delas olhou para dentro do carro e deu um tchauzinho para o , com aquele olhar de apaixonada e todas que estavam com ela, olharam e fizeram o mesmo. Ele deu um tchau em resposta, e eu revirei os olhos. Eu realmente não estava acreditando que aquele bando de pirralhas estavam caidinhas por ele. Mas pensando bem, elas eram garotas de nove anos e não entendiam nada, ou seja, é bem fácil de apaixonar por um idiota como ele.
- Ué, a gente não vai pra escola? - Perguntei quando ele virou a esquina, saindo da rua principal.
- Vamos sim, Risadinha. Mas eu vou dar carona a um amigo, algum problema? - Ele olhou pra mim através do óculos de sol. Eu agradeci pelos seus olhos estarem escondidos através das lentes.
- Não. - Respondi, aumentando o volume do rádio para me distrair. Eu me senti incomodada porque ainda continuava a me olhar, com um sorrisinho de lado. - Algum problema, ?
- Vai ficar me chamando de agora? - Brevemente, ele voltou para frente para checar a rua, voltando a sua atenção pra mim depois.
- E se eu for chamar? Há algum problema nisso? - O encarei também, querendo bater de frente. – Você fica inventando apelidinhos estúpidos e eu não reclamo, reclamo?
- Eu realmente não me importo. - Ele desviou para a rua de novo e eu fiz o mesmo, olhando para a janela ao meu lado. - Na verdade soa bastante sexy por causa do seu sotaque.
Eu apenas me limitei a revirar os olhos, prestando atenção na música que tocava no rádio. Continuamos em silêncio até ele virar novamente e entrarmos numa rua residencial, tão rica quanto à da casa de John e Helen.
- Aí está ele. - falou, apontando com a cabeça para um garoto sentado na calçada, em frente a uma casa branca com detalhes azuis.
Ele era lindo. Estava com os olhos fechados e batia as mãos na perna, acompanhando o ritmo da música que saia dos fones do seu iPod. O volume era tão alto dava para escutar de longe. Eu ri com a cena. O garoto estava totalmente alheio as coisas ao seu redor, razão pela qual não escutou a buzina do carro de .
- ! - Ele chamou pela terceira vez e jogou uma bolinha de papel que encontrou pelo carro. abriu os olhos e sorriu de um jeito sapeca. - Vamos logo, estamos atrasados!
- Calma cara, pra que tanta pressa? - pegou sua mochila e sentou no banco de trás. acelerou o carro, e apoiou os braços nos bancos da frente, me olhando pelo espelho retrovisor. - Ei, você deve ser a . Eu sou o , o cara mais irresistível da cidade. – Ele sorriu, dando uma piscadela pra mim e bufou divertido. – Mas pode me chamar apenas de .
- Então quer dizer que você já ouviu falar de mim, ? - Olhei para ele pelo espelho, depois para , que pareceu meio sem graça e ri, internamente. É claro que eu não me esqueci o comentário que Emma fez sobre ter escutado a conversa dos dois no telefone. A intenção foi deixar sem jeito e eu consegui. - Espero que tenha sido algo bom.
- É, pode ser. - Vi sorrindo pra mim pelo espelho e depois assentir, apontando pro .
- , - chamou com uma voz de aborrecido. E eu tive certeza que ele só chamou o pelo sobrenome porque viu o que ele tinha feito. - os outros vão querer carona também?
- Não. foi mais cedo para encontrar com a Cassie e o foi com ele. – deu uma cutucada na cabeça dele. – Acelera isso, eu não quero chegar atrasado.
St. Olave's School era uma escola gigantesca. Não era nem comparada a minha escola antiga, que também não era nada pequena. St. Olave's School mais parecia uma faculdade do que uma escola, na verdade. Eram quatro prédios; A, B, a secretaria, que não era muito grande e o ginásio. O prédio A era o principal, onde tinha aulas de história, física, matemática.. O prédio B era o prédio com salas somente voltadas para o esporte e música. Ou seja, tinha a sala de Judô, Karatê, Balé, do coral, etc. Do lado do ginásio ficava uma piscina olímpica. E bem na frente dos quatro prédios, ficava o estacionamento livre e grandão, onde tinha deixado o seu humilde Land Rover com outros carros igualmente humildes.
Passamos pela secretaria para pegar minha grade de aulas, meus livros novos e a senha do meu armário. O tempo inteiro eu fiquei no meio entre e , que cumprimentavam algumas pessoas com acenos ou piadinhas. Eles mais pareciam meus guarda-costas do que qualquer coisa. Vi de soslaio que algumas pessoas olhavam para nós, outras apenas comentavam e ainda tinham aquelas que faziam as duas coisas ao mesmo tempo. Eu me senti totalmente tímida com aquela atenção. Talvez fosse por causa dos meninos, ou talvez porque eu fosse um rosto novo no meio de tanta gente. Quando finalmente passamos pela porta do prédio A, segurou a minha mão, e eu o olhei confusa, estranhando aquela atitude repentina.
- O que está fazendo? - Baixei meus olhos para nossos dedos entrelaçados como se fôssemos um casal. A mão dele era linda. Quente, gordinha, grande e macia.
- Nada. - Ele respondeu sério, mas não olhou para mim e nem soltou a minha mão. Os olhos dele, que agora já não estavam mais protegidos pelo óculos, iam a todos os cantos do corredor, encarando as pessoas. - Apenas fique perto de mim.
- , dá pra me explicar o que é isso? - Sussurrei para o garoto ao meu lado, querendo saber o que estava acontecendo já que não me contava.
- Não é nada. - Ele falou, mas também não me olhou como . Sorriu para alguém que eu não vi quem era, pois ainda estava com os olhos no rosto dele. - Tá vai, depois eu te explico.
Virei para frente, rolando os olhos e vi que mais pessoas nos observavam. Não na mesma quantidade do estacionamento, era ainda maior. Eu soltei um suspiro, me sentindo nervosa por causa daquela situação e apertou minha mão, querendo me tranqüilizar.
- Ei, caras! - Ouvi a voz de um garoto atrás de mim, quando eu estava guardando os livros que não eram necessários nas próximas aulas. - Pensei que vocês não fossem chegar hoje.
- Tivemos que passar para levar a na secretaria. - disse e eu me virei, depois de fechar o armário. Não era apenas um garoto e sim dois. Lindos e ambos estavam sorrindo. De repente eu me perguntei se todos os caras da cidade eram lindos como os quatro.
- Ei, então você é a nova integrante da turma da bagunça? - Um deles me perguntou e deu um tapa na cabeça nele. - Que é?
- Não difame a gente antes do tempo, cara. - Ele colocou a mão no meu ombro. - , esses são e .
- Ela é filha do John. - Danny se meteu na conversa de supetão. Não houve aquela expressão de "Ah sim, entendi" no rosto deles. Estava na cara que eles já sabiam.
- Foi um prazer conhecer vocês meninos, mas eu preciso ir pra aula. - Falei quando o sinal tocou. - Vocês sabem onde fica a minha sala?
- Vem, eu levo você. - pegou a minha mão e dirigiu a palavra para os outros. - Encontro com vocês na sala.
De novo foi aquela coisa de gente olhando para nós, mas dessa vez eu não me senti intimidade pelos olhares curiosos. Eu me senti.. Bem. Na verdade, me senti ótima. Mas eu não deveria. Eu estava de mãos dadas com um cara que não era meu namorado e nem me incomodei nem um pouco com isso.
- Pronto. - largou a minha mão quando paramos em frente a sala 305, no terceiro andar, onde alguns alunos entravam. - Acho que aí dentro você vai estar protegida.
- Do que você está falando, ? - Agora ele teria que me explicar! - Por que você e estavam agindo como se estivesse me protegendo de alguma coisa?
- Não é nada demais, . - Ele colocou as mãos nos bolsos da calça. - É que as pessoas daqui são venenosas demais, e você é novata, não conhece ninguém. - Eu sorri fraco com a preocupação dele, e ao mesmo tempo fiquei irritada por ele me tratar como criança.
- Não precisa fazer isso, . Eu não sou nenhuma criança. - Achei que meu tom saiu um tanto quanto arrogante e emendei com um sorriso. - Sério, não precisa ficar cuidando de mim. As pessoas daqui não são diferentes do meu antigo colégio. Mas eu agradeço pela preocupação, mesmo que ela seja desnecessária.
- Como acha que não, mas com o tempo, vai ver que são sim. - Ele deu de ombros. - Eu vou pra aula agora. Minha sala fica no segundo andar e não posso me atrasar. Passo aqui na hora do intervalo.
- Não precisa, . - Falei paciente, não entendendo o motivo da insistência. - Não precisa mesmo.
- Tchau, . - Danny sorriu de lado, como se eu não tivesse negado a proteção dele, me deixando um tanto irritada. - Nos vemos depois. - Ele se afastou e eu continuei no mesmo lugar, vendo-o sumir de vista quando desceu a escada.
Droga, ele tinha me irritado, de novo!
Eu continuei pensando em . Quero dizer, continuei pensado naquela maneira inegável que ele tinha de me irritar. Como ele conseguia isso? Eu fiquei pensando, pensando e pensando. Ele não era uma má pessoa. Na verdade no primeiro dia que nos conhecemos, ele havia sido bem legal comigo dizendo todas aquelas coisas sobre eu estar triste. Eu fiquei grata por isso. Mas ao mesmo tempo em que ele ajudava, ele irritava também! Qual era do apelido Princesa? E do “Risadinha”? Por que ele tinha posto aquele apelido ridículo em mim? Risadinha.. Não tinha sentido algum, assim como o “Princesa” também não. E daí que os apelidos não tivessem significados claros? Eu ainda ficava irritada. E aquele jeito arrogante? E o sorrisinho debochado? Oras.. O pior é que ele ficava ainda mais lindo. Sem contar com aquele jeito totalmente bipolar. Uma hora ele estava me irritando, outra hora ele estava querendo me proteger.. Eu tenho que admitir, me senti protegida por ele enquanto andávamos pelos corredores da escola. Me senti bem ao lado dele, me senti bem por tê-lo me tocando, transmitindo o calor do seu corpo para o meu. E o cheiro dele? Meu Deus, que cheiro delicioso! Eu ainda conseguia senti-lo tão claramente como se estivesse aqui, meu ao meu lado..
Por que você está pensando nisso, ?
Droga, eu não deveria estar pensando naquilo. Mas eu estava. E não tinha como não pensar.
Era algo mais forte do que eu, mais forte do que a resistência que eu tentava impor.
- Sra. ? - Ouvi a voz calma, mas num tom alto do professor Evans. Ele, assim como toda a turma, olhava para mim. Provavelmente ele tinha feito alguma pergunta que eu, entre meus pensamentos, não escutara.
- Sim, professor? - Me endireitei na carteira querendo demonstrar atenção.
- Eu estava olhando a sua ficha que me entregaram hoje de manhã já que é aluna nova. Nunca tivemos uma Alemã aqui. Qual parte do país a Sra. é? - Ele estava sentado na mesa, com uma pasta da mão aberta, que provavelmente era a minha ficha. Usava uma armação redonda, seus cabelos loiros escuros estavam num corte baixo, lhe dando uma aparência culta. De certa forma ele era bonito com o corpo magro.
- Sou de Kassel, uma cidade situada no norte do estado de Hessen, no centro da Alemanha. - Respondi prontamente vendo que as pessoas ainda estavam prestando atenção e mim. Parecia até que elas não estavam respirando tal era a atenção.
- Ah sim, já ouvi falar. Lá é um lugar muito bonito. - Ele sorriu, fechou a pasta e levantou indo para trás da sua mesa. - Bom pessoal, agora vamos a Literatura. Todo mundo abrindo a página 65, por favor. - Ele escreveu “Romantismo” na lousa, virou para a turma e começou a explicar a matéria. - A superioridade da natureza e instinto sobre civilização foi pregada por Jean Jacques Rousseau e sua mensagem foi adotada por quase todos os poetas Europeus..
Eu ainda sentia os olhos da turma gravados em mim quando a aula de Literatura terminou. E na aula de Matemática também, e na aula de Geografia. Qual era o problema com essa gente, hein? Nunca viram uma estrangeira? O meu sotaque era bem diferente sim, mas eu não falava mal inglês, era praticamente fluente.
Já estava me sentindo mal com aquilo, e tentei ao máximo fingir que não era comigo. Foi possível até que a aula de Francês terminar e o sinal tocar indicando o intervalo. Guardei as minhas coisas e quando estava perto da porta, um garoto bem alto e magro surgiu na minha frente, gritando a salvação Nazista. Eu não sabia onde enfiar minha cara, e ao mesmo tempo fiquei morrendo de raiva daquele idiota. Minha vontade foi de meter um chute entre as pernas dele.
- Seu acéfalo, você sabia que se fizer isso na Alemanha, pode ser preso? - Uma garota ruiva parou ao meu lado, falando com o garoto. Ele não falou mais nada, arregalou os olhos, parecendo bastante intimidado. Deu de ombros e saiu da sala. A menina virou para mim e estendeu a mão. - Oi! Meu nome é Elizabeth Tallis, mas todo mundo me chama de Lizzie. - Linda, com um ar nerd. Mas nerd estilosa, que só existem em filmes pré-adolescentes. Os cabelos eram num tom vermelho alaranjado muito bonito e chamativo, lisos e escorridos um pouco abaixo dos ombros daqueles que muitas garotas que usam chapinha sonham em ter. Sardenta, o branco típico inglês, com olhos castanhos bem claros por trás de um óculos numa armação quadrada e bem moderna. Eu não entendi, até aquele momento, o porquê do garoto se sentir intimidado por ela.
- Ah, oi! - Aceitei o aperto de mão, me surpreendendo por ela ter sido a única simpática comigo ali. - Eu sou a , como você já sabe.
- Sei. Todo mundo sabe sobre você, . - Ela sorriu de um jeito simpático, ajeitando seu óculos e acrescentou quando eu não entendi o que ela queria dizer. – A nossa escola é grande, mas as fofocas correm rápidas, além do mais, você é a irmã do .
- Não. - Eu a corrigi um tanto impaciente e talvez até rude. - Eu não sou irmã dele. A mãe dele que é casada com o John, meu pai. - A última palavra havia saído com certa dificuldade. - Mas como você sabe sobre o meu quase parentesco com o ?
- Eu sou amiga dele. - Ela enlaçou um braço no meu como se fôssemos amigas íntimas, me pegando de surpresa. - Vem, vamos para o intervalo. Vou te apresentar as minhas amigas.
- Mas.. - Eu ia falar, mas a frase morreu quando saímos da sala.
estava encostado contra a parede da sala com e como havia me prometido que estaria. Os dois últimos nos viram primeiro e lançou um sorriso largo em direção a Elizabeth. cutucou que logo se afastou da parede e me encarou risonho.
- Ora, ora, o que temos aqui! - Elizabeth puxou meu braço, chegando mais perto deles, dirigindo a palavra para . - Estávamos falando de você. - De mim? - O ar risonho dele se transformou num sorriso de verdade e ele voltou a olhar para mim, como se pedisse para eu responder. - Vocês estavam falando o quanto eu sou lindo, não é?
- Corta essa, ! - Elizabeth riu, largando o meu braço, e foi dar um beijo na bochecha dos três. Reparei que ficou um tanto quanto vermelho quando ela o beijou. Êpa! – Deixa de ser convencido. Só por isso eu não vou mais te contar o que era.
- Eu não queria saber mesmo. - Ele deu de ombros, querendo demonstrar que não ligava.
- Vamos logo comer, estou morrendo de fome. - Elizabeth agarrou o meu braço de novo, me fazendo andar na frente dos meninos com ela. – Ei! - Ela virou apenas a cabeça para trás. - Cadê as meninas?
- Cassie está com o , como sempre. – Ouvi uma voz atrás de mim que não era nem de e nem de , o que eu constatei que seria de . Eu ainda não tinha escutado sua voz. - E a sua outra amiga, eu não sei. Deve estar com algum babaca daqueles que ela sai. - Senti um tom de mágoa e desprezo na última frase e fiz uma nota mental para saber o motivo.
- Tchau meninos. - Elizabeth disse a eles quando chegamos ao pátio, enquanto me puxava para o lado oposto. - Vemos vocês depois.
- Mas eu pensei que fôssemos ficar com eles. - Eu falei olhando para trás, vendo que eles se distanciavam cada vez mais de nós e sentavam numa mesa vazia no centro do pátio.
- Geralmente isso acontece, mas não hoje. - Ela parecia procurar alguém enquanto me explicava. – Quero te apresentar as minhas amigas, tem problema?
- Não, claro que não. - E realmente não tinha. O problema é que as pessoas ainda me olhavam e faziam comentários.
- Ahá, finalmente encontrei vocês. - Elizabeth apontou para duas meninas sentadas numa mesa perto da cantina. Uma era morena, olhos verdes, cabelos lisos até o meio das costas. A outra tinha um ar bem descontraído, digamos sonhadora. Os cabelos eram num loiro bem claro, cacheados e cortados acima do ombro e olhos castanhos escuros. Ambas eram lindas também, assim como Elizabeth. - Ué, disse que estava com vocês.
- Ele foi na cantina comprar um suco pra mim. - A loira disse sorrindo em direção a cantina e depois olhou para mim. - Ah, você deve ser a , né? Eu sou a Cassie, e ela. - Cassie apontou para a morena. - É a Katie.
- Senta aí, . - Katie indicou uma cadeira vazia para mim. - E então, como você se sente sendo a nova sensação da escola?
- Meio estranha. - Confessei olhando para as três garotas. - Não estou acostumada com tantas pessoas me olhando.
- Vejamos.. - Elizabeth começou a enumerar com os dedos. - 1. Você é bem atraente, 2. É novata, 3. É de outro país, não podemos esquecer isso, e por último e mais importante, chegou com e ainda andou de mãos dadas com ele. Sabe quantas garotas sonham com isso?
- Muitas, acredite em mim. - Cassie respondeu antes que eu abrisse a boca e novamente deu um sorriso, esticando os braços para alguém atrás de mim. - Obrigada, meu amor. - Ela pegou o suco da mão do .
- Eu vou lá ficar com os caras agora. - Ele deu um beijo em Cassie e se afastou. - Tchau meninas.
- Tchau. - Dissemos em juntas.
- Eu não sabia que é tão famoso por aqui. - E não sabia mesmo. Só porque ele era lindo e gostoso não significava ser popular, certo?
- Todos eles são. - Katie apontou para a mesa deles e vi que eles já não estavam mais sozinhos. Garotas e garotas os cercavam. - Eles fazem parte do time de futebol, e bem, você pode ver que são os mais gatos daqui.
- É, mas o é totalmente meu. - Cassie falou num tom enciumado. - Ninguém coloca a mão no meu bebê.
- Na verdade, - Katie continuou como se não tivesse escutado o comentário de Cassie. - eles são populares não só por causa do futebol, mas porque vivem fazendo merda e todo mundo acha graça.
- Disso eu sei. - Falei confiante, me sentindo bem por estar ali com elas. – Sei das coisas que o aprontou.
- Duvido que você saiba metade. Eles vivem aprontando! mesmo não pôde sair comigo o mês passado inteiro porque estava de castigo! Ele e soltaram barbadinho cheiroso bem no meio da aula de física. Foi horrível! - Cassie fez uma careta engraçada. - E eu fiquei fula da vida com ele!
- E depois ficaram aos beijos, como sempre. - Elizabeth fez bico e começou a distribuir beijos para o ar, fazendo todas nós rirem.
- Ah, não! – Katie revirou os olhos e todas olharam na direção que ela apontou. Um grupinho de líderes de torcida com uniformes curtíssimos da cor do colégio, azul e branco, tinha acabo de sentar-se à mesa deles. – Tá vendo aquela loira ali? – Katie apontou discretamente para uma loira de cabelos compridos e eu murmurei um “Uhum”. – Ela é a Lisa Richards. Capitã das líderes e vive dando em cima do . Eles já saíram algumas vezes, mas ele nunca quis assumir um relacionamento sério. Foi histórico o dia em que ele disse que não queria mais sair com ela.
- E aquela outra loira de cabelo curto é a Gemma Morgan. Ela é totalmente apaixonada pelo , mas como o , nunca assumiu nada. – Elizabeth praticamente cuspiu a frase e eu levantei uma sobrancelha pelo seu tom. - São todas patéticas, umas putas.
- Olhem só como a Harris dá em cima do ! – Katie falou de um jeito que pareceu que ela ia voar no pescoço da terceira loira, que tinha acabado de dar um beijo na bochecha de . – Eu ainda vou matar essa garota! Nós olhamos para ela, logo Katie se recompôs do seu estado de raiva. Eu não entendi nada, ou melhor, eu estava começando a entender, mais ou menos o que rolava entre elas e os meninos.
- Eu não sei como vocês duas se abalam tanto com elas. Não existe uma alma boa e inocente ali e eles sabem disso. – Cassie sentenciou, jogando a mão para espantar uma mosca imaginária.
- Dá pra ver. – Compartilhei do desprezo delas. Vi que a da Richards estava mexendo no cabelo de , mas ele logo retirou a mão dela, olhando na direção da minha mesa e nossos olhares se cruzaram, mas eu desviei o mais rápido possível e voltei minha atenção para as meninas. – Mas vamos meninas, vocês ainda têm muitas coisas para me contar sobre essa escola.
- Estou adorando essa garota, Lizzie! – Cassie sorrindo para mim.
Continuamos conversando até o final do intervalo. As meninas eram ótimas, divertidas e conversaram comigo como se eu já fizesse parte do grupo delas. Eu me senti muito bem com isso. Contei a elas sobre Sam, Jennifer e um pouco sobre a minha escola antiga. Não senti vontade de chorar. Estranhamente as lágrimas não ameaçaram descer e eu agradeci por isso. Também soube um pouco de cada uma. Cassie acabou soltando sobre o namoro de Katie e e em como eles era loucos um pelo outro, mas viviam brigando, acarretando inda e vindas durante quase um ano juntos. Não fazia mais de duas semanas que eles tinham terminado. Katie soltou um gritinho, jogando um olhar mortal para Cassie. A loira riu, e pediu desculpas. Katie me explicou que não tinha problemas em saber sobre , mas ela não gostava de tocar no assunto. Eu percebi, com os olhares furtivos que ela lançava para a mesa do outro lado, o quanto ainda gostava dele.
Eu acabei me desviando mentalmente da conversa, pensando em como eu ficaria arrasada se meu namoro não desse certo com o dela.
Elizabeth contou sobre o seu namorado mais velho, mas não entrou em muitos detalhes. Por parecer ser uma pessoa bem discreta, não achei estranho o fato de ela contar por alto sobre o namoro. Já Cassie, abriu a boca e contou tudo que poderia contar sobre . Eu ria da sua maneira alegre e apaixonada, dizendo contando o ele era romântico mesmo depois de um ano e meio juntos.
Mesmo tendo conhecido todas em menos de um dia, eu já conseguia definir a personalidade de cada uma: Elizabeth era a garota inteligente, além de linda e era bem centrada, eu já conseguia entender o porquê do menino magrelo sentir certo medo dela. Homens sentem medo de mulheres bonitas, inteligentes então.. Já Katie era a mais séria, e em tudo que falava, parecia ter um tom irônico, mesmo que não fosse de propósito. Seu jeito igualmente centrado de Elizabeth, poderia dar medo aos homens, só ela quebrava isso com uma expressão doce no rosto. Cassie era a mais diferente. Seus olhos brilhavam como de uma criança, e ela era tão doce quanto açúcar. Meiga, fofa, delicada, exagerada, maluca, sonhadora. Essa era a Cassie.
Infelizmente as duas últimas não eram da minha sala e sim da dos meninos, mas logo Katie me contou que teríamos algumas aulas juntas.
Eu praticamente arrastei Elizabeth até a sala quando o sinal tocou, não querendo dar oportunidade de ir até a minha mesa para me levar para a sala como se eu fosse uma criança do maternal. E ele também parecia bem ocupado desviando das quinhentas mãos da Richards, que insistia em ficar sentada ao seu lado, assim como o resto do seu grupinho. Mas assim que a aula terminou, lá estava ele me esperando do lado de fora da sala. Eu não abri a boca, apenas passei direto. Elizabeth e ele vinham conversando atrás de mim e logo , , , Cassie e Katie se juntaram.
- Ih, o Carl já chegou! – Elizabeth apontou para um Audi TT Roadster que estava em frente à escola. – Tchau gente, falo com vocês depois!
Ela entrou no carro e seu um selinho no motorista. Ele era lindo, mas bem mais velho com uns trinta anos mais ou menos e cabelos pretos. Não dava para ver a cor dos seus olhos por causa da distância, mas eu sabia que eram azuis, pois Elizabeth tinha, finalmente, me contado sobre seu namorado enquanto esperávamos o professor de História chegar. Eles estavam namorando há dois meses e ela não ligava para a diferença de idade. Parecia bem segura de si enquanto falava.
- Aquele pedófilo. – resmungou mal humorado enquanto vimos o carro acelerar. – O que ele estava fazendo aqui? Eu ainda vou acabar com a festinha do Barât.
- Ele é namorado dela, . – Katie falou cautelosa. – Você precisa se acostumar com isso.
- Vamos, cara. – deu um tapa no ombro dele querendo confortá-lo. – Eu ainda preciso passar para pegar a Emma.
Deixamos na porta da casa dele depois que passamos no colégio de Emma. Ele foi o caminho todo com uma cara emburrada e me senti chateada por aquela situação. Ele parecia uma pessoa legal, e eu não gostei de vê-lo daquele jeito. Quase contei sobre a forma com que Elizabeth tinha falado dele e da Morgan, mas preferi ficar quieta. Eu ainda era uma novata ali e não ia me meter, não por enquanto.
Emma nem me deixou terminar meu sanduíche quando chegamos e logo me arrastou para o seu quarto para jogarmos mais algumas rodadas de Guitar Hero. Pelo menos eu não estava trancada no quarto estudando Francês.
Eu estava quase ganhando quando entrou no quarto sem nem ao menos pedir permissão.
- Telefone pra você! – Ele falou mal humorado antes de atirar o telefone sem fio na minha direção. Totalmente sem educação e extremamente grosso, ele saiu batendo a porta com força sem nem ao menos esperar um agradecimento, que com certeza não viria por causa dessa atitude. Eu e Emma nos olhamos sem entender nada. Ela indicou o telefone, que por alguns segundos, eu tinha esquecido.
- Alô? - Perguntei ainda trocando olhares confusos com ela.
- , meu amor. - Ouvi a voz de Sam do outro lado da linha e praticamente grudei o máximo que eu pude no telefone. Já até tinha esquecido a grosseria de . - Sam! Você ligou! - Falei feliz vendo que Emma me lançava um olhar questionador. A verdade é que eu tinha esquecido que Sam me ligaria, mas ele não precisava saber disso. - Como estão as coisas aí?
- Bem chatas sem você aqui. - Ele respondeu todo meigo. – E aí?
- Ah, está tudo bem. – Emma ainda me lançava aquele olhar de “Com quem você está falando?”, mas eu ignorei.
- Quem atendeu ao telefone? – Ele perguntou, mudando seu jeito para um tanto áspero.
- Ah, foi o . Eu te falei dele, lembra? O filho da minha madrasta... – Falei naturalmente, tentando puxar a memória dele.
- Lembro. – Sam falou e depois hesitou um pouco. – Ele ficou me perguntando quem eu era e o que queria falar com você.
- Deixa isso pra lá. – Cortei o assunto. Não queria que Sam tivesse uma birra com . Não seria legal quando ele viesse me visitar e além do mais, eu tinha plena certeza que quebraria Sam em dois caso eles brigassem. – Vamos, me conta como estão às coisas por aí. Como está Jen?
- Acho melhor você mesma perguntar. – Eu ouvi um barulho do outro lado da linha antes dele continuar. – Ela está aqui.
Eu fiquei tão feliz quando ele disse aquilo que nem perguntei por que Jennifer estava ali, bem no meio da tarde.
- Jennifer? – Perguntei ouvindo novamente o barulho e deduzindo que Sam tinha passado o telefone para ela.
- ! – Ela chiou animada.
- Nossa, Jen! Parece que não nos falamos há anos! – Sentei na cama de Emma e vi que ela já tinha desistido de acompanhar a conversa e estava com sua atenção de volta ao vídeo game. – Como você está?
- Estou ótima! – Ela respondeu e logo emendou. – Vamos, me conte o que tem acontecido aí.
Então eu contei tudo sobre York, exatamente como tinha feito para Megan. Contei sobre a casa enorme, sobre meu quarto novo, sobre como a cidade era linda, sobre Helen e até mesmo sobre John. Depois falei sobre a escola e que já tinha feito amizades. Jennifer deu um chilique básico dizendo que eu iria abandoná-la, mas eu logo tratei de acalmar a fera. Contei sobre e sobre Emma. Nessa hora a própria citada deu um pause no jogo e prestou atenção no que eu falava. Jennifer me disse que nada tinha mudado desde que eu tinha ido embora e preferia me ouvir contando. Logo voltei a falar com Sam. Passamos quase a tarde inteira conversando, matando a saudade de ouvirmos a voz um do outro, até que ele precisou desligar para ir ao treino de futebol. Mal desliguei o telefone e Emma praticamente me mandou contar tudo sobre Sam. E eu contei. Não só dele, mas de Jennifer e dos meus outros amigos. E aí foram horas conversando, contando as coisas que todos nós costumávamos fazer nos finais de semana, dos lugares onde freqüentávamos. Eu praticamente contei a minha vida inteira para ela. O Engraçado foi que durante a conversa, Emma parecia ter a mesma idade que a minha. Ou talvez eu fosse imatura demais, mas o fato é que ela era a única que me conhecia de verdade até aquele momento. Emma e eu acabamos, durante a conversa, desenvolvendo um laço de cumplicidade forte, de irmãs mesmo. Parecia que nos conhecíamos há anos. Ela até mesmo me contou sobre um menino que ela gostava da escola chamado Nicholas e me pediu para que eu ensinasse a ela a fazer uma maquiagem básica para ir pra escola mais bonita. Eu achei isso tão lindo que quase deu um abraço forte nela.
Helen e John não foram ao jantar de negócios. Ele tinha sido cancelado porque um dos empresários que assinaria o contrato com a construtora não pode comparecer. Então depois do jantar eu ajudei Helen a tirar a mesa enquanto John ia para o seu escritório que ficava em algum lugar da casa, subia com uma carranca do tamanho do mundo e Emma dava comida ao Jack. Aquele cachorro era um guloso! Ficou olhando para mim durante o jantar inteiro e eu quase fui até o quintal lhe dar um pedaço da minha carne.
Quando terminamos de ajeitar tudo, subi correndo para o meu quarto e entrei no MSN, mas nem Jennifer e nem Sam estava online. Eu fiquei totalmente frustrada e resolvi colocar alguns trabalhos em dia, mesmo não precisando, enquanto escutava Julian Casablancas.
Olhei para o relógio quando terminei e marcava quase meia-noite. Fui até o banheiro, tomei um banho quente, coloquei minha camisola branca com estampa do Bob Esponja e deitei na cama. Eu não estava com o mínimo de sono, mas precisava descansar para o dia seguinte. Mas o no sono não veio. Fiquei deitada por algum tempo e acabei lembrando do sorvete caseiro de chocolate que Molly tinha feito para a sobremesa. Não resisti e levantei, colocando minhas pantufas e levando uma coberta comigo por causa do frio. Desci o mais cautelosamente possível para que ninguém escutasse e não acendi a luz quando entrei na cozinha. Enchi uma taça com o sorvete e sentei na bancada, me deliciando com o doce. Houve um barulho lá fora, mas eu não dei bola, pensando ser o Jack. Quando eu já estava voltando para o hall, escutei o barulho de novo e fui até a porta de vidro que levava para o quintal, vendo . Ele estava sentado com os pés dentro da piscina, usando apenas uma calça de moletom escura, não se importando que ela estivesse molhada, olhando para Jack, que estava deitado ao seu lado, enquanto fazia carinho na enorme cabeça do cachorro. Estava acontecendo alguma coisa ali, Jack parecia sentir isso e estava, de alguma forma, confortando Danny, dizendo silenciosamente que ele estava ali, apoiando-o. Era uma cena linda. Parecia um daqueles filmes que passa na sessão da tarde, em que o cachorro e o dono são melhores amigos acima de tudo.
Abri a porta e levantou a cabeça. Sorri fraco pra ele, mas ele não sorriu de volta. Ainda estava com uma expressão dura no rosto. Mal humorada. Fui até ele, e o imitei, colocando os pés dentro da piscina, tirando minhas pantufas antes. Ficamos em silêncio por algum tempo, olhando para frente, escutando apenas nossas respirações e o barulho da rua. Eu sentia meu coração acelerar, e minhas pernas tremerem um pouco, e comecei a movimentá-las dentro da água, querendo disfarçar. Eu estava nervosa e nem sabia o motivo.
- O que aconteceu, ? – Quebrei o silêncio, sabendo que ele não iria fazê-lo. Minha voz saiu um tanto fraca, mas eu continuei. – Por que você está assim?
- Não é nada. – Ele respondeu depois de um tempo.
- Me conta. – Insisti. Eu não estava gostando de vê-lo daquele jeito estranho. Até sentia falta da sua implicância. – Você ficou assim de uma hora pra outra, me conta o que aconteceu. Alguém fez alguma coisa pra você?
- Não exatamente. – Ele parou de fazer carinho em Jack e repousou os braços nas coxas, fazendo um dos seus braços roçarem nos meus levemente.
- Hm. Então foi alguma coisa que alguém te falou? – Ele estava quase cedendo, eu pensei. Era questão de tempo.
- Não. – Ele disse simplesmente. A resposta me desanimou e eu bufei. Ele não estava cedendo porra nenhuma! – Pare de tentar adivinhar.
- Mas eu quero te ajudar. – Disse decidida.
- Eu não preciso da sua ajuda, . – Ele falou num tom grosseiro. – Não se meta!
- Você é um grosso, . – Rebati irritada. – Você é um puto de um grosseiro, entendeu? Eu estava querendo ajudar, mas você, com essa arroganciazinha toda é burro demais para entender isso!
Eu estava prestes a levantar e voltar para o meu quarto, mas antes que eu me erguesse, segurou o meu braço.
- Desculpe. – Ele pediu, ainda segurando o meu braço e olhando pra mim. Os olhos dele estavam ainda mais , se é que possível, por causa da iluminação que vinha da piscina. Eu respirei fundo, tentando acalmar meu coração que começava a acelerar por causa da intensidade que me fitava. – Você não tem culpa de nada.
- Vai me contar o que aconteceu, então? – Perguntei, voltando a um tom calmo, não querendo brigar.
- Não sei se devo. – Ele soltou o meu braço, bufando e voltou a olhar para frente, observando a escuridão de um certo ponto do jardim. – Eu não posso.
- Então tudo bem. – Concordei, mas apenas porque tinha visto a expressão dele suavizar. Quase voltando ao ar descontraído que ele tinha.
- Você não me contou que tem um namorado. – Ele comentou tentando parecer natural, mas eu notei que seu tom era quase acusador.
Eu fiquei sem resposta por alguns segundos, pensando na drástica mudança de assunto. O que Sam tinha a ver com a cara emburrada dele? Nada. Com certeza queria deixar o assunto que o estava irritado, de lado. Ele só estava tentando me conhecer, pensei. Nós éramos quase parentes, não havia nada de mal nisso. - Você não me perguntou. – Dei de ombros, fazendo uma careta óbvia.
- Há quanto tempo vocês estão juntos? – Ele perguntou um tanto curioso e eu, de certa forma, me senti incomodada.
- Nove meses, mas juntando o nosso tempo de rolo, um ano. – Falei o mais breve possível, querendo que aquele assunto fosse encerrado. Segundos atrás eu pensava que era natural saber sobre Sam, mas agora não. Eu não estava gostando de conversar sobre isso com ele. – Que horas são?
- E você o ama? – ignorou totalmente a minha tentativa de mudar de assunto, e eu bufei frustrada por isso.
- Que papo é esse? Por que você está me perguntando isso? – Eu não queria responder por dois motivos. 1) Eu não queria mais tocar naquele assunto com ele e 2) Eu sabia perfeitamente qual era a resposta. Não, eu não amava Sam. O sentimento que eu tinha por ele era bem diferente de amor. Era como... Não sei exatamente. Não era amor, mas era algo forte. Algo que me fazia ficar alegre quando estava ao seu lado. Algo que me fazia sorrir e ficar leve. Eu me sentia desejada o tempo inteiro e gostava disso.
- Ei, desculpa. – colocou as mãos para cima, como se encerrasse o assunto. – Não vamos mais falar disso, se você não quiser.
Eu não voltei a falar e ele também não. Ficamos ali, sentados, olhando para o nada, envolvidos com nossos próprios pensamentos. Eu voltei a mexer meus pés dentro da água e olhava meu reflexo, sentindo a brisa fria da noite batendo no meu rosto, afagando meus cabelos.. Tudo estava calmo demais. Como se ele não estivesse ali, o momento em que tinha entrado no meu quarto, e tinha dito toda aquela coisa de que eu melhoraria com o tempo, veio na minha cabeça. Eu tinha ficado relaxada com seu gesto. Mal nos conhecíamos e ele tinha, de certo modo, me confortado. Eu ainda sentia a ferida doer muito, mas eu sabia que ele tinha razão. Em algum momento da minha vida, eu olharia para trás e me lembraria da minha mãe apenas com lembranças boas de tudo que vivemos, sentiria saudade, mas aprenderia a viver com ela.
Toquei-me que eu não era a única a pensar ali. Eu quis saber o que ele estava pensando. Eu quase me matei de curiosidade.
- O que você está pensando? - Ele perguntou baixinho, como se estivesse tão curioso quanto eu.
- Me lembrei daquele dia em que você me falou que tudo, aos poucos, melhoraria. - Levantei a cabeça, olhando-o e ele fez o mesmo.
- E as coisas melhoraram? - virou o corpo, ficando de frente pra mim, com apenas uma perna dentro da piscina. Uma das suas mãos foi para o meu rosto, tirando uma mecha de cabelo e eu virei para olhá-lo. - Você se sente melhor?
- Eu não sei. - Respondi sincera, deixando tudo o que estava sentindo, escapar pela minha boca facilmente. - Às vezes parece que sim, eu esqueço o que aconteceu, mas então eu fico sozinha e me lembro de tudo.. Eu sinto muita saudade da minha mãe, . Saudade da minha vida, dos meus amigos. Muitas vezes eu me sinto sozinha.
- Mas você não está sozinha. - Ele tocou meu rosto de repente, e acariciou minha bochecha. Seu calor passava para o meu como se fosse eletricidade, fazendo meu coração dar pequenos solavancos. Aproximou seu rosto do meu, enquanto deslizando suavemente seus dedos pela minha pele. – Você pode contar comigo.
- Por que é tão fácil falar com você sobre isso? Não devia ser. - Perguntei mais para mim mesma do que para ele, espantada com a facilidade que falei. Não era comum eu contar tudo aquilo para um estranho. Mas Danny era um estranho? Eu tinha sérias dúvidas sobre isso. Recuei um pouco, afastando nossos rostos, mas continuei olhando fixamente para os olhos dele. Ele nem aparentar o mau humor de antes. Lá estava sua bipolaridade. - Eu não agradeci antes, mas quero que você saiba que eu gostei muito das coisas que você me disse. Pode não parecer, mas me ajudou. Mas do mesmo jeito que você quer que eu conte com você, quero que você faça o mesmo.
Ele soltou uma risada nasalada, abaixando a cabeça brevemente e voltou a me olhar.
- Sabe, - Ele disse baixinho, ignorando meu último comentário e baixou sua mão quente e macia do meu rosto para a minha mão mais próxima. – Eu escutei você chorar noite passada. - Eu arregalei os olhos, ficando totalmente tensa com aquela revelação, e sentiu, pois apertou levemente minha mão. - Desculpe por isso, mas foi inevitável. Sei que não está sendo fácil, então não ache que é vergonha chorar na frente dos outros. Eu já percebi que você faz isso, naquele dia mesmo, que nos conhecemos, percebi que você estava se segurando para não chorar na minha frente. Fraqueza não é uma coisa ruim, . Nos mostra o quanto somos humanos, e que podemos sentir. - Ele dizia tudo olhando nos meus olhos, e eu não conseguia quebrar o contato deles. Não havia sequer uma sombra de pena em suas íris e brilhantes. – E essa dor que você sente é a vida. A confusão e o medo estão ai para te mostrar que em algum lugar há algo melhor, ou pelo menos, que vá fazer a dor amenizar. Entende o que eu quero dizer?
- Sim. - Assenti, sorrindo fraco. - Obrigada pela força que você está me dando.
- Ei, vocês dois! - Ouvimos a voz de Emma e olhamos para cima. Ela estava na janela do seu quarto, segurando Dylan, seu ursinho de pelúcia e vestindo sua camisola. - O que estão fazendo aí?
- Nada, pentelha. - disse, sorrindo de um jeito fofo. - E o que você está fazendo acordada a essa hora?
- Escutei vozes. - Emma bocejou e coçou os olhos. - Bom, eu vou dormir. Boa noite para vocês. – Fechou a janela e apagou as luzes.
- Acho melhor irmos dormir também. - Soltei a mão de e levantei, esperando que ele fizesse o mesmo, mas ele continuou sentado, me olhando de baixo. - Você não vai levantar?
- Vou ficar mais um pouco. Preciso pensar em algumas coisas. - Ele voltou a sua posição inicial, e Jack, que estava com os olhos fechados, reabriu-os quando Danny acariciou sua cabeça.
- Então tá. Boa noite, . - Apertei a coberta mais contra meu corpo. Não estava mais ventando, mas eu sentia um frio.
Fechei a porta da cozinha, ainda o vendo lá fora. Ele me encarava e aos poucos, um sorriso fechado se formou em seu lindo rosto, que agora, se encontrava como antes, leve e encantador.

Capítulo 5

Escrevia freneticamente no celular. Estava mandando uma mensagem para Sam, enquanto os outros andavam um pouco mais a minha frente, conversando. Eu escutava suas vozes, mas não conseguia entender qual era o assunto. Estava concentrada demais nas palavras que meus dedos digitavam. A todo o momento, escrevia e apagava a mensagem. Não sabia como escrevê-la sem cobranças ou parecendo rude. Eu sabia que Sam estava treinando para as finais do campeonato de Kassel, mas ele não havia dado notícias há alguns dias, ou seriam semanas? Talvez sim. Eu realmente não estava prestando atenção nisso. Sim, eu estava com saudades do meu namorado, tinha muitas saudades de escutar sua voz. Sempre quando eu ligava para sua casa, ele estava treinando ou quando ligava para o seu celular, chamava e chamava, mas ninguém atendia e não tinha retorno. Estava ficando preocupada já. Será que tinha acontecido alguma coisa? Decidi-me por uma mensagem simples e sem delongas:

Sam, está tudo bem? Você não tem dado notícias, estou preocupada! Quando ler essa mensagem, me ligue, precisamos conversar. Saudades, beijos

Não, eu não pretendia terminar com ele. Eu pretendia visitá-lo. Já haviam se passado três semanas desde a minha chegada a York. E como eu disse antes, estava com saudade de Sam, dos meus amigos, minha cidade, Jennifer e.. Da minha casa. Talvez fosse má ideia visitá-los assim tão recentemente. Talvez me fizesse mal. Eu já não chorava mais todas as noites. Poderia, finalmente, estar começando a aceitar as coisas. Aceitar tudo o que aconteceu comigo nos últimos tempos. E vê-los, poderia me fazer reviver tudo. Mas o que eu iria fazer? Eu precisava vê-los. Precisava ter certeza que as coisas estavam como sempre estiveram. Então poderia não ser tão má ideia assim. Eu só precisava convencer John a me deixar ir sozinha, porque eu não o queria mais andando pra lá e pra cá comigo. Todo mundo precisa de privacidade e eu não sou diferente. Um final de semana, que tal? Semana que vem não está tão longe, hoje já é sexta. Eu poderia comprar as passagens na segunda e viajar sexta e voltar no domingo depois do almoço, chegaria aqui antes do entardecer. Não era um plano perfeito? É claro que era! Só precisava convencer John a isso. E algo me dizia que Helen e Emma iriam me ajudar.
Olhei para o aviso de “mensagem enviada” no meu celular, rezando para que Sam lesse a mensagem logo e o fechei, colocando-o dentro do bolso da calça. Apertei o passo para chegar mais perto do pessoal, em tempo de escutar a voz de
- Minha cabeça vai explodir! – Ele reclamou, colocando a mão sob a cabeça, fazendo uma falsa careta de dor. – Nunca pensei que poderia acontecer um estupro mental comigo.
- , você é tão idiota. – Lizzie revirou os olhos, andando ao meu lado, como se estivesse irritada, mas eu percebi que era pura fachada.
- Não é todo mundo que é inteligente como você, Tallis. – Todos nós rimos quando ele pronunciou o sobrenome dela.
Era engraçada a relação deles. Lizzie – eu e as meninas já tínhamos quebrado aquela barreira de apenas nos chamar pelo primeiro nome. - vivia criticando , não perdia uma oportunidade. Mas eu sabia muito bem que era porque queria esconder a atração que tinha por ele. Eu já tinha percebido seus olhares para ele, quando não estava olhando, é claro. E quando fazia menção de dizer algo, ela logo cortava e dizia que era pura imaginação minha. Uhum, tá.
De certo modo, eu entendi o lado dela, afinal, ainda estava com Carl. Só que a relação deles era estranha. Ela quase nunca falava dele, só quando estava perto, aí sim, abria a boca e não fechava mais. Ou talvez fosse impressão minha. Talvez eu gostasse tanto de , que torcia para que ela lhe desse uma chance. As meninas também percebiam as mesmas coisas que eu, e estavam na torcida, mas como se fosse surda, Lizzie ignorava tudo o que dizíamos. Se fingia de indiferente, mudava de assunto, nos xingava – sim, já estávamos ao ponto dos xingamentos. – e até mesmo nos batia! Ainda era cedo para definir o que ela sentia por , mas de uma coisa eu tinha certeza, a presença dele não passava em vão.
Já ele, era completamente diferente. Não fazia nenhuma questão de esconder que era doido por ela. Sorria, elogiava, tentava tocá-la.. E dura como uma rocha, Lizzie não demonstrava nada. Mas de qualquer maneira, era engraçada a forma como ele a abordava em certas situações. Certo dia durante a aula de artes – que era um das que todos tínhamos juntos. – Lizzie estava terminando sua aquarela, quando de repente – ok, não tão repetente assim, todos sabíamos o que ele ia fazer.
surgiu por trás e sussurrou em seu ouvido alguma coisa que até agora eu não sei porque Lizzie ficou tão puta que não quis mais tocar no assunto. Ela quase teve um treco e acabou borrando a tinta azul bem em cima da pintura. Não preciso dizer que ela quase o matou, né? teve que desviar de não um e nem dois, mas cinco potinhos de tinta, o que rendeu a turma muitas risadas.
- Vêm meninas, vamos ficar aqui. – Cassie apontou para uma parte da arquibancada vazia. – Boa sorte, meninos. – Ela se inclinou para frente para dar um beijo rápido em antes de sentar.
Lá estávamos nós quatro mais uma vez, acompanhando o treino do futebol deles, pela terceira vez só essa semana. O jogo para a classificação para o campeonato da cidade era amanhã e eles estavam treinando como animais. Então Cassie teve a ideia de vê-los durante os treinos, na parte da tarde, depois da aula, já que o jogo seria em outra cidade e nenhuma de nós poderia ir para apoiá-los. Eu não poderia negar que a oportunidade de ver sem camisa fosse uma coisa muito difícil. É claro que tinha plena certeza de que eu tinha um namorado, mas olhar não arranca pedaço, né? Quero dizer, depende do seu ponto de vista, pois sabia que se não desviasse os olhos de depois de olhá-lo por algum tempo, certamente sairia sim um pedaço.
Deus, , pare de ficar pensando essas coisas!
Mas ele é tão gostoso, não tinha como não pensar. São os hormônios!
Foda-se os hormônios, você tem um namorado!
Mas ele não sabe que eu estou olhando pro e tenho certeza que Sam também olha para meninas gostosas, é normal.
Você não pensa em só como um cara gostoso!
Ih, quem te disse?
, eu sou sua consciência, sabia? Sei tudo o que você pensa.
Então agora eu tenho um grilo tipo o do Pinóquio? Legal.
Não seja irônica, não distorça o que eu estou dizendo!
Olha, você está enxergando chifre na cabeça de cavalo. Eu tenho pensado em sim, mas porque ele tem sido legal comigo desde que eu cheguei. Não posso ficar grata por isso?
Gratidão não é a mesma coisa que desejo.
Pelo amor de Deus, eu não o desejo! Ele é apenas um cara gostoso que está sendo muito legal comigo, não há problema nisso. Isso se chama atração física se você não sabe.
Você gosta quando ele implica com você, gosta quando ele te olha de cima abaixo, gosta de ouvir o som da gargalhada dele, gosta do modo como ele chama seu apelido, e além do mais, você é viciada no perfume dele. Admita, você se sente atraída por ele.
Ok, eu admito, mas e daí? Ele é atraente, o que posso fazer?
Ele é seu irmão
Claro que não! Só porque John casou com Helen, não quer dizer que ele seja meu irmão ou algo derivado disso. apenas é filho da minha madrasta e conseqüentemente mora na mesma casa que eu! Mas isso não nos faz ser parentes! Que consciência chata do caralho!
- ! Estou falando com você, sua imbecil. – Katie me chamou num tom mais alto, cutucando meu braço, como se estivesse me chamando há algum tempo.
- O que foi, Katie? – Perguntei tentando disfarçar o meu mau humor, pois aquele papo com minha consciência tinha acabado comigo. Mesmo que a minha voz saísse falsamente natural, eu não conseguia desmanchar a expressão estampada do meu rosto indicando o contrário.
- Estava falando que os únicos que ficam bem com o uniforme são os meninos, não acha? – Ela disse no plural, mas estava na cara que ela queria dizer “”. Seus olhos não mentiam enquanto o olhava correndo pra lá e pra cá pelo campo.
- VAI MEU AMOR, FAZ UM GOL! – Cassie gritou para , jogando as mãos pro alto, encorajando-o. Ele sorriu para ela, mandando um beijo no ar.
- É, ficam sim. – Concordei, pegando minha bolsa para ver se Sam tinha me respondido. Eu sabia que não tinha, mas eu precisava arranjar algo para me distrair. Não dava pra ficar babando no o tempo inteiro.. Não assim na cara de pau pelo menos.
Porra, por que Sam não me respondia?
- Hm, eles vão mudar de time agora. - Lizzie disse e vi que os quarto junto com mais alguns outros jogadores tiravam a camisa azul e colocavam a vermelha, como se fossem adversários. Olhei para o campo, vendo tirar sua camisa. Mesmo de longe eu conseguia ver suas entradinhas definidas e depois todo o seu tronco. Ele virou, mostrando suas costas largas e brancas. Puta merda, como um homem pode ter um corpo tão lindo e gostoso? Não é aquela coisa musculosa e bruta. É apenas definido, com tudo na medida certa, até mesmo um pouco delicado.
Reprimi um suspiro, olhando para o lado, tentando me concentrar em outra coisa, mas era impossível. Ainda mais sabendo o que eu estava perdendo. Não consegui me segurar e voltei a olhar para o campo.
Diferente de Cassie, nenhuma de nós poderia fazer algum comentário sobre eles. Katie negava que ainda nutria alguma coisa por Dougie – só que todo mundo sabia que era mentira. – Lizzie, bem, Lizzie como eu já havia dito, olhava para o na frente de todos com o olhar indiferente, mas o percebi que na segunda vez que eles trocaram de camisa, ela fechou as mãos e puxou o ar. Eu quase ri com a cena, mas não poderia. Meu estado não estava diferente.
É claro que se eu fizesse algum comentário, ele não sairia dali, disso eu tinha certeza, só que bem.. Eu não ia deixar que elas me encarassem surpresas por ter falado do físico maravilhoso do Danny.
- Fecha a boca, . – Lizzie falou baixinho para que só eu pudesse escutar. Virei meu rosto para olhá-la e vi um sorriso de entendimento nos lábios. – Ou a baba vai escorrer e todo mundo vai ver.
- Você está louca. – Neguei tentando ser convincente, rezando para que ela estivesse certa. – Eu não estou babando por ninguém, ao contrário de você. – E indiquei discretamente com a cabeça.
- Eu? – Ela uniu as sobrancelhas e me encarou, desmanchando o sorriso. Eu já sabia o que aquilo representava: Ela estava nervosa porque eu a tinha pego no flagra e sabia o que se passava na sua cabeça. – Quem está louca aqui é você.
- Tudo bem então. – Dei de ombros. Eu sabia que estava certa, oras. – Você finge que me engana e eu finjo que acredito.
- Ai, que seja! – Lizzie revirou os olhos fingindo impaciência, voltando ao tom natural da voz. – Que horas que o treino termina?
- Já devem estar terminando, disse que o treinador só queria observar os passes deles. – Cassie respondeu, não desgrudando os olhos do namorado.
- Eu não posso mais esperar, o Carl deve chegar daqui a pouco e ele não gosta de atrasos. – Lizzie pegou a bolsa e o fichário, levantou-se dando um beijo em cada uma de nós. – Não esqueçam, vejo vocês amanhã à tarde! E desejem boa sorte aos garotos.
- Ô, avisa pro seu irmão não ficar andando sem camisa perto de mim! – Katie aumentou a voz, vendo que os meninos se aproximavam.
- Deixa de ser implicante. – Cassie lhe deu um empurrão fraco. – Depois fica reclamando que o dá em cima de outras.
- Mas ele dá mesmo. – Katie disse irritada, lançando um olhar do mesmo jeito para algum ponto do campo. – Ai, não acredito que essas garotas estão aqui! Será que a Harris e suas amiguinhas não tem mais nada pra fazer? O time de basquete não treina aqui!
- Controle-se, mantenha a classe. – Pedi, controlando a mim mesma. – Não vamos dar ibope para elas, além do mais, os meninos estão vindo pra cá enquanto elas estão do outro lado.
- Por que você acha que elas estão ali? É o vestiário deles! – Katie ficou vermelha e eu cheguei a acreditar que ela fosse explodir. – Deus, elas não desistem!
Cassie lhe deu mais um empurrão, levantando para falar com . subiu a arquibancada correndo com uma toalha de rosto jogado ao redor do pescoço e sentou ao meu lado. Mesmo suado ele ainda tinha um perfume muito bom, me deixando com vontade de cheirá-lo loucamente.
- Meu lindo! – Cassie deu um estalinho em , apertando suas bochechas. – E aí, estão preparados?
- Claro, depois de tantos dias treinando feitos loucos! Até meu cérebro dói. – passou uma toalha que estava em suas mãos no rosto, limpando o suor e se sentou num banco abaixo de Katie. – Katie, faz uma massagem em mim?
- Ahn.. Tá bom. – Ela fez uma cara de que gostou, segurando um sorriso e começou a massageá-lo.
Cadê toda aquela raivinha, hein?
- Cadê a Lizzie? – olhou para os lados como se ela fosse surgir do nada. – Por que ela não esperou?
- Ela ia encontrar com o Carl. – Respondi e o semblante cansado, mas sorridente de sumiu instantaneamente e eu emendei tentando amenizar a situação. – Mas ela desejou boa sorte pra vocês.
- Olha, que legal da parte dela, não é? – Falou sarcástico. - Eu não entendo porque o pedófilo do Barât nunca chega perto da gente.
- Deve ser porque você já deixou bem claro que não gosta dele e é doido pra ficar com a Lizzie. – falou o óbvio, dando um sorrisinho debochado. – Ele está se defendendo.
- Eu não gosto mesmo e não faço questão de esconder. – fez bico, virando o corpo na direção do vestiário. – Enfim, estou morto e preciso descansar. Não vai ser fácil acordar às seis e meia se eu continuar no estado que estou. Encontro com vocês amanhã. Tchau meninas. – Ele nos deu um beijo na bochecha. – Torçam pela gente, ok?
- Tchau , – Apertei as bochechas dele fazendo-o rir e depois lhe dei um beijo no local. – até segunda e boa sorte!
Ficamos sentados por um tempo conversando, rindo. De vez enquanto eu olhava para o vestiário tentando ver alguma das líderes, mas nada. Elas pareciam ter se mancado. Finalmente, eu devo dizer, porque não agüentava mais aqueles olhares vulgares e nada discretos que a Richards lançava para o o tempo inteiro. Ela parecia que ia engoli-lo a qualquer hora como se ele fosse um chocolate delicioso. Não que ele não seja gostoso, ou qualquer coisa do tipo. E não que eu ligue pela forma que ela olhava pra ele, não tinha nada a ver com isso, mas era meio incomodo. Meio não, totalmente! No outro dia estávamos eu e ele conversando no intervalo e ela se meteu entre nós, me excluindo e começou a puxar papo com ele. É claro que eu não deixei barato e tratei de cutucá-la e mandá-la sair da minha frente da forma mais controlada possível. Ela me olhou dizendo com um sorrisinho sem graça “Não precisa ter ciúmes do seu irmãozinho, ”. Irmãozinho? Quantas vezes eu preciso dizer que não é meu irmão? Além disso, que me irritava profundamente, eu odiava quando ela fala comigo daquele jeito cínico. E ela falava sempre. Era quase de lei fazer uma piadinha comigo quando eu passava. Eu tinha uma enorme vontade de socá-la até deixar aqueles olhinhos roxos, enquanto gritava “Lisa Richards, você é uma puta!”, mas me controlava porque ainda era novata e não queria confusões pro meu lado. Não iria tomar uma suspensão ou uma advertência por causa dela e ficar de castigo, sem internet e telefone. Como eu iria falar com Jennifer e Sam? Então me fazia de “pessoa passiva”, digamos assim. Só que o dia em que ela me pegar má humorada, HAHAHAHAHA, coitada.. Mal sabe que eu quebrei o nariz de uma garota no sétimo ano do meu antigo colégio.
Demoramos mais do que pretendíamos e chegamos em casa já no entardecer. Não passamos na escola da Emma porque ela iria ficar o final de semana na casa de uma amiga, o que me deixou com ciúmes. Eu realmente estava me apegando a ela.
Fiquei pensando em como conversaria com John. Pensando nas palavras certas para tentar convencê-lo de que eu poderia sim viajar sozinha até a Alemanha. Eu não poderia esperar Emma chegar em casa para me ajudar com isso. Tinha que fazer hoje mesmo.
Quando virou a esquina, vimos um caminhão em frente a casa. Entramos, passando pela sala que estava com as portas escancaradas, olhamos para o cômodo, vendo Helen dar instruções a dois homens uniformizados e extremamente fortes.
- Ah, acho que não, vocês podem colocar do outro lado? Acho que vai ficar melhor naquele ângulo. – Ela pediu, apontando para o lugar vazio perto da lareira. Não reparou que eu e estávamos ali e continuou falando com os homens, que pareciam não ter gostado da sugestão dela. – Hm, acho que está bom. O tapete vai ficar lindo! – Ela falou consigo mesma, quase batendo as mãos de felicidade como Emma fazia. – Vocês já podem pegá-lo no caminhão.
- Mãe, o que você está fazendo? – perguntou entrando na sala com uma sobrancelha levantada enquanto os homens passavam por nós.
- Finalmente vocês chegaram. – Helen cruzou os braços fazendo uma cara de mãe preocupada. – Onde estavam?
- Eu estava treinando e a ficou assistindo. Mas afinal de contas, qual é a da mudança da arrumação da sala?
- Meu tapete chegou! – Helen sorriu e olhou pela janela para ver o que os dois caras estavam fazendo. – E eu estava pedindo a aqueles homens para mudarem um pouco os móveis. – Virou-se para mim. – , John queria falar com você. Ele está no escritório.
- Ah, tudo bem. - Saí da sala em tempo de ver os homens voltar com um enorme tapete com uma mistura de azul e bege de fibras naturais. Eu adorava esse jeito que a Helen tinha de se preocupar com o meio ambiente.
Passei pela cozinha antes de procurar John. Não porque queria alguma coisa de lá, mas sim porque já me acostumei em falar com a Molly assim que chego da escola. Entrei na cozinha, não me surpreendendo com o cheiro de dar água na boca que vinha do fogão.
- Que cheiro bom! – Falei atrás de Molly vendo o que ela mexia na panela. O cheiro estava bem mais forte. – O que temos para o jantar?
- Peixe com batata assada. – Molly empinou sua bunda de propósito, me fazendo chegar pra trás. – E pra sobremesa temos Cranachan, um doce escocês.
- Eu vou acabar engordando com essas comidas maravilhosas que você faz, Molly. – Falei já me adiantando para a geladeira para ver o doce. – Pena que a Emma não está aqui para comer comigo. - Fechei a porta da geladeira, dando de cara com Molly me observando. - O que foi? – Perguntei achando a forma como ela me olhava estranho. Parecia que estava pensando em algo e tinha chegado à conclusão de que estava certa.
- Nada. – Ela deu de ombros sorrindo, voltando a mexer na panela. – Vai logo falar com o seu pai, ele quer conversar com você.
Levantei o cenho, continuando a andar em direção ao escritório onde John provavelmente estava revendo alguns projetos. Até Molly sabia que ele queria conversar comigo? Ei, o que está acontecendo aqui? O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa errada? Eu juro que não comi o último pedaço de bolo de chocolate! Talvez um pedaço dele, mas o resto foi tudo a Emma!
Respirei fundo antes de bater na porta. Minha relação com John ainda não estava estabilizada. Na verdade ele era a única pessoa com quem eu raramente conversava. Eu ainda tinha certa raiva e o seu jeito carinhoso e calmo só faziam a situação piorar. É claro que ele tentava inverter esse papel, mas eu não queria. Eu não deixaria dez anos passarem despercebidos só porque agora estava morando com ele. Nos falávamos como se estivéssemos pisando em ovos, essa era a verdade.
Eu ainda podia ouvir o choro da minha mãe todas as noites.
Bati fracamente rezando para que ele não escutasse, mas logo em seguida ouvi um “entre” abafado do outro lado. Girei a maçaneta, vendo John sentado numa cadeira preta giratória em espalmar alto atrás de uma mesa em madeira grande da cor tabaco onde continha um computador moderno e duas poltronas pretas a sua frente. Olhou para mim, desviando de uma planta civil.
- Helen disse que você queria falar comigo. – Fechei a porta, e fiquei em pé em frente a ele, apertando meu fichário contra meu peito, ansiosa para saber o que ele queria e tentando criar coragem para falar sobre a viagem.
- Você não quer se sentar? – Ele indicou uma poltrona, mas eu neguei com a cabeça. – Tudo bem, vou ser breve.
John passou a mão no cabelo, indicando que ele estava tão ansioso quanto eu. Vi que ele tentava controlar sua respiração, tentando se mostrar calmo.
- Eu andei observando você desde que chegou.. – Ele começou, me fitando com seus olhos incrivelmente iguais ao meus. Não era só na voz que John transmitia tranqüilidade. Todo o seu jeito era assim, mas não fazia efeito em mim. – Estou sabendo que você fez amizades no colégio com as amigas do . Elas são ótimas garotas.
- É, são. – Eu não estava entendendo todo aquele papo. Aonde ele queria chegar com tudo isso? - Me receberam muito bem desde o começo.
- Fico feliz com isso. – Ele sorriu, encostando-se no espalmar da cadeira. – Fico feliz que você esteja gostando de morar aqui.
Hm.. É, eu não poderia mentir e dizer que não era verdade. Eu estava mesmo. Era meio complexo porque parecia que eu estava vivendo era em outra vida, outro mundo paralela a minha antiga. Não existia a melhor opção, pois as duas estavam ótimas. De certa forma, eu me sentia em casa morando aqui. Poderia ser por causa do jeito carinhoso e Molly e Helen, ou por ter criado uma afinidade grande com Emma, Lizzie, Katie e Cassie. Não esquecendo os meninos, é claro. Eu gostava de todos. O grande problema era a saudade que eu tinha dos meus amigos antigos. Da minha cidade. Eu ainda tinha um vínculo com Kassel e seus habitantes.
John não voltou a falar. Estava esperando que eu confirmasse o que tinha dito, mas eu estava pensando na viagem. Isso , essa era a hora. Eu tinha uma chance de falar numa boa com ele. O clima não estava tão estranho com das outras vezes. Não estava relaxante como geralmente pai e filha tem, mas era alguma coisa, não era? Todas as ideias que eu tinha dito de como começar essa conversa estavam muito embaralhadas na minha cabeça. Não vi nenhuma muito convincente, teria que improvisar.
- Já que tocamos no assunto, eu queria saber.. – Comecei, procurando as palavras certas. – Eu quero viajar até Kassel na semana que vem. Estava pensando em ir na sexta e voltar no domingo.
- Eu já imaginava que você falaria isso em algum momento, – Ele juntou as pontas dos dedos de uma mão com a outra, colocando-as em cima da mesa, inclinando-se para frente um pouco. Certo, ele queria jogar uma bomba em cima de mim, sentia isso. – mas acho melhor você não ir, não sozinha. Principalmente agora que as coisas estão começando a se ajeitar.
- Por que não? Não há nada demais nisso e eu estou com saudade do Sam, da Jen. Eu não vou fugir ou qualquer coisa do tipo. - Calma , calma. Era a única coisa que eu pensava. Não vai se exaltar logo agora.
- Eu não disse que você fugiria. Eu só não acho uma boa ideia, . Você ainda está se adaptando, está mais envolvida com as coisas, fazendo amizades, não anda mais alheia as coisas ao seu redor como antes. Se você for agora para Kassel, talvez volte a ficar triste como antes.
- Eu vou ficar triste se não for lá! – Falei num tom bem mais alto do que o normal, trincando meus dentes.
Fudeu, . Fu-deu!
- Tudo bem, não vou impedir que você vá, mas então eu irei também. – Ele não se abalou nenhum pouco com o meu tom. Lá estava sua tranqüilidade que me irritava. Como ele conseguia essa proeza?
- O QUE? – Gritei, jogado agressivamente meu fichário na cadeira a minha frente. A raiva começava a borbulhar em minhas veias numa velocidade incrível e eu não conseguia mais controlá-la. – Eu tenho dezessete anos, sei cuidar de mim! Não preciso de ninguém atrás de mim como uma babá, principalmente você.
- Ou eu vou, ou nada feito. – John cruzou os braços me olhando desafiadoramente, deixando claro que não estava brincando. Ele provavelmente ficou puto com a minha última frase, pois seu tom calmo estava vacilando. – Eu vou deixa você viajar sozinha.
- Você está fazendo isso de propósito! Sabe muito bem que não quero que você vá e está tentando me impedir de ir. – Semicerrei os olhos, cruzando meus braços também. Assim eu não teria o impulso de jogar no chão, os objetos em cima da mesa. – Você está muito enganado! Vou para Kassel sozinha e você não pode fazer nada sobre isso.
- Eu tenho sido muito paciente com você, . Entendo que as coisas não estão sendo fáceis, mas você não pode falar comigo do jeito que acha certo. Não pode contar decisões desse tipo sozinha. – Ele levantou, colocando as mãos em cima da mesa para deixar tudo mais claro. – Eu já falei, ou vou com você ou você não vai.
- VOCÊ NÃO VAI ME IMPEDIR, EU VOU SIM E VOU SEM VOCÊ! – Gritei de novo, tendo certeza de todos da casa escutavam. Eu tinha vontade de subir em cima daquela mesa e esganá-lo até ouvir seu último suspiro de vida. Precisava machucá-lo como ele estava fazendo comigo. – VOCÊ ESTÁ TENTANDO DESTRUIR A MINHA VIDA COM FEZ COM A DA MINHA MÃE, MAS NÃO VAI CONSEGUIR!
- NÃO SE ATREVA A FALAR COMIGO DESSE JEITO! VOCÊ NÃO SABE DO QUE ESTÁ FALANDO, NÃO SABE O QUE ACONTECEU! – John gritou como um louco, deixando o rosto vermelho púrpura, fugindo totalmente daquele jeito tranqüilo de antes. Ele deu um soco na mesa, reprimindo, em vão, sua raiva. Lá estava à fera guardada dentro dele e eu, de certa forma, fiquei com medo. Era um John completamente diferente. Não duvidaria que ele me desse um tapa a qualquer momento.
- EU ODEIO VOCÊ, ODEIO! – Gritei mais alto que ele, apontando em sua direção. Ótimo, estávamos fazendo um campeonato de quem gritava mais alto. – ODEIO O FATO DE VOCÊ SER MEU PAI, ODEIO O FATO DE NÃO TER ESCOLHA DE ONDE VIVER! ODEIO O FATO DE TER QUE MORAR AQUI!
- Meu Deus, o que está acontecendo aqui? – Helen entrou desesperada dentro do escritório, sem nem se dar ao trabalho de bater na porta antes. – John, , o que vocês estão fazendo? Pelo amor de Deus.. – Ela veio até mim, me puxando pelo braço com delicadeza, eu a abracei com força e Helen fez o mesmo. – Calma, , vai ficar tudo bem.
- Não, não vai. – Fechei meus olhos, só agora sentindo meu rosto muito molhado. A raiva que eu estava sentindo era tão grande que não tinha reparado que estava chorando e tremendo muito. – Eu não quero mais ficar aqui, quero ir embora. Não quero mais olhar para a cara desse homem que se diz meu pai.
- , eu.. – John tentou falar, mas Helen o impediu.
- É melhor você subir e tomar um banho. – Ela me soltou aos poucos, me fazendo encará-la. Helen estava com o cenho franzinho. Seu semblante era de confusão e preocupação. – Me deixe conversar com pouco com o seu pai.
Não relutei. Peguei meu fichário jogado na cadeira, ajeitei a bolsa no meu ombro e enxuguei as lágrimas antes de sair do escritório. Eu sabia que outras mais desceriam e molhariam o meu rosto de novo, mas isso não me fez deixar de secá-las. Respirei fundo, enquanto subia as escadas e entrava no meu quarto, fechando a maldita porta com muita força.
Puta merda, o que eu iria fazer? Aquele desgraçado estava querendo me irritar, só podia ser! Qual era o problema deu viajar sozinha até Kassel, me diz? Eu não iria fugir! Não que essa ideia não fosse realmente tentadora, mas eu não ia arranjar mais encrenca pro meu lado. Como eu disse antes, eu estava tentando ser uma pessoa passiva. Estava controlando o meu lado explosivo, será que John não via isso? Custava alguma coisa ele me deixar viajar? Custava? Aquele papinho todo de “estou preocupado de que você volte a ficar triste como antes..” não me convencia. Não mesmo. Ele só estava concordando de eu ir com ele porque sabia que eu nunca aceitaria isso. Estava estampado na minha cara, não precisava ser nenhum gênio para saber. Minhas lágrimas ainda desciam e eu ainda podia sentir o tremelique pelo meu corpo. Eu estava dias sem chorar, mas é claro que John achou isso muito tempo e revolveu me infernizar. Ele tinha que me ver chorando, devia ser um prazer pra ele. Aquele filho da puta..
- Posso falar com você? – perguntou, metendo a cabeça dentro do meu quarto e eu reparei que ele estava com aquele tom irritado, com a boca numa linha fina e sinuosa. Antes que eu falasse alguma coisa, ele tratou de entrar e fechar a porta atrás de si. Colocou as mãos no bolso me olhando impacientemente. – , será que você não pode facilitar as coisas pro John?
- Facilitar o que, ? – Perguntei no mesmo tom, levantando uma sobrancelha, deixando que mais lágrimas descessem pelo meu rosto em ter o trabalho de impedi-las. – O que você quer que eu facilite pra ele? Quer que eu esqueça os meus amigos de infância? Quer que eu do meu namorado? Da minha casa, da minha vida na Alemanha? Eu não vou esquecer nunca. Eles ainda são importantes pra mim e não importa o que você, John ou sei lá mais quem diga, isso não vai mudar. Eu só quero vê-los, é pedir demais?
- Ele não está impedindo que você vá, ele só não quer que você vá sozinha. Está preocupado. – gesticulava com as mãos, apontando para mim, como se me acusasse de um crime horrível.
Ele não faria com o que eu me sentisse culpada, não mesmo.
- E você quer que eu vá com quem? Com o Jack? Legal, eu levo o Jack comigo então! – Meu tom de voz voltou a aumentar, informando minha elevada irritação com todo aquele papo. Eu já estava irritada, por que ele tinha que vir aqui me perturbar ainda mais? Aquela conversa não iria sair tão amigável.
- Por que você não deixa de ser egoísta, garota? Não vê o que o John está fazendo por você? É tão burra assim para não enxergar isso? Fica aí se lamentando, mas em nenhum momento pensou o que ele está passando com isso tudo!
- Oh, pobre John! – Debochei, dando um sorrisinho sem humor, enquanto ficava na sua frente, querendo reprimir a vontade de gritar na sua cara. – Deve ser realmente difícil ter que ficar com a filha que você abandonou há dez anos! Desculpa aí, , mas eu não escolhi vir pra cá!
- Não escolheu, mas também não precisa ser esse poço de estupidez o tempo inteiro com ele. Você não sabe de nada, . Acha que conhece o John, mas não sabe de absolutamente nada sobre ele. Não sabe o pai maravilhoso que ele é.
- Por que você está me enchendo com isso tudo? Não vê que não vai mudar minha opinião? – Qual era a dele? Por que ele estava tentando me convencer? – Você não sabe o que eu passei, não sabe o que eu e minha mãe sofremos quando ele foi embora. Ele nem ao menos me deu uma explicação. Agora vem você, - O cutuquei com força no peito. – vem aqui para me encher a porra do saco, falando o quanto John é bonzinho..
- Eu tenho meus motivos para pensar desse jeito. – segurou minha mão que o cutucava, afastando-a e depois soltou. Fechou os olhos e quando os abriu, vi que eles estavam brilhantes, como se ele tivesse prestes a chorar também. - Ele me criou, é como meu pai legítimo. Me ensinou tudo o que eu sei, só quero que você dê uma chance a ele.
- Isso não vai acontecer, sinto muito por você. Além do mais, acho que ele já está bem grandinho para ter alguém como você para defendê-lo. – Me afastei por completo, andando em direção ao banheiro em passos largos ao mesmo tempo em que fechava a porta com força. Me trancando, escorando na porta, agarrando os meus joelhos, deixando que as lágrimas de raiva descessem sem que ninguém as vissem.
Ouvi a porta do meu quarto sendo fechada indicando que tinha ido embora, me deixando finalmente sozinha. Deixando que o meu choro de raiva acontecesse sem interrupções.

Capítulo 6

Abri meus olhos de relance, vendo os fracos raios invadirem o meu quarto. Eles ainda não tinham alcançado a minha cama, era cedo, indiciando que não devia ser mais do que oito horas.
Não era a primeira vez que eu acordara naquela manhã, me fazendo bufar frustrada por isso. Pouco mais cedo tinha escutado saindo do quarto ao lado, arrastando sua mala e depois a voz de Helen no corredor, dando os típicos conselhos que as mães dão quando seus filhos saem.
Eu não saí do quarto depois da minha discussão com ele ontem. Na verdade eu demorei bastante para sair até mesmo do banheiro. O tempo em que fiquei enfurnada lá poderia assustar qualquer pessoa pensando que eu tivesse me afogado na banheira, mas eu nem sequer cheguei a tirar minhas roupas. Eu demorei porque estava chorando. Chorando como uma criança birrenta. Um choro de raiva, diferente dos meus choros passados. Essa era uma das minhas características. Sempre que eu fico com raiva de alguma coisa ou alguém, eu choro demasiadamente, até que tudo esteja bem. Mas mesmo depois de tomar o final da tarde e um pouco da noite deixando que as lágrimas descessem, eu ainda queria esganar John.
Eu queria ter levantado quando estava saindo. Queria ter lhe desejado sorte no jogo e ver um daqueles seus sorrisos lindo no rosto. Mas não fiz isso. Deixei de fazer por medo, por lembrar-se da nossa discussão, por pensar que ele anda estaria bravo.
Eu não estava. Não com ele. Entendia seu ponto de vista, afinal John era praticamente seu pai, sua única referencia masculina. Mas eu também tinha a minha opinião e não iria mudá-lo tão facilmente. Mesmo depois de tanto tempo, eu ainda me lembro de John indo embora. Lembro dos seus olhos , vermelhos, olhando para mim, querendo me dizer algo e do choro escandaloso da minha mãe em algum canto da cozinha. Eu não olhava pra ela naquele momento. Prestava atenção em cada movimento de John. Não entendi de imediato o que estava acontecendo ali. Eu só tinha 7 anos, era muito nova. E então ele saiu carregando duas malas pesadas. Ele estava deixando a mim e a minha mãe, eu sabia disso. Estava voltando para o seu país de sotaque bonito e engraçado. John estava me castigando e eu nem sabia o motivo. Deixando claro que não me amava mais, que eu já não era sua garotinha.
Ele não voltou como imaginei que faria, me deixando com ódio. Queria esquecê-lo, deixá-lo de lado como ele fizera comigo. Prometi a mim mesma que cuidaria de tudo e faria minha mãe parar de chorar a noite, quando ia dormir e cumpri minha promessa.
Ele deu notícias alguns dias depois de partir, mas eu já não me considerava mais sua filha. Todas as noites mamãe chorava e acordava com os olhos inchados, ar cansado e desmotivado. Isso durou por oito longos meses e eu tive que agüentar firmemente. Você imagina o que eu passei? Oposto que não. Ninguém sabe até acontecer na sua casa.
Isso me fez evitar ao máximo não citar o seu nome e até mesmo lembrar que ele existia. John, por diversas vezes, tentou se encontrar comigo, se manter presente, mas eu neguei. Nos primeiros anos, ele sempre ligava nas datas comemorativas, principalmente no meu aniversário, o dia ao qual ele ligava mais de uma vez, mas claro, sem sucesso. Eu realmente não sentia a necessidade de manter contato com ele e aos poucos, acho que John foi entendendo e parou de ligar. Passou a apenas a cumprir com suas obrigações de pai, como pagar pensão bem gorda.
Mamãe não apoiava a minha ideia de ignorá-lo, dizia que não existia mais amor entre eles, mas que eu continuava sendo filha de ambos. Ela dizia que ele não me esquecera, mas ela estava errada. Ele não era mais meu pai, não era mais meu herói. Ele tinha ido embora, não tinha? Não tinha nos deixado pra trás sem nem me dizer um adeus? Então por que queria manter algum vinculo comigo? A verdade é que eu não gostava de pensar ou falar sobre esse assunto porque me fazia sentir toda a rejeição de anos atrás. Nem mesmo o psicólogo conseguiu com três anos de tratamento.
Virei-me encarando o teto, já completamente acordada. O sol já adentrava quase metade do meu quarto, chegando a minha cama. Há pouco tempo eu estava pensando em e agora tudo tinha se direcionado da John. Quando tempo tinha se passado com todos aqueles pensamentos?
Um choramingo abafado chegou aos meus ouvidos. Era Jack. Aquele safado com certeza conseguiu driblar a super segurança de Molly e estava chorando no corredor, querendo entrar no meu quarto. Esperei que ele chorasse mais um pouco, não por não gostar dele, mas por falta de preguiça de levantar da minha cama quentinha e fofa. Quando ele começou a arranhar a porta, tratei de levantar e abrir a porta. No mesmo instante o choro cessou, sendo substituído por uma animação típica com direito a abano de rabo.
- Entra, seu brutamonte. – Cocei sua cabeça, dando passagem para ele. Olhei para os lados apenas para ter certeza de que Molly não tinha visto e fechei a porta. – Ah não Jack, a minha cama não! – Resmunguei por vê-lo em cima da minha cama, se esfregando na roupa de cama limpa, mas parei no mesmo instante quando ele ficou quietinho com a cabeça apoiada nas patas da frente, me encarando pidão, implorando para que não o tirasse de lá. – Tá bom, mas não suje nada.
Peguei o meu celular no criado mudo para ver se Sam tinha me respondido.
Nada.
A frustração e a preocupação já estavam sendo tomadas pela raiva. Mas que merda, qual era o problema, hein? Antes de jogar o aparelho na cama, vi a hora. Eram quase meio dia e eu tratei de tomar banho e me arrumar para sair. Era para eu me encontrar com as meninas na casa de Lizzie às 14 horas, mas eu não via mal em chegar mais cedo. Até porque eu não tinha nada para fazer em casa mesmo. Era sábado e John estava em casa, isso já resume tudo.
Em falar em sábado, eu passaria a minha tarde inteira estudando. Sim, estudando. Pelo menos esse era o objetivo, mas algo me dizia que isso não iria durar por muito tempo graças a Katie. Tomei um banho morno rápido e fui até o closet, vestindo uma blusa de meia manga com listras grossas em preto e branco, um short jeans escuro curto com a barrada sobrada, um All Star preto e uma bolsa grande preta para colocar meu material escolar. Quando fui pegar meu celular, pensei bem se deveria ir tão cedo e escrevi uma mensagem para Lizzie:

Google, tem problema se eu for mais cedo? Briguei com o John e não queria ficar em casa. Beijos

Pensando que ela fosse demorar, sentei na cama e comecei a fazer cafuné na cabeçorra de Jack, que soltou um barulho pelo meu carinho. Ele era um fofo mesmo, igualzinho ao. Eu sorri fraco lembrando a noite em que os peguei brincando altas horas da noite do jardim, graças ao latinho escandaloso de Jack porque queria seu brinquedo de volta. Eu fiquei um bom tempo os vendo brincar, até que olhou para cima sentindo a presença de alguém e me viu, me deixando um tanto encabulada com o sorriso fechado que se curvou em seus belos lábios. Senti-me sufocada momentaneamente e meu coração acelerou de tal maneira que eu nem gosto de lembrar porque além de ser uma coisa estranha demais, eu pareço voltar no tempo e sinto tudo de novo. Mas foi gostoso sentir aquilo, devo admitir.
O celular apitou na minha outra mão e esperançosamente eu imaginei que fosse Sam, e adivinha? Era Lizzie.

Ei, gatinha, pode vir sim! As meninas já estão aqui. Beijos

Desci com Jack em meu encalço. Ambos tomando o maior cuidado para que Molly não nos visse... Só que conforme eu fui descendo, me lembrei que nos finais de semana nem Molly e nem os outros empregados não trabalhavam. Lancei um olhar de que o tinha pegado na mentira.
- Você me enganou só dessa vez, seu safado. – Falei chegado ao hall e Jack me olhou como se estivesse sem graça e sumiu, indo a diante enquanto eu virava.
Passei na cozinha para pegar algo para comer, dando de cara com Helen de costas para mim procurando alguma coisa num dos armários de baixo. Ela estava usando uma roupa mais simples do que o habitual, com um avental azul comprido.
- Helen, tô indo na casa da Lizzie, volto mais tarde. - Falei indo até a fruteira e pegando uma maçã. Ela se virou brevemente para mim.
- , será que você pode esperar um pouco para conversarmos?
- Desculpe, não dá. As meninas estão me esperando e eu já estou bem atrasada. Tchau. – Oras, que mentira ! Me adiantei saindo da cozinha antes que Helen falasse mais alguma coisa. Eu sabia muito sobre o que ela queria conversar e eu não estava nem um pouco a fim de esquentar minha cabeça antes do almoço. Passei como um foguete pela porta da sala que estava aberta e saia uma música animada do Elton John, querendo evitar o outro John.
Caminhei até o final da rua, encontrando um ponto de ônibus. A viagem não durou mais do que 10 minutos já que ainda era na parte privilegiada da cidade e desci, entrando numa rua residencial com muitas árvores, bem parecida com a casa onde eu morava. Parei em frente à porta de uma casa rosa bebê com janelas e portas brancas. Toquei a campainha, e segundos depois, George, irmão super gato da Lizzie abriu as portas, usando apenas uma calça jeans.
- Ei, ! Você parece cada dia mais linda, hein. – Ele sorriu encantadoramente para mim, descendo os olhos para as minhas pernas discretamente. – Entra aí, as garotas estão lá em cima. - Obrigada. – Agradeci, sorrindo de volta e subi as escadas, ainda sentindo que ele me olhava.
George era bem alto com um corpo magro, mas chamativo, olhos acinzentados, pele branca como papel e o charme de homens típico de homem novo. Eu o adorava. Desde o momento em que nos conhecemos, nos demos muito bem, só que ele sempre me dava um olhar como se dissesse alguma coisa. Não era só pra mim, eram para todas as garotas. Katie era uma delas. Ah, eles já tinham ficado algumas vezes antes dela se envolver com . George era mais velho que eu e as meninas uns 3 anos. Não que eu fosse uma pessoa ligada à idade, só que bem... Ele já estava na faculdade, e isso era meio intimidador. Eu me achava um tanto imatura para me envolver com uma pessoa como ele. Mas ainda assim George era bem gostoso. Não tanto quanto outra pessoa aí, mas ainda era atraente.
Bati na porta de Lizzie, escutando uns gritinhos lá de dentro que provavelmente vinham de Cassie e um “Entra” de Katie.
- Qual é a da gritaria? – Perguntei assim que abri a porta e fechei a mesma, entrando no quarto, dando de cara as três sentadas no carpete, amontoadas, lendo alguma coisa no laptop de Lizzie.
- Meu Deus, você não vai acreditar, ! – Cassie disse toda serelepe, apontando para o computador. – O Muse vai se apresentar em Londres mês que vem! Acabamos de ver no site deles.
- Sério? – Fui até elas, deixando minha bolsa em cima da cama. – Que dia? Nós temos que ir! – Eu adorava Muse! Matthew Bellamy me deixava um tanto quanto viajando na sua voz maravilhosamente gostosa e rouca.
- Dia 15, cai num sábado. Será que o John vai deixar você ir? – Lizzie perguntou fazendo uma careta por ter tocado o nome dele sabendo do que tinha acontecido.
15 era meu número da sorte, estranho, né?
- Eu não sei, tomara que sim. – Dei de ombros, pegando o laptop só pra mim para ver mais sobre o show. – Aqui tá falando que o Razorlight vai abrir o show! Eu realmente preciso ir.
- Todas nós precisamos! – Katie falou, pegando um caderno e uma caneta. – Vou fazer uma lista da quantia que vamos precisar.
- A gente podia chamar os meninos, né? – Cassie sugeriu e eu e Katie olhamos para ela. – Ué, qual o problema? Eles gostam das bandas também.
- Não acho má ideia. – Lizzie se pronunciou com aquele ar de sabichona. – Acho até mesmo mais fácil pra gente. Principalmente pra você, . John não vai implicar se o for junto.
- É, pensando bem, vocês estão certas. – Brandon, o gatinho alaranjado de Lizzie veio até mim, se esfregando na minha perna pedindo carinho. – Oi pra você também. – Falei fazendo carinho em baixo do seu pescoço peludo. Ele ronronou, fechando os olhos.
- E então, você vai nos contar qual foi a da briga com o John? – Lizzie perguntou de uma vez só, sem enrolar, deixando aquele lado discreto totalmente de fora. – Anda, conta logo. Qual foi do drama?
Então eu narrei a pequena história sobre a briga de ontem. Não iria demorar mais do que cinco minutos, exceto porque eu precisei contar sobre a falta de notícias de Sam. Não que elas não soubessem um pouco sobre nosso contato, mas eu não quis contar antes sobre o seu sumiço. Parecia tornar as coisas mais preocupantes.
- Hm... – Lizzie murmurou fazendo sua típica cara de nerd que sabe a resposta, mas não sabe se deve passar a diante ou não. – Então ele sumiu e você pretende ir vê-lo?
- Foi o que eu acabei de dizer, Google. – Falei o apelido que eu tinha colocado nela alguns dias atrás depois da aula de História ao qual Lizzie respondeu todas as perguntas prontamente. É, ela parecia um Google ambulante.
- Não me chama de Google! Você sabe que eu não gosto. – Ralhou comigo, semicerrando os olhos. – Me sinto um dicionário de todas as coisas. Não sou nerd, ok?
- É sim. – Cassie concordou mexendo a cabeça, mas logo parou quando viu o olhar mortal da outra e abriu um sorriso fofo que só ela tinha. – Mas você é a nerd/Google mais linda do mundo não é, meninas?
- Ai, vocês parecem o falando assim... – Lizzie revirou os olhos, mexendo no laptop que ainda estava no meu colo e continuou a falar antes que fizéssemos algum comentário a respeito. – Voltando ao assunto, por que você não aceita logo essa coisa do John ir? É mais fácil.
- Eu também acho, . Acho que John está certo em ficar com medo. – Cassie deu apoio sobre o assunto “John” pela primeira vez desde que eu a conheci, o que me deixou um tanto boquiaberta. Não que ela não me ouvisse, Cassie só compartilhava da mesma ideia que . As outras também, mas elas entendiam o que eu dizia, às vezes. Esse momento não era o caso pelo que eu podia ver. – Quero dizer, quando conhecemos você, você não estava muito bem e nós entendemos o motivo, mas... Olha, não é que querendo colocar coisas na sua cabeça, mas, bem, o Sam sumiu há quanto tempo, né? Já vai fazer um mês que você está aqui e pelo que você já nos contou, vocês tiveram poucos contatos durante esse tempo.
- Mas ele respondia as minhas mensagens... – Tentei amenizar as coisas e peguei o meu celular para mostrar a elas as mensagens recebidas e enviadas. – Só não respondeu minhas três últimas.
- Nós não o conhecemos para saber o que está acontecendo, mas... – Lizzie foi falando, até sua voz morrer e o silêncio tomar conta do quarto.
- Mas...? – Eu tentei incentivá-la, só que a única coisa que consegui foi uma careta bizarra e vê-la dando os ombros. – Ok, ok, o que vocês estão querendo me dizer? Que o Sam tem outra?
- É, é exatamente isso. – Katie finalmente abriu boca, dando sua opinião, saindo de trás do caderno em que fazia as anotações dos gastos do show. Todas nós olhamos para ela, e eu senti alguma coisa estranha com suas palavras. – O que foi, gente? Eu só estou dizendo a verdade, abrindo os olhos da minha amiga, - Eu sorri toda boba quando ela disse a palavra “amiga”. Não que nós quatro não fôssemos, só que era a primeira vez em que escutava aquela palavra em meio a uma frase. – diferente de vocês duas aí. – Terminou apontando para Lizzie e Cassie.
- Curta e grossa como sempre. – Lizzie alfinetou, sorrindo sem nenhum humor. – Você não presta mesmo, Katie! Estamos tentando fazê-la entender o que está acontecendo, não acusando o Sam. Talvez nem seja isso.
- Você sabe que é. Ela sabe que é. Todo mundo sabe o que é, qual o problema em admitir?
- Eu acho melhor a gente mudar de assunto. – Cassie interrompeu antes que as outras duas começassem uma discussão das feias. – Você já acabou tudo, não acabou, Katie? – Ela apontou para o caderno cheio de coisas escritas. – Ótimo, eu fico com isso para mostrar aos meninos depois.
- Ok, a gente pode mudar o rumo da conversa para ... – Katie mordeu o lábio inferior, deixando a frase no ar como se significasse alguma coisa.
- Não acho que nós temos que conversar sobre ele. – Desviei meus olhos das minhas amigas e voltei a mexer em Brandon que agora dormia ao meu lado.
- Claro que temos. – Lizzie falou num tom mais alto como se o que Katie disse lhe despertasse alguma coisa naquele cérebro grande e mirabolante, me fazendo olhá-la. – O é importante também.
- Ai, gente, o que vocês querem conversar sobre ele? Só foi uma discussãozinha. – Eu disse isso tentando convencer a mim mesma, mas dentro de mim alguma coisa mostrava que eu não estava tendo sucesso sobre isso. – Vocês acham que o está puto comigo?
- Olha, , o assunto “pai” com o ele é uma coisa bem delicada, não vou mentir pra você. – Cassie falou fazendo uma cara que eu não consegui entender. – O John é muito importante pra ele, você já deve ter entendido isso, né? – Confirmei com a cabeça. – Então... deve ter ficado muito puto com o que aconteceu entre vocês. Não puto com você, sabe, mas puto com toda a situação que vocês estão.
- Ele apenas ficou com raiva nada hora, mas já deve ter passado. - Lizzie pôs uma mão no meu ombro e sorriu. – Além do que, vocês podem conversar quando ele voltar, amanhã de tarde.
- Pensei que eles voltassem de manhã.
- Eles voltam, mas vão direto pra casa do dormir e só depois vão pra casa. É uma tradição boba. – Katie revirou os olhos. – Particularmente eu acho que eles se comem lá.
- Ah, cala a boca, Katherine! – Cassie lhe jogou uma almofada bem na cara e todas nós rimos, exceto o alvo, é claro. – não come ninguém, ele é todo meu.
- Vaca! – Katie resmungou quando se recuperou, pegando o mesmo travesseiro que foi tacado nela e jogou em volta, só que acabou acertando em Lizzie que ria sem parar. – Ops... Desculpe.
Mas era tarde demais. Lizzie revidou em Katie e logo eu fui acertada também, só não sei dizer por quem já que eu ria escandalosamente. O resultado foi que eu quase deixei o laptop cair no chão e Brandon saiu de perto de nós rapidamente miando antes que ele fosse acertado também. Ficamos nessa guerra de travesseiro até a mãe de Lizzie bater na porta e nos chamar para o almoço. Quando fomos nos olhar, caímos na gargalhada pelo nosso estado: Cabelos totalmente bagunçados, rostos vermelhos de tanto rir e de serem acertados, respiração ofegante e é claro, exaustas.
George estava na mesa também, o que deixou Katie um tanto quanto animadinha com direito a várias reviradas de olhos de mim e das meninas, Lizzie até acrescentava umas bufadas. Eu poderia apostar meu par de sapatos favorito que ela só estava dando bola para ele porque George era mais velho e poderia fazer um ciúme significativo em . Só que estava na cara que por mais que George fosse gato e interessante, quem ela queria mesmo era o . Eu realmente não entendia a cabeça deles dois. Se eles se gostam tanto, por que não ficam juntos e param com essas coisas de fazer ciúmes um no outro?
Depois do almoço nós voltamos lá pra cima, menos Katie, que ficou jogando video game com o George, e estudamos um pouco de Francês, que Lizzie insistia em teimar com a minha pronuncia mesmo eu dizendo que não precisava aprender aquela língua chata, e depois um pouco de História, minha matéria favorita. Quando terminamos eu e Lizzie ficamos deitadas no carpete macio, com os pés na cama, tentando escolher qual de todos os pôsteres de The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes, MGTM, e outras bandas que de decoravam todas as paredes do seu quarto, era o mais bonito. Em vão, é claro. Cassie ficou na cama, mexendo em seu Facebook e Twitter procurando alguma coisa interessante para fazer, cantarolando baixinho uma música que tinha posto para tocar no Itunes.
O celular de Lizzie tocou e ela se levantou rapidamente para pegá-lo em cima da escrivaninha, soltando um suspiro antes de atender.
- Ei, Carl. – Ela falou um tanto desanimada, voltando a sentar do chão perto de mim. – Tô sim, por quê? – Houve uma pausa ao que eu conclui que Carl deveria estar falando alguma coisa. – Calmae aê, vou falar com elas. – Ela tapou o telefone, dirigindo a palavra agora para mim e para Cassie. – Meninas, vocês querem ir ao Starbucks?
- Por mim tudo bem. - Falei e Cassie concordou comigo.
- Ok, vai preparando o meu Mocha Café, hein. – Lizzie disse antes de desligar o celular.
Descemos e fomos chamar Katie. George ficou implicando com Lizzie porque ela ia se encontrar com Carl – É, além de , George também não era muito com a cara do namorado da irmã – Mas depois de um bate boca bem rápido entre eles em que até mesmo o nome de foi citado por George dizendo que ele era muito melhor, estávamos dentro do Volvo S80 2010 de Lizzie, com a mesma resmungando que o irmão não tinha nada a ver com a vida dela.
Chegamos bem rápido e logo que estamos demos de cara com Carl. Seus olhos azuis brilharam quando encontraram com o de Lizzie. Ela sorriu fraco indo até ele. - Lizzie, vai fazendo os pedidos enquanto nós vamos nos sentar ali. – Falei apontando para uma mesa de canto que ficava bem em frente à janela onde costumávamos nos sentar. É, ter uma amiga que tem um namorado que é dono de uma filial do Starbucks te dá muitos pontos como conseguir o lugar que você quiser ou ter seu pedido mais rápido.
Sentamos e ficamos esperando ela voltar, mas demorou um pouco. Ela e Carl pareciam estar se desentendendo atrás do balcão. Isso não era nada bom. Eu e as meninas estávamos morrendo de fome, mas antes que alguma de nós levantasse, ela voltou com uma cara nada boa, trazendo o meu Café Mocha com dois Muffins de chocolate, Caramel Macchiato com Cookie com gotas de chocolate de Cassie, Frappuccino blended beverage de baunilha com bolo de nozes e cobertura de chocolate de Katie e é claro, seu Café Mocha com pão de queijo.
- Ele é tão irritante! – Ela praticamente jogou a bandeja com os pedidos em cima da mesa, nos assustando. – Acreditam que ele deu tipi porque eu falei sobre o show?
- Nós percebemos que vocês estavam discutindo, mas não pensamos que fosse sobre isso. – Katie pegou sua bebida e comida. – Deixa ele pra lá, vamos comer.
Carl não parou de lançar olhares para a Lizzie enquanto comíamos e acabou que ela foi até ele conversar depois que terminou seu lanche.
Cassie teve a ideia de ligar para os meninos antes de eles entrarem em campo, às 18 horas. Ligou para o celular do , colocando no viva voz para que todas pudéssemos ouvi-los. Claro que primeiro eles tiveram um momento in Love. Katie fingiu não gostar, mas logo que ouviu a voz de mandando beijo um sorriso de orelha a orelha tomou conta do seu rosto, parecia até o palhaço bozo. Mas quem tremeu ao ouvir a voz de fui eu. Parecia que ele estava ali na mesa conosco, conversando e rindo. Talvez pelo remorso que eu sentia de ter brigado com ele, talvez por querer pedir desculpas, ou até mesmo por capricho, eu o queria aqui, bem ao meu lado. Eu não entendia essa necessidade de tê-lo comigo o tempo inteiro, não queria explicar a mim mesma, eu apenas... Queria e ponto final.
- Todo mundo tá aí? – Ele perguntou, deixando que todas nós percebêssemos seu receio. Será que ele queria saber indiretamente se eu estava ali? Ele queria perguntar algo que eu não poderia escutar?
- Uhum. – Cassie respondeu sorrindo pra mim, fazendo uma cara de “nós falamos que ele não está mais puto” – A Lizzie também está aqui, mas ocupada com o Carl. – Cassie morder a língua quando terminou de dizer. Aposto que ela se segurou para não contar que eles estavam discutindo, e não namorando. Ouvimos um “ah” do outro lado da linha e eu soube logo de cara que era o .
- Fala com o ele, ! – Katie sussurrou, me cutucado. – Pergunta alguma coisa ou então apenas deseje boa sorte.
- Não! – Sussurrei de volta, negando veemente com a cabeça. – Eu não posso, ele ainda está bravo comigo!
- Não tá nada, deixa de ser teimosa. – Ela retrucou voltando a me cutucar, mas agora com mais força. – Você tá com medo, é?
Não tive tempo de dizer nada, apenas mostrei minha língua, antes que falasse com a voz melosa:
- Amor, vamos vou ter que desligar, o treinador está nos chamando. Mas quando terminamos o jogo eu te ligo, ok? Estou com saudade.
- Wow bebê, tudo bem. – Cassie fez um bico engraçado como se estivesse em sua frente. – Boa sorte pra vocês. Eu te amo.
- Eu também te amo. – Antes de desligar, ouvimos os meninos gritando, mandando beijo e dizendo que iriam trazer a taça para nós.
- Ai, meu lindo é um fofo, né? – Cassie falou naquele jeito sonhador e guardou o celular. – Hm, que cara é essa? – Ela perguntou para Lizzie que se sentou do meu lado com uma cara pior do que estava quando levantou.
- Ai, nada. Já paguei tudo, podemos ir embora?
Elas me deixaram em casa depois de muita insistência para que eu dormisse na casa de Lizzie. Dei a desculpa de que não tinha uma muda de roupa limpa, mesmo sabendo que elas poderiam me emprestar uma. O dia nem tinha sido cansativo, mas eu me sentia extremamente exausta. Além do que, morrendo de saudade de Emma.
- , é você? – Era Helen, e sua voz vinha da cozinha. Algo me dizia que ela ficou por lá o dia inteiro.
- Sou. – Respondi tirando a chave da fechadura, caminhando lentamente até onde Helen se encontrava. Eu estava certa, ela tinha passado o dia todo lá. A cozinha estava uma bagunça, o balcão todo cheio de farinha e cascas de ovos, várias bacias, colheres, copos sujos. – Nossa, um furacão passou por aqui?
- Engraçadinha. – Ela riu debochadamente, tirando um tabuleiro de dentro do forno e colocando-o em cima da mesa, o único lugar limpo e vazio. – Fiquei fazendo alguns doces. Quer cookies de chocolate?
- Não, obrigada. Eu e as meninas comemos no Starbucks. – Apontei para a minha barriga como se ela pudesse ver o quão estava cheia. – Emma ainda não chegou?
- John foi buscá-la agora pouco, eles devem demorar. – Ela me deu um olhar significativo e eu senti que não ia mais poder fugir da conversa que ela queria ter comigo de manhã. – Você pode se sentar aqui? Queria bater um papo com você.
- Eu tô cansada. Queria tomar um banho e descansar.
- Eu juro que não vou demorar. – Helen pegou um prato grande dentro do armário para colocar os cookies, enquanto eu sentava na cadeira com a bolsa no colo.
- Tudo bem, pode falar. – Suspirei já imaginando se ela me daria uma bronca ou não. Estranhamente eu não me vi puta da vida se ela me fizesse isso. Eu gostava de Helen. Eu sentia que ela realmente gostava de mim e queria meu bem, mas ao mesmo tempo não queria tomar o lugar da minha mãe. Ela apenas queria ser minha amiga.
- Eu sei da discussão entre você e ontem... – Ela ponderou as palavras, colocando distraidamente os biscoitos no prato. – Ele não me disse o que era, mas eu aposto a minha vida de que foi sobre o John.
- Olha Helen, eu quer... – Tentei intervir antes que ela começasse um discurso sobre como John era um bom pai.
- Eu não vou falar sobre o John. – Ela me cortou, parecendo ler meus pensamentos. – Eu não sou ninguém para querer mudar a sua cabeça. Entendo a falta de confiança que você tem nele, e acredite, o próprio John também entende. Eu quero conversar sobre o .
- ? – Fiz uma careta confusa. O que Helen poderia querer conversar comigo sobre ele? – Não estou entendendo.
Helen soltou uma risada nasalada antes de continuar e se sentou na cadeira em frente a minha.
- O não conheceu o pai, não sabia o que era uma figura paterna até os 7 anos, que foi quando eu conheci seu pai, quando ele voltou pra cá. – Eu fiquei calada, prestando atenção atentamente no que ela dizia, mas eu tive vontade de levantar e dizer “e a partir do dia que ele foi embora, eu também passei a não saber”, mas fiquei calada. Soaria muito egoísta, e a verdade é que era. – Quando eu e John resolvemos nos casar, já era muito apegado a ele. John foi o herói dele desde que se conheceram. Ele sempre tratou como um filho. Ia as apresentações do judô e depois quando ele saiu, John passou a ir nos jogos de futebol. – Eu sentia meus olhos arderem enquanto ela falava, mas eu as reprimi. Eu também queria aquilo quando era pequena. Queria que John fosse às minhas apresentações, mesmo que eu não tivesse nenhuma. Mas eu não fiquei com raiva de por isso, eu senti inveja dele. – Eles criaram um laço muito forte, você tinha que ver quando Emma nasceu. – Helen riu lembrando. – beliscava a irmã por ciúmes, dizia que John dava mais atenção a ela e que não jogava mais basquete com ele, só que era pura bobagem. – Helen fez uma pausa, olhando fixamente nos meus olhos com os seus terrivelmente que me lembravam tanto o seu filho e eu pude ver que eles estavam marejados. – O que eu estou querendo dizer, , é que não importa o que você ou qualquer outra pessoa diga sobre John, vira bicho, ele não admite que falem mal do homem que me ajudou a criá-lo, entende? Então eu queria te pedir um favor que eu sei que é difícil, mas que eu queria que você fizesse. Por favor, não discuta mais com o sobre o John, se ele for ao seu quarto como ontem, ignore-o, mande sair. Meu filho fica muito perturbado. Eu não queria te contar, mas ontem ele foi dormir chorando. Se você fizesse isso por mim, eu agradeceria muito.
A comida no meu estômago deu uma reviravolta quando eu escutei que havia chorado. Eu estava pouco me importando com a minha diferença com John agora. Eu tinha feito chorar, indiretamente, mas tinha. Aquilo só me fez meu remorso piorar. Não era minha intenção, não mesmo. Eu não queria fazer uma pessoa que estava me ajudando desde eu pus os pés nessa casa, a chorar. É claro que todo mundo ali me apoiava, mas era o que mais estava ao meu lado, me fazendo rir com os apelidos estúpidos e esquecer a dor da perda da minha mãe, do afastamento dos meus amigos. Ele estava ali comigo o tempo inteiro, como eu tive coragem de fazer isso? Feri-lo desse jeito?
- Pode deixar, Helen. Eu vou evitar esse assunto perto dele. – Falei com convicção, dando um sorriso para reforçar mais ainda as minhas palavras.
- Obrigada. – Ela sorriu de volta, limpando o pouco de lágrimas que saiam dos seus olhos com uma mão e a outra apertando a minha. – Eu gosto muito de você, querida.
- Eu também gosto. Você tem sido maravilhosa comigo desde que eu cheguei aqui. Você, Emma, Molly e . Não foi minha intenção feri-lo.
- Eu sei e ele também sabe. – Ela levantou, abrindo os braços pra mim. – Eu posso te dar um abraço?
- Pode. – Meu sorriso se alargou, e eu deixei que os braços de Helen me envolvessem um abraço amigável. – Obrigada por ser minha amiga.
Nós estávamos tão absortas em nossa conversa que nem escutamos a porta sendo aberta.
- Mamãe, você fez cookies! – Emma surgiu com um sorriso sapeca com John atrás, carregando uma mochila rosa. – Ei, por que vocês estão se abraçando?
- Não é nada, Emma. – Eu falei indo até ela, abrindo meus braços como Helen tinha feito comigo. – Por que você não me dá um abraço? Eu estou morrendo de saudade, sabia?
- Eu sei, faço falta nas pessoas, sabe... Eu também, tô, cabeçuda. – Ela se jogou nos meus braços, rindo. – A gente podia jogar Guitar Hero enquanto comemos biscoitos, né?
- Ok, vamos logo. – a coloquei no chão, segurando a mão dela, enquanto a minha vazia pegava o prato de biscoitos para subir. – Mas eu vou ganhar dessa vez.

Capítulo 7

A única coisa que eu vi quando abri meus olhos pela manhã, foi um par de olhos . Era Emma. Ela me sacudiu e eu ainda morrendo de sono, fechei e reabri os olhos para me focalizar melhor, mas ela já não estava mais no quarto. Não demorou muito para que ela voltasse me chamando de preguiçosa e puxando meu edredom, deixando minha pele exposta ao ar frio. Helen subiu para ajudá-la a me tirar, vulgo arrancar, da cama. Enfiaram-me dentro do chuveiro com água pelando e depois me deram leite com café e duas fatias de pão de forma com manteiga. Não estava acreditando que em pleno domingo, eu estava de pé antes do meio dia. Em menos de meia hora eu estava sentada no banco de carona de Helen, usando a primeira roupa que achei jogada pelo closet desarrumado.
Iríamos ao shopping fazer compras, mas eu não queria. Meu desejo era voltar para a minha cama quentinha e dormir por pelo menos três dias.
Emma foi tagarelando atrás, dizendo que eu precisava de roupas novas e que minhas unhas estavam pavorosas, mas eu sabia que ela só estava implicando comigo porque tinha ganhado dela no Guitar Hero. É, eu estava ficando boa naquilo.
Ela e Helen me fizeram experimentar tantas peças de roupa, que já na terceira loja, eu não poderia dizer quantas vezes tinha me trocado. Estava sendo bom ter um tempinho só com elas.
Fomos até o carro para guardar todas as minhas compras e voltamos, para que Emma fizesse as dela.
- Ah, não gostei desse, mamãe. – Ela fez uma careta para um vestido listrado que eu particularmente tinha achado uma graça nela. – Pede para a vendedora aquela jaqueta rosa?
Helen saiu da parte dos provadores indo até a frente onde ficavam as araras, enquanto Emma experimentava outro vestido.
- Hm... Você acha que o Nicholas vai gostar desse? – Ela perguntou se olhando no espelho, analisando meticulosamente cada detalhe.
- Eu acho que sim. – Respondi andando até ela. O vestido tinha ficado ótimo em seu corpo. Nada chamativo para uma menina da sua idade, mas destacava os pontos certos. – Mas Emma, você usa uniforme para ir para a escola, por que ele veria esse vestido?
- A festa da Tyra vai ser semana que vem, eu quero estar linda quando nos conhecermos. – Ela disse aleatoriamente, não notando o que estava falando, ainda analisando a peça de roupa.
- Mas eu pensei que vocês já se conhecessem da escola... – E então eu me toquei de que ela estudava num colégio só para meninas, como ela poderia conhecê-lo? Como eu tinha sido burra para não ter notado aquilo? Juntei as sobrancelhas, cruzando os braços na altura do peito. – Emma... – Ela me olhou pelo espelho com os olhos arregalados notando que eu a tinha pego na mentira. – Você me disse que conheceu o Nicholas na escola, só que você estuda num colégio só para meninas. Como pode me explicar isso?
- Então, ... – Ela se virou para mim, dando um sorrisinho de “puta merda, você me pegou”. – Eu não disse que o conheço da escola, apenas que gosto dele e que queria que você me ajudasse a ir mais bonita pra aula.
- E o que você acha que eu pensaria? E que ele surgiu do nada? Que fica aparatando¹ no maior estilo Harry Potter? Você aproveitou a minha distração, isso não é justo!
- Eu não posso fazer nada se você é... Como posso dizer isso? Ah, desligada. – Eu vi pela sua expressão que ela queria dizer “burra”, mas por eu ser mais alta, mais velha e saber seu segredinho, aquilo a intimidou. Na época em que ela me contou eu nem me dei conta de nada e agora tudo se montava direitinho na minha cabeça.
- Desembucha logo antes que a sua mãe chegue.
- Ok. – Emma assumiu uma postura séria e eu quase pensei que a criança ali era eu. – Lembra da Amy? Então, ela tem um irmão que estuda no mesmo colégio que o Nicholas, no South York High School, sabe, e bem... – A voz dela foi ficando baixa, até acabar num sussurro. – Eu e Amy costumamos ir até lá depois da aula para espiá-los pelo muro, antes de você e chegar.
- EMMA! – Ralhei com ela, descruzando os braços e colocando as mãos na cintura. – Eu não acredito que você vai até lá pra olhar um garoto que nem sabe que você existe! Quantos anos esse ele tem?
- Dez. Ah, , vai dizer que você nunca espiou um garoto?
- Emma, é perigoso você andar sozinha por aí. Imagina se acontece alguma coisa com você?
- Você está preocupada comigo, ? – Ela perguntou com um semblante esperto nada comum para sua idade. Por que eu fui ter uma irmãzinha tão madura? É claro que eu estava preocupada!
- Desculpe a demora, filha. A vendedora demorou a achar o seu número. – Helen apareceu carregando uma jaqueta rosa bem transada, nem parecia ser infantil. – O que vocês estão conversando?
- Nada. – Olhei de soslaio para Emma, que parecia apreensiva com o que eu poderia dizer. – Nada demais.
Helen não notou os olhares entre mim e Emma. Não que eles fossem assassinos, mas eram bastante significativos, como se ela implorasse para que eu não dissesse nada. É claro que eu não iria dedurá-la e nem pretendia fazer chantagem. Eu apenas estava preocupada. Minha irmãzinha gostava de um menino um ano mais velho que nem sabia sobre seus sentimentos e ela ainda se arriscava para ficar babando de longe. Saímos de lá com algumas compras e nem tocamos mais no assunto.
- Mãe, tá faltando uma coisa, não acha? – Emma sugeriu, olhando para a mãe com aquele olhar de que está pensando em aprontar, de repente, eu fiquei com medo do que ela estava pensando.
- Hm... – Helen sorriu para ela e olhou de relance para mim, deixando meu medo mais elevado. – Acho que estou entendendo o que você está querendo, Emma.
Antes que eu pudesse abrir a boca para dizer algo, Emma, a delicadeza em pessoa, me deu um empurrão para o lado e eu quase me estabaquei dentro de um salão de beleza muito chique. A sorte é que a porta era com sensor de presença, ou eu teria ficado esmagada contra o vidro diante da elite de York. Um homem moreno muito bonito e extremamente gay, usando um uniforme preto dos pés a cabeça parou diante de nós, rindo para as minhas acompanhantes. Os três se cumprimentaram como velhos amigos... Digo, os olhos de Emma brilhavam quando ela disse “É ela” e apontou pra mim.
Uma coisa que eu realmente amava em mim eram minhas unhas. Eu adorava pintá-las de todas as cores e sempre as mantinham grandes. Nada “estrela pornô”, mas eram consideravelmente grandes e quadradas. Então quando saímos do salão, elas estavam roxas, lindas e cintilantes. As dos pés estavam num tom claro porque eu odiava destaque nos meus pés, apesar deles serem pequenos e delicados. Meus cabelos receberam um tratamento de hidratação profunda e as pontas foram levemente cortadas. Emma e Helen também fizeram as unhas, a primeira usou um tom de rosa Pink, enquanto a segunda ficou com um esmalte vermelho berrante que contrastava com seu tom de pele pálido. Eu pintaria as minhas naquela cor da próxima vez.
A manhã passou tão rápida que eu nem me toquei, quando entramos no carro, que já eram 13h30. Enquanto passávamos pelas ruas, me dei conta de que estava tão alheia com aquele momento com elas, que nem me lembrei de . Não me lembrei de como estava me sentindo mal pelo nosso desentendimento, depois do que Helen me disse. Mas eu não pensei muito sobre isso, já que meu celular começou a tocar dentro da minha bolsa. Assim que o abri, o nome de Sam estava na aparecendo na tela, me fazendo sorrir.
- Sam! Não acredito que você está me ligando! - Falei ainda sorrindo.
- Meu amor, que saudade de escutar sua voz. – Eu não estava acreditando que ele estava do outro lado da linha. Sua voz estava carinhosa como sempre. – Desculpe pelo sumiço, meu celular quebrou e eu não parava em casa por causa dos treinos. Sinto muito.
- Tudo bem, não tem problema, o importante é que você ligou. - Eu continuei falando, esquecendo toda a conversa com as meninas no dia anterior. Era bobagem, Sam ainda me amava, não estava com outra. – Mas e então, como estão as coisas? E o futebol? Ganharam? E Jennifer? Ela também sumiu.
- Eu não tenho visto da Jen, mas acho que ela está bem. – Ele falou incerto, mas seu tom ficou animado quando continuou. – Mas sobre o futebol, está tudo indo muito bem! Ganhamos as semifinais daqui, estamos indo para a estadual agora! Você precisava ver o gol que eu fiz contra o Wiesbaden! O Kieran Barten ficou puto e começou a chorar como um bebê depois que vencemos o timinho de merda dele.
- Isso é ótimo! – Pensei que contar para ele sobre a viagem, mas como não ainda as coisas entre mim e John não estavam bem, e eu nem tinha certeza se iria ou não viajar, resolvi apenas avisar sobre a minha intenção. – Eu estou querendo ir até aí ver você e o pessoal. Estou com tanta saudade.
Helen se mexeu ao meu lado, inquieta.
- Sério? Quando? – Sam perguntou alarmado, aumentando a voz um pouco para ter certeza de que escutara bem. – Eu não posso acreditar! Me diga, quando você vem? Preciso organizar as coisas.
- Eu ainda não sei. – Mordi o lábio inferior, querendo ter uma data em mente, mas era impossível. – Vou tentar ir o mais breve possível. Preciso conversar com John, e minhas provas vão começar daqui a alguns dias, mas quando tudo estiver certo, eu te aviso, ok?
- Por favor, não se esqueça de me avisar, eu preciso saber. Você não imagina a saudade que eu estou de você, . Do seu cheiro, da sua boca... – Graças a Deus a ligação não estava no viva voz, ou eu ficaria muito encabulada se Helen ou Emma escutassem o que Sam dizia. – Precisamos conversar sobre aquele assunto, não acha?
Eu engoli em seco. Sabia do assunto ao qual ele estava falando. Minha virgindade. Antes de tudo acontecer, eu estava pensando se não seria hora de transar já que estava há tanto tempo com Sam. Eu confiava nele. Ele sempre estava ao meu lado, era meu melhor amigo. Eu não o amava, mas não podia negar que ficava excitada com as coisas que ele falava no meu ouvido ou quando nos amassávamos no banco de trás do seu carro. Talvez depois, eu começasse a amá-lo. Eu suspeitava seriamente se a falta de amor recíproco não era ligada ao fato do trauma entre no casamento dos meus pais.
- É, eu também acho. – Respondi brevemente, olhando para fora do carro querendo que a minha voz não mostrasse a minha insegurança.
- Ótimo! – Sam falou e eu pude apostar que ele sorria. – Preciso desligar agora, se não meu pai vai me matar por causa da conta.
- Tudo bem. Beijos, Sam. Manda um beijo para todo mundo, em especial para aquela desmiolada da minha melhor amiga.
- Pode deixar. Eu amo você.
Desliguei o celular e voltei a colocá-lo dentro da bolsa. Eu percebi que Helen me olhava de soslaio.
Chegamos em casa e John estava na cozinha, pegando os pratos para colocar na mesa. Fiquei surpresa por saber que ele cozinhava, mas Emma me disse depois do almoço que ele não fazia nada, e sim comprava a comida num restaurante da cidade. Não tinha do que reclamar, a comida estava deliciosa, nada comparada a de Molly, é claro. Nem eu e nem ele trocamos uma palavra sequer. Eu ainda estava com raiva e não fazia questão de esconder. Depois do almoço Emma me ajudou a tirar todas as roupas das sacolas e a organizá-las no closet. Ela continuou me contando um pouco sobre o tal Nicholas, e me jurou que não iria mais ao colégio dele para vê-lo, não sem me avisar primeiro. Quando terminamos tudo, ela foi para o quarto e eu fiquei lendo a Vogue do mês. Já era tarde quando ouvi o barulho do carro do chegando. Meu coração acelerou rapidamente e minhas mãos apertaram tanto a revista que ela acabou amassando, me fazendo jogá-la do outro lado da cama e sair correndo para o topo da escada. Mas antes de colocar os pés no degrau, eu lembrei de que nós estávamos brigados e recuei, voltando ao meu quarto, sentando na cama, esperando que a porta da frente fosse aberta e a voz dele invadisse meus ouvidos. Não demorou muito para que isso acontecesse, e eu sorri quando escutei Jack latindo feito um louco no jardim e depois na entrada. Emma desceu, gritando feliz da mesma maneira que eu queria fazer, e finalmente pude ouvi-lo conversando com Helen e John. Conforme os segundos foram passando, minha ansiedade aumentava, até que ele subiu, parando diante da minha porta, me olhando com seus brilhantes olhos . Um sorriso torto surgiu em seus lábios e de repente, percebi que estava segurando a respiração o tempo todo que nos olhamos. Fui soltando o ar aos poucos, enquanto ele entrava e sentava ao meu lado, ainda sorrindo.
- E aí, como você tá? – Perguntou descontraído, empurrando meu ombro levemente com o dele, como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei meio travada. Não me passou pela cabeça que ele agiria daquela forma comigo, daquela maneira tão... Normal. Não sem conversarmos primeiro sobre o que tinha acontecido. Não antes de pedir desculpas.
- O gato comeu a sua língua, ? – me olhou divertido, com aquela expressão debochada típica dele.
- Não... – Sorri sem graça, abaixando a cabeça, me sentindo uma idiota. – O gato não comeu a minha língua. – Ainda com as mãos abaixadas, olhei para as mãos dele vazias. - Cadê o troféu do campeonato? Pensei que o capitão ficasse com ele.
- É, e fica. Mas eu não sou o capitão que tem ele. Nós perdemos. – Levantei a cabeça, encarando-o com os olhos arregalados. fez uma carinha triste de cachorro sem dono e eu pensei o quanto ele ficava lindo.
- Eu não acredito nisso. Por quanto?
- 2x1. – A voz dele ficou ligeiramente grave e seu rosto começou a ficar vermelho em certos pontos, o que eu deduzi que fosse por causa da irritação. Não tirava sua revolta, o time trabalhou muito. - Eu ainda estou puto por ter perdido. Quero dizer, o Aaron errou a porra do pênalti! Não acredito que ele perdeu aquela merda!
- Calma, . – Coloquei a mão no ombro dele, chegando com o rosto um pouco mais perto do dele, sem intenção de nada, apenas acalmá-lo. – Vocês vão ganhar da próxima vez. Eu sei o quanto vocês trabalharam duro, mas veja pelo lado bom, vocês viram o que fizeram de errado e agora não vão fazer mais. Por exemplo, deixar o Aaron bater o pênalti.
virou o rosto, me encarando sério e as pontas dos nossos narizes se roçaram levemente, quase imperceptivelmente, mas não pra mim. Tive a sensação de que um elevador descontrolado no meu peito despencava para a boca do meu estômago numa velocidade absurda, sem nada ou ninguém para pará-lo. Era uma sensação gostosa, que fez meus pêlos se arrepiaram ao encarar seus olhos. Fiquei perdida por um tempo olhando para eles, admirando-os. Eram tão lindos e cintilantes. Eu não conseguia imaginá-los decepcionados ou com vestígios de choro. Não conseguia entrar na minha cabeça que eu havia os deixado vermelhos. A vontade de me aproximar mais dele era tão tentadora quanto uma panela cheia de brigadeiro. Arrisquei baixar os meus olhos, encarando os lábios dele. Lindos e pareciam ser tão macios, tão envolventes. Apostaria minha perna direita de que beijava maravilhosamente bem.
, você não pode ficar mais pensando nisso. Você tem o Sam. Eu sei, eu sei, não precisa encher o saco, ok?
Deus, o que estava acontecendo comigo? Minha consciência tinha razão. Como eu estava pensando em beijar um cara que nem era o meu namorado? Sam ainda existia na minha vida, apesar de tudo. Certa maneira, eu gostava dele. Ele esteve ao meu lado em quase todos os momentos da minha vida até hoje. Ele merecia minha consideração e meu respeito. O que estava fazendo comigo?
- ? – Sabe quando você olha fixamente para uma pessoa e só vê que a maneira que você a encara não é tão educada depois de um tempo? Eu estava tão perdida, ainda dando uma sacada nada discreta na boca de , que só me toquei de que ele falava comigo quando vi seus lábios deliciosos se mexendo... – Você ouviu o que eu falei?
- Hm? Ouvi? – Balancei a cabeça, fechando e abrindo os olhos para me focalizar melhor. Que patético. – Ouvi? Claro que ouvi, . Por que não ouviria?
- Não sei. – Ele falou com um sorrisinho de “eu sei para onde você estava olhando” nos lábios. – Você parecia um tanto... Perdida.
- Claro que ouvi. – Dei um sorriso amarelo para ver se melhorava a situação, mas duvido muito que tenha funcionado.
- Legal. – Ele levantou da cama, bagunçando os cabelos. – Então eu te espero no carro. Vê se não demora.
- O q... – Eu tentei falar, mas já tinha saído do quarto.
Ótimo! Belo plano de fingir que entendeu o que ele disse. Agora ele estava me esperando lá em baixo e eu nem fazia ideia do que íamos fazer ou aonde íamos.
Bufei pela minha burrice e peguei apenas meu celular caso de alguém me ligar. Vi que todos, menos , estavam sentados no sofá, vendo algum filme. Provavelmente Senhor dos Anéis. John não fazia uma sessão dos três filmes há mais de duas semanas, o que era considerado bem estranho. Nem me dei ao trabalho de avisá-los sobre a minha saída. Provavelmente eles sabiam.
Sentei no banco de carona do carro, que estava parado com o motor ligado em frente a casa, esperando que falasse alguma coisa que servisse de pista para indicar aonde íamos. Mas ele nem abriu o bico. Fomos o caminho todo em silêncio, sem nem mesmo o rádio ligado. Ambos estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos, olhando para a rua, e eu, de vez enquanto, fingindo olhar para o outro lado, observava o perfil de . Ele mantinha o cenho um pouco enrugado, mostrando atenção, enquanto uma mão guiava o volante e a outra se mantinha na marcha. Seria babação demais da minha parte, dizer que ele ficava lindo dirigindo daquela maneira tão compenetrada?
Quando comecei a reconhecer as ruas, – Não que isso fosse muito difícil, veja bem, York não é uma cidade que podemos chamar de enorme, apesar dos séculos da sua existência. – pensei que estávamos indo para a casa de . Então eu pensei que fôssemos encontrar com o resto do pessoal, mas logo esse pensamento foi extinto quando acelerou, mudando de marcha e virou a rua para subir uma ladeira de terra. Depois de alguns minutos tudo que eu via era verde, verde, verde... Tive a menção de comentar alguma coisa, mas fiquei com medo de falar merda e dar mais do que nada cara de que eu não fazia à mínima ideia de onde estávamos indo. O carro continuou a subir, virando em curvas em alguns momentos, enquanto eu olhava para trás e a cidade sumia diante dos meus olhos.
- Nós já estamos chegando. – disse quando viu que eu não estava entendo mais nada.
Não demorou muito, o carro vez mais uma curva, subindo mais uma rampinha e parou perto de uma árvore, saindo do carro. Eu continuei no mesmo lugar, olhando para os lados, não vendo da além de mato da minha volta.
- Ei, sai do carro, quero te mostrar uma coisa. – Ele veio até o lado do carona, abrindo a porta e me puxando para fora. – É logo ali na frente, não dá para levar o carro.
- , eu e a natureza não somos melhores amigas, sabe... – Disse enquanto ele continuava a me levar para mais fundo do mato. Logo ficaria noite e eu não estava nenhum pouco a fim de ficar perdida. – Onde você está me lev...
A pergunta ficou presa na minha garganta quando passamos por algumas árvores, diante de uma área plana. Era tudo muito verde como no caminho, mas ao mesmo tempo era tão diferente, tão mais bonito, tão mais calmo. O sol banhava cada centímetro daquele lugar, iluminando tudo sem nem ao menos ter intenção. Havia um chalé abandonado do lado direito, perto de algumas árvores. A minha frente, estava uma parte que seria, anos atrás, a parte de uma torre mal acabada, agora destruída, voltada para a cidade, só sobrando à frente com direito a aquelas janelas sem vidro típicas dos tempos medievais. Andei até a construção, me esquecendo completamente de ou qualquer coisa ao meu redor. Eu estava deslumbrada por aquele lugar. Parecia que eu estava dentro de uma história ou um cenário cinematográfico perfeitamente esquematizado. Cheguei até uma das janelas, olhando para a cidade lá em baixo. Ela parecia uma maquete de tão distante e tão pequena que estava. As pessoas pareciam formigas andando de um lado para o outro a pé ou de carro. A luz solar batia em meu rosto, mas eu me esforcei para olhar todo o local, gravar tudo na minha mente.
- Eu sempre venho aqui quando estou estressado ou preciso pensar. – Eu me assustei ligeiramente ao ouvir a voz de perto. Meu deslumbramento era tão grande que nem percebi que ele estava ao meu lado, olhando para a cidade como eu, com as mãos nos bolsos da calça jeans. – É o meu lugar favorito da cidade.
- Espero que você não se incomode se ele se tornar o meu também. – Virei meu rosto para olhá-lo de perfil, vendo um sorriso brotar em seu rosto satisfeito com o que eu disse. – É tão lindo que mal consigo acreditar que seja verdade.
- Eu descobri esse lugar sozinho quando tinha doze anos. – Ele virou, me encarando também, os olhos límpidos brilhando por causa da intensidade da luz, me deixando sem fôlego e encantada. Era tão tentador chegar mais perto, parecia tão certo. – Você é a primeira pessoa que eu trouxe aqui. Nem mesmo o sabe desse lugar.
Então é nessa hora que eu me desmancho e viro líquido de ? Merda, por que o estava fazendo isso? Por que ele precisa dizer essas coisas? Me olhar desse jeito? E ainda com os lábios curvados num sorriso fechado e tão, tão, tão perfeito? Eu já estava me sentindo confusa demais com todas as coisas que ele me fazia sentir, não era preciso mais uma dose para me lembrar.
Acho que ele percebeu o efeito que tudo aquilo estava causando em mim, pois não disse mais nada e foi para o outro lado, sentando num muro, colocando os pés para fora da construção, olhando a cidade, às mãos sobre as coxas displicentemente, a coluna levemente curvada... Droga, lá estava eu o admirando mais uma vez como uma completa idiota.
Fiz o mesmo, me sentando ao seu lado na mesma maneira, os olhos fixos a minha frente. O sol já estava deixando a cidade, se ponto a oeste, fazendo com que o frio começasse a dominar aquele local. Eu estremeci quando uma brisa gélida tocou minha pele, e suspirei arrependida por não ter pego um casaco antes de sair.
- ? – O chamei, querendo quebrar aquele silêncio de minutos, que mais pareciam horas. Não era incomodo ficar ao lado dele daquela maneira, mas era muito melhor quando escutava sua voz. Além do mais, eu queria pedir desculpas. Eu realmente precisava tirar aquele peso de mim.
Em resposta ele olhou para mim, e eu o amaldiçoei por isso, perdendo todo o rumo da linha de pensamentos. Por que suas íris tinham que ficar tão mais claras diante da luz? Seus olhos me deram a sensação de que poderiam atravessar todas as barreiras da minha mente e descobrirem o que estava se passando entre meus pensamentos naquele momento.
- Eu queria te pedir desculpas por todas aquelas coisas horríveis que eu te falei na sexta, eu fui egoísta em só pensar nas coisas que eu estava sentindo... Nas coisas que eu sinto, ainda. Eu entendo na boa sua opinião sobre o John. – Ele arqueou uma sobrancelha, fazendo uma careta de que não estava acreditando em mim. – Ei, , não me olhe com essa cara, tá? Estou sendo sincera!
- É meio bizarro escutar você dizendo isso. – Ele falou como se aquilo fosse óbvio, mas não era! Eu estava falando a verdade, vocês sabem disso. - Eu aceito sua desculpa, se você aceitar a minha.
- Desculpa aceita. – Sorri sincera, dando de ombros. – Então estamos bem agora? Hm, legal então. – Ele concordou com a cabeça, voltando a olhar para frente e eu fiz o mesmo. Só faltava um pouquinho para o sol ir embora de vez.
- Foi por isso que você não me desejou boa sorte? Por que brigamos? – Ele perguntou de repente, como se algo estivesse estalado em sua mente.
- Foi. Katie me disse para falar com você, mas eu pensei que você não fosse querer ou algo do tipo. – Respondi, mas ao mesmo tempo fiquei com medo do que saia da minha boca. Era tão estranho me ouvir dizendo que estava preocupada com a opinião dele. Não deveria ser assim.
- Uma puta bobagem, ! Eu queria! – Ele riu, vendo graça em alguma coisa que eu não entendi. - É claro que eu queria que você falasse comigo.
- Deve ser por isso que vocês não ganharam então. – Brinquei e ficou sério instantaneamente. Legal, tocar no assunto do jogo ainda o deixava nervoso. – Ahn, desculpa, não quis fazer piadinha... Quero dizer, eu queria sim, mas não na intenção de ofender.
- Relaxa. – Ele pareceu entender e voltou a relaxar a expressão facial.
- Hm, qual é a daquele chalé ali do lado?
- Eu não sei, mas já dormi algumas vezes ali.
- Não acredito. – Falei surpresa com a coragem dele. Dormir num lugar daquele? Não que eu fosse fresca. O problema é o perigo. Mesmo com ele me dizendo que ninguém iria ali, corria o risco de algo acontecer. – Você é maluco!
- Não sou nada. Tem alguns moveis velhos lá, quer ver?
- Tudo bem. – Levantei, limpando minha calça jeans na parte da bunda e o acompanhei. tirou uma única chave do bolso, destrancando a porta, me dando passagem para entrar. – Nossa!
A casa era pequena com quatro janelas sem cortina e o piso de cimento, mas não era mal cuidada. Não havia uma sequer camada de pó nos poucos móveis dali e eu curiosamente me perguntei se cuidava da limpeza. Havia uma cama de casal de ferro no meio, com o colchão claramente novo. Um armário pequeno de duas portas ficava do lado da cama, um sofá de três lugares velho perto da porta, sendo acompanhado por uma lareira pequena, uma mesa quadrada com três cadeiras de madeira desgastadas igualmente velhas num canto perto da pia “moderna”.
- Quando você pretende se mudar pra cá? – Perguntei andando até o meio do chalé. Havia cheiro de mofo, mas nada que fosse sufocante.
- Não precisa insultar o meu lugar, ok? – Ele falou fingindo estar ofendido.
- Bem, ele não é ruim. Posso até arriscar dizendo que é aconchegante. – Sentei na cama, experimentando o colchão. – Você trocou o colchão é?
- Claro! Você acha que eu dormiria naquele sofá ali? – apontou para o sofá, sentando ao meu lado. – Eu não quero ter problemas de coluna.
- Você é mais esperto do que eu pensava.
- Eu sou . – Ele falou todo convencido, estufando o peito. – É claro que sou esperto. Faço coisas que ninguém mais imagina.
- Haha. – Debochei, olhando para o lado fingindo tédio com a sua última frase. Ela me pareceu muito no duplo sentido. – Isso tudo por causa de colchão. Não seja tão metido.
- Um dia eu deixo você experimentar o meu colchão - A voz dele misturada com o sotaque inglês engraçado e sexy ao mesmo tempo soou tão perto de mim e tão de repente, me fazendo fechar os meus olhos por alguns segundos, sentindo meus pêlos da nuca se arrepiaram instantaneamente até chegar ao meu baixo ventre... Deus, , se controle! - Ai eu durmo no sofá, por você.
Ele realmente gostava de frases no duplo sentido ou era apenas impressão minha?
- Ah, claro. – Levantei tão depressa da cama que até me surpreendi, imaginando se era minha consciência chata que me mandava ficar longe dele ou se uma mola tinha escapado da proteção e espetara a minha bunda.
Não, não era a mola. Eu mesma fiz questão te tirar essa dúvida quando me virei para a cama, encontrando um surpreso. Provavelmente na cabeça dele estava se passando a pergunta “essa menina é louca?”. Eu sabia disso porque era exatamente o que eu mesma me perguntava.
- , a gente pode ir embora? Está ficando tarde e eu não avisei para ninguém que nos vínhamos aqui.
“Tá falando sério?” era o que estava escrito no rosto dele. Eu juro, eu estava conseguindo entender todas as suas expressões. Não sou nenhum Edward Cullen da vida, até porque eu não sou muito chegada a crepúsculo.
- Ahn... Ok, vamos. – Ele concordou e eu fui na frente, esperando por ele do lado de fora. O céu estava estrelado... Eu amava olhá-lo à noite, então fiquei meio perdida perto da construção destruída, contando de forma burra e patética, quantas estrelas eu conseguia encontrar espalhadas pelo vasto plano escuro.
O barulho da porta sendo fechada com força por causa da fechadura velha me despertou da minha contagem e comecei a andar em direção as árvores que me levaria em direção ao carro, sentindo os olhos de cravados em mim, ou na minha bunda, talvez. A última opção era a que eu mais gostava, digamos assim.
desativou o alarme e destrancou as portas automaticamente. Sentei no banco do carona, esperando por ele, que vinha andando em passos lentos. Não entendi direito quando ele parou de repente, fazendo um sinal de negação com a cabeça para mim e voltou a andar mais rápido. Também não perguntei o que aconteceu quando ele sentou ao meu lado e colocou a chave na ignição e riu sozinho.
Viemos conversando sobre coisas aleatórias, até que eu comentei com sobre o planejamento das meninas de irem ao show em Londres no mês que vem e ele me disse que já sabia e gostava da ideia. Claro, Cassie já havia comentado com , sem dúvidas.
Chegamos em casa bem na hora do lanche. Helen tinha feito mais uma rodada de cookies de chocolate e Emma se deliciava com todos que conseguia comer. Entramos na cozinha bem na hora em que ela tentava colocar dois cookies enormes dentro da boca.
- Você vai se engasgar, Emma. – Helen avisou, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de coca-cola.
- Ei, me devolve meu cookie! – Emma chiou, esticando os bracinhos para pegar o biscoito da mão de . – Você é um idiota!
- E você é uma pirralha baixinha. – Ele debochou, colocando o último pedaço na boca.
- Não seja implicante com ela. – Eu falei dando o empurrando para que eu pudesse dar um beijo em Emma.
- Finalmente vocês chegaram. – John apareceu sorrindo, segurando algo que eu não identifiquei no momento. – Precisava mesmo conversar com vocês.
Eu olhei para , esperando a bomba que seria jogada sobre nós. Mas ao contrário de mim, ele pareceu bem tranquilo enquanto esperava John continuar.
- Então, , eu e Helen conversamos nesse tempinho que você e saíram... – John continuou, chegando mais perto de mim, balançando o que segurava quase na minha cara, mas eu não tirei meus olhos dos seus. – Desde sexta estou pensando no seu pedido e bem, concordei com a ideia de você ir a Kassel.
- Sério? – Perguntei não acreditando no que ele havia dito e olhei bem no fundo dos olhos dele para me certificar de que não era uma piada. Só então me toquei que em duas mãos, havia duas passagens de avião. Ele não ia comigo de jeito nenhum!
- Sim. – Ele sorriu mais alargamente, me entregando as passagens. – E você vai ter um acompanhante.
Baixei meus olhos, abrindo a primeira passagem com o meu nome, o que me deixou um pouco tranquila. E então eu abri a outra passagem, fazendo meu estômago dar cambalhota lendo o nome do...
- ? – encarei John, incrédula. - Você só pode estar brincando comigo. Ele não vai comigo!

Aparatando¹: Derivado de Aparatar. Nada mais é do que a capacidade de desaparecer em um lugar e parecer em outro quase que instantaneamente. Nos livros de Harry Potter, é sempre acompanhado de um Craque, descrito como causador de sensações desagradáveis, como falta de ar, puxão pelo umbigo, entre outros.

Capítulo 8

Eu estava tão eufórica que não consegui prestar atenção em nenhuma das aulas que tive de manhã, na sexta-feira. Eram 17h30 quando saímos de casa para irmos ao aeroporto.
estava mal humorado. E bufava constantemente ao meu lado, no carro, deixando claro para todos a sua má vontade em fazer aquilo, quase dizendo “Olha , estou fazendo isso porque fui obrigado, entendeu? Não pense que estou me divertindo.”
Não que eu esteja, de qualquer maneira.
Quando John me deu as malditas (ou benditas, dependendo do lado que você vê as coisas) passagens, fez uma cara de perplexidade que me deixou sem graça. Não era confortável para ele, mas também não era para mim. Mas o que eu poderia fazer quanto a isso? Ou eu concordava, ou não iria. É claro que ele não abriu a boca para protestar, mas era nítido de que não queria ir. Talvez por querer me ajudar (ainda mais) com tudo que estava acontecendo, talvez pelo olhar que a mãe lhe lançou ou até mesmo por não ter coragem de recusar, agora estávamos indo juntos até Kassel.
Ao contrário dele, Emma estava empolgadíssima, entre nós dois, cantando alguma música nova da Miley Cyrus que tocava no rádio enquanto John e Helen conversavam sobre alguma coisa que eu não fazia questão de prestar atenção.
A cada quilômetro eu me sentia menos a vontade com aquela situação. Se a vontade de rever meus amigos e meu namorado não fosse tão grande, com certeza eu voltaria atrás.
Foram às duas horas mais tediosas, mais desconfortáveis e mais demoradas da minha vida. Sem dúvida.
Quase chorei de felicidade e alívio quando chegamos em Heathrow. Depois de colocar as malas no carrinho, fomos fazer o check in e esperar pelo voo, com todo o resto da família acompanhando. Ainda iria demorar alguns minutos para que pudéssemos ir para o avião.
sentou num banco afastado de Helen e John, enfiando as mãos dentro do casaco de moletom azul quadriculado, cobrindo a cabeça com o capuz, enquanto ouvia Kings Of Leon no último volume para que ninguém enchesse seu saco.
Estava sendo um verdadeiro babaca. Sim, um babaca atraente, mas ainda sim um babaca.
Eu o olhava de longe, dentro de uma lojinha de souvenir, esperando Emma olhar todos aqueles cartãozinhos de aniversário, dia dos namorados e mais todas as comemorações que podem existir. Pode soar um tanto quanto idiota da minha visão, mas daquele ângulo, ele não parecia apenas puto. Sua expressão também era de uma frustração sem tamanho.
- Tchau , volta logo para gente poder jogar mais. - Emma me deu um beijo e um abraço forte diante da fila do portão de embarque.
- São só dois dias, Emma. Eu volto logo, prometo. – dei um beijo na testa dela. – Além do mais, existe celular pra que?
- Não é a mesma coisa. – ela disse fazendo bico. Por incrível que pareça, ela já estava fazendo falta.
- , não se esqueça do carro alugado. É da mesma empresa da agência. – John disse entregando um papel para ele ao qual eu deduzi ser o recibo do aluguel do automóvel.
- Não se esqueçam de ligar quando chegarem ou eu vou enlouquecer sem notícias. – Helen recomendou como uma mãe coruja dando um beijo em nós dois.
- Acho melhor a gente ir logo. – disse se afastando da mãe, virando antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa. Ele foi até a fila de embarque e eu suspirei chateada, dando tchau aos outros, ajeitando a pequena mochila que estava apoiada em um ombro, para acompanhá-lo.
Logo estávamos dentro do avião, sentados nas poltronas um ao lado do outro, em silêncio. Eu olhava para fora, avistando a pista de decolagem, enquanto voltava ao seu mundinho que se resumia aos fones de ouvido e música alta. Se eu estivesse num dos meus momentos surtados, os fones seriam tirados com brutalidade dos seus ouvidos e eu diria umas poucas e boas, diante dos passageiros e as aeromoças. Só que havia um risco nisso tudo. Eles poderiam me achar louca e me colocar para fora do avião.
Eu queria chegar o mais depressa em Kassel para que não pudéssemos ficar tão próximos de uma maneira tão constrangedora e incômoda.
Uma das aeromoças deu as devidas recomendações e colocamos nossos cintos de segurança. Ouvindo os motores em funcionamento e a movimentação do avião, deixei que meus pensamentos voassem na velocidade da luz, até Sam, Jennifer e meus outros amigos. Fiquei imaginando a cara de surpresa deles quando me vissem. Nenhum deles fazia ideia de que eu estava indo lá. Eu tentei me conter durante a semana toda com Sam e Jennifer – ela finalmente apareceu pedindo desculpas e me contando que estava passando um tempo na casa da avó doente, o que já estava acontecendo a um bom tempo, antes mesmo de eu me mudar para Inglaterra. – para não contar a eles. Eu sempre fui péssima em guardar surpresas, mas dessa vez aguentei firme e não deslizei um minuto sequer, mesmo quando a euforia de vê-los começou a me dominar nos últimos dias, quando minha mala já estava pronta num canto do meu quarto e as passagens devidamente guardadas.
se mexeu ao meu lado, ao que eu percebi, evitando roçar nossos braços, ainda ouvindo música no último volume. Já começava a ficar furiosa com a atitude dele. Se ele não quisesse vir, por que estava aqui afinal de contas? Eu estava agradecida por ele ter concordado, mas se era pra ficar com essa de “não vou falar com você” era melhor eu ter dito outra briga feia com John do que ter que ficar aturando isso. estava igualzinho a uma criança birrenta, com direito a bico e tudo. Resolvi me desligar disso e não deixar que o mau humor dele me atingisse, não agora que faltava tão pouco para rever minha cidade. Peguei o meu iPod dentro da bolsa, deixando tocar aleatoriamente, voltando a pensar nas pessoas de antes e na conversa que eu teria que ter com Sam, nas coisas que eu queria fazer quando chegasse, como visitar minha mãe, no lugar onde eu não queria pensar no momento.
O ar saia e entrava em meus pulmões com tanto alívio quando andei com até a entrada do aeroporto depois de pegar nossas malas, que parecia que eu não respirava há muito tempo. E de certa maneira era verdade. Olhei ao redor querendo gravar aquela cena. Eu finalmente estava em Kassel. Não pude conter um sorriso nervoso e ao mesmo tempo feliz, mesmo quando o ar gélido da noite bateu em meu rosto, arrepiando minha pele e levantando algumas mechas do meu cabelo, me fazendo apertar o casaco grosso mais contra meu corpo. Era incrível como eu estava com saudade de tudo e todos. Ansiosa para rever cada detalhe. Meu sorriso se alargou ainda mais quando duas mulheres passaram por nós, falando alemão. Minha língua nativa. Há tanto tempo que não falava alemão, nem mesmo com Jennifer ou Sam, que também tinham um inglês fluente. Era tão estranho isso, porque eu já estava habituada a falar em inglês e nem tinha me tocado.
Ao contrário de mim, não sabia falar nada em alemão e eu mesma tive que me virar para encontrar nosso carro alugado e mostrar o recibo de aluguel. Ele não gostou, ainda mais quando teve que me pedir para fazer isso.
Já era bem tarde quando tomamos o caminho para Kassel, o que indicava que provavelmente chegaríamos depois das 22h, se o trânsito ajudasse. E não ajudou, é claro. Ficamos presos num engarrafamento quilométrico, agonizante e silencioso dentro do carro, tirando o fato do rádio estar tocando uma música lenta e gostosa, o que nada tinha a ver com o momento. bufava de segundo em segundo, passando as mãos pelo cabelo, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Só depois de quarenta minutos conseguimos tomar a última entrada para a cidade. As ruas estavam quase desertas, o que era bem comum àquela hora da noite, onde o relógio marcava 00h30min. Estávamos na avenida principal e meu estômago roncou em sinal de que precisava de alimento.
- Podemos parar no McDonalds ali na frente? – pedi baixinho olhando para frente.
Ele não respondeu, como já era de se esperar. Cheguei a pensar que ele não tivesse escutado ou simplesmente resolveu ignorar meu pedido, mas logo virou no estacionamento da lanchonete. Desci na frente, fazendo o mesmo no aeroporto: Olhando ao redor. Ali era o lugar onde eu e o pessoal costumávamos comer antes de ir para algum lugar ou quando estávamos voltando, já que ficava aberto até as 5h da manhã. Por um momento cogitei a hipótese de encontrar alguém, só que provavelmente estavam reunidos em alguma festa ou na casa da alguém. Eu teria ido à casa de Sam ou Jennifer depois de comer se não fosse tão tarde, mesmo para uma sexta-feira, ou melhor, a madrugada de um sábado.
Meu estômago reclamou de novo e minha boca ficou cheia d’ água quando senti o cheiro de hambúrguer e batata frita. entrou atrás de mim com a mesma cara de faminto. Não era novidade a lanchonete estar cheia, ela ficava o dia inteiro assim, eu só queria que naquele momento não estivesse ou eu morreria de fome.
- Você vai querer o que? – ele perguntou seco, olhando para o cardápio pendurado na parede.
- A promoção do McChicken com suco de pêssego. – respondi, procurando por algum rosto conhecido.
- Quem você está procurando? – indagou como se me acusasse de alguma coisa. Eu respirei fundo para não mandá-lo se fuder.
- Nada. Só quero ir ao banheiro.
- Então vai logo, vou fazer nossos pedidos pra viagem. Aqui está muito cheio e eu estou cansado.
Me afastei revirando os olhos, imaginando como ele faria os pedidos se não iria entender bulhufas do que o atendente falasse, mas enfim, ele que se virasse. Definitivamente quando quer ser irritante, ele consegue e muito!
Não vi ninguém no caminho, não que desse para achar alguém ali. Parecia que todo mundo resolvera ir lanchar àquela hora da noite. Lavei o meu rosto, tentando espantar o ar de cansada e arrumei o meu cabelo, o prendendo num nó frouxo. Meu celular apitou na bolsa avisando duas novas mensagens:

! Já chegou? Eu e as meninas queremos saber como foi com o Sam. Ah, antes que eu esqueça, temos novidades sobre o show! Parece que o Franz Ferdinand também vai se apresentar, só que no dia 14, sexta.”

Depois abri a segunda:

“Odeio essa merda de caracteres! Enfim, poderíamos ir também né? Passamos o fim de semana em Londres, você ainda não conhece a cidade mesmo. e que sugeriram, não acho uma má ideia. Lizzie xxx.”

Era uma ideia a se pensar e muito boa, na verdade. Saí do banheiro enquanto respondia a Lizzie, não prestando atenção nas pessoas ao redor. De repente, topei com alguém e quase cai no chão com a força que nos esbarramos.
- Ei, cuidado! – reclamei antes de olhar para a pessoa. Sorri alargamente assim que eu vi quem era. – Mike! Nossa, não pensei que fosse encontrar com você aqui!
- Muito menos eu. – ele sorriu nervoso, olhando para os lados disfarçadamente, mas não tanto. – Quando você chegou? Já encontrou com alguém? Veio sozinha?
- Calma, uma pergunta da cada vez. – ri achando cômica a maneira nervosa dele. – Cheguei hoje. Vim com o , filho da minha madrasta e não, não encontrei com ninguém. Não avisei que vinha, quis fazer surpresa. O pessoal tá aqui com você? – perguntei olhando para os lados, sendo acompanhada por Mike. Ele estava estranhamente nervoso.
- Não, estou sozinho. Vim fazer um lanche e só.
Olhei para ele totalmente incrédula. Quem vai ao McDonalds depois da meia noite comer sozinho? Um nerd que não têm amigos, só se for. E nem era o caso do Mike.
Antes mesmo que eu abrisse a boca, ouvi vozes conhecidas num canto perto de nós, chamando por Mike. Eu me inclinei para o lado já que ele tapava minha visão e vi uma mesa de canto com o pessoal da escola, vulgo, meus amigos.
- Mike, vem logo pra cá! – era Megan. Reconheceria aquela voz fina mesmo se não a escutasse por anos. – O que você está fazendo parado aí sozinho?
É claro que ninguém estava me vendo, só eu conseguia vê-los. Mike era bem mais alto e mais forte do que eu, afinal ele era do time de futebol junto com Sam. Megan estava sentada na ponta, já com sua atenção voltada novamente para a mesa então ela não poderia ver que eu me estiquei mais para ver o resto. Jennifer também estava ali! Ela estava de costas para mim e de frente para Megan. Eu logo a reconheci pela risada alta e pelo seu chapéu favorito. Mike ficou olhando para mim e para o pessoal com uma cara estranha, como se tivesse dúvidas do que fazer.
- Você não disse que estava sozinho? – meu sorriso vacilou um pouco estranhando aquela maneira que ele agia. Mike não era assim, de ficar mentindo e além do mais, por que ele mentira sobre uma coisa tão boba como essa?
- É que... , espera! – Mike tentou segurar meu braço, mas eu já tinha passado por ele e ia em direção a mesa.
Megan olhou para mim assim que comecei a me aproximar da mesa. Ela ficou paralisada como uma estátua, os olhos arregalados e talvez nem respirasse. Eu sorria de orelha a orelha quanto mais me aproximava. Jennifer conversava com alguém do seu lado, até que eu notei que era Sam. Parei de andar, quando já estava quase em frente à mesa, no instante que percebi uma coisa.
Não tive uma reação imediata, além de parar de andar. Eu estava só chocada, só olhando incrédula para a cena a minha frente.
Minhas pernas travaram, ficaram pregadas no chão e do mesmo modo que meu sorriso surgiu, ele foi embora. Meus olhos se arregalaram e eu senti um peso enorme nos meus ombros, me empurrando para baixo, para eu cair e ficar no chão, até o choque passar.
Jennifer se inclinou para Sam, para beijá-lo na boca, iniciando um amasso em público como de um casal apaixonado, bem na frente das pessoas que eu julgava serem minhas amigas. Todos sabiam o tempo todo da traição. E todos cooperaram, todos ficaram em silêncio, todos me traíram também.
Eu não senti meus olhos arderem com lágrimas. Eu senti só raiva pulsando em mim, corroendo minhas entranhas. Minha garganta se fechou e um enorme bolo cresceu ali. Meu coração disparou forte e rancoroso. Eu tremia mais que vara verde e tentei engolir o monte da saliva e não consegui. Tentei me mexer, totalmente em vão. Não conseguia sentir minhas pernas.
- ! - Megan gritou, parecendo ter recuperado a voz.
Um silêncio estranho pairou na lanchonete. As pessoas olhavam pra Megan como se ela fosse louca. Eu senti que vomitaria ali mesmo. Sam e Jennifer se desgrudaram. Eles olharam para Megan, esperando que ela fosse rir dizendo que era uma piada, mas quando eles viram o olhar dela, assustado, na minha direção, eles rapidamente o seguiram. Jennifer empalideceu, Sam tremeu nas bases como um garoto medroso que foi pego pelos pais fazendo coisa errada.
Dei um passo para trás. Eu iria fugir. Eu estava mais assustada do que eles. A ficha havia caído e eu estava com medo da verdade, com medo de ver que todos os anos ao lado deles não passavam de uma mentira. Não dei mais do que um passo para trás, pois senti minhas costas baterem em alguém. Automaticamente eu me virei, dando de cara com segurando nosso lanche. Tentei me desviar dele, para começar minha fuga, mas ele segurou o meu braço, não com força, não pra machucar. Foi mais só pra me dizer que eu deveria ficar. Eu olhei pro rosto dele, com a minha boca levemente aberta, num mudo questionamento. Por que eu deveria ficar? A expressão no seu rosto era de raiva. Vi seus belos olhos escurecerem e seu maxilar ficar travado, como se ele fosse gritar a qualquer momento.
Sam foi o primeiro a se levantar, chamando minha atenção. Ele olhava pra mim horrorizado e totalmente confuso. Depois Megan se pôs de pé e fungou, como se estivesse a ponto de chorar, daquela forma sempre extremista dela. Mas aquilo não me convenceria. Não mais. Jennifer continuou sentada, estranhamente pálida, me encarando. Sua expressão era de extrema satisfação, com direito a um sorrisinho de lado, da forma mais sarcástica possível. Eu queria socá-la.
Tudo havia parado. Todos olhavam para nós. As pessoas não faziam seus pedidos, os atendentes não enchiam as bandejas com os lanches, nem mesmo as crianças gritavam uma com as outras, ou jogavam comida nos pais. Ninguém ousava falar, comer ou se mover. Aquilo era atenção desnecessária. Eu queria ir embora e encontrar um buraco bem fundo pra me enterrar. Eu tentei mais uma vez dar um passo pra trás, eu ainda tinha meus olhos arregalados pregados em cada rosto traidor, mas novamente eu fui impedida por .
Sam vinha em minha direção e eu me perguntei o que ele estava fazendo. Apavorei-me com a hipótese dele ficar mais próximo a mim do que eu gostaria. Estava tão enojada. Cada vez que eu imaginava que ele tinha o gosto de Jennifer na boca, eu sentia meu estômago revirar e meu enjoo piorar.
Percebendo o que Sam estava fazendo, Jennifer resolveu se levantar também. Ela o seguiu meio hesitante, Megan se mexeu imediatamente ao seu lado, como se fosse testemunhar a inocência dela pra mim.
- Fiquem longe de mim! – rosnei para todos eles, principalmente para Sam.
Ele parou no mesmo instante e todos fizeram o mesmo como um bando de seguidores.
- ... – ele disse devagar, cauteloso, sua voz era suave, naquele tom que ele sempre me tratava, o que me fez ter náuseas novamente. – Vamos conversar.
Eu dei mais um passo para trás, esperando que me impedisse de retroceder novamente, mas não havia ninguém atrás de mim. Ele se moveu tão rápido que eu não fui capaz de vê-lo, eu nem fui capaz de senti-lo. largou o saco do lanche no chão e avançou para Sam, o pegando pela gola da blusa vermelha.
- Então você quer conversar? – perguntou autoritário. Eu tremi ao som da sua voz grave. Não parecia que ele queria conversar. – Eu e você, lá fora!
Mike se mobilizou, indo para perto de Sam e lhe lançou um olhar que faria até mesmo Hitler se borrar nas calças.
- É melhor você ficar aqui dentro, babaca! – ele rosnou para Mike – Você não vai querer se machucar.
Eu vi lançar outro olhar para as garotas, como se as desafiasse a fazer algo parecido com o que Mike fez. Ninguém disse nada. Ninguém nem respirou nessa hora. Antes mesmo que pudesse arrastar Sam para o lado de fora, eu me meti entre eles.
- Não, ! - segurei seu braço, um tanto desesperada com que ele pudesse fazer. - Vamos embora, por favor.
Ele me olhou confuso, não acreditando no que eu acabara de dizer. A maioria das pessoas adoraria ver seu namorado traidor apanhando até morrer e eu não era diferente. Eu queria ver Sam sangrar até a morte. Queria vê-lo agonizando no meio fio, pedindo socorro, sem ninguém para ajudá-lo. Mas ao mesmo tempo não queria que sujasse suas mãos com ele. Sam era tão repugnante que nem um soco era merecedor. Desprezo, indiferença era a melhor forma.
Eu arrastei em direção ao estacionamento. Minha sorte é que a distância não era grande, ou não conseguiria aguentar puxá-lo por muito tempo. Ele fazia questão de colocar seu peso para me impedir de puxá-lo mais. Queria ficar o mais longe possível de todos, mas ele não estava com tanta pressa assim. Eu não duvidava que caso o largasse, ele voltaria para a lanchonete para continuar o que eu havia impedido.
- , espera, por favor! – Sam gritou atrás de nós. tentou fincar os pés no chão para me parar de uma vez, mas uma força sobrenatural me fez ter mais pique para continuar andando. – ! – Sam me chamou de novo. Pude perceber que a cada passo ele ficava mais perto. Já não era o suficiente me humilhar publicamente com minha ex melhor amiga, ele ainda teimava em ir atrás de mim.
- , me larga. – pediu com a voz controlada. – É a única coisa que eu te peço. Me deixe socar esse cara.
Não foi necessário responder, ele já sabia a resposta.
Meti a mão dentro do bolso do casaco dele onde estava a chave do carro e destravei as portas, o empurrando para o lado do motorista.
- Por favor, . – Sam pediu com a voz falha. Seu peito descia e subia com rapidez, indicando que havia corrido para me alcançar.
Não me virei pelo seu pedido, mas sim pela ousadia de pronunciar o meu apelido. Como ele era tão petulante a essa ponto? Fechei os meus olhos querendo reprimir minha raiva. Obviamente foi em vão. Depois de alguns segundos vi que Jennifer e os outros estavam atrás dele, alguns passos mais longe.
- Nunca mais me chame como se fossemos íntimos, Samuel. – frisei seu nome para que ele percebesse o quão séria era minha frase. - Eu não sou mais nada sua!
- Você está nervosa, por favor, vamos conversar. – ele voltou a andar na minha direção. do outro lado se moveu inquieto.
- Você quer conversar sobre o que? Sobre como me chifrou com a pessoa que se dizia ser minha melhor amiga durante anos? Sobre como você me fez acreditar que realmente gostava de mim? Ou sobre como não só vocês, mas todos os nossos amigos sabiam de tudo e me esconderam na maior cara de pau? Vocês me apunhalaram pelas costas no momento em que eu mais preciso de vocês!
- Eu... Eu... – ele tentou dizer, mas era frouxo de mais para continuar porque sabia que tudo o que eu dizia era verdade. Alguns clientes do Mcdonalds fizeram questão de ir para onde estávamos para saber qual seria o desfecho da história.
- Não sabe o que dizer, não é? Já era para eu saber que você nunca gostou de mim. Só queria me levar para cama, tirar minha virgindade! Seria tão divertido ficar contando como foi para os seus amigos, não é? E sabe o que é mais engraçado? Eu vim aqui porque havia tomado a decisão de transar com você! – eu gritava a plenos pulmões. Eu mesma estava me expondo e nem me importei que qualquer pessoa pudesse escutar. Naquele momento eu não sentia vergonha nenhuma em dizer aquilo, só queria gritar e dizer todas as coisas que rondavam minha cabeça. – Mas você tinha que ficar justo com a Jennifer! Há quanto tempo isso acontece, hein? Vocês já treparam? Porque se você não sabe, o que eu acho bem difícil se tratando dela, Jennifer não é mais virgem há muito tempo!
Todos estavam chocados com as minhas palavras, principalmente os causadores daquela situação. Eu geralmente era uma pessoa que só explodia quando estava à beira de surtar.
- Quem você pensa que é? – Jennifer latiu (é, latiu! É o que as cachorras fazem, não é?), andando na minha direção, chegando bem perto, o suficiente para que eu pudesse lhe tocar.
- Quem você pensa que é? – retruquei a pergunta num tom superior.
- Você não gosta dele realmente! – ela falou como se aquilo fosse um motivo para amenizar as coisas.
Eu sorri. A válvula de ódio estava mais aberta. Acho que eu estava mais perigosa agora e minha língua mais afiada.
- Do que você está rindo? – ela gritou descontrolada – Você não o merece, nunca mereceu! Ele sempre foi demais pra você! Ninguém podia ver antes, ele não podia ver... Só eu via, mas agora todo mundo vê que você nunca gostou dele, você não se importa se ele se machucar! Você sempre teve tudo, sempre! Um pai rico, uma mãe maravilhosa, um namorado apaixonado! Todos estavam sempre ao seu redor, era sempre você! E eu era condenada a ser a sua melhor amiga, a ficar na sua sombra, nas arquibancadas, assistindo você ganhar tudo. Assistindo você ganhá-lo, tê-lo só pra você, fazendo tudo o que você quer...
- Você sabe o quão louca está soando? – eu conseguindo controlar minha raiva, me senti ótima por não demonstrada nada além de indiferença. Em comparação aos gritos de Jennifer era quase como se eu sussurrasse.
- Louca? – ela questionou indignada. – Louca, eu? Só por que estou dizendo a verdade?
- Não. Mas talvez seja por que você, sua vagabunda de quinta categoria, você, que eu considerava uma irmã, estava beijando o meu namorado?
- Irmã? Há, você nunca me considerou uma irmã! – ela falou com um riso incrédulo, rancoroso e sarcástico. – Você me considerava apenas como alguém em quem você tinha que esfregar a sua perfeição! Você vivia para me humilhar e me mostrar que era muito melhor do que eu! Você estava sempre me mostrando como era feliz e sortuda por ter as coisas que deviam ser minhas! Mas você quebrou feio a sua cara... Porque nada era realmente seu! Eu ganhei! Eu peguei pra mim o que eu queria e você foi feita de trouxa todo esse tempo! – ela terminou dando uma daquelas gargalhadas doentias.
Aquilo foi realmente a gota d’água pra mim. Eu não podia acreditar que Jennifer era aquela pessoa falsa, mesquinha e invejosa que estava na minha frente. Eu imaginei todos os motivos pra ela me trair. Eu a imaginei profundamente apaixonada por Sam, mas agora eu via que a questão não era que ela gostava dele. A questão era que ele era meu. A questão era que ela queria o que era meu, ela queria ter tudo o que me pertencia apenas por prazer. Eu tive mais nojo dela do que tudo. A raiva cresceu de tal maneira que a válvula estourou dentro de mim, minha visão ficou branca e no mesmo instante puxei meu braço para trás com toda força que pude, mirando meu punho direito bem nas fuças dela.
Ouviu-se um estalo, em que cartilagem nasal de Jennifer se quebrou sob o meu punho. Ouvi os gritos de Megan e as exclamações de Sam sendo acompanhados de Mike e mais algumas pessoas. Jennifer foi para trás por causa da força do meu soco, ela cambaleou alguns passos com as mãos no nariz, que agora sangrava, até cair no chão desajeitadamente como um saco de bosta. Todos olhavam para mim chocados, mas eles sabiam que eu era capaz daquilo. Já havia feito anos atrás.
Não era o bastante para mim. Eu rezava intimamente para que ela tivesse quebrado outra parte do corpo na queda. O nariz já estava garantido.
Jennifer não se mexeu. Parecia estar desmaiada, ou apenas atordoada. Megan se adiantou, para checar se o resto estava inteiro.
Alguns assovios e palmas eram direcionados a mim da porta da lanchonete. Ouvi alguns me incentivando a avançar em Sam, a continuar a bater naqueles traidores sujos. Eu ouvi outros soarem tão escandalizados quanto Megan.
- Isso, – proferi com o máximo de desdém que consegui colocar na frase, assim que Jennifer conseguiu focalizar seu olhar em mim. – é por você ter me traído de todas as formas possíveis, sua piranha!
Eu dei as costas a ela. Eu dei as costas a todos, me virando para . Ele estava sorrindo. Não duvidei que ele pudesse gargalhar tal ponto que era seu semblante divertido, o que me fez sorrir um pouco também. Eu havia descontado a raiva e ele claramente havia gostado disso. Acho que gostado era pouco. Quem sabe amado se encaixaria melhor. Eu confesso, não estava longe disso. Dei um último lugar para Jennifer ainda caída e para um Sam ainda imóvel. Desejei que aquelas cobras queimassem para que eu pudesse ouvir os guinchos deles enquanto assavam. Até mesmo realizei os sons na minha cabeça.
- Vamos embora, . – pedi assim que ele se sentou ao meu lado e ligou o carro, acelerando com direito a pneus cantando. Não ousei olhar para trás.
- Você vai mesmo ficar bem? – ele me perguntou, me avaliando com um olhar preocupado, não se importando em prestar atenção na rua. Haviam poucos carros circulando àquela hora. – Você está pálida, tremendo...
- Acho que vou me recuperar, só preciso de um tempo. – respondi, olhando para minhas próprias mãos sob minhas coxas. – Acho que no fim das contas eu me desliguei desse lugar. Você não vai mais precisar viajar comigo contrariado.
- Você não existe... – ele riu sem humor, voltando sua atenção para frente. - Tem algum hotel onde possamos ficar?
- Podemos ir para a minha casa. - falei antes mesmo de raciocinar o que estava dizendo.
Eu estava tão exultante com a ideia de rever Sam e Jennifer antes que nem pensei em como reagiria ao entrar de novo na minha casa. Na casa onde eu e minha mãe fomos tão felizes e tão completas. Também não imaginei que a torrente de lembranças fossem de repente trazer lágrimas aos meus olhos. Eu as escondi. Eu as administrei com cuidado. Foi mais fácil depois que as duas primeiras saíram. Eu as limpei rapidamente com as mangas do meu casaco enquanto vasculhava a mochila em busca das chaves. pareceu não perceber, ou foi cavalheiro o bastante para fingir não ver, contando sobre como conseguiu fazer os pedidos no McDonalds com a ajuda de um cara que estava atrás dele na fila. Eu me controlei, sentindo apenas uma ardência nos olhos e uma urgência em sair daquele carro. Guiei para a casa, descendo do carro para abrir a porta da garagem vazia. O carro da minha mãe havia sido destruído durante o engavetamento em Dublin.
Abri o pequeno portão de madeira em frente a casa e atravessei pelo caminho de pedra o pequeno jardim pelo qual minha mãe se orgulhava. As rosas não estavam mais bem cuidadas, a grama não estava aparada. O jardim dela estava descuidado, ele estava morrendo. Ela odiava quando isso acontecia, quando não tinha tempo para cuidar das suas plantas.
Parei quando cheguei a porta. Minha mão estava trêmula, eu escutava o tilintar das chaves, roçando uma na outra. Como uma última forma de me acalmar definitivamente, respirei fundo e soltei o ar devagar. Girei a chave vagarosamente, abrindo a porta da frente com um estalo. Eu suspirei e levei minha mão à maçaneta, esperando ouvir um ranger da porta como naqueles filmes de terror. Eu imaginava que minha casa estaria com cheiro de mofo e o piso cheio de poeira, mas estava tudo razoável. Havia se passado um mês e meio, mesmo que para mim tenha parecido uma eternidade. Eu acendi a luz da sala, vendo que tudo estava impecavelmente do mesmo jeito antes de eu ir para York com John. O abajur quebrado do outro lado do cômodo, o vaso de flores com as próprias mortas, a estante com as prateleiras jogadas no chão, os livros rasgados... Até mesmo o porta-retrato estava no mesmo lugar onde eu o havia quebrado. Por alguns segundos, foi como se eu estivesse vivendo aqueles dias novamente. Senti que meu passado estava perdido entre mentiras e meu futuro era o mais incerto que alguém poderia ter. Olhei ao redor com a maior lentidão possível e só não desabei no chão porque ouvi a buzina do lado de fora da casa. Sacudi a cabeça, jogando a minha mochila no sofá. Abri a gaveta da mesinha em que ficava o telefone para pegar o controle para o portão elétrico da garagem.
Esperei do lado de fora colocar o carro com cuidado dentro da garagem para depois chamá-lo para entrar. Ele observava cada detalhe da casa com mínimo detalhe, provavelmente notando o quão tudo era feminino, afinal de contas, apenas duas mulheres moravam ali.
- Tudo é tão delicado... - ele disse baixinho, indo até a sala comigo, colocando sua mochila em cima do sofá ao lado da minha. - Sua mãe tinha um ótimo gosto.
- É, ela era ótima com essas coisas. - disse com um sorriso amargo. Novamente olhei para os móveis que tinham sobrado. Nada naquela casa era mais a mesma coisa e nada mais seria. Era horrível pensar daquele jeito.
andava pela sala, olhando os cacos de vidro espalhados pelo chão.
- O que aconteceu? - ele me olhou com as sobrancelhas levantadas.
- Foi num ataque de fúria, quando John me disse que eu teria que ir embora com ele. - desviei meus olhos para as escadas, envergonhada. - Desculpe pelo que aconteceu no Mcdonalds. Acabou que nós não temos nada para comer.
- Não tem problema. Nem estou com tanta fome. - mentiu. - Você que deve estar.
- Não se preocupe comigo. - cruzei os braços querendo me proteger de algo invisível e desconhecido. Estava começando a ficar com medo de algo que não sabia o que era.
Um silêncio tomou conta de tudo. Meus olhos ainda fixos na escada, com os seus presos em mim com tanta intensidade que era impossível de ser ignorada. Ele estava me avaliando. Avaliando meu próximo passo, crente de que eu sentaria no chão e choraria.
- Eu vou dormir. - avisei pegando a minha mochila, só para então olhar para ele. - Tem um quarto de hospedes lá em cima, perto da escada. O banheiro fica ao lado, caso você queira tomar banho. - ele assentiu. - Boa noite.
Subi o mais depressa possível, escancarando a porta do meu quarto. Tudo estava como na parte de baixo: intocado. Meu lençol ainda era o mesmo verde com desenhos, meus ursinhos ainda estavam jogados pelo chão, alguns sapatos e roupas que não fiz questão de colocar nas malas também. Não me preocupei em arrumar nada, nem mesmo as coisas em cima da cama. Apenas as joguei no chão, troquei de roupa, colocando um baby doll de algodão, tendo as que estavam no meu corpo o mesmo destino que as outras coisas: o chão. Deitei-me, ligando o abajur por causa do meu medo infantil e esperei para que o sono viesse, mas a única coisa que veio foram às cenas passadas recentemente. Aos poucos, tudo foi se encaixando como um quebra-cabeça. Engraçado como a vida nos prega peças e nos fazem ver as coisas de outra maneira. Antes, eu não enxergava nada entre Sam e Jennifer, só que olhando bem, as coisas entre eles fluíam naturalmente. Dois mentirosos, cretinos e filhos da puta, ou seja, eram perfeitos um para o outro. Uma pena que eles não terem sido sinceros o suficiente para me contar. Agora a confiança não existia, era tarde demais.
A inveja de Jennifer e a falta de respeito de Sam tinham acabado com qualquer relação que poderíamos ter no futuro. Eu estava com raiva sim, mas não por eles terem ficado juntos. Estava com raiva por eles terem me enganado por tanto tempo bem na minha cara e não tiveram a consideração de me contar a verdade.
Eu tive consideração por Sam quando me sentia atraída por . Por que ele não poderia ter a mesma coisa por mim?
Há quanto tempo eles estavam juntos? Moravam perto, o que facilitava as coisas. Os treinos frequentes de futebol eram apenas fachada, aposto. Os sumiços deles, a forma como Jennifer evitava falar das coisas que estavam acontecendo na cidade, Megan falando sobre o meu término sem sentido com Sam... Eu podia imaginá-los rindo e se beijando enquanto ele escrevia que sentia saudades de mim no MSN. Eu conseguia entender agora o grande interesse de Jennifer em trazer John o mais rápido possível. É claro que ela sabia que ele me levaria embora e estava louquinha para que isso acontecesse logo.
Tudo para que eles pudessem se comer a vontade, bem debaixo do meu nariz. Até que ponto as pessoas que eu pensava serem meus amigos, sabiam? Será que a escola toda sabia também? Os pais de Sam sabiam? Não era possível que ninguém mais sabia além daquele grupinho fechado. A conclusão me acertou em cheio, como aquele soco que eu havia dado em Jennifer: Todos sabiam, todos. Exceto eu, é claro. Não é mentira que dizem que corno é o último a saber. No meu caso, a corna. Eu devia ter um calho enorme na cabeça. Katie tinha razão. Entretanto nada daquilo estava me atingindo de verdade. Jennifer teve razão ao dizer que eu realmente não gostava de Sam. Mas ele sabia desde o começo, todos sabiam, tudo estava as claras.
Até aquele momento eu nem me dei conta de que estava apenas com ele pelo simples fato de me sentir amada, ser desejada, ter alguém com quem dividir as coisas, além da minha mãe e da minha melhor amiga. Éramos nós três desde o começo, e quando eu e ele resolvemos ficar juntos, Sam continuou sendo meu melhor amigo. O sentimento fraternal não mudou e eu, boba, achei que fosse o suficiente. Mas não era, não para ele.
Fui errada em ficar com ele durante esse tempo, mas no fim de tudo, nunca menti dizendo que era apaixonada. O fato que havia me domado foi que eles dois estavam me traindo. Duas pessoas que eu confiava de olhos fechados, não apenas por serem próximos a mim, mas por conhecê-los desde pequenos e achar que conhecia suas índoles. Fui tão inocente. Uma presa fácil para Jennifer que calculava a melhor forma de me trair, enquanto Sam deixava as coisas acontecerem como se nada estivesse fora do lugar. Qual dos dois foi mais filha da puta?
Encolhi-me, me sentindo extremamente cansada. A mão que usei para socar Jennifer doía e meus olhos teimavam em continuar pregados como se eu fosse uma coruja. Algo faltava para que eu pudesse descansar.
Ouvi a porta do banheiro sendo aberta e depois alguns passos vacilantes pelo chão. tentou passar pelo meu quarto sem fazer barulho.
- ? - o chamei levantando um pouco o tronco, me apoiando em um braço, para que ele pudesse me ver melhor. Ele apareceu na porta usando uma regata branca colada que marcava todos os seus músculos maravilhosamente desenhados, e uma calça quadriculada larga de moletom. Seus cabelos estavam um pouco úmidos e os pés descalços. Uma toalha estava em torno do seu pescoço e sua mão segurava sua antiga muda de roupa.
- Eu te acordei? - ele foi entrando vagarosamente no quarto, um tanto tímido. O rastro de sabonete e loção masculina foi invadindo cada canto do meu quarto conforme ele foi caminhando.
- Não. - balancei a cabeça, me sentando por completo, respirando fundo para que aquele cheiro delicioso me dominasse. - Na verdade eu não estou com sono.
- Muitas coisas aconteceram hoje, você ainda está absorvendo as informações. - ele parecia que não sabia o que fazer, o que era bem estranho se tratando dele, e resolveu ficar parado em frente a cama, enquanto me olhava.
- Hm, você vai dar uma de Lizzie agora? - perguntei sorrindo. Bati num lugar vago na cama, convidando-o silenciosamente para sentar. - Eu queria te agradecer por você ter me defendido hoje. Mais uma vez você esteve do meu lado numa situação bem complicada.
- Talvez eu seja seu super herói. - ele brincou, sorrindo fraco e ficando sério em segundos. - Eu lamento pelas coisas que você viu e ouviu.
- Foi melhor assim. Eu não amo Sam, Jennifer tem razão sobre isso. - dei de ombros, procurando algum vestígio de pena em seus olhos ou rosto, mas nada foi encontrado. não me achava fraca, eu sabia. Não tinha pena de mim, não me achava uma coitada quando cheguei em York, e não me achava uma coitada agora, apenas me confortava quando era preciso. Todos precisam de algo para se apoiar, e ele era o meu apoio em tempo integral. Eu, internamente, agradecia aos céus por tê-lo. E ainda mais por ele não estar mais carrancudo.
- Ele foi um canalha. Eu teria quebrado a cara dele, deixá-lo sangrando na sarjeta, o verdadeiro lugar dele. - vi seus olhos ficarem escuros novamente, até perderem o brilho natural, doce, suas mãos se fecharam em punhos, apertando as roupas que segurava. - Eu o teria matado, . Me deu tanto ódio, tanto...
- Já passou. - conclui, ficando espantada com a importância que estava dando para aquilo. Nem eu, que fui a mais humilhada na história, estava assim. - Sam é passado para mim, . Todos dessa cidade são.
- Pelo menos você quebrou a cara da piranha. - eu sorri com maldade. Ele conseguiu de novo. me fez sorrir um pouco. Sempre conseguia, mesmo contra minha vontade.
- A ideia foi toda dela. – disse inocente – Mas eu consegui fazê-la ficar atordoada por alguns segundos.
- Foi divertido ver uma princesinha delicada como você bater naquela daquele jeito. Parecia até profissional.
- Eu já fui suspensa quando estava no sétimo ano por socar uma menina. - minha confissão o fez abrir a boca. - Não me olhe desse jeito, não sou uma pessoa violenta, só quando necessário.
- Você foi corajosa dizendo todas aquelas coisas no estacionamento. - ele não disse o que, mas a palavra "virgindade" estava entre parênteses. Instantaneamente eu me senti tão envergonhada que não dúvido nada que meu rosto tenha ficado mais vermelho que tomate. Ainda bem que o quarto estava pouco iluminado. - Poucas meninas fariam o que você fez. Encarar tudo de frente, dizer tudo... A maioria sairia correndo, chorando e se trancaria no quarto.
- Eu tive vontade de fazer tudo isso, não sou diferente das outras garotas. De primeira eu quis sair correndo sim, me esconder, mas você me impediu. E sobre as coisas que você e metade de Kassel escutaram... Nossa, naquele momento eu não estava pensando o que saia da minha boca. Eu sei que algumas coisas foram bem desnecessárias, mas eu precisava dizer, não aguentaria ficar com um nó na garganta. Agora estou morrendo de vergonha.
- Na hora da raiva falamos coisas sem pensar. Você não tem que ter vergonha de nada.
- Eu quero ir embora. – juntei minhas pernas, passando os braços ao redor delas, numa demonstração de clara fragilidade. A qualquer momento eu choraria. – Quero ir pra casa.
Eu e ele nos olhamos significadamente por causa da minha última frase. Ela foi proferida com tanta naturalidade que eu mesma me espantei. York agora era meu lugar. Tornou-se sem nem eu perceber. Agora eu tinha uma vida, tinha uma família e amigos lá. Eu não pertencia mais a Kassel. Não depois de uma perda insubstituível e descobrir uma traição dupla.
- Eu vou deixar você dormir agora. – se levantou quando percebeu que eu não falaria mais nada. – Amanhã vou ligar para o John para ver se ele consegue mudar o dia da nossa volta.
Ele foi andando em direção a porta, num súbito momento, eu me vi sozinha. E eu não queria aquilo. Não agora. Não de novo. Eu sabia que no momento em que sumisse, meus olhos se tornariam cachoeiras, sendo afogada pelas lembranças da minha mãe, que até aquele momento, estavam esquecidas por causa dos últimos acontecimentos. Logo eu me lembraria que depois de tudo, ela não estava mais comigo. Ela não me acolheria em um abraço carinhoso e não me diria palavras reconfortantes. Não xingaria Jennifer e muito menos Sam. Não me prometeria que eu encontraria um príncipe encantando, mesmo sabendo que eu não acredito mais nisso. Não impedi minha voz de sair chamando por mais uma vez. Ele foi tão rápido que em poucos segundos estava sentado na cama novamente. Seus olhos estavam assustados e desesperados, observando as lágrimas grossas e pesadas, uma atrás da outra, molharem minhas bochechas.
- Do que você precisa? – ele me perguntou urgentemente, num tom angustiado. Por breves segundos, eu acreditei que ele fosse chorar comigo.
- Apenas que você fique comigo. – eu sussurrei suplicante, com a voz pastosa e irreconhecível. Se houvesse uma terceira no quarto, poderia jurar que não era eu que falava. – Por favor, eu não quero ficar sozinha. Estou com medo.
Ele confirmou com a cabeça, colocando a toalha e todo o resto em cima da poltrona perto da cama. Eu rapidamente me ajeitei do outro lado da cama, dando espaço para ele deitar. Meu corpo todo tremeu quando sentiu, mesmo que estivéssemos usando roupas, o contato com o dele pro debaixo da coberta. Nos mexemos, ficando de lado para nos encararmos sérios. Ele estava lindo como sempre. Uma beleza que mais nenhum outro homem tinha aos meus olhos. As lágrimas ainda desciam, agora molhavam minha fronha.
- Tudo vai ficar bem, . Eu estou aqui e não vou sair até você mandar. – ele passou a mão sobre minha bochecha, limpando o vestígio do caminho salgado. Senti-me tão protegida e tão segura com as palavras dele que não consegui reprimir um sorriso. Em momentos como esse, eu me perguntava se existia mesmo ou era apenas fruto da minha imaginação carente.
surtia um efeito estranho e bom em mim, isso já estava mais do que comprovado. Um efeito que eu ainda estava começando a compreender.
- Vem cá, vem. - ele me puxou para mais perto de si, e aproveitando isso, me aninhei, de forma desajeitada, na região entre seu ombro e pescoço. Ele passou um dos braços por debaixo da minha nuca, enquanto o outro envolvia minha cintura, me acolhendo por inteira, como se seus braços e corpo fossem uma barreira de proteção.
E de certa forma eram. Era tão gostoso ficar com ele daquele jeito. Tão perto... Seus abraços ao meu redor me davam uma clara e absurda convicção de que nada poderia me ferir. Minha proteção estava acionada.
- Você tem cheiro de chocolate. – ele disse baixinho, quase num sussurro, como se estivesse falando consigo mesmo. Se não estivéssemos tão perto, não conseguiria escutá-lo.
- Você tem cheiro floral amadeirado de bergamota, limão, cedro, noz moscada, almíscar e sândalo. – disse no mesmo tom com a voz fraca. Ele riu com a minha observação tão detalhada.
Coloquei uma mão sobre seu peito, o sentindo subir e descer com mais rapidez do que o normal, encostando meu nariz e boca em seu pescoço, aspirando aquele cheiro maravilhoso de pós-banho e loção que ele carregava o tempo inteiro, até meus pulmões ficarem totalmente tomados e minhas narinas arderem em agradecimento. Tremi novamente, fechando os olhos, apertando-o contra mim, puxando um pouco sua camisa, desejando que ele nunca me soltasse. Lá estava meu porto seguro e de jeito nenhum eu o largaria. Tive vontade de beijar sua pele. Era tão macia e quente. Extremamente convidativa para qualquer pessoa do sexo feminino, talvez até masculino.
me apertou com a mesma intensidade junto a si e suspirou no meu cabelo. O alívio estava vindo. Uma sensação de entorpecimento me rondava. Era disso que eu precisava desde o começo: Dele. A solução para os meus problemas. A minha proteção absoluta. De alguma forma, eu não sentia mais medo. Tudo estava esquecido naquele momento. Éramos apenas eu e ele.
- If you ever feel like letting go I won't let you fall¹…- ele cantarolou baixinho, com a boca roçando levemente na minha testa, antes me beijá-la carinhosamente. - You're never gonna be alone, I'll hold you 'till the hurt is gone².
Aquelas palavras me reconfortaram com uma força devastadora. Meus olhos deixaram escapar algumas lágrimas, agora de felicidade,e e me sentir feliz era o que eu mais precisava.

- Mesmo que você pense em desistir, não vou deixá-la cair¹
- Você nunca vai estar sozinha, vou te abraçar até a dor passar²
(Nickelback - Never gonna be alone)

Capítulo 9

Não estava chovendo como sempre acontece em cenas tristes da TV. O céu estava ensolarado, e mesmo não querendo admitir, bonito. Bem bonito, mesmo com a temperatura baixa. O sol estava lá, radiante, oponente, mas não aquecia nada, não a mim pelo menos. Sua imagem já não me transmitia mais calor algum. Suspirei pesadamente, sendo envolvida pelos braços de Sam, como ele costumava fazer todos os dias quando caminhávamos a pequena distância do seu carro e o prédio da escola. Eu apreciei aquilo como se fosse a última vez que estivéssemos juntos, mas eu esperava que não.
Nós caminhamos na direção onde já havia algumas pessoas, sempre com passos lentos, em um profundo silêncio.
O padre dizia algumas coisas, mas eu não entendia, parecia que ele falava numa língua completamente diferente da minha, como japonês. A única coisa que eu conseguia entender naquele momento eram os braços de Sam em volta de mim, firmes, deixando claro que ele estava ao meu lado.
Havia muita gente conhecida também, e de certo modo, aquilo me reconfortou. Parecia que eu não era a única a sentir uma perda ali. É claro que nenhuma daquelas pessoas tinha o laço forte que eu mantive com a minha mãe todos esses anos, mas as pessoas realmente estavam tristes.
Um bolo se formou na minha garganta, e uma sensação de mal estar tomou meu corpo. Minhas lágrimas desciam silenciosamente carregadas de sentimentos desagradáveis. Em todo aquele ritual, mantive os olhos fixos no caixão fechado de minha mãe. Por mais que eu quisesse, eu não conseguia aceitar. Como isso era possível? Dias atrás minha mãe estava comigo, rindo, se divertindo... E agora só havia lembranças de nós duas. Era doloroso de mais imaginar como seria meu futuro sem ela. Quem me daria conselhos sobre garotos? Quem iria cantar Beatles comigo no carro enquanto vamos passear? Quem me daria um beijo na testa ou um abraço de urso, dizendo que tudo ficaria bem no final? Quem afastaria meus medos? Quem ficaria na platéia tirando fotos, chorando orgulhosa de mim por que estava me formando?
Vieram lembranças de brigas, que hoje a meu ver, foram idiotas e desnecessárias, que tomavam o tempo que me restava ao eu lado.
- Adeus, mamãe. - soprei, sentindo meu coração sendo esmagado com aquelas palavras. – Eu te amo muito.
Queria na verdade gritar, observando quando o caixão começou a ser baixado lentamente e flores foram jogadas nele e em sua cova.
Meu corpo todo estava em uma dor absurda, e era tão grande, latejava tanto, que nem respirar direito eu conseguia, quanto mais fazer algum tipo de esforço. Fechei os olhos, deixando as grossas lágrimas escaparem deles, deixando que minha tristeza fosse embora. Queria apagar aquela cena da minha mente.
Eu acordei daquele mesmo jeito angustiado que as pessoas despertam dos pesadelos. Ofegante, assustada, o coração martelando dentro do peito, gelada e suando frio. Minha testa e nuca estavam encharcadas.
Nunca havia sonhado com aquele dia, achei que ele estivesse perdido, mas conclui que ele estava bem mais presente do que deveria. Foi tão real... Eu realmente achei que estivesse revivendo tudo aquilo.
Com um suspiro de alívio, desviei meu rosto da luz da manhã nublada, virando para o outro lado, dando de cara com . Seu rosto estava a centímetros do meu, sua boca entreaberta deixava um jato de ar quente bater na minha bochecha, seu nariz que antes quase roçava nela, agora fazia o mesmo com o meu nariz. Eu estava deitada de barriga pra cima, enquanto ele ainda matinha seu braço transpassado pelo meu corpo. Estava tão quentinho e o seu cheiro floral amadeirado ainda estava forte como ontem... Será que eu estava agarrada a ele o suficiente pra ter um pouco da sua essência em mim?
Lentamente me virei, ficando de frente, observando o movimento de seu peito, subindo e descendo com a respiração lenta. Quando eu fiz isso ele respirou fundo e por um momento fiquei totalmente rígida. Imaginei qual seria a minha cara se ele acordasse naquele momento, com nossos rostos do jeito que estavam, mas ele só me puxou mais pra perto, se ajeitando e me agarrando mais como se eu fosse um travesseiro. Sorri fraco, aliviada e boba por estar num momento tão íntimo com ele. Nós nunca tínhamos ficado tão perto e eu nunca me senti tão encantada por alguém.
Num impulso, fiz uma coisa que eu tive vontade de fazer desde a primeira vez que eu o vi. Ainda muito incerta, levantei a minha mão direita e passei pelo seu cabelo, bem devagar para não acordá-lo; Macio, sempre desajeitado, dando a impressão de que acabara de sair de um vendaval. Tirei algumas mechas de sua testa e analisei a sua expressão. Era suave, calma. Não era como de um bebê, mas tinha um "quê" de sapeca. Aposto que eu não ficava tão bonita assim enquanto dormia.
Da forma mais suave possível, desenhei com a ponta dos meus dedos sua testa, nariz, boca... Parei na última, desenhando mais detalhadamente. Por alguns segundos, fiquei hipnotizada olhando para os seus lábios macios, rosados, me dando vontade de beijá-los e depois mordê-los. Eu queria tanto saber como era ser beijada por ele.
Apenas quando suspirou novamente foi que eu “acordei”. Ele não podia me pegar daquele jeito. O que eu diria? “Estou te admirando enquanto você dorme, não liga pra baba escorrendo não”? Seria tão constrangedor.
Contra minha vontade, fiz um tremendo esforço para sair dali. O braço ao meu redor não me apertava com força, mas era o suficiente para manter meu corpo perto do seu. Por mais que fosse tentador de mais, tirei o braço dele de cima de mim o mais devagar possível e me afastei suavemente. Quando eu já estava livre do abraço, sentei na cama, olhando para ele. Lutei com todas as forças pra não voltar pra lá e me aninhar de novo.
Detive-me antes de alcançar o batente da porta. Meus olhos se direcionaram para a porta entreaberta da frente. Era o quarto da minha mãe. Gelei dos pés à cabeça, sentindo um calafrio percorrer pelo meu corpo. Eu poderia recuar, mas não queria. Meu cérebro trabalhava a mil por hora e meu coração choramingava pedindo para que eu não entrasse li. Não ouvi o último, e teimosa, empurrei a porta sem força para que ela abrisse totalmente. Podia ser apenas ilusão e saudade, mas eu sentia o cheiro da minha mãe em cada canto daquele cômodo. O quarto estava como todo o resto da casa. Se não fosse pela cortina meio fechada, deixando um pouco de luz entrar, tudo estaria num completo breu. Havia roupas espalhadas pela cama, sapatos pelo chão... Sua bolsa favorita estava em cima da pequena poltrona, perto da janela. Sorri fraco, lembrando de uma das coisas que mais tínhamos em comum; A desorganização. Fisicamente eu parecia muito com John, mas a personalidade era igual à dela.
Acho que poderia ter evitado estar ali, mas me amaldiçoaria se não o fizesse.
Enquanto caminhava, passei a mão por cima das coisas dela, por cima de cada coisinha que ela havia tocado. Sentei-me na cama, olhando tudo ao redor com calma... Eu sentia a presença dela ali. Podia jurar que a qualquer momento ela entraria no quarto, enrolada na toalha e me dizendo para sair de cima das suas coisas. Isso não aconteceria nunca mais. Era perturbador e agonizante pensar nisso.
Entrei no closet escuro, enfiando meu rosto em meio às roupas que estavam lá, absorvendo todo o perfume que ainda restava. Eu tinha tanto medo de esquecer o cheiro da minha mãe. Eu tinha medo de esquecer o timbre de sua voz e o som da sua risada, medo de me esquecer dela e de como ela era uma pessoa maravilhosa.
A dor no meu peito voltou a apertá-lo esmagadoramente e eu fechei os olhos. A imagem do rosto da minha mãe surgiu perante à mim, fazendo a dor piorar mil vezes.
Só me dei conta de que estava chorando quando funguei. Não havia ninguém ali pra presenciar o meu choro, então eu me senti confortável em expulsar um pouco das lágrimas que estavam dentro de mim. Admito, por mais que isso fira grandemente o meu orgulho, também chorei pelas coisas que vi no Mcdonalds. Chorei por ter sido ingênua o bastante pra ter sido enganada por duas das pessoas de quem eu mais gostava... Chorei porque finalmente havia compreendido que todos de quem eu havia gostado estavam agora mortos pra mim.
Eu estava mais emocionalmente abalada do que eu estive quando presenciei tudo. Tudo dentro de mim se juntou, toda a tristeza pela traição que eu deveria ter sentido naquela hora e não senti, veio com tudo pra cima de mim. Na hora em que eu percebi as coisas. Eu só conseguia sentir ódio deles, por terem me feito de boba e por terem traído toda a confiança que eu depositava neles. Mas agora, mais calma e menos raivosa, eu sentia toda a dor da traição misturada com a dor da perda da minha mãe.
Meu Deus, eu estava tão cansada, tão desesperada, tão cheia daquele aperto que não parava de crescer, que mal conseguia respirar. Mais do que nunca, eu queria minha mãe comigo e quando eu me lembrava que isso não era possível, meu choro aumentava, a dor aumentava, o cansado daquilo tudo aumentava... Tudo ficava tão ruim, tão terrivelmente doloroso... As lágrimas desciam com uma facilidade assustadora. A qualquer momento eu seria afogada por elas.
Arranquei uma blusa do cabide, abraçando-a com toda a força que me era concebida e não percebi que eu estava chorando aos berros. Cada fungada era mais alta que a outra. Meu choro chegou a tal ponto que eu fui tomava por soluços sem fim. Não vi quando sai do escuro, só me dei conta que não estava mais lá quando me vi sentada no chão de taco, com as costas encostadas na cama, de frente para as portas do closet, com a blusa ainda nas mãos. Apoiei minha testa nos joelhos, me encolhendo o máximo que podia como uma criança medrosa e indefesa, desejando com todas as minhas forças que aquilo não passasse de um pesadelo para que eu logo acordasse e visse que nada era real.
Senti um toque leve na minha mão e aos poucos ele foi atingindo todo o meu antebraço. Eu sabia que era que estava me tocando. Não era por causa do seu cheiro, não era por saber que nós dois estávamos em casa. Era por saber que ele me acolheria. Só ele.
- Vai ficar tudo bem, eu estou aqui. – ele garantiu, beijando o topo da minha cabeça. Levantei a cabeça, deixando escapar mais alguns rastros salgados, vendo agachado na minha frente, sorrindo. Um sorriso fechado, sincero e lindo. Seus olhos estavam marejados, mas não achei que ele fosse chorar. E como sempre, não havia pena.
Apertei meus olhos quando mais lágrimas ameaçaram cair, larguei a blusa, me atirando em seu pescoço, o envolvendo com toda a força que tinha, enterrando meu rosto no seu ombro, fazendo perder um pouco o equilíbrio. Precisava de mais uma dose da minha proteção.
Ele fez o mesmo, envolvendo o meu corpo em seus braços aconchegantes com a mesma intensidade que eu envolvia o seu.
E então eu me dei conta de que era a primeira vez que nos abraçamos de verdade e também que era a primeira vez que eu era abraçada de verdade em tanto tempo.
Não digo que me recuperei rápido da minha crise. Eu ainda fiquei um bom tempo apertando , soluçando contra seu corpo quente e macio. Ele, paciente como sempre nesses momentos, esperou até que meu choro diminuísse, enquanto murmurava uma música que eu não conhecia, mas era lenta, como uma canção de ninar, descendo e subindo a mão pelas minhas costas enquanto a outra continuava me abraçando, tentando me tranquilizar, com algum sucesso. Não nos largamos quando fiquei quieta. Continuamos compartilhando o calor um do outro, ouvindo a respiração calma dele e a minha um tanto acelerada. Abraçada a ele, eu sentia seu coração batendo tão forte como o meu. Tão vivo como nunca. A dor foi dando espaço ao nervosismo conhecido e a tranquilidade esperada desde o começo.
- Você é forte. - ele disse baixinho assim que meu ataque de choro passou de vez, ainda deslizando sua mão gordinha e grande pelas minhas costas. – Me agarra com uma vontade que eu fico até lisonjeado. A sorte é que eu sou mais forte que você ou então seria esmagado.
Sorri sem humor contra seu ombro por causa do comentário sem sentido. Ele estava fazendo de novo; Estava me distraindo. Eu me senti mil vezes mais leve. Talvez pela descarga emocional que tive há alguns segundos, talvez porquê ele estava comigo. Como mágica, o clima pesado foi se dissipando.
Eu o larguei devagar, voltando à posição de antes, com as costas na cama e de cabeça baixa, limpei um pouco os vestígios de choro com as costas das mãos. ficou de perna de chinês, me observando.
- Você me deixou dormindo sozinho, isso não é legal, sabe... – ele disse de um jeito divertido, quase zombeteiro. – Não faça mais isso, eu tenho medo.
- Dá próxima vez não saio de perto de você então. – falei imitando seu tom, com pouco sucesso.
- Isso é bom. Não quero mesmo que você saia de perto de mim. – meu corpo inteiro amoleceu e gritou ao mesmo tempo quando ele disse isso, e minha única reação foi continuar de cabeça baixa, rezando para que não percebesse minhas bochechas vermelhas. – Olha pra mim.
Ele colocou a mão no meu queixo, levantando meu rosto com cuidado. Ele estava com uma expressão séria, mais próximo do que o recomendado e seus olhos estavam astutos como de um gato, esquadrinhando todos os detalhes que meu rosto permitia, vagando entre meus olhos e minha boca. Lentamente, a mão foi descendo até meu maxilar, fazendo o caminho até atrás da minha orelha enquanto o dedão fazia círculos minha bochecha. Tive que reprimir um gemido quando todos os pêlos do meu corpo de arrepiaram com o toque e meus olhos penderam a se fechar. Era como se um campo magnético de atração fizesse com que nossos rostos se aproximassem sem que pudéssemos perceber ou evitar, até que finalmente as pontas dos nossos narizes se tocaram quase imperceptivelmente, roçando um no outro, numa ternura jamais vivida por mim até então. A única coisa que eu podia ver era minha própria imagem refletida em suas íris e brilhantes. Meu coração parou, minha respiração diminuiu e fui obrigada a entreabrir a boca para conseguir puxar mais ar, chamando, sem querer, a atenção de para ela.
Desde quando meu corpo e minha mente tinham reações tão intensas e estranhas quando eu encontrava com o olhar dele?
- ... – tentei me afastar lutando contra a minha vontade louca e insana de beijá-lo de uma vez só. A resposta que tive foi à mão dele escorregando pela minha nuca, pressionando a região contra si para que eu não me mexesse um centímetro sequer.
- Não se afaste. – ele pediu gentilmente negando com a cabeça, soprando seu hálito fresco de pasta de dente em mim. – Não agora quando estou tão perto.
O quarto, de repente, pareceu quente e pequeno.
Ele beijou minhas lágrimas até secá-las de vez, cheio de ternura e atenção, arrastando sua boca até o canto da minha, depositando um beijo demorado ali. No mesmo instante minhas pernas, moles como gelatina, se abriram e esticaram, passando pelas dele, apoiando minhas coxas nas suas. Minhas mãos agarraram a regata dele, quase rasgando o pano. Meus dedos formigavam para tocá-lo sem nenhuma barreira que me impedisse de ver seu tronco. Meus olhos semi abertos visualizaram um sorriso satisfeito antes de se fecharem, para apenas poder sentir sua boca chocando-se contra a minha. Ele lambeu meus lábios com a maior lerdeza que conseguia, pedindo passagem para que sua língua tocasse a minha, me fazendo tremer por dentro e por fora quando começamos com um beijo devagar, provando um pouco do outro, até que nossas línguas criaram vida própria, aumentando a intensidade do beijo para mais urgente, mais faminta, explorando todos os cantos possíveis das nossas bocas.
Era muito melhor do que eu imaginava ou do que você pode imaginar. Seus lábios tinham uma textura incrivelmente macia, eram quentes, deliciosos... Era um encaixe perfeito.
envolveu minha cintura com uma mão enquanto a outra descia da minha nuca, passando pelo lado do meu corpo, quase tocando meu seio direito, chegando até minha coxa desnuda, apertando com força, deslizando até o meu joelho e voltando ao início. Cada vez que ele fazia isso, sua mão puxava mais e mais meu short pra cima, desnudando ainda mais minha perna, indo até a parte de trás, apertando, chegando ao comecinho da minha bunda, apertando, deslizando até o joelho, voltando à coxa, fazendo pressão com o dedão na parte interna, deslizando, apertando, apertando, explorando... Suas mãos descobriam meus pontos fracos que nem eu conhecia. Quando me dei conta, estava quase sentada no seu colo, as pernas totalmente abertas num mudo convite... Sentia-me tonta, mole, leve e feliz... Uma felicidade gritante e estranha que preenchia todas as células do meu corpo, tirando qualquer sensação de tristeza de antes.
Inclinei-me um pouco para trás, envolvendo o pescoço dele, puxando os cabelos curtos da sua nuca, sentindo um frio tão forte no baixo vente quando o ouvi gemer contra a minha boca e não consegui reprimir um. Ele colocou uma mão nas minhas costas, por dentro da minha blusinha fina de algodão, apoiando o peso que eu fazia para trás, dedilhado minha coluna de cima abaixo. Mordi seu lábio inferior e depois o chupei, empurrando minha língua com força contra a sua, diminuindo e voltando a aumentar a intensidade do beijo. correspondeu com a melhor desenvoltura possível, e me mordeu também. Subi um pouco a barra da sua blusa, tocando-o com as pontas dos dedos, arranhando levemente seus quadradinhos muito bem desenhados e duros, enlouquecida com cada gemido reprimido que ele tentava manter na garganta, sendo apertada com mais vontade a cada segundo. Ele ameaçou fazer o mesmo, mas desistiu, invertendo a atenção da mão para brincar com o elástico do meu short, me fazendo suspirar, imaginando se ele faria menção de tirá-lo. Eu queria que ele me tocasse mais. Eu queria mais contato com ele. Isso me assustou um pouco, porque eu nunca senti uma vontade tão forte por aquilo, era como se eu necessitasse.
- Não... – resmunguei quando ele recuou de repente, parecendo despertar. Nossas bocas se separaram fazendo o típico barulho de beijo.
- Não, . Isso é errado. – ele disse um tanto seco, se desvencilhando dos meus braços. Eu os recolhi, os colocando sobre minhas coxas. tentou tirar minhas pernas também para poder se levantar, mas eu não deixei e segurei seus pulsos.
- Você disse que não queria que eu me afastasse, mas está fazendo exatamente isso agora.
- Eu liguei pro John quando acordei. – ele mudou de assunto, olhando para um ponto qualquer atrás da minha cabeça. – Ele disse que vai tentar mudar o nosso horário para a noite ou talvez para amanhã bem cedo e vai ligar avisando.
- Você... Tudo bem. – suspirei, desanimada pela deixa que deu de que não falaria sobre o que tinha acontecido há pouco. Recolhi as pernas, ficando de chinês também e abaixei a cabeça, achando minhas mãos muito interessantes naquele momento.
Era impressão minha ou eu estava sendo rejeitada?
Um silêncio incômodo se instalou entre nós e de maneira nenhuma eu ousei levantar o olhar. Como aquilo tinha acontecido?
- Bom, vou procurar algum lugar onde eu possa comprar comida. Não demoro. – ele se levantou, saindo do quarto a passos largos.
Continuei sentada olhando pro chão escutando a frase “Não, . Isso é errado.” gritando na minha cabeça. Qual era o problema? Tentei entender o motivo certo para sua atitude tão carinhosa e depois se transformando em uma tão seca, querendo evitar uma coisa que ele mesmo se propôs a fazer, a dar o primeiro passo.
Eu estava tão desorientada de tudo que não enxergava um erro nessa história? Se eu e ele queríamos, por que errado? Era gritante pra mim que aquilo não era erro algum.
O que estava acontecendo conosco?
E desde quando eu ficava tão preocupada com assuntos relacionados ao ?
O que estava acontecendo comigo?
Será que tudo estava relacionado ao fim dramático do meu namoro com Sam? Eu estava descarregando tudo na minha relação com ? Eu estava confundindo as coisas? A atração que eu sentia por ele era tão forte assim?
Tantas perguntas e nenhuma resposta. Frustrante.
Eu precisava seriamente reavaliar a minha vida.
Irritada de mais, entrei no banheiro e liguei a ducha, deixando a água esquentar enquanto ia até o quarto para pegar uma calça jeans preta e uma blusa bege grossa de frio bem largona e confortável. O banho quente me fez relaxar, consequentemente minha irritação já estava abaixo de 1% quando terminei. Quando já estava terminando de secar o cabelo, a campainha tocou. Revirei os olhos já xingando mentalmente por ter esquecido as chaves.
Diminui o passo na escada só pra sacanear quando a campainha tocou mais duas vezes seguidas. Ele estava com pressa, é? Quando percebeu que eu não iria atendê-lo tão cedo, resolveu largar o dedo na merda da campainha, deixando aquele sonzinho irritante preencher toda a casa.
- Anda, , eu sei que você está aí dentro! – parei antes de alcançar a maçaneta. Não era a voz de . Puta merda, o que Sam estava fazendo parado na minha porta? Eu não estava acreditando naquilo. – Eu sei que você tá aí dentro.
- O que você pensa que está fazendo aqui? – perguntei do outro lado da porta. – Sai daqui!
- Sair? - ele perguntou da maneira infantil.
- É, sair oras! Do verbo, desaparece, some, escafeda-se daqui, vaza, vá para o raio que o parta. Não conhece?
- Preciso falar com você. – Sam disse tocando a campainha novamente. – Abre a porta, vamos conversar.
- Não vou abrir a porta, não tenho nada pra falar com você! - falei cruzando os braços. – Cai fora!
- Por favor, . – ele pediu com a voz meiga como se aquilo fosse me fazer abrir a porta. - Preciso te explicar as coisas, você entendeu tudo errado...
Tive que conter uma gargalhada sem humor diante daquilo.
- Você só pode tá brincando comigo, Samuel. As coisas estão bem claras pra mim, não sou tão burra quanto pareço.
- Não, . Não é o que você está pensando...
- Não vou abri, já falei. Vai ficar esperando o dia inteiro. - falei, rezando para aquilo o fizesse ir embora.
- Se for preciso, vou ficar mesmo. – ele falou convicto. As pessoas só arranjam ideias de serem decididas nas situações mais inconvenientes, já percebeu?
- Tudo bem, eu vou ter que chamar a polícia então. – ameacei com a voz mil vezes mais decidida do que a dele. Era só o que me faltava ter que chamar a polícia para ter que tirar meu ex-namorado da minha porta.
- Abre logo essa porta, !
- Já falei que não vou abrir! Vai embora!
Mal terminei de dizer e Sam bateu na porta. As batidas foram substituídas por socos que eu não duvidei que fosse colocar a porta abaixo dali a algum tempo. Bufei me sentindo cansada por ter que aturar aquilo. Por que ele estava aqui? Agora ele já podia fazer o que quiser sem ter mais que mentir pra mim. Já podia engolir Jennifer em público. Mas não, essa mula tinha que estar bem aqui, esmurrando a minha porta logo cedo, enchendo ainda mais o meu saco e minha paciência que já não estava tão boa. Me amaldiçoei por não ter deixado socá-lo como pretendia ontem, dessa maneira Sam estaria deitado na cama dolorido de mais para vir até aqui impor sua presença. Cadê o nessas horas mais propícias?
- Já falei pra você ir embora, que droga!
- Eu paro assim que você abrir. – ele chantageou, agora revezando entre socos e toques na campainha. - Ou então vou bater na sua porta até derrubá-la.
- Eu vou chamar a polícia, Sam, não estou brincando! Não tenho mais nada pra falar com você, entenda isso!
O soco foi mais forte dessa vez. Francamente! Eu queria que o telefone estivesse funcionando para que eu pudesse chamar a polícia mesmo. Nunca reclamei tanto pelo meu celular estar tão longe de mim. Minha irritação já estava alcançando um grau muito mais elevado do que o normal e em consequência, bati o pé e soltei um grito, socando a porta do meu lado. Eu não queria fazer aquilo, mas antes que a porta fosse posta abaixo, eu a abri com uma cara muito feia. Fechei a porta atrás de mim para que Sam não tivesse a oportunidade de entrar.
- O que você quer?
Ele sorriu pra mim, mostrando 64 dentes que não sei de onde surgiram, como se eu tivesse aberto a porta só porquê o amo de mais e estava louca pra ver o rosto dele. Patético.
- Você nasceu idiota assim ou foi de aperfeiçoando com o tempo? - perguntei seca.
O sorriso dele morreu e ele balançou a cabeça negativamente pra mim.
- Eu sabia que você ia abrir. – ele me encarou seriamente, mas com vestígios do sorriso mongol voltando ao seu rosto.
- Não se ache importante, eu não abri por você. - apoiei meu peso numa perna só, mostrando meu tédio em vê-lo. - Só quero que você vá embora!
Sam me olhou assustado, espantando com o meu jeito ignorante. Ele nunca tinha presenciado uma daquele jeito.
- Eu só queria te explicar as coisas. – ele teve a cara-de-pau de dizer – Talvez eu pudesse entrar, a gente pode sentar e tomar café...
- Você é retardado mental? – perguntei incrédula, quase rindo. Definitivamente ele estava muito doente da cabeça pra achar que depois do que eu vi ontem nós iríamos tomar café juntos. – Você não vai colocar seus pés na minha casa, você vai mover essa sua bunda pra fora da minha calçada!
- Tudo bem. – ele encolheu os ombros parecendo estar caindo em si. – Eu te digo aqui mesmo.
- Seja rápido. - cruzei os braços, olhando para a rua pra ver algum sinal de .
- Eu não estou mais com a Jennifer.
- E o que isso muda na minha vida? - perguntei azeda, passando meus olhos brevemente pelo rosto dele. Sam fechou a cara, não esperando aquela atitude. Eu no lugar dele já estaria esperando, mas como ele é retardado mental...
- Estou falando sério. – ele se recompôs, respirando fundo para continuar. – Ela nunca significou nem a metade do que você significa pra mim.
- Isso continua não mudando em nada na minha vida.
- Não, você não entende. – ele tentou de novo – Eu te amo.
Não conseguindo reprimir a uma risada escandalosa que poderia acordar os vizinhos. Eu não estava acreditando que ele realmente iria me convencer de que me amava depois de fazer uma coisa tão baixa como beijar minha ex-melhor amiga.
- Não Sam, você não me ama. Na verdade nem acredito que amor exista mesmo, e se existisse provavelmente essa pessoa que ama não trairia a outra...
- Eu realmente te amo. – ele disse como se eu não tivesse dito nada – E eu realmente preciso de você...
- Não, você não precisa... – contrapus já cansada daquele lenga, lenga dele. – Se você precisasse mesmo, teria me ligado todos os dias em que estive fora. Se precisasse, você não seria impedido de ir me ver por causa dos treinos idiota, o que eu acredito que sejam desculpas para você e a Jennifer se encontrarem, afinal você nunca treinou tanto! Você não sabe quantas vezes eu chorei de saudade daqui porque você não estava do outro lado da linha para se preocupar com isso. Você nem mesmo respondia minhas mensagens! Eu que fui uma idiota em não ter visto o tipo de homem que você é.
Ele não disse nada, apenas ficou me olhando com cara de peixe morto.
- E – continuei vendo que ele não falaria mais nada. – se você realmente precisasse de mim, você não teria ficado com a Jennifer todo esse tempo.
O sentimento que eu tinha por Sam estava enterrado, havia se perdido entre as lembranças que eu teria dele, mesmo que fizesse o máximo para apagá-las. Eu estava oca. Não existia mais lugar pra ele na minha vida. Isso era a coisa certa. Só ele não enxergava isso... Ou não queria.
- A Jennifer foi só... – ele começou, mas eu sabia que ele não terminaria. Sam não tinha uma resposta para o que a Jennifer era, mas eu tinha.
- Ela foi mais uma garota com quem você transou, o que eu não duvido nada que tenham outras quando eu ainda estava aqui. Admita que você só namorava comigo porque sabe que eu sou virgem e estava doido pra contar a nossa primeira vez para os seus amiguinhos bombados do futebol que são tão retardados quanto você.
- Claro que não...
- Eu não quero mais te ouvir – o interrompi antes que mais baboseiras saíssem daquela boca. – Se você me conhecesse mesmo saberia que eu não tolero mentiras, muito menos traição. Você está perdendo o seu tempo vindo aqui e ainda por cima está me fazendo perder o meu também!
Faíscas queimaram nos olhos dele.
- E o que é que você tem pra fazer de tão importante aí dentro? – ele perguntou em tom possessivo, quase irritado, enquanto apontava com a cabeça para a porta.
- Isso realmente não é da sua conta. – respondi com desdém. – Vá embora, não temos mais nada para conversar.
- Aquele seu amigo dormiu ai? – ele esticou o pescoço para a janela da sala, tentando ver se estava ali.
- Não, não. – falei sarcástica – Ele provavelmente dormiu dentro do carro, na garagem... O que você acha?
- Então você está com ele? – ele perguntou todo nervosinho e eu tive que rir da cara dele.
- Você não tem mais nada a ver com a minha vida... – meu tom era falsamente compreensivo.
- , isso quer dizer que está com ele? – ele arregalou os olhos, irritado e apavorado ao mesmo tempo – E o trouxe pra cidade pra esfregá-lo nas minhas fuças?
Eu fiz uma careta e bufei. O que ele estava tentando fazer? Virar a mesa do jogo pro meu lado?
- Se for isso , você não tem nenhum direito de me censurar por ontem... – eu reconheci um tom esperança na voz dele. A única coisa plausível a se fazer naquele momento era rir, rir e rir... Sam pareceu confuso, quase desnorteado com minha atitude.
- Eu vou perdoar você... – ele falou – E então poderemos ficar juntos de novo.
Eu parei de rir no mesmo instante, já achando que estava na hora de acabar com aquela conversa.
- e eu não temos nada um com o outro... – a lembrança do beijo surgiu, mas não deixei que aquilo me abalasse. tinha deixado claro, com sua atitude e palavras, que aquilo havia sido apenas um beijo, um erro para nós dois. – E mesmo que tivéssemos isso não mudaria o fato de que você estava me traindo com minha ex-melhor amiga. Aliás, se eu tivesse alguma coisa com ele, você provavelmente nem veria mais a minha cara. Eu não iria vir até aqui e fingiria que estávamos bem, eu iria terminar com você pra poder começar algo com outra pessoa. Você é tão podre que acha que todas as pessoas são podres como você, acha que todos agem do mesmo jeito canalha que você agiu comigo.
Por alguns instantes achei que minhas palavras haviam o magoado de vez. Esperava que depois disso ele finalmente fosse embora, mas quando pisquei, ele ainda estava lá, com os olhos brilhando pra mim.
- Eu quero que você vá embora agora Sam. – eu continuei quando ele permaneceu em silêncio - Eu não quero mais te ver, você consegue entender isso? Eu quero que você suma, que você morra!
- Você não está falando sério... – ele negou com a cabeça, como se além de estar tentando me convencer, estava tentando se convencer também. – , você me ama também, eu sei disso. O que nós temos é muito bonito pra você jogar no lixo dessa maneira.
Eu quase bati o pé no chão, de novo, de tanta raiva. Puta merda, o cara não sacava que eu não queria mais nada com ele!
- Primeiro: eu não te amo, eu nunca te disse isso e não sei por que razão você acha que eu disse... – cuspi as palavras bem na cara dele sem pena nenhuma. - E em segundo lugar, quem jogou as coisas no lixo foi você, não eu. Eu não estava engolindo o seu melhor amigo ontem à noite no McDonalds.
- Eu já disse que a Jennifer não significa nada pra mim... – ele falou, como se aquilo fosse fazer alguma diferença. – É você que eu amo... É você que é importante.
- Você não está melhorando as coisas. Entenda de uma vez por todas, eu não quero saber o que ela é/era pra você, eu não quero saber o que ela é ou vai ser, eu quero que vocês se explodam juntos!
Eu me virei pra entrar e bater a porta na cara dele, mas eu não cheguei a entrar. Sam me puxou pelo braço, me virando de volta pra ele. Olhei para além dele e vi parando o carro em frente à casa.
- É melhor me soltar. – me controlei para não gritar, sentindo repulsa de ser tocada por ele.
- Não até que você entenda. – ele me encarou duramente, segurando meu braço com força quanto tentei puxá-lo.
- Você está me machucando! - tentei bater nele com a outra mão, mas ela também foi presa. Sam até aquele momento não percebeu que estava ali.
- Você só pode estar de sacanagem com a minha cara. - disse batendo a porta do carro, quase rindo, mas com cara de poucos amigos, passando pelo portão de madeira carregando algumas sacolas de supermercado. - Não posso sair alguns minutos e você já está enchendo o saco dela?
Sam virou, fazendo cara de desprezo.
- Isso não é da sua conta!
- Acho que é sim. – rosnou já com o maxilar travado e os olhos escuros passando por Sam, colocando as compras perto da porta. Meu coração cambaleou com o olhar fulminante dele. - É melhor você soltar logo o braço dela!
Eu puxei meu braço novamente, mas Sam não soltou.
- Por que você não vai lá pra dentro enquanto eu converso com a minha namorada?
- Puta merda, o que você quer aqui? Um olho roxo de brinde? – não estava nem um pouco feliz. Ele ficou vermelho, muito vermelho. Seus olhos pareciam que iriam saltar das órbitas quando pegou meu outro braço e me puxou, com a distração de Sam na discussão, me colocando atrás de si. - Eu mandei você soltar, babaca!
Sam foi pra cima dele e eu, muito nervosa com tudo, me enfiei entre eles, sem pensar direito no que estava fazendo.
- Sam, vai embora, por favor. Já falamos tudo o que precisávamos. – supliquei, fazendo a maior cara de desespero, enquanto o empurrava. Ele não deu mais do que dois passos e fincou os pés no chão.
rapidamente pegou meu braço e, novamente, me colocou atrás dele.
- É melhor você entrar . – ele avisou sem olhar pra mim com a voz rouca, sem nenhuma doçura e sim carregada de frieza com uma atitude mandona. Eu estava sendo personagem secundário ali enquanto os outros dois trocavam olhares mortais que poderiam até acarretar numa 3ª guerra mundial.
- Eu vou entrar, – concordei, pegando a mão dele, tentando puxá-lo para a porta. – assim que você entrar comigo.
, pela primeira vez desde que chegara, virou a cabeça pra trás pra me olhar e revirou os olhos.
- Entre Risadinha, você não quer quebrar as unhas.
Ele não deveria ter me chamado de Risadinha na frente de Sam. Aliás, ele não devia me chamar de Risadinha de jeito nenhum e na frente de ninguém. mais do que ninguém sabe que não vão ser as minhas unhas que eu vou quebrar numa briga.
- Ah, valeu, . - zombei, largando a mão dele, dando um passo pra frente em desafio.
- Entra. – ele disse de novo, me encarando. A discussão agora era entre eu e ele. Sam agora era o secundário.
- Já falei que entro depois de você.
- Por que você é tão irritante? – ele perguntou exasperado, arregalando os olhos pra mim – Por que não pode ser como as outras garotas e ficar só assistindo?
- Por que não preciso que você me defenda. – empinei o nariz numa atitude superior. – Não preciso de você!
Coisa errada a se dizer. Eu sabia que ele ia arrumar um jeito de jogar na minha cara, eu só não achei que seria tão cedo. Eu só não achei que ele jogaria numa hora dessas!
- Você não disse isso ontem à noite no seu quarto... – ele riu maliciosamente pra mim.
Eu prendi a respiração enquanto sentia minhas bochechas queimarem. Era golpe baixo!. Sam olhou aturdido pra mim e depois para . Suas feições a cada milésimo de segundo mudavam avaliando se o que disse era verdade.
- Seu insuportável! – gritei, totalmente vermelha.
- De novo... – disse, alargando o sorriso – Ontem você não me achou insuportável... E pelo que me lembro, hoje mais cedo também não.
- O que ele quer dizer, ? – Sam perguntou furioso. – É verdade então?
- Não é da sua conta! – disse com raiva por ter nos interrompido logo quando ele parecia estar tomando as rédeas da história.
- Eu odeio você! – eu sibilei para ele. levantou uma sobrancelha e sibilou a mesma coisa com um sorriso muito safado.
- Não dê chiliques e entre. – ele disse entediadamente, como se eu fosse uma criancinha de cinco anos rolando pelo chão do supermercado porque não ganhei a boneca que queria.
- , eu quero uma explicação agora! - Sam gritou, querendo atenção. - Vamos logo pode explicando tudo direit...
Ele não teve tempo de terminar e eu nem tive tempo de abrir a boca. Nem minha cara de deboche conseguiu fazer direito, ela logo ficou num misto de prazer, espanto e incredulidade quando revirou os olhos e bufou, antes de fazer seu punho acertar o olho direito de Sam. Ele gritou sentindo a dor latejar e colocou a mão no local, cambaleando para trás surpreso, mas não chegou a cair.
- Nossa você é um porre mesmo! - disse para Sam enquanto me pagava pelas pernas, me colocando, sem nenhuma dificuldade, sobre seu ombro como se eu fosse um saco de batatas. Coisa de macho mesmo.
- Me solta agora, ! - gritei, levantando a cabeça e dando socos em suas costas.
riu e me colocou no chão do hall assim que entramos. Eu desconfiei de que ele sairia e me trancaria enquanto ele e Sam brigavam do lado de fora. Antes que Sam entrasse ou que ele saísse, eu corri para a porta e a fechei, cruzando os braços e me encostando nela, olhando duramente para ele.
- O que há de errado com você? – ele me perguntou incrédulo. Eu suspirei entendendo perfeitamente a minha atitude de querer protegê-lo, como se Sam tivesse alguma chance de socá-lo. Não era apenas cuidado, era... Eu ainda podia mentir pra ele e pra mim mesma.
- Não vou aparecer em York com você todo quebrado por minha causa! Não quero ouvir um sermão dos seus pais!
Ele riu gostosamente de mim com direito a olhinhos se fechando como os dos japoneses. Sam voltou a bater na porta do outro lado.
- , você é louca, e você sabe que é. - ele disse se recuperando do ataque de riso. - Isso não tem a mínima importância...
Eu coloquei a chave entre meus seios por dentro da blusa para que ele não tentasse roubá-la de mim.
- Não vou abrir. – disse com firmeza e me afastei da porta, começando a andar de um lado para o outro. - Você deixou as compras na porta, né?
- É, não deu tempo de pegar. - ele sentou no segundo degrau da escada, me observando.
- Ótimo, . Agora vamos ficar sem tomar café. - cruzei os braços na altura do peito, parando para olhá-lo também. - Estou morrendo de fome.
- E você acha que eu não estou?
Sam esmurrou a porta mais uma vez e gritou meu nome. Eu gritei de volta um sonoro "Vai para o inferno!" e não dei mais atenção, enquanto sibilava "teimosa!" pra mim.
- Tive uma ideia, mas preciso de você me ajude. - falei indo até a janela da sala e voltando ao hall. - Você vai até a parte de trás, finge que vai sair, distraindo o Sam, enquanto eu abro a porta e pego as compras correndo, ok?
- Você é tão espertinha, . - ele riu, divertindo-se com o meu plano. - A chave está na porta?
- Sim, mas - logo adiantei vendo a carinha de felicidade dele. - nada de sair para socá-lo de novo, ! Isso é sério. Não quero brigas na minha porta.
- Você é uma estraga prazeres, sabia? Deveria aprender a curtir mais a vida.
- Faz logo o que eu falei e para de reclamar, ou daqui a pouco vou desmaiar sem comida.
- Aposto que não, você tem muito estoque de gordura no corpo.
- Vai logo! - ele saiu em direção à cozinha quando ameacei lhe bater. Quando não estava mais sob sua vista, olhei para o meu próprio corpo, checando se seu comentário tinha algum fundamento, mesmo sabendo que era só pra implicar.
Quando escutei a chave girando na fechadura nos fundos, me adiantei, fazendo o mesmo na porta de frente. Antes de abrir verifiquei, pelo olho-mágico, se Sam estava ainda na entrada, mas pelo jeito meu plano tinha dado certo. Abri a porta vagarosamente e peguei as compras, colocando-as com cuidado dentro de casa. Ouvi um grito vindo dos fundos e logo Sam apareceu correndo com alguns cortes no braço. Mas antes que ele chegasse muito perto, fechei a porta na sua cara.
- , abre logo! - ele continuou gritando e gritando, esmurrando a porta.
apareceu rindo, limpando as mãos num pano de prato.
- O que você fez com ele? - peguei as sacolas, indo para a cozinha com ele em meu encalço.
- Digamos que ele teve um papo com os espinhos das rosas da sua mãe. - ele respondeu rindo lembrando-se de alguma tramóia que teria feito.
- Você quer preparar o café, ou eu preparo? - coloquei as sacolas em cima da bancada, tirando tudo para ver o que tinha.
- Você. Quero ver seus dotes culinários. - sentou na cadeira, colocando os braços em cima da mesa. - John retornou a ligação enquanto eu estava fazendo compras e disse que conseguiu mudar o nosso horário para hoje, de madrugada.
Mais gritos e socos foram ouvidos do lado de fora.
- Ele vai ficar ai o dia inteiro, . - disse como se aquilo me convencesse a deixá-lo sair.
- Mas nós não. – lhe dei um sorriso irônico antes de virar para preparar os ovos. - Por que você não arruma alguma coisa pra fazer ao invés de ficar choramingando como um bebê por que não pode sair de casa para brincar?
- Não. Eu acho muito mais interessante ficar olhando pra você. - eu fiquei petrificada por alguns segundos, mesmo sabendo que aquela frase poderia não ter o significado que eu tanto queria. Talvez tivesse mesmo já que não disse mais nada enquanto eu terminava de preparar o café. Comemos num silêncio absurdo, exceto pelos murros que Sam ainda dava na porta, em que eu percebi que a tensão pós-beijo no quarto da minha mãe tinha voltado.
- Chega! - disse de repente, quase jogando a minha caneca de chocolate quente dentro da pia, depois que as batucadas e os gritos de Sam não cessaram. - Onde está seu celular?
- Bolso da calça. – me olhou desconfiado – Por quê?
- A linha daqui foi cortada e o Sam não vai embora de jeito nenhum. – respondi esticando a mão para ele – Acho que vou ter que chamar a polícia.
levantou as sobrancelhas, tentando ver se eu estava ou não brincando. Finalmente ele pôs o aparelho na minha mão, sorrindo.
- Bom dia, - falei quando atenderam. - gostaria de pedir uma ajuda. Tem um louco esmurrando a minha porta há horas e eu estou com muito medo do que ele possa fazer. Já falei para ele ir embora, mas não adianta. Acho que ele está drogado. - fiz uma pausa enquanto a atendente registrava a ligação e pedia o meu endereço. - Ok, obrigada. - desliguei e devolvi o celular. me olhava como se eu fosse o diabo em pessoa. - O que foi?
- Você é terrível! – ele disse com um misto de espanto e divertimento em seu tom.
- Ah, eu sei. - sorri, fazendo a melhor cara de inocente.
Não demorou muito e a sirene do carro da polícia foi ouvida na rua, fazendo as batidas na porta cessarem imediatamente. Eu nem me dei ao trabalho de descer e nem fui olhar pela janela. Continuei arrumando o resto das roupas e coisas que gostaria de levar para York, quanto ao estava na sala olhando a coleção de filmes, escolhendo os melhores para assistirmos até dar o horário de ir embora. Só quando a campainha tocou que eu fui ver o que era.
Eram dois policiais. Um deles estava conversando com Sam do outro lado do portão, enquanto o mais bonito estava diante de mim, segurando um bloco de anotações. Eu suspirei aliviada quando olhei pra ele, não pela beleza, mas sim para fazer um teatrinho pra ele achar que eu estava mesmo assustada.
- Foi a senhorita quem nos ligou? – o policial perguntou com os olhos escondidos por detrás do óculos escuro.
- Sim, senhor. – respondi, sentindo atrás de mim.
- Pode me dizer aonde estão seus pais? – o policial voltou a perguntar pra mim, mas levantando um pouco a cabeça, olhando para .
- York, Inglaterra. Eu e meu irmão - tive vontade de cuspir no “irmão”, mas consegui aguentar firme. - viemos visitar alguns amigos meus.
- Hm... - o policial murmurou, anotando algo no bloquinho.
- Mas – continuei, lançando um olhar para o bloco dele – estamos indo embora, depois do susto desse louco querendo derrubar a nossa porta.
- Ele insiste que conhece a senhorita. – ele disse me encarando.
- Bom, de certa maneira é verdade, – concordei, achando melhor não mentir – mas ele ainda me parece drogado, sabe...
- Certo. – o policial fechou o bloquinho e guardou a caneta – Nós vamos levá-lo para a delegacia e chamar os pais dele.
- Obrigada. – disse sorrindo de um jeito que considerei bem convincente. O policial abaixou um pouco os óculos, revelando seus olhos.
- Estamos à disposição. – ele piscou pra mim com um olho só e virou, indo até o parceiro e Sam que já estava dentro da viatura.
Eu me virei depois de fechar a porta e encontrei os olhos de me avaliando.
- Você é realmente terrível!
- Só com quem merece. - suspirei, reprimindo um pulinho de alegrinha pela minha atitude. - Me sinto vingada!
Escolhemos quatro filmes. Enquanto colocava o primeiro no DVD e arrumava a bagunça na sala, eu fui até a cozinha preparar dois potes de pipoca, já que eu não gostava da minha com manteiga. Assim que sentei no sofá grande e ele se ajeitou no outro menor, voltamos ao silêncio já conhecido. Isso era incrivelmente bizarro. Veja, numa hora estamos rindo como se fôssemos velhos amigos, na outra estamos sem graça nos tratando cordialmente. Isso parecia piorar as coisas, já que tudo isso aconteceu por causa do beijo e, consequentemente, eu voltava a pensar naquilo a toda hora; Volta e meia a droga da lembrança da boca dele grudada na minha tirava toda a minha atenção e quando percebi, já estávamos no 3º filme. parecia bem entretido, ao contrário de mim, olhando para a TV, colocando pipoca por pipoca dentro da boca, mastigando vagarosamente.
Esperei até o filme acabar e joguei uma desculpa de que iria tomar um banho e que voltaria logo. Coloquei a mesma calça jeans, trocando de blusa de meia manga, deixando num canto do meu quarto, um casaquinho e um par de botas sem salto para pôr para ir embora. Enquanto terminava de me arrumar, me perguntei o que John diria quando chegássemos bem antes do combinado e não sei se teria estômago para verbalizar tudo que eu vi. Talvez tivesse contato a ele... Talvez não. Ele iria querer uma explicação, afinal. Não me imaginei mentindo pra ele. Eu nem era uma mentirosa criativa pra inventar uma desculpa boa... Pensando melhor, eu não devia nada a ele. Eu não iria dizer nada, simplesmente chegaria em casa, subiria para o meu quarto, colocaria Strokes no último volume e afundaria na minha banheira por horas a fio ou só até meus dedos enrugarem.
Antes de descer com todas as minhas coisas, repeti aquele mesmo ritual de manhã e dei uma última passada do quarto da minha mãe. Cobri todas as superfícies que consegui alcançar com as pontas dos meus dedos. Tocando, sentindo, guardando tudo dentro de mim. Eu não achava que veria aquele lugar novamente. Talvez aquele quarto fosse a única coisa capaz de me fazer vir, mas não tinha muita certeza se o mesmo motivo seria forte o suficiente pra me trazer de volta. Aproveitei tudo que pude das últimas coisas. Me despedi verdadeiramente da minha mãe, do jeito que eu deveria ter feito e não fiz. Antes de chegar à porta eu me lembrei de uma coisa meio que vital; Eu precisava de algo dela para levar comigo, algo que me impedisse de voltar naquele lugar de novo. Fui até o closet, tentando escolher uma roupa. Todas eram especiais, mas nenhuma me fazia lembrar tanto dela como sua jaqueta de couro cor de chocolate, contendo ainda seu cheiro doce. Depois fui até uma gaveta escondida e peguei sua caixinha de joias. Em vez de chorar com as lembranças, eu sorri contente com as minhas escolhas, enfiando tudo dentro da mochila.
Quando cheguei à sala, estava olhando a fotografia que antes estava jogada no chão junto com porta-retrato.
- Já acabou o outro filme? - perguntei me aproximando. Ele olhou para trás e sorriu pra mim.
- Odeio assistir filme sozinho, você demorou muito. Cheguei a pensar que tivesse se afogado do chuveiro. - ele zombou, enquanto eu chegava perto para olhar a foto também.
Não dei atenção para o que ele dissera. Estava com os olhos vidrados na fotografia... Eu estava entrando na adolescência, e ao contrário do que acontece na maioria, foi uma fase em que eu e minha mãe ficamos ainda mais unidas, compartilhando segredos e medos que antes, não foram revelados pela minha pouca maturidade. Foi uma época realmente maravilhosa para nós. Uma época que eu lembraria para sempre. Peguei a foto, guardando-a dentro da mochila, sentindo pontadas no meu coração, sentindo os olhos começarem a arder.
- Seus olhos... – disse em voz baixa, observando meticulosamente meu rosto.
Eu pisquei. Não era possível que eu estivesse chorando de novo... O encarei, sem ter percebido realmente que a distância entre nós era bem curta.
- O que têm eles? – perguntei tonta.
Ele me deu um sorriso doce.
- Não são exatamente seus olhos, – ele explicou me observando atentamente – é o seu olhar. Sempre achei que fosse igual ao do John por causa da cor dos seus olhos, mas não, você tem o olhar da sua mãe.
Eu pisquei de novo, desnorteada.
- Gosto do seu olhar. - ele concluiu para si próprio como se eu não estivesse ali. - Acompanha perfeitamente a cor dos seus olhos.
Meu coração nem batia mais, ele dava solavancos violentos no meu peito. Obriguei-me a desviar os olhos dos dele, sem nenhum sucesso, e balancei a cabeça pra poder desanuviar as ideias.
- Está me cantando? Porque realmente não vai colar sabe... – soltei sem pensar.
Estava acontecendo de novo? Aquele encantamento estava começando a me dominar novamente? parecia tão tonto quanto eu. Tão hipnotizado como eu. Mas ele com certeza se recuperou muito mais rápido, tomou a maior distância possível de mim e foi totalmente rude.
- Não estou te cantando, sua arrogantezinha metida. – ele soltou com um sorriso frio, a língua afiadíssima. – Estava só elogiando, o mundo não gira ao seu redor, sabia?
Eu me limitei a lhe lançar um olhar gelado e fui retirar os últimos aparelhos elétricos da tomada, enquanto ele pegava as nossas mochilas e colocava no porta-malas, parecendo carrancudo. Dando um último olhar para toda a casa, apaguei todas as luzes, fechei todas as janelas e tranquei a porta. Quando cheguei perto do carro, não se virou para me olhar. Ele ainda parecia chateado com seus olhos por detrás dos óculos Ray-Ban preto, não me deixando ver a expressão deles. Abri a porta e me sentei no banco, fazendo a maior cara de magoada e furiosa que consegui encontrar.
Nós fomos o caminho inteiro ouvindo músicas depressivas. Era só eu soltar o cinto de segurança, abrir a porta do carro e me jogar! Esse é o tipo de música que faz as pessoas deprimidas cortar os pulsos, ou darem um tiro nos miolos. No meu caso, se jogar de um carro em movimento – e leia-se que o carro estava em um movimento totalmente rápido – já que dirige como um louco.
- O que vai dizer ao John? – ele perguntou de repente, quebrando o silêncio, quando já estávamos no final da estrada para Berlim. Eu posso dizer que me assustei com o tom de voz dele, ainda era meio grosseiro.
- Nada. - respondi sem encará-lo. – Por que deveria?
- Ele é seu pai. - ele argumentou com os olhos grudados na rua à frente. – E eu não contei nada. Só disse que precisávamos ir embora. Além do que, ele vai querer saber o que aconteceu para chegarmos um dia antes do previsto.
- Conte a ele então. – disse, soltando o ar, esperando que aquela resposta resolvesse tudo.
- O que quer que eu conte? – insistiu, ainda sem me olhar.
Eu suspirei.
- Qualquer coisa! - falei, agora o fitando – Não me importo se ele souber de tudo, só não quero falar no assunto, está bem?
Ele concordou, e não voltou a me perguntar mais nada. Aquele silêncio deprimente baixou novamente ao som de "Start Over" de One Night Only.
Eu me vi num momento nostálgico quando entrei no aeroporto. Só que ao contrário do anterior, agora eu não tinha mais meu namorado ou minha melhor amiga chorando por eu estar indo embora.
Finalmente eu estava livre da minha vida antiga e não havia dúvidas que nenhuma das pessoas que fizeram parte dela, com exceção da minha mãe, não fariam falta.
Eu estava me exorcizando do meu passado e fazendo um novo futuro. Por mais que fosse um final, era um novo começo. E com esse pensamento, caminhei para o corredor onde me levaria ao avião, de volta à York.
Eu estava deixando Kassel de vez, sem choro, sem melodrama, sem remorso. E com certeza, não voltaria tão cedo.

Capítulo 10

Uma das piores consequências de quando você é feita de trouxa é saber que aquilo estava na sua cara de forma gritante e depois ser obrigada a ter que encarar as pessoas. Esse era o meu problema. Eu não queria encarar ninguém. Não queria verbalizar a humilhação pela qual passei. Já me sentia mal de mais para ver o olhar das pessoas em cima de mim. Pena é um dos piores, senão o pior sentimento que uma pessoa pode sentir por você. A pena é como uma esmola que te dão. Não é como um consolo e muito menos como apoio. É como uma doença que se espalha e contamina as pessoas ao seu redor, fazendo-as te verem de uma forma fraca e incapaz. E eu tinha horror a me sentir assim.
No domingo de manhã, quando cheguei em casa, passei direto por todos, ignorando as chamadas e perguntas que eram direcionadas à mim. Tranquei-me no quarto, e novamente, ignorei os pedidos de John para abrir a porta. Nem mesmo Emma conseguiu me persuadir com seu melhor jeitinho doce forjado. Fiquei o dia inteiro deitada na cama lendo, ouvindo música, desfazendo minha mochila. Não chorei. Eu só queria ficar sozinha. Muita coisa havia acontecido no final de semana e eu precisava de um tempo só pra mim, pensar, raciocinar, colocar as ideias nos eixos, as vírgulas nos lugares certos e finalmente tentar entender o que estava acontecendo comigo em relação ao e se aquele beijo era algo que pudesse ser significativo. Não pensei muito, porque cada vez que eu pensava na forma como nos beijamos e no jeito como ele se afastou, uma pontada no peito era sentida. Ao mesmo tempo em que um sorriso queria brotar dos meus lábios, um pensamento só vinha na minha cabeça “Você foi rejeitada. Ele mesmo disse que foi um erro.”
No final de tudo cheguei à conclusão de que estava confundindo as coisas. foi tão bom comigo desde o momento em que cheguei aqui, que essa gratidão estava sendo confundida e eu acabei me deixando levar. Um cara atraente disposto a ajudar sempre, um momento delicado e uma garota emocionalmente abalada... Qual seria o resultado? Desastroso, como foi o caso. Decidi que deixaria pra lá. Já estava feito e ficaria no passado. Logo tudo estaria esquecido.
O problema, no meu ponto de vista, é que ainda não estávamos nos falando. Ou melhor, ele não estava falando comigo. Por algum motivo que eu não entendia.
Adormeci, cedo de mais, com roupa e tudo em cima da colcha, agarrada a um dos travesseiros fofos já com a intenção de não acordar cedo de manhã.
Molly tentou arrancar algo quando desci para tomar café quando todos já estavam fora de casa, mas eu ainda não queria tocar no assunto. Eu não me importava que as pessoas soubessem, só não queria que eu tivesse que contar. Aquilo era um assunto encerrado pra mim. Tão morto quanto minha mãe estava.
Corri o mais rápido que minhas pernas permitiam quando desci do ônibus em direção a entrada do colégio. O segundo tempo já tinha começado há 10 minutos e o Sr. Baker não iria gostar nenhum pouco de me ver atrapalhando um dos seus excitantes (só para ele e para Lizzie) exercícios de Geometria Plana. Não havia uma alma penada quando entrei correndo no prédio. A da escola em direção ao meu armário para pegar meu livro de Geografia que ocupava dois tempos antes do intervalo. Ou melhor, tentar pegar. Aquela merda de cadeado não ajudava e eu tive que dar algumas batidas para que a porta destravasse.
- Armário filho da puta! - xinguei ofegante pela correria, socando o objeto da minha indignação. Eu sempre me embolo com ele e hoje não seria diferente, para minha sorte. - Anda, abre seu maldito!
- Você está batendo da forma errada, deixa que eu te ajudo. - ouvi uma voz masculina desconhecida atrás de mim e logo depois uma mão surgiu onde eu tinha socado. Em duas batidas à porta destravou como um passe de mágica. - Pronto.
- O seu armário também é assim? - perguntei enquanto me virava depois de achar o livro de Geografia, e encarei a pessoa que tinha me ajudado.
- Não, mas isso acontece nos filmes. O mocinho sempre sabe como ajudar.
Em todo o tempo estudando ali, nunca vi nem sequer sombra dele. Alto, olhos azuis claríssimos sendo ressaltados pelo cabelo preto liso bagunçado, que dava a impressão de que tinha acabado de acordar, mas ainda assim tinha bastante estilo e charme. O nariz fino assim como os lábios... Uma beleza delicada, claramente britânica.
- Obrigada. – agradeci ao que se passaram alguns segundos nos olhando.
- Que isso, estou aqui para ajudar. - ele sorriu mostrando dentes invejáveis quando seus olhos cruzaram com os meus. - Sou Peter Bradley.
- . - sorri de volta, ajeitando a bolsa no meu ombro, já me preparando para marchar até sala de aula. - Desculpe se estou sendo indelicada, Peter, mas é que eu já estou muito atrasada e meu professor de matemática é um saco...
- Ah, claro, tudo bem. Eu estava indo para a minha sala também. - ele deu alguns passos para trás, permitindo que eu passasse.
Não dei mais do que três passados quando me lembrei de que ele poderia estar tão perdido quanto eu fiquei um dia naquele colégio.
- Precisa de ajuda para achar sua sala? - perguntei virando para Peter que continuava no mesmo lugar, me observando.
Ele abriu a boca para responder, mas pareceu pensar melhor e voltou a fechá-la abrindo outro sorriso, enquanto me avaliava dos pés a cabeça. Por um momento, achei que ele estivesse flertando comigo.
- Na verdade sim. Você pode me ajudar? - ele veio calmamente até mim.
- Hm... - olhei para o relógio no meu pulso vendo que mais 10 minutos haviam se passado. Eu não morreria se perdesse uma aula sobre o Teorema do Ângulo externo. – Claro. Qual é a sua sala?
- 308. - ele pegou um papel no bolso da calça e me mostrou a grade de aulas. - Você também é do terceiro ano?
- Sou. A sua sala fica no final do corredor do meu andar. Vem, eu te levo até lá.
Durante o caminho Peter me contou que estava na cidade há pouco tempo, voltando dos EUA onde morou por três anos. Notando e elogiando o meu sotaque diferente, ele perguntou de onde eu era, e acabei contando, com um enorme corte nos detalhes, que tinha me mudado da Alemanha.
- Acho que você consegue daqui. - disse quando paramos diante da porta da minha sala. - É só seguir até o final que você vai encontrar sua sala.
- Obrigada, . - ele deu mais um dos seus sorrisos como tinha feito no caminho até ali e novamente, eu tive a sensação de flerte no ar. - Você foi bem prestativa.
- Obrigada você por me salvar de assistir o Sr. Barker ter orgasmos achando medidas de um ângulo. - apontei para a porta, ouvindo a voz do professor dentro da sala. - Infelizmente você também terá aula com ele ainda hoje.
- Ele é tão ruim assim?
- Você não prestou atenção no papo dos orgasmos? - perguntei já com a mão na maçaneta, fazendo cara de sofrida. - Nos vemos no intervalo.
De primeira achei que todos estivessem olhando pra mim, mas não, logo toda a atenção da turma e até mesmo do professor se focou na pessoa que estava na porta. Houve um coro de “eu não acredito” de quase todos os alunos e eu olhei, sem entender nada, para Peter que continuava no mesmo lugar. Foi a cena mais estranha da minha vida.
- Peter Bradley? – o Sr. Barker perguntou incrédulo, ajeitando o próprio óculos para ter certeza do que estava vendo.
- Em carne e osso. – Peter sorriu como se ninguém ali estivesse quase tendo um ataque cardíaco por sua causa. Como se fosse ele estivesse gostando de toda aquela atenção.
O Sr. Barker só se tocou na cara patética que estava fazendo quando Peter lhe deu um tchauzinho, lançando um último olhar para mim antes de sumir de vista. Eu fechei a porta e a primeira pessoa pela qual procurei foi Lizzie, mas ela estava concentrada em alguma coisa a mais. Os olhos fixos no caderno na típica mania de quando estava resolvendo uma questão dificílima. Nem mesmo quando sentei na fileira ao lado, sua atenção foi desviada.
- O que ele está fazendo aqui? – a escutei perguntar retoricamente olhando para o próprio caderno com uma expressão desconfiada, virando a cabeça para mim um pouco depois. - Desde quando, como e aonde você o conheceu?
Seu tom era um tanto quanto... Alarmado.
- Por que tudo isso, Lizzie?
Eu olhei para ela sem saber direito o que estava acontecendo. De certa forma ninguém ali sabia exatamente o que aquilo significava. De um lado eu que não compreendia o alvoroço que surgiu tão repente em volta da figura de Peter e do outro, Lizzie e o resto dos estudantes, que ficaram espantados com “a volta de Peter Bradley”. - Isso não vai certo. Não deu da primeira vez e não vai ser agora que vai dar. – ela cochichou, fingindo olhar para as anotações que o professor fazia no quadro.
- Do que você está falando? – perguntei, ignorando alguns olhares espantados e fuziladores ao meu redor, especialmente vindo da parte feminina da sala.
O professor virou na hora, não dando tempo para que ela me respondesse. Houve mais cochichos durante os poucos minutos que restava da aula, mas não vindo de nós. Uma menina atrás de mim disse que “agora é que o circo vai pegar fogo” não me dando nenhuma brecha de entendimento. Quando a aula terminou os cochichos se tornaram conversas paralelas e até algumas pessoas saíram para fofocar sobre a novidade. Eu tentei trocar algumas palavras com Lizzie, mas ela ainda estava pensativa demais. Parecia uma retardada, essa era a verdade. De fato, não só ela. Fiz menção de ir até a sala das meninas tal ponto era minha curiosidade, mas quando levantei o professor de Geografia chegou e claro, já por dentro de tudo, mas não mencionou nada.
Lizzie só pareceu se recuperar do “choque” no final do segundo tempo e voltou a responder prontamente as perguntas feitas pelo Sr. Carter enquanto eu pensava em algo que pudesse esclarecer qual era o problema de todo mundo. Mandei uma mensagem para o celular de Katie e depois para Cassie, mas nenhuma delas me respondeu. Definitivamente era um complô contra mim.
Lizzie saiu desembestada para o corredor quando o sinal do intervalo tocou, me pegando desprevenida, já que a intenção era encurralá-la antes que ela conseguisse dar dois passos mais do que o necessário. A encontrei no canto do corredor, perto da escada, conversando com Cassie e Katie, que estavam tão afoitas quanto ela.
- Imagina a merda que vai ser agora? – Cassie perguntou para as duas antes de me ver chegando e abrir um sorriso enorme, os olhos brilhando como sempre. – , vem cá! Já tá sabendo das novidades?
- Não, a Lizzie não me contou nada. – disse impaciente assim que cheguei perto delas.
- Você não contou ainda? – Katie perguntou pra Lizzie.
- Não deu tempo. – a outra revirou os olhos para Katie. – Vamos conversar sobre isso numa mesa enquanto eu como.
Sentamos na mesa de sempre, que ficava perto da cantina onde Lizzie e Cassie poderiam devorar todos os salgadinhos no estoque e ao mesmo tempo poderíamos ver os meninos da mesa deles. estava sentado na mesa conversando com com uma cara nada boa.
- Pronto, agora podem começar ou vocês vão continuar com o momento gordice? – ironizei vendo dois potes de pão de queijo serem postos bem na minha frente.
- Eu tô com a boca cheia. – Cassie fez bico escondendo seu pote de Katie que tentava roubar um pão de queijo.
- Peter Bradley era de outra escola do outro lado da cidade, a Pocklington School, onde era capitão do time. – Lizzie começou falando num tom um pouco baixo enquanto eu e o resto das meninas escutávamos atentamente. - Ele namorou por um tempo uma menina chamada Millie Murphy, e quando terminaram, o saiu com ela.
- Então isso tudo é por que o saiu com uma ex do Peter? – perguntei já achando toda aquela atenção exagerada.
- Não, . Isso não tem nada a ver com ela. Me escuta, eu ainda não terminei! – ela levantou a mão para que eu me calasse quando abri a boca. – Desde aquela época o já era capitão. Um não ia com a cara do outro, mas não por causa da Millie e sim porque ambos são competitivos e não queriam perder. Era uma briga dentro do campo e fora dele. Por vezes eles quase brigaram em festas, jogando piadinhas e tudo mais... Ainda mais quando o time do Peter ganhava. Ele fazia questão de irritar o e o resto dos meninos também, bem coisa de adversário, sabe?
- Coisa de criança, isso sim!
- Ambos os times foram para a final, toda a cidade estava lá, - ela continuou ignorando o meu comentário. - e bem no meio do jogo, que nós estávamos ganhando, o soltou uma piadinha para o Bradley, que acabou devolvendo.
- adora tirar uma com a cara dos outros. Qual foi a piadinha imbecil?
- Disse que o Bradley perdia tudo pra ele, até a namorada. – Katie se segurou para não rir, mas não teve sucesso, recebendo uma careta de Lizzie. – Vamos, isso não deixa de ser verdade, deixa?
- Você adora colocar lenha de fogueira! – ela rebateu.
- Lizzie, continue, por favor? – pedi antes que Katie respondesse.
- Enfim, - Lizzie respirou fundo. - até aquele momento quase ninguém sabia, incluindo o próprio Bradley, que ainda era apaixonado pela garota. Depois disso, os dois se atracaram enquanto o jogo rolava! Os meninos tentaram separar, mas acabou que a briga só aumentou, todos os jogadores caíram na porrada. Foi horrível, você não tem noção! O jogo foi suspenso e todo mundo foi arrastado para fora, o pessoal da arquibancada vaiou, ficou com um olho roxo, a camisa toda rasgada, o nariz sangrando, quebrou a mão socando um cara, abriu a sobrancelha e ficou com um olho roxo também, quebrou um braço, ficou todo esfolado e uma marca na bochecha que até hoje não sabemos o que foi... Isso tudo sem contar com o resto do time, né? A polícia teve que separar todo mundo e foram levados para a delegacia. Prestaram queixa, ameaçaram ter processo... Resumindo, foi como se uma bomba tivesse explodido em York, jogando merda pra tudo quanto é lado. Os pais do Bradley o mandaram para morar nos EUA e depois foram também e o acabou suspenso do time por uns tempos... Foi complicado para ele voltar a ser o capitão.
- Então foi por isso que todo mundo ficou tão chocado...
- É. Imagina a confusão que vai ser daqui pra frente com os dois estudando na mesma escola? Não vai dar certo. Não sei nem como ele conseguiu se matricular aqui. – Cassie falou triste, olhando para dentro do seu pote para ter certeza de que não havia sobrado mais nenhum pão de queijo para contar história.
- Mas o Peter parece ser um cara legal, ele foi tão simpático comigo. – tentei convencê-las. - Além do mais, não acho que as coisas possam acabar como antes, já se passou tanto tempo...
- Eu não sei, não confiaria muito nisso. ainda fica puto quando tocamos no assunto. – Lizzie apontou para a mesa dos meninos. – Em relação ao Peter, não posso julgá-lo. Nunca trocamos mais do que três palavras...
- Shiu, os meninos estão chegando. – Katie avisou pouco antes de abraçar Cassie por trás.
- Oi, meninas! – nos cumprimentou bem mais humorado do que o normal. – E ai, , tudo bem?
- Tudo sim. – balancei a cabeça afirmativamente recebendo um beijo na bochecha dele. – E pelo visto com você também. Posso saber qual é o motivo de tanta felicidade?
- Ele conheceu uma garota sábado. – piscou pra mim, apontando discretamente para Lizzie, que se mostrou inquieta ao meu lado. – Está todo apaixonadinho!
- Não exagere, . – sorriu convencido. – Ela é bem legal, , vocês vão se conhecer qualquer dia desses.
- Vou ficar esperando então. – pisquei pra ele, quase caindo na gargalhada com a cara carrancuda que Lizzie assumira.
- Mas então, ... – ela aumentou o tom de voz, tentando parecer indiferente. Parecer. - Agora me conte tudo que aconteceu em Kassel, aposto que as coisas estavam ótimas para você não ter tempo de me responder.
- Não foi tão bom quanto você está pensando... – olhei significadamente para antes de baixar os olhos. – Eu acho que vou ao banheiro, já volto.
Senti os olhos dele, assim como dos meus amigos, em mim quando levantei. Era óbvio que todos entenderam que algo nada bom tinha acontecido.
- Pode contar a eles por mim? – sussurrei quando passei por ele. Seus olhos procuraram pelos meus, mas não ousei encará-lo. Eu havia descoberto que era muito mais fácil pensar com clareza perto dele sem olhá-lo diretamente.
Ele confirmou com a cabeça.
- Não precisa editar nada. Só não diga na minha frente. – disse antes de me afastar.
Não sei bem o jeito como ele contou a todo mundo sobre as coisas que presenciou em Kassel. Só sei que quando retornei todos estavam com os olhos baixos e ninguém ousou tocar no assunto do fim de semana novamente. ficou falando até o final do intervalo, sobre a festa de aniversário da cidade.
As outras aulas não se arrastaram como pensei que aconteceria. Quando vi, já estava com Lizzie, ainda carrancuda, e as outras ao meu lado, indo em direção ao estacionamento. logo se juntou a nós, me surpreendendo pelo avanço que ele e Katie fizeram no tempo em que fiquei fora. Já dava para perceber que logo voltariam a namorar.
- ! – olhei para o lado procurando quem me chamava e dei de cara com Peter, sozinho, encostado no carro logo a minha frente. Parecia até que estava me esperando.
- Hm, vocês podem ir, eu vou ter que esperar o e o mesmo...
De soslaio vi rolar os olhos, diminuindo o passo para me acompanhar.
- Vamos, ! – Katie o puxou pelo braço. – Você vai dar uma carona pra mim hoje. – ela sorriu pra mim e Lizzie tentou fazer o mesmo. - Tchau, !
Fui em direção ao carro de Peter, recebendo um sorriso bem receptivo.
- Você não me contou que é amiga do . – ele poderia ter disfarçado o nojo que tinha ao pronunciar o sobrenome de , mas seu tom não mentia.
- E você não me contou que já arranjou confusão com os meus amigos. – o sorriso dele vacilou um pouco com a minha brincadeira. – Principalmente com o .
- Já contaram meus podres, é?
- Não, só contaram os fatos. Não se preocupe, a pessoa que me contou foi imparcial. – olhei atentamente para o rosto dele para ver sua reação com o que falaria em seguida. – Além do mais, eu saberia de qualquer forma já que eu e ele moramos na mesma casa.
A cara de Peter se contorceu, me fazendo rir.
- Eu sabia que você faria essa cara!
- Eu não acredito que você e ele moram de baixo do mesmo teto. Você é tão, tão...
- Tão?
- Tão educada. – ele falou espontaneamente. – Vocês não parecem ser parentes.
- E não somos! – exclamei mais do que o necessário. – Quero dizer, meu pai é casado com a mãe dele, e temos a Emma que é nossa irmã, mas isso não nos faz ser parentes, faz?
- Não completamente. – ele deu de ombros. – Mas eu não quero falar sobre ele... Te chamei aqui por outro motivo.
Ele se desencostou do carro assumindo uma postura mais ereta, os olhos brilhando.
- E qual seria ele então?
- Você já deve tá sabendo da festa da cidade – ele coçou a nuca parecendo sem jeito. – e eu fiquei pensando se você quer ir comigo.
- Ir com você? – por um momento fiquei sem saber o que dizer.
- Isso parece tão horrível assim?
- Não, claro que não, Peter! – qual mulher em sã consciência acharia horrível ser chamada pra sair com um homem daquele? – É que eu não tenho certeza se quero ir.
- Vamos, é legal. Tem desfile da polícia, algodão doce, maçã do amor, aquelas barraquinhas toscas de tiro ao alvo... Eu posso até ganhar um ursinho gigante pra você. Eu sei que tô meio por fora das coisas que acontecem aqui, mas acho que ainda tem tudo isso. Além do mais, você foi legal comigo hoje mais cedo e eu quero agradecer.
- Você não precisa fazer isso, eu...
- Não é sacrifício nenhum. – ele pegou a minha mão com cuidado. – Vamos?
- Bom, eu...
- ? – me assustei com a voz de atrás de mim. Ele estava com uma cara séria, o maxilar travado como quando discutiu com Sam. estava ao seu lado, sem saber como agir assim como eu. Por algum motivo eu quis me enfiar dentro de um buraco vendo os olhos de ambos de direcionaram para a mão que Peter segurava. – Vamos embora!
Eu quis mandá-lo se fuder, mas percebi que ele já estava muito irritado.
- Já estou indo. – disse baixinho, escondendo a minha irritação por seu jeito mandão.
Ele não se moveu.
- Estou esperando. – avisou impaciente.
- Estou falando com ela, não tá vendo? – Peter largou a minha mão, se intrometendo, também assumindo um jeito mandão.
- Eu já disse que estou indo, . – respirei fundo. A última coisa que eu queria é que eles brigassem novamente. - Me esperem no carro!
- Vamos, . A já vem. – deu um tampinha no ombro do amigo, sibilando um “Não demora”, recebendo um sinal positivo da minha parte.
Ele puxou que o acompanhou claramente contrariado.
- Eu preciso ir, Peter. está irritado e não estamos nos falando direito. Não quero mais confusão.
- Eu sei muito bem porque ele está irritado... – ele pareceu perdido enquanto pensava em algo, olhando para o Land Rover de . Antes que eu perguntasse do que estava falando, ele voltou seus olhos para mim e sorriu. – Você vai comigo a festa?
- Contanto que não seja uma desculpa para irritar o .
- Claro que não, . – ele balançou a cabeça, ofendido. – está longe de ser o motivo.
- Então tudo bem, eu vou com você.
- Ótimo! – ele assumiu uma postura boba. – Combinamos o horário depois então. Tchau.
- Tchau. – sorri antes de começar a caminhar.
e calaram a boca assim que abri a porta e sentei no banco do carona. Ninguém ousou abrir a boca. Eu estava irritada pela maneira que agiu e não deixei de esconder isso. No meio do caminho Molly ligou para o meu celular avisando que não era para irmos pegar Emma porque ela iria direto pra casa de uma amiga.
- Tudo bem, vamos parar com isso. - disse de repente, lançando olhares muito suspeitos pra gente pelo retrovisor do carro. - Vamos lá, me contem o que está acontecendo. Vocês estão muito estranhos um com o outro.
Eu engoli em seco. É, não estávamos brigando, estávamos nos evitando, pelo menos ele estava me evitando. A pergunta é: Por que estava fazendo isso?
fingiu que nem ouviu a pergunta e eu olhei pela janela, para o tráfego de segunda de York.
- Não vão mesmo? – insistiu, depois do nosso silêncio.
- Não aconteceu nada, cara. - disse seco. - Você já me perguntou isso no colégio, no estacionamento e agora!
Ele olhou de mim para e dele para mim. O olhar de suspeita de novo.
- Se não me contarem eu vou tirar minhas próprias conclusões sabe... – ele continuou – Vou achar que é pior do que realmente é.
Ele continuou com os olhares de suspeita sobre nós. Eu podia perceber que nunca iria ceder com aquilo, ele provavelmente já estava acostumado a lidar com a chantagem barata do amigo, mas ao mesmo tempo, os nós de seus dedos estavam brancos de tanta força que ele usava pra segurar o volante. Por um instante eu devaneei sobre como aquele volante estava sofrendo com os dedos fortes de os apertando daquele jeito.
- Ok... – desistiu, fechando a cara. - Vocês que se resolvam então!
O silêncio continuou até descer e depois no caminho para casa, e só pra implicar, bati com toda a minha força a porta quando desci, tendo um resmungo como resposta.
Passei o resto da tarde trancada no quarto, ouvindo algumas músicas novas enquanto fazia os deveres do dia. Do outro lado da porta, a casa estava um silêncio só. Nem passos eram ouvidos no corredor ou na escada. Parecia até que eu estava sozinha. Quando terminei tudo, sentei na minha janela olhando, desligada de tudo ao meu redor, como se estivesse em piloto automático, a vizinhança até o sol se por, lembrando do dia que em que me levou no seu lugar especial. Eu queria tanto ir lá novamente. Acabei cochilando com a cabeça encostada numa coluna, só acordando com o céu totalmente escuro, ouvindo alguém tentar entrar no meu quarto, e quando a pessoa viu que estava trancada, as batidas começaram. Não levantei para abrir, cheia de preguiça, esperando que a pessoa pensasse que eu estava morta ou tomando banho, e desistisse.
Soltei um gemido baixo quando as batidas não cessaram, ouvindo a voz de Emma.
- ? – ela bateu um pouco mais forte. – Você já acordou?
Ela tentou virar a maçaneta de novo. Eu queria mandá-la ir embora, mas ela não tinha culpa dos meus problemas. Talvez Emma só estivesse preocupada comigo, por ter chegado mais cedo da minha viagem e pelo modo como agi ontem, não que ela já não soubesse de tudo o que aconteceu. Pelo pouco que eu já conhecia da minha irmãzinha e seu gênio, dava pra saber que, se Emma não bombardeou todos com perguntas, provavelmente ficou escondida no topo da escada escutando toda a conversa que teve com Helen e John. O que eu agradeceria muito, já que não precisaria lhe contar nada.
Depois de colocar pensamentos e ordem e uma noite bem dormida na minha cama, eu entendi que aquilo era uma coisa que eu queria apagar da minha vida. Passar uma borracha, como se nunca tivesse acontecido, como se minha vida estivesse começando agora, em York, com a minha nova família. E pensando nisso, talvez tivesse sido melhor se eu tivesse me desligado de tudo e todos quando minha vida deu uma volta de 180º. Eu só estava esperando qual seria a próxima notícia que me abalaria novamente e quem faria parte dela.
- Anda, eu sei que você tá aí dentro me ouvindo.
Eu sabia que ela não sairia dali enquanto não falasse cara a cara comigo. Acendi a luz principal do quarto, destrancando a porta.
- Oi! – ela sorriu assim que me viu. – Por que trancou?
Dei espaço para que ela entrasse e no mesmo instante, Emma estava empoleirada na beirada da minha cama, enquanto eu voltava a fechar a porta.
- Pra você não me acordar. – deitei na cama, me estirando por completo só deixando livre o espacinho que já era ocupado pelo corpinho dela.
- Você está melhor? – ela perguntou meio insegura, olhando para mim.
- Acho que estou melhor do que ontem... - dei um sorrisinho triste.
- me disse que você quebrou o nariz da sua amiga piranha... – ela sorriu maldosa enquanto fazia essa observação excitadamente.
Eu virei meio incrédula para fitá-la melhor, não acreditando que teria lhe dito algo assim e não acreditando que a palavra “piranha” tivesse saído da boca daquela graciosa criança de 9 anos.
- Bom, – ela começou, vendo o meu olhar – ele não usou essas palavras... Ele também não me contou a história toda, se é isso que preocupa você. Ele só me disse que você quebrou o nariz de uma garota quando me pegou ouvindo no topo da escada... Mamãe e papai não gostaram, mas eu escutei de qualquer maneira.
- Que bom, seria um fardo eu ter que contar tudo. - ela pareceu meio desapontada pelas minhas palavras, mas ainda assim sorriu largamente. - Vou tomar uma ducha pra jantar, você me espera?
- Claro! – ela deitou na minha cama quando levantei, pegando o controle do som e colocando "No You Girl" do Franz Ferdinand pra tocar.
Eu entrei no banheiro e abri a porta do box, enquanto girava a válvula do meu chuveirão de ferro e deixava a água quente cair no piso branco. A água chegava a deixar a minha pele vermelha, mas eu não me importava. Já estava praticamente dormente quando a voz de Emma me puxou novamente para a realidade.
- No, you girls never know how you make a boy feel... - ela cantou toda empolgada do outro lado. - How you make a boy feel? How you make a boy...
Eu sorri, enrolando o meu cabelo numa toalha e coloquei meu roupão, junto com as pantufas de joaninhas, saindo do banheiro.
- Sometimes I say stupid things that I think, well, I mean, I... Sometimes I think the stupidest things... - ela cantava e dançava em cima da minha cama fazendo o controle do som de microfone.
- Because I never wonder of how the girl feels... Oh, how the girl feels... - a imitei fazendo uma voz fina, dançando pelo quarto usando a escova de cabelo que estava nas mãos. - No, you boys never care, oh, no, you boys will never care...
- Eu amo essa música! – Emma disse ofegante, voltando a sentar na cama com uma criança comportada enquanto outra música começava a tocar. – Dá vontade de dançar o tempo inteiro.
- Aham, – concordei entrando no closet para pegar um vestido simples de alcinha. Eu sabia que Emma me animaria mais, meu astral parecia muito melhor do que antes. – ela é muito animada.
- Hm, ... – ela me chamou baixinho, me esperando sentar ao seu lado, penteando o cabelo, para continuar. - Você vai passar o natal com a gente agora, não é?
- Sim, Emma. - disse incerta. Eu não havia pensado no natal nem mesmo antes de ir a York. - Mas ainda é cedo para pensar nisso, não acha?
- Eu sei, só queria ter certeza. - ela fez uma carinha fofa, toda feliz com hipótese de passarmos o natal juntas pela primeira vez. - Você vai adorar conhecer a família, principalmente a tia Abigail!
- Família? - meu estômago deu uma reviravolta quando imaginei uma casa lotada de pessoas me olhando como se eu fosse um ser de outro mundo. Eu estava visualizando que passaria pela mesma sensação do primeiro dia de aula. - Onde vocês costumam passar o natal?
- Ah, cada ano passamos na casa de alguém sabe? Ano passado foi nas montanhas. até me ensinou a esquiar... - ela contou como se fosse uma pessoa super vivida. - Pelo que mamãe disse acho que vai ser na casa da tia Abigail, na França. Devemos esquiar por lá também.
- Eu não sei esquiar. - ela me olhou chocada, me fazendo sentir como um grande bicho do mato. - Eu nunca tentei...
- Você morava na Alemanha e nunca esquiou? - ela perguntou inocentemente, se arrependendo depois de ter tocado na borda da minha ferida.
É claro que algo na minha expressão a fez perder seu ar de curiosidade. Ela parecia culpada. Sim, eu senti um pouco de angústia com a menção do meu país, mas também não queria que Emma conversasse comigo como se estivesse pisando em ovos. Além de , ela era a única espontânea o suficiente naquela casa para não ficar me olhando com pena, e eu não queria perder isso. Eu forcei um sorriso tentando amenizar as coisas.
- Tudo bem, Emma. – eu passei a mão na cabecinha dela, mexendo em suas trancinhas. – Não precisa conversar comigo como se estivesse andando num campo minado. Podemos falar sobre qualquer coisa, ok?
- Eu sei... – ela fez uma careta e nem assim conseguiu ficar feia. – Mas isso machuca você.
- Machuca. – assenti tristonha – Mas eu aguento.
- Sei que sim. – ela falou com uma maturidade invejável. Ela tinha mesmo 9 anos? – Mas não quero ver você triste.
Eu abracei a minha irmã. Provavelmente pela primeira vez desde que cheguei aqui. Emma se preocupava comigo, mesmo sendo tão pequena, mesmo que ela devesse se preocupar apenas com suas Barbies ou a lição de casa. Ela estava longe de ser uma menininha rica e fútil, interessada apenas nas coisas que lhe convém. De repente eu me dei conta de que tinha Emma e aquilo era muito mais do que suficiente, talvez fosse até mais do que eu merecia. Talvez eu devesse abrir bem os meus olhos e não ficar lamentando sobre o que perdi e sim o que ganhei com tudo que aconteceu comigo nesse período.
Emma deu tapinhas desajeitados nas minhas costas, provavelmente constrangida e surpresa com a minha atitude.
- Não se preocupe. – disse com a voz embargada, um tanto emocionada, quando a soltei. – As coisas vão ficar bem. Só preciso de um tempinho, entende? Mas não precisa medir suas palavras comigo.
Emma assentiu e eu me surpreendi por de repente parecer tão otimista sem ter uma ajudinha de . Eu não falei da boca pra fora, falei de verdade. Claro que não iria parar de doer da noite para o dia. A sensação da perda da minha mãe diminuiria, mas sempre estaria comigo. A da traição ainda era recente, mas como tudo na vida, iria passar, seria esquecido. Eu sou forte o bastante para isso.
- Será que dá pra vocês diminuírem esse som? Tem alguém aqui tentando ver TV! - entrou daquele jeito arrogante e irritadinho no meu quarto, sem, como sempre, bater na porta.
- Ah, você ainda não melhorou essa cara, ? - Emma foi até ele querendo enfrentá-lo com sua baixa estatura. - Você anda muito chato!
- Cala a boca, Emma. - ele disse impaciente. - Eu só quero que vocês diminuam o volume.
- Você não precisava entrar desse jeito... - desliguei o rádio, apontando para o controle. – Pronto. Satisfeito?
- Pessoal, chegamos! - ouvi a voz de Helen no hall.
- Vou descer. O clima aqui tá pesado. - Emma disse irritada, nos deixando sozinhos. Eu e ele nos encaramos sérios, como se estivéssemos competindo para quem estava fazendo a cara mais fechada e feia. Não cedi, mas fui andando calmamente, encostando no outro batente da porta, de frente pra ele. Percebi que se encostou mais, grudando seu corpo na madeira para que nossos corpos não se tocassem.
- perguntou no carro, mas você não respondeu então eu quero saber. - disse olhando bem no fundo dos olhos dele. parecia ansioso, e ao mesmo tempo profundamente irritado. - O que está acontecendo, ? Por que você está me tratando desse jeito?
- Por que todo mundo acha que tem algo acontecendo comigo? - ele perguntou em tom de voz vacilante, os olhos enigmático, cobertos por uma camada de proteção para que não me deixasse ver nada além da cor. - Eu não tenho problema algum, .
- É por causa do nosso beijo? - perguntei sem pensar, a lembrança do nosso momento íntimo fluindo diante dos meus olhos. pareceu estar vivenciando a mesma coisa que eu, mas novamente não consegui entender o que passava com ele. Seus olhos foram baixados para que eu não pudesse ver mais nada.
Eu queria que ele me encarasse. Queria que ele me dissesse o que estava acontecendo porque de fato, eu não era tão forte quanto ele, eu não tinha tanta resistência a não falar com ele. A não tocar, acidentalmente, nele. A grande verdade disso tudo é que eu gostava de estar com ele. Eu gostava de conversar com ele, gostava do jeito como ele se preocupava comigo, do jeito como sorria pra mim com os olhos brilhando mais que diamantes. Eu gostava dele mais do que queria admitir. Sentia que não conseguiria ficar naquela guerrinha por muito mais tempo.
- Não, claro que não. - ele respirou fundo, enfiando as mãos dentro do bolso da calça por não saber o que fazer com elas. - Eu já disse que aquilo foi um erro.
- É, eu sei, - disse com a voz baixa sentindo aquela vontade no peito. Meus olhos queimaram um pouco, mas depois de algumas piscadas eles voltaram ao normal. - você disse. Mas parece que isso está incomodando você de alguma forma.
- Não é nada disso, . Acredite em mim. Só estou um pouco estressado, mas logo vai passar.
- Tudo bem então, vamos deixar tudo pra lá, ok? Esquecer... - outra pontada. Eu precisava sair dali o mais rápido possível. - Não quero mais brigar ou ficar num clima ruim com você.
- Eu também não. - ele disse inquieto. - Desculpa, ok?
- Tudo bem, . - dei de ombros, dando um sorriso fechado e sem graça. - Eu vou descer agora, vou ajudar Emma e Helen com o jantar, não demora.
Olhos dele estavam gravados nas minhas costas quando passei, descendo as escadas. Meu coração martelava dentro do peito com a possibilidade de voltarmos a ser como antes, com ele implicando, sendo meu amigo, e ao mesmo tempo, martelava por saber que não passaria disso.

Capítulo 11

Emma entrou silenciosamente no quarto usando uma saia verde clara soltinha até um pouco acima dos joelhos, o cabelo liso preso num rabo-de-cabelo e nos pés um par de sapatos boneca de saltinho combinando com meias brancas abaixo do joelho. Parecia uma boneca francesa vintage.
Ela sentou na minha cama sem dizer uma única palavra, olhando para o meu reflexo no espelho do banheiro enquanto eu passava mais uma camada de rímel e colocava meu cabelo para frente com o propósito de fazer uma trança de lado.
- Você tá tão quietinha hoje. – comentei depois de um tempo, vendo pelo espelho uma careta. – O que aconteceu?
- Estou um pouco nervosa. O Nicholas vai estar lá também. – ela respondeu com a voz desanimada.
- E isso é ruim? Você tá tão linda. – dei mais alguns retoques na trança, deixando-a um pouco mais frouxa com alguns fios soltinhos para fica bem natural, antes de sair do banheiro em direção ao closet.
- Isso é péssimo! O vai ficar atrás de mim igual a cão de guarda e já deixou isso bem claro. – ela choramingou indignada enquanto eu vestia uma saia de cintura alta e um top. – Minha vida social vai ser destruída e eu não posso impedir!
- Ele não vai fazer nada, Emma. Eu não vou deixar. – abotoei uma blusa transparente por cima do top. – Até porque o pessoal vai estar lá e ele vai se esquecer de você.
- Tomara, você tem sorte dele não pegar no seu pé.
Ela estava certa. não voltou mais a pegar no meu pé depois da conversa que tivemos dias atrás. As coisas voltaram a ser como antes. Ele voltou a brincar comigo, a sorrir e a me fazer sorrir também. Voltou a ser doce, meu amigo.
A troca de olhares ficou constante. Passei a sentir meus movimentos observados milimetricamente o tempo inteiro.
Mas por outro lado, eu nunca conseguia decifrar o que estava se passando na sua cabeça. Às vezes parecia estar a ponto de explodir de tanta raiva que seus olhos transmitiam quando me olhava, sem que ela fosse mostrada em nenhum dos seus atos, e no segundo seguinte, parecia que iria sorrir daquele jeito babante dele, prestes a dizer algo doce, que pudesse me deixar sem fala. A única coisa que ainda estava diferente entre nós era que, apesar de nos fitarmos constantemente, ele continuava me evitando. Não voltamos a ter mais nenhum típico de contato físico por mais de alguns segundos.
E eu, de certa forma, lamentava por isso.
- , você ainda tá aí? – a voz de Emma fora do closet me fez voltar à realidade em que eu me flagrei parada prestes a terminar de colocar o sapato.
- Tô sim, Emma. – levantei rápido do puff, dando uma última checada no cordão de pérolas brancas, colocando um cardigã mais comprido. – Tô escutando tudo.
- É, tô vendo. – ela resmungou. – Vou lá embaixo porque a mamãe tá me chamando pra ajudar com os salgados.
- Tudo bem. – quando sai do closet Emma já não estava mais no quarto.
O meu celular em cima da cama começou a tocar, aparecendo o nome de Lizzie no display.
- Oi! – disse equilibrando o celular entre a bochecha e o ombro dando uma última verificada no espelho.
- Tá pronta?
- Tô sim. As meninas vão com a gente?
- Não. Elas vão com seus respectivos machos. Me espera na porta que eu já tô chegando.
Joguei o celular na bolsinha, descendo as escadas até a cozinha, encontrando Helen e Emma cobrindo algumas comidas, enquanto estava encostado na bancada, comendo uma maçã.
- , você poderia levar um dos bolos com você? Acho que não vai dar no carro. - Helen pediu apontando para o prato já coberto em cima da mesa.
Eu assenti com a cabeça.
- Você não vai com a gente? - me olhou de cima a baixo, sem nenhuma descrição, enquanto me questionava surpreso quase engasgando com um pedaço da maçã.
- Não, não, vou de carona – fiz o mesmo, reprimindo um suspiro, achando muito sexy a escolha da camisa xadrez por cima de uma camiseta branca com uma calça jeans de lavagem clara. – Lizzie vai passar aqui.
- Ah... Com a Lizzie – ele soltou parecendo aliviado. – Só vocês duas?
- Por que tá interrogando minha irmã, ? - Emma cruzou os bracinhos. - Não tá bom você encher o meu saco, tem que ser fazer o mesmo com ela?
- Você é muito pentelha. - ele disse dando uma mastigada raivosamente. - Não pense que vou esquecer você!
Emma soltou um gritinho indignado, cerrando os olhos enquanto marchava para o quintal, fazendo rir.
- Deixe sua irmã em paz, . - Helen advertiu o filho.
- Só estou brincando, mãe. - ele piscou pra mim ainda sorrindo. - Ela fica igualzinha a quando está irritada.
- Muito engraçado. - ironizei, escutando a buzina do carro de Lizzie.
Fui até a mesa, pegando o prato com o bolo enquanto Helen ia comigo até o hall para abrir a porta, acenando para Lizzie que deu a volta no carro para me ajudar.
Fomos ouvindo um CD com músicas aleatórias enquanto ela me contava que por pouco sua mãe não pegou uma das ficantes de George andando apenas de calcinha e sutiã pelo segundo andar da sua casa.
- Eu só o escutei falando “anda, anda, minha mãe chegou!” – ela contou, recuperando o fôlego depois que um ataque de risadas que tivemos. – Com certeza essa nunca mais vai olhar pra cara do George.
- Pelo menos essa foi mais rápida, né? – me controlei para não gargalhar mais imaginando a cena da menina saindo seminua pela janela. – A última não teve tanta sorte.
- Você sabe que minha mãe, como psicóloga, não acha saudável toda essa promiscuidade, já o papai acha que é super normal, afinal ele é homem.
- É, mas o seu pai mora em outra cidade então é a sua mãe quem precisa ficar no controle, é como a minha mãe... – eu parei de falar por alguns segundos, absorvendo o poder das minhas palavras. Lizzie entendeu o que estava acontecendo, pois logo o carro ficou silencioso, exceto pelo rádio e o motor. Eu olhei para o lado de fora, dando um sorriso sem humor. Não queria ficar triste logo hoje. – Quero dizer, era. Minha mãe que mantinha o controle lá em casa.
- Vamos falar sobre outra coisa, ok? – Lizzie sugeriu de uma forma forçada, querendo quebrar aqueles poucos segundos de tensão. – Parece que Katie e finalmente de entenderam.
- É, Cassie me disse pelo MSN que eles saíram ontem a noite... Espero que tenha dado tudo certo. Já não aguentava mais os ataques de ciúmes que eles têm um do outro. Em falar nisso, você faltou a nossa conferência.
Ela bufou e aposto que também revirou os olhos antes de sentenciar com a voz indiferente:
- Carl e eu brigamos pelo telefone. Ficamos a noite inteira discutindo.
- Por quê?
- Por que ele é um babaca! – ela disse irritada, quase socando o volante. – Você sabe que eu não ligo dele sair com os amigos, mas quando eu digo que vou sair com vocês, ele enche o meu saco! Aí quando eu disse isso, fudeu né, ele me chamou de criança, mimada da mamãe... Quer impor coisas como se fosse meu pai! Ele me irrita com essa mania de querer mandar em mim! Sinceramente, eu tô ficando cansada disso. São sempre briguinhas por motivos ridículos. Eu não sirvo pra fica aguentando esse tipo de coisa... Ainda sou muito nova!
- Por que você ainda está com ele então?
- Eu sei que é um pensamento egoísta, mas às vezes é bom ter um cara que realmente goste de você mais do que você gosta dele, e eu sei que o Carl é essa pessoa. – ela olhou pra mim brevemente antes de acelerar quando o sinal abriu, mas mesmo assim eu pude detectar uma sombra de tristeza passando por eles.
- Vocês são tão diferentes, pensam de maneira diferente. E nesse caso, não acho que os opostos se atraem. – eu sabia que não era aquilo que ela gostaria de ouvir, mas mesmo assim continuei. - Eu gosto dele, só que não acho que ele seja o cara certo pra você. Você sabe quem eu acho que seja.
Eu realmente não achava Carl fosse uma má pessoa, eu sabia o quanto ele gostava de Lizzie. Só que me incomodava à forma como ele conduzia seu namoro com ela. Ele sempre estava criticando algo ou ficava irritado quando as coisas não eram como ele queria.
- Você tem sua opinião e eu tenho a minha. – ela disse um tanto quanto grosseira. – Esquece o que eu falei, as coisas vão se ajeitar como sempre acontece e, por favor, vamos mudar de assunto agora está bem?
Era fato que iríamos brigar se eu insistisse porque isso já acorrera outras vezes, então fiz o que ela pediu e começamos a conversar coisas aleatórias da semana, mesmo que dentro de mim, as coisas não estivessem de acordo com o que ela estava fazendo consigo mesma. Lizzie se tornou minha melhor amiga e eu não queria vê-la sofrendo. Uma das coisas que aprendi com a minha mãe é que você pode aconselhar e tentar ajudar uma amiga ou um amigo, mas não pode abrigá-la a fazer o que você quer. Às vezes as pessoas precisam sentir na pele o erro que estão cometendo, por mais que as pessoas que estão a sua volta evitem isso. No final de tudo, eu não poderia me meter mais. A decisão era dela.
Chegamos em North Yorkshire Moors, um dos grandes e mais bonitos parques da cidade. A planície com um verde vivo estava cercada por mesas de piquenique com direito a bancos extensos de madeira para que as pessoas pudessem sentar para comer ou apenas jogar conversa fora. Fiquei maravilhada com a forma em que aquele campo lindo se tornara mais deslumbrante e colorido com o capricho dos enfeites e faixas penduradas em algumas árvores com diversos dizeres, entre eles: "2.000 anos ainda é pouco" e "York é a cidade mais linda do mundo!”. É incrível que York, que está se transformando numa das cidades mais promissoras da Inglaterra, ainda tem lugares como aquele em que você pode deitar no meio da tarde e ler um livro sem nem ao menos se lembrar que alguns poucos quilômetros existe fumaça que sai de fábricas ou dos canos de escape dos carros ajudando no aumento da camada de ozônio.
Havia também milhares de barraquinhas de joguinhos como tiro ao alvo, pescaria, uma mini pista de golfe e outra de boliche, entre outros, comidas típicas e variadas exalando diferentes cheiros, mas de dar água na boca, e artesanato, espalhadas um pouco mais a frente, formando um corredor que se enchia cada vez mais por crianças correndo pra lá e pra cá, fazendo fila no escorrega e em dois pula-pulas grandes em formato de castelo, enquanto por todo local era possível escutar Alright do Supergrass. Era uma imagem não tão desconhecida por mim, mas igualmente diferente. O mais legal, e talvez o mais bizarro de tudo, eram algumas pessoas se arriscavam a circular com roupas medievais, com as mulheres usando aqueles vestidos ricos em detalhes que vemos em filmes do estilo e homens parecendo verdadeiros príncipes imponentes.
Era evidente e contagiante a forma como as pessoas estavam se divertindo ali.
Estacionamos perto de um carro que eu reconheci ser de e Lizzie deu a volta para segurar o prato de bolo para que eu pudesse sair e ajeitar minha saia.
Cumprimentamos alguns conhecidos enquanto procurávamos a barraca em que Molly estaria, sem nenhum sinal de nossos amigos.
- Ali, . - Lizzie apontou por entre as pessoas para algum ponto a nossa frente. - Acho que é a Molly que estava conversando com aquele cara.
- É o Ben, o filho mais velho dela. - disse sorrindo, desviando minha atenção para uma mulher que usava um vestido medieval de veludo azul marinho que passou por nós. - Isso é tão foda!
- É, é bem bonito sim, mas já estou acostumada. - Lizzie falou sem se dar ao trabalhado de dar uma boa olhada no vestido como eu. - Todo ano tem algum maluco que se veste assim.
- Já te disse que você anda muito rabugenta? - perguntei pouco antes de chegarmos perto de Molly que sorriu ao nos ver. Lizzie revirou os olhos com o meu comentário.
- Olá, meninas. - ela nos cumprimentou sorrindo, pegando o prato das minhas mãos. - Vocês estão lindas.
- Você não está diferente, hein. - Lizzie deu lhe mandou uma piscadela. - Está pensando em arrumar algum namorado hoje?
- Talvez Elizabeth, talvez... - brincou pegando o prato das minhas mãos. - Obrigada, querida. Helen já está vindo com o resto?
- Já. – confirmei, admirando a quantidade de comidas diferentes que ela havia preparado. – Ah, você fez brigadeiro!
- Claro que fiz. – ela apontou para uma bandeja com chocolate derretido em taças de plástico coloridas. – E ainda tem mais no trailer.
- E leva o que? – Lizzie olhou desconfiada, quebrando a nossa regra de nunca perguntar nada a Molly que fosse relacionado à culinária. Seus doces ou qualquer outro tipo de comida eram deliciosos, mas às vezes não tínhamos coragem de perguntar quais eram seus ingredientes, caso ela falasse “perna de galinha” ou “olho de peixe”, o que não era o caso dessa vez.
- Leite condensado e chocolate em pó.
- É muito bom, Lizzie, você precisa provar – falei salivando.
- Você ainda vai precisar da gente?
- Não, não, podem ir. - Molly abanou as mãos para nós. - Ben vai me ajudar enquanto Helen não chega. Ele só foi ao trailer dele pegar algumas coisas, mas já volta, não se preocupem.
- Então vamos voltar depois para comer um pouco de cada comida. - Lizzie falou agarrando o meu braço, me afastando da barraca.
Nós andamos vagarosamente pelas pessoas, não só pela quantidade delas, mas sim porque olhávamos todas as barracas que conseguíamos com o maior cuidado. Na maioria das vezes eu tive que parar para tocar nos objetos de arte, ou nas belíssimas bijuterias, além de comer Bakewell, um bolo coberto com geléia, amêndoas e sorvete.
- Que moça cheirosa. - virei para encontrar falando no ouvido de Lizzie quando estávamos paradas esperando nossas limonadas.
- Seu idiota. - ela disse sem o menor desdém na voz, virando-se de frente pra ele. - Pensei que você tivesse arranjado outra garota para encher o saco.
- E eu arranjei, - ele retrucou debochadamente enquanto eu assistia tudo de camarote, quase as gargalhadas. - mas ela, infelizmente, foi ao banheiro.
- Isso é apenas uma desculpa que ela usou para ficar distante de você.
- Nem todo mundo é mal amada com você, Elizabeth. - falou dando um sorriso amarelo. – Eu sei agradar muito bem as mulheres, você mais do que ninguém deveria saber disso.
Eu olhei para ambos, sem entender o que aquela frase do queria dizer.
- Cala essa boca, seu retardado! – ela disse exasperada, prestes a tacar seu copo de limonada nele.
- Oi pra você também, ! – me intrometi pegando o copo antes de um fim trágico para a bebida e para .
- Oi, . - ele se esticou entre eu e Lizzie, ignorando-a miseravelmente, para me dar um beijo na bochecha. - Vejo que só você acordou de bom humor hoje.
- Meu dia estava maravilhoso até encontrar com você. – Lizzie alfinetou, desviando-se dele para voltar a andar.
Encontramos , e Katie conversando em uma das mesas, com a última agarrada ao pescoço de , parecendo que iria explodir de felicidade por estarem se entendendo novamente. Logo Cassie se juntou a nós, se destacando com um vestido medieval rosa bebê e branco com alguns detalhes em dourado.
Katie nos avisou, enquanto os meninos estavam entretidos falando sobre a final do campeonato inglês, que os ingressos para os shows do Franz Ferdinand e os do dia seguinte, Muse com abertura do Razorlight já tinham sido comprados pela internet, e chegariam pelo correio uma semana antes. Só faltava reservar nosso quartos em algum hotel para nosso tão ansioso final de semana em Londres.
- Não consigo imaginar qual vai ser a melhor parte. – Lizzie disse empolgada. – Os shows ou a gente saindo pela cidade!
- Carl já respondeu se vai ou não? – perguntei percebendo que continuava falando com os meninos, mas sua atenção estava na nossa conversa.
- Não sei... – ela deu de ombros. – Ainda não voltei a tocar do assunto. Mas de qualquer maneira vai ser ótimo!
- Meu pai nem pode imaginar que o e eu vamos ficar no mesmo quarto. - Katie revirou os olhos. – Acho que ele teria um treco.
- Eu aposto que sim. – se intrometeu, sorrindo maliciosamente para a namorada. – Ele não gostaria de imaginar as coisas que fazemos quando estamos sozinhos.
- ! – Katie lhe deu um tapa, com as bochechas vermelhas.
Todos nós rimos, inclusive ela.
- Ah, pelo amor de Deus! - Lizzie resmungou baixinho olhando para um ponto atrás da minha cabeça.
- O q... - antes que eu visse do que ela falava, uma menina de cabelos ruivos encaracolados sentou em nossa mesa sem nem ao menos pedir, dando um beijo discreto em .
- Oi gente! - ela nos saudou alegremente enquanto se sentava ao lado dele, demonstrando ser uma pessoa extremamente calma e doce. - Demorei, amor?
- Claro que não. - sorriu de volta. - Lola, - ele me indicou com a cabeça. - essa é a que eu e estávamos falando no outro dia.
Desde quando e conversam sobre mim?
- Prazer, Lola. - sorri da melhor forma simpática possível, sentindo Lizzie me metralhar com seus olhos.
- Finalmente estou te conhecendo. – ela sorriu de volta.
Eu e o resto das meninas, exceto Lizzie, puxamos papo com Lola. Sabíamos o quanto ela deveria estar desconfortável estando em um grupo novo, ainda mais com uma pessoa a encarando sem fazer nenhuma questão de esconder seu desejo de vê-la desaparecendo. Por duas vezes cutuquei Lizzie por debaixo da mesa, mas ela me ignorou completamente, como se eu fosse a errada da história. Eu desconfiava, ou melhor, sabia o porquê dela estar daquele jeito, só não entendia o motivo de tal, já que a situação estava desse jeito porque ela mesma não tomava uma atitude.
Não demorou muito e a mesa esvaziou. e foram pegar mais limonada e e Lola saíram sem dar nenhuma explicação, me fazendo deduzir que foram se amassar atrás de alguma árvore.
- Se você não gosta dela, tudo bem, mas não a faça se sentir desconfortável perto da gente, não é legal. - disse suavemente, concluindo meu longo sermão de amiga pentelha para tentar fazer Lizzie que Lola não tinha culpa das suas diferenças com .
- Você geralmente não julga as pessoas sem conhecê-las, Elizabeth Tallis. - Cassie acrescentou, querendo relembrar o seu bom senso.
- Ela também não gosta de mim, vocês viram! – ela argumentou como se fosse uma criança explicando o porquê de ter batido no coleguinha de classe. – Além do mais, eu tenho coisas muito mais importantes para me importar do que com esse tipo de coisa.
- Tipo com o seu namorado pentelho que reclama de tudo que você faz? Porque ele também nunca está satisfeito com nada... – Katie retrucou daquele jeito desembestado de falar o que pensava. Cassie e eu trocamos olhares já percebendo discussão no ar. - Sinceramente, não sei por que você fica com esse mau humor todo com eles estão perto, afinal, você mesma que não quis dar uma chance ao . Tem uma hora que a gente cansa de ficar correndo atrás de quem não nos quer!
- Você não sabe de nada, Katherine! Ele finge que gosta de mim, entendeu? Bem diferente do Carl! – Lizzie falou raivosa, levantando - Vai se fuder com sua opinião! Ou melhor, vão vocês três! – e saiu em disparada para longe de nós.
- O que ela quis dizer com “ele finge que gosta de mim”? – Cassie arqueou as sobrancelhas olhando para Katie e para mim. – Por que fingiria uma coisa dessas?
- Não faço a mínima ideia. - disse distraída com o meu celular tocando, vendo o nome de Peter na chamada. - Pensei que você não viesse mais.
Katie e Cassie trocaram olhares curiosos.
- Desculpe , meus pais me prenderam em casa, - ele se desculpou de um jeito carinhoso. – te explico melhor quando a gente se encontrar. Onde você está?
- Eu tô numa mesa perto da barraca de cachorro quente. – ignorei as tentativas feitas por elas para saber quem falava comigo. - E você? -
- Estou sentado num banquinho embaixo de uma árvore, é um tanto afastado da festa, mas dá pra ver tudo daqui. Você pode vir cá?
- Já estou indo. – desliguei, pegando minha bolsa. – Vou encontrar com o Peter, vejo vocês depois.
- , espera! – eu virei para Cassie. – O que a gente diz pro se ele perguntar por você?
- Diz a verdade, ué. Eu já disse a ele que não vou me meter nessa briguinha infantil.
Helen estava na barraca com Molly quando passei para pegar alguns dos seus salgadinhos estranhos e igualmente deliciosos antes de procurar Peter. Ela me disse que John ajudava no churrasco junto com seus amigos, enquanto estava com Emma no escorrega, cumprindo sua promessa que vigiá-la. Eu cheguei a vê-los quando atravessei uma multidão de crianças correndo uma atrás da outra e apressei o passo para que o meu caminho não fosse interrompido caso ele me visse.
Não foi difícil de achar o lugar onde Peter estava. De fato era bem afastado de onde as pessoas estavam, mas ainda dava para escutar a música e a gritaria. Ele não me viu de primeira, pois estava escutando música, mas assim que levantou a cabeça, me deu um sorriso lindo com seus dentes perfeitos, me chamando para sentar perto dele.
- Oi! - ele tirou os fones de ouvido, me dando um beijo na bochecha assim que me ajeitei ao seu lado, lhe empurrando o prato de salgados. - Você está linda! E trouxe comida!
- Você também não está nada mal... - fiz uma falsa careta de superior o vendo fazer também uma falsa de choque - Ok, você está perfeito.
- Perfeição é meu segundo nome. - ele riu convencido, comendo uma coxinha e eu lhe dei um belo tapa no ombro – Aí, ! - ele massageou o lugar que eu havia batido. - Você tem uma mão pesada.
- Não seja um marica.
- Estou longe disso, mocinha. - Peter colocou as pernas uma de cada lado do banco, deixando o prato de lado, chegando mais perto. - Fiquei com medo de não te ver hoje.
- Eu disse que viria, não disse?
- Mas não quis que eu fosse te buscar em casa. - ele falou magoado, pegando minha mão, virando a palma para cima, fazendo um carinho por ali. - Aposto que nem suas amigas sabem que você está aqui.
- É claro que elas sabem, Peter! Não fale como se elas não gostassem de você...
- E elas não gostam mesmo. - ele interrompeu.
- Elas só não te conhecem como eu. Não sabem como você é legal, - sorri da maneira mais sincera que consegui. - mas vão conhecer. Você é meu amigo agora, não é? - ele assentiu sorrindo também. - E você sabe por que eu pedi para nos encontrarmos aqui. Ninguém lá em casa, além do , sabe que eu e você somos amigos. Não quero que o John fique me pedindo explicações e além do mais, o seu passado com a minha família não é dos melhores.
- É, eu sei. – ele concordou dando uma risada nasalada. – Mas eu quero muito mudar isso. - os dedos dele se entrelaçaram vagarosamente nos meus como se ele estivesse apreciando isso. Não pude deixar de comparar sua mão fria com a quente do . - Quero conhecer seu pai, . Quero tirar essa má impressão que sua família tem de mim. Quero poder conhecer você melhor.
Eu baixei meus olhos, evitando encarar Peter para que ele não percebesse o quão sem graça fiquei.
- Você já tá conhecendo.
- Não tanto quando o parece conhecer. - ele refletiu me pegando de surpresa com isso. - Vocês são muito próximos.
- Ele me ajudou e ainda me ajuda muito com toda a situação da minha mãe, da mudança... Temos uma ligação. - eu me senti estranha dizendo aquilo em voz alta, ainda mais sabendo que outra pessoa estava ouvindo. Sabendo de uma coisa que estava na cara, mas que eu não tinha admitido ainda. Mas, contudo, não era uma estranheza ruim. Era ótimo saber que apesar das nossas brigas e diferenças, havia algo que me ligaria a para sempre, além da parte familiar. Ele se tornara meu melhor amigo. Havia cumplicidade entre nós.
- Espero que essa ligação não atrapalhe a nossa.
- A gente podia fazer alguma coisa, né? - mudei drasticamente de assunto. Eu já começava a entender as intenções de Peter, mas mesmo assim não queria me afastar. Ele estava se tornando um bom amigo e quem sabe, no futuro, poderíamos ter alguma coisa. Mas não agora, minha cabeça e meus sentimentos estavam em conflito. - Não quero ficar o dia inteiro sentada aqui.
- Eu não me importaria. - ele insistiu de um jeito que eu quase não pude recusar - Ficar sozinho com você o dia inteiro com esse solzinho maravilhoso, conversando, ouvindo música... O que você acha?
Eu rolei os olhos, divertida, levantando para puxá-lo.
- Vamos, logo! Quero me divertir um pouco pra variar.
Foi difícil escolher em qual barraca eu queria brincar primeiro, mas a última palavra foi de Peter. Ele dissera que a de tiro ao alvo era mais divertida e me desafiou para vermos quem fazia mais pontos. Ele teria ganhado, mas o cara ao nosso lado conseguiu derrubar mais patos do que meus olhos conseguiam acompanhar, o que fez Peter receber um pirulito como “prêmio de consolação” e eu, obviadamente, não ganhei nada.
- Pra que ele me deu isso? – ele perguntou rabugento, olhando para o doce como se ele fosse a coisa mais nojenta do mundo, me entregando em seguida. – Era melhor não dar nada! Minha vontade é devolver e mandá-lo enfiar no rabo!
O empurrei para longe da barraca antes que ele fizesse isso.
- Segundo lugar não é tão ruim assim! - ele me lançou um olhar de incredulidade. – Mas é verdade! Aquele cara é um assino de patinhos, ao contrário de você, que teve piedade deles.
- Deixa pra lá. – ele disse quando paramos numa barraca de refrigerante. - Sua amiga não parece estar se entendendo com aquele cara.
Eu olhei para o lado, vendo Lizzie claramente tendo uma discussão com Carl. Eles pareciam que iriam se atracar a qualquer momento. Nunca os tinha visto daquele jeito. Ela o empurrou quando ele tentou se aproximar mais, e virou para andar, mas Carl agarrou seu braço, começando a arrastá-la para o outro lado, atraindo olhares desaprovadores de algumas pessoas que estavam perto, principalmente de mim. O que aconteceu em seguida foi rápido demais. Num minuto ela tentava se desvencilhar da mão dele e no outro apareceu andando em direção a eles como um louco, com atrás dele, gritando. Eu corri de encontro a eles, deixando Peter e a minha latinha de coca-cola para trás.
- Larga ela, Barât! Larga agora! – disse aos berros, atraindo mais atenção.
- Cuida da sua vida, ! – Carl se virou, ainda segurando Lizzie, que agora gritava insultos para o namorado.
- , calma, por favor. – ouvi pedir quando os alcancei.
- Larga ela! – ele fuzilou Carl com os olhos, a poucos passos do casal. – Não estou brincando.
- , por favor, vá embora. – foi Lizzie que pediu dessa vez. – Eu e Carl só estamos conversando.
- Não é o que parece. – ele disse avançando alguns passos, fazendo Dougie lhe acompanhar caso acontecesse algo. – Seu namorado anda implorando por um olho roxo há muito tempo!
- Você ainda não se mancou que ela não quer nada com você? – Carl provocou, levantando o braço de Lizzie como se ela fosse algum tipo de troféu. – Ela é minha!
apareceu tão rápido que pareceu brotar do chão, andando a passos largos em direção aos meninos. Olhei para o lado, nervosa, procurando desesperadamente por Katie e Cassie, não encontrando nenhum sinal.
- Vocês vão arranjar uma confusão logo aqui? – ele apontou para as pessoas ao redor. – Anda Carl, larga ela. Mais tarde, quando estiverem de cabeça fria, vocês conversam.
- Não. Nós vamos conversar agora! – ele disse raivoso, apertando ainda mais o braço de Lizzie, fazendo-a soltar um gritinho.
- Me larga, Carl! – ela pediu. – Eu não quero conversar com você!
- Porra, larga ela! – gritou descontrolado, avançando mais alguns passos, parecendo que iria voar em Carl.
- , calma. – se enfiou na frente dele, colocando uma mão no seu peito para pará-lo. – Estão todos olhando, inclusive a Lola.
- Estou pouco me fudendo! Não vou deixar que ele a machuque! – ele lançou brevemente um olhar para Lola que observava a cena de longe, triste.
Fui até eles vendo aquela situação demorar mais do que o necessário, ficando ao lado de .
- Carl, deixa de ser criança, escuta o que o tá dizendo. – falei tentando parecer calma. – Isso está fugindo do controle.
- Cala a boca, . Estou cansado de você se metendo no meu namoro! – ele disse ríspido.
- Com quem você pensa que está falando? – semicerrou os olhos. Eu logo segurei sua mão.
- Você não. – disse baixinho. – Já estamos tendo confusão demais.
- Pra mim chega! Acabou, Carl! Definitivamente! – Lizzie puxou seu braço com força, finalmente conseguindo se soltar de Carl que ficou chocado com sua atitude.
Ela correu para onde estávamos se jogando nos braços de , surpreendendo a todos, menos a ele, que correspondeu o abraço na mesma hora, dando um beijo no topo da cabeça dela.
- Ótimo! Fique com ele então. – Carl olhou para o casal cheio de desprezo, parecendo que explodiria. – Eu também não quero mais ficar com você!
Ele cuspiu no chão, virando para ir embora, mas deu de cara com John, que assistia a cena.
- Eu não quero mais que você se aproxime dela, entendeu? Muito menos da minha filha. – John disse com a voz controlada, com sua indestrutível expressão serena. – Eu não quero ter problemas com você, Barât.
Carl soltou um resmungo e se afastou de vez. John veio até nós, observando com um sorriso discreto, Lizzie que agora chorava, e , ainda abraçados.
- Vocês estão bem? – ele perguntou no plural, mas olhando pra mim.
- Não foi nada, John. – deu de ombros, já tranquilo. – Ele não fez nada com Lizzie.
- Eu não vou deixar ele te machucar. – apertou mais Lizzie contra o corpo, beijando novamente o topo da sua cabeça, tentando acalmá-la.
- Eu sei. – ela disse, soltando um soluço, com a voz abafada por causa da posição que estava.
- Por que vocês não vão tomar alguma coisa? – sugeri fazendo um carinho no topo da cabeça sua cabeça, sentindo raiva por vê-la daquele jeito tão frágil.
- Você quer? – perguntou para Lizzie que assentiu. – Vem, vamos procurar as meninas.
Eles foram acompanhados por . John se despediu, dizendo que era pra chamá-lo caso precisássemos de ajuda. Eu e ainda ficamos conversando, tentando entender qual teria sido a causa daquela briga, mas chegamos à conclusão que poderia ser qualquer coisa. Lizzie e Carl já não andavam bem desde que me mudei, e as coisas de lá pra cá só tinham piorado.
- Pelo menos de uma coisa nós temos certeza: tem o caminho livre. – ele disse, olhando para longe, fechando a cara. – Esse cara não tem mais nada pra fazer?
Eu olhei para o mesmo ponto, vendo Peter nos observando com a latinha de coca-cola ainda em mãos.
- Ele está me esperando. – acenei, avisando que já ia.
- Você estava com ele? – perguntou, mas mais parecia que estava me acusando de algum crime horrível.
- É, algum problema? – respondi arqueando uma sobrancelha. – Peter é meu amigo, , você esqueceu?
- Infelizmente não. – ele continuou a encarar Peter. - Ele é como todos os caras que você odeia, . É como Sam.
- Eu duvido muito - sorri amarelo, dando de ombros. Não deixaria que a opinião pessoal de influenciasse na minha amizade. - Enfim, te vejo depois.
Peter me entregou a latinha já um pouco quente e logo tratei de tirá-lo dali, sem olhar para trás, sabendo que ainda éramos observados. A última coisa que eu queria era que houvesse outra briga entre eles, ainda mais numa festa onde todos, ou quase todos, os moradores da cidade se encontravam.
Consegui trocar o refrigerante por outro mais gelado e depois fomos procurar por Lizzie, que estava cercada de cuidados de , mesmo não precisando mais. Ela contou que Carl ficou daquela maneira quando dissera que os ingressos para os shows já estavam comprados e que não importava se ele iria ou não. Ela, em nenhum momento, enquanto contava - ou depois dele – mostrava ter se arrependido do final do seu namoro. Minha amiga parecia aliviada, acima de tudo.

Capítulo 12

Eu e Peter ainda ficamos mais algum tempo com Lizzie e , e só quando começaram as apresentações de peças escolares é que fomos almoçar. Pegamos nossos pratos e sentamos no mesmo lugar onde nos encontramos enquanto eu ria das histórias que ele contou sobre suas aventuras em Manhattan.
Peter era incrível. Tudo nele era natural. E seu olhar era completamente diferente de , quando era direcionado a mim. Eu poderia conhecer Peter há poucos dias, mas quando eu olhava em seus olhos, conseguia saber ou pelo menos ter um palpite do que ele queria me dizer. Já ... Ele me evitava, recuava, pedia desculpas, era doce, fofo, engraçado, me fazia ter vontade de observá-lo por horas a fio por motivos diversos. Não existia uma pessoa no mundo depois da minha mãe, que eu gostasse mais de conversar senão ele. era tudo e mais um pouco. Ele mexia comigo de uma forma única e inquestionável. Era meu porto seguro. Nossa relação foi crescendo de grão em grão, se transformando numa coisa que nós mesmos não entendíamos... Ou não queríamos entender. Mas, acima de tudo, ele me deixava em choque, nervosa e com o coração na garganta, prestes a sair pela boca. me confundia de uma maneira que eu não conseguia me achar sozinha, só quando ele estava perto.
Seria covardia e errado da minha parte querer compará-los, mas como evitar quando suas personalidades estavam expostas tão claramente pra mim? Não era como se eu tivesse que escolher, porque no final, eu não estava sendo disputada. E nem queria ser. Contudo, era meio que inevitável quando era rude comigo. Por que ele fazia isso sem nem que eu fizesse nada para merecer? Às vezes eu desejava que ele fosse como Peter. Em outras eu me achava ridícula por querer uma coisa como essa. Eu gostava de por quem ele era, não queria que ele fosse como mais ninguém.
Todos nós somos diferentes, por que ele não seria?
Eu era uma contradição ambulante.
Olhei para Peter que estava de cabeça baixa entretido com seu iPod, procurando alguma música.
- Escuta. – ele me de um dos fones. – Eu adoro essa música.
Não demorou muito para que eu soubesse que era Can't Stand Me Now dos The Libertines. Eu também adorava aquela música. Cantamos essa e mais outras do mesmo álbum, até o celular de Peter tocar, interrompendo nossa conversa animadíssima sobre histórias da banda.
- Tudo bem, mãe. Já tô indo. – ele disse entediado. – Tchau.
- Vai ter que ir embora? – entreguei o fone assim que ele desligou.
- É, meu pai tá dizendo que não fiquei com eles o dia todo... Sabe como é, acabamos de voltar e ele quer que eu me reaproxime das pessoas, dos amigos dele... Mas a gente pode se ver depois do desfile da polícia, tem problema?
- Não, não. – disse enquanto ele me dava à mão para ajudar a me levantar. - Eu também preciso ficar um pouco com a minha irmã.
- Então eu te dou um toque.
Por todo o lugar que eu procurei por Emma, mas só consegui achar suas amigas. Rumei para a barraca de Molly, para comer alguns doces. Ela e Helen estavam bebendo vinho e rindo quando me aproximei risonha por vê-las daquele jeito “animado”.
- , meu amor, onde você estava? – Helen perguntou passando o braço por cima dos meus ombros. – Todos nós estávamos procurando por você.
- Eu estava com um amigo. – eu a abracei de volta, rindo.
- Estou triste porque você ainda não comeu nenhum dos meus doces – Molly me deu um dos potes coloridos, com chocolate. – Nem mesmo o brigadeiro.
O chocolate ainda estava quente quando o provei. Não consegui deixar de fechar os olhos com uma coisa tão gostosa. Foi amor a primeira vista desde que Molly fizera numa das tardes em que eu e Emma jogávamos Guitar Hero.
- Você poderia pegar mais salgados no trailer? – Helen perguntou para mim. – Está tudo dentro do freezer, é só esquentar no micro-ondas.
Assenti e deixei minha bolsa com elas, levando a taça comigo, passando por entre algumas barracas mais próximas, em direção ao outro lado do parque, onde os trailers ficavam. O local aparentava estar vazio e não me surpreendi ao encontrar o trailer de Ben vazio e totalmente bagunçado com vários potes e embalagens de comidas espalhados em cima da pia. Era bem apertado, mas tirando isso, era um ótimo lar para um homem solteiro.
Tirei os salgados congelados da bandeja de isopor, os colocando num prato, dentro do micro-ondas, ajustando o tempo para 14 minutos. Encostei-me do lado oposto, fazendo uma contagem junto com a do aparelho, comendo distraída o pouco que ainda restava do brigadeiro.
- Pensei que você estivesse com seu melhor amigo. – ouvi a voz de acabando com o silêncio ali, e virei o rosto, encontrando com ele fechando a porta atrás de si, subindo a escada.
Vi um sorrisinho debochado e fofo em seus lábios quando nossos olhares se cruzaram e eu percebi que ele não estava irritado.
- Não me provoque, seu chatinho. – o segui com o olhar, me espremendo contra a pia para deixar que ele passasse, esbarrando em mim, quase me levanto junto por causa do pouco espaço.
Ele abriu a geladeira, tirando quatro garrafas de Heineken, colocando uma a uma em cima da mesa planejada.
- Não sabia que você estava roubando bebidas, .
- Seu humor é invejável, sabia? – ele disse sarcasticamente abrindo uma das garrafas, dando a entender que passaria novamente por mim, mas ao invés disso parou na minha frente, com nossos corpos a poucos centímetros de distância.
Ele tomou um grande gole da cerveja enquanto me olhava de cima a baixo com um brilho intenso e diferente nas íris , quase como se planejasse algo muito errado. Seu cheiro maravilhoso de floral amadeirado começou a dominar meu olfato, me fazendo reunir todo o esforço para meu autocontrole não ir parar no ralo.
- Gostei do que fez com o seu cabelo. – observou, curvando os lábios num sorriso irresistível, mostrando seus dentes brancos.
Eu não saberia dizer se ele sentia o mesmo, era evidente para mim que havia uma tensão entre nós. Não era algo ruim. Era apenas... Instigante. E eu não me importava nenhum pouco com isso.
Sorri, comendo mais um pouco do chocolate, me sentindo como um animal indefeso encurralado sob o olhar de um predador, prestes a ser pego de forma brutal e impiedosa.
- Você tá comendo aquele doce que a Molly sempre faz pra você e pra Emma? – ele perguntou sedutoramente, ainda fitando com atenção o caminho que a colher fazia até a minha boca.
Eu confirmei com a cabeça, não conseguindo quebrar o contato com seus olhos, que me chamavam, me provocavam, me induziam a fazer algo.
E então , você não vai fazer algo a respeito?
- Isso parece ser bem gostoso falou pausadamente, usando um tom de voz baixo e provocativo, tomando um último gole na bebida, deixando-a de lado, se inclinando na minha direção. – Posso provar?
Balancei a cabeça em afirmação quase imperceptivelmente, bem devagar, sentindo meu corpo ficar ainda mais tenso com nossa proximidade, fraquejando miseravelmente quando com um frio forte me atingiu em cheio no baixo ventre.
Excitação.
Eu estava ficando excitada só pela forma dele me olhar!
recusou, afastando minha mão, pegando a colher e a taça, colocando ambos em cima da pia.
- Você não quer? – perguntei confusa, me esforçando ao máximo para não gaguejar como uma idiota por estar surpresa com sua atitude tão firme em relação a mim pela primeira vez em dias.
- Existe uma maneira muito melhor para provar, não acha? – ele colou seu corpo no meu, apoiando as mãos na pia, me deixando encurralada de um jeito que mesmo que eu quisesse, não conseguiria sair.
Nossos rostos estavam tão próximos que ficamos vesgos. O hálito de cerveja bateu em meu rosto, me deixando meio sonsa.
O encarei e pensei que iria me afogar nas profundezas de sua íris , a intensidade de seu olhar, o desejo refletido nelas, fazendo meu corpo pegar fogo. Sua boca tão perto da minha, entreaberta, como um pedido silencioso para que eu a provasse, suas mãos em minha cintura me prensando contra seu corpo.
- Alguém pode entrar, . – disse fazendo a melhor cara de inocente possível com o intuito de ver até onde ele iria com aquilo tudo, colocando uma mão em seu peito, para pará-lo antes que nossas bocas se encostassem, sentindo seu coração tão inquieto quanto o meu.
afastou um pouco nossos rostos, me estudando com uma expressão divertida, os olhos faiscando, querendo me mostrar o que ele pretendia.
- Não se preocupe com isso, eu tranquei a porta. Ninguém vai nos interromper, a não ser que você queria. – ele disse simplesmente, como se fosse a coisa mais natural a se falar naquele momento, pegando a minha mão, entrelaçando nossos dedos. – Você se incomoda se eu ficar tão próximo a você?
Tudo rodava. A respiração pesada e difícil, a boca seca, ansiando por mais aproximação, o corpo queimando, desejando um toque... Nunca tinha sentindo tanto desejo em minha vida.
- Não... – respondi, olhando de um jeito bobo para nossas mãos unidas, antes de voltar a fitá-lo, me derretendo por dentro. – Nenhum pouco.
O micro-ondas apitou, mas não me atrevi a me mexer.
- Vejo que estamos de acordo então. – disse acariciando devagar meu rosto com a outra mão, grudando sua boca na minha num selinho demorado, encaixando perfeitamente seus lábios entre os meus, movimentando-os com lerdeza, capturando bem de leve o gosto do chocolate. – Hmmm, - ele murmurou contra minha boca, me dando mais um selinho. - isso é gostoso, mas ainda não provei o suficiente.
- Então por que você não tenta de novo? – provoquei com um sorriso encapetado.
- Você não deveria me olhar e nem sorrir desse jeito quando estamos muito próximos, sabia? – ele mordeu o próprio lábio inferior, desejoso.
- Por que, ? – dei mais um sorriso, revezando a atenção para seus olhos e lábios. – Você não se garante?
- Me garanto muito bem, , esse é o problema. Ou melhor, o seu problema. – o ouvi dizer poucos segundos antes de fechar os olhos.
O som da nossa risada pôde ser ouvido antes de nos chocarmos boca contra boca. Meu corpo tremeu e pegou fogo quando a língua gelada e macia de tocou a minha quente, transmitindo sensações térmicas, misturando os sabores do chocolate e da cerveja. Quando pensei que ele fosse se afastar, nossas mãos se soltaram instantaneamente para que pudéssemos nos tocar, e logo as minhas percorreram pelos seus braços e ombros, envolvendo seu pescoço, o trazendo mais junto a mim, tomando a iniciativa de aprofundar o beijo, mordendo levemente o lábio inferior dele, transformando o beijo em mais urgente e faminto, enquanto ele me pressionada mais contra a pia fria, apertando a minha cintura e quadril com força, embrenhando suas mãos por dentro do meu cardigã sem pudor nenhum, me deixando trêmula e mole ao senti-lo dedilhar minha pele exposta ao seu carinho gostoso e lento, causando arrepios fortes em mim.
Sorrimos durante o beijo quando arranhei vagarosamente a lateral do seu corpo por de baixo da regata, indo até a região da sua nuca, o arrepiando, puxando e brincando de bagunçar seu cabelo sedoso, sentindo suas mãos vagando pelo meu corpo por de baixo da roupa, subindo, chegando ao começo do meu top, ameaçando uma carícia num seio, para depois descer, tocando de baixo pra cima em minhas pernas, apertando-as com vigor, subindo um pouco a minha saia.
explorava meu corpo, assim como eu fazia com o dele.
Nessa hora eu já não tinha mais controle sobre minha libido que já estava explodindo como um vulcão em erupção, meu sangue circulava como larva por dentro das minhas veias, e sem pensar duas vezes, empurrei sua camisa xadrez pelos seus ombros, tendo ajuda de para tirá-la, jogando-a em algum lugar dali, o deixando apenas com sua regata branca. rapidamente voltou a me agarrar, sendo mais agressivo dessa vez, levantando uma das minhas pernas, subindo ainda mais a minha saia, quase me fazendo perder o equilíbrio se não fossem seus braços para me apoiar. Pôs minha coxa na altura do seu quadril, me grudando contra si, me fazendo arfar e lamuriar contra sua ereção evidente. Minha mão ansiosa foi até sua bunda durinha, e a outra se juntou a sua em minha coxa, com nossas línguas se enroscavam numa briga para saber quem beijava com mais vontade e fome, nos devorando deliciosamente como animais insaciáveis, deixando o gosto de doce e álcool perpetuarem. Eu nunca tinha sido beijada daquela maneira. De uma forma tão desesperada, insana, como se fôssemos amantes que não se veem há muito tempo.
Apertamos-nos contra o outro como se nossos corpos fossem se difundir a qualquer momento e me vi no paraíso quando os movimentos da sua pélvis contra a minha começaram de uma maneira precisa e ritmada. O meu grau de moleza era tão alto que a perna que apoiava o meu peso fraquejou e quase me vi no chão, sendo amparada por , ouvindo uma risada convencida. Não pude conter um gemido baixo escapar, descobrindo o quanto minha intimidade estava sensível a cada movimento, e imaginando como seria se nossos sexos finalmente se encontrassem. Só então percebi que além da tremedeira, da sensibilidade e das pernas fracas, meu fôlego também já estava precário, antes que eu pudesse fazer algo sobre isso, parou de me beijar e afastou a minha trança (ou o que restava dela), para poder se apoderar do meu pescoço da mesma forma desesperada, me mordendo e chupando lentamente, puxando com os dentes o nódulo da minha orelha, me fazendo arfar descontroladamente com a cabeça pendendo para trás e olhos fechados, cravando minhas unhas em sua nuca, tamanho efeito sobre mim.
Minha nuca não era a única parte do meu corpo que estava úmida.
Aquilo estava me assustando, era como se eu tivesse sendo preenchida por ele, por todo um carinho reprimindo dentro de si.
Tentei me concentrar em puxar que o ar entrasse novamente em meus pulmões, sendo quase impossível com a sua língua e dentes na minha pele.
Os movimentos pararam e minha perna foi solta, me deixando extremamente indignada, e sem que eu percebesse como, conseguiu abrir os botões que restavam do meu cardigã, fazendo com que ele tivesse o mesmo final da sua camisa, até que eu ficasse apenas com a blusa fina e o top. Subi a barra da sua blusa, tirando de uma vez só com a sua cooperação, não conseguindo reprimir a vontade de abrir os olhos para ver seu corpo másculo daquela forma por meu mérito. Deslumbrei seus ombros, peito e barriga, e o abracei, sorrindo sozinha como uma idiota, mordendo meu próprio lábio por causa das milhares de perversões que eu almejava fazer com aquele corpo maravilhoso todinho pra mim.
Eu estava tão quente que se jogasse água em mim, ela iria evaporar no mesmo instante, como acontece em chapas de hambúrguer.
Meus dedos festejaram como crianças quando puderam tocar em seu abdômen, que se contraiu com minhas unhas arranhando pontos estratégicos, até a barra da sua calça jeans, abrindo o botão e descendo o zíper. Mordi meu próprio lábio novamente encontrando com um par de olhos sedutores e provocativos me fitando atentamente, antes de voltar a me beijar sensualmente com sua língua experiente, logo diminuindo o ritmo, sussurrando meu nome quando coloquei a mão por dentro da calça, acariciando seu membro, sentindo seu tamanho e rigidez, a cada pulsada violenta aos meus toques.
Eu queria ir mais longe e não estava me importando em demonstrar.
Ele sussurrou meu nome de novo e de novo e de novo, sugando minha língua, dando mordidas no meu lábio, soltando gemidos roucos, como se implorasse para mais, me estimulando a provocá-lo, percorrendo minha mão por toda a sua extensão, enquanto eu distribuía beijos molhados por seu queixo e maxilar, chegando até o pomo-de-adão, descobrindo mais um dos seus pontos fracos quando suspirou e me apertou sem ter noção da sua força.
Antes que eu conseguisse tocá-lo verdadeiramente ele segurou minha mão bruscamente, colocando-a de volta ao pescoço, puxando meu cabelo e mordendo meu lábio repetidas vezes, o deixando dormente e depois sugou a minha língua com tanta força que chegou a doer.
Corpo com corpo, mãos com corpo, língua com pele, língua com língua, mãos apertando, descobrindo, procurando, arfadas e gemidos, calor, muito calor. Desejo, desespero, urgência.
Eu e ele.
- Acho melhor pararmos com isso – ele suspirou, de repente, com os olhos fechados e a testa franzida, como se estivesse fazendo um grande sacrifício. E tudo isso se confirmou quando suas íris me encararam.
- ...
- O seu beijo é tão bom – ele me interrompeu, voltando a fechar brevemente os olhos, esfregando seus lábios nos meus, ponderando suas próximas palavras. – É viciante... E está se tornando o meu maior vício, isso não pode acontecer de jeito nenhum.
- Então por que... Por que você deixou tudo isso acontecer novamente? – perguntei baixinho com a boca seca, revezando meus olhos entre os que me encaravam, e sua boca vermelha em consequência dos nossos beijos. Algo me dizia que a minha não estava diferente.
- Por que eu quis, - ele sorriu marotamente, me dando um beijo no canto da boca, mordendo meu lábio de leve. – por que eu posso...
Foi como um estalo. Meu cérebro processou essa última frase tão rapidamente que me deixou um pouco tonta. tentou me beijar novamente, mas fui mais rápida o empurrando mesmo sabendo que a distância entre nós não seria muita.
Por que ele pode?
- Então é isso? – perguntei chocada com as suas palavras, aumentando meu tom de voz com Danny ainda atordoado com a minha reação agressiva. – Então foi por isso que você beijou? Simplesmente por que pode?
- Não, não é nada disso , você entendeu errado o que eu disse... Eu...
- Tem certeza que eu entendi errado? Por que agora vai ser diferente? Você não vai mais me evitar como fez durante essas semanas? Não vai mais ser um poço de estupidez comigo? Porque é isso que você tem feito desde que a gente se beijou pela primeira vez e eu nem sei o motivo! E agora você chega todo carinhoso como se as coisas entre nós não andassem estranhas, e ainda por cima diz que me beijou porque pode como se eu fosse uma qualquer!
- Você não me deixa explicar! – ele disse aumentando a voz também, tentando me acalmar.
- Você vai dizer o motivo disso tudo? Ótimo, estamos chegando em algum lugar finalmente. – cruzei os braços, decidida a ouvir o que ele tinha a dizer.
- , eu... – ele abaixou a cabeça, respirando fundo enquanto travava uma batalha interna, enquanto se decidia se eu deveria ou não saber tudo que ele estava sentindo em relação a nós. Minutos se passaram, mas pra mim foram como séculos. Meu coração acelerou drasticamente, mas tentei me conter. Eu não queria que desconfiasse o quanto eu estava ansiosa, ou o quanto uma esperança crescia dentro de mim querendo ouvi-lo dizer que eu era tão especial pra ele, quanto ele era pra mim. – Você não entende... – ele finalmente disse ainda com a cabeça baixa. – Eu não posso dizer o motivo porque simplesmente ele não existe.
- Era tudo o que eu precisava ouvir. – senti meu coração ser esmagado pelas minhas próprias mãos, junto com a esperança perdida. Meus olhos queimavam.
Eu precisava urgentemente estar o mais longe possível de .
Virei-me, evitando encostá-lo com qualquer parte do meu corpo quando me movi em direção à porta, mas antes que conseguisse me afastar muito, segurou o meu pulso. Eu parei, olhando para sua mão que me segurava quando ele começou a deslizar o dedão sobre as costas dela.
- Você tem algo pra me dizer? – voltei a olhar pra frente, tentando parecer decidida enquanto seus olhos estavam fixos no meu perfil e os meus gritavam para que eu piscasse e as lágrimas pudessem sair.
Ele quis entrelaçar nossas mãos, mas eu não deixei.
- Você tem ou não?
- Não. – pela minha visão periférica, o vi balançar a cabeça enquanto sua voz respondia minha pergunta num tom baixo e fraco.
- Foi o que eu imaginei. – engoli em seco, olhando para cima já sentindo que não conseguiria mais segurar meu choro. – Agora você pode largar a minha mão?
Ele soltou, mas antes roçou mais um pouco seus dedos em mim como se soubesse como tudo aquilo estava mexendo comigo. Sai dali o mais rápido possível antes que mais alguma coisa me impedisse de sair daquele trailer.
Corri em direção a festa, ouvindo gritos de comemoração. Minhas pernas avisavam que eu precisava diminuir o passo, e a contra gosto, acatei ao aviso, encostando-me em uma árvore. Respirei fundo, procurando desesperadamente algo que fizesse meu peito parar de doer, que acabasse com uma angustia crescente. Fechei os olhos, mas logo me arrependi, porque a única coisa que eu conseguia ver eram os olhos de perto dos meus. Coloquei as mãos no rosto para não gritar da raiva que começava a surgir. As lágrimas não apareceram, para meu espanto, mas ainda sim eu queria chorar.
Meu coração parecia que iria sair pela boca a qualquer momento e eu precisava me acalmar antes de encontrar alguém. Meu peito doía, minha mente estava confusa.
Por que eu estava daquele jeito?
- , o que aconteceu? – abri os olhos, vendo Peter se aproximar com as sobrancelhas levantadas em sinal de preocupação. – Você está pálida.
- Eu... - olhei para os lados, alarmada. Ninguém poderia nos ver dali. – Eu estou bem. Ótima, não poderia estar melhor!
- É claro que aconteceu algo, você está tremendo e parece assustada! – fui fitada com desconfiança. – Sem contar que parece que saiu de um vendaval, sua roupa está toda amassada.
- Não foi nada. Eu estava distraída e acabei caindo – sorri forçado, querendo parecer convincente. – Não há nada preocupante nisso.
Peter me estudou, fazendo uma careta estranha, pensando se deveria ou não acreditar em mim. Por fim ele devolveu o sorriso tão forçado quanto o meu.
- Você perdeu o desfile da polícia.
Por quanto tempo eu fiquei no trailer?
- É, infelizmente... – disse num falso desanimo. Ouvi passos perto de nós e meu alarme soou, imaginando que fosse . – Vem, - o puxei pelo braço. - vamos voltar pra festa.
- , você tem certeza que não aconteceu nada?
- Não, não... Vamos jogar naquela barraca dos patinhos? Talvez você consiga acertar mais dessa vez!
- Para com isso! – ele me parou e me pôs na sua frente, segurando meus braços. – Vai, me conta logo, você está me deixando preocupado. Alguém fez alguma coisa com você? – ele me olhou de cima abaixo. – Onde está o seu casaco?
Em algum lugar do trailer do Ben, era o que eu deveria responder.
- Isso é algum tipo de interrogatório? – ele arregalou os olhos, ofendido. – Desculpe Peter, mas de boa, já falei que não aconteceu nada, então por que você continua insistindo?
- Você está arisca. Parece que está fugindo de alguma coisa ou de alguém. – ele suspirou, cansado. – , você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
- Se fosse algo importante, eu te contaria. – menti descaradamente. Aquilo era importante. – Eu só não estou me sentindo muito bem.
- Tudo bem, vamos voltar então. – ele sorriu, passando o braço pelos meus ombros. Eu não me incomodei, e apoiei a minha cabeça em seu ombro, o abraçando pela cintura, voltando a caminhar. – Você vai querer mesmo ir à barraca dos patos?
- Bom, a gente pode ir à outra barraca, se você quiser. – olhei para cima, rindo por já me sentir menos nervosa.
- Acho que vou aceitar sua sugestão.
Sentei num banquinho depois de Peter insistir para que eu fosse com ele devolver a chave do trailer do amigo do seu pai, antes de fazermos qualquer coisa, mas eu recusei. Preferi ficar esperando, porque assim como a minha família, a dele também não sabia sobre a nossa amizade. Apesar de estar mais calma, eu não iria aguentar calada ser encarada com olhares tortos e reprovadores. Meu nível de irritação ainda estava ultrapassado.
Ele voltou pouco tempo depois, sugerindo que fôssemos até a pista de boliche. Não demorou muito para que eu pudesse mostrá-lo todo o meu maravilhoso desempenho em fazer strikes.
- Olha quem temos por aqui... – virei o rosto depois de fazer mais um strike. Lisa Richards se aproximava tomando milk-shake, usando um decote enorme, parecendo a Pamela Anderson em SOS Malibu, com a diferença das raízes negras crescendo no topo da cabeça, com suas fiéis súditas, Gemma Morgan e Kirsty Harris logo atrás. – Você está saindo com ela, Bradley?
Revirei os olhos, já inquieta com a presença dela.
- Por que não? é uma ótima garota. Ela não é lunática e fútil como outras que temos na cidade – Peter piscou pra mim sugestivamente, respondendo da forma menos grosseira possível.
Lisa, com seu cérebro muito desenvolvido, não entendeu a ironia, e sorriu. Gemma lhe disse algo no ouvido, que a fez abrir ainda mais o seu sorriso de piranha, avaliando o que a amiga dissera.
- Até que enfim você largou o osso, não é? – ela se dirigiu a mim, percebendo que com Peter ela não teria sucesso em irritar. A voz fina como de uma gralha, o jeitinho de puta acompanhando perfeitamente. Como alguém conseguia se relacionar com uma pessoa assim?
Eu sabia exatamente o que ela queria dizer e não daria esse gostinho de me mostrar irritada. Respirei fundo, e peguei uma bola, ficando em posição. Obviamente aquele joguinho de me tirar do sério não acabaria tão cedo e Lisa se postou ao meu lado, tomando seu milk-shake, fazendo barulho com o canudo toda vez que sugava a bebida.
- Você está me atrapalhando. – falei num tom falso de calma, apertando a bola com força com as duas mãos. Se ela não fosse tão dura, provavelmente já estaria amassada.
- Ah, desculpe. – disse, mas não saiu de perto de mim. Esperou até que eu ficasse em posição para jogar a bola e me empurrou de propósito para o lado. A bola invadiu a pista ao lado, até atingir a outra, fazendo o cara do lado reclamar.
Estreitei meus olhos, e num movimento rápido, dei um tapa no copo dela, que caiu, derramando milk-shake em seu par de sapatos.
- Sua desgraçada! – ela reclamou histericamente, olhando para o estrago que eu fizera. – Você tem noção de que são sapatos italianos novos?
Era isso que eu precisava para me acalmar de vez: bater em alguém.
- , não dê bola pra ela. – Peter se apressou pegando no meu pulso, apenas para que eu não voasse em Lisa. Com a maior gentileza, me soltei dele e coloquei o dedo na cara de Lisa.
- Não há nada que me impeça de te bater hoje, sua puta com cérebro de ervilha! – disse entre os dentes. Não havia mais porque me preocupar em não arranjar confusão, já que não tinha mais contato com ninguém fora da cidade.
Peter se meteu entre nós, me empurrando, pedindo calma.
- Puta? – ela repetiu chocada. E eu não entendi o motivo. Ela já deveria estar acostumada a se chamada assim. – Você que não desgruda do por um minuto e eu que sou puta?
- Eu não dou em cima de ninguém! – gritei me desvencilhando de Peter, avançando nela. - E mesmo se desse, a culpa não é minha se ele não quer mais te comer!
Ela soltou um gritinho, ameaçando avançar em mim, mas um cara desconhecido e bem forte como um armário, a segurou pela cintura. Gemma e Kirsty arregalaram os olhos e taparam a boca, escandalizadas.
- Me larga agora! – ela mandou, empinando o nariz.
Eu queria mandá-la cala a boca. Irritar um cara daqueles não era algo inteligente.
Mas bem, estamos falando de Lisa Richards.
- Estou tentando jogar boliche e vocês não estão deixando, o que está realmente me irritando! – ele falou com a voz fina demais em comparação com todo o seu tamanho. – Vocês não vão querer me ver irritado de verdade!
- Não, não... Já estávamos saindo, não é? – Peter disse, sibilando um “olha o tamanho dele” pra mim. Eu confirmei com a cabeça. – Está vendo? Eu e ela já vamos embora.
Lisa e o resto da sua escória ficaram lá, gritando com o cara, enquanto eu e Peter saímos dali de fininho, e quando já estávamos relativamente afastados, tivemos um ataque de riso.
- Eu pagaria para aquele cara bater nela! – falei ainda rindo.
- Eu aposto que sim! – ele gargalhou descontrolavelmente, colocando a mão na barriga.
- Por que você está rindo tanto?
- Da voz do cara! – ele entre mais uma gargalhada, Peter afinou a voz. – “Vocês não vão querer me ver irritado de verdade”, porra! Ele parece àqueles caras que ainda moram com a mãe e comem mingau de manhã!
Minha barriga se contraiu e doeu de tanto rir e meus olhos se encheram de lágrimas, enquanto eu imaginava o cara usando um babador.
- Tô passando mal! – falei, colocando a mão na barriga, sem fôlego. – Minha barriga vai explodir!
- A minha também! – ele encostou-se a uma árvore, puxando o ar.
Nossos risos foram diminuindo, mas foi só nos encararmos por poucos segundos, e Peter voltar a imitar a voz fina, que voltamos a gargalhar como loucos, com direito a ombros se mexendo e olhos lagrimejando. As pessoas nos olhavam como se estivéssemos bêbados.
- Minha barriga tá doendo muito, a cerveja está toda remexida. – reclamei fazendo uma careta, depois que finalmente conseguimos controlar nosso ataque.
- Os músculos da minha boca também estão doendo. – ele massageando a boca com a mão, fazendo um beicinho muito fofo por sinal. – Acho que nunca ri com tanta vontade por tanto tempo!
Dei um sorriso, descobrindo que os músculos da minha boca também doíam, mas não foi isso que me fez desmanchá-lo, e sim a pessoa que estava na minha frente. e estavam tomando cerveja e conversando a poucos passos. Ou melhor, apenas falava distraído, já que mantinha os olhos fixos em mim e em Peter, com uma expressão clara de repulsa. Quando nossos olhares se cruzaram, foi como se eu estivesse novamente no trailer com ele. O seu cheiro me dominou, e senti um calor tão forte que poderia apostar que gotas de suor escorriam do meu rosto e meu estômago se embrulhou, me lembrando da dor na barriga. Não aguentei sustentar o olhar e o desviei, fazendo com que Peter olhasse para trás.
- Você não gosta quando ele nos vê juntos, não é? – ele perguntou magoado.
- Não é nada disso, Peter, é que... – suspirei. Não queria ter que falar com ele sobre isso. - Não gosto da forma como ele olha pra gente.
- Ele tem ciúmes de você.
Eu meio que travei em responder. Peter não era a primeira pessoa a me dizer isso. Katie e Lizzie também insistiram nessa hipótese, mas eu achava um tremendo absurdo e continuava achando. Ele não tinha ciúmes de mim, só não queria que alguém, próximo a ele, tivesse algum tipo de relacionamento com Peter. Era um capricho, como daqueles quando você está na 4ª série e briga com um colega de classe, e não quer que mais ninguém fale com ele.
poderia ter muitas qualidades, mas também era insuportável, arrogante e principalmente, mimado, quando queria. Eu mais do que ninguém já conhecia esse lado.
- Vamos sair daqui – pedi, depois de ter a confirmação de que ele ainda nos encarava.
- Pra onde você que ir? – Peter pegou na minha mão, tapando a visão que tinha de mim. Nossos dedos se entrelaçaram de uma maneira que julguei errada, mas não disse nada. Peter só queria ajudar.
- Qualquer lugar que seja longe dessa festa. Ela já deu o que tinha que dar. Não me importo pra onde, só quero ir embora.
- Essa foi a melhor coisa que você me disse hoje. – ele sorriu tão verdadeiramente pra mim, que se não fosse pela situação, pela reação do meu corpo e mente a presença, mesmo que relativamente distante de , eu poderia sorrir daquela maneira. – Tenho carta branca para te levar aonde eu quiser!
- Se eu puder sugerir algo, sugiro um lugar que dê para beber.
- Abriu um pub novo, acho que você vai gostar dele. Tem música ao vivo! – ele disse animado. – Você avisa que vai sair e eu te espero no meu carro, ok?
- Não vou avisar ninguém. Vamos sair à francesa. Não quero ter que dar explicações...
- Não vai pegar nem seu celular?
- Eu não vou atender se ligarem. – dei de ombros. – Então não vai servir muito, né.
- Vamos logo então.
ainda estava no mesmo lugar quando Peter se moveu, me puxando para irmos até seu carro. Ele me pedia desculpas com o olhar. Até arrisco a dizer que ele me dizia para não ir. Mas eu não me importava. Não facilitaria para ele dessa vez. Nossas divergências chegaram a um ponto em que eu não podia e nem queria dar o braço a torcer. Ele fazia as burradas e eu é que deveria me redimir? Fingir que nada tinha acontecido entre nós? Que nada estava acontecendo? Não , não dessa vez.

Capítulo 13

Katie se jogou no banco, colocando a bolsa em cima da mesa, tirando alguma coisa de dentro dela.
Não deu pra evitar, quando vi, o grito já estava saindo pelas minhas cordas vocais.
Dava para ver pela minha visão periférica que os alunos das mesas ao redor me olhavam nada contentes com o meu escândalo repentino, mas era inevitável. Ainda mais com Katie balançando de um lado para o outro exatamente oito ingressos recém tirados do correio diante dos meus olhos. Dos meus, de Lizzie e Cassie. Lizzie, por alguns segundos, ficou atônita enquanto Cassie gargalhava e eu voltava a dar alguns ataques de alegrias, agora tentando ser mais contida. Quando pensei que o efeito da surpresa já havia passado (e eu já estava quase voltando ao meu estado normal), Lizzie bateu na mesa com as duas mãos e gritou. Nós rimos, espalhando os ingressos pela mesa, verificando se havia alguma possibilidade dos nomes estarem errados.
- Vamos sair daqui ou eu vou enlouquecer - um garoto da mesa quase colada a nossa resmungou para dois amigos. Os últimos concordaram e pegaram seus lanches, indo para outra parte do pátio.
Fiz a minha melhor cara blasé, revirando os olhos, ignorando qualquer comentário que pudesse estragar minha alegria. Esperei semanas pra poder comemorar e não deixaria que atrapalhassem o meu momento.
Tudo já estava esquematizado: O hotel já estava reservado com um quarto com dois quartos, , , e Katie ficaram encarregados de fazer nossa rota de lugares de pubs e boates que iríamos, e mesmo assim eu não acreditava que iria passar um final de semana com meus amigos em Londres. Só eu e eles!
John não criou nenhum empecilho, mas senti que ele ficara receoso mesmo sabendo que também iria e poderia ficar de olho em mim (como se ele já não ficasse) como um guarda-costas. Para ele, eu ainda era a mesma de 1 mês e meio atrás, mas John estava enganado. Eu amadureci. Não tinha outra escolha. Precisei aprender a lidar, aos trancos e barrancos, com a dor, com a perda e com a decepção. Eu ainda era a mesma só que com algumas feriadas, algumas tão profundas que voltavam a sangrar sempre eu estava sozinha, outras já estavam quase inteiramente cicatrizadas.
De qualquer maneira eu estava contente e pequenos detalhes como esse eram apenas... Detalhes, afinal. Eu iria curtir e era isso que importava.
Eu precisava me divertir.
A última semana estava tendo um ar tão pesado e sufocante que me deixava cansada. Eu sentia que meu corpo estava precisando de férias. Meu corpo, meu coração, minha mente... Que era ocupada por duas coisas que me perseguiam sempre: A saudade imensa, gigantesca, gritante e desesperada da minha mãe que sempre latejava a cada segundo e meus sérios problemas de convivência com . A todo o momento eu tentava impedir que minha mente tomasse algum desses rumos.
Eu não queria mais ficar triste. Estava esgotada disso. Tão esgotada quanto uma pessoa pode ficar. Esgotada de chorar no meio da noite pela minha mãe e mais esgotada ainda de ficar mexida com as atitudes de , fossem elas direta ou indiretamente ligadas a mim. Ele, que eu pensei que fosse ser o meu principal refúgio, a minha proteção, estava se tornando um problema com uma dimensão maior do que eu conseguia evitar. Eu me sentia impotente diante disso. O controle não estava mais em minhas mãos. Os meus sentimentos não me obedeciam mais. Nem mesmo quando eu os implorava para me deixarem descansar por algumas horas.
Eu me lembrei daquela pergunta retórica feita há algumas semanas...
Qual seria a própria notícia que abalaria o meu emocional? Quem faria parte dela? A resposta veio clara e certeira: .
- Terra chamando ! Algum contato? – Katie estalou os dedos na frente do meu rosto. Eu olhei para ela e depois para as outras, tirando o canudo da boca, já que o meu refrigerante tinha acabado e eu nem percebi por causa da distração com meus pensamentos. – No que você estava pensando?
- Aposto que ela estava pensando no Peter. – Cassie piscou freneticamente, fazendo cara de apaixonada.
- Só tô um pouco cansada, fiquei a noite toda estudando... – desconversei, evitando encarar Lizzie e seu olhar perspicaz. Ela saberia que eu estava mentindo. – Do que vocês estavam falando mesmo?
- Estamos checando as coisas para sábado – a mesma respondeu e só então eu notei que ela estava escrevendo em um pedaço de folha rasgada. – Vendo se todos da lista foram convidados, se a quantidade de bebidas está ok, essas coisas...
Oh sim, o aniversário de Katie estava chegando. Eu só ouvia as histórias sobre as grandes e inesquecíveis festas dela, e em como todo mundo puxava seu saco só para ter o nome na lista. Em poucos dias eu faria parte de mais uma sem nenhum esforço.
- Seus pais ainda vão estar viajando? – perguntei a futura aniversariante.
- Sim, mas não vai ter problemas, eles já sabem – Katie deu um dos seus sorrisos maliciosos antes de continuar. – Até porque a festa vai estar muito melhor sem eles por lá.
- Hm... – pensei, procurando encontrar as melhores palavras. – Katie, você acha que eu posso chamar o Peter?
Ela trocou olhares com Lizzie e Cassie pedindo ajuda. Eu sabia que ela ficaria sem saber o que fazer, não era sua culpa, mas eu precisava perguntar, não havia nada demais nisso. Nenhuma delas compartilhava mais a birra com Peter, mas também não queriam discutir com os meninos por causa de uma coisa tão banal. Peter não era amigo delas, era meu.
- Eu não sei, . – ela disse receosa. – Não acho uma boa ideia.
- Não, chama sim! – Lizzie disse balançando a cabeça afirmativamente. – A festa é da Katie e ela não tem nada contra o Peter, então não vejo qual o problema. Se os meninos não gostarem, eles que saiam.
- Eu acho melhor n...
- Chama sim. – Katie me interrompeu. – Eu falo com alguns dos amigos do Peter, e falo com o próprio também, então por que não? Essa briguinha boba tem que acabar alguma hora.
Eu concordei e no mesmo instante o sinal avisando o término do intervalo soou. Katie guardou os ingressos dentro da bolsa e foi se encontrar com e o resto dos meninos que já estavam no portão nos esperando. Lizzie e Cassie foram logo atrás. Eu demorei mais um pouco porque estava esperando Peter que vinha na minha direção com seu grupo de amigos. Todos me cumprimentaram quando passaram por mim, mas o único a parar foi ele, que sorriu antes de me dar um beijo na bochecha para depois começarmos a andar em direção aos prédios.
- Você está diferente hoje, mas não sei explicar o por quê. – ele me mediu colocando a mão no queixo, fazendo uma falsa cara de desconfiando. – Vai me contar?
- Eu ia fazer você tentar adivinhar, mas não vou aguentar esperar! – sorri, quase dando pulinhos de empolgação. – Os ingressos para os shows chegaram!
- Que ótimo, ! – ele disse fazendo esforço para acompanhar a minha animação. – Pena que eu não fui convidado...
- Ah Peter, você sabe que não é bem assim, vai. – o empurrei de leve com o ombro para descontrair. - Eu e o pessoal combinamos tudo antes de você chegar à cidade, além do mais, você e os meninos não se dão bem.
Nós paramos em frente ao prédio B. Alguns alunos ainda conversavam do lado de fora.
- Eu sei, estou apenas brincando com você – Peter me olhou daquele jeito intenso dele através dos seus globos azuis.
- Eu sei – soltei uma risada nasalada e mordi o lábio inferior inconscientemente. – Eu fico aqui, vou ter aula de artes agora.
- E eu vou indo para o outro prédio. – ele deu alguns passos na minha direção, me dando mais um beijo na bochecha, dessa vez mais demorado do que o primeiro e em seguida sussurrou. – Te vejo depois.
Continuei parada até vê-lo sumir. Agora seria a parte em que eu suspiro, dou um sorriso de apaixonada e subo as escadas até a sala toda feliz por ter um cara tão foda e divertido como o Peter ao meu lado. Mas não era assim que eu me sentia em relação a ele. Em certos momentos eu podia até ficar mexida com algumas atitudes ou coisas que ele falava, mas eram sentimentos momentâneos. Eu não era boba, sabia as intenções dele para comigo, mas enquanto ele não explicitasse nada, eu fingiria que não era nada perceptível. Eu queria mesmo ser amiga de Peter e não era pra provocar ninguém.
Assim que empurrei a porta transparente e pus meus pés para dentro do prédio, visualizei a silhueta de encostado na parede perto da escada. Ele estava sozinho com as mãos no bolso da calça jeans e matinha os olhos em mim enquanto eu andava até o meu armário para pegar meus pincéis. Eu achei que tropeçaria nos meus próprios pés com tanta atenção.
Quando fechei o armário, ele ainda estava lá, sério, pensativo, com os olhos fixos nos meus movimentos. Em dias melhores eu passaria por ele e lhe daria um sorriso. Ele retribuiria e subiríamos juntos até a sala. Mas não hoje. Eu o vi entreabrir a boca como se fosse falar alguma coisa, mas não ouvi nada. Nenhum som, nenhum resmungo. E então eu passei direto, como se ele fosse um desconhecido. Como se eu não estivesse me sentindo mal por estar fazendo aquilo. Como se ele não mexesse comigo mesmo quando estávamos naquela situação de não nos falarmos. Como se eu não quisesse dizer para ficarmos bem, para novamente, esquecermos sobre nossos beijos.
O orgulho às vezes pode ser uma merda, mas o amor-próprio é bem diferente disso.
Ele continuou parado enquanto eu subia de dois em dois degraus para ser mais rápida. Entrei na sala depressa aproveitando que a professora estava de costas escrevendo no quadro, passando as instruções para reproduzirmos o trabalho do semestre. Meu cavalete era ao lado do de Lizzie.
- Eu quero saber o que está acontecendo, . – ela exigiu daquele tom mandão tão Elizabeth.
Eu permaneci quieta, fingindo prestar atenção na professora que agora falava e não no que ela havia dito.
- Você sabe que eu posso ser persuasiva quando quero. – Lizzie cochichou, trazendo seu cavalete para mais perto do meu. – Eu sou sua amiga, quero saber o que está acontecendo com você.
A porta foi aberta, tirando por alguns segundos um pouco a atenção dela e de quase todos da turma. passou por nós de cabeça baixa, dirigindo-se até a parte de trás onde estavam os outros. Lizzie olhou de mim para ele e levantou apenas uma sobrancelha fazendo a expressão de que estava começando a entender algo.
- É alguma coisa com o , não é? Vai , me conta!
- Não é nada, Lizzie, é sério. – fingi mexer nos pincéis. Não dava para encará-la sem me denunciar. Elizabeth é a última pessoa da face da terra que você poderia enganar e isso era péssimo pra mim nesse momento. – Eu e estamos bem.
- Não é o que parece. – ela revidou – Vocês não se falam desde o festival da cidade e isso tem dias!
- Nos falamos sim, ok – me defendi nada confiante, diminuindo o tom de voz não tendo certeza do que falava.
- Falam o essencial, mas não conversam. Antes vocês praticamente se excluíam da gente no intervalo porque conversavam sem parar. – ela bufou irritada e bateu na minha mão que ainda mexia nos pincéis, fazendo alguns caírem no chão. – E para de fingir que tá mexendo nessas merdas! Estou tentando estabelecer uma conversa aqui, sabia? Se você não quiser me contar, tudo bem, o problema é seu, mas não venha dizer que não há algo acontecendo aqui, não deboche da minha inteligência.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Aquele silêncio de choque e receio que se cria depois que alguém te diz algo que é verdade, mas que não te agrada. Lizzie sabia que eu estava escondendo algo, mas como? Como ela poderia me conhecer tão bem a esse ponto em menos de dois meses? Eu era tão transparente com meus sentimentos? Mais alguém já havia notado?
- É tão confuso que nem eu consigo me achar direito no meio disso tudo, quanto mais explicar pra você – soprei derrotada.
Eu precisava conversar com alguém sobre isso. Por que ficar negando se ela já desconfiava? Não queria mais guardar tantos pensamentos e perguntas pra mim. Era preciso compartilhar, saber a opinião de fora e Lizzie sem dúvida nenhuma era a mais apta pra isso.
- Então nós vamos arrumar essa confusão juntas depois – ela me assegurou com um sorriso discreto.
Eu assenti com a cabeça esboçando um sorriso também.
- Agora presta atenção no que você tá fazendo, seu desenho tá horrível! – ela disse apontando para a minha tela.

Não importa de qual escola, cidade, país ou continente você é, a hora da saída é sempre um caos. Eu, Katie e Lizzie nos esprememos entre os alunos e professores nos corredores, procurando, literalmente, a luz no fim do túnel enquanto a última nos contava sobre as fracassadas ligações, mensagens, e-mails e recados no facebook de Carl para tentar reatar o namoro. Lizzie rejeitava qualquer tipo de aproximação e eu não fazia questão de esconder que concordava com sua atitude. Estava mais do que na cara que ela só estava esperando algo relativamente grave acontecer para poder de livrar de Carl. Eu só achei que isso tudo faria ela e ficarem mais unidos, mas isso não aconteceu como eu previa. Só o humor de que melhorou 100%, o que o fez parar de querer irritar tanto Lizzie.
A confusão continuava. Um monte de gente querendo sair ao mesmo tempo, um monte de alunos parados com suas mochilas nas costas e conversando, mas eu e as meninas conseguimos passar por toda aquela algazarra com vida.
- Não é que a vaca veio hoje, meninas - ouvi uma voz conhecida atrás de mim e parei no mesmo instante. Foi só me virar e ver o ar de satisfeita que Lisa Richards fez para saber que aquilo era realmente pra mim.
A Pâmela Anderson oxigenada exibia um sorriso debochado no rosto maquiado demais para o dia, apontando pra mim para que suas amigas e todos que passassem soubessem quem era a tal vaca. Antagônico ao modo como ela falara, eu proferi as palavras num tom mais calmo e monótono possível: - Sou tão vaca quanto à vadia da sua mãe, Lisa Richards!
Posso até ter dito de maneira calma e desinteressadamente, mas foi suficientemente alto pra despertar a curiosidade das pessoas ao redor. Lisa ficou meio aturdida com a minha resposta, abrindo a boca lentamente como uma retardada mental. Eu vi chegando por trás dela com o cenho franzido, como se quisesse saber o que estava acontecendo, e estavam com ele e não muito longe dali eu pude ver o Peter virando a cabeça pra saber o porquê de uma rodinha ter se formado no meio do estacionamento.
- Como é? – Lisa perguntou com a voz tremendo levemente enquanto saltava do capô da Ferrari vermelha em que estava sentada. Ela parecia incapaz de acreditar que eu havia tido coragem de dizer àquilo pra ela.
- Oh, desculpe. Eu esqueci que você é retardada demais pra entender o que eu te digo – eu falei com calma e uma falsa inocência – Então eu te ajudo. Deixa-me falar mais claramente pra você entender: Sou-tão-vaca-quanto-a-vagabunda-que-te-pôs-no-mundo!
Lizzie apertou o meu braço, nervosa, e Katie quase soltou um orgasmo ao meu lado. A maior parte da multidão começou a rir. Eu ouvi vários ‘Uhhh’ e em seguida Lisa estava lívida caminhando como uma louca pra cima de mim.
- , não cai na provocação dela – Lizzie gemeu ao meu lado.
- É Princesinha , não caia na minha provocação! – Lisa zombou – Afinal de contas, o vem aqui proteger você, não é?
Estava muito fácil. Lisa estava dando sua cara à tapa muito facilmente. Ela provavelmente achava que eu não arregaria na frente da escola inteira. E eu posso dizer que não iria arregar mesmo. Eu não era tão burra assim, ela queria me ferrar de alguma maneira e eu não iria dar o gostinho de cair na dela assim tão fácil. Quando vi outra rodinha em volta de nós, andei em direção a ela e parei na sua frente, cutucando seu peito:
- Não tenho medo de você, Richards! Estou avisando pra não mexer comigo!
E virei para continuar meu caminho até o carro de , mas Lisa foi mais rápida me pegando pelas costas. Pra ser mais exata, pelos cabelos.
Eu ouvi gritos, mas não foram meus. Foi como com Jennifer, tudo ficou branco e vermelho. Eu só conseguia sentir raiva e a necessidade de extravasá-la. As provocações de Lisa não eram de hoje, aquilo foi só a estopim pra todo o resto. Agi por instinto. Quando ela me puxou, eu automaticamente virei e fechei a minha mão em um punho, acertando em cheio em seu olho. Lisa uivou de dor e eu também pelo puxão forte que ela tinha me dado.
- Não toque no meu cabelo, sua desgraçada! – eu gritei, mais pra disfarçar o meu grito por causa do puxão do que qualquer outra coisa.
Lisa, que posso dizer não esperava levar um soco no olho, levantou a cabeça lívida, a mão ainda sobre o olho, e gritou quase à beira de um colapso: - Que tipo de garota é você?
- Do tipo que bate pra machucar! – eu gritei de volta, avançando nela e em seguida lhe dei um tapa na cara, fazendo meus cinco dedos ficarem bem marcados em sua pele leite.
Lisa ficou louca sentindo seu rosto latejar e jogou o corpo dela contra o meu, me empurrando. Nós duas caímos no chão do estacionamento e ninguém chegava para nos separar. Pude ouvir os gritinhos dos alunos, uns excitados, outros horrorizados. Eu continuei a bater nela e a chutá-la de qualquer jeito no chão. Por um momento ínfimo consegui me levantar e dar alguns chutes nela com mais força, mas ela logo tratou um jeito de me dar uma rasteira, me fazendo cair novamente no chão. Levei alguns tapas no rosto e a agarrei pelo cabelo, fazendo-a uivar de dor.
Estávamos, literalmente, nos engalfinhando no chão.
Era uma cena ridícula, eu tinha plena consciência disso. Contudo eu não conseguia sair dali. Eu só queria continuar. Quando eu finalmente consegui dominá-la no chão e segurá-la pelos cabelos de novo, gritei:
- Eu avisei pra não mexer comigo! – em seguida bati com toda a força que ainda tinha me sobrado a cabeça dela no chão. Então de novo, eu levantei a cabeça dela e meti com toda a força no chão. O nariz dela começou a jogar sangue.
Eu iria bater a cabeça dela mais uma vez no chão se um par de braços fortes não tivesse me segurado acima do chão como se eu fosse uma sacola de compras. Lisa não estava tão machucada quanto eu achava, porque assim que fui tirada de cima dela a garota levantou com tudo e se não a tivesse segurado também, ela provavelmente estaria em cima de mim. Me contorci e gritei pra pessoa me largar, esbravejando palavrões.
- Fique quieta! – gritou no meu ouvindo praticamente estourando meus tímpanos, me apertando forte contra si.
Lisa deu uma cotovelada forte em , o deixando sem ar e então ela veio diretamente pra mim, virou de costas, pra me proteger e Lisa trombou com ele. rapidamente se adiantou para segurá-la, dando mais tempo para se recuperar.
Meu estômago afundou quando vi a diretora surgir entre o tumulto dos alunos com o rosto vermelho. Instantaneamente eu parei de me contorcer e gritar, não fazendo me colocar no chão e nem afrouxar o aperto em volta de mim.
- Você conseguiu! – ele falou no meu ouvido, agora sem gritar – Está ferrada!
O local caiu num silêncio mortal enquanto a diretora parou diante de nós com seu terninho preto e salto agulha nos olhando como se fosse nos queimar com algum tipo de visão de raio laser.
- Quero as duas na diretoria agora! – ela gritou apontando pra mim e depois para a Lisa.
me soltou e me colocou no chão e assim que pisei, cambaleei e teria caído se ele não tivesse me segurado de novo. Respirei fundo, forçando ao meu corpo a se recuperar rápido. Sem sucesso, cambaleei de novo e me pegou no colo, me levanto para a diretoria.
Foi humilhante.
carregou Lisa, que havia feito o maior drama na frente da diretora, soltando gemidos, apontando para um enorme roxo em volta do olho acompanhado de algumas escoriações pelo resto do rosto.
Katie, Lizzie e nos acompanharam até a secretaria. De lá, só eu e Lisa entramos na sala da direção. A diretoria soltou alguns resmungos e nos mandou sentar. Eu nem cheguei a abrir a minha boca pra dizer alguma coisa e Lisa já estava berrando coisas ininteligíveis. A professora levantou a mão, pedindo silêncio enquanto se sentava em sua cadeira atrás da mesa.
Ficamos por lá por pelo menos duas horas. A diretora passou o maior sermão e depois nos pediu para contar o que havia acontecido. Lisa era uma chorona. Ficou o tempo todo choramingando e dizendo que eu havia batido nela sem motivo.
Na minha vez eu fui a mais sincera e lúcida que pude, falando calmamente.
Antes de nos liberar, ela avisou que ligaria para os nossos pais e nos deu uma semana de detenção.
Encontrei com , , Lizzie, Katie e sentados na secretaria em silêncio. Todos levantaram juntos, Lizzie veio com os olhos chocados, Katie sorrindo e não parecia nada feliz. e me abraçaram de lado, sussurrando que eu havia me saído muito bem na briga e que estavam orgulhosos de mim, enquanto andávamos até o estacionamento, que agora se encontrava vazio. Eles se despediram de mim, me deixando sozinha com , não antes de Lizzie fazer um telefone com as mãos, sibilando "te ligo depois".
- Você tá bem? - ele perguntou preocupado, me olhando dos pés a cabeça.
- Acho que sim - respondi baixo, avaliando o estrago da minha roupa. Minha blusa azul estava numa mistura de sangue de Lisa Richards e sujeira e minha calça estava rasgada no joelho.
- Ótimo porque eu e você vamos ter uma conversa! - mudou seu tom, falando como se fosse meu pai, quando paramos em frente ao seu carro. – Vamos pra casa.
- E se eu não for com você? – disse erguendo meu queixo. - Você não é meu pai!
Engoli em seco por causa do olhar que ele me lançou.
não me respondeu. Ele simplesmente agarrou o meu braço, abriu a porta do Land Rover com um clique e me jogou contra o bando do carona. Ele bateu a porta com força e eu olhei pro lugar onde ele havia agarrado meu braço. Estava queimando. As marcas dos dedos dele estavam ali.
- Não pense nisso! - ele rosnou, lançando um olhar realmente zangado quando viu pelo vidro que eu tencionava a sair do carro.
Não me mexi mais. E realmente não estava louca ao ponto de enfrentá-lo. não estava irritado ou puto. Ele estava nervoso de um jeito que eu não tinha o visto estar. Eu o encarei zangada também, enquanto ele dava a volta no carro segurando sua mochila e a chave do carro. enfiou a chave no contato, mas não ligou o carro. Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo algumas vezes e olhou pra mim.
- Eu falei que as pessoas daqui não são como da sua escola antiga! Eu te avisei, , te avisei porque conheço exatamente como Lisa é! Agora você está com detenção e ainda por cima participou de uma cena realmente ridícula!
- Se você sabe como ela é, sabe exatamente ao ponto que pode chegar suas provocações! - exclamei indignada por ele não estar no meu lado. - Não tenho sangue de barata!
- Você a socou! - ele disse pausadamente.
- Você não reclamou quando eu bati na Jennifer!
- Era diferente! - ele bufou, agarrando o volante - Você acha que pode sair socando todo mundo que te provoca ou diz algo que não te agrada?
- Talvez, você quer entrar pra lista pra ver?
soltou um berro frustrado e socou o volante, olhando para o lado. Meus olhos queimaram, minha visão ficou embaçada, um nó se formou na minha garganta. Não deu pra segurar, quando vi, já estava chorando. Chorei baixinho, limpando minhas lágrimas com rapidez para que não percebesse o que estava acontecendo comigo.
- Você não devia ter aceitado a provocação - ele finalmente disse ainda olhando para o lado de fora.
- Eu não sou fraca, ! - falei com a voz embargada, colocando as mãos no rosto. - Não sou fraca!
tirou as mãos do meu rosto e me olhou. Seus perfeitos olhos me perfuraram como lâminas afiadas. Ele estava me lendo através deles. Descobrindo o que eu estava sentindo. Eu vi a irritação dele se esvair.
Sua mão cariciou a minha bochecha, limpando qualquer vestígio de fraqueza. Fechei os meus olhos e os reabri lentamente, sentindo minha pele queimar em prazer pelo seu toque carinhoso.
- Não , você não é fraca. Só toma atitudes idiotas de vez em quando! – ele disse calmamente, recolhendo a mão para ligar o carro – Reze para John chegar em casa só irritado porque se ele estiver realmente mau humorado, você está ferrada.
Estávamos saindo do estacionamento quando Peter surgiu, se colocando na frente do carro, atrapalhando a passagem. buzinou, dizendo para ele sair, mas ao invés disso, Peter continuou parado, pedindo para falar comigo.
- Não, ! Depois vocês conversam - segurou, sem nenhuma força, o meu braço quando coloquei a mão na maçaneta. - Vamos pra casa agora.
- Tudo bem, , eu vou falar rápido com ele.
eu nem me mexi direito e Peter bateu no capô do carro, me chamando.
- Ei seu escroto, não bata no meu carro! - bateu no volante. Ele e Peter trocaram olhares ameaçadores.
- Calma! - falei para Peter - Já tô saindo!
- Não, você vai ficar, vamos embora agora! - ameaçou arrancar com o carro mesmo com Peter diante de nós. Eu segurei suas mãos, as tirando do volante. Ele me olhou não entendo o que eu queria.
- Já tivemos confusões demais por um dia - calculei minhas palavras para não irritá-lo mais.
- , sai do carro, preciso conversar com você - Peter pediu vindo para o meu lado.
- Ela vai embora comigo! - apertou um botão do lado da sua porta, trancando automaticamente as portas.
- ! - o repreendi - Pode destravando as portas!
- Não! Esse cara precisa aprender a não mexer com o que é meu!
Com o que é seu?
- Com o que é seu? - eu perguntei perplexa, unindo as sobrancelhas. - Desde quando eu sou sua, ? Me diz, porque nem eu percebi que me tornei sua propriedade!
piscou os olhos freneticamente, aturdido, enquanto me fitava. Depois ficou vermelho, abrindo e fechando a boca como se fosse falar.
- Anda, destrave as portas, eu vou sair! - falei quando ele não esboçou mais nenhuma reação.
Rapidamente ele fez o que eu pedi.
- Ótimo, sai do carro! Fique com ele! - ele pronunciou as palavras carregadas de desprezo quando eu abri a porta para sair.
Não respondi. Bati a porta e foi só me afastar um pouco que arrancou mesmo com o carro, cantando pneus pela saída.
- Ele tá bem nervosinho hoje hein - Peter comentou rindo.
Revirei os olhos demonstrando impaciência.
- Não comece.
- Tudo bem – ele piscou com um olho, me puxando com delicadeza, estudando os machucados que eu provavelmente tinha no rosto. – Você está bem?
- O que você acha? Eu bati em Lisa Richards! Estou ótima! – sorri, fazendo uma careta de dor quando ele tocou numa parte perto do meu lábio. – Ai!
- Desculpe – ele sorriu mais uma vez, subindo o olhar dos meus lábios até meus olhos – Você soca muito bem. Lembre-me de nunca brigarmos.
Sorri, me desvencilhando com cuidado das mãos de Peter. Ele sustentou o sorriso, mas vi pela sua expressão que ele não havia gostado.
- Você não chegou a almoçar. Vamos comer e aproveitar que você ainda não está oficialmente de castigo. Depois eu te deixo em casa.
- Vamos o mais depressa possível! - concordei já ouvindo as reclamações do meu estômago. -Com toda essa confusão eu não tive tempo de comer.
Fomos no carro de Peter até a uma lanchonete que ficava a cinco quarteirões da minha casa. Sentamos em uma mesa perto de uma grande janela e comemos grandes hamburgueses com dois potes de batata frita e tomamos sundaes com cobertura de chocolate. Conversamos e rimos a tarde inteira, falamos de música e filmes. Peter ainda começou a me dar umas dicas de como dar socos mais eficazes (nada que já não tivesse me falado antes) até que acabamos falando sobre o meu passado. Ele já sabia superficialmente sobre o que tinha acontecido, mas agora ele era um amigo, eu não precisava mais esconder. Contei até mesmo sobre a cena com Jennifer e Sam. Ele me ouvia atentamente, perguntando quando não entendia algo, fazendo observações - algumas que eu mesma já tinha feito sozinha.
- E desde então você e ele não tiveram nenhum contanto? – ele se referiu a John enquanto enfiava uma batata frita na boca.
- Ele tentou, mas eu não quis... Quer dizer, o cara me abandonou do nada, como se eu e minha mãe fôssemos brinquedos que ele estava cansado de brincar. Foi um choque chegar em casa e ver meu pai indo embora e minha mãe chorando sem parar. Eu só tinha sete anos, Peter.
- Você nunca pensou que pode ter acontecido alguma coisa que fez seu pai fazer isso? Porque você mesma acabou de dizer que ele nunca mostrou que estava insatisfeito com alguma coisa.
Eu olhei confusa para ele, sentindo a sementinha da dúvida e incerteza sendo implantada no meu cérebro. Eu nunca havia pensando realmente que poderia ter algum motivo por detrás disso.
- Não, nunca pensei nisso... - disse tentando soar alguma verdade, mas só consegui parecer afetada e mais confusa. - A minha mãe teria me contado... Não acha?
- Eu não sei, . Talvez ela quisesse esconder algo de você por te achar muito nova para saber. – ele deu de ombros. – Ou não. Eu só acho que tem alguma coisa estranha aí...
Eu olhei para o meu sundae quase no fim, pensando nessa hipótese. Eu conservei uma raiva tão grande de John durante todos esses anos que não pensei exatamente o que o levou a fazer isso. De certo modo, eu fui egoísta por pensar apenas e mim e em minha mãe e nunca ter procurado saber o lado dele. Eu me senti mal.
- ? – Peter me chamou, abanando a mão na frente do meu rosto. – Você está bem?
- Sim. – sorri amarelo. – Só estava pensando.
- Acho que fiz merda, né? - ele fez uma careta - Não deveria ter falado nada, desculpa.
- Não, Peter. Foi ótimo conversar com você sobre isso.
Quando escureceu Peter me deixou na esquina da minha rua. Fui caminhando com passos lentos em direção a casa, pensando no que conversamos na lanchonete. Aquilo não parava de martelar na minha cabeça. Será que realmente existia mais algum detalhe nessa história que eu não sabia?
Meu estômago afundou pela segunda vez quando vi o Toyota Prius prata de Helen e a BMW preta de John estacionados do lado de fora da garagem. Eu imaginei ambos sentados no sofá com as caras emburradas, esperando para dar o maior esporro da minha vida, mas quando entrei a cena foi totalmente diferente. A casa parecia vazia. Estava silenciosa. Muito silenciosa. Fui até a sala e não encontrei ninguém. A cozinha também estava vazia. Foi então que eu ouvi vozes vindas do escritório de John. Caminhei até lá, encontrando de costas pra mim, ouvindo a conversa por uma brecha que a porta encostada permitia. Ele estava tão concentrado no que fazia que se sobressaltou quando falei:
- Ouvindo a conversa dos outros, ?
Ele me olhou assustado e se afastou da porta como se ela fosse algo muito nojento.
- Eu não estava escutando a conversa de ninguém - ele negou desconsertado e nervoso, despertando a minha curiosidade para saber que assunto tão importante ele tinha escutado para deixá-lo assim.
Não tive tempo de responder, pois a porta foi escancarada revelando um John irritado.
- Onde você se meteu? - ele perguntou quase voando em mim. Não parecia nem de longe ser um homem calmo.
- Fui almoçar, ué. - respondi debochada.
- Não me responda desse jeito, ! - ele disse exasperado, os olhos arregalados. - Eu não acredito que você saiu mesmo sabendo que eu lhe castigaria pelo que aconteceu hoje!
- John, se acalme - Helen apareceu atrás dele, tocando em seu ombro. Ela me olhou com carinho e não zangada como eu achei que faria e me deu um sorriso meigo antes de continuar - Vem , entre e vamos conversar.
John se afastou para me dar espaço para entrar. Ele bufou encostado na mesa com Helen em pé ao seu lado, comigo e em pé, um ao lado do outro. Em algum momento ele roçou sua mão na minha e sussurrou "eu tô aqui se você precisar", me deixando relaxada.
- Eu realmente não entendo o que está acontecendo com você... - John voltou a dizer agora com sua voz normalmente calma depois de um breve período de silêncio. - Eu tento, mas não entendo. Quando eu acho que você vai melhorar, você vai e apronta uma! O que você quer de mim, ?
- Eu só quero que você pare de se meter na minha vida como se fizesse parte dela! - o desafiei só para irritá-lo. Eu queria vê-lo esbravejando como antes. Queria que ele explodisse de raiva! De repente eu senti minha mão envolvida pela de .
- ... - Helen se intrometeu como sempre fazia quando eu e John começávamos a trocar farpas um com o outro. Ela sabia qual rumo aquela "conversa" iria tomar. - Por que você não sobe e toma um banho? Depois vocês conversam.
- Não Helen, ela fica aqui. Nós vamos conversar agora! - John me lançou um olhar duro através dos seus olhos , cruzando os braços na altura do peito. - tem que aprender a enfrentar as coisas. - eu percebi um duplo sentindo nas suas palavras – Você quer chamar a minha atenção, não é? Está agindo como uma criança mimada!
- Se eu sou uma criança mimada pode ter certeza que não foi graças a você! - dei um passo pra frente o encarando com superioridade. - Você perdeu essa fase!
- Meça suas palavras comigo! Eu não sou um dos seus colegas de escola! - ele se desencostou da mesa, vindo pra cima de mim. Helen logo se adiantou, o segurando pelo braço.
- Claro que não, eles merecem muito mais respeito meu do que você! - gritei.
Se não fosse por Helen, John teria voado em mim nessa hora.
- Sobe! - ele mandou com a voz trêmula. - Sobe agora! Agora vai ser assim, enquanto você agir como uma criança, vai ser tratada como tal!
- Você deve estar se achando muito pai agora, não é? – perguntei sarcástica, as lágrimas de raiva brotando em meus olhos e quando apertou mais a minha mão eu a sacudi e me soltei dele.
- Sobe, ! – John repetiu, fechando os olhos e respirando fundo.
- Você não é mais meu pai! – rugi – Você perdeu esse cargo quando se mandou!
- Não estamos falando disso! – John se descontrolou e gritou comigo. – Sobe agora e fique por lá!
- Você acha que pode entrar e sair da minha vida, brincar de fazer papel de pai, mas você não pode John! Não pode! - berrei com toda a força que eu consegui. As lágrimas explodindo nos meus olhos e rolando pelo meu rosto. segurou o meu braço, tentando me afastar de John que agora estava bem próximo.
- John, por favor, se controla! - Helen fez o mesmo com ele, agora suplicando desesperada como se previsse o que aconteceria caso ela não se metesse.
- Você me afastou, ! – John gritou de volta como se pedisse desculpas, como se suplicasse. – Você não quis me ver! Você me tirou da sua vida!
- Por acaso você acha que eu deveria simplesmente agir como se você não estivesse abandonando a mim e a minha mãe?
- ... – advertiu, apertando ainda mais a minha mão, me direcionando para fora do escritório.
- Não estamos falando disso... Você não entende – os olhos de John escureceram. Seus olhos perderam totalmente o brilho. Não havia mais nada refletido neles, nem mesmo raiva. Nós dois não estávamos mais ouvindo e Helen. John e eu estávamos finalmente vomitando nossas mágoas.
- Falamos apenas do que você quer não é? Você é o pai agora, está no controle!
Eu sabia que John estava no limite e mesmo assim não quis parar. Eu queria magoá-lo tanto quando fui magoada no passado.
- Está abusando, ! – ele voltou a gritar, deixando claro o meu pensamento.
- O que você vai fazer? – rosnei já não tendo mais garganta para gritar. – Qual vai ser o castigo? Ele vai ser por quebrar a cara daquela piranha ou por não te querer como pai?
Eu não me lembrava se John até aquele dia, tinha levantado a mão para me bater. Mas isso já não importava porque ele o fez. John bateu em mim. Uma bofetada, bem dada e estalada. Meu rosto virou com brutalidade e o lugar atingido latejou na mesma hora como se estivesse sido marcado em brasa. Helen gritou sobressaltada pelo eco do tapa, se pondo entre nós rapidamente, empurrando John para trás. ficou na minha frente para me proteger e me abraçou gentilmente enquanto eu ficava imóvel com a mão no rosto. Olhei pra John por cima do ombro de vendo que ele tinha uma mistura de culpa e assombro no rosto.
- Nem isso faz de você meu pai – falei baixo, mas o suficiente para todos escutarem. – Você nunca vai ter o meu respeito!
- Chega! - foi a vez de Helen gritar - Não quero mais ouvir nada! , leve a para o quarto dela!
Eu deixei que fizesse isso. Ele me pegou pelo braço e me arrastou escada a cima até o meu quarto. Abriu a porta e entrou comigo, me ajudando a sentar na minha cama arrumada.
- Você vai ficar bem? – ele perguntou com os olhos me estudando atentamente, tirando o cabelo que estava grudado no meu rosto por causa das lágrimas.
Eu balancei a cabeça negativamente e solucei, liberando mais lágrimas.
- Você podia ter evitado isso... – ele disse compreensivo – Não devia ter gritado com ele e nem dito tudo aquilo... Foi cruel, você exagerou...
- Por favor... – eu disse tapando os meus ouvidos.
- Eu queria poder arrancar essa dor que você tem - a voz de saiu melancólica e preocupada. - Odeio te ver triste, me sinto impotente.
Ficamos nos olhando por um longo período. me olhava com intensidade, mas com seus sentimentos escondidos por um escudo invisível, como ele sempre fazia. Ele sorriu de lado daquele jeito galanteador dele e se aproximou devagar, avaliando se deveria ou não continuar.
E então me abraçou.
Seus braços me envolveram daquele jeito protetor que eu amava. Eu senti seu peito contra o meu, me deixando maravilhada, cheia de saudade daquela aproximação, seu cheiro amadeirado me envolveu, tranquilizando ao mesmo tempo em que me deixou zonza. Enterrei meu rosto em seu pescoço, aspirando ainda mais àquela essência tão perturbadoramente gostosa. A única coisa que eu queria era que continuasse me apertando contra si. Ele agarrou o meu cabelo, pondo sua mão na minha nuca, apertando com força enquanto suspirava no meu ouvido, me arrepiando violentamente. Eu me tornei gelatina nessa hora e arfei, agarrando sua blusa. beijou abaixo do meu ouvido, sussurrando algo incompreensível. Ele depositou um beijo simples no meu pescoço, mas o bastante para me ascender da raiz dos cabelos até o dedinho do pé. Ele foi beijando e beijando, mantendo o controle de acesso ao meu pescoço, até que seus dentes se fecharam carinhosamente na minha pele algumas vezes. pôs seus olhos na altura dos meus, esfregando nossos narizes em um beijo de esquimó e mordeu meu lábio inferior. Suas íris transbordavam necessidade e desejo. Nossos lábios se encostaram com gentileza e ternura. Naquele momento não havia lugar para urgência e fome. Eu precisava de carinho e calma e era isso que me daria.
Brincamos com os lábios um do outro, dando selinhos estalados e demorados até que finalmente a língua de pediu passagem para tocar na minha. Eu dei o acesso e fiz o mesmo com a boca dele. Não houve choque ou surpresa. Eu já conhecia . Conhecia seu gosto, poderia não conhecer todos os seus pontos fracos, mas sabia o suficiente até o momento. Nossas línguas se enroscaram como grandes e devotas cúmplices. Ele grudou seu peito inteiramente no meu, me deixando sentir seu coração acelerado e só então eu notei que o meu estava no mesmo estado. Minhas mãos bagunçaram seu cabelo, se perdendo entre os fios macios e sedosos, fazendo-o soltar gemidos baixinhos. Suas mãos vagaram pela minha cintura por dentro da blusa, eu respirava com dificuldade, mas ainda assim deixei que ele me tocasse, ele pôs as mãos para fora, subindo pelo meu tronco, até tocar em um seio. Eu não afastei e nem reclamei daquela ousadia. Eu queria que ele continuasse e foi assim que ele fez, envolvendo meu seio com sua mão grande, apertando apenas para sentir o tamanho e eriçando o bico.
Eu me sentia febril.
Minha mão tocou em sua coxa, indo até quase a virilha com a intenção de provocá-lo, fazendo empurrar sua língua contra a minha com força e sua mão invadir sem permissão a minha blusa se fechando no seio coberto pelo sutiã, que outrora já fora tocado. quase perdeu o rumo do beijo quando me ouviu lamuriar quando o seu dedão e o indicador pressionaram o meu mamilo. Arfei e gemi contra sua boca, deliciada com aquele carinho indevido pedindo por mais através do beijo, subindo e descendo os apertos em sua coxa. Por alguns minutos eu fiquei imaginando o quanto ele poderia estar excitado.
E então eu me toquei. Eu estava cedendo de novo.
Não, ! Não! Eu me afastei bruscamente, empurrando , que me olhou confuso. Eu vi em seus olhos a mesma confusão que em outros momentos estavam nos meus. Rapidamente ele tratou de tirar suas mãos de mim.
- Sai, - mandei, fechando os olhos. Olhar para ele estava me matando de todas as formas possíveis. – Me deixa sozinha.
- Mas... – ele suplicou.
- Por favor! - recolhi minhas pernas, afundando meu rosto nos meus joelhos com medo de que meus olhos abrissem sem minha permissão. – Sai!
Um frio descomunal passou pelo meu corpo quando percebi a parte em que estava sentado desafundar sem seu peso. Ele levantou em silêncio, dirigindo-se para a porta. Pude ouvi-la abrir, mas não houve nenhum ruído que demonstrasse que ela fora fechada. Apertei fortemente meus olhos contra meus joelhos e fiz o mesmo com meus braços em volta das pernas. Eu só queria um pouco de paz. Eu precisava disso.
- Eu só quero que as coisas fiquem bem – a voz de pronunciou as palavras com cuidado, quebrando o silêncio do cômodo antes de finalmente a porta bater.
Eu me joguei contra os travesseiros e gritei. Gritei muito. Gritei até a garganta arder implorando que eu parasse. Gritei até ficar rouca. Gritei com toda a força, com toda raiva, mágoa e ressentimento que brotava de mim.
Eu continuei gritando por um bom tempo.
Os soluços simplesmente não paravam. As lágrimas simplesmente não tinham fim.
Eu estava mais machucada por dentro do que por fora.

Capítulo 14

Atenção: Algumas músicas serão citadas ao decorrer do capítulo, mas somente duas serão as principais! Coloque Stutter - Maroon 5 para tocar quando a primeira letra aparecer. E depois Slow Dancing in a Burning Room - John Mayer quando a segunda aparecer.

Observei meu reflexo no espelho virando de um lado para o outro procurando algo que pudesse estar errado, mas ao invés disso, me senti muito satisfeita com o resultado do tecido do vestido que aderira as curvas do meu corpo, sobressaltando os lugares certos sem me deixar parecendo uma prostituta. Depois de concluir que não havia nada de errado com a roupa, fiz o mesmo com o coque frouxo que Lizzie havia passado horas fazendo em mim. Aproximei mais o meu rosto, verificando se os arranhões por causa da briga com Lisa estavam bem disfarçados. Graças a Helen eles não haviam infeccionado. Por último passei mais uma camada de rímel para destacar ainda mais os meus olhos que estavam bem marcados com a sombra preta esfumaçada, concluindo a maquiagem com um batom nude para não chamar tanta atenção.
- Lizzie, 'tô te esperando lá embaixo, vê se não demora! – disse diante da porta fechada do banheiro antes de pegar minha bolsa-carteira preta e sair do quarto sem esperar uma resposta.
Sentei no sofá ao lado de George que estava assistindo The Big Bang Theory. No instante em que sentei, ele virou o rosto, me encarando boquiaberto.
- Ah, como eu gostaria de ir a essa festa! – ele disse com uma falsa cara triste – Pena que já tenho compromisso!
O compromisso de George se resumia a um par de pernas femininas sem calcinha na sua cama, de preferência.
- Sai! – ri o empurrando quando ele chegou mais perto para me cheirar. Eu sabia que George só estava brincando, mas também não iria abusar. – Deixa de ser bobo!
- Só não te ataco porque você é minha irmãzinha postiça. – ele disse com um sorriso sacana.
- Você não a ataca porque sabe que é a última coisa que vai fazer na vida antes do John te quebrar em dois e o terminar de dividir os pedaços para pendurar nos postes da cidade – Lizzie apareceu diante de nós usando uma saia justa e curta de cintura alta, uma blusa tomara-que-caia com decote de coração de oncinha, o cabelo ruivo e chamativo bem escovado jogado para o lado deixando a impressão de uma falsa franja e uma maquiagem tão forte quanto a minha nos olhos, com lentes de contato ao invés de óculos. Ela foi até a TV e a desligou, nos encarando com as mãos na cintura.
- Então maninho, como estou?
- Indecente! – George fez uma cara de bravo olhando o tamanho da saia da irmã. – Você não vai com essa roupa, Elizabeth! Seus peitos estão quase pulando pra fora!
Irmãos ciumentos e seus exageros...
- Como você é dramático, George Tallis! – ela revirou os olhos impaciente, mas sustentando um sorriso. – Olha, a mamãe só vai chegar na segunda, mas eu não quero ver roupas da sua amiguinha espalhadas pela casa ou então eu mesma me encarrego de jogar tudo no lixo! Não queremos outra seminua no nosso telhado. Agora vamos, , Cassie já me ligou umas 500 vezes!
- E que horas as senhoritas vão chegar? – George se virou, nos olhando com dificuldade por causa da posição.
- Não temos hora, querido. – Lizzie respondeu mandando um beijo no ar para ele. – Use camisinha!
Ela pegou a chave no aparador do corredor e logo já estávamos indo em direção a casa de Katie. Tínhamos passado a tarde inteira na casa dela ajudado com a decoração e guardando os objetos quebráveis enquanto os meninos estavam encarregados com as bebidas e em ajudar o DJ a montar todos os equipamentos. Só voltamos à noitinha para nos arrumar. Foi graças a essa agitação toda que eu consegui “escapar” de contar a Lizzie tudo o que estava acontecendo entre eu e . Não que eu tivesse mudado de ideia, mas compartilhar aquilo com uma terceira pessoa transformaria tudo em real, mais do que já era, porque enquanto as coisas ficavam entre eu e ele, tudo não passaria de alguns momentos, algumas fraquezas que sentimos um pelo outro. Era como se a partir do momento que eu contasse, apareceria um alerta gritando “É , de fato você está se envolvendo com o seu meio-irmão”.
Eu estava com uma bomba-relógio prestes a explodir e não fazia ideia de qual era fio certo para desligá-la.
E se Lizzie achasse que eu estava louca? Por mais que eu não queira aceitar tal vínculo, eu e somos parentes de certo modo, compartilhamos o sangue da mesma irmã. Era assim que éramos visto pelas pessoas, e era assim que seríamos vistos até o final.
Senti um súbito aperto forte no peito, um aperto que quase me deixou sem ar. Uma sensação horrível que eu não conseguia explicar da onde vinha, ou o porquê e sempre aparecia da mesma forma nos últimos dias. Sobressaltei-me no banco, assustando um pouco Lizzie que me fitou com os olhos arregalados.
Do mesmo jeito que o aperto veio, ele foi embora. Infelizmente, a sensação não.
- Você quer que eu bata o carro? – Lizzie perguntou alterada ainda sob o efeito do susto.
- Desculpa, estava pensando numa coisa. – encostei a cabeça no vidro fechado por causa do frio, me sentindo uma completa idiota.
- E posso saber o que foi que você pensou? – havia mais do que curiosidade na voz dela. Ela praticamente dizia “Eu sei que você está pensando em algo relacionado ao ”.
- É Lizzie, é nele que eu tava pensando... – falei sem me preocupar em dizer o nome de quem eu pensava, Lizzie sabia muito bem a quem eu estava me referindo. – Eu prometi que vou te contar, não prometi? Mas não agora, por favor. Hoje eu quero me divertir.
Ficamos num silêncio tranquilo apenas escutando Johnny Borrell e sua voz maravilhosa cantando America. Eu fechei os olhos, e mesmo assim, conseguia sentir que Lizzie se segurava para não insistir no assunto, mesmo sabendo que estava quase no meu limite.
- Emma te ligou hoje, né? – por fim ela resolveu mudar de assunto, tomando um caminho mais seguro para estabelecer uma conversa comigo. Por isso que eu digo, Lizzie era muito, muito esperta. Reabri os olhos, vendo de soslaio ela me encarando, esperando uma resposta. Por fim balancei a cabeça afirmativamente. – Eles voltam que horas?
- Amanhã cedo, só não sei o horário... – dei de ombros, deixando meus olhos vagarem pelos borrões de pessoas e bares que ficavam pra trás ao nível que o carro tomava, ficando mais acelerado. – Talvez antes de eu voltar pra casa. Estou com saudade dela.
- Emma é um docinho mesmo, quem me dera que George fosse mais parecido com ela.
- Você queria que seu irmão usasse vestidos rodados?
- Não né. Só queria que ele fosse mais carinhoso comigo. – Lizzie dizia, mas não havia ressentimento na voz – Queria um irmão menos ciumento.
Dei de ombros novamente, olhando as pessoas passeando despreocupadas na direção de um pub que parecia bastante cheio. Provavelmente era novo.
- Você... E como vão as coisas com o John? – ela pigarreou me despertando da minha pequena distração – Você falou com ele também?
A sensação foi embora... E no lugar dela o aperto voltou.
Por que eu estava daquele jeito? Por que essas sensações ruins não me deixavam em paz?
- Não! – disse ignorando o que estava sentindo – Não nos falamos desde que aquele merda e irritantemente calmo me bateu! Aquele filho da puta cretino...
O clima em casa estava pesado nos dias decorrentes a minha briga com John. Se o nosso relacionamento já era difícil, depois daquele dia, ele desmoronou completamente. Não sobrou nada. Não da minha parte! E eu deixava isso bem claro. Eu não olhava pra cara dele nem se ele cantasse "Your Song" vestido de Pato Donald como o Elton John, assim como ele não falava comigo. No jantar era assim: eu entrava muda e saia calada. A não ser quando Helen puxava assunto ou Emma contasse alguma coisa sobre a escola. Eu não ignoraria as duas pessoas que estavam me ajudando.
Pobre Emma, não sabia o pai de merda que tinha... Ela não sabia o que tinha acontecido porque não estava em casa no dia fatídico, mas era esperta para entender que era algo grave. Não sei dizer se ou Helen contaram a ela, só sei que Emma não me perturbava para contar nada.
A verdade é que era um milagre eu estar indo a festa da Katie. Um milagre chamado Helen. Foi por seu intermédio que John concordou que eu poderia ficar na casa de Lizzie no final de semana enquanto a família - Emma, ele e Helen - fazia uma viagem tradicional até a Escócia para visitar alguns parentes.
Meu castigo só seria depois da minha volta a Londres por causa dos shows.
- Vocês precisam conversar, . – Lizzie me olhou pelo canto dos olhos como se aquilo fosse uma mãe zelosa avisando algo muito importante. Fiz menção de falar, mas ela continuou, me impedindo. – Eu sei o que você vai dizer, mas você precisa parar com essa sua birrinha e encarar logo as coisas. Você sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter que conversar com John sobre essa relação bizarra de pai e filha que vocês têm... E então você poder saber se ele está ou não escondendo algo sobre o casamento com a sua mãe.
- Tomara que essa conversa seja bem tarde, quando eu tiver uns 30 anos e não morar mais com ele. – rebati malcriada. – Eu já não tenho tanta dúvida assim sobre o casamento deles... Eu não quero o nome da minha mãe naquela boca suja!
- Sabe o que é mais escroto nisso tudo? – ela perguntou parando no sinal e o cara do carro do lado começou a fazer “psiu” pra ela, que ignorou fazendo uma cara de “Eu chutaria as bolas dele sem pensar duas vezes”.
- O que?
- Você odeia o John, mas adora a Helen, que é sua madrasta!
- E daí? Ela é legal! Se não fosse por ela, eu nem estaria aqui! E eu sei que eles só se conheceram quando ele voltou pra cá, minha mãe mesma me contou.
- Vai se foder! – Lizzie acelerou depois de mandar o dedo do meio para o cara que insistia em chamar sua atenção. Depois que nos afastamos o suficiente, ela continuou – Eu sei Helen é legal, mas mesmo assim é meio estranho, não acha?
- Não, na verdade não. – falei só pra contrariar. - Você diz isso porque seu pai não é um babaca como o John.
Lizzie bufou e aumentou o volume do rádio que agora tocava 11th Dimension do Julian Casablancas. Não demorou muito mais do que dez minutos para chegarmos ao nosso destino.
Estacionamentos quase em frente à garagem que já estava ocupada pelo Kia Sorento prata de e pela Land Rover preta de , que estava atrás, impedindo que o carro de desse a marcha à ré.
A casa toda estava iluminada na parte externa enquanto só eram vistas pela janela algumas luzes coloridas vagando pela parte interna. Mesmo a dois quarteirões de distância era possível ouvir Nobody Lost, Nobody Found do Cut Copy tal era volume do som, dando a impressão de que o chão tremia a cada passo que eu dava em direção à entrada. Suspeitei que não demoraria até termos algum vizinho reclamando ou chamando a polícia, afinal já eram 22:30h – relativamente tarde mesmo sendo um sábado e a maioria das pessoas não precisasse acordar cedo no dia seguinte. - ou talvez eles já estivessem acostumados com a barulheira toda vez que Katie dava uma festa.
A porta estava aberta e havia algumas pessoas conhecidas paradas na varanda. Umas conversando, outras se amassando.
- Finalmente! – saudou mais alegre do que o normal, segurando uma Heineken, assim que colocamos os pés dentro da casa. Ele nos olhou de cima abaixo, alargando o sorriso ainda mais. – Uau! Eu tenho as amigas mais gatas do mundo! Vocês não foram presas no caminho por excesso de beleza?
Rimos e lhe dei um tapa fraco no braço. Lizzie se pendurou no braço dele, apertando sua bochecha.
- Onde as meninas estão? – perguntei observando as pessoas indo e vindo pelos cômodos, subindo e descendo a escada, com dificuldade por causa da lotação.
- Katie está chupando a língua do em algum canto da sala. – ele apontou com a mão que segurava a garrafa para um cômodo mais próximo – Cassie está no banheiro ajudando Bridget Hubley do segundo ano.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntei surpresa. Ainda era cedo para ter alguém passando mal, não era?
Ele balançou a cabeça negativamente dizendo de um jeito esperto:
- Nada que já não aconteça nas festas da Katie!
Lizzie e eu nos afastamos de avisando, aos berros, que iríamos procurar os outros, o deixando com dois garotos que tinham as aulas extra-curriculares conosco.
Fomos espremidas e emburradas diversas vezes por causa do mínimo espaço que existia para que pudéssemos transitar pela casa. As pessoas dançavam em qualquer lugar, dificultando a passagem. O calor era infernal. Não havia 1 hora que eu estava ali e já estava me sentindo abafada.
Fui levada pela “corrente” de empurra-empurra para o outro lado, e acabei me perdendo de Lizzie, não tendo ajuda da baixa iluminação que tomava toda a casa. Era impossível me juntar a ela novamente no momento. Entrei na cozinha, o único cômodo completamente iluminado, mas não encontrei nenhum rosto conhecido. Ou pelo menos nenhum rosto que me interessava. Havia algumas pessoas sentadas no balão, conversando e bebendo, me fazendo perceber que a minha garganta estava completamente seca.
Talvez com bebida a sensação ruim e o calor vão embora, pensei.
Resolvi pegar uma Heineken antes de voltar para o mar de convidados com o intuito de procurar os meus amigos, e a abri com a ajuda de um pano de prato, o jogando de qualquer forma de volta a pia, sentindo a cerveja refrescar a minha garganta instantaneamente, me fazendo fechar os olhos já me sentindo melhor, entornando o líquido novamente sem esperar por muito tempo. Olhei para a garrafa vendo que ela já estava no final.
Ignorei o fato da minha pouca tolerância alcoólica, e tomei os últimos goles já pensando na próxima garrafa. Eu já estava me sentindo melhor, mas não ao ponto da angústia e o aperto desaparecerem. E o calor, ah, eu ainda estava com muito calor. Estava derretendo, isso sim!
Abri mais uma Heineken passando os olhos pela cozinha enquanto deixava a segunda cerveja ultrapassar a metade da garrafa e pude perceber que um moreno alto e muito bonito que estava encostado num balcão do outro lado, me encarava sorrindo.
- ! – Katie entrou acompanhada de Lizzie e Cassie, desviando minha atenção para elas.
Ela usava um vestido tomara-que-caia justo e curto cheio de paetês azuis, cinzas e vermelhos que faziam a bandeira do Reino Unido, o cabelo preso num rabo-de-cavalo alto e de lado que era sustentado por um enorme laço com um azul do mesmo tom do vestido, sapatos abotinados cinza com algumas franjinhas discretas e nos olhos uma sombra também azul esfumaçada com uma preta, aprofundando-os. Katie estava realmente linda.
- O que foi? – ela olhou para a própria roupa quando me viu rindo. – Tem alguma coisa errada?
- Não! Você está linda, só achei a roupa diferente.
- Minha cara, não é? – ela colocou a mão na cintura, fazendo um biquinho de convencida. – Cassie que me ajudou a escolher.
- Eu tenho um ótimo sendo de estilo – Cassie me abraçou de lado, rindo. Ela usava um vestido dourado bem curto e justo de manguinha com um zíper - que estava fechado até o colo - até o umbigo, um cinto preto e sandálias pretas com um salto enorme que nunca na vida eu conseguiria me equilibrar. A roupa era a cara de Cassie: chamativa e estilosa. – E você também não está nada mal, hein! Deixa o ver esses peitos e essas pernas de fora! Ele vai ter um ataque!
Troquei breves olhares com Lizzie carregados de significados.
- Aposto que ele não vai ficar com ciúmes pelo parentesco... – Katie jogou a frase no ar, maliciosa, piscando pra mim. – Não é?
Eu pisquei algumas vezes e não disse nada, sorrindo sem graça.
- Bom, se ele vai ou não, não interessa. – Lizzie quebrou o clima me puxando pelo braço, chamando as outras – Vamos dançar um pouco. Como diria a minha mãe: preciso balançar o esqueleto.
- Espera! Espera! – Cassie balançou as mãos toda serelepe com um sorriso do tamanho do mundo – Vamos tomar um shot de tequila! – ela apontou pra o grupo do cara que antes estava sorrindo pra mim. – Vaaaaamos, por favor!
- É claro! – eu, Lizzie e Katie concordamos abrindo sorrisos iguais ao de Cassie. Parecíamos ter descoberto a fonte de juventude.
Tequila, baby!
Fuck yeah!
- Vamos lá, meninos, vamos abrindo espaço! – Katie ia dizendo abanando as mãos para a rodinha de garotos se afastarem para que pudéssemos participar. – Também temos direito de ficar de porre, né?
- Claro Katie, você pode tudo – um cara disse sorrindo para ela já parecendo um tanto alto. Ele era bem forte e careca, com os olhos negros. – Todo mundo vai nessa rodada?
- Sim, todo mundo! – Lizzie confirmou lambendo os lábios. Eu praticamente fiz a mesma coisa quando vi os copinhos serem cheios com bebida e um deles parar na minha mão. Coloquei sal na mão e segurei ansiosa o limão, me preparando para a ardência do líquido.
- Todos prontos? – Outro cara da roda checou se todos estavam abastecidos de tequila. – Ok! Vou contar até três e todo mundo canta e entorna de uma vez só! 1, 2, 3 e JÁ!
- ARRIBA, ABAJO, AL CENTRO, ADENTRO! – gritamos pouco antes de misturarmos tudo e colocarmos pra dentro.
Ardeu. E como ardeu. Eu fechei os olhos, apertando-os, fazendo uma careta quando a tequila descia pela minha garganta, arranhando-a até atingir o meu estômago, me arrepiando. Quando os reabri, eles estavam lacrimejando um pouco e eu sorri com a sensação. Lizzie continuava com os olhos fechados, Cassie e Katie já estavam se preparando para a segunda rodada.
Bebi com vontade. Meus olhos lacrimejaram de novo, e eu não me importei se minha maquiagem estava borrada. Logo o efeito do álcool começaria a fazer efeito.
- Pronto, acho que já estamos ficando de pileque, podemos ir. – Katie sentenciou empurrando uma garrafa de cerveja para da uma de nós.
Enfiamo-nos entre as pessoas para conseguir chegar à sala. Vi pelo caminho amigos de Peter, que acenaram para mim, gritando que ele estava me procurando.
Depois de quase me perder de novo, vi , , e conversando perto do DJ e da pista de dança improvisada no meio da sala. O ambiente, assim como o resto da casa, estava escuro, exceto pelas luzes coloridas que batiam no globo espelhado gigante pendurado no meio do cômodo, deixando tudo meio psicodélico e convidativo para uma festa. Nas paredes havia discos vinis velhos de diversos artistas, dando um toque mais descontraído. Atravessei, com as meninas em meu encalço, a multidão de pessoas que dançavam Skeleton Boy do Friendly Fires, indo de encontro aos meninos que nos receberam com sorrisos engraçados no rosto. Todos bebiam bebidas variadas, e já se mostrava tontinho.
- Nos deram perdido né? – ele brincou, agarrando Cassie pela cintura, lhe dando um beijo indiscreto no pescoço.
- Por que eu daria perdido no homem mais gato da festa? – ela riu também, dando uma mordida na sua bochecha e o agarrando também, começando a sessão amasso em público na parede mais próxima.
abraçou Katie por trás, balançando o corpo dela num ritmo desengonçado de propósito. Os dois estavam tão felizes que nem pareciam ter tido uma briga no dia anterior por causa do jeito ciumento de Katie.
Não que ela estivesse errada, vejamos, é um cara bem gato, simpático e talvez seja o mais inocente entre os quatro, em relação às intenções verdadeiras com que as meninas se aproximam dele. Qualquer namorada teria ciúmes, não?
Ri para os casais apaixonados e passei meus olhos por , que estava ao lado de Lizzie, que estava ao meu lado. Ele sibilou um “oi” pra mim, dando uma golada no seu licor de menta, me encarando como se me despisse com os olhos conforme eles subiam e desciam pelo meu corpo. Ele deu um sorriso de lado bem sacana conectando nossos olhares, e eu desviei os olhos para reprimir a vontade de corresponder àquele sorriso. Tomei uma golada considerável na cerveja, tentando não pensar no maldito calor que voltava a sentir.
Aparentemente as coisas entre nós estavam bem.
Só aparentemente, que fique bem claro.
Ele nem estava lindo usando uma calça jeans escura, uma blusa cinza de gola V com uma estampa que não dava para ver direito por causa da jaqueta de couro preta arregaçada até metade do braço, Vans preto, cinza e branco de cano alto e de quebra com o cabelo todo arrepiadinho.
Não estava! Entendeu?
- Acho que é a melhor festa, Katie! – Lizzie comentou dando uns passos de dança esquisitos, parecendo mais pulinhos do que outra coisa. - E a ideia para os discos foi bem legal, .
Ela piscou pra mim e riu, apontando discretamente para que também dava uns passos estranhos, fingindo que não estava olhando pra ela, mas era impossível não perceber. Ele tinha um sorriso todo idiota no rosto e eu mordi a língua para não falar uma gracinha que os deixasse sem graça.
- Valeu, Lizzie. Eu vi num filme uma vez... - agradeci, mexendo nos fios soltos da nuca, disfarçando a sensação de queimação na pele por ainda estar sob os olhares intensos de .
Droga, por que ele não fala nada? Por que tem ficar me olhando desse jeito?
- Katie, que tal a gente pegar mais bebida? – sugeriu mordendo o próprio lábio, e a rebocou para fora da sala, saindo pela porta que dava para outra parte da varanda, que dava para os fundos da casa, sem nem esperar que ela respondesse.
- Pegar mais uma bebida... – repetiu malicioso, fazendo uma cara de sabichão, dando uma golada na cerveja. - Sei! Ele quer é pegar em outra coisa...
Lizzie riu e deu um tapa fraco no braço dele, balançando a cabeça negativamente.
- Você não presta, ! Nunca vai prestar! – ela disse brincalhona, ainda rindo, mas por trás de um tom acusador – Nunca. - frisou, lhe lançando um olhar esquisito.
engasgou com sua bebida e fugiu do olhar dela. Eu fiquei sem entender, olhando de um para o outro. Lizzie deu de ombros, terminando sua bebida e colocando a garrafa em uma mesinha já ocupada por muitas garrafas e copos.
- Ai, preciso dançar essa música! – Lizzie deu um gritinho, me puxando de repente quando começou a tocar as primeiras batidas de You Only Live Once dos Strokes, uma das nossas músicas preferidas.
Eu deixei minha garrafa vazia em cima da mesinha e deixei que Lizzie me guiasse até quase o meio da pista. Foi apenas nos acomodarmos mais entre as pessoas que eu relaxei e comecei a balançar o quadril de um lado para o outro, sendo acompanhada por Lizzie em passos improvisados.
- SHH-SHH-SHH... I CAN'T SEE THE SUNSHINEEE!! – eu e Lizzie cantamos o refrão aos berros uma olhando pra outra - I'LL BE WAITING FOR YOU BABY, 'CAUSE I'M THOUGH!
- Sit me downs, shut me up. – cantei sozinha, balançando a cabeça, já começando a sentir aquela tonteira em resposta aos dois shots de tequila e três garrafas de cerveja.
- I'll calm down and I'll get along with you. – Lizzie continuou, sorrindo pra mim.
Eu fechei os olhos, ouvindo a música recomeçar, deixando que meus movimentos não fossem calculados. Eu só queria dançar.
A música acabou, mas eu continuei me movimentando e balançando a cabeça como uma louca ao som de Are You Gonna Be My Girl? do JET, achando a playlist do DJ maravilhosa. Estava tão entretida em me divertir que só fui me dar conta que Lizzie tinha se afastado quando ela já estava de volta, gritando. Eu olhei meio desorientada, para o lado em que ouvia meu nome, vendo Peter caminhando, com dificuldade, em minha direção, sorrindo. Ele olhou para trás, parecendo falar com alguém e depois disso não ouvi mais Lizzie me chamando. Só quando Peter estava bem perto foi que eu vi que ela estava o tempo inteiro com ele, só que atrás.
- Peter! – sorri, o chamando num tom mais alto do que o normal por causa da mistura de som e bebida, e num impulso o abracei. Ele apertou com força a minha cintura e me deu um beijo mais pro canto da boca do que pra bochecha. Só não sabia se era de propósito ou apenas acidentalmente. – Estava perdido? Seus amigos disseram que você tava me procurando!
Quando nos separamos, vi o quanto estiloso ele estava com uma blusa de manga comprida branca, uma calça jeans preta e botas pretas discretas. Os cabelos jogados pro lado de maneira desajeitada, cobrindo um pouco seus olhos azuis. Se outro homem estivesse usando aquela combinação, pareceria estranho e até meio brega, mas Peter, desde que o conheci, sempre foi muito estiloso e seguro das suas roupas. Eu adorava o estilo dele. Tudo muito Peter Bradley.
- Eles disseram, é? – ele perguntou constrangido, passando a mão pelos cabelos depois que tirou as mãos de mim. – É, eu tava mesmo... A sorte é que encontrei Lizzie na cozinha.
- Você tinha que ver a cara dele quando me viu! - ela me empurrou um copo de plástico cheio e deu outro pra Peter, ficando apenas com um para si. Eu olhei o conteúdo e não consegui identificar o que era.
- Que isso? – perguntei achando esquisita a cor, mas já entornando a bebida goela abaixo. Era uma mistura forte, muito forte mesmo. Quase tão forte quanto tequila.
- Vodca com energético. – ela me respondeu, tomando também, quase uma vez só.
Peter até que dançava bem para um homem, acompanhando a mim e Lizzie em Just Do It do Copacabana Club na versão remix. Ele dançava um pouco com cada uma, nos rodando entre risadas escandalosas que soltávamos. Meu corpo começava realmente a denunciar os sinais da quantidade de álcool no sangue. A tonteira emitia sinais de que eu deveria parar, mas eu ignorei, tomando mais um ou dois copos de alguma bebida que Lizzie empurrava pra mim durante suas viagens até a cozinha. O nível de álcool no meu cérebro já começava a fazer efeito, e eu já nem sentia a ardência do líquido na garganta, parecia que estava bebendo água. As luzes coloridas foram substituídas por duas brancas que ficavam piscando sem parar, deixando tudo muito lento, piorando a minha tonteira... Eu ri quando quase cai, sendo amparada por Peter.
Em algum momento eu pensei em ter visto perto de nós, me olhando, me estudando, mas quando pisquei para ter certeza de que não era o álcool que estava me fazendo ver coisas, ele já não estava lá.
- Ai, tá muito calor aqui! Vou sentar um pouco lá fora. – Lizzie avisou, passando a mão na testa para tirar o excesso de suor da região.
Eu ia segui-la, também sentindo muito calor, mas antes de da algum passo, Peter segurou meu pulso.
- Fica aqui – pediu, com uma expressão muito apertável.
- Eu tô com calor – disse, me abanando inutilmente e limpando o suor da minha testa. Bendita a ideia de fazer um coque.
- Vamos então mais pra ponta da pista, vem – ele segurou a minha mão, me levando para perto da porta da varanda, onde entrava um ventinho refrescante. – Melhor?
- Sim... – respondi fraco, fechando e abrindo os olhos, por causa da sala que rodava diante deles. Eu não estava simplesmente bêbada. Eu estava muito bêbada. A sensação quando eu fechava os olhos era muito boa, parecia que eu estava voando... A sala ainda girava, eu girava junto com ela... Estava leve, bem, bem leve... Meus lábios estavam dormentes e eu não conseguia raciocinar direito. Nunca, em todas as minhas bebedeiras, eu havia chegado a esse ponto, sentindo tudo de uma vez só.
- , você tá bem? – Peter perguntou entortando a boca. Eu assenti, sorrindo debilmente. As luzes coloridas haviam voltado e brincavam pelo rosto dele. Muito bonito, pensei. – Quer dançar? – eu concordei, sendo envolvida pelos seus braços quando Scar Tissue do Red Hot Chilli Peppers começou a tocar. – Acho melhor você não beber mais, tá muito tontinha. – ele sussurrou próximo ao meu ouvido, me guiando como se eu fosse uma retardada. – Se ficar muito tonta ou enjoada, a gente para, ok?
- Eu tô bem... Peter... – disse com a voz afetada, me sentindo andar sob nuvens conforme dávamos passos lentos por causa do álcool. Sensação boa! De jeito nenhum que eu iria parar de beber!
- Eu gosto de você, . – ele beijou minha testa, voltando à posição anterior depois. Eu não respondi por que não consegui entender o que ele queria dizer com aquela frase. Era mais legal não pensar. Eu estava cansada de pensar... Hoje era um dia apenas para seguir meus instintos, fazer o que me desse na telha. As consequências que fossem resolvidas outro dia.
Passamos a música toda abraçados, com Peter cantando. De certeza maneira era bom ficar daquele jeito com ele, mas eu não conseguia relaxar. Meus olhos, ou o pouco deles que eu conseguia manter abertos, vagavam pela sala e pelo pouco do quintal que era possível ver daquele ângulo. Meus olhos procurando por ele. Onde estava? Por que havia sumido? Com quem estava? Por que ele não tinha falado comigo? Será que estava se agarrando com alguma garota num canto escuro? Senti raiva com esse pensamento. Senti ciúmes. Eu não queria que ele ficasse com ninguém, mesmo que não tivéssemos nada.
As coisas entre nós eram tão complexas e confusas. Numa hora ele me queria, na outra ele me ignorava. Dizia doces, depois coisas estúpidas que me deixavam com raiva. Mas apesar de tudo, nunca me deixava na mão. Mesmo brigados, ele nunca deixou de me consolar. Minha última briga com John confirmou isso. Era como se nossos desentendimentos fossem superados sem a mínima importância. Talvez pelo fato de realmente serem sem importância.
Eu o queria por perto sempre. Sempre. E sentia que ele queria o mesmo.
Fechei os olhos, fingindo que era ali na pista de dança, abraçado comigo, dançando juntinho e apertei Peter contra mim. Tive a resposta positiva no mesmo instante, com ele me apertando também, me fazendo sorrir. Danny estava me abraçando!
Senti aquela vontade de chorar, mas não de tristeza... Não só disso pelo menos. Era mais uma vontade de chorar de saudade, sabe como é? Saudade de tê-lo pertinho de mim. Apertei meus olhos, desejando que voltássemos ao meu quarto em Kassel, onde dormimos abraçadinhos, nos sentindo de uma maneira que nunca pudemos nos sentir de novo. Cheiro, pele, carinho, aconchego, coração com coração. Nossos amassos eram coisa de pele, de carne, de fogo, coisa física. Bons demais, mas não era sentimental. Não havia romance, não por inteiro. Estávamos muito afoitos para deixar que o clima de romance nos dominasse. Estávamos necessitados um pelo outro. Eu queria saber o quão romântico poderia ser.
Merda, beber me deixa mais manteiga derretida do que eu já sou.
- Você tá muito linda hoje. – a voz de Peter me trouxe a realidade, me atingindo em cheio. A uma realidade dura e cruel em que eu fui atirada sem dó, nem piedade e ainda estava aprendendo a lidar. – Não que você não seja linda sempre, mas hoje tá mais... Mulher.
- Você é sempre tão gentil comigo. – disse sem graça.
Ele se separou de mim, sorrindo, quando a música acabou. Um sorriso todo iluminado, que me fez sorrir junto. Ele acariciou o meu rosto e me deu mais um beijo na bochecha, agora da maneira certa.
Balancei a cabeça, dissipando aquela melancolia como fumaça. Não era hora, dia e nem lugar para ficar choramingando e procurando respostas para os meus problemas. Um garoto passou por nós e eu arranquei o copo que estava na sua mão, com a bebida no finalzinho. Ele arregalou os olhos e riu, continuando o seu caminho. Bebi o resto que tinha e joguei o copo de plástico no chão, ainda com uma sede desesperadora. Peter disse que pegaria mais e eu continuei na pisca, dançando. Olhei para o lado e vi Katie dançando com , parecendo bem animados. Cassie e Lizzie também estavam perto deles, dançando, bem altas. Ótimo, eu não era a única de pileque do grupo! Quando me viram, acenaram me chamando para me juntar a elas.
- , minha linda! – Cassie me puxou toda empolgada quando me aproximei. Quase que nós duas caímos de cara no chão por causa da soma de salto alto e bebida. – Tava com o Peter, é, safadinha? Vai pegar?
- Ai Cassie... – revirei os olhos, divertida, me desvencilhando dela.
- A gente viu tudo, tá? – Lizzie disse maliciosa. – Ele tá doido pra te dar um beijo!
Nós gargalhamos e eu nem sei direito o por quê.
- Vocês sabem com quem o tá? – perguntei tentando soar natural, não funcionando muito com Lizzie. É claro que não iria funcionar com ela! Só eu pra achar uma coisa dessas.
- Ele tava aqui com a gente, - Cassie respondeu confirmando que eu não estava louca por achar que estava me observando. – Mas depois ele disse que ia lá pra fora ficar com uns garotos do segundo ano e não voltou mais. Acho que e estão com eles.
- Hm... – murmurei abaixando a cabeça para que elas não vissem o meu sorriso de alívio. Ele só estava com os amigos, sem nenhuma biscate atrás.
- Por quê? – Cassie questionou com uma sobrancelha levemente levantada. Eu engoli em seco, morrendo de medo de ela desconfiar de alguma coisa. – Tá com ciúmes, é?
- Ciúmes? – repeti debochada. – De onde você tirou isso, Cassie? Eu só perguntei por que não o vejo desde que eu e Lizzie chegamos. Estranhei, só isso.
- Você pode até não tê-lo visto, mas o tempo que ele ficou aqui com a gente, não desgrudou os olhos de você... E do Peter, é claro. Acho até que ele ficou mordendo de ciúmes. – com ciúmes de mim? Que piada! Cassie com certeza não tinha noção do que estava falando. Orgulho ferido até poderia ser, afinal eu era amiga do cara que ele mais odiava. – E de qualquer maneira, vocês dois são estranhos. Ficam brigando a toa por coisas idiotas... O já era caladão, depois que você chegou com esses seus enormes olhos e esses peitos, então...
- Eu não tenho culpa do ser estranho. – me defendi, ignorando a parte dos peitos. Lizzie permaneceu calada, olhando de mim para Cassie e por algum motivo, senti que ela dava razão à outra.
- AI, MEU DEUS! – Cassie se sobressaltou colocando as mãos no próprio rosto quando começou a tocar Toxic da Britney Spears. – VENHAM, VAMOS DANÇAR!
Ah, Britney e Beyoncé eram quase divindades para Cassie. Lady Gaga? Puf, fichinha perto das outras, na opinião da minha amiga.
A parte que eu mais gostava das músicas em festas eram quando tocavam as antigas. Cassie puxou Lizzie e eu para a pista de dança, que por incrível que pareça, estava mais vazia, deixando que pudéssemos ver todos que estavam nela. Katie apareceu aos gritos, segurando um copo, e se juntou a nós. Começamos a fazer movimentos exagerados, mas muito sensuais, subindo e descendo, deixando nossas roupas ainda mais curtas. Cassie e Lizzie se juntaram, se roçando uma na outra enquanto cantavam. Fiz o mesmo com Katie, percebendo de soslaio, que alguns garotos nos olhavam. Ri, rebolando mais e mostrei discretamente a Katie. Ela piscou pra mim, e me virou. Fomos descendo até o chão da forma mais sincronizada que o álcool deixava. Ignorei a tontura que as luzes me faziam ter, me virando novamente pra Katie, dando de cara com , e nos encarando, boquiabertos. O primeiro piscou pra mim, se aproximando de Katie, encaixando seu corpo atrás do dela, falando alguma coisa em seu ouvido que a faz rir. Os outros dois ficaram no mesmo lugar, nos observando. Não duvidei que os olhos de pudessem saltar a qualquer momento com tanta intensidade que ele os mantinha em Lizzie. Fiquei entre ela e Cassie até a música acabar e começar outra também da Britney, Hold It Against Me. Estava suada e ofegante quando a segunda terminou, meus pés doíam, mas eu continuei a dançar como nunca tinha feito na vida. Eu estava me divertindo!
Só parei para ir até a cozinha pegar mais uma cerveja, mas acabei mesmo foi tomando mais uma dose de tequila, que desceu sem nenhuma dificuldade. Esbarrei em Peter, que estava segurando duas Heineken.
- ! Eu tava te procurando! – ele me ofereceu uma e eu aceitei de bom grado. – Desculpe por ter te deixado sozinha, eu fiquei meio perdido e acabei encontrando um vizinho antigo, tentei me livrar dele, mas ele ficou me prendendo falando sobre a faculdade...
- Não tem problema, Peter! Eu tava com as meninas mesmo. – e nem me lembrei de você, eu deveria emendar. – Vem, vamos dançar!
- De novo? – ele sorriu, chocado. – Isso tudo é pique ou a bebida?
- Digamos que seja uma mistura dos dois! – disse dando uma piscadela.
Voltamos para a sala, mais precisamente para a pista. , Katie, , Lizzie, e Cassie ainda estavam lá, suados e se agarrando. Isso mesmo, e Lizzie estavam dançando juntos, agarradinhos mesmo, quase se beijando. Por alguns instantes eu fiquei olhando para eles, embasbacada e quis dar um pulinho de alegria. Contive-me para não atrapalhar e rumei com Peter para perto da porta da varanda. Dali eu poderia ver o mais novo casal do pedaço e ainda manter uma distância média caso aparecesse.
Peter logo ficou animadinho quando as primeiras notas de Stutter do Maroon 5 começaram a tocar e pegou nossas garrafas, as colocando em um canto perto do sofá.

I really, I really, Whoa
Eu realmente, eu realmente Ooooohhh
I really need to know
Eu realmente preciso saber
I really, I really, Whoa
Eu realmente, eu realmente Ooooohhh
Or else, you gotta let me go, oh I really, I really
Ou você precisa me deixar ir. Eu realmente, eu realmente

A música e as doses, numa combinação só, já voltavam a fazer o efeito em mim, e me vi dançando da forma mais sensual com Peter. Deixei-me levar pela música, mexendo o quadril de forma tentadora.

This time I really need to do things right. The shivers that you give me keep me freezing all night
Desta vez eu realmente preciso fazer as coisas direito. Você me arrepia e me mantém estremecido a noite
You make me shudder
Você me arrepia
I cant believe it, I'm not myself. Suddenly I'm thinking about no one else
Eu não posso acreditar, não sou eu mesmo. De repente eu estou pensando em ninguém mais
You make me shudder
Você me arrepia

Peter estava ficando louco com a forma que eu estava dançando, podia vê-lo mordendo o lábio, sua mão apertava com muito entusiasmo minha cintura, e seus olhos estavam brilhando. Dava pra sentir o desejo dele atravessando o meu corpo.

I really, I really need to know or else you gotta let me go
Eu realmente, eu realmente preciso saber ou você precisa me deixar ir
You're just a fantasy girl. It's an impossible world all I want is to be with you always
Você é apenas uma garota fantasia em sete partes do mundo. Tudo o que eu quero é estar sempre com você
I give you everything, pay some attention to me, all I want is just you and me always
Vou te dar tudo, dê um pouco de atenção para mim, tudo o que eu quero é você e eu sempre

Fui me soltando mais ainda, se é que isso era possível, dei as costas para Peter e comecei a rebolar. As luzes brancas voltaram fazendo com que eu me sentisse lenta. Aumentei mais o ritmo dos meus movimentos, descendo e subindo. Joguei uma mão para trás, segurando a nuca de Peter, o trazendo mais para perto.

Give me affection I need your perfection. You feel so good you make me stutter, stutter
Me dê carinho, preciso de sua perfeição. Você se sente tão bem, você me faz gaguejar, gaguejar
If I could touch you I would never let go, now you got me screaming and I can not shut up
Se eu pudesse tocá-la, eu nunca a deixaria ir. Agora você me faz gritar e eu não posso calar a boca
Now I'm lying on the bedroom floor, barely even speaking and I can not get up
Agora eu estou deitado no chão do quarto, mal conseguindo falar e não conseguindo levantar
I really, I really, I really need to know or else you gotta let me go, oh
Eu realmente preciso saber ou você tem que me deixar ir

Ele segurou com uma das mãos minha cintura enquanto com a outra passava pelo meu quadril, apertando. Olhei pra frente e me deparei com me fitando profundamente, encostado na porta da varanda, com um olhar de predador. O mesmo olhar do trailer. Isso me inchou, me deixou com muito tesão.
Há quanto tempo ele estaria ali, me observando, me analisando daquele jeito?

You're just a fantasy girl. It's an impossible world all I want is to be with you always
Você é apenas uma garota fantasia em sete partes do mundo. Tudo o que eu quero é estar sempre com você
I give you everything, pay some attention to me, all I want is just you and me always
Vou te dar tudo, dê um pouco de atenção para mim, tudo o que eu quero é você e eu sempre

Peter respirava na minha nuca e sorri maliciosamente para , que não deixava de me olhar um segundo se quer. Ele fechou as mãos em punho quando viu Peter segurando a minha cintura, chegando mais perto do meu ouvindo para cantar a música.

I really, stutter, I really, stutter, stutter...
Eu realmente, gaguejar, eu realmente, gaguejar, gaguejar
You knock me down, I can’t get up, I'm stuck. Gotta stop shakin me up
( Você me derrubar, eu não consigo me levantar, eu estou preso. Tenho que parar de tremer
I can’t eat, can’t sleep, can’t think, sinking under. I'm sinking under
Eu não consigo comer, não consigo dormir, não consigo pensar, estou afundando. Eu estou afundando

Juntei o corpo mais ainda no do moreno atrás de mim e pus a rebolar, sensual e lentamente, sem deixar de fitar o par de olhos que me devorava sem nenhuma discrição. Eu queria aproveitar aquela oportunidade para provocá-lo o máximo. Queria que ele desejasse estar ali comigo no lugar de Peter, roçando com o corpo do meu, me tocando como em outros momentos fizera. Ele sibilou raivoso “Pare com isso agora” e eu neguei com a cabeça, sorrindo.

You're just a fantasy girl. It's an impossible world all I want is to be with you always
Você é apenas uma garota fantasia em sete partes do mundo. Tudo o que eu quero é estar sempre com você
I give you everything, pay some attention to me, all I want is just you and me always
Vou te dar tudo, dê um pouco de atenção para mim, tudo o que eu quero é você e eu sempre

Pude ver salivando e mordendo os lábios, como se estivesse tentando se segurar para não me agarrar, com seus punhos fechados e os olhos estreitos acompanhando meus movimentos ousados. Por um momento sua boca se entreabriu demonstrando que ele estava ficando louco por me ver daquela maneira.

You're just a fantasy girl. It's an impossible world all I want is to be with you always
Você é apenas uma garota fantasia em sete partes do mundo. Tudo o que eu quero é estar sempre com você

Sorri vitoriosa por estar sendo secada daquele jeito. Eu queria deixá-lo doido. Não era isso que ele estava fazendo comigo com suas nuances de tratamento? Então eu não era a única entre nós dois que poderia perder o controle caso fosse provocada.

Give me affection, I need your perfection
Me dê carinho, preciso de sua perfeição
Coz, you feel so good you make me stutter
porque, você se sente tão bem que você me faz gaguejar,
I really, I really, you make me stutter
Eu realmente, eu realmente, Você me faz gaguejar

Ele continuou no mesmo lugar quando a música acabou com o semblante nada amigável. Engoli em seco, e Peter se moveu atrás de mim, sussurrando que precisava ir ao banheiro. Eu concordei sem desviar meus olhos de . Parecia que eu era a única ali que o notara, já que meus amigos não fizeram menção para que eles de aproximassem. Ele sibilou “Bela dança” com os olhos severos e quando pisquei, ele já não estava mais lá. Olhei pela sala, desesperada, mas ele realmente havia desaparecido.
Corri, literalmente, pelo jardim a sua procura, sem nem saber o direito porque estava fazendo aquilo, não encontrando nada além de alguns casais de beijando ardentemente na parte mais escondida da churrasqueira, e outras pessoas mais atrevidas e bêbadas que entravam na piscina de roupa. Meu coração acelerou quando pensei na possibilidade dele ter ido embora. Por que eu estava daquele jeito? Por que não conseguia esquecer a forma dura como ele me olhara? Eu deveria me sentir muito feliz por ter conseguido provocá-lo sem ter a intenção, pelo menos não no começo.
Dei a volta na casa, e senti meu corpo relaxar um pouco quando vi que a Land Rover ainda estava estacionada no mesmo lugar. Adentrei a casa pela porta da frente, olhando de um lado pro outro por qualquer pedaço de . Foi então que eu vi que ele subia, sem saber que eu estava por perto, os degraus que levavam para o andar de cima. O segui, tomando o cuidado para ninguém pudesse interromper o meu caminho. Havia algumas pessoas sentadas na escada, bebendo e conversando, o que tardou um pouco, mas de qualquer maneira, não poderia escapar de mim já que era a única escada que ligava os andares.
Minhas pernas tremeram e meu coração deu fortes solavancos quando cheguei ao patamar, meus olhos pousaram na figura do meu meio-irmão sentado com a cabeça enterrada nas mãos, num pequeno sofá que havia no corredor largo e pequeno. Respirei aliviada por ninguém estar ali já que todos os quartos estavam trancados e não ter a possibilidade de gente subir e descer para uma transa rápida.
Havia algo de errado naquela cena. Algo muito errado, entretanto, eu não conseguia descobrir o que era. parecia pensativo, mais do que normalmente era. Ele segurou forte o cabelo, com raiva e resmungou alguma coisa, que pode ser tão baixo seu tom de voz, não pude ouvir. Eu estava tão lúcida quanto acordei naquela manhã. Assustadoramente não havia nenhum vestígio de álcool no meu sangue. Eu não me sentia tonta, minha visão não estava embaçada, as coisas não estavam lentas.
Me aproximei sorrateiramente, mordendo o lábio inferior apreensiva do que viria a seguir. Fiz uma careta nada atraente, sem saber o que fazer, sem ter a mínima ideia de como abordá-lo.
- , o que está acontecendo? – perguntei preocupada, tirando-o de seus pensamentos. Parei com cinco passos de distância, esperando uma resposta que não veio. – ?
Aproximei-me mais um pouco, mas parei no instante em que ele disse, autoritário, em mais um dos momentos “grosseria”:
- Sai daqui, ! Fique longe de mim!
- Eu só quero ajudar. – falei sem saber direito como agir, com a testa franzida.
- Ajudar? – repetiu sarcástico, olhando friamente pra mim. – Eu não pedi sua ajuda, pedi? Nunca! Então me deixe em paz e volte a ficar se esfregando no seu amiguinho!
- Eu não estava me esfregando em ninguém! – exclamei, irritada por ele ter razão. Era com você que eu queria estar me esfregando, seu babaca!
- Ah! – ele fez um gesto exagerado, se levantando do sofá e ficando de frente pra mim. Retrocedi meus passos, com medo do seu olhar mortal. – Então você está dizendo que eu estou ficando maluco? Que aquela cena ridícula é pura imaginação minha?
- Você é que está sendo ridículo! – chiei impaciente, quase batendo o pé de raiva. - Por que está agindo dessa forma? Não venha me condenar por ter dançado com ele! Não vejo nada demais nisso!
- Ele está te usando, quantas vezes eu preciso dizer isso? – deu mais um passo ameaçador na minha direção. Os lábios crispando, o maxilar travado. – Ele não gosta realmente de você!
- Por que você acha isso, ? Você acha que eu não sou capaz de fazer um cara gostar verdadeiramente de mim? Eu sou tão sem graça assim? – perguntei magoada e irritada. , por um momento, relaxou a expressão, mas ela voltou ao ápice quando eu continuei. – Nem todos são como Sam e você!
- NÃO ME COMPARE A ELE! – berrou lívido, me encurralando de vez na parede. Nossos rostos estavam próximos demais. Segurei a respiração para não poder sentir seu cheiro tão perto. Já bastavam aqueles globos me fitando com intensidade, mesmo que por pura raiva. – EU NÃO QUERO MAIS VOCÊ PERTO DO BRADLEY, ENTENDEU? NÃO QUERO!
- VOCÊ NÃO TEM NENHUM DIREITO SOBRE MIM! – gritei de volta com toda a minha força, semicerrando os olhos. Ninguém subiria para saber o que estava acontecendo, a música não permitiria. – NÃO PODE ME OBRIGAR A FAZER O QUE QUER COMO SE FOSSE MEU DONO! EU GOSTO DO PETER E VOCÊ NÃO PODE FAZER NADA A RESPEITO DISSO!
bateu na parede ao lado da minha cabeça com uma força monstruosa, e gritou olhando pra mim, fazendo minhas pernas tremerem, mas agora de medo. Eu sabia que ele não seria capaz de me bater, contudo, não iria abusar. Funguei, me prensando contra a parede, fazendo o máximo para me afastar.
- Você não precisa ter medo de mim. – disse calmo, colocando os braços de cada lado do meu corpo. A raiva abandonou seus olhos, e só o que eu vi foram fragilidade, confusão e desespero. – Eu só seria incapaz de...
- Eu sei. – o interrompi, sentindo seu hálito quente bater contra o meu rosto. – Não tenho medo de você.
- Eu só quero de proteger. - assumiu uma postura mais ereta. – Tudo o que eu faço e falo é só pra te proteger e você não entende isso!
- Do que você tá falando? Seja mais claro! – aproximei mais nossos rostos, deixando que nossos narizes se roçassem levemente enquanto nos fitávamos com as respirações descompassadas. – Me deixe saber o que se passa na sua cabeça, o que você tenta esconder de mim. Queria muito saber o que você pensa, quando você me olha.
recuou de vez, ficando de costas para mim, os ombros numa postura derrotada. Ele estava travando uma batalha interna, eu sabia disso. Eu podia sentir. Podia porque eu também travada uma batalha comigo mesma a cada vez que tentava entender o que estava acontecendo entre a gente.
- Já devem ter notado o meu sumiço, então é melhor eu descer. – falei frustrada, quando vi que não obteria uma resposta. Não naquele momento, não naquela noite. Mais uma vez!
- Eu sei muito bem de quem você está se referindo! – segurou o meu braço com força, não para me machucar, mas o suficiente para não me deixar dar mais um passo em direção a escada, me pegando de surpresa. – Você não vai descer! Eu arregalei os olhos e no segundo seguinte estava tentando me livrar, sem sucesso pela força que era exercida no meu braço. Estava começando a machucar.
- , me solta ou eu vou chutar suas bolas! – ameacei quando usei a minha outra mão para me livrar e a única coisa que consegui foi que ela também fosse presa. – Você não pode me prender aqui e nem me impedir de falar com o Peter!
Ele avaliou a minha primeira frase com as sobrancelhas unidas e então pareceu ter uma ideia.
- O QUE VOCÊ VAI FAZER? – gritei me debatendo quando começamos a descer as escadas e por causa disso quase caímos em cima das pessoas que continuavam sentadas nos degraus. – ME SOLTA, !
Elas nem ligavam que havia uma garota sendo puxada a força para fora da casa. Estavam entretidas demais com sua bebida e companhia. Não parei de me debater um minuto sequer e , irritado, me jogou em seu ombro, não se importando se a minha calcinha estava aparecendo. Passamos pela entrada da sala e só tive tempo de ver Katie rebolando em cima do sofá enquanto cantava o refrão de I Love Rock N' Roll da Joan Jett.
Fomos em direção ao carro de e ele só me pôs no chão quando as portas abriram automaticamente e ele pôde me colocar no banco do carona, com uma delicadeza notável. Rapidamente ele deu a volta e sentou ao meu lado, trancando as portas com um clique. No momento seguinte, eu estava o xingando de nomes que nem conhecia até o momento, socando em todas as partes do seu corpo que não estavam sendo protegidas. Eu gritava e o mandava a abrir a porta, mas ele apenas permanecia encolhido, se protegendo, até que em algum ponto do “espancamento” ele conseguiu driblar meus socos e segurou os meus pulsos.
- EU TE ODEIO! – rugi, puxando meus pulsos.
- Não adianta, você não vai sair daqui! Não enquanto aquele escroto está lá!
- Você está sendo ridículo e infantil! – fingi desistir de tentar me livrar, o encarando friamente, esperando que ele cedesse, o que não demorou muito tempo e então eu pude voltar a bater.
É claro que eu sabia muito bem que nenhum dos meus socos faria efeito nele. Não de verdade. Ou então não até eu enfeitar aquele lindo rosto com um belo roxo ao redor do olho.
- Para! – mandou ainda recebendo pelos tocos e tapas meu. – PARA!
Eu dei mais uns tapas e parei. Não porque ele tinha pedido, mas sim porque já estava cansada. Bater em era como bater numa rocha. Não que ele fosse à coisa mais dura (tá pensando besteira, né?!) do mundo, mas eu sou uma garota, não sou? Fique batendo num cara sequencialmente para ver se não cansa.
Bufei, me jogando contra o meu banco. E só para checar que estávamos realmente trancados, tentei abrir a porta, mas não deu em nada. Ficamos num silêncio estranho, enquanto escutávamos a música vinda da casa e víamos bêbados jogados pelo gramado da frente. No relógio do painel marcavam 03h45min.
- Você não vai mesmo me deixar sair? – perguntei entediada, com a cabeça contra o encosto.
- Não. – ele disse simplesmente.
E então ligou o carro.
- ! – chamei em tom de aviso, me controlando para não voltar a atacá-lo. E então uma ideia me passou pela cabeça. – , eu deixei a minha bolsa lá dentro, destrava a porta e ai eu pego pra gente ir embora!
- Eu não sou burro, . Sei que você não vai voltar! Vai é arranjar um jeito de se esconder de mim! – ele falou cada palavra como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Filho da puta!

Trinquei os dentes, desesperada e com raiva. Filho da puta.
Ele deu marcha à ré, e eu contei até 10 para ver se as coisas melhoravam. Se o ímpeto de agarrar naquele pescoço e não soltar até vê-lo roxo. Mas é claro, nada melhorou. Quando me dei conta, a casa já tinha ficado para trás e estávamos virando a esquina, entrando na rua principal. Olhei de cara amarrada para o meu meio-irmão para ver se ele estava feliz por ter conseguido me arrastar consigo, mas não, não parecia nem perto de estar feliz. Estava sendo tão difícil pra ele quanto pra mim. Não era a apenas uma simples festa. Era a festa da nossa amiga, algo importante para nós. Ele havia me dado o motivo, mas eu não o achava forte o suficiente para uma atitude dessas. Quero dizer, e daí que eu estava dançando com o Peter? O que ele tinha com isso? Ele não tinha me rejeitado? Não me tratava mal sem um motivo concreto? Então por que ficava se preocupando comigo daquela maneira? Não era como se fôssemos namorados e um cara estivesse dando em cima de mim, quiçá ele fosse apaixonado e estivesse com ciúmes. Quando a gente ama, não tratamos bem a pessoa? Geralmente é o que acontece, pelo que eu saiba. Ou talvez eu não esteja por dentro do novo tratamento entre as pessoas que se gostam. Mas ainda prefiro o antigo método, sabe, aquele que a gente tenta fazer a pessoa se apaixonar.
Era apenas orgulho. Claro e evidente. Nada tirava isso da minha cabeça. E naquele momento, eu o odiava e odiava a mim mesma por deixá-lo me manipular de uma maneira tão fácil. Eu não estava indo pra casa porque me obrigara. Eu estava voltando pra casa porque queria ficar com ele. Porque alguma coisa me puxava em direção a ele. E o pior de tudo: Eu tinha a plena consciência disso! Ser carregada até o carro era uma desculpa com que eu tentava tapar a minha necessidade de tê-lo por perto.
Ele nem havia estacionado e destravado as portas direito e eu já estava saindo, com as sandálias em mãos, fechando a porta com raiva.
- Já falei pra não bater! – ouvi sua voz reclamar bem atrás de mim, como se ele estivesse me acompanhando.
- VAI SE FODER! – revirei os olhos e tentei bater a porta na cara dele, mas foi mais rápido a segurando e só assim, fechando e trancando a porta. - Você não tinha o direito de fazer isso comigo, ! – me atrevi a dizer, com minha consciência me corroendo. Você é que não deveria deixá-lo ter direito! Ela gritava a cada passo que eu dava em direção à escada.
Subi as escadas batendo o pé de tanta raiva. veio atrás de mim, bufando. Abri a porta do meu quarto, entrando e jogando as sandálias em algum canto. Permaneci perto da cama, em frente à porta, pronta para recomeçar a briga.
- Você não manda em mim, ! – disse agressiva, apontando para ele. – Você não vai mais me obrigar a fazer nada!
- Eu sou responsável por você enquanto John não está em casa, e você vai fazer o que eu disser sim! – ele chegou perto de mim, tão irritado quanto eu, deixando nossos corpos com centímetros de distância, querendo me intimidar. De certa forma funcionou, mas eu não demonstrei, não iria fraquejar.
- É? E se eu não obedecer? – o questionei com o nariz empinado, cruzando os braços, o peitando. – O que vai fazer sobre isso?

It's not a silly little moment, it's not the storm before the calm
Isso não é um momentinho bobo, não é a tormenta antes da calmaria

abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Apenas levou alguns milésimos de segundos olhando para mim e depois, com a rapidez de um foguete, me puxou pela cintura com força, colando nossos corpos de vez. A única coisa que eu conseguia ver diante dos meus olhos era suas íris , brilharem como estrelas. As estrelas do meu céu. Ficamos imóveis, percebendo nossa aproximação, e eu pude sentir seu hálito fresco bater no meu rosto, me intoxicando, arrepiando minha pele dos pés a cabeça.
Ele chegou mais perto, até nossos lábios se encaixarem perfeitamente, um sobre o outro, muito melhor, muito mais gostoso do que da primeira vez que tudo aconteceu. movimentou um pouco a boca sobre a minha, mas não chegou a aprofundar o beijo. Eu estava surpresa pelo beijo inesperado que tinha me pego de uma maneira muito maluca, mas algo dentro de mim gritava loucamente feliz por aquilo. Cada poro meu gritava para mais contato, pedindo pelo toque dele, minha mente trabalhava freneticamente, gravando aquele momento. Soltei um resmungo frustrado ao perceber que ele se afastava de mim, mas não muito. estava sério e com o cenho levemente enrugado, mas me fitava com intensidade que eu jurava ser capaz de me perfurar, quando reabri os olhos. Ele estava hesitante quando seus olhos iam da minha boca e voltavam para os meus olhos, como se ele me questionasse, silenciosamente, se podia continuar. Eu quase resmunguei de novo, pedindo para que ele acabasse com aquela lerdeza toda e me beijasse de uma vez.

This is the deep and dying breath of this love that we've been working on
Isso é a profunda e ofegante respiração, deste o amor no qual estávamos trabalhando

Ele sorriu timidamente e o meu coração pareceu ter parado por um segundo, mas logo ele voltou a bater freneticamente quando sua mão quente deslizou pelas minhas costas, indo até para a minha nuca segurando com firmeza os fios que tinham se desprendido do penteado, acabando com a pequena distância dos nossos rostos. Todos os meus pêlos se arrepiaram instantaneamente, e eu pulsei lá em baixo, deixando claro que estava excitada apenas por esse toque. Eu poderia ter revirado os olhos com seu toque bruto e preciso, mas eles já tinham voltado a se fechar quando nossas bocas se uniram novamente. O beijo era totalmente diferente do anterior. Passou a língua sobre meus lábios, vagarosamente, e eu deixei que ela fosse deslizada para dentro da minha boca. Doce, suave, lenta e intensa. Foi uma questão de segundos para que nosso beijo se transformasse de lento para uma afobação sem fim, nos devorando deliciosamente, deixando os gostos diferentes de álcool misturando-se, me deixando com a sensação de estar bêbada de novo. Só que eu não sabia se esse era seu real motivo, ou apenas por causa do cheiro que emanava de . Aquele cheiro viciante, adentrando minhas narinas, queimando-as, deixando claro o quão único era. Eu me sentia sufocada, deliciosamente sufocada por aquilo e queria mais.

Can't seem to hold you like I want to, so I can feel you in my arms
Parece que não consigo segurá-la como quero, para senti-la em meus braços

Meu corpo inteiro, dos pés a cabeça, tremeu e as pernas ficaram bambas quando me puxou para mais perto, me segurando possessivamente em seus braços, grudando nossos corpos mais ainda como se fôssemos nos fundir, deixando que eu sentisse sua clara e volumosa excitação, enquanto me apertava ainda mais a minha nuca. A cada toque dele, meu corpo reagia de diversas formas, me levando a um prazer inexplicável. Minha pele parecia estar em brasas, ardendo, queimando, me mostrando o efeito que ele tinha em mim.
Minhas mãos, ansiosas, brincaram com a barra da blusa dele, indo por dentro da mesma, tateando seu tronco definido e lisinho, querendo descobrir seus pontos mais fracos. Quase fui à loucura, sentindo seus músculos se contraírem ao meu toque e ouvir um suspiro pesado sair da boca dele enquanto continuávamos a nos beijar ardentemente.
Deus, ele tinha um corpo perfeito e eu queria comê-lo por inteiro!
Subi a blusa lentamente, até tirá-la de uma vez, separando nossas bocas o mais breve possível e isso só fez nossa urgência aumentar quando voltamos a nos grudar. Eu me sentia bêbada de tanto tesão. A excitação percorreu meu corpo com a velocidade de um cometa entrando na atmosfera, e me queimando como se houvesse um fogo insuportavelmente quente, como o inferno.
Não conseguia raciocinar direito. As mãos habilidosas e a boca de não me deixavam fazer isso. A forma como estávamos e como nos beijávamos... Eu não queria pensar, quebrar aquilo. Era bom demais para ser verdade. Deliciosamente perigoso e excitante.
Algo dentro de mim pedia mais, queria ir mais além do que um simples amasso, e deixei que descesse as mãos para a minha bunda, apertando-a com vigor incrível, me fazendo gemer baixinho, quase suplicando por mais. foi subindo as mãos, e junto com elas, o meu vestido, da mesma forma que eu fizera com sua blusa, mas parou na altura do quadril, quando dava para sentir o pano fino da minha calcinha – eu agradeci mentalmente por ter optado por uma preta bem delicada, nem muito grande e nem muito pequena - e tocar melhor minhas nádegas. Ele me apertou novamente, e eu gemi, intensificando ainda mais, se possível, o nosso beijo. Estava sufocada pela falta de ar e pelo perfume dele que estava me deixando completamente zonza. Meu corpo queimava de tanto desejo, minha mente estava vazia e eu queria que aquela sensação nunca mais me abandonasse.

Nobody's gonna come and save you, we pulled too many false alarms
Ninguém virá lhe salvar, nós já demos muitos alarmes falsos

- Sei que não devo, mas eu quero… - Eele sussurrou sedutoramente contra a minha boca. – Está ficando difícil resistir a você. Muito difícil... Extremamente difícil.
Alcancei sua calça de jeans, abrindo-a com cuidado, sem que ele percebesse, e desci o zíper, dando um impulso para que peça de roupa caísse aos seus pés, deixando o volume mais perceptível e mais próximo do meu corpo. Encostei minha mão em seu membro por fora da boxer, sentindo-o pulsar fortemente sob a palma da minha mão. Houve um choque e ambos sentimos uma corrente elétrica passando pelo toque indiscreto, soltou um gemido rouco, me fazendo sorrir, dedilhando meus dedos sobre seu abdômen e entradas perfeitamente desenhadas.
Não tinha percebido que ele me empurrava pra trás e só me dei conta, quando se desvencilhou da calça e me jogou para a superfície macia da minha cama de casal, sentindo os milhares de travesseiros ao meu redor, enquanto nossas bocas se desgrudaram um pouco para que ele terminasse de tirar o tênis e as meias.
Ele não deitou em mim como pensei que faria. Ao contrário. deitou ao meu lado, me observando enigmático. Abriu a boca, deixando uma rajada de ar quente sair, batendo no meu rosto muito perto do seu, me deixando perceber que sua respiração estava acelerada tanto quanto a minha. Tocou minha bochecha, acariciando a região, sorrindo de um jeito irresistível, arrepiando-me toda. Meu coração parou de bater e voltou a dar pequenos solavancos, indicando que eu ainda estava viva e que ainda teriam fortes emoções vindo.
- Já fomos mais longe do que achei que iríamos... – ele disse perto do meu ouvido, distribuindo beijos pelo meu rosto, me deixando arrepiada mais uma vez. – Não sei se consigo parar se continuarmos.
- Eu sei o que tô fazendo, . – minha voz saiu fraquíssima tal era a precariedade da minha respiração. Eu só conseguia pensar nele me tocando e tocando...

We're going down and you can see it, too. We're going down
Estamos acabando e você também pode ver isso
We're going down
Estamos acabando

Ouvi uma risada rouca vindo de alguma parte do meu pescoço, e logo ele deitou por cima de mim, mas não jogou seu peso todo sob o meu corpo. Beijou-me afobadamente enquanto separava minhas pernas e se acomodava entre elas. Fui à lua e voltei quando o senti roçar sua pélvis na minha, ainda coberta pelo pano fino da calcinha. Arfei várias vezes, puxando todo o ar possível no quarto quando deixou meu rosto para se dedicar ao meu pescoço, mordiscando-o e dando leve chupões, mas que tinham uma forte potência em mim. Baixou para os meus ombros, mordiscando-os também, beijando-os em seguida, me deixando inquieta pela força desejosa e calma que ele fazia aquilo. Um gemido sôfrego escapou pela minha garganta, quando suas mãos, que estavam no meu quadril, pressionando-o, começaram a subir, trazendo o meu vestido consigo de uma vez só. Levantei um pouco, desafivelando meu cinto para ajudá-lo, e me senti totalmente exposta. Os olhos dele escureciam conforme abaixavam para o meu corpo seminu, me fazendo pulsar lá em baixo bem mais forte do que das outras vezes.
Eu era inexperiente, mas não me sentia assim naquele momento. As coisas entre nós fluíam naturalmente, tornando tudo muito profundo, mais gostoso.
roçou seus lábios nos meus, me provocando, se divertindo à custa da minha ansiedade. Mordi o lábio inferior dele num impulso, ouvindo-o gemer também. Parecia que um animal selvagem tinha despertado em mim, louco para sair. Eu o queria logo, não estava mais aguentando. Ele segurou um seio, sentindo meu mamilo já endurecido sobre seus dedos masculinos e ágeis, substituindo-os pela boca em seguida e como se estivesse disposto a me enlouquecer de vez, passou de um seio ao outro, ousando a cada segundo com um toque diferente. Beijos demorados, a língua que se arrastava – ora preguiçosa, ora rápida – sobre os mamilos, dando mordidas fracas para depois sugá-los. Fechei os olhos, querendo gritar, sentindo o quão delicioso aquilo era. Ele foi trilhando os beijos pelo meu tronco até chegar ao umbigo, onde mordeu ao redor e lambeu, descendo vagarosamente, numa tortura ao mesmo tempo em que mantinha seus olhos nos meus, descendo minha calcinha minuciosamente. Meus músculos se contraíram e eu fechei automaticamente minhas pernas, ou melhor, tentei já que ele estava por cima, envergonhada com a situação e entortou a cabeça, com o pedido para que eu desunisse meus joelhos, nos olhos. Eu não me movi, e ele voltou para cima, beijando minha bochecha e o meu nódulo.

And you know that we're doomed, my dear, we're slow dancing in a burning room
E você sabe que estamos condenados, minha querida, estamos dançando lentamente num quarto em chamas

- Não precisa ter vergonha de mim – ele praticamente gemeu no meu ouvindo, beijando a parte mais sensível dali, ao mesmo tempo em que baixava uma mão, tentando separar minhas pernas. – Eu quero ter que fazer carinho.
Eu procurei pela boca dele ansiosamente, mas ele se negou a me beijar. Uniu nossas testas, me olhando com um sorrisinho muito safado nos lábios que chegava até os olhos.
- Isso é bom? – ele pôs sua mão entre o micro espaço entre minhas pernas, tocando minha intimidade de leve.
Fechei os olhos e entreabri a boca, deixando escapar um gemido como se ele fosse uma resposta positiva. Eu já estava maluca antes, ele fazendo aquilo...
- Imagine a minha língua no lugar dos meus dedos então... – continuou com a tortura, roçando o dedo na minha entrada, me deixando mole.
Cravei minhas unhas em seus braços, descolando meus joelhos, não resistindo às palavras dele e muito as coisas que eu tinha imaginado com elas. Ele me deu um selinho e voltou a beijar meu corpo como antes, curvando-se sobre minha parte sensível, mas não tocou. Segurando minhas pernas, separando-as bem, ele beijou a parte interna das minhas coxas, mordiscando, roçando os lábios nelas, até alcançar seu objetivo. deu um beijinho bem no meio, passando a ponta da língua lentamente, me fazendo gemer, e não dando tempo para que eu parasse de me contorcer, me sugou de forma lenta, aumentando gradativamente, enquanto uma mão apertava minha coxa e a outra subia, segurando um seio com força, mostrando que ele estava gostando daquilo tanto quanto eu. Sua língua tocou o meu clitóris alternando para movimentos circulares, cima e em baixo, de um lado para o outro. Ela era simplesmente maravilhosa e quente. Eu não conseguia reprimir alguns gemidos altos e regulares. Minha respiração estava entrecortada, eu poderia enlouquecer de prazer se fosse possível, realmente não ligava, contando que eu pudesse sentir tudo aquilo antes de morrer. A única coisa que eu conseguia entender e sentir era que meu corpo reagia aquele prazer, me deixando cada vez mais e mais excitada. Arqueei, abrindo os olhos, jogando a cabeça para trás, e segurei o mesmo seio que apertava, unindo nossas mãos. Me debati, quando a sensação do orgasmo me atingiu pela primeira vez na vida. Meu corpo ficou mole, minhas pernas tremeram e os dedos dos meus pés ficaram dormentes. deu mais alguns beijos no local e subiu, lambendo o suor que tinha no vão entre meus seios, antes de roçar sua boca na minha e me beijar de forma desesperada e obsessiva. O segurei pela nuca, embrenhando meus dedos nos seus cabelos sedosos e macios, fazendo carinho na região, correspondendo da mesma forma o beijo, deixando línguas brigar. Ele se ajeitou entre minhas pernas novamente, deixando-se roçar em mim, voltando a me excitar de uma forma assustadoramente boa com o volume e a sua rigidez, chupei seu lábio inferior e depois o superior mostrando que tinha gostado.

I was the one you always dreamed of, You were the one I tried to draw, how dare you say it's nothing to me?
Eu fui aquele com quem você sempre sonhou, você foi aquela que eu tentei desenhar, como ousa dizer que isto não é nada pra mim?

- Não quero que isso te machuque. – ele disse de repente, entre um beijo e outro, descendo a sua mão para o meu quadril, indicando o que pretendia. - Se doer muito eu paro, prometo.
- Eu confio em você, . – eu não estava com o mínimo de medo. Sabia o que aconteceria, estava nervosa, mas queria continuar. Não dava para parar depois de descobrir o quão bom ele era até ali. Eu queria o máximo. O máximo dele.
voltou a se afastar um pouco, tirando a única peça de roupa que vestia, revelando seu membro grande e grosso. Mordi meu lábio inferior, analisando-o, enquanto ele colocava o preservativo. Ele me olhou sedutoramente, percebendo meu olhar sobre si, e eu sorri sem graça por ser pega.
- , você tem que relaxar. – ele avisou paciente, fazendo carinho na minha cintura, na primeira tentativa, quando me contrai ao senti-lo me penetrando.
- Eu sei... – puxei e soltei o ar devagar, esperando que aquilo me acalmasse.
Ele tentou mais uma vez, eu tentei relaxar como ele havia dito. Todo o meu rosto foi beijado enquanto ele me penetrava de pouco em pouco para não machucar muito. O gemido de dor foi impedido pela boca dele que foi colada a minha quando a minha barreira foi finalmente quebrada. me beijava carinhosa e lentamente, deixando que eu sentisse sua língua brincando com a minha. O intuito dele era me distrair. Mas ele mal sabia que eu estava gostando da dor, porque de alguma forma, ela era gostosa, prazerosa e estava acontecendo por sua causa. Ele mordeu meu lábio inferior com força para que a dor entre minhas pernas fosse substituída. Não funcionou, mas eu sorri feliz e grata pela preocupação dele. Eu já estava acostumada com isso. nunca me deixava sentir uma dor sequer.
Ele apertou meu quadril, começando a se movimentar devagar, não me penetrando totalmente, esperando que eu me acostumasse com isso. Soltei uma pequena lamúria para a súbita queimação dentro de mim, e procurei urgentemente por alívio.
- , – ergueu uma mão para cobrir minha bochecha. Seus olhos se fecharam firmemente enquanto respirava profundamente, controlando a vontade de continuar. – Eu vou parar...
- Não! – falei decidida, grudando nossas bocas novamente, tentando fazer a dor passar. Eu sabia que ela passaria. - Não quero que você pare...
O envolvi com minhas pernas e meus braços, abraçando-o, mostrando que estava bem, impedindo-o de se afastar. deslizou mais profunda e totalmente em mim, me fazendo arregalar os olhos e fechá-los na mesma hora por sentir o seu tamanho por inteiro. Eu estava tão anestesiada que não me importei com a dor que diminuiu gradativamente, mas não sumiu por completo. Havia coisas muito mais importantes. Eu estava unida a ele de uma forma que nunca cogitei realmente ficar.
Ele se movimentou depois de um tempinho e eu o livrei das minhas pernas, deixando que ele entrasse num ritmo. Quando pensei que nada mais pudesse intensificar o meu prazer, segurou minha perna, colocando-a na altura do seu quadril para ter mais acesso a mim, pondo a mão na minha coxa com força, cheio de vontade, deixando a excitação tomar conta de si, investindo lentamente de uma vez só e depois recuando, no movimento de vai-e-vem, aumentando o ritmo, estocando cada vez com mais força, me fazendo gemer loucamente.
Ele estava tão firme e era tão gostoso... Eu não queria que ele parasse nunca.

Baby, you're the only light I ever saw, I'll make the most of all the sadness. You'll be a bitch because you can
Querida, você é a única luz que eu já vi, eu farei o melhor de toda essa tristeza. Você é uma vadia porque pode

Aos poucos ele foi me acompanhando nos gemidos, que ficaram frequentes. Eu não conseguia me conter, dando alguns mais altos do que o normal e mais demorados por causa das correntes elétricas que vazavam pelo meu corpo para o dele. uniu nossas testas, olhando pra mim, não quebrando nosso contato visual. Ele gemia com a boca a centímetros da minha, me apertando, investindo com mais força a cada segundo, deixando claro em sua expressão facial que, assim como eu, ele estava louco por estarmos conectados daquela maneira. Segurei seu rosto com minhas mãos, fazendo carinho em suas bochechas, selando nossos lábios, deixando nossos gemidos abafados. A intensidade dos movimentos diminuiu, mas ainda com a penetração intensa, me deixando senti-lo melhor e mais fundo, voltando a ficar mais rápida depois.
O suor brotava das nossas peles, e mais gemidos altos saiam de nossas bocas. enterrou o rosto na curva do meu pescoço, e me mordeu antes de gemer, traçando um caminho de beijos até meu maxilar e mordeu meu queixo. Apertei seus ombros tensos, fechando os olhos, sentindo uma formigação no meu baixo ventre. Uma sensação deliciosa percorreu meu corpo até chegar o tão esperado momento da explosão. Gemi demoradamente, cravando minhas unhas na pele dos ombros dele, não me importando se estava ou não machucando. Fiquei tonta, mole e dormente como antes. continuou, até gemer demoradamente como eu, suas pálpebras pesaram de prazer e se fecharam com força, seus músculos se contraírem até o orgasmo atingi-lo também. Ele se recostou sobre os cotovelos, sem ar, contemplando o meu rosto, deslizando a ponta do seu nariz no meu carinhosamente e depois me beijou, brincando com meus lábios enquanto sorríamos, esperando que nossas respirações voltassem ao normal antes de sair de dentro de mim.
Tirou o preservativo e deitou ao meu lado. Eu continuava na mesma posição, imóvel, olhando para o teto, tentando assimilar tudo o que tinha acontecido, mas sabia que ele me encarava. Virei minha cabeça em sua direção, sorrindo, vendo-o fazer o mesmo.

You'll try to hit me just hurt me, so you leave me feeling dirty because you can't understand
Você tentará me bater apenas pra me machucar, então você me deixa me sentindo mal porque não consegue entender

- Chega mais perto de mim, . Tá frio – pedi baixinho, e seu sorriso sacana só aumentou. Eu não estava com o mínimo de frio, se é que isso era impossível, mas o queria perto.
praticamente grudou seu rosto no meu, a ponta de seu nariz batendo em minha bochecha, dando uma mordidinha fraca nela. Nós ficamos naquela posição em silêncio por minutos, eu encarando o teto branco do meu quarto e respirando da minha bochecha ou dando mordidinhas gostosas e provocativas.
- Você tá calada... – ele disse manhoso, perto do meu ouvido depois de um tempo, passando o nariz pela minha bochecha, parecendo incomodado com a falta de diálogo. – Não quer conversar? Tá com sono?
Sono? Tá brincando, né?
- Tô pensando... Lembrando... – falei fraco, voltando a fechar os olhos. A mão de dedilhava a lateral do meu corpo oposta em que ele estava, indo até minha barriga, brincando com o meu umbigo, subindo um pouco até chegar quase aos meus seios, voltando ao ponto inicial. Eu me perguntava se ele estava ou não tentando me excitar de novo ou se apenas estava sendo carinhoso. Se a primeira opção fosse sua intenção, estava funcionando, sem dúvidas.
- Lembrando? Pensando? – ele repetiu curioso, e me deu um beijo estalado no canto da boca. – Você quer compartilhar das suas lembranças e pensamentos comigo?
Soltei uma risada nasalada, assentindo devagar.
- Hoje me lembrei daquela noite em Kassel, em que dormimos abraçados... – eu dobrei um braço, deslizando meus dedos sobre o braço dele transpassado em mim. – E agora tô pensando em como as coisas acontecem de uma forma tão inusitada, tão louca... – reabri os olhos e virei um pouco, fixando meus olhos nos dele, que estavam atentos a mim. Aqueles olhos perfeitos! – Naquele dia eu soube que você é meu porto-seguro, que é pra você que eu posso recorrer, mesmo com nossos desentendimentos sem sentido, mesmo com os apelidos imbecis que você me dá. Mesmo com esse seu jeito bipolar de me tratar. Apesar de tudo, , eu sinto que você me entende. Você nunca me olhou com pena, nunca demonstrou me achar uma fraca... - fui dizendo, e os meus olhos começaram a arder com meu discurso. Eu não podia chorar logo naquele momento, mesmo com um assunto tão delicado. – Quando eu tô com você, sinto que... As coisas melhoram.

We're goin down and you can see it, too
Estamos acabando e você também pode ver isso
We're goin down
Estamos acabando

Eu não achei errado dizer aquelas coisas. Por que seria? não estava ali comigo? Eu não havia chegado com ele o mais longe que uma mulher pode chegar fisicamente com um homem? Eu ainda não conseguia definir o que eu sentia por ele, mas sabia que era algo realmente muito, muito, muito forte. Não fiquei com medo da reação dele. Não esperava nenhuma reação, na verdade, só que ele escutasse.
Mas você sabe, é . Um cara... Surpreendente.
se moveu para cima de mim, os cotovelos sustentando seu peso, seu rosto a centímetros do meu... Exatamente com a mesma posição de quando tínhamos acabado de transar, me fazendo ter um forte arrepio na espinha.
- Eu sempre, sempre mesmo, vou estar aqui pro que você precisar, . Sempre! – segurou o meu rosto para que eu prestasse atenção no que ele dizia. – Sei o quanto sou idiota com você, às vezes nem eu mesmo me aguento, mas não importa se estamos brigados ou não, eu quero que você venha conversar comigo, eu me importo demais com você... Demais. – Ele me deu um selinho longo e beijou o meu nariz. - Entendeu?
Assenti, segurando seu rosto também, e logo nossas línguas estavam entrelaçadas novamente numa sincronia perfeita. As mãos de deixaram o meu rosto, descendo pelo meu pescoço e antes mesmo de qualquer outro movimento meu, meu quadril foi apertado com bastante vontade. Ajeitei melhor as minhas pernas, deixando entre elas. Seu membro já ereto roçou na minha virilha, e eu me contorci toda, gemendo, já me sentindo úmida de novo.
Há poucos minutos eu estava prestes a chorar e agora estava excitada como se fosse a primeira vez, como isso era possível?
- ... – ele sussurrou rouco, parecendo se controlar, tocando na minha intimidade sentindo a minha lubrificação natural – Você... A gente não deveria fazer isso de novo, sabe, você deve tá muito dolor...
- Não... – o interrompi, apertando seus ombros, me preparando para a dor e prazer. - Você não me provocou e vai pular fora logo agora... - eu o queria de novo. Estava excitada demais. Inchada de tão excitada. Não importava que eu ainda estivesse dolorida. Não me importava em sentir dor novamente, contanto que tivesse mais uma vez.

And you know that we're doomed, my dear, we're slow dancing in a burning room
E você sabe que estamos condenados, minha querida, estamos dançando lentamente num quarto em chamas

Ele balançou a cabeça rindo, e num movimento rápido, saiu de cima de mim catando sua carteira jogada no chão, procurando outro preservativo. Ele se pôs de joelhos entre as minhas pernas, já devidamente protegido e curvou-se para mim. Nos beijamos com os olhos abertos, e eu apertei seus braços, sentindo começar a me invadir novamente, devagar. Ele se arrepiou todo quando ouvi meu gemido não contido de dor e prazer escapar pela minha garganta. O prazer era muito maior, muito. E então ele gemeu também, chamando pelo meu nome.
- Você é tão linda... – ele tocou o meu rosto com os olhos fechados, passando as costas da mão pela minha bochecha como se eu fosse a coisa mais delicada do mundo, enquanto sorria de um jeito sonhador. – Doce...

Go cry about it, why don't you?
Vá chorar sobre isso, por que não iria?

Passei meus lábios pelos dele, sorrindo, capturando-os quando começou a se movimentar. Eu delirava a cada segundo, e a cada delírio, eu gemia lascivamente, puxando os cabelos da sua nuca, me segurando para não fechar os olhos e quebrar nosso contato visual enquanto nossos narizes se tocavam constantemente. Nossas bocas se encontraram sedentas de tantas sensações maravilhosas que sentíamos. Puro tesão.
- ... - ele gemeu, sentindo minhas unhas passando pelas suas costas úmidas, mordendo o próprio lábio e entortando um pouco a cabeça, jogando um olhar encapetado pra mim. Repeti a provocação diversas vezes com um sorriso igual, e a cada unhada que dava, eu era penetrada com estocadas mais fortes e precisas.
- Você gosta de me ver descontrolado, não gosta? – trincou os dentes, se controlando para não me machucar. – Eu não sou de ferro...
- Mais forte, , mais rápido, eu quero mais... – supliquei desesperada, apertando a bunda dele, subindo para a sua cintura, gravando minhas unhas ali. – Mais, mais, mais...
Os movimentos foram intensificados, estocando com mais força e mais rápido como eu havia pedido e continuava pedindo a todo o momento sem vergonha, um dos meus seios foi apertado a ponto de quase me machucar. Eu não conseguia mais me conter, soltando gemidos um atrás do outro, longos e altos.
- ... – o chamei, perdendo os sentidos. Minha boca estava seca e minha garganta pedia por um líquido para refrescá-la. Ele enterrou a cabeça no meu ombro e o mordeu fraco, diminuindo o ritmo, voltando a acelerar depois gradualmente.
Naquele momento não existia mais nada, apenas nós dois, nossos corpos suados e nossos corações acelerados mais do que o normal.

My dear, we're slow dancing in a burnin room
Minha querida, estamos dançando lentamente num quarto em chamas

deu estocadas longas e firmes quando começou a sentir seu orgasmo vindo, me fazendo ir para o mesmo caminho. Quando gozou, gemendo insanamente, apertando minha coxa e poucos segundos eu gritei seu nome, deixando que acontecesse... O frenesi tomando conta do meu corpo de um jeito alucinante.
Tudo girou, senti falta de ar e pensei que fosse morrer. Quando o ar finalmente adentrou os meus pulmões, eu me senti sendo afogada com a mistura do oxigênio com o cheiro de e sexo. Fechei os olhos um pouco e quando os reabri, estava sendo encarava por dois pares de olhos penetrantes.
- O que foi? – perguntei encabulada por estar sendo observada daquele jeito.
- Gosto de olhar pra você... – ele respondeu pesadamente, de forma risonha, ainda em cima de mim. Parecia perdido, atordoado, como se várias coisas rondassem a sua cabeça, não conseguindo se concentrar em uma só. Seu rosto estava vermelho por causa do calor e esforço, o deixando mais lindo. Ri, mordendo seu queixo antes de receber mais um beijo de tirar o fôlego.
rolou para o lado, se livrando de mais um preservativo usado, e me abraçou como antes.
- Tô com sono... – expirei fundo, cansada e manhosa.
- Como sono? – ele colocou a mão no meu quadril, me virando de costas para ele. – Tem problema se eu ficar assim com você?

Don't you think we ought to know by now?
Você não acha que já deveríamos estar sabendo agora?

Eu neguei com a cabeça, coçando os olhos. Seu corpo nu se encaixou no meu, despertando uma vontade louca de tê-lo novamente. sentiu o mesmo, e por isso, desgrudou-se um pouco, ainda mantendo a mão em mim. Sua respiração ainda não estava estabilizada, mas melhor do que antes. Ela batia em minha pele, me deixando com um gostoso frio na barriga. Sorri debilmente enquanto encarava a luz da lua que invadia meu quarto pela cortina aberta. Meu coração estava estranhamente aquecido. Eu estava feliz. Pela primeira vez em tanto tempo eu realmente estava feliz. Sensações estranhas e boas se apoderavam do meu coração. Sentimentos certos, despertados pela pessoa certa. Por . Só por ele.
A mão dele subiu para o lado do meu corpo, dedilhando o meu ombro. Fechei os olhos, me aninhando no travesseiro, deixando o sono tomar conta de mim, enquanto me fazia carinho, até eu adormecer.

Don't you think we should have learned somehow?
Você não acha que deveríamos ter aprendido, de algum jeito?

Capítulo 15

Coloque The Scientist – Coldplay para tocar quando a letra aparecer.

Acordei com barulhos sucessivos vindos do primeiro andar. Não um barulho enorme que me fez acordar de um salto, mas um barulho relativamente alto como se uma coisa pesada tivesse caído e se espatifado no chão do lado de fora da casa, perto da minha janela. Ignorei tal fato e continuei com os olhos fechados, de bruços, morrendo de preguiça de me mexer muito e sair da posição confortável. Me aninhei ainda mais no meu travesseiro fofo e só quando uma brisa gélida bateu na minha pele exposta das costas foi que eu percebi que estava completamente nua por baixo do edredom que cobria meu corpo da cintura pra baixo, beirando o meu bumbum. Apertei o travesseiro mais contra mim, lembrando do motivo deu estar daquele jeito e um sorriso idiota se formou nos meus lábios antes mesmo que eu pudesse ter noção.
Cenas da noite passada voltaram a minha mente em flashes. Nossos beijos, o suor em seu rosto, os olhos fechados de prazer, a boca entreaberta, os olhos fixos nos meus, nossos corpos exalando calor... A respiração entrecortada, ofegante enquanto seu corpo deslizava sobre o meu em sincronia, entrando e saindo, me fazendo gemer cada vez mais... Me enlouquecendo enquanto eu queria que ele fosse mais rápido, mais fundo...
As regras haviam sido quebradas. E era maravilhosa a sensação.
Abri meus olhos aos poucos, esperando minhas pupilas se adaptarem com a luz fraca que entrava através da pequena brecha que era permitida pela cortina. Sorri mais largamente enquanto dava uma olhada para o relógio no criado-mudo que marcava 07h02min e cocei os olhos, bocejando e me espreguiçando manhosamente enquanto girava na cama, não me preocupando que o edredom já não me cobrisse mais por causa do meu movimento, esperando encontrar dormindo profundamente ao meu lado, mas a única coisa que eu vi foi um vazio que antes fora ocupado pelo seu corpo. Fiquei paralisada por alguns segundos e apurei os ouvidos tentando encontrar algum barulho vindo do banheiro, esperançosa de que ele fosse sair de lá enrolado numa toalha ou até mesmo nu.
Nada. Nem um ruído sequer.
Eu estava sozinha no quarto.
Uma sensação de sufocamento me atingiu em cheio e me sentei bruscamente na cama, colocando a mão na testa quando tudo girou pro causa do movimento rápido. Olhei ao redor com calma vendo que minhas roupas ainda continuavam no chão, mas não havia nenhum vestígio de que tinha passado por ali.
Por que ele não estava ali?
E então os barulhos voltaram mais altos, como se fossem passos de gente subindo e descendo a escada, vozes... Vozes.
Gelei dos pés a cabeça e me cobri num reflexo rápido, quando reconheci a voz infantil de Emma provinda do outro lado enquanto passava pela porta do meu quarto. Ela gritava dizendo que já estava descendo e aos poucos, sua voz foi ficando distante, com passos acompanhando nos degraus, indicando que ela havia descido. Respirei aliviada e me joguei na cama, encarando o teto, entendendo o que estava acontecendo. Eu tinha me esquecido que todos chegariam cedo e obviamente havia saído do meu quarto quando ouviu o carro de John e ido para o seu. Sorri de mim mesma e peguei o travesseiro que usara, sentindo seu cheirinho gostoso bem nítido, como se fosse ele ali comigo. Abracei o objeto com o mesmo pensamento anterior e fiquei assim por um bom tempinho, até que finalmente me levantei de vez, e fui até o banheiro, me deparando com o estrago na noite passada no meu rosto: Minha maquiagem preta estava toda borrada e espalhada ao redor dos olhos e um pouco abaixo, me dando um ar de cansada que eu não trocaria por nada e meu cabelo estava todo desgrenhado, com algumas partes ainda presas. Tirei todos os grampos que restavam e os soltei, desembaraçando as pontas com os dedos rapidamente e lavei o rosto, passando um removedor de maquiagem parar tirar os que a água e sabão não conseguiram. Tornei a prender o cabelo, agora totalmente, em um nó frouxo e escovei os dentes. Fui até o closet, vestindo a primeira calcinha limpa que vi na gaveta, uma calça de moletom azul marinha com “Bayern München” – o time alemão pelo qual eu torcia – escrito em branco dentro do símbolo oficial, uma blusa regata branca, sem sutiã ou top por baixo e calcei minhas pantufas de joaninha.
Antes de sair, catei meu vestido e a calcinha antiga e os coloquei dentro do cesto de roupa suja que ficava no banheiro e afastei as cortinas, deixando que o pouco de claridade que o céu cinza e carregado permitia iluminasse o meu quarto.
Andei na ponta dos pés até o quarto de , que estava com a porta fechada. Bati fraco, duas vezes, rezando ao mesmo tempo para que ele escutasse e que ninguém resolvesse subir e me pegar ali. Me adiantei quando não houve resposta e girei a maçaneta, agradecendo pela porta não estar trancada. Mal entrei e fui recebida pelo cheiro que parecia estar em cada cantinho e objeto do cômodo. Era uma mistura do cheiro amadeirado de e mais alguma coisa que eu não conseguia definir, mas que era realmente muito, muito gostosa. Meus olhos se direcionaram para a sua cama de solteiro - que parecia dar para mais de uma pessoa sem que elas ficassem muito espremidas -, vazia, com o edredom branco com detalhes azuis, que agora se encontrava todo embolado com um pedaço na cama e outro no chão. Bufei, indo até o banheiro e nada de por ali. Novamente nada.
Tudo bem que você queria disfarçar, , mas também não precisa abusar, né?
Antes de sair dei uma olhada no mural de metal onde havia muitas fotos dele com Emma, com Helen e John, dos três juntos, dele sozinho segurando um troféu, com as meninas e outra apenas com os meninos. As fotos iam das mais antigas até as mais recentes. Havia uma foto em que estava com o cabelo todo esquisito e aparentava ter uns 11 anos e em outra mais nova, talvez de uns quatro anos atrás, de um close tremido de , , Lizzie e , que estavam com os rostos sorridentes lambuzados de chocolate. Por um momento fiquei imaginando o quanto eram amigos e quantas merdas aprontaram juntos, morrendo de inveja dessa cumplicidade entre os sete que agora faziam parte da minha vida.
Enquanto eles tinham uns aos outros para relembrar o passado, eu só tinha fotos e lembranças da minha mãe.
Balancei a cabeça, afugentando aquele pensamento com as mãos e sai, fechando a porta atrás de mim. Desci a escada, e uma caixa enorme de papelão estava largada no meio do hall, junto com uma bicicleta rosa velha e um par de patins preto e azul com rodas transparentes.
- Bom dia. – cumprimentei, animada assim que entrei na cozinha, Helen, que vestia um conjunto de pijama de frio de seda branco e colocava café fumegante em uma caneca comprida e preta com a parte de dentro verde clara. A caneca favorita de John. – Por que aquelas coisas estão no meio do hall?
- Bom dia, – disse sorrindo para mim, enquanto enchia um prato com bolachas. – Vamos doar tudo. Está na garagem há meses, mas parece que as resgatou com a ajuda da Emma agora pouco lá na garagem. – ela parou de falar, parecendo se tocar de uma coisa, olhando pra mim com as sobrancelhas unidas. – Não era pra você estar na cada da Lizzie? não me disse que você estava aqui.
Gelei pela segunda vez no dia, rezando para minha resposta soasse firme:
- Ah, voltei pra casa com o porque ela queria ficar mais tempo e eu estava muito cansada... – menti descaradamente, abrindo a geladeira e enchendo um copo com suco de uva para me ocupar caso o resto da frase não saísse tão confiante. Instantaneamente a expressão facial de Helen suavizou me dando brecha para mudar de assunto. – Por que chegaram tão cedo? Achei que só os veria depois das 10.
- Ah, seu pai precisou voltar mais cedo para terminar um trabalho e eu vou ter que resolver algumas coisas com o Mark. Estou muito animada! – explicou, ajeitando a caneca, o prato com bolachas em uma bandeja pequena. – Pressinto que vêm ótimas notícias por aí, principalmente pra agência! Mas ainda é segredo...
Sentei no banco alto da bancada, terminando de tomar o meu suco enquanto observava Helen ajeitar tudo com muito capricho na bandeja. Além de ser uma ótima mãe e esposa, era também uma agente maravilhosa, sempre preocupada em atender suas modelos com bastante atenção. Poderia até ser dura em algumas decisões no trabalho, mas sabia o que estava fazendo. Não era a toa que sua agência estava sendo cada vez mais conhecida além dos limites da Grã Bretanha. O problema era quando suas queridas modelos queriam “montar em cima”, como a própria Helen dizia e para isso, existia Mark, seu sócio, que cuidava da filial de Londres.
- Então foram Emma e que estavam fazendo barulho embaixo da minha janela! – conclui, roubando uma das bolachas, enfiando-a na boca quase de uma vez só. Estava morrendo de fome.
- Se foi a Emma eu não posso confirmar, mas com certeza foi o . Ele está elétrico hoje. Quando chegamos, ele já estava acordado.
- Já?! - a pergunta se confundiu com uma exclamação, pelo meu estranhamento no comportamento de e quase me engasguei com outra bolacha furtada. Por que ele levantaria cedo sem motivo? – Pensei que ele estivesse estirado na cama. – menti. – Chegamos tarde ontem... – e praticamos exercício durante a madrugada. Duas vezes.
- Quando chegamos, ele estava na sala, quieto e pensativo... Acho que aconteceu alguma coisa, mas ele não quer me contar. Você sabe o que houve? – Helen acrescentou geléia de morango e torradas à bandeja e me avaliou como se soubesse o que havia acontecido.
Não, não. Não tinha como ela saber. Eu estava imaginando coisas... Não estava?
Certo, eu estava!
- Não, não tô sabendo de nada, não, Helen – neguei repetidas vezes, meio nervosa, lhe dando um olhar rápido. Eu nunca fui muito boa com mentiras e isso sempre me causou problemas quando precisava esconder ou omitir algo. Quero dizer, omitir não é exatamente mentir, mas você entendeu!
- Você vai acabar com as bolachas assim! – ela riu, me dando um tapa fraco na mão quando tentei roubar mais uma bolacha do prato antes que ela pegasse a bandeja. - Vou levar isso para o seu pai no escritório e dormir um pouco. Coma alguma coisa e vá dormir também, ainda tá muito cedo. Depois quero que você me conte tudo o que aconteceu na festa!
Deixei o copo em cima da pia, ouvindo mais barulhos de coisas caindo vindo do lado de fora misturados com a risada escandalosa de Emma. Pensei em voltar a dormir, mas queria falar com . Queria não, precisava seria o melhor verbo para se encaixar nessa frase, mas não dava para tocar no assunto sobre a noite de ontem com Emma perto de nós. E nem adiantaria conversar por códigos, porque mesmo que ela não soubesse de fato o que havia acontecido, iria sacar que estava rolando algo. Além do mais, o que eu falaria com ele? Será que eu deveria tocar no assunto ou esperar que ele o fizesse? Pensando bem, como eu agiria diante do que acontecera? Eu e transamos, não era como os nossos amassos, não eram como simples trocas de carícias. Não dava para simplesmente esquecer ou ignorar.
Antes que minhas reflexões se aprofundassem mais, Emma irrompeu pela cozinha gritando meu nome enquanto corri na minha direção com um enorme sorriso no seu rosto de boneca, me fazendo esquecer qualquer outra pessoa. Ela e sempre tinham esse efeito em mim.
Agachei-me um pouco para ficar na sua altura e a recebi com os braços abertos.
- Tava com saudade! – disse me dando um beijo na bochecha, pendurada no meu pescoço.
- Eu também estava com saudade de você, minha bonequinha! – levantei com ela no meu colo, lhe dando vários beijinhos pelo rosto de porcelana fazendo-a rir daquele jeito bem gostoso que só as crianças conseguem. – Como foi a viagem? Aposto que você brincou muito por lá.
- Queria que você e estivessem lá. Ia ser muito mais divertido! Mamãe não me deixou andar de cavalo porque disse que é perigoso... – ela fez um bico de criança mimada. – Queria fazer um montão de coisas e não podia porque “você é muito pequena, Emma”. – terminou fazendo uma imitação muito mal feita de Helen.
A gente também se divertiu por aqui...
- Dá próxima vez a gente vai, prometo! – dei um beijo no seu rosto e a coloquei no chão, me segurando para não apertar suas bochechas naturalmente rosadas. – Dessa vez não deu por causa da Katie né, mas eu quero que você me conte tudo e também ver as fotos!
Olhei para minha mini Barbie toda linda com um short jeans rosa, uma blusa de manga comprida listrada em variações de rosa, o cabelo preso num rabo-de-cavalo alto já meio frouxo com a franja reta para frente, destacando seus perfeitos olhos iguais ao do irmão e da mãe e nos pés, all star branco personalizado. Quem acha que uma criança de nove anos não pode ter estilo é porque não conhece Emma, sem dúvida. Desde o momento em que pus meus olhos nela, desejei ter uma filha tão linda e tão esperta quanto ela. Emma era meu orgulho. Minha princesinha.
- Ah, vou contar sim! – ela deu outro sorrisão, me fazendo sorrir também. A alegria dela era tão sincera que não tinha como não ser, de certa forma, “abraçada” por aquilo.
Bem, digamos que o requisito alegria, nós duas estávamos num nível alto. Cada uma com sua particularidade é verdade, mas estávamos.
– Vem! – Emma agarrou o meu pulso. – Vou te mostrar as fotos lindas que eu e mamãe tiramos!
Estávamos passando pelo portal que ligava a cozinha ao corredor do hall, quando Helen saiu do escritório de John, fechando a porta atrás de si e me chamou.
- Você pode avisar ao que o café está pronto? Estou morrendo de sono... E você, mocinha, - ela apertou fraco o nariz de Emma. - vai subir agora e descansar também. Ficou acordada a viagem toda.
- Ah, mamãe! – Emma ameaçou a fazer pirraça. Podia jurar que ela daria um chilique, mas acho que chilique seria demais por algo tão bobo que Emma não parecia ser o tipo de criança de fazer escândalo para conseguir o que quer, ela era mais uma dessas criancinhas manipuladoras, que consegue o que queria depois de brincar com o psicológico das pessoas. – Eu quero mostrar a as fotos do passeio!
- Depois você me mostra, Emma. – soltei nossas mãos, abaixando para lhe dar um beijo na bochecha – Você tem que dormir.
- Mas eu nem tô com sono! – ela cruzou os bracinhos, indignada, e tentou impedir um bocejo.
- Oh, claro... – Helen revirou os olhos, com um sorrisinho incrédulo e a pegou pela mão, para subirem – Me engana que eu gosto.
Emma virou o rostinho para trás, me fuzilando, dizendo através dos olhos que mais tarde eu pagaria caro por não ajudá-la. Ela voltou sua atenção, um pouco a contragosto, à mãe e começou a resmungar.
Em vez de ir até e avisar, servi café na sua caneca favorita; uma imitação em porcelana de um copo da Starbucks. Deixei esfriar um pouco - pois ele gostava do café morno – e enchi meu copo com mais suco. Eu nem queria beber, na verdade. Usei isso como uma desculpa para retardar o nosso encontro. Naqueles míseros minutos, o único pensamento que passava pela minha cabeça era como seriam as coisas daqui pra frente.
O fato era que estávamos num caminho sem volta, concluí. As coisas dali em diante só avançariam mais e eu não estava preparada para pará-las. Eu não queria recuar e não esperava que ele fizesse isso. Como eu poderia depois do que tivemos? Depois do que ele me fez sentir? Das coisas que disse, dos toques ousados, do nosso momento? Estávamos muito envolvidos um com outro. Eu sentia por ele uma atração extremamente forte. Uma atração que, sem que eu percebesse, havia se transformado em algo muito, muito grande. Enorme, gigantesco, que me fazia ficar febril só de imaginá-lo em cima de mim, me olhando tão entregue e tão docemente.
Mas... Será que ele sentia a mesma coisa?
Encarei o meu suco intocado, como se ele fosse me dar à resposta que eu tanto queria. Mas como ainda não descobriram como dar vida a líquidos e muito menos ensiná-los a falar, o joguei dentro da pia com copo e tudo. Peguei a caneca de , e fiz a porta pela qual Emma havia entrado e que me levaria ao quintal, correr. Jack logo que me viu, veio balançando o rabo pra mim, a boca aberta e a língua a mostra, como se estivesse sorrindo.
- E então, seu grandalhão bobo, conseguiu pegar aquela cadela do vizinho? Aposto que sim! – agachei, tomando o cuidado com o café de e acariciei sua cabeçorra. Seus olhos amendoados me olharam pidões e eu lhe dei um beijo no topo da cabeça, fazendo seu rabo ficar mais agitado da forma como sempre acontecia quando eu realizava tal ato. – Só uma cadela louca dispensaria um cachorrão lindo como você.
Jack quase conseguiu a proeza de me derrubar pra trás para brincar com aquele tamanho todo. O empurrei com um pouco de dificuldade, rindo do seu jeito desajeitado e então ele foi correr para procurar algum brinquedo que eu pudesse jogar.
O tempo estava nebuloso e sem chuva, até aquele momento, porém, já mostrava sinais de que viria bastante água. Uma rajada de vendo atingiu meus braços e nuca, expostos, me arrepiando de um jeito gostoso. Eu amava o frio. É claro que o sol sempre era bem vindo, mas o frio sempre me pareceu mais bonito, como se deixasse tudo mais misterioso, mais elegante. Eu já havia me acostumado com o frio agradável e aconchegante em que York mergulhava constantemente naquela época do ano, mas agora seria a primeira “chuva inglesa” que eu presenciaria desde que me mudara.
Caminhando sorrateiramente, segurando a caneca com as duas mãos, e agradecendo por Jack ter se esquecido de mim, fui até a garagem – que só era usada para guardar tralhas – com o portão pesado totalmente levantado. Havia caixas e mais caixas de papelão como a que encontrei no hall, abertas juntamente com pneus velhos de bicicleta jogados pra todo o lado. Pousei meus olhos na figura masculina de costas para mim, usando apenas uma calça de moletom quadriculado muito surrado, os pés descalços, sentado em cima de um caixote enquanto mexia despreocupado, numa bicicleta de adulto com a tintura azul escura lascada. The Ballad of Mona Lisa do Panic! At The Disco tocava no volume máximo nos fones do iPod, estourando seus tímpanos, como um costume quando ele estava pensando em algo o preocupava, pelo que deduzi pelas muitas horas de pesquisas sobre .
Aquilo não me cheirava nada bem e Jack não tinha nada a ver com isso.
Dei mais alguns passos sem coragem para continuar. Sem saber como agir. Eu me perguntei se realmente não havia sentido a minha presença ou estava me ignorando.
Não, não poderia ser a segunda opção.
Não podia.
Seus movimentos me chamaram atenção, fazendo com que meus olhos percorressem toda a extensão das suas costas brancas, salpicadas por algumas pintinhas, que mesmo que só tendo visto por alguns momentos, já conhecia bem graças aos treinos de futebol em que eu acompanhava as meninas.
Eu amava as costas dele...
Os ombros largos...
Os olhos intensos e divertidos.
E as mãos grandes com os dedos gordinhos...
A boca também precisa entrar para a lista, sem dúvida!
A barriga estilo barrinha de chocolate...
Tudo na medida certa, no lugar certo...
Tudo bem, você venceu. O corpo inteiro!
Pressionei meus lábios um no outro, ansiosa, e voltei a andar com o maior cuidado possível, sem tirar meus olhos de . Não queria perder uma só reação quando ele me visse.
O contornei, e nem assim a minha sombra se fez motivo para ele desviar os olhos da bicicleta. Minhas mãos estavam quase esmagando a porcelana da caneca quando ficamos frente a frente.
Minhas pernas tremeram. Eu estava com medo. Morrendo de medo, mas não iria dar pra trás. Eu já não estava aqui? Já não tinha feito? Era hora de enfrentar.
tirou os fones e levantou a cabeça lentamente, começando pelos meus pés, e por algum motivo, seus olhos perfeitos não se encontraram nos meus e sim, fizeram o retorno, até a bicicleta, com uma expressão estranha. Meu coração ficou pequeno, aquela indiferença repentina estava me machucando.
- Helen pediu para eu te entregar – forcei a minha voz a sair firme, fingindo não notar nada de diferente e estendi a caneca para ele, que aceitou sem relutar.
- Obrigado – agradeceu bebericando um pouco do café, fazendo uma careta por ele ainda estar quente, deixando a caneca de lado, no chão – Não precisava se incomodar.
- Sem problemas... – dei de ombros, entortando meu pé direito para tentar aliviar o nervosismo que eu me encontrava por dentro – Você, hm, acordou cedo.
Ele soltou um suspiro e levantou, pulando a bicicleta sem nenhuma dificuldade, quebrando qualquer barreira entre nossos corpos, finalmente fixando seus olhos nos meus. Notei que suas íris, que antes eram tão perfeitamente , agora estavam nubladas como o céu, não deixando que sequer uma sombra de sentimento refletisse nelas. Lá estava a barreira que sempre erguia quando o assunto era “nós”. Algo dentro de mim se partiu.
- ... – ele me chamou pesadamente com a voz fria, tão sem emoção quanto o tempo. – Precisamos conversar.
Instantaneamente meus olhos queimaram e eu fiz o possível para que não perceber.
- O que houve? - perguntei com um fio de voz, ainda sustentando o olhar oblíquo que recebia. Quando ele passou por mim, fechei os olhos, respirando fundo, dizendo para mim mesma que aquilo não estava acontecendo.
- Ontem à noite... - gelei ao ouvi-lo falando de um jeito tão distante, como se ele não fosse parte do que tinha acontecido, como se ele não fosse o meu , aquele cara com quem eu tinha dito uma experiência incrivelmente maravilhosa - O que aconteceu... foi um erro, eu me excedi e você também...
Aquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Não era real. Não podia ser. Foi demais pra mim, eu definitivamente não queria acreditar no que meus ouvidos estavam escutando. Me virei, mas não adiantou muito. Ele estava de costas pra mim.
Estava me dando o fora e nem queria me encarar. Covarde!
E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio.

- Eu não sou um brinquedinho que alguém joga no canto do quarto quando não quer mais brincar, ! – ele me encarou, sem nenhum resquício de cor no rosto. Os olhos opacos. Os olhos que eu tanto amava, e que agora estavam me matando. Aquilo doeu, mais do que qualquer coisa. Aquilo me deixou com um ódio gigantesco de mim, dele, de nós. - Nós ultrapassamos o limite. Não há mais aquela linha tênue que tentávamos sustentar. Não dá mais pra voltar atrás. Eu não quero voltar atrás!
- Não era pra ter acontecido! - disse bravo, aumentando um silvo da voz o suficiente para me fazer recuar um pouco, gesticulando descontroladamente - Você não entende, não podemos ficar juntos! Imagina como seria se não dermos certo? Como seria? Nós moramos na mesma casa, você vai acabar se envolvendo com a minha família simplesmente porque você já faz parte dela! Nós teríamos que nos aguentar mesmo quando não estivéssemos mais juntos. Como serão as reuniões? Você levando seu namorado novo e eu levando minha namorada nova... Seria horrível, desconfortável! E o que diríamos ao John? O que ele diria sobre nós? John é como meu pai, . O pai que eu não tive até os sete anos! E ainda temos a Emma, ela é nossa irmã de sangue. Como vamos lidar com tudo isso? Como as pessoas vão nos ver? O que vamos dizer? É como se fôssemos irmãos... Isso é...
- Não seja ridículo, ! – o impedi bruscamente, controlando o ímpeto de gritar que aquilo tudo era um bando de desculpas escrotas e idiotas que não colariam comigo. Eu precisava ser racional. Precisava mostrar a como ser racional. - Não somos irmãos! As pessoas não nos veem como irmãos!
- Não? Tem certeza? - ele perguntou soando debochado. – Quando você chegou, todo mundo perguntava sobre “a irmã mais velha do ”. , eu acho que você ainda não entendeu a gravidade da situação, muito menos entende a relação que eu tenho com o John. Eu fui criado por ele e você é filha dele! O filho de criação junto com a filha biológica? Só você não consegue enxergar o quanto bizarro isso é?
- ... - maneei a cabeça lentamente em negação a todas aquelas palavras, as lágrimas se mostraram antes que eu pudesse refreá-las, rolando livremente pelo meu rosto. - Eu, você, nós... Você não vê? Foi especial... - levei a mão ao meu rosto, limpando com agressividade o rastro salgado, meu corpo tremendo desesperadamente - Você não pode fazer isso comigo, com a gente... O que aconteceu não significou nada pra você? - perguntei esperançosa, desejando mais do que tudo que aquilo fosse uma brincadeira de muito mau gosto.
- Não... – disse baixinho, quase num sussurro, desviando o olhar furtivamente quando minhas lágrimas denunciavam a dor descomunal no meu peito. Uma dor dilacerante, que me consumia por inteira a cada milésimo de segundo que suas palavras ecoavam na minha cabeça - Não significou nada pra mim.
- É mentira, não é? Eu sei que é mentira... - questionei, ignorando a minha falta de ar repentina. Eu tentava respirar, mas naquele momento, aquilo não era natural pra mim e eu precisava fazer muito esforço para conseguir puxar um pouco de oxigênio, que logo se esvaia. Eu estava cansada, mas queria continuar. Queria ir até o fim. – Olha pra mim! – mandei exasperada, o empurrando sem força suficiente para fazê-lo sair do lugar. Minha mão ficou em seu peito, subindo e descendo conforme a respiração de acelerava igual a minha.
Ele olhou para minha mão por alguns segundos. Os segundos mais demorados da minha vida. Minha pele formigava sobre seu peito por causa do contato, que por mais que fosse pequeno, era tudo. Era surreal, isso sim. Mesmo naquela situação, meu corpo correspondia a ele sem nenhuma cerimônia. Eu me sentia uma idiota, uma burra, uma tola, uma vaca!
Eu não saberia dizer se sentiu a mesma coisa, só sei que ele afastou minha mão com delicadeza e me olhou com os olhos marejados.
- Acredite no que quiser, - disse duramente depois de respirar fundo. Meus braços ficaram pendentes em cada lado do meu corpo como se pesassem toneladas. – Eu não quero que John mude comigo, não quero que ele deixe de ser meu pai por causa de... por... por...
- Por causa de mim - completei com a voz embargada, vendo que ele não faria. Segurei as lágrimas que queriam continuar a me denunciar, a qualquer custo. - Por coisa que não vale à pena, não é? Eu não valho nada pra você, . Eu confiava em você... Eu me expus pra você, de uma maneira que eu nunca tinha feito com ninguém e eu não digo só do que fizemos, mas do que eu senti e do que eu falei. Do que eu falava pra você... - dizia desenfreadamente, me aproximando cada vez mais dele, e ele, por sua vez, retrocedia os passos, apreensivo, até ficar preso entre mim e algumas prateleiras de madeira. Nossos rostos só não ficaram mais colados por causa da diferença de altura e ainda assim, nossos olhos estavam conectados como se não houvesse tal empecilho - Você foi a primeira pessoa com quem eu realmente me abri em relação a minha mãe. Te contei meus pensamentos, meus medos, deixei que você soubesse tudo o que se passava dentro de mim e você... Você simplesmente me usou! Você se aproveitou das coisas que aconteceram comigo pra se aproximar e ganhar minha confiança!
Foi a minha vez de recuar. A verdade é que partir daquele momento, eu morria de medo de muitas coisas. Principalmente quando cogitei pensar em como seriam as coisas entre nós.
Respirei fundo, engolindo o choro.
- Espero que tenha sido bom pra você! – disse amarga, as palavras saltaram da minha boca com a maior quantidade de veneno e mágoa que consegui reunir, antes de girar os calcanhares e voltar para a casa.
Aquela vontade de chorar me invadiu novamente. Caminhei a passos largos até ter certeza que não estava mais sob sua vista e quando dei por mim, atravessava a pequena distância que restava, aos tropeços por causa das lágrimas que embaçavam a minha visão, entrando na cozinha sem nem me dar ao trabalho de fechar a porta para que Jack não entrasse. Entrei no meu quarto, batendo a porta com força sem me importar de que havia gente tentando dormir e me tranquei no banheiro.

Come up to meet you, tell you I'm sorry
Estou indo te encontrar, te dizer que eu sinto muito
You don't know how lovely you are
Você não sabe quão adorável você é
I had to find you, tell you I need you
Eu tive que encontrar você, te dizer que eu preciso de você

Fui até o chuveiro, liguei-o para que ele esquentasse enquanto arrancava minhas roupas, joguei-as num canto qualquer e entrei no box, encostando a cabeça no frio azulejo, deixando que a água me molhasse por inteira enquanto chorava copiosamente; o corpo tremendo, a mente confusa, meu peito queimando assim como os meus olhos... O banheiro girava, o ar não entrava nos meus pulmões. Sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

And tell you I set you apart
E te dizer que eu te deixei de lado
Tell me your secrets, And ask me your questions
Me conte seus segredos e me pergunte suas dúvidas
Oh, let's go back to the start
Oh, vamos voltar para o começo

Apoiei minhas mãos na parede, escutando o meu choro, a água escorrendo pelo meu rosto levando minhas lágrimas junto consigo e logo outras grossas surgiam, deixando claro para mim que mais outras continuariam a descer... Eu esperava que a água levasse todos aqueles sentimentos misturados ralo a baixo.
Subitamente, me vi diante de um abismo e ninguém, ninguém mesmo, poderia me ajudar.

Running in circles, Coming in tails
Correndo em círculos, atrás de nossos rabos
Heads on a science apart
Cabeças em uma ciência distante

Eu sabia que tinha me rendido muito facilmente, mas eu não consegui me controlar. Como eu ia conseguir pensar direito com seus sussurros? Como eu poderia me negar algo que eu tanto queria e tinha ali, bem na minha frente, de uma maneira tão tentadora? Eu era uma simples mortal com erros e acertos... E agora não dava mais pra voltar atrás.
O que aconteceu... foi um erro, eu me excedi e você também...
A frase ecoava na minha cabeça o tempo todo, como um mantra agourento.

Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
It's such a shame for us to part
É mesmo uma pena nós nos separarmos
Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
No one ever said it would be this hard
Ninguém nunca disse que seria tão difícil
Oh take me back to the start
Oh, leve-me de volta ao começo

Não era a primeira vez que eu me sentia tão usada, sozinha, burra e perdida. Não era a primeira vez que eu sentia na pele a dor da decepção. Mas com era diferente. Ele não era Sam, ele não era Jennifer. Ele era... meu porto seguro. Meu amigo, confidente, minha barreira de proteção... Era simplesmente o , sem mais.

I was just guessing at numbers and figures
Eu há pouco estava adivinhando números e dígitos
Pulling the puzzles apart
Solucionando os quebra-cabeças
Questions of science, science and progress
Questões de ciência, ciência e progresso Don't speak as loud as my heart
Não falam tão alto quanto meu coração
And tell me you love me, come back and haunt me
Diga-me que me ama, volte e me assombre
Oh, when I rush to the start
Oh, e eu corro para o começo

Aquela alegria foi embora tão de repente, parecendo tão distante, como se eu nunca tivesse a sentido. Me senti tão sozinha e desamparada. Tanto quanto me senti quando minha mãe morreu, só que de uma maneira diferente, porque de certa forma, quando perdi minha mãe, eu sabia que era a pessoa mais importante na vida dela, assim como ela sempre seria pra mim. Eu sabia o quanto ela me amava. Mas diferente disso, eu não sabia o que era pra ele. Eu nem sequer sabia se era alguma coisa. E isso doía demais.

Running in circles, chasing tails
Correndo em círculos, perseguindo nossos rabos
Coming back as we are
Voltando para o que nós somos

Com minhas bochechas queimando, comecei a passar o sabão pelo meu corpo, acabando por deixá-lo de lado e usar a esponja, esfregando-a com força contra minha pele, querendo tirar qualquer vestígio dele que ainda poderia estar em mim. Meu coração parecia dar um solavanco a cada vez que eu pensava sobre a noite anterior. Ainda podia sentir as mãos de passeando por todo o meu corpo, seus beijos impacientes, seu corpo em chamas movendo-se desesperadamente contra o meu. Pensei que havia sido especial pra ele. realmente estava comigo. Eu vi nos seus olhos... Vi que não era só mais uma... Não, definitivamente eu não era, e ele havia passado isso pra mim, com seus carinhos e sua atenção, seus olhos puros, um brilho tão bonito que pensei no momento que os vi, que iria me perder neles... Ou talvez eu só tenha visto o que me era conveniente. Eu não acreditava mais em nada. Não vindo dele.

Larguei a esponja pelo box com a minha pele vermelha, reclamando da força exercida, impedindo que ela ficasse em carne viva e encostei minhas costas nuas na parede, escorregando até o chão, e entre os soluços incessantes, abracei minhas pernas, encolhida como uma criança indefesa.
Por quê? Por que fazer aquilo, dizer aquelas coisas? Por que tinha me usado daquela maneira? Por que logo ele? não tinha sido nada justo comigo!
Eu não esperava ser pedida em namoro. Também não esperava ouvir uma declaração enorme e emocionante acompanhado daquelas três palavrinhas tão significativas. Eu não o amava para isso. Eu só queria... Me sentir importante. Só queria que, mesmo acabando, que não fosse dessa maneira.

Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
Oh, it's such a shame for us to part
Oh, é mesmo uma pena nós nos separarmos
Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
No one ever said it would be so hard
Ninguém nunca disse que seria tão difícil
I'm going back to the start
Eu estou voltando para o começo

- Por que, ? O que eu fiz pra você? - monologuei, com dificuldade.
E então, como num estalo, eu entendi o que havia se partido dentro de mim. O meu coração.
Ele estava sangrando... Sangrando e sangrando, e continuaria sangrando até tudo passar. Até que tudo fosse esquecido. Cada palavra, cada beijo, cada momento, cada toque... Eu, em toda a minha vida, nunca desejei tão fervorosamente esquecer. Esquecer quem eu era, de onde eu vinha... E a dor latejava, latejava. Me contorci no chão até tombar para o lado e deitar, em posição fetal, tocando a parte da água que mostrava o meu reflexo. Não me importei com o chão contra o meu rosto. Do que adiantaria eu me importar? A dor dentro de mim era incontáveis vezes maior. Ela não iria embora... A decepção muito menos.
O ódio que estava sentindo dentro de mim era tão grande, que simplesmente não dava pra comparar com nada.

Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
Oh, it's such a shame for us to part
Oh, é mesmo uma pena nós nos separarmos
Nobody said it was easy
Ninguém disse que era fácil
No one ever said it would be so hard
Ninguém nunca disse que seria tão difícil
I'm going back to the start
Eu estou voltando para o começo
Aah oooh ooh ooh ooh ooh (x4)

Chorei tudo o que era pra chorar e só quando as lágrimas foram contidas, foi que eu resolvi levantar, com as mãos apoiadas na parede. Me enrolei na toalha e fiz o mesmo com o meu cabelo. Eu não podia mais ficar em casa. Precisava sair, conversar com alguém. Abri a porta do banheiro, fungando, andando lentamente até o closet para pegar um blusão quadriculado azul e branco de manga comprida, um suéter cinza claro largo, uma calça jeans skinny preta e sapatilhas da mesma cor. Passei o processo de me vestir, pentear o cabelo e secá-lo como se uma bola de tênis estivesse presa da minha garganta e chorei mais um pouco, evitando ao máximo olhar meu reflexo no espelho. Sabia que estava com uma cara péssima e isso já bastava. Disfarcei meu rosto desconfigurado com alguns quilos de maquiagem e botei meu óculos de sol para que ninguém visse meus olhos inchados.
Desci cautelosamente os degraus, olhando para todos os cantos para não ser surpreendida, levando no ombro a bolsa que eu usava para ir ao colégio, com mais duas mudas de roupa e algumas parafernálias femininas. Eu ligaria mais tarde, avisando, mas não queria ter que explicar nada a ninguém no momento, muito menos queria que soubesse que eu estava praticamente fugindo dele.
Saltei no ponto de ônibus no final da rua. Estaria tudo deserto se não fosse pelas poucas pessoas que se arriscavam a fazer sua caminhada rotineira de domingo naquele frio com os pingos de chuva que começavam a cair ou outras pessoas que iam até a padaria.
Quase dei meia volta quando parei em frente à silenciosa casa de Lizzie. Eram 08h25min, as cortinas estavam fechadas e nenhum ruído vinha de lá. Mas o que eu faria? Lizzie foi a primeira pessoa em quem eu pensei. Eu poderia conversar com ela sobre qualquer coisa. Era minha melhor amiga. Não que Katie e Cassie não fossem, mas desde o começo, eu havia dito uma afinidade maior com Lizzie. Nós nos entendíamos apenas com o olhar ou o tom que a outra usava ao falar, mesmo não sendo perceptível para os outros. Era fácil me abrir com ela, assim como era fácil me abrir com... Com ele.
Dei duas ou três batidas na porta, suficientemente altas e aguardei. Me pareceu abuso demais tocar a campainha aquela hora da manhã, ainda mais depois da festa. Se ninguém me atendesse, teria que arranjar outro lugar para ficar. Katie estava fora de cogitação porque provavelmente dormiu na sua casa, aproveitando que os pais dela ainda estavam viajando. Cassie também deveria estar com na casa dele.
Bati mais duas vezes vendo a chuva apertar. Já estava ficando ensopada quando George abriu a porta, coçando um olho e fazendo uma careta com o pouco do outro aberto, o cabelo todo bagunçado, o sono estampado em seu rosto, vestindo uma samba canção de algodão. Ironicamente eu estava congelando por dentro da minha roupa quente enquanto ele estava seminu, como se estivéssemos em um país tropical. Nada como um bom aquecedor.
- Que bela visão logo de manhã – ele sorriu molemente entre um bocejo, de um jeito encantador. Olhou para os lados só para checar se eu estava sozinha e voltou a olhar pra mim, agora parecendo mais desperto enquanto eu era saudada pelo ar quente que atingia o meu corpo vindo do hall – Droga, você está molhada! Me desculpe... Vem, entra!
- Eu é que devo pedir desculpa por tocar tão cedo... – disse timidamente, entortando a boca, sendo puxada pelo pulso, avançando até a sala em seu encalço.
- Não tem problema nenhum, eu estava jogando vídeo game – ele me soltou e apontou para o notebook em cima do sofá, com World Warcraft pausado. Tinha esquecido que George era viciado e passava a noite jogando. Havia uma embalagem de pizza tamanho família sem nenhum pedaço para contar história, em cima de mesinha de centro junto com incontáveis latinhas de cerveja – Só demorei porque ainda estou meio lerdo... Desculpe, você acabou ficando molhada. Vou pegar uma toalha pra você.
- Não prec... – tentei dizer, mas George já tinha subido. Coloquei a sacola com pães fresquinhos que havia comprado no caminho, em cima mesa de jantar. Tirei as sapatilhas e o suéter, que era a peça de roupa mais molhada.
Minutos depois, George reapareceu me entregando uma toalha verde.
- Trouxe pra vocês – mostrei a sacola com a cabeça, terminando de secar as pontas do cabelo, devolvendo a toalha em seguida. – Não ia chegar aqui com as mãos abanando, não é? Já basta aparecer desse jeito.
- Você é realmente maravilhosa, ! – exclamou, cheirando os pães, faminto. George poderia ser magro, mas comia como três homens enormes. – Já tomou café?
- Não estou com muita fome... – eu sabia que colocaria pra fora qualquer coisa que ingerisse. Só com a menção de “café” meu estômago se revirava todo, me enjoando.
- Que pena... – disse, fazendo uma cara falsamente triste. – Mas não tem problema, eu como por nós dois. Vem comigo.
Sentei numa das cadeiras da cozinha, com os cotovelos em cima da mesa, as mãos no queixo, observando seus movimentos pra lá e pra cá na cozinha. George abriu a geladeira, tirando leite e suco, colocando tudo em cima da mesa.
- Sua amiga foi embora bem cedo dessa vez, Lizzie a expulsou quando chegou? – perguntei lembrando de que ele estava com visita na noite passada e não jogando vídeo game.
- A Victorie? Ah, não! Ela teve que ir embora porque o pai descobriu que ela não estava na casa da amiga... – dizia, colocando água para esquentar. - E não foi ela que foi expulsa aqui de casa. Foi a Jojo. Essa daí não quer mais falar comigo, então eu tive que arranjar outra garota...
- E você está gostando dela?
- Bem... – ele avaliou a minha pergunta por alguns segundos e depois deu um sorriso maroto, tirando a água no fogão. – Sim! Estou sim! Não apaixonado, mas gostando mesmo, sabe? Victorie é diferente das outras garotas da faculdade. É muito inteligente e bonita, além de gostosa, é claro.
- Fico feliz por você – sorri sem me lembrar do meu probleminha por ouvir assuntos que não fossem direcionados a mim. Se George estava confessando estar gostando mesmo de uma garota, era porque ela realmente estava mexendo com ele. Eu podia sentir o cheiro de casal novo no ar.
O mundo não vai parar por sua causa, .
- Você também acordou bem cedo para quem estava numa festa, ainda mais se tratando de uma festa da Katie... – sondou, como se estivesse captando algo de errado ao mesmo tempo em que colocava água em duas canecas vermelhas, adicionando saches de chá em cada uma. Às vezes eu me perguntava se George e Lizzie eram irmãos prodígios com poderes mentais. – Aconteceu alguma coisa para você ir embora sem a Lizzie? Voltou com alguém?
- Fiquei cansada e acabei voltando com o ... – foi tudo o que consegui falar. Por mais que George fosse ótimo para conversar, não era com ele que eu queria me abrir. Até porque eu não saberia como explicar os acontecimentos.
- Vocês brigaram – concluiu como se lesse entre as entrelinhas ao mesmo tempo em que sentava na cadeira de fronte a minha, fazendo uma caneca deslizar na minha direção. – Isso não é uma novidade, é? Acho que já perdi as contas de quantas vezes vocês brigaram ou os vi conversando como se fossem amigos de infância apaixonados um pelo outro e não admitissem isso... É, , o amor e o ódio andam juntos. Bem coladinhos, e muitas vezes a gente nem percebe.
- Não é o nosso caso – falei melancolicamente, sem pestanejar, com os olhos grudados na caneca que seria minha e depois os levantei na direção de George, jogando a caneca de volta para ele. – Não tô com fome.
- Toma pelo menos o chá. É de maçã. Lizzie me contou que é o seu favorito. – ele, teimosamente, devolveu a caneca. – Você tá pálida, precisa se alimentar. Não me obrigue a fazer você beber.
Provavelmente George estava certo. Eu devia estar com uma cara horrível.
Eu estava me sentindo horrível.
- Por que não tira o óculos? Você não precisa usá-lo aqui.
- Meus... Meus olhos... Estão sensíveis. – desconversei, ocupando minha boca com o líquido quente, rapidamente obedecendo aos pedidos do meu estômago de não empurrar mais nada para ele.
- Quer colírio? Lizzie deve ter no quarto dela.
- Puta merda! – Lizzie resmungou sonolenta com a mão na cabeça, entrando na cozinha com o rosto todo amassado. Ela parou assim que me viu e arregalou os olhos, olhando de mim para o relógio pendurado perto da pia. – ? Aconteceu alguma coisa?
- Oi, Google. – a cumprimentei, levantando da cadeira. – Desculpa por te perturbar tão cedo.
- Que isso, , não tem problema nenhum – ela sorriu, me olhando intensamente, detectando que havia algo errado, esquecendo da sua dor por segundos. – Você já tomou café?
- Ela não quer comer nada – George respondeu por mim, como quando uma criança conta alguma travessura para mãe sabendo que haverá consequências. – Quase não tocou no chá.
- Então a gente vai subir e tomar café no meu quarto, ok? – ela me olhou significativamente e eu tive que me segurar para não abrir o berreiro de novo. – Vai subindo que eu vou montar uma bandeja pra gente e tomar um remédio.
Deixei os dois irmãos para trás, tendo a certeza de que trocariam algumas palavras sobre meu comportamento. Peguei minhas coisas na sala e subi, deixando tudo num canto perto do armário embutido de Lizzie e sentei em sua cama. Brandon, que estava deitado no pé da cama, veio esfregar seu pêlo alaranjado no meu braço, desistindo quando não lhe dei bola. Estava tão desanimada que nem brincar com ele consegui. Tirei o óculos, esfregando meus olhos quando eles voltaram a arder.
- Não deveria ter bebido tanto ontem, estou o bagaço da laranja! - Lizzie brincou, fechando a porta, pondo a bandeja lotada de comida perto de mim. Ela puxou cadeira rotativa do computador para se sentar em frente a mim, segurando as minhas mãos, assumindo a postura mais séria que sua dor de cabeça permitia. - O que aconteceu com você e o ontem? Vocês foram embora e nem avisaram... Tentei ligar pro seu celular, mas você esqueceu sua bolsa, não atendeu nenhum de nós... Peter ficou procurando por você o resto da noite.
Peter. Deus, mais um problema pra mim.
Minha cabeça latejou tão forte que quase me fez vomitar o pouco do chá. Ela pesava mais do que uma bigorna e meu ouvido zumbia parecendo estar cheio de insetos irritantes dentro dele.
Fiquei quieta por um tempo, massageando as têmporas, como se a dor de Lizzie tivesse sido passada pelo toque de nossas mãos.
- Me conta o que aconteceu, o que fez pra você ficar com essa carinha – Lizzie pediu agoniada, quebrando o silêncio, baseando-se em seu instinto.
Eu fechei os olhos, respirando fundo, na falsa esperança de que aquela dor que martelava dentro de mim fosse embora.
- Ele me decepcionou – falei sem intervalos para que ela não percebesse minha vontade de chorar. – Muito mais do que Jennifer e Sam. Muito mais do que qualquer pessoa...
- Você quer me contar o que aconteceu? – indagou, tentando passar coragem quando reabri os olhos.
Foi como se um botão tivesse sido ligado dentro de mim, pois as lágrimas começaram a rolar sem que eu quisesse e isso me deixou extremamente indignada. Lizzie logo se apressou, me puxando para um abraço, não se incomodando com minhas lágrimas molhando seu ombro. Meus olhos doíam e nem mesmo assim deixei de virar uma mangueira humana novamente, até que depois de algum tempinho consegui engolir o choro, com Lizzie me consolando silenciosamente, afagando meu cabelo.
Ela me olhava sem expressão depois de escutar o meu discurso quase sem fim enquanto eu esperava sentada de perna de chinês sobre sua cama, qualquer mudança no seu rosto. Mas não houve. Aquilo estava me agoniando. Eu havia contado tudo pra ela. Tudo nos mínimos detalhes. E ela me escutou atentamente como uma boa amiga, e depois ficou quieta, pensativa... Era um silêncio perturbador, que me deixava nervosa a cada segundo. O que estava passando na cabeça da minha amiga depois de eu ter contado tudo o que havia acontecendo entre eu e ?
Ela franziu a testa, indicando que estava preocupada com algo, o que me deixou em cólicas.
- Lizzie... - a chamei baixinho, engolindo em seco. - Você não vai dizer nada?
- Era tão óbvio... Por que eu isso não me passou pela cabeça? - questionou a si mesma, com o cenho levemente enrugado, olhando pra mim. - Quero dizer, passou sim, mas... Eu não achei que estivesse acontecendo de verdade, entende? Pensei que vocês ainda não tivessem ficado, só aquele climinha, aquele ciuminho... - ela colocou a mão no queixo, inclinando a cabeça um pouco pro lado. - Talvez Peter tenha feito tudo ficar mais acelerado. Eu te disse, desde o começo, que não era pura e simples implicância do , não era por vaidade que ele não queria e ainda não te quer perto do Peter. gosta de você.
- Você ouviu bem tudo o que eu te contei? - perguntei para me certificar de que não havia cera nas orelhas dela. - Ouviu tudo?
- Ouvi - ela confirmou como se dissesse o óbvio. - Claro que eu ouvi!
- Então nós não estamos no mesmo nível de conversa, Google. Ou então você não entendeu o que a parte de "transamos e depois ele me deu o fora" significa.
- ... - Lizzie balançou a cabeça, compreensiva, me olhando como se eu fosse uma tola por dizer tudo aquilo, beirando a um sorriso amarelo. - Você ainda não entendeu?
- Entender o que? Que ele me usou como fez nas outras vezes? Que eu fui uma idiota por acreditar nele? Eu já entendi isso muito bem, obrigada! Eu não esperava que ele fosse me pedir em casamento ou sei lá, comprar um anel de diamantes pra mim, mas poxa, eu perdi a virgindade com ele e... Por um momento foi maravilhoso, foi gostoso. Ele foi tão carinhoso comigo, tão incrível, paciente, não precisava me tratar como um cão sarnento! Ser tão frio e indiferente! – disparei agressiva sem exatamente querer ser, cuspindo as palavras sem nem parar para respirar. As lágrimas começaram a se acumular, mas eu respirei fundo, não permitindo que elas escapassem. - Fiz porque quis, porque ele mexe comigo e eu simplesmente não consigo ignorar as coisas que sinto quanto tô perto dele. E também não vou ser hipócrita de dizer que não esperava que acontecesse de novo mesmo que não tivéssemos um relacionamento concreto. Só queria que acontecesse naturalmente como ontem. Mas agora não quero mais. Não quero mais me sentir como um brinquedo nas mãos dele que ele brinca quando quer e depois deixa pra escanteio! Não sou usável!
- Você me disse muitas coisas, mas esqueceu o principal - levantei uma sobrancelha, não entendendo o que ela queria dizer. - Amiga, você tá tão cega de raiva que não prestou atenção em tudo o que o te disse. Ele fez tudo isso porque tá com medo. Imagina se John descobre o que aconteceu entre vocês? Ele vai ficar louco! não quer que John tenha raiva dele. Ele ama muito o John pra decepcioná-lo dessa maneira.
- Isso só me faz me sentir mais usada e com mais raiva dele! - retruquei exaltada. Aqueles fundamentos de Lizzie não tinham cabimento, tinham? - Se ele tá com tanto medo assim, por que ele fez o que fez? Por que ele precisava provar pra si mesmo que ele pode! Eu sei que você e são amigos de muitos anos, se conhecem desde pirralhos, mas nada justifica o que ele fez. Já disse e repito: ele não precisava falar daquela maneira comigo!
- Não estou defendendo ele, . Só estou te mostrando os fatos, sendo racional, como sempre fui. – disse daquela maneira sensata dela.
- Não quero mais falar sobre isso - resmunguei, segurando o rosto com as duas mãos, me sentindo mole, exausta. - Não hoje. Katie e Cassie vão fazer meus ouvidos derreterem de tanto que vão falar amanhã.
- Tudo bem - a ouvi levantar e arrastar a cadeira de volta a escrivaninha. Me estiquei na cama, ponto o travesseiro no rosto. - Vou tomar um banho então, não vou demorar. Vê se come alguma coisa enquanto isso.
Escutei mais alguns passos de Lizzie pelo quarto até finalmente a porta ser fechada, me deixando sozinha no cômodo. Fechei os olhos tentando me forçar a dormir, mas só o que consegui foi fazer as cenas da noite passada serem reformuladas e dançarem na minha cabeça. Minhas mãos tocaram o lençol involuntariamente. Era quase palpável sentir meus dedos tocando a pele nua de . De um jeito estranhamente bizarro, naquela posição, eu podia sentir seu peso sobre o meu corpo e tudo o que eu ouvia era meu nome sendo chamado entre os gemidos que emitíamos juntos.
Era torturante, agonizante e frustrante. A raiva não borbulhava misturada com o meu sangue naquele momento. Eu só queria tê-lo de novo só pra mim daquela maneira tão inteira. Tão completa.
Não senti vontade de chorar dessa vez, contudo, meu coração ainda sangrava. Eu estava vazia, incompleta e perdida. Queria tanto que minha mãe estivesse comigo. Nós sempre contávamos tudo uma pra outra. Ela saberia o que fazer.
Era sempre sabia.
Mesmo tendo as garotas, Emma, Helen e Molly, nenhuma delas poderia me entender como minha mãe me entendia. Não era consolo de mãe. Não era abraço, muito menos colo de mãe. Não era olhar, toque, conversa. Não era nada. Eu não tinha mais minha mãe, não tinha Sam, não tinha Jennifer e agora não tinha . Quais as outras pessoas a vida levaria pra longe de mim?
Não me mexi, fingindo ter adormecido quando Lizzie retornou, interrompendo minhas divagações. Os passos pelo quarto retornaram, sendo interrompidos pelo celular dela tocando My Hero do Foo Fighters.
Tirei o travesseiro da cabeça e sentando ereta em tempo de ver Lizzie correndo até a bolsa que usara na noite anterior, jogada sobre uma poltrona perto da porta da varanda. Ela ficou de costas pra mim, não tendo consciência de que eu escutava a conversa atentamente.
- Oi – ela atendeu calma, mas eu notei que estava apenas fingindo tal estado. – Não, não falei com ele hoje. Acordei há pouco tempo – pausa enquanto a pessoa falava alguma coisa. – Sim, , já consegui falar com ela, não se preocupe. tá aqui. Tá dormindo – ? Por que estava ligado? Pra saber de mim? E quem era “ele” que Lizzie ainda não havia falado? – Não, eu não vou acordá-la. , você é melhor amigo do , por que não pergunta pra ele? – respondeu mal educada caindo em mais uma pausa, dessa vez um pouco mais longa. – Não estou sendo fria com você, ok? Só tô cansada desse seu papinho pra cima de mim! Não, você não pode vir aqui, nós não temos nada pra conversar sobre ontem! – ela se calou quando voltou a falar. - E daí? Ela não está em condições para ficar respondendo suas perguntas estúpidas! precisa descansar, assim como eu, então se você quiser saber o motivo deles terem ido embora cedo, peça ao que te explique! Não me encha mais o saco! – e desligou o telefone e, pelo que supus, na cara de . – Idiota! – resmungou olhado para o aparelho em sua mão.
- Ei, - a chamei, fazendo-a se sobressaltar um pouco. – O que o queria?
- Queria saber sobre você e o . – respondeu sentado na beirada da cama ainda segurando o celular, olhando para o mesmo. – Se eu tinha notícias. não tá atendendo o celular.
- Hm... – soltei um muxoxo, vendo o olhar perdido de Lizzie. Eu não era a única com a cabeça confusa, afinal. – Quer me contar o que aconteceu ontem entre vocês?
- Não houve nada – negou, inquieta, não sendo nada convincente na resposta. Onde está sua eloquência agora?
- Não foi o que estava parecendo quando vi vocês dançando juntos... -
- Já disse que não houve nada! – sua voz oscilou ao grito, e eu entendi o recado de que o assunto estava encerrado.
Ficamos em silêncio. Não era um clima pesado, nem desagradável. Só o mesmo clima que ficava quando uma extrapolava o limite da outra. Lizzie só estava pensando no que me dizer. Talvez estivesse com medo. Eu poderia até mesmo ouvir as engrenagens do seu cérebro extremamente dotado, trabalharem. Mas de qualquer maneira, não iria forçá-la a dizer nada. Não era justo. Ela não me obrigou a dizer o que estava acontecendo comigo e com . Se minha amiga precisava de tempo pra se abrir comigo, ela o teria.
Meu celular começou a tocar e nossos olhares cruzaram receosos. Era evidente que estávamos pensando na mesma coisa. Corrigindo, na mesma pessoa.
(In) Felizmente não fora o nome de que aparecia no meu display.
Lizzie me incentivou, com a cabeça, a atender e foi o que eu fiz, sem saber direito se era a coisa mais certa a se fazer no momento. Ele poderia estar com muita raiva de mim e a última coisa que eu queria era estragar nossa relação. Nossa amizade.
- Alô? – atendi depois de quase cinco toques que se sucederam a minha troca de olhares com Lizzie.
- Te acordei? – a voz do outro lado perguntou, com uma tranquilidade que eu não esperava. - Pensei em ligar mais tarde, mas não estava mais aguentando, nem dormi direito... Precisava falar com você.
- Não tem problema nenhum, Peter – suspirei aliviada. Pelo menos até então Peter não demonstrava estar bravo comigo. – Como você está?
- Estou bem e você?
- Também... – respondi quase inaudível.
- Por que você foi embora ontem? Fiquei preocupado.
Congelei. Congelei por tanto tempo que Peter começou a me chamar para checar se eu ainda estava na ligação. Eu não queria mentir pra ele.
- Desculpe, ainda estou aqui sim... É que a Lizzie tava me mostrando uma coisa – disse lançando um breve olhar para Lizzie. – Eu fui embora porque não estava me sentindo muito bem, acho que foi a bebida.
- Você podia ter me esperado, né, eu te levava pra casa.
- Não queria atrapalhar a sua noite.
- Você sabe que não atrapalharia. Minha noite foi entediante depois que você foi embora – ele fez uma pequena pausa e acrescentou com um tom de riso – Tudo é muito entediante quando você não tá por perto.
- Peter... – o chamei, agradecendo por ele não poder ver como as minhas bochechas ficaram coradas. – Não fala assim.
- Oh, eu te deixei sem graça? – ele soltou uma risadinha. – Aposto que ficou mais linda do que já é.
- Peter... – não pude deixar de sorrir. Sorrir!
- Você me encanta, – assumiu um tom sério, e ainda assim, com um toque divertido. Qualquer garota no meu lugar se derreteria pelo jeito de Peter, por que eu seria diferente? - Não tem como eu ficar escondendo isso de você ou de qualquer outra pessoa, mas eu entendo que as coisas devem acontecer aos poucos. Não quero pressionar nada.
- Existem poucos homens como você – confessei.
- Ok, vamos parando por aqui. – agora foi sua vez de ficar sem graça – Então... Bem, você voltou com o ?
- Voltei – meu corpo se tornou tenso novamente. – Não queria fazer Lizzie voltar cedo, e como o já queria ir embora, fui pra casa com ele...
Francamente, , hoje você bateu sua cota de mentiras pro resto da vida! Mais um pouco e você vai pro inferno sem ter direito a fazer revisão dos seus atos!
- Está acontecendo algo entre vocês que eu não esteja sabendo?
- Não. – só o fato de a gente ter se amassado três vezes e finalizado ontem. – Por que teria?
- Por nada. Eu achei que vocês não estivessem se falando...
- Nossa relação é complicada. – resumi logo estendendo a conversa para outro assunto.
Ficamos batendo papo mais aleatório, como a dor de cabeça que ele estava sentindo a madrugada inteira, o que me fez rir mais um pouco. Peter me contou que foi embora quando soube que eu já não estava mais presente na festa. Ele, em nenhum momento da conversa, demonstrou estar chateado comigo, contudo, não deixei de pedir desculpas. Umas mil vezes, quem sabe. Despedimo-nos quando Lizzie e George me chamarem para ajudar no almoço (hambúrguer e batata frita).
Não toquei mais sobre o assunto “” pelo resto do dia. Lizzie me respeitou e também não falou sobre , nem mesmo quando o dito cujo ligou, um pouco depois da hora do almoço, no momento que estávamos vendo a nova temporada de Bones na FOX com George dormindo no meu ombro. Não perguntei o motivo de ele ter ligado e ela também não disse uma única palavra. Nem mesmo que era ele. Só soube porque quando atendeu, tentou disfarçar falando baixo “Oi, ” quando foi para a cozinha. Lizzie ficou por um bom tempo lá, mas eu tentei não pensar muito sobre isso. Não queria ficar fantasiando que estava preocupado comigo. Tudo bem, eu não vou dizer que isso não me passou pela cabeça, mas não foi um pensamento que me permiti por muito tempo. Claro, o cara te chuta e depois fica preocupado com você. Uma hipótese totalmente ridícula, não é? De qualquer maneira, perguntei a Lizzie se poderia dormir na sua casa pelo menos até amanhã. Suspeitei que, caso encontrasse com ele em menos de 24 horas, as lágrimas tornariam a descer. Ela concordou emendando “claro que pode, , não precisava nem pedir” e uns 10 minutos depois da ligação de , liguei para o celular de Helen avisando que ficaria na casa de Lizzie mais um dia, e ela me avisou que Emma estava muito chateada por eu ter saído sem falar com ela. Pedi para Helen chamá-la, mas Emma não quis falar comigo. Isso me deixou pior do que eu já estava.
Para me animar, Lizzie ficou contando as partes engraçadas da festa como quando , muito bêbado, diga-se de passagem, fez uma dancinha sexy com direito a caras e bocas e a camisa rodada pro alto para Cassie na frente de todo mundo. Fiquei imaginando minha amiga se controlando para não agarrá-lo ali mesmo e isso me rendeu algumas gargalhadas. Ou quando Paige Smith, do nosso ano, pulou na piscina apenas de calcinha e sutiã depois de ter se declarado para Will Parker, um dos amigos de Peter.
Oras, parece que alguém acordaria com ressaca moral...
Quando anoiteceu, pedimos pizza e cerveja. Eu e Lizzie ficamos com o refrigerante, já estávamos de ressaca – ela ainda reclamava da dor de cabeça, e eu nem mesmo consegui comer mais do que uma fatia direito, meu estômago estava embrulhado demais - então George ficou encarregado de matar todas as latinhas pedidas. Passamos o resto da noite dando risadas entre as rodadas de Guitar Hero e depois ficamos vendo a nova temporada de Skins. Quero dizer, eles assistiram, porque mal começou o episódio, e eu capotei no sofá, me entregando aos poderes de Morfeu.
me visitou naquela noite, e eu mal sabia que as visitas nos meus sonhos se tornariam mais frequentes do que eu gostaria.

Capítulo 16

Música do capítulo: Maroon 5 - Goodnight Goodnight | Letra.

- Tô aqui.
- Por que não buzinou?
- Anda, . Sai logo.
Desliguei, colocando o celular de volta no meu bolso, inspirando e expirando vagarosamente, esperando que o aperto no peito fosse embora. Sem resultado nem outras ideias, apoiei as mãos no volante, encostando a cabeça sobre elas, tento o cuidado de não tocar na buzina. A última coisa que eu precisava àquela hora da manhã era de um barulho ensurdecedor incomodando meus ouvidos e que fizesse minha cabeça latejar ainda mais.
Não era uma dor de cabeça normal, resultante de uma noite mal dormida. Antes fosse. Eu estava mal, em todos os sentidos, por ter passado a noite em claro, revirando na cama, envolto de uma angústia ridiculamente sufocante. Esse era meu consolo depois da minha conversa fatídica com .
Não era pra ter sido daquele jeito frio e indiferente; eu só não soube me expressar direito quando a vi na minha frente, tão sedutoramente tímida e curiosa, com seus grandes e expressivos olhos . Eu não queria ser tratado daquela forma doce. Não era certo nem pra mim e nem pra ela. Internamente, eu tinha esperanças de que ela me xingasse e dissesse que aquilo nunca mais se repetiria. Seria o empurrão para que eu colocasse de uma vez por todas na cabeça que era acesso proibido pra mim. Ela deveria ser.
Eu não saberia lidar com a situação de ter um envolvimento com ela. Quero dizer, John é meu pai; como poderia contar que eu e sua filha estamos tendo um caso e ainda por cima bem debaixo do seu nariz? E daí que não somos do mesmo sangue? Continuamos morando sob o mesmo tento, dividindo o mesmo pai e a mesma irmã. Como eu poderia lidar com a reprovação dele? John sempre foi e sempre será um exemplo pra mim. Eu nem sei direito o que realmente sentia por , além de uma forte atração e alguns - odeio ter que admitir até mesmo em pensamento - acessos de posse. Será que realmente valia à pena arriscar a confiança que eu tinha de John e deixar nossas vidas de cabeça pra baixo por algo que eu nem sabia direito se iria pra frente? Se eu queria que fosse pra frente? Até aquele momento, eu não achava necessária a participação dos meus pais nesse assunto.
Minha relação com era pura base de hesitação, curiosidade e descoberta. Ela despertava o meu interesse em saber mais a respeito, e quando eu pensava direito no que estava acontecendo, eu recuava. Ao mesmo tempo em que sabia para onde aquele avanço estava nos levando, eu queria seguir em frente, ir até o limite. E não é que finalmente chegamos?
Maldita seja a pessoa que descobriu que tudo que é perigoso é mais gostoso. Essa adrenalina de almejar algo que não foi feito pro seu bico, e que só te enlouquece e te consome por não ter outra maneira a não ser engolido pelo seu desejo egoísta. Você só pensa naquilo, só quer aquilo, só precisa daquilo. É como um vício. Muitas vezes acaba te tornando irracional. Você fica cego. Não pensa no depois, não pensa nas consequências. Só em você e na merda da vontade de saciar aquilo. E quando percebe, o que te sobra são sentimentos como arrependimento, medo, e em muitos casos, a vontade de viver aquele momento novamente. Eu, de fato, me encaixo nesses três requisitos.
Minha razão dizia não, mas algo dentro de mim gritava desesperadamente pelo sim, e involuntariamente eu me deixava guiar por esse lado. Desde o momento em que pus meus olhos em , soube que ela era encrenca. Como uma garota daquela não seria? Só um cara completamente acéfalo para não se sentir mexido. Tudo nela era tão convidativo e natural que não tinha como evitar me envolver. De fazê-la se envolver. Cheguei a um ponto em que não dava pra continuar sustentando uma barreira. soube driblá-la direitinho sem que eu percebesse.
Agora havia consequêcias e eu precisava aprender a lidar com elas.
- , meu amigão! – meteu a cabeça dentro do carro pela janela do passageiro, me assustando. – Você tá bem, cara?
- Claro que estou – respondi entre uma bufada, ligando o carro, enquanto abria a porta e colocava o cinto de segurança.
- Sou seu amigo, então, preciso dizer. – Ele fez uma pausa dramática, colocando a mão no meu ombro e me olhando com uma falsa pena, como se eu fosse um pobre coitado. – Você tá com uma cara péssima, parecendo um zumbi do avesso.
- Obrigado pelo consolo, ; era tudo o que eu precisava saber – devolvi, com um sorriso irônico.
- Vai me contar o que aconteceu pra você não atender nenhuma das minhas quarenta e cinco ligações? - Ele colocou seus Vans imundos – que eu nunca visto limpos, a não ser quando foram comprados – em cima do painel. Ele sabia que eu odiava isso!
- Você não me ligou quarenta e cinco vezes! - Dei um tapa forte em seus pés para que eles fossem retirados de onde estavam.
- E se tivesse ligado? Ainda assim, você não me atenderia, não é?
- Não.
se deu por vencido, ou pelo menos eu achei que sim. Ligou o rádio, trocou o meu CD do The Kooks por um do Death Cab For Cutie, que estava jogado no porta-luvas. Cruzou os braços na altura do peito quando paramos num sinal perto do colégio. Nesse momento foi que eu soube que ele estava pensando no que me dizer/perguntar. Ao invés disso, para um pouco de alívio momentâneo, ele não voltou a falar nada relacionado às minhas olheiras ou o porquê das minhas recusas em atender suas ligações no dia anterior.
Passamos o caminho todo conversando sobre Lizzie e ele. me contou, arrasado e puto, sobre o resto da festa, revelando que eles haviam se beijado, mas que logo ela o afastou, jogando na sua cara sobre o aconteceu há três anos. Não tive muitos argumentos para defendê-lo porque, de qualquer maneira, foi ele quem pisou na bola, mas tentei levantar o astral do meu amigo. E também, eu não era o mais apto a dar conselhos às pessoas no momento.
- E então? – perguntou, incógnito, enquanto andávamos pelo estacionamento do colégio em direção ao pátio de entrada.
- Então o quê? – questionei, com uma sobrancelha levantada, vendo pela visão periférica que ele revirar os olhos.
- Eu deixei que você tivesse seu momento " é idiota e não vai ficar me enchendo o saco" o caminho todo e contei sobre Lizzie, e agora eu quero saber o que aconteceu pra você não atender minhas ligações, ter saído da festa com a sem falar com ninguém e estar com essa cara pra cu.
- Não houve nada – disse, baixinho, avistando e conversando com Mitchell e Andreas, dois dos nossos amigos do time de futebol.
Não houve e nem há nada... até John descobrir o que eu fiz com a filha dele. - Sei... – Ele riu debochadamente da cara que eu fiz. – Te conheço há muito tempo, , e essa tua cara não nega.
- Não nega o que? - perguntei grosseiramente, mas ainda falando baixo. e já tinham nos visto e eu não queria mais ninguém perguntando sobre sábado.
- Que você fez merda - concluiu , me olhando, sério, e eu engoli em seco. – E pelo estado que você está, a merda foi grande. Você realmente acha que eu não sei o que tá acontecendo entre você e a ?
O puxei pelo capuz do moletom, olhando para os lados, alarmado, com medo de alguém ter escutado sua última frase.
- Tá maluco? Quer que essas sanguessugas escutem?
- Eu sabia! – Novamente, ele cruzou os braços, seu sorriso convencido aparecendo. - Te conheço desde que éramos zigotos!
- Não falei que tá acontecendo nada... Só não quero que as pessoas pensem que está! - desconversei. Ele me olhou, descrente.
- Eu já vi como você olha pra ela. Todo mundo já percebeu, , até as meninas. Sabemos que você e não querem demonstrar, mas é impossível!
- Tudo bem... – suspirei e o larguei, fechando os olhos brevemente para não ver mais aquele sorrisinho se alargar com a minha derrota. - Estava acontecendo, mas não vai se repetir.
- E o que, exatamente, aconteceu?
- Nós... nós ficamos algumas vezes e... - Eu estava gaguejando como uma menininha. Aquilo estava sendo mais difícil do que eu pensei que seria, mesmo sendo contado para o meu melhor amigo. e andavam na nossa direção e eu tive que falar tudo de uma vez rapidamente. – transamos. Por favor, não comente isso com os caras ainda, por favor, por favor...
- Vocês o quê? - Ele ficou com a boca em formato de "O", sem dizer mais nada.
- O que as mocinhas estão tricotando aí? - já chegou bagunçando o meu cabelo, deixando-o mais bagunçado do que normalmente era.
- Ahn... Eu e estávamos falando sobre o teste de matemática da semana passada. Tô com medo da minha nota. - se pronunciou mais rápido do que eu. e ficaram olhando de mim para ele, que ainda me encarava com cara de tapado.
- Eu também - concordou, engolindo a desculpa esfarrapada, sem notar nada de anormal. – Se eu tirar nota baixa, além de ficar sem mesada, Cass vai entrar em greve... Tenso, meus amigos. – Ele me olhou com mais atenção, entortando a boca. - Alguém já te falou que você tá com cara de bunda?
- Eu, particularmente, acho que ele tá com cara de zumbi do avesso – comentou , sabiamente, coçando o queixo, como estivesse falando sobre um bicho raro e muito complexo.
- Um zumbi do avesso com cara de bunda, então – finalizou, se dirigindo aos outros dois, se achando muito mais inteligente.
- Eu tô aqui, sabe? – falei, mal humorado, dando um pedala forte em , que me olhou com os olhos semicerrados, tocando a região atingida.
Fomos para dentro do colégio, mais precisamente, no pátio interno, onde costumávamos esperar as garotas chegarem. e zoaram pela sua cena na festa da Katie. Eu estava morrendo de vontade de sacaneá-lo também, mas fiquei com medo das atenções serem direcionadas a mim e as perguntas sobre o meu sumiço repentino serem feitas.
Mitchell e Andreas se juntaram a nós, o que fez a conversa tomar outro rumo – as finais do campeonato inglês. Eu não estava prestando atenção em nada do que eles falavam. Volta e meia, meus olhos se fixavam no portão que dava para o estacionamento, esperando ansiosamente ver e Lizzie passarem por ele, ou para o meu relógio, contando os minutos que faltavam para o sinal soar. Para meu estranhamento, não vi nenhuma delas aparecer quando só faltavam seis minutos. Lizzie era pontual; costumava chegar antes de mim, e .
Entrei estado de preocupação e o aperto no meu peito se pronunciou novamente no dia ao ver Cassie e Katie chegando. Elas geralmente eram as últimas a chegar. Onde estava ? Será que ela não viria hoje?
Em outros tempos eu poderia ligar para ela e saber o motivo do atraso, e até quem saber dizer que passaria na casa de Lizzie para buscá-las, mas agora as coisas eram diferentes. Não poderia agir como se nada tivesse acontecido ontem. Como se eu não tivesse sido um grande filho da puta depois do que aconteceu entre nós. Eu não era tão babaca e cara de pau assim.
Peter e seus amigos passaram por nós, mas não nos encararam. Uma pena. Eu estava doido pra puxar briga com ele.
- Bom dia, meninos – Cassie nos cumprimentou, aparentando ainda estar cansada da festa, sentando no colo de , depois de lhe dar um selinho. Katie fez o mesmo com . – Cadê as meninas?
- Ainda não chegaram – respondeu, distraído, dando mais um selinho nela. Varri mais uma vez o local com olhos de águia, como se alguém tivesse passado despercebido por mim.
Todos olharam pra mim na mesma hora, como se eu fosse dizer onde elas estavam. Mal sabiam eles, tirando o , que eu era a última pessoa na face da Terra a saber o paradeiro de . Só sabia o mesmo que os outros: que elas estavam juntas.
estava com uma expressão difícil de decifrar quando olhei para ele.
- Ah, o doce som do inferno! – suspirou teatralmente quando ouvimos o chamado para o primeiro tempo.
Andei vagarosamente atrás dos outros até o prédio A, esperando que aquilo fizesse chegar mais rápido. Quando adentramos o edifício, Katie e Cassie disseram que iriam ao banheiro e que nos encontrariam na sala. foi fazer sua compra de café rotineira e precisou ir à biblioteca entregar um livro.
- Disfarça essa cara, . Assim todo mundo vai perceber – murmurou, andando ao meu lado pelo corredor em direção aos armários.
- É mais forte do que eu – disse, pegando meu livro de Literatura Inglesa. me entregou o dele e continuou procurando na bagunça do seu armário por mais alguma coisa. Fechei o meu, encostando-me ali, esperando. – Eu acho que eu nunca me senti desse jeito.
- Desse jeito como? – Ele tirou a cabeça de dentro do armário para me olhar e arqueou uma sobrancelha. – Sério, cara, você tá me assustando. Me conta direito o que aconteceu sábado.
- Não dá pra contar aqui. – Joguei a cabeça pra trás, batendo no meu armário. – Não quero correr o risco de alguém escutar.
- Não vai contar ao e ao ?
- Claro que vou, mas não posso simplesmente chegar e dizer “então, dudes, sabem como é, eu e a estávamos nos pegando escondido de todos e transamos no sábado” como se ela fosse uma garota qualquer que conheci na festa e transei. Ela é diferente, estamos falando da !
- Você diz como um cara apaixonado. – Ele tirou a cabeça de dentro do armário para me olhar. – E estressado. Precisa relaxar, .
- Relaxar? Que droga você usou antes de vir pra cá? Estamos falando da minha família, ! Hoje no café, John chegou e perguntou “Está se sentindo bem, filho?” com aquela cara serena dele e voz calma... É uma tortura psicológica! E eu não estou apaixonado!
- Então, eu-não-estou-apaixonado-pela-filha-do-meu-pai, o que você fez depois que acordou e deu de cara com ela? – Novamente, ele tirou a cabeça de dentro do armário e me olhou, perplexo. Ele estava lendo a minha mente. – Não me diga que você deu o fora nela!
- , eu... – Fiz uma cara de dor, não conseguindo concluir a frase.
- Não acredito que você fez isso, ! Você não aprendeu nada com as minhas burradas com Lizzie? Você anda comendo bosta?
- O que você queria que eu fizesse? Eu nem mesmo sei direito o que sinto por ela! Não sei o que fazer sobre isso!
- Então, caro amigo, acho melhor você começar a saber. - Ele fechou o armário, tirando seu caderno velho onde costumava fazer seus desenhos. Artes era a única matéria onde desbancava todo mundo, inclusive Lizzie. – Você poderia começar por falando com ela agora...
Com os olhos, ele indicou a entrada do prédio. Girei o rosto lentamente na mesma direção e vi entrando com Lizzie. Houve uma pausa da minha respiração e meu peito acelerou como nunca ao vê-la. Eu não conseguia prestar mais atenção em nada, a não ser em seus movimentos, por mais sutis que fossem. Era magnetismo.
Ela usava uma blusa preta que não dava pra ver direito por causa do seu inseparável cardigã rosa claro, totalmente aberto, que era quase um vestido de tão comprido em contraste com o short jeans justo de cintura alta e de lavagem escura. Os cabelos soltos jogados para o lado de um jeito meio bagunçado, óculos escuros Wayfarer, cortunos pretos de cano médio e meias da mesma cor até um pouco acima do joelho, quase nas coxas torneadas, deixando-a mais sexy do que o costume. Tive que engolir em seco quando vi uma daquele jeito tão sedutor, conversando com Lizzie, despreocupada, com os olhares devoradores que eram direcionados para si. Na verdade, ela estava tão concentrada na conversa que nem devia saber que quase todas as pessoas do corredor, principalmente a parte masculina que ainda estava ali, se viravam ou esticavam a cabeça para vê-la passar.
Provavelmente, todos com o mesmo pensamento depravado e pecaminoso que eu tinha: arrancar aquela roupa e deixá-la somente com as meias e lingerie, apreciando suas curvas expostas... Seria como uma viagem ao paraíso, novamente, em segundos. E quando eu digo segundos, quero dizer literalmente.
Em um piscar de olhos, eu conseguia tranquilamente imaginá-la sem qualquer peça roupa.
Esse pensamento só me fez ficar mais tenso do que eu já estava. Caralho, ela precisava mesmo usar aquelas meias? Eu queria tirar meu casaco e obrigá-la a se cobrir para que ninguém mais a desejasse como eu. Ninguém ali tinha o direito de vê-la daquela forma – só eu. Ninguém ali tinha o direito de imaginá-la nua como eu estava fazendo no momento.
Tudo ficou pior quando ela, claramente a contragosto, se aproximou de nós, trazendo consigo aquele suave cheiro de almíscar e âmbar com chocolate. Aquele maldito cheiro que se entranhou em mim antes mesmo da dona terminar de se aproximar como sempre acontecia, e mesmo depois de ter tomado mais de três banhos de ontem para hoje, eu ainda sentia tão nitidamente em minha pele sua essência marcante, como se água e sabão não tivesse mais serventia.
Até mesmo esbugalhou os olhos quando a viu. Para sorte dos seus dentes, ele se focou no vestido curto que Lizzie usava.
- Oi, ruiva! – disse, abobado, a voz estranha pelo choque.
- Olá, . – Ela passou rapidamente os olhos por ele e sorriu pra mim como se perguntasse “E aí, amigo, como você está?” – Oi, .
permaneceu calada ao seu lado, sem fazer questão de não demonstrar estar incomodada, com os olhos ocultos pelos óculos. Era uma merda não saber se ela estava olhando ou não pra mim. Eu estava travado, sem saber direito como agir na sua frente, como um garotinho amedrontado.
- Vocês viram as meninas? – Lizzie continuou sendo a porta-voz.
- Estão no banheiro. – pigarreou, colocando a mão na garganta parecendo estar com algo entalado. Incrível como ele nunca se acostumava em vê-la com as pernas de fora. – Por que vocês demoraram?
- Meu carro – respondeu, entediadamente. – George teve que nos trazer.
- Eu podia ter passado na sua casa assim vocês não se atrasariam. – Meu tom saiu um pouco desesperado. Eu não parava de pensar o quão idiota estava parecendo diante deles. – Quero dizer, você sabe que eu não me importaria.
Lizzie me olhou fixamente.
Ela sabia. De alguma maneira, em seu olhar, eu detectei isso. Mas por que não comentou comigo quando liguei para ela ontem para saber se estava em sua casa? Ela me dissera que estava bem, mas não mencionou nada. Por quê?
- Precisamos ir. – Foi a sua resposta antes de ela e marcharem para a sala aos cochichos.
Tive a impressão de que virou um pouco o rosto para olhar por cima do ombro, mas logo sumiram entre o resto dos alunos. Meus ombros pareciam estar deslocando. Eles pesavam toneladas. Minha cabeça voltou a latejar e senti uma náusea muito forte.
Era um alívio encontrar , mas se antes eu já me sentia uma grande merda fedida, agora eu estava indiscutivelmente pior. Eu nem mesmo sabia se ela tinha me olhado. E se isso aconteceu, nem mesmo sei se ela se sentiu tão perdida e tão nervosa quanto eu.
- Você viu o tamanho do vestido dela? – perguntou, escandalizado, enquanto subíamos as escadas. Eu demorei um pouco pra ligar o vestido a Lizzie. – Como ela vem com um vestido daquele tamanho? Tava quase aparecendo sua calcinha! Será que era pequena?
- Você gostou – disse, sem muita vontade de falar, fingindo não ter escutado seu último comentário. – E tá exagerando. O vestido não é tão curto assim.
- Você fala isso porque não é a – ele retrucou, desmanchando a cara emburrada, percebendo o campo minado em que o assunto entrou. – Ela nem abriu a boca. Você vai ter que falar com ela, , e rápido, antes que todo mundo comece a ter certeza do que está acontecendo.
- Tenho medo de acabar falando mais merda pra ela. – Suspirei.
Paramos um pouco antes da porta da sala, que estava aberta, com alguns alunos ainda entrando. deu um tapa no meu ombro, me encorajando.
- Tudo vai se resolver, . Você só precisa ser mais claro e, por favor, escolha bem as palavras. Mulheres são complicadas, meu amigo.
Dei um meio sorriso em agradecimento, só que ele foi tão forçado que é provável que tenha saído mais uma careta de dor do que outra coisa.
O professor falava exaustivamente, o que não me ajudou muito em ficar focado no que ele dizia. Fiz um grande esforço pra prestar atenção, mas depois de 10 minutos, eu estava com cotovelo apoiado na mesa, a mão em punho pressionando a bochecha. , uma vez ou outra, bocejava do meu lado - sintoma de seu sono crônico -, dormia e imitava a minha posição. As únicas que prestavam atenção fervorosamente eram Cassie e Katie, já sabendo que nós pegaríamos suas anotações mais tarde.
Meu interesse era outro, era outra pessoa, que estava no andar de cima.
Aquela demora em chegar ao término da aula estava tirando todo o resquício de paciência que eu tentava manter. Levantei a mão, sem esperar o professor fazer a conclusão da explicação e pedi para ele me deixar ir ao banheiro.
Aproveitando que não tinha nenhum inspetor no corredor, segui até o final e subi as escadas, ao invés de entrar na porta ao meu lado esquerdo.
Parei na porta da sala de , olhando-a estrategicamente pelo vidro. Assim como eu, ela não estava nada focada na aula, e olhava a chuva pela janela, pensativa, com a mão apoiando o queixo. Naquela hora, desejei poder ler sua mente e descobrir no que ela pensava...
Fiquei ali, paradinho no meu canto, olhando pra ela, por tempo indeterminado, até escutar uma porta se abrindo. Escondi-me dentro do armário de limpeza, sem fechar a porta totalmente com a intenção de ver quem passava. Ouvi passos e novamente o barulho de porta, até que vozes masculinas ecoaram pelo corredor.
- Mas falou se ficaram ou não? – Reconheci a voz de Will Parker, um dos amigos do Bradley, quando eles já estavam quase passando por onde eu estava. – Porque, pelo que eu vi, eles estavam bem juntos...
- Não. – A outra voz que reconheci era de Ben Dalemo, farinha do mesmo saco. - Pete não contou nada sobre o que aconteceu entre eles na festa, mas acho que não chegaram a ficar.
Eles? Ben estava se referindo a quem? e Peter? Coloquei o ouvido na brecha da porta, apurando os ouvidos o máximo que pude para não deixar nada escapar.
Antes de continuarem, os dois pararam perto do bebedouro, em frente ao armário de limpeza. Tive que fechar a porta por alguns centímetros para que não me vissem. A sorte é que eu não precisava ter um ouvido de tuberculoso para ouvir claramente o que eles falavam. Will e Ben não pareciam querer manter a conversa em sigilo.
- Pete consegue tudo do jeito dele... – Percebi um tom maldoso vindo de Will, que deu uma risadinha para o outro que se abaixou para beber água.
O efeito da frase e o modo como ela foi dita fez meu sangue ferver e trincar o maxilar de tal modo, que não escutei mais nada do que disseram até sumirem da minha vista em direção as escadas.
A maçaneta da porta teria sido reduzida a pó se não fosse feito de material resistente. O que Will quis dizer com “tudo do jeito dele”? Bradley realmente achava que tinha chances com a ? Não mesmo! Argh, ela parecia alguém muito melhor do que aquele bosta cuzão! Alguém que cuidasse dela, que a fizesse rir em dias difíceis. Alguém que a conhecesse bem, que soubesse seus gostos, suas manias, que entendesse que ela não era qualquer garota... Ele não entendia. Eu sim. Eu entendia , ela mesma havia me dito isso.
Peter não a conhecia como eu. Nem ao menos não sabia que ela tinha uma pintinha na parte interna da coxa esquerda, quase na virilha e outra pintinha um pouco abaixo do umbigo muito charmosa. Ele não sabia que ela gostava de escutar música calma à noite, pouco antes de dormir ou que ela morria de tanto rir sempre que assistia o episódio do Bob Esponja em que o Lula Molusco come tanto hambúrguer de siri que suas pernas ficam enormes e ele explode.
Bradley não sabia que o livro preferido dela era Segredos da Nora Roberts, não sabia como ela ficava linda andando pela casa usando sua camisa velha do Die Toten Hosen ou como que seus olhos ficavam ainda mais quando chorava e a ponta do nariz ficava vermelha. Não sabia que ela acordava de bom humor, exceto nos primeiros dias que estava aqui. Ele não sabia como ela se aninha no travesseiro ou que tinha medo de escuro. Ou que gostava de nutella pura em vez de comer com pão. Ou que ela era a única que não ligava de ficar horas jogando Guitar Hero com a Emma, mesmo que já estivesse de saco cheio. Ou que seus seios eram muito mais sensíveis do que das outras garotas. Ele não sabia nada, porque não era nada. era minha. Exclusivamente minha.
Eu sabia de tudo, até mesmo o motivo de John e a mãe dela terem se separado, apesar de não poder contar. Queria muito, mas não podia. Não era um segredo meu, não estava em minhas mãos contar a ela, por mais que fosse difícil deixá-la no escuro num momento tão complicado. Até porque John não sabia que eu havia escutado ele e minha mãe conversando naquela tarde em que brigou com Lisa. Eu precisava guardar isso pra mim. Somente pra mim. Nem ao menos me atrevi a contar ao .
Bradley só estava interessado em usá-la para me irritar porque sabia do nosso parentesco. Por que não enxergava isso? Só por que sabia que eu odiava Peter?
Fiquei mais um tempo dentro do armário, esperando aquela raiva repentinamente grande passar. Ainda voltei para a sala pisando forte, mas já conseguia controlar o impulso de agarrar o primeiro pescoço que via pela frente ou que falasse alguma gracinha.
Fui um dos primeiros a sair quando o sinal do intervalo ecoou pelos corredores. Os outros vieram atrás de mim, me chamando, mas eu continuei em direção ao pátio, decidido a não parar por nada. Sentei na mesma mesa de sempre, esperando a melhor oportunidade para puxar para um canto e me explicar, só que como na lei de Murphy (Se alguma coisa pode dar errado, dará), não aconteceu como eu planejava.
e comentaram algo sobre eu estar aéreo nos três tempos que tivemos, mas não dei ouvidos. Tudo pareceu banal assim que vi vindo para a nossa mesa com Lizzie, e sentando ao lado de Cassie e Katie. Ela cumprimentou todos com um sorriso largo, agora parecendo muito mais animada e desperta. Tinha tirado os óculos e o cardigã rosa, deixando a mostra o decote discreto da sua blusa e seus olhos .
O cheiro dela me envolvia de um jeito hipnotizante. Por mais que eu quisesse desviar minha atenção para qualquer outra coisa ou pessoa a minha volta, meus olhos não desgrudavam dela, que em nenhum momento se encontraram com os seus, fazendo questão de demonstrar que para ela, eu não existia, ou no mínimo, não estava presente. conversava com todos, contando alguma coisa engraçada que tinha acontecido na sua aula de Debate. Mas vá, nem nisso eu estava prestando atenção. Era só nela e em seus movimentos que meus olhos captavam. Eu queria perceber algo de diferente no seu jeito, mas nada estava errado, a não ser o gelo que estava me dando.
Tudo que ela fazia atraía a minha atenção. Eu estava num estado do tipo "Olhos, parem de secá-la, sejam discretos!" e eles devolviam com um "Cala a boca, , nós gostamos de visualizá-la e você também, então apenas observe a garota linda que está na sua frente".
Odiei saber disso. Ela não demonstrava estar nem um pouco afetada sobre o que tinha acontecido. Como isso? Por que só eu parecia estar sendo torturado nessa história? Por que ela não gritava comigo? Não reagia como tinha feito antes? Por que não gritava a plenos pulmões que eu era um grande desgraçado que a tinha usado da pior maneira possível, fazendo meus próprios amigos ficarem contra mim? Isso tornaria as coisas menos frustrantes. Lizzie claramente sabia de tudo, ainda assim continuava falando comigo, apesar dos olhares tristes como se compreendesse pelo que eu estava passando. Katie e Cassie também não demonstravam nada, caso o contrário, eu já estaria no chão com minhas bolas sendo chutado por Katie e sendo xingado por Cassie.
mexeu o cabelo, colocando uma mecha atrás da orelha enquanto conversava com Lizzie e e riu gostosamente de algo muito engraçado que meu amigo contou. Como ela ficava linda rindo... Minha Risadinha.
Cheguei a um ponto tão crítico de chamar sua atenção que minha vontade era de ficar pelado, subir na mesa com todos os olhares voltados para mim, balançar o corpo pra frente e pra trás e mexer o dedo indicador no lábio fazendo “blurrr, blurrr”. Só que essa ideia ridícula e desesperada abandonou a minha mente e foi substituída pelas mais cruéis torturas quando o bosta do Bradley apareceu dizendo “olá” para todos e puxando para um canto onde seus amigos estavam. Ele estava fazendo o que eu queria ter feito desde o primeiro momento!
E nenhum dos meus amigos achou isso estranho. Ninguém olhou para Peter com a cara feia ou fez algum comentário a respeito. Todos ali estavam achando natural ele tirar de perto da gente, de perto de mim! Eu nem tive tempo de me mexer e ela já estava se afastando de mim, balançando seu quadril pra lá e pra cá, rebolando sincronizadamente.
Senti como se a tivesse perdido sem nem ao menos ter a intenção de lutar para que ela ficasse comigo. Aquilo não era normal. O ódio que eu sentia ao ver e Peter de mãos dadas, conversando e se divertindo, não era natural. Foi como uma apunhalada no peito. Eu queria arrancá-la da roda onde estava e socar Bradley até vê-lo suplicar para que eu parasse.
A que nível eu cheguei? Eu não podia estar gostando dela! John nunca me perdoaria. Eu nunca me perdoaria por decepcioná-lo. Eu, mais do que ninguém, sabia o que representava para ele. John via a mãe de na própria, mesmo que suas semelhanças fossem sutis. Ele já havia sofrido decepções demais por uma vida...
A mão de Lizzie tocou a minha discretamente. Olhei para ela, e depois para sua mão, vendo que eu, inconscientemente, estava preparado para socar algo... Ou alguém. Relaxei, lhe agradecendo pelo conforto com um sorriso vago. Através de seus óculos de grau, vi que Lizzie não estava com raiva de mim, e sim com receio, me pedindo calma. Isso fez eu me sentir melhor.
Agradeci tanto por variar de assunto o tempo inteiro, não deixando que os outros tivessem a oportunidade de perguntar o que tinha acontecido comigo.
Na volta, disfarcei que estava olhando os avisos no mural perto da escada, mas na verdade estava olhando de soslaio para a entrada do prédio, fazendo guarda para ver se demoraria muito para voltar. Para o meu descontentamento, ao invés dela, quem vinha na minha direção era Lisa. Continuei olhando fixamente para o mural na intenção de ignorá-la, mas foi impossível.
- Oi, - ela disse, assim que chegou perto o suficiente. Sem cerimônia, pegou o braço e enlaçou no meu, encostando a cabeça no meu ombro. – Poxa, você tá sumido. Não me liga mais. Você tá fugindo de mim?
- Não, Lisa... – Revirei os olhos, mordendo a língua para não lhe dar uma resposta grosseira. Por mais fútil, grudenta e em certas ocasiões, vulgar, eu sabia que não era um capricho o que Lisa sentia por mim. Ela gostava de verdade de mim. Claro, de uma maneira bizarra e meio obsessiva, mas gostava. – Eu só ando muito atolado com algumas matérias e os treinos do futebol...
- Wow, mas será que não dá pra me encaixar em nenhum horário da sua agenda superlotada? – Seus dedos dedilhavam carinhosamente o meu antebraço. – Sabe, meus pais vão viajar na sexta e só vão voltar segunda a noite. Por que você não vai lá em casa? A gente pode encher a cara e se divertir muito daquela maneira que você adora...
- Não dá, desculpe. – Com o sorriso mais simpático que consegui, tirei meu braço do seu, verificando a porta no mesmo instante, demorando alguns minutos para voltar a minha atenção para Lisa. Conforme eu ia falando, seu rosto ia se transformando numa careta. – Vou pra Londres nesse final de semana com o pessoal. Vamos sexta e só voltamos no domingo à noite.
- Ela vai com vocês, não é? – Eu estava cansado de ouvir Lisa se referir a daquele modo. Estava cansado das suas cobranças e do jeito como falava comigo. - Mas que merda, ! Você não disse a essa piriguetezinha que nós estamos juntos?
Fechei totalmente a cara, olhando para Lisa como nojo.
- Em primeiro lugar – comecei, irritado –, “ela” tem nome e é e é filha do meu pai, então, Lisa, eu quero respeito em qualquer comentário que for dirigido a , entendeu? – Sua boca foi ficando numa linha finíssima, e lábio inferior tremia, denunciando que ela estava tão irritada quanto eu. – Em segundo lugar, sim, ela vai comigo, porque, se você ainda não percebeu, temos os mesmos amigos em comum e em terceiro, só pra que eu possa finalizar, não é nenhuma “piriguetezinha”. Eu e você não estamos saindo já faz algum tempo, não se lembra? Antes mesmo dela se mudar pra cá. – Nesse instante, achei que tinha ultrapassado o limite. Os olhos de Lisa faiscaram de raiva, e sua careta virou uma carranca.
- É? Mas bem que você adorava quando eu te chupava até gozar no estacionamento depois da aula! – chiou.
- Não vou negar que você saber chupar muito bem – disse, cínico, entrando no seu joguinho de vulgaridade. – Mas isso acabou, eu e você nunca tivemos algo de verdade. não tem nada a ver com isso.
- , você não percebe que ela tá tentando de tirar de mim? – Lisa resolveu mudar o discurso, querendo me ganhar pela insistência. - Essa garota está fazendo sua cabeça! – Colocou a mão no meu peito, se aproximando do meu rosto com a ajuda dos saltos. – Vamos fingir que isso não está acontecendo, tudo bem? Eu entendo que ela é apenas uma aventura, que você queira variar um pouco, mas entenda, ela não sabe cuidar de você como eu.
- Se sua intenção era perder os pontos que restavam comigo, conseguiu – me desvencilhei, recuando para o lado com medo de qualquer contato desnecessário. – Na boa, não insiste. Não quero ter que ser grosseiro com você mais do que já fui. Foi legal todas as putarias que fizemos, mas é passado agora. Ninguém está fazendo a minha cabeça; eu simplesmente não tô mais afim.
- Tudo bem, tudo bem. – Ela se ajeitou, mexendo no cabelo. Por um momento achei que pudesse respirar aliviado, sem Lisa no meu pé, mas foi só ela continuar que vi que isso seria impossível tão cedo. – Eu sei que você vai cair em si. Sei ser paciente, . – Deu um meio sorriso e se virou, juntando-se as suas fieis amigas, que mal sabia ela, que já tinham dado em cima de mim.

“Você tem uma nova mensagem”, apitou meu celular. O tirei do bolso, abrindo o display, lendo o nome de Lizzie na tela.
“Você sabe que eu sei, né? X”
Levantei a cabeça, encontrando com Lizzie perto do armário de Katie com a própria e Cassie. As duas últimas estavam conversando animadamente que não repararam que Lizzie devolvia a troca de olhares.
“As outras sabem?”
“Não. Ela não contou para mais ninguém, e você?”
“Só o sabe e ele quis me matar.”
“Não ache que eu estou querendo fazer algo diferente disso...”
“Muito obrigada. Me sinto muito melhor em saber que estou sendo odiado pelos meus amigos.”
“Eu não te odeio, mas você sabe que não foi legal o modo como agiu. Você é meu amigo, mas também é. Estou triste pelo que houve.”
“Vou consertar isso, Lizzie. Vou conversar com ela.”
“Você sabe a personalidade que a tem...”
“E você sabe que eu sou um cara muito persistente... Mas claro, vou precisar da sua ajuda. Tem alguma ideia para o seu amigo arrependido?”
Lizzie demorou a responder, dessa vez porque Katie chamou sua atenção.
“Você tem treino hoje, né? Que engraçado, acabei de me lembrar que hoje prova de educação física um pouco antes e você sabe como a é com esportes... Aposto que a professora vai colocá-la como última pra fazer a prova. Mas lembre-se, eu não te falei nada, ok?”
“Oportunidade perfeita! Obrigado!”
Guardei o celular no bolso atrás da calça, me sentindo esperançoso com a ideia de Lizzie. Assenti para ela e rumei para a minha sala. Não me importei com a possibilidade de estar com Peter ainda. Logo nós estaríamos de bem e ela, facilmente, o esqueceria.
Os últimos tempos se arrastaram, e apesar da minha ansiedade evidente, o meu humor melhorou. Obviamente, continuei desligado de tudo ao meu redor, matutando e organizando mentalmente tudo o que eu queria dizer a . Vez ou outra resmungava porque achava alguma frase/ideia ruim e me cutucava, dizendo para eu falar mais baixo senão quisesse que saísse no jornal do colégio que eu estava ficando louco. Puff, como se isso não fosse verdade...

- Quero esse resumo para a próxima aula - a professora aumentou a voz em meio as conversas que se formavam depois do anuncio do término da última aula. – Não vou aceitar desculpas. Isso vai valer ponto para a média de vocês.
Catei todo o meu material e joguei minha mochila no ombro, já me preparando para correr como se não houvesse amanhã.
- Ei, , que pressa é essa? Não vai almoçar com a gente? – me alcançou na porta. Katie e estavam com ele. – O treino só começa daqui a 40 minutos.
- Já alcanço vocês. Vou colocar o uniforme e guardar minhas coisas no armário. – Joguei a melhor desculpa que pensei, recomeçando o caminho interrompido.
Desci os degraus como um foguete, sem parar até mesmo quando ouvia reclamações de alguém que eu acabara de trombar.
- Agora é sua vez, senhorita – a voz da professora de educação física preencheu o ginásio assim que abri a porta lateral. Adentrei o espaço com passos mais leves que consegui, me posicionando perto das arquibancadas, num ângulo que dava para ver tudo, evitando que soubessem da minha presença. A professora parecia impaciente segurando sua prancheta onde anotava a nota de cada aluna, enquanto esperava se mexer.
A pior aula do mundo, para ela, certamente era a de Educação Física. dizia que não tinha sido privilegiada com o dom de ser boa, ou razoável, no esporte. Cá entre nós, eu não posso dizer que é mentira, pois já presenciei outras aulas e também já tentei ensiná-la alguns macetes para driblar adversárias, e o resultado não agradou muito minhas canelas, que levaram muitos chutes. Contudo, também não posso negar que gosto de vê-la usando um shortinho de lycra e blusa colada.
- Vamos, , você precisa marcar dois pontos. – A professora voltou a dizer, dessa vez mais impaciente ainda. – Não é tão difícil assim.
“Você que pensa”, fiz leitura labial de , que rolou os olhos, desgostosa, já preparada para o pior. Pelo que deu pra ver, a prova seria de Handebol e seria muito divertido vê-la correndo, dando três quicadas na bola para depois pular antes da linha do gol apoiada apenas numa perna ao mesmo tempo em que arremessaria a bola. Não é tão simples quanto parece para quem não leva jeito, principalmente pra ela, uma canhota muito longe de ter coordenação motora. Provavelmente, todas as garotas da turma, incluindo a própria professora, já entenderam que não era uma escolha boa a se fazer ficar perto de quando tinha a posse de uma bola nas mãos. Não era a toa que ela era a última escolhida para um time e a última a fazer as provas práticas.
Capengamente, foi até o meio da quadra, pegando a bola, começando a quicá-la.
- , tô te esperando na cantina, tá? – Lizzie gritou, pegando sua bolsa em cima do banco do ginásio, jogando-a atravessada no corpo. – Não demora.
- Tudo bem – concordou, semicerrando os olhos pra Lizzie, já entendendo que era uma tática para não ser acertada.
- Quando quiser – a professora fez um gesto vago em direção ao gol, ficando atrás do mesmo, se protegendo com a rede.
Não sei dizer se o universo estava conspirando ao meu favor ou se fora uma simples coincidência, mas demorou tanto, mais tanto para conseguir marcar míseros dois pontos, que a professora acabou liberando o resto das alunas. O resultado disso foi que quando finalmente ela conseguiu, só estávamos nós três no ginásio. É claro que eu sabia que não seria tão simples falar com ela, então tive que esperar a professora guardar todas as bolas utilizadas e ter certeza de que ninguém apareceria de última hora e me visse ali. Ao ver a professora indo embora pela outra saída, atravessei a quadra em passos largos até o vestiário feminino.
Respirei fundo e empurrei a porta, sentindo a adrenalina do proibido enquanto olhava para todos os lados do banheiro, que estava num completo silêncio, a não ser pelo meu coração batia num ritmo descompensado. Limpei minhas mãos, que ficaram levemente úmidas, na calça jeans.
Dei a volta no banheiro, passando por detrás dos armários. Encontrei ; estava do outro lado, cantarolando e só de calcinha... Todo o sangue do meu corpo desceu para a região entre minhas pernas, me fazendo fechar as mãos em punhos para obter um pouco de autocontrole. Ela despejava hidratante na mão, e com a ajuda da outra, esfregava na perna, que estava em cima do banco de madeira, espalhando o produto pela coxa, se curvando para alcançar a perna toda. Conforme ela fazia isso, seus seios pontudos se movimentavam, roçando na coxa erguida e eriçando os mamilos. Fechei os olhos e os apertei, dizendo para mim mesmo que aquilo não era verdade, que não estava acontecendo.
Era tortura e das mais cruéis.
Não aguentei por muito tempo por saber da imagem que estava me privando e reabri os olhos. Imediatamente, minhas calças ficaram mais apertadas, meu sexo suplicava por contato com aquele corpo curvilíneo, assim como minhas mãos. Eu queria devorá-la lenta e minuciosamente, arrancar gemidos estrangulados e senti-la novamente.
As cenas de tudo que a gente a havia feito no final de semana estavam mais vivas do que nunca em minha mente, e por um momento me vi lambendo os lábios, lembrando do gosto dos dela, da textura da sua pele, do jeito como ela correspondia aos meus toques.
Depois de terminar seu trabalho com a outra perna, colocou as meias, o short, o sutiã, menos a blusa... E eu ali, observando como um virgem abobado todo o processo dela se vestir. Além de não querer interromper aquela cena tão maravilhosa, eu também tinha perdido toda a coragem que reuni durante a manhã toda. Não me lembrava mais de nada. Tudo, a meu ver, eram ideias desconexas e sem sentido algum. Se antes eu já não tinha tanta certeza do que queria, agora então tudo estava pior. Tudo parecia tão idiota se fosse verbalizado. Meu pensamento não estava organizado ao ponto de conseguir me expressar o suficiente. Eu precisava de algo, de um estímulo para que a resposta fosse imediata.
Eu precisava dela novamente para que finalmente as coisas ficassem claras pra mim. Mais uma vez, eu estava usando a confusão como desculpa para me aproximar. Era meu desejo por impulsionando minhas atitudes, colocando a razão de lado... Era isso. Eu estava numa estrada sem mão dupla. Não é a toa que dizem que os homens pensam mais com a cabeça de baixo.
Como se tivesse escutado o dilema na minha cabeça, olhou, e pela primeira vez, na direção onde eu estava. Não era surpresa ela ter me visto já que eu não estava tão escondido assim, o mais provável foi que depois de ter feito o que precisava e não estar mais distraída, ela sentira a presença de mais alguém.
Ela não fez nada a não ser continuar me olhando; um olhar frio, distante, irreconhecível. Não parecia a que eu conhecia.
- O que você tá fazendo aqui? – disparou, num tom ameaçador. Rapidamente, ela pegou a blusa que estava em cima do banco para se cobrir.
Engoli em seco. - Você ficou mudo, é? – Tornou a perguntar agressiva, já inquieta pela forma como era olhada por mim.
Soltei o ar devagar, dizendo de uma vez:
- Eu quero conversar com você – caminhei, enquanto falava, na direção dela, mas parei ao vê-la retrocedendo os passos, deixando o banco de madeira entre nós.
- Você ficou doido? Sai daqui agora!
- Não! – Subi em cima do banco, descendo logo em seguida para quebrar a distância. arregalou os olhos, e retrocedeu ainda mais os passos, encostando-se num armário. – Você me ignorou a manhã toda, mas agora vai ter que me ouvir.
- ... . - Ela apertou a blusa mais contra o corpo, evitando me olhar diretamente. – Estou te pedindo, por favor, sai. Se te pegam aqui, nós dois estamos fodidos! Eu já estou com uma semana de detenção nas costas, não preciso de outra.
- Desculpa pelo o que eu falei ontem. - Ignorei seu pedido, fixando meus olhos no seu rosto com intensidade, querendo que ela fizesse o mesmo. – Eu... Eu disse coisas que não são verdade, não era o que eu estava sentindo, não é o que eu estou sentindo... Eu me expressei mal...
- Chega! – gritou, tratando com hostilidade os avanços que eu tentava fazer e deixou a blusa cair no chão quando tampou os ouvidos e fechou os olhos, apertando-os. – Tô cansada disso! Eu não quero mais te ouvir!
Sem pensar duas vezes, peguei seus pulsos com força, abaixando seus braços. Imediatamente, reabriu os olhos, apreensiva e assustada. Sua pele estava quente e ao mesmo tempo fresca por causa do banho. Deliciosa.
- Você não sabe como está sendo difícil estar aqui, expondo o que eu tô sentindo – disse, alterado pela sua teimosia em me escutar. Eu precisava fazê-la me ouvir de qualquer jeito. - Por que não me deixar falar?
- Simplesmente porque eu não quero perder o meu tempo ouvindo sua desculpa ensaiada – respondeu, ácida, me olhando duramente com repulsa como se fosse me atacar. – Então ,vamos seguir a linha do que você disse ontem, ok? Vamos fingir que nada aconteceu.
- Eu não quero isso, ... – amoleci o aperto em seus pulsos e a voz, falando mais com os outros do que com as palavras. Era impossível que ela não estivesse vendo que eu realmente estava arrependido.
- Então fale sozinho. Eu tentei conversar com você, mas você não quis me ouvir! – Ela puxou seus braços e eu a soltei mais por querer evitar que ela ficasse com mais raiva do que por querer. – E nunca mais toque em mim!
Agachou e pegou a blusa, vestindo-a rapidamente.
- Você está querendo me testar, é isso? – me pus em sua frente, barrando sua passagem. Ela parou a tempo dos nossos corpos se chocarem, levantando os olhos, me peitando com seu narizinho lindo. – Você é uma garota muito cabeça dura, , mas eu sou um cara muito persistente quando estou decidido a conseguir algo. Vamos ver quem desiste primeiro.
Ela bufou, cruzando os braços na altura do peito, exatamente como Emma fazia ao ser contrariada.
- Eu não sou como a Lisa, . Eu não faço joguinhos, não tenho mais idade pra isso. Eu sou clara e decidida naquilo que eu quero. E o que eu quero é que você esqueça o que aconteceu entre nós. Não era isso que você dizia? Para eu esquecer? É isso que eu estou fazendo, oras – conforme ela ia falando, meus joelhos iam ficando mais fracos e a sensação que eu tive era que a cada palavra, ficava mais alta do que eu, superior, enquanto eu ia decaindo, como acontece nos desenhos. – O meu erro foi achar que você era diferente, mas não é. Sério, você realmente acha que pode julgar o Pete? Você não é nem metade do cara que ele é.
- Você não o conhece como eu – retruquei entre os dentes, sentindo tanta raiva por ser comparado ao Bradley que minha vontade era pegá-la pelos braços e sacudi-la – Não sabe nada sobre esse cara! Só está dizendo isso porque está com raiva de mim!
- Você quem sabe. – Deu de ombros, com um sorriso amargo, não dando a mínima pro que eu falei. Dessa vez, a deixei passar sem relutar.
Foram poucos os momentos da minha vida, até ali, em que eu fiquei sem palavras, e esse estava incluído na lista. Eu não podia tirar a razão dela. estava certa em não confiar mais em mim, em não querer mais me escutar. Eu me coloquei nisso tudo. Eu a fiz acreditar que era um cara com caráter duvidoso, bem diferente do Bradley. E há dúvidas de que aquele filho da puta estava tirando proveito disso? Espero que não!
Ouvi a porta do banheiro bater e gelei, virando para trás procurando . Foi aí que eu me dei conta de que estava sozinho.
deu um “aleluia” quando me viu caminhando pelo campo na direção dele e dos outros caras do time. foi o único que não reclamou da minha demora. Ao invés disso, ele apenas sussurrou um “Como foi lá?”, mas não deu tempo de responder, pois o treinador, que estava soltando fogo pelas ventas, gritou que eu precisava ficar focado em marcar gols em vez de ficar conversando. Todo mundo ali estava puto comigo porque eu não conseguia manter a bola sob meu domínio por muito tempo.
Katie e Cassie acompanharam o treino e assim que tivemos um intervalo, fui até elas com , e , que perguntou ocasionalmente, porque Lizzie não estava com elas.
- Ela saiu com a – Cassie respondeu antes de boca de engoli-la.
- Ué, não é hoje que começa a detenção da ? – quis saber.
- pediu dispensa médica – foi a vez de Katie.
- Ela está doente? – insisti. não parecia estar doente, não mesmo.
- Não. Ela vai ao ginecologista, . Coisas de garotas, sabe? - o modo como Katie me olhou... Não sei dizer direito, mas de algum jeito ela parecia desconfiar de alguma coisa ou talvez eu estivesse ficando paranóico...
Balancei a cabeça num sinal de “entendi” e fiquei quieto até o treinador nos chamar.
Como combinado, eu, , e encontramos, depois de uma chuveirada, com Cassie e Katie no estacionamento para irmos a SOCK’Z, uma lanchonete no centro onde freqüentávamos diariamente. A cerveja de lá era barata, boa e como já éramos conhecidos por lá, tínhamos nossa mesa sempre a disposição.
Peter estava sentado na capota do seu carro conversando com Ben, Will, dois caras que eu nunca tinha visto e mais algumas garotas com quem andava. Estranhei já que já passavam das 16 horas.
- Katie! – todos nós viramos na direção deles ao mesmo tempo. Era Bradley. – Sabe que horas a vai sair da detenção?
- Ela foi embora depois da prova de educação física – gritou de volta.
- Valeu! – agradeceu, sem graça. Seus amigos ficaram olhando pra mim com desdém.
Então aquele babaca estava esperando a ? Muito bem, . Muito bom saber que você não dá satisfação da sua vida pra qualquer um.
- Ei, ! – Will me chamou. – É melhor você começar a treinar mais, hein, seus chutes estão ficando como a sua cara: horríveis!
Todos, com exceção dos meus amigos, riram. Ameacei ir até Will, mas não dei mais do que dois passos.
- Você fala isso porque não é bom o suficiente pra estar no time – eu sabia que isso mexeria com o ego dele. Will tentara não uma e nem duas, mas cinco vezes a entrar no time e em todas, não passou da segunda fase de testes.
Dessa vez fomos nós que rimos. Ou melhor, gargalhamos.
Antes que ele respondesse ou avançasse em mim, Peter colocou o braço na frente e o segurou.
- Não enche, . Vai procurar o que fazer!
- Vou mesmo. Vou pra casa assistir um filme com a – pela primeira vez no dia eu sorri verdadeiramente. Primeiro, pelo prazer de falar isso alto e todos escutarem, inclusive Peter, e segundo, por deixá-lo sem resposta.

As coisas vão mudar, Bradley. Logo, logo; você vai ver.

Capítulo 17

Música do capítulo: Keane - Somewhere Only We Know | Letra

E finalmente a sexta-feira em que eu viajaria para Londres chegara.
Girei a torneira, interrompendo o fluxo de água quente que saia do chuveiro. Com o ânimo melhor depois daquele banho, enrolei na toalha branca felpuda - que estava pendurada do lado de fora do boxe por um gancho em formato de flor - envolta do meu corpo. Desfiz o coque que tinha feito para não molhar meu cabelo e meus olhos recaíram para frente, vendo - com dificuldade por causa do vapor d’água que se dissipava pelo banheiro - meu reflexo no espelho da pia.
Caminhei até ficar bem perto da imagem totalmente distorcida da que eu estava acostumada parecer. Eu estava horrível. Talvez pelo fato de pela milésima vez - só naquela semana – meu subconsciente ter projetado nos meus sonhos. Alguns eram apenas lembranças do que já tínhamos vivido, já outros eram totalmente sem sentido, e ainda assim, agradáveis. Sim, agradáveis. Por mais que eu não gostasse, ter invadindo meus sonhos não era ruim, pelo contrário. Era ótimo, porque lá, ele não me decepcionava, não dizia coisas difíceis de serem ouvidas, não me olhava indiferente, não mentia, não me enganava. Ele era o que eu achava que existia na vida real. Isso sim era a pior coisa: acordar e ver que, mais uma vez, meu inconsciente estava me pregando uma peça; eu estava me enganando, fantasiando.
Por outro lado, ter apenas ele em meus sonhos era frustrante. Todo dia, antes de dormir, pensava na minha mãe, rezava para ela aparecer pra mim, e ainda assim, não era com ela que eu passava a noite. Não sabia como me sentir sobre isso. Cheguei a pensar que minha mente tivesse bloqueado as lembranças que eu tinha. Não queria isso. Não queria esquecer como era tê-la perto de mim, o jeito como ela passava seu batom favorito ou escolhia uma roupa para sair. Ou o som da sua voz me chamando amorosamente pela manhã para ir ao colégio. Não era como se eu quisesse, mas algo dentro de mim dizia que era o certo. Pode soar egoísta e sem amor, mas ao mesmo tempo em que eu não queria esquecer, eu também não queria lembrar. Ambos os casos eram dolorosos. E eu já estava carregando mais do que sentia que podia suportar. Não queria que o meu problema com superasse sua perda. Ela sempre fora e sempre seria muito mais importante. Só que pelo menos nos sonhos, minha vida não tomara um rumo trágico digno de novela. Talvez isso apenas significasse que eu estava começando a superar.
O fato que mesmo tendo sonhos lindos, eu acordava um caco. Não posso dizer que era tudo culpa de e suas aparições, mas que isso ajudava, ajudava. Não era de hoje que eu me sentia esgotada física e mentalmente. Em certas horas eu tinha a dúvida se não era melhor me render à exaustão e agir como uma vegetal, sem me preocupar com mais nada relacionado a mais ninguém. Tudo estava por um fio, tudo era complexo. Eu não aguentava mais ter tanta coisa guardada. Me sentia como uma bomba prestes a detonar a qualquer momento e a única saída era ter um surto como acontecera em Kassel. No sábado, quando estava indo para a festa de Katie, lá estava àquela sensação de aperto forte no peito combinado com a angústia que chegava a ser sufocante. Além disso, havia também as frequentes dores de cabeça, a demora a dormir, a falta de apetite... O caso é que, agora, eu encarava uma pessoa desconhecida diante de mim. Eu estava diferente, e muito mais que isso, eu me sentia diferente, só não sabia, até o momento, se era um diferente bom ou ruim.
Pelo julgar dos acontecimentos recentes, suspeitei que fosse um diferente bom. Pela primeira vez, eu tivera a firmeza de repelir qualquer tipo de aproximação de . Tudo bem, nessa última semana eu fugira ou me escondera atrás de algo/alguém para não precisar ficar muito próxima, mas naquele dia do vestiário, eu fui vitoriosa não fui? Mesmo que cada poro do meu corpo se abrisse só em detectar a presença daquele maldito corpo, daquela maldita voz e tudo o que eu mais desejasse, por mais que soubesse que fosse errado, era perdoá-lo e dizer que tudo ficaria bem entre nós.
E eu ainda me lembro exatamente como me senti ao deixá-lo sozinho naquele vestiário; queria voltar e abraçá-lo, e ainda assim, os meus pés seguiram em frente sendo acompanhados por uma voz que dizia na minha cabeça “Ele precisa decidir o que quer”. Eu sabia que era o certo, mas, infelizmente, nem sempre o certo a se fazer é fácil.
Para os outros, a minha aparência poderia ter mudado um pouco, eu poderia estar apenas com olhos opacos por causa das sucessivas noites mal dormidas, a pele pálida por não pegar sol há muito tempo por causa do clima da cidade, a expressão cansada, desleixada de quem precisava de férias, mas pra mim, significava muito mais que isso. Algo dentro de mim havia mudado, se modificado, ou até mesmo evoluindo. Não me sentia fraca nem incapaz, apenas... Diferente.
Eu fugi. Fugi na terça, na quarta, na quinta e hoje pretendia fugir novamente, mesmo que as coisas fossem mais difíceis por causa da viagem. Fugir não só dele, mas de mim também. Fugir de querer tudo de volta, de querer que fizesse eu me sentir especial de novo.
“Não significou nada pra mim”
As lágrimas deixaram a minha visão turva e antes que pudesse impedi-las, teimosamente, elas escorreram pelos meus olhos sem nem que eu piscasse. Solucei alto e tapei a boca com a mão reprimindo que eu berrasse ao chorar, impedindo qualquer ruído que pudesse emitir. Funguei, limpando meu rosto com as costas das mãos, engolindo o choro. Antes que eu virasse uma torneira, girei os calcanhares, buscando algo para vestir no closet. Por estar frio, mas com um sol razoavelmente quente, optei escolher uma calça jeans skinny escura, uma blusa justa e comprida cinza de alcinha com bordado de renda branca no decote em V caso sentisse calor durante o dia, um cachecol preto simples, a jaqueta de couro cor de chocolate da minha mãe e nos pés, uma sapatilha bege de verniz. Depois de http://i56.tinypic.com/rr5f9y.jpg, penteei o cabelo deixando-o solto, escovei os dentes e só pra não aparecer em público com cara de defunta, me maquiei um pouco, passando corretivo nas minhas olheiras, rímel, um pouco de blush da cor pêssego e batom da mesma cor.
Desconectei meu celular do carregador e vi, pela hora, que estava adiantada. Dei uma checada no meu Twitter antes de catar todo o material necessário em cima da mesa do computador e desligar o mesmo, guardando o cabo USB que o ligava ao meu iPod. Peguei o aparelho já carregado e mais o guarda-chuva, e joguei tudo dentro da minha maxibolsa preta que estava em cima do meu pufe uva, perto da minha mala de rodinhas pronta para o final de semana que começaria depois da detenção.
Nem acreditava que era o último dia que eu precisaria ficar até tarde na escola ajudando a Sr.ª Maggie, da biblioteca, a arrumar em ordem alfabética, matéria e assunto, os livros que os alunos pegavam emprestado. Não era preciso ficar o dia todo, só na terça o tempo estipulado aumentou por causa da minha falta na segunda para ir ao ginecologista. Veja, não que eu esteja reclamando, perto da Richards, meu trabalho foi moleza. Enquanto eu ficava entre pilhas e pilhas de livros, ela ficou em seu próprio habitat: recolher todo o lixo das salas e dos banheiros. Ainda bem que a diretora separou nossas funções caso o contrário, poderia rolar um segundo round. A Pâmela Anderson falsificada ainda estava furiosa por eu tê-la deixado comer poeira na frente da escola inteira e eu, no estado de stress que me encontrava, não iria dispensar a oportunidade de usá-la como João-Bobo.
Mal toquei meus pés no hall e já dava para ouvir a animação de todos logo de manhã, principalmente a de Emma, que tagarelava alto.
- Mamãe, deixa!
- Não Emma, você não pode ir pra casa da Mia nesse final de semana – Helen disse pelo que suspeitei pela décima quinta vez, num tom impaciente. Ela estava ao lado de Molly arrumando a lancheira de Emma. – Você precisa estudar para prova de matemática de segunda. Sua última nota não foi nada boa.
- Ah, por favor... – insistiu fazendo seu bico mais fofo e convincente, balançando suas perninhas no ar por não ter altura o suficiente para colocar os pés no chão enquanto estivesse sentada na cadeira. – Eu posso ficar estudando lá também! Deixa, por favor!
- Emma ! – Helen censurou, dando a entender que o assunto estava encerrado.
- Bom dia gente – me anunciei, dando uma batidinha audível no batente, fazendo apenas metade do meu corpo aparecer. A intenção era dar um “alô” para não dar uma de anti-social e sair.
Automaticamente todos olharam pra mim. Daquele ângulo, pude ver que as três eram as únicas presentes. Um alívio.
- Oi dorminhoca! – minha irmãzinha me deu um dos seus lindos sorrisos e dessa vez com um detalhe engraçado; um bigode de leite. Ela já que não estava mais brava comigo. Quando voltei da casa da Lizzie, na segunda, dei a desculpa de que não queria acordá-la e por isso tinha saído sem avisar. Obviamente tive que jogar Guitar Hero com ela pelo resto da noite como “castigo”.
- E ai, , animada para a viagem? - Helen também sorriu. Estava toda chique com seu novíssimo e invejável sobretudo preto da Burberry combinando com um lindo par de peep shoes rosa.
- Nossa, você nem imagina! – exclamei, forçando um sorriso que considerei convencível. Não que eu não estivesse animada, mas tudo seria muito estranho por causa da situação com . Nessa viagem, eu não poderia evitá-lo. Eu, internamente, acreditava que a animação me contagiaria na hora que eu e o resto dos meus amigos estivéssemos na estrada para Londres.
- Mãe, eu também vou poder ir a Londres com os meus amigos quando estiver mais velha? – os olhinhos de Emma brilharam com a possibilidade.
- Claro que sim, meu amor – Helen respondeu, sentando ao seu lado com uma xícara de chá, depositando um beijo estalado em sua bochecha rosada.
- Não vai se sentar, ? Acabei de fazer panquecas do jeito que você gosta – Molly serviu um prato grande bem no meio da mesa, sentando-se ao lado de Helen. Neguei com a cabeça, mesmo que o cheiro delicioso da comida pedisse para que eu provasse um pouco. Eu não comia nada direito há quase uma semana e mesmo assim, quando colocava algo pra dentro, ficava toda enjoada e com vontade de vomitar.
- Estou sem fome, Molly, mas valeu – dei de ombros, mordendo o canto da boca. – Já estou indo pro colégio mesmo... Como algo por lá.
- Você não pode sair sem comer nada, . Ontem já não jantou e nem almoçou direito pelo que Molly me disse. Assim você vai acabar ficando doente - Helen me advertiu parecendo com a minha mãe.
Minha mãe.
Não, , você não pode chorar agora, não na frente delas. Aprenda a ser forte, controle sua dor, sua saudade. Você é capaz. Tudo isso se acalmará com o tempo.
- Eu...
- ‘Dia – enrijeci instantaneamente como pedra ao ouvir o tom matinal rouco e sonolento de atrás de mim, quase no meu ouvido. Ele passou, dando um pequeno esbarrão – desnecessário – no meu ombro e entrou na cozinha, deixando um rastro da sua loção que emanava sua essência estupefaciente. Me segurei fortemente no batente de madeira do portal, reprimindo um suspiro.
Ele colocou numa mochila no chão, deu um beijo na mãe e em Molly, sentando-se ao lado de Emma, sem nem erguer por milésimo de segundos, seus olhos na minha direção.
- Não faz isso, ! – Emma reclamou mostrando a língua quando ele puxou um dos lados da sua Maria-chiquinha – Por que você não finge ser normal?
- Eu estou sendo normal, pirralha, implicando com você! – mostrou a língua também, infantilmente, e apertou o narizinho de Emma, que rolou os olhos, divertida.
Pressionei meus lábios um no outro, reprimindo os cantos da minha boca de se curvarem pra cima. Adorava essas cenas de implicância que um tinha com o outro. Emma enrugava o nariz de um jeitinho tão lindo quando estava irritada e dava cada sorriso matável se achando o mais adulto da relação, só que na verdade não era. Impossível não ficar encantada pelos dois.
Ao soltá-la, finalmente olhou pra mim. Sua expressão risonha sumiu do seu rosto quando suas íris brilhando milhares de significados se conectaram com as minhas, me fazendo estremecer com a intensidade que elas emitiam. Por longos minutos, nos fitamos, mantendo um diálogo silencioso enquanto os outros presentes terminavam de comer e não notavam o que estava acontecendo ali, tão visível e tão perto.
Em certos momentos, eu e não fazíamos muita questão de esconder, nem para os outros e nem para nós mesmos o quanto mudávamos nosso comportamento quando estávamos perto um do outro. Era um milagre ninguém em casa ter percebido nada, nem mesmo Emma, uma menina tão inteligente. Talvez disfarçássemos muito bem, quem sabe. O fato é que não nos falávamos muito, no máximo no jantar quando ele ou eu pedíamos algo fora do nosso alcance ou quando estávamos na roda com o pessoal e precisávamos dar algum recado do tipo “Molly ligou e disse que você não precisa buscar a Emma na escola”. Patético, eu sei. Contudo, o que eu faria? Era demais ter que lidar com essa situação. Era sufocante. Por mais que Lizzie e soubessem, era sufocante ter que aguentar calada diante dos outros e não poder manifestar o meu descontentamento diante disso tudo. Era como se eu estivesse com as mãos amarradas com um nó bem forte e ninguém fosse capaz de desfazê-lo... Não, existia alguém capaz de desfazê-lo sim e essa pessoa se encontrava diante de mim agora. Seus belos olhos envolvidos por olheiras, que pareciam mais profundas a cada dia, também lhe dando o aspecto de cansado como eu, só que ainda assim, o desgraçado continuava tão lindo como sempre. Meu coração ficou apertado, beirando a angústia e culpa por vê-lo daquele jeito. Será que ele estava assim por minha causa?
É claro que eu continuava com raiva, mas... Mas era muito mais simples e fácil ter raiva quando fazia algo errado e não quando me olhava daquele jeito, cheio de arrependimento. Eu sentia que poderia fraquejar na minha decisão se ele continuasse daquele jeito.
“Foco, , foco!”
- Bem, eu vou indo... – disse, evitando encará-lo por muito tempo, sentindo um tipo nervosismo que já não era nenhum pouco desconhecido e que só me fazia ter.
- , você não vai comigo e com o de novo? – Emma perguntou inocentemente, dando ênfase nas últimas palavras.
- Quem sabe semana que vem, Emma, agora tô indo... – me desculpei, mandando beijo no ar para ela, meio que sem saber o que dizer direito, ainda mais com Molly e Helen prestando atenção.
Antes que eu pudesse me mexer, Helen perguntou claramente desconfiada, olhando de mim para seu filho:
- O que está acontecendo com vocês dois?
Tudo bem. Retiro a parte em que disse que ninguém estava notando nada de estranho.
Minha irmã e Molly ficaram caladas, sacando a tensão que tinha se estabelecido no cômodo.
- Bem, diga-nos você, mãe. Porque bem, eu não estou vendo nada acontecer e acho que a também não – enfiou uma colher cheia de sucrilhos na boca quase fazendo o mesmo com o rosto na tigela. Deu um sorriso zombeteiro sem mostrar os dentes com as bochechas inchadas de comida.
Fiz o máximo para não estreitar meus olhos para ele porque caso fizesse, Helen perceberia que havia algo errado ali. Ou melhor, ela teria certeza.
- Tá tudo normal, Helen – afirmei entre os dentes, controlando a voz para que ela não saísse trêmula de tanta raiva que eu estava sentindo daquele babaca. . Ah! Agora eu já nem estava com pena dele por estar com olheiras, eu queria era que se fodesse! – Bem, se todas as perguntas foram feitas, já estou indo. Tch...
- Não, não – Helen negou, balançando a cabeça, e eu já imagine mais perguntas vindo por aí. Ela não parecia nada convencida. – Antes de sair pro colégio, dá uma passadinha no escritório. Seu pai quer falar com você.
Já não me bastava para logo de cara deixar minha manhã ruim, agora John iria entrar no jogo para acabar com o meu dia de vez? Os homens dessa casa realmente estavam empenhados em me deixar com raiva!
- John quer falar comigo? – repeti em voz alta só para ter certeza que não estava ficando louca. No mesmo instante, Helen e Molly se entreolharam cúmplices, e o esboço de um sorriso de formou nos lábios da minha boadrasta.
Desde que voltara da Escócia, John tentara estabelecer um relacionamento comigo, algo totalmente controverso se formos lembrar-nos do tapa que ele me dera na semana passada. Bom, ele estava muito enganado se achava que eu deixaria tal fato passar como um desentendimento qualquer.
Na terça a noite, depois do jantar, ele bateu no meu quarto enquanto eu estava estudando, e me chamou para assistir Senhor dos Anéis com o resto da família. Neguei, é claro. Como se eu fosse esquecer o que ele fez não só no meu rosto, mas nos dez anos em que não tivemos contato. Mesmo deixando claro, John não entendera, até agora, que eu não queria nada dele. Talvez, por causa da idade, ele esqueceu que eu nem mesmo quis vir para York.
Na quarta de manhã, ao ver que eu não iria para o colégio com e Emma, se ofereceu para me levar. Eu já fui logo cortando seu barato, dizendo que iria com Lizzie, mas na verdade encontraria Peter na rua detrás. Olha pra minha cara e diz se eu daria oportunidade para ele vir com aquele velho papo de que sentia muito? Eu acho que já sei com quem aprendera a achar que todo mundo é otário.
- Sim, . Seu pai quer falar com você – Helen confirmou, levantando-se e levando a xícara e o prato que comera até a pia – Vai lá rapidinho que eu vou preparar algo para você comer no caminho, está bem?
Sem responder, marchei até o escritório de John, incomodada com a situação imposta. A porta estava entreaberta, me poupando de ter o trabalho de bater.
- Helen disse que você quer falar comigo – disse de forma direta e pouco simpática, segurando a maçaneta da porta.
John, que estava de pé procurando um livro da estante ao lado de porta, virou o rosto, deixando de lado que estava fazendo. Em silêncio, pediu para que eu entrasse e o fiz, cruzando os braços, apoiando o peso numa perna só.
- Bom dia filha, dormiu tarde? – ele questionou naturalmente. Eu levantei uma sobrancelha ao ouvir a palavra “filha” saindo da boca dele.
- E já tô aqui, então, sem forçação de barra, ok? – rebati, vendo sua expressão serena vacilar. Por um momento eu achei que estava sedo rude demais, mas então me lembrei de que deveria continuar a manter minha pose de irredutível.
John respirou fundo, passando a mão pelo cabelo curto, que começava a mostrar alguns fios brancos. Deu a volta na mesa, pegando um envelope branco de carta na gaveta e voltou à posição inicial, ficando na minha frente.
- Eu tenho duas coisas pra dar pra você, mas primeiro, queria te dizer uma coisa. Não precisa responder, senão quiser, é apenas algo que eu venho guardado não só durante desses dois meses que você está aqui, e sim nesse tempo todo em que ficamos longe.
Um jato de ar entrou pela janela, batendo no meu rosto de leve, e mesmo assim, causando um calafrio esquisito, uma sensação meio bizarra de que alguma coisa aconteceria.
- Eu me pergunto o porquê de você dar chance a todo mundo, menos a mim – fiz menção de falar, mas ele continuou - Certo, eu sei que o que eu fiz foi algo doloroso para todos nós, principalmente pra você, mas , como você acha que eu me senti enquanto você me rejeitava durante esses anos? Eu me divorciei da sua mãe e não de você. Você nem ao menos me deu a chance de me explicar, de entender os meus motivos. Naquela época você era nova, mas agora... Agora você está com 17 anos, será que a sua raiva por mim é tão grande de tal forma que não te faça ver que eu estava infeliz naquele casamento? Por que você precisa ser tão dura comigo? Eu nunca quis te desamparar, te deixar para trás.
Fiquei olhando para John sem saber o que dizer. Tantas coisas passavam pela minha cabeça naquele momento, mas nada se transformava numa frase coerente para que fosse proferida. Parecia que tinha voltado a de sete anos; eu não tinha voz nessa conversa, não sabia dialogar ou defender meu ponto de vista. Eu tinha ficado desarmada e confusa com o que ouvi.
- Você não parecia infeliz com a minha mãe – argumentei infantilmente, empinando o nariz. John se apoiou com uma mão na mesa atrás de si, ainda com o envelope na outra, parecendo incomodado com o que eu dissera depois de tudo.
- Você era muito nova, e parece que continua sendo – disse magoado, com a voz rígida e olhos cheios de culpa – Você ainda não está pronta para termos essa conversa.
- Por que diz isso? – rebati menos hostil do que antes. Seria muito mais fácil discutir com John se ele estivesse gritando comigo e não demonstrando tanta fragilidade.
- Porque não dá pra conversar com alguém que está o tempo todo na defensiva.
O silêncio incômodo se instalou entre nós; cada um com seus próprios pensamentos. Foi então que eu criei coragem e fiz a pergunta que me assombrava desde minha conversa com Peter:
- O que fez você ir embora? Quero dizer, o que te deixou infeliz?
Permaneci quieta, observando o homem que denominavam como meu pai. Será que hoje eu teria a resposta sobre o que o levara a ter abandonado a mim e a minha mãe? Me abracei, esfregando minhas mãos em meus braços, com um certo receio do que John falaria. Eu gostaria de ouvir o que ele tinha a dizer? Eu tinha coragem de ouvir toda a verdade?
- Você vai se atrasar para a escola – desconversou, desencostando da mesa, passando a mão livre pelo rosto, cansado. Bizarramente todos nessa casa estavam cansados, lotados de sentimentos que não conseguíamos lidar. – Me deixe falar o q...
- Então realmente teve um motivo? – o cortei bruscamente - Algo que te deixou infeliz? Não foi simplesmente o desgaste do casamento, foi?
- Chega de perguntas, . Não vamos mais falar sobre isso, por enquanto.
Ele não hesitaria se não houvesse um motivo muito sério. Ou talvez fosse mais de um motivo?
- Isso tem a ver comigo também! É meu direito saber o que houve! Você não pode me privar disso! – elevei o tom, não chegando a gritar. Se o irritasse, corria o risco de não saber nada. – É injusto me deixar no escuro!
- É? E é injusto você me manter longe da sua vida mesmo morando embaixo do mesmo teto que eu!
Bufei, contrariada e cruzei os braços.
- Bom – John quebrou o silêncio depois de um tempo. – Eu já estou com isso guardado desde a semana passada, mas decidi te entregar somente hoje.
Dei uma olhada de soslaio, o envelope branco estava estendido na minha direção. Olhei do envelope para John com cara de interrogação.
- O que é isso?
- Se você abrir, vai saber o que é.
Peguei o envelope e o abri, havia dois cartões de crédito com o meu nome escrito.
- Eu mandei fazer dois cartões: um de débito e outro de crédito, caso você queira fazer, eventualmente, compras e não precise ficar pedindo a mim ou a Helen – explicou. - Ah, obviamente abri uma conta pra você no banco. Não é a mesma poupança que a sua mãe fez pra você. Aquela ficará intocada até você fazer 18 anos e ir para a faculdade. A nova poupança sou eu que irei depositar mensalmente, 850 libras, para cobrir suas necessidades e pagar a conta do cartão de crédito - arregalei os olhos com a quantia. Eu nunca tinha tido tanto dinheiro a minha disposição de uma vez, mesmo que a pensão de John desse fosse boa. Geralmente minha mãe ficava encarregada disso. - Dependendo do seu comportamento e notas, você pode ganhar algum bônus, assim como faço com o . No natal há um bônus também, afinal a família é grande.
John queria o que? Me comprar?
- Não preciso dessa quantia toda. Não é só porque você tem dinheiro que vou precisar usá-lo mais do que o necessário. Não sou consumista - disse, levantando o cenho, não conseguindo imaginar os tipos de necessidades que as garotas em York tinham pra precisarem de 850 libras para supri-las.
- A questão não é o quanto você pode gastar, - explicou paciente, notando minha acusação. - Eu quero que você comece a ter responsabilidade com suas contas. Se a mesada acabar, você terá que ficar sem sair ou comprar. Além do mais, eu já faço isso com e farei quando Emma ficar mais velha, nada mais justo do que fazer com você também. Antes que eu esqueça deixe-me acrescentar que a sua mesada desse mês já foi depositada, mas você só poderá usá-la nesse final de semana, depois eu pegarei os cartões de volta por causa do castigo.
Troquei o peso dos pés, me mexendo desconfortavelmente por ter que dizer:
- Hm, obrigada John.
Ele assentiu, sorrindo abertamente.
- Vou estar em casa antes de você ir para Londres.
Concordei, pegando a deixa para sair. Ao fechar a porta, meu celular vibrou e tocou o bipe avisando sobre uma nova mensagem. Era Lizzie.
“Estou chegando, xxx” Tentei passar despercebida pela cozinha, mas Molly acabou me vendo e me entregou para Helen, que me empurrou um sanduíche com pão light de atum enrolado em papel laminado. O meti dentro da bolsa e me despedi a tempo de ver John entrando pela cozinha para tomar café.
Nem precisei esperar muito por Lizzie. Assim que parei na calçada, perto da caixa de correio, o seu Volvo S80 prata deslizou na minha frente. Ela e Peter estavam se revezando para me levar para o colégio.
- É hoje, ! – anunciou toda serelepe. Me acomodei ao seu lado, jogando minha bolsa aos meus pés – Que cara de cu é essa querida? Não está animada?
- Bem, pra falar a verdade não muito – confessei, vendo minha amiga fazer de perfil sua carinha de “Você tá assim porque é cabeça dura”. – Não me olhe com essa cara, Elizabeth Tallis! Eu tô aprendendo contigo, tá?
- Você é realmente uma vaca às vezes, sabia? – resmungou com a indireta. – Eu acordei tão bem, nem mesmo George ficou me pentelhando, daí vem você e fica falando daquele imbecil do . Ah , me dá uma folga né, hoje é sexta!
Revirei os olhos, apoiando a cabeça no encosto do meu banco vendo o sinal ficar vermelho para nós. Já tinha decidido que não iria mais insistir no assunto do .
- Já terminou de arrumar sua mala? – mudei de assunto, trocando entediadamente uma estação de rádio que tocasse música decente àquela hora.
- Ainda faltam algumas coisas, mas arrumo tudo num instante – recebi um soco fraco no ombro pouco antes do sinal ficar verde. – Oh , sério mesmo que você não tá nenhum pouco ansiosa?
- Claro que tô, Lizzie! Eu vou ver de perto pela primeira vez três bandas que eu amo! Mas... – fiz uma pausa, respirando fundo. – Não vou ficar a vontade o tempo todo, você sabe, vai estar conosco e nós não estamos nos falando desde que... - deixei a frase incompleta por não conseguir terminá-la. Não era preciso, de qualquer jeito.
Lizzie puxou um assunto muito nada a ver, o que me fez esquecer momentaneamente a existência de na minha vida pelo resto do caminho.
Encontramos com o resto do pessoal no pátio. Todos estavam do mesmo jeito que Lizzie. Cassie estava em êxtase e não parava de enumerar todas as coisas que faríamos até domingo à tarde, quando estaríamos de volta. Aquela animação foi contagiante e logo eu também já estava entrando na onda das minhas amigas, imaginando desde o nosso quarto reservado até o que comeríamos nas lanchonetes que e sugeriram.
Fiz o máximo possível para demonstrar indiferença quando se juntou a nós. Era um trabalho extremamente árduo conseguir controlar a vontade de olhá-lo e fingir, por livre e espontânea vontade, que sua presença não me remetia a nenhuma lembrança ou estado de desconforto. Eu precisava lidar com isso, afinal não poderia fugir por muito tempo se morávamos debaixo do mesmo teto e dividíamos os mesmos amigos. Era seguir em frente e esquecer como fiz com Sam.
O assunto “viagem a Londres com direito a shows” só deu uma pausa na hora do intervalo, me dando brecha para contar às meninas o que tinha acontecido naquela manhã no escritório de John, aproveitando que os garotos tinham ido jogar sueca com o grupo de sempre, nos dando mais privacidade.
- Então nossas suspeitas estavam certas, John está escondendo alguma coisa de você – Cassie analisou quando terminei meu relato. – Deve ser algo muito cabeludo para ele não querer te contar.
- Não entendo... – neguei com a cabeça, olhando frustrada para as três. Não que eu tivesse tido muito tempo para pensar com todo o dever que o professor de Francês havia passado, mas nada vinha na minha cabeça. – Minha mãe nunca demonstrou ter algo errado, nunca deu a entender de que havia alguma coisa além do que sempre soube.
- Muito estranho... – Katie comentou intrigada, mordendo o canudo do seu suco de uva industrializado. – E o pior é que não temos nenhuma suspeita, nada que nos dê algo para pensar. Pode ser qualquer coisa!
Os castanhos olhos de Lizzie pousaram-se em mim, procurando a resposta para o enigma. Seu cérebro estava trabalho.
– Já dizia o ditado: Quem procura, acha – disse sabiamente, compartilhando seu raciocínio. - Já que seu pai não te conta nada, por que você mesma não investiga? Ele deve ter alguma coisa guardada do tempo que ficou casado com sua mãe. Não custa nada tentar.
- Isso! Nós poderíamos te ajudar – Cassie emendou, se achando o próprio Sherlock Holmes. – No escritório deve ter alguma coisa que, pelo menos, possa nos dar alguma pista.
- Tem que ser um dia em que esteja no treino e Emma vá pra casa de alguma amiga. Com Molly nos viramos – acrescentei.
Debatido sobre a primeira parte, contei sobre a poupança e os cartões.
- Vocês acham que o John pode estar querendo me comprar? Fiz mal em ter aceitado?
- Não para as duas perguntas – Katie respondeu prontamente. – Você é filha dele, não há mal nenhum nisso. Até porque ele não te pediu nada em troca, pediu?
- Não. Mas e se ele...
- Para de querer ficar colocando defeito em tudo, . John só está fazendo o papel dele como pai: te dando mesada, já que você não possui uma renda própria – Lizzie disse, sendo óbvia. – Ele não pagava sua pensão? – balancei a cabeça afirmativamente. - Então pronto. E pra ser sincera, se ele quisesse mesmo te comprar, de dava muito mais grana e um carro.
- Eu nem sei dirigir, Lizzie.
- E daí? Você poderia aprender.
- É, poderia te ensinar! – Cassie sugeriu, levantando o polegar, fazendo um sinal de joinha – Eu adoraria ver você deixando o carro morrer subindo em uma ladeira.
- Nossa, que encorajador, Cass... – Katie riu. Ela olhou para algo atrás de mim, que a fez rir mais, antes que eu virasse, meus olhos foram tapados por um par de mãos frias e dedos compridos.
De momento tomei um susto, achando que era , então que apalpei as mãos, percebendo que estava errada. As mãos de eram gordinhas, mais macias e estavam sempre, sempre quentes.
- Pete! – exclamei, escondendo bem o desapontamento e tirei as mãos do meu rosto depois de receber um beijo na bochecha.
- Oi linda - ele saiu de trás de mim, dando um sorriso enorme com seus dentes branquinhos e agachando-se ao meu lado, ficando na minha altura. – Oi meninas.
- Já veio dar em cima da nossa amiga? – Katie brincou sem nenhuma antipatia como costumava fazer. Eu adorava ver o quanto minhas amigas tratavam Peter como se fosse um amigo e não alguém que deveriam odiar só por capricho de .
Já não posso dizer que era a mesma coisa com os meninos. Eles não reclamavam mais, pelo menos não perto de mim, mas também não faziam questão de conversar ou serem simpáticos com Peter. Apenas permaneciam calados.
- Até que ele demorou hoje, não é? – Lizzie entrou no embalo de Katie. Cassie fez um coração com as mãos e todo mundo riu.
- Tá bom gente, chega – ralhei, sem conseguir ficar séria realmente. – Chegou atrasado de novo, né?
- Fiquei acordado até tarde pensando em você – disse e mal terminou a frase e minhas amigas soltaram sonoros “wow’s”.
- Ai você não presta! – disse sem graça. Levantei, pegando Peter pela mão. Olhei para minhas amigas, que se seguravam para não rirem. – E vocês também!
Nos distanciamos da mesa, ainda ouvindo minhas amigas zoarem.
- Ah eu sabia que você estava doida pra ficar sozinha comigo! – disse todo convencido, e acabou por receber beliscão relativamente fraco na barriga. – Ei, meu tanquinho!
- Sério? Não vi nenhum tanquinho ai – impliquei, o beliscando de novo. Sua barriga se contraiu como se ele tivesse levado um choque. – Sabe, não queria falar, mas na verdade eu senti um excesso de gordura.
- Então vamos dar uma olhada em você! – Peter apertou minha cintura e dei um sobressalto, sentindo cosquinha. – Opa, parece que tem mais alguém com gorduras sobrando aqui!
- Não é excesso de gordura, ok? – fiz uma falsa cara de desdém. - Apenas amortecedor de impacto!
- Que língua afiada ela tem! – debochou, recebendo um tapa no braço.
Nos sentamos em uma das meses de cimento no pátio de entrada. E então eu me toquei de que tinha algo errado ali; aquela parte do colégio era mais usava para os casais que queriam ficar mais reservados para darem uns amassos sem que os inspetores interrompessem. Meu sinal de alerta apitou.
Haviam um grupo de pessoas amontoadas três mesas a nossa frente, mas não os dei atenção, reparando mais nos movimentos de Peter caso precisasse me esgueirar das suas mãos.
- Então , sabe eu estava pensando hoje na aula... – ele chegou mais perto, até nossos quadris ficarem colados, o que me deixou um tanto quanto nervosa. Parecia tão errado eu estar daquele jeito com ele, mas o que eu faria? Se me desvencilhasse, Peter poderia interpretar mal e a última coisa que eu precisava no momento era que ele ficasse chateado comigo. – Já que não vamos nos ver nesse final de semana por causa da sua viagem, a gente poderia ir ao cinema semana que vem, depois comer uma pizza, alguma coisa assim... O que você acha?
- Não dá, esqueceu que oficialmente o meu castigo começa na segunda? - me controlei para não emendar um “e bem, sabe o ? Então, ele está confundindo minha vida mais do que nunca e eu não quero te meter nisso”.
- É só isso mesmo? – ele questionou daquele mesmo jeito que fazemos quando não estamos acreditando no que nos disseram.
Fui um pouco por lado, esgueirando de mansinho.
– Claro que é isso, Pete. Deixa de ser bobo.
- Só quis me certificar – ele pareceu crédulo e se reaproximou, passando seu braço por cima do meu ombro. – Tenho achado você estranha depois da festa da Katie. Ainda está chateada com a briga com o seu pai?
Manuseei a cabeça pra lá e pra cá em negação. Seus olhos estavam tão azuis que não pude evitar sorrir de verdade e admirá-los por alguns segundos. Tempo preciso para ele insinuar um beijo. Virei o rosto já entendendo tudo, mas não foi rápido o suficiente e sua boca tocou o canto da minha.
O foco no que quase tinha acontecido se perdeu quando chequei se alguém tinha visto. nos observava da mesa a qual eu não tinha dado bola anteriormente. , e também encararam a mim e Peter. Nenhum dos meus três amigos me olhava com reprovação, e sim espanto, principalmente . Já ... Seu rosto estava contorcido, refletindo nojo, raiva e... Decepção, conforme ele balançava a cabeça, incrédulo.
Ele levantou de supetão, irritado, assustando algumas das pessoas que estavam com ele. Gelei ao ver que ele vinha na direção da minha mesa, mas então passou direto. Acompanhei seus passos até onde meu pescoço permitiu. Depois abaixei a cabeça, controlando a vontade de extravasar o grito “Isso, vai embora, seja mais uma vez um covarde!” entalado na garganta. Meu ego inflou como nunca por saber que eu continuava o incomodando só por ter Peter comigo.
- Idiota – Peter murmurou, notando para minha infelicidade, a ceninha que tinha feito.
, e se entreolharam desconfiados até que o primeiro e o último foram atrás do amigo, dando sorrisos discretos de “não se preocupe com ele” enquanto me olhava compreensivo. Ele já tinha entendido tudo, pelo que parecia.
Por um momento tive vontade de rir; rir da minha falta de sorte. Que hilário pensar que em menos de uma semana eu estava transando com o meu meio-irmão e então ele quase me viu beijando o cara que ele mais odeia no mundo.
Pode dizer, você tá morrendo de inveja da minha sorte, né? Pois é, é para poucos!
- Idiotas, você quer dizer, né? – foi tudo o que eu disse, irritada com o seu comentário.
Peter entortou a boca, entendendo que eu o estava incluindo.
- Desculpa, não quis te deixar irritada. Não falo mais do seu queridinho irmão – recolheu seu braço, ofendido. Era impressão minha ou o seu tom era carregado de deboche?
Segurei a língua para não lhe dar uma resposta mal educada. Decidi que não iria me mostrar afetada pelo que ele tinha dito. Eu estava cansada de ficar no meio dessa guerra sem sentido. Se eles achavam que eu aplaudiria, estavam muito, muito enganados. Que merda! Será que nenhum desses dois entendia que eu não estava do lado de ninguém?
O sinal estridente do fim do intervalo bateu. Levantei apressada, voltando para o pátio principal sem olhar para trás, num mudo recado para Peter: Ou para com isso ou te ignoro.
me alcançou a tempo, me fazendo quase lhe dar um empurrão achando que era Peter passando o braço novamente pelos meus ombros. Mas ao ver quem era, dei um pequeno sorriso, achando nossos pés em sincronia muito mais interessantes.
- Não precisa ficar com essa carinha, – tentou me consolar, dando uma apertada nos meus ombros. – O gosta de você, eu já percebi. E pelo que deu pra ver, ele também.
- O problema do é orgulho ferido. Ele não quer aceitar que eu seja amiga de um cara que ele não gosta – fez um barulho de reprovação. Katie odiava quando ele fazia isso e por algum motivo eu também não. – Para com isso, estou falando sério!
- Ele morre de ciúmes de você e do Bradley... – argumentou insistente. – Ainda mais depois daquele quase beijo. Você viu como ele ficou todo nervosinho?
Rolei os olhos, não levando a sério o que ele dissera.
- Peter e eu somos amigos. Todo mundo sabe.
- Então, como um conselho de amigo que quer te ver com o , reforce isso para o Bradley porque parece que ele ainda não entendeu.
- Eu já deixei isso bem... Ei, - falei, parando de andar de repente e interrompendo a reposta quando meu cérebro compreendeu o que dissera. – O que você disse? Você quer me ver com o ?
- Ah, digamos que eu seja Team – ele riu do próprio trocadilho, me forçando a voltar a andar. – Seria muito foda, não acha? Quero dizer, eu com a Katie, com a Cass, com a Lizzie, você e o ... Seríamos os casais mais invejados de toda a cidade!
- Ele te contou alguma coisa?
- Contar o que, por exemplo? – levantou as sobrancelhas frenética e sugestivamente, me olhando de rabo-de-olho. – Tem alguma coisa que eu não esteja sabendo, ?
- Claro que não, foi apenas uma pergunta... Essa sua súbita ideia é absurda, se não percebeu! - eu, definitivamente, precisava aprender a sair pela tangente com respostas mais convincentes. – De qualquer maneira, isso não vai acontecer, nem em um milhão de anos – ele fez aquele barulho de novo e acabou por levar um cutucão na costela. – Estamos tão perto de sentir algo um pelo outro quanto a Rainha tá perto de posar para a Playboy. Olha – acrescentei percebendo que ele continuaria a repetir seus argumentos como LP aranhado. – Não sei nem porque estamos falando sobre isso. Se o e o Peter querem se matar, que se matem, não estou nem aí.
Avistamos as meninas paradas perto da porta, conversando. Dei uma cotovelada significativa na costela de , sussurrando um “Não fala pra ninguém que conversamos sobre isso, ok?”. Ele concordou e me largou, dando um beijo apaixonado em Katie enquanto eu e as outras continuávamos o caminho para nossas salas.
- Sabe o que aconteceu com o ? – Cassie perguntou assim que fiquei entre ela e Lizzie. – Tinha que ver quando ele passou por nós, tava todo vermelho e empurrou todo mundo que tava na sua frente, quase bateu no quando ele tentou pará-lo e ainda por cima gritou com o “Aquele filho da puta”. Andreas teve que ajudar os meninos a levá-lo para o banheiro. Ninguém quis nos contar nada.
Não foi preciso mais de uma segunda troca de olhares com Lizzie para ela entender. O que eu deveria contar a Cassie? Não podia basear minha resposta numa hipótese que levantara. Puff, ciúmes? Entretanto, também não queria mais esconder nada dela e de Katie. Ambas eram minhas amigas e era horrível continuar a esconder delas o que tinha acontecido na última semana. Parecia que eu não confiava nelas, mas não era isso. Eu só sabia que elas ficariam como , fantasiando e querendo detalhe por detalhe enquanto eu só queria esquecer.
Certo, decidi contar a elas na nossa viagem, quando estivéssemos apenas nós quatro e as fariam prometer não contarem a e ao . Já conseguia imaginá-lo usando uma blusa com a frase “Team ” estampada na frente e a atrás.
- Ele viu quando o Peter e eu quase nos beijamos e depois ficou assim – resolvi não mentir, afinal não adiantaria muito. Havia testemunhas de que era isso mesmo que tinha acontecido. – Vocês sabem que o odeia minha amizade com o Pete e tudo mais...
- Amizade? – Katie falou daquele seu jeito naturalmente sarcástico. – Só se for da sua parte – deu um sorrisinho bobo e piscou um olho pra mim. Katie notou e sorriu também. – Bem, parece que temos um triangulo amoroso aqui, hum?
Pelo jeito, meu plano de contar só em Londres não daria certo.
- Conta pra gente, ! – Cassie pareceu que iria explodir de felicidade com tal possibilidade.
Eu era a única que não estava gostando disso? É isso mesmo? Vamos ver se eles ficariam tão animadinhos depois de saberem tudo.
- Gente, falem baixo ou vão acabar escutando – Lizzie pediu. Finalmente alguém sensato. – Temos a viagem toda para falar sobre o romance.
O quê?
Abri a boca, não acreditando na punhalada que tinha levado.
- Não existe nenhum triângulo amoroso! Vocês estão drogados, só pode! – chiei baixo, tão chocada que por pouco não cai da escada. Todos os quatro riram da minha cara. – Quem tem romance aqui e não quer admitir é a Elizabeth!
No mesmo instante, Lizzie me olhou como se quisesse me fuzilar.
- Do que você está falando, ?! – explodiu.
- Ih, fodeu... – assobiou.
- Cala a boca, ! – dissemos em uníssono. Ele fechou a boca, imitando um zíper.
Então eu me virei novamente para Lizzie, falando o mais baixo que consegui, sem me mostrar amedrontada pela sua cara feia.
- Você sabe muito bem! Todo mundo sabe! Mas você fica querendo fingir que não gosta do e depois fica se mordendo de ciúmes quando ele aparece com alguém, como aconteceu com a Lola!
- A questão não é essa! – disse nervosa, gesticulando exageradamente.
- Bem, nós estamos indo para a sala – Katie avisou, ficando entre a gente. Só então vi que já estávamos no andar deles. – Ou não, caso vocês querem arrancar a cabeça uma da outra. Podemos ficar assistindo, será divertidíssimo!
- Eu não quero arrancar a cabeça de ninguém – me defendi, cruzando os braços e assumindo um bico como Emma.
- Talvez eu queira – Lizzie ameaçou semicerrando os olhos, mas não levei fé. Ela estava mais envergonhada do que nervosa. Virou-se para os outros três e disse: - Vejo vocês na saída.
Marchou, pisando forte, para a escada que a levaria para o terceiro andar. Suspirei, olhando para todos os lados, menos para os meus amigos.
- Você estava quase conseguindo – Cassie quebrou o silêncio. Levantei uma sobrancelha por causa da sua frase sem sentido. – Sobre o . Ela estava quase te contando.
Fiquei boquiaberta, não acreditando que tinha escutado aquilo.
- Eu não acredito que todo mundo sabe, menos eu! – exclamei magoada. – Vocês – apontei para Katie e Cassie, incriminando-as – disseram, no dia do festival, que não sabiam do motivo da Lizzie falar que o “ fingi que gosta dela”, e eu inocentemente, acreditei! E agora me dizem que eu sou a única que ficou por fora?
- Foi um pacto que fizemos. Pacto de amizade – informou Katie, sem dar mais detalhes, se tratando de um segredo a sete chaves. Ela parecia bem contrariada por estar falando sobre isso – Se você descobrisse, ficaria insistindo para te contássemos e isso não é assunto nosso, não é? – olhou para os outros dois e depois para mim – Desculpa, , mas prometemos a Lizzie que essa história estava enterrada. Se você quiser saber, pergunte a ela. Agora temos que ir pra sala.
Todos me deram beijos na bochecha como forma de consolo e foram para o final do corredor. Eu não podia reclamar, porque afinal, por mais que suspeitassem, eu também não contara a eles sobre toda a história com . Lizzie sabia de tudo e mesmo assim não contara a ninguém. Mas com ela o buraco era mais embaixo! Era injusto!
Fui até o banheiro do meu andar, aliviada por estar vazio já que o sinal havia tocado há 15 minutos. Não estava com vontade de assistir aula. Estava com raiva e magoada com Lizzie.
Comecei a suspeitar de que o que quer que tenha rolado antes de eu me mudar era grave. Bastante grave. Caso o contrário, qual era o problema?
Sentei na pia, encostando minhas costas no espelho que ia até o teto, sem me importar que corria o risco de alguma inspetora me ver matando aula e me levar até a diretora.
A porta se abriu e uma juba em tom vermelho alaranjado preencheu minha visão.
- Pensei que você confiasse em mim – disse seca, fitando minhas unhas recém pintadas de preto opaco.
- Eu não estava preparada para te contar – Lizzie se desculpou com a voz tímida. – Dói muito.
- Você viu como eu estava no domingo? Doeu muito também e mesmo assim eu te contei tudo! Poxa Lizzie, eu entenderia se você não quisesse me contar, mas todo mundo sabe. Como acha que eu me senti?
Ela olhou para mim com os olhos mais brilhantes do que o normal, beirando a súplica. Me lembrei do primeiro dia em que nos vimos e Lizzie, agora, estava longe de ser aquela garota racional, que impôs medo pelo jeito autoritário quando me defendeu sem nem me conhecer. Não que ela fosse um poço de frieza. Claro que Lizzie era amável e doce. Ela só era mais... Reservada com seus sentimentos do que a maioria das garotas. E pela primeira vez desde que nos conhecemos, vi uma Elizabeth frágil transbordando sentimentos reprimidos. Sentimos que eu sabia serem todos direcionados a .
Odiei vê-la daquele jeito. Minha indignação sumira num sopro. Era muito mais importante ver minha amiga bem, do que qualquer curiosidade ou sentimento de exclusão que eu estivesse sentido.
- Não consigo ficar de cara feia com você, cabeça de fósforo! – disse dramaticamente, colocando a mão no coração, na intenção de relaxar nós duas. – Vem cá.
Ela soltou uma risada frouxa e assentiu, cruzando as pernas quando se ajeitou no lugar vazio e seco ao meu lado. Permaneci quieta, não querendo forçar a barra. Estava entre a vontade de querer saber logo o que tanto Lizzie me escondia e a vontade de deixá-la em paz por ver que não era um assunto ao qual era gostava de lidar.
Ela abaixou a cabeça, pensativa, colocando as mãos sobre o colo e soltou um longo suspiro.
- Eu já tinha notado que era apaixonada pelo . Ele me tratava de forma diferenciada como tratava a Cass ou a Katie - começou, falando pausadamente. Sabia o quão difícil estava sendo para ela, por isso resolvi ouvir tudo, e caso surgisse alguma dúvida, só questionaria depois. - Eu tinha uns 13 anos mais ou menos, era muito tímida e insegura. Você já viu fotos minhas mais antigas, eu não era exatamente a Miss Universo. Naquela época eu usava aparelho fixo além dos óculos e bem, não é uma combinação muito atraente, ainda mais quando você é vista como nerd da classe... Nenhum garoto se interessava por mim, por que com o seria diferente? Nós éramos amigos desde os oito anos, quando me matriculei aqui, se ele se interessasse por mim, teria feito algo, certo? - pura bobagem. Não acreditava que Lizzie continuava pensando assim. Nas fotos em que era me mostrara, só tinha visto uma linda menina ruiva com profundos olhos castanhos, aposto que pensava a mesma coisa. Posso apostar que outros garotos também, o problema é que Lizzie se tornara, depois da separação dos seus pais, uma pessoa reservada demais. Como alguém se aproximaria dela desse jeito? Não sei por que mulheres acham que homens não podem ser inseguros também, ainda mais aos 13 anos. - Mas então, ele apareceu com essa garota, Leah. Ela era linda e mais velha. Bem, você sabe o que isso quer dizer, não é? Eu me sentia horrível toda vez que os via juntos ou que deixava de nos encontrar para sair com ela, as meninas ficaram ao meu lado, mas os meninos não sabiam de nada, talvez desconfiasse porque nós sempre conversamos sobre tudo e de vez enquanto eu acabava deixando algum momento paixonite florescer - deu de ombros, enrolando nervosamente as mãos no casaco vermelho. - Eles nem chegaram a namorar, mas aí vieram outras... Até que ele conheceu a Hilary e pronto, se apaixonou - sua voz decaia a cada palavra por causa do choro que tentava segurar. Eu quis abraçar a minha amiga, confortá-la como ela havia feito comigo, mas sabia que se o fizesse, ela se sentiria pior do que estava, acharia que eu estava com pena e não era isso. Eu me senti triste por vê-la triste, por ver que mesmo uma pessoa tão maravilhosa como Lizzie, era machucada sem pena e ainda por cima, pelo meu amigo. - Nessa época tínhamos 14 anos e o aniversário da Katie estava chegando. Bem, você sabe e já presenciou como os aniversários dela são épicos, sempre acontecem algo marcante... - deu uma risadinha desgostosa, beirando a ironia. - Na semana da festa da Katie, a Hilary terminou com ele e começou a ficar com outro garoto, um mais velho do que a gente, na frente da escola inteira. ficou muito puto e na festa, pediu para ficar comigo - ela me olhou, sorrindo triste no exato momento em que uma lágrima solitária desceu pela sua bochecha esquerda, a voz afetada, deixando que algumas palavras tivessem uma entonação engraçada. Olhei para frente, deixando o rosto de Lizzie fora de foco porque tinha me dado vontade de chorar também. Parecia que eu estava na sua pele sentido tudo aquilo. - Eu disse a ele que a gente não deveria misturar as coisas, que ele gostava da Hilary ainda, mas ele disse que não. Eu ainda me lembro exatamente do que ele disse “Eu sempre quis saber como era te beijar e sei que você também. Eu já percebi, ruiva” – ela tapou os olhos, pressionando as mãos nos mesmo, querendo evitar o choro cada vez mais perto. - Ele sabia que eu adorava quando me chamava assim e fazia questão de sempre estar bem próximo, de um jeito tão... Íntimo... - nesse momento, Lizzie não aguentou mais se segurar e começou a chorar copiosamente. Deixou de lado a ideia de cobrir o rosto, descobrindo que não adiantaria nada. - Isso me quebrou, . O cara que eu gostava estava ali, entende? Ali, dizendo que me queria, a nerdzinha esquisita! Eu fiquei toda feliz e cometi um erro: deixei rolar. Ficamos a noite toda, na frente de todo mundo do colégio, inclusive de algumas amigas da Hilary. Katie e Cassie estavam se mostraram tão felizes por mim, e os meninos também. Eu fui apaixonada platonicamente por ele metade da minha adolescência e jamais imaginei que uma coisa dessas aconteceria. Foi uma noite maravilhosa... - pude perceber a mistura de orgulho e triste em sua voz. Orgulho de si mesma por ter tido capacidade de ter despertado, nem que fosse por uma noite, o interesse do cara que gostava e tristeza por saber o que aconteceria logo em seguida.
- Não precisa continuar, Google – querendo confortá-la de alguma maneira, afaguei seus fios chamativos, isso só a fez chorar mais. A abracei de lado, puxando seu corpo trêmulo o máximo possível para perto do meu. Me arrependi de ter insistindo nisso. Se não fosse pelo meu chilique egoísta, Lizzie não estaria nesse estado e muito menos teria que relembrar um acontecimento que continuava a persegui-la depois de tantos anos.
- Não, eu quero te contar tudo. Você precisa saber - fungou, limpando o rosto com a mão livre. Limpou a garganta também, respirando fundo e reprimindo que o choro viesse à tona novamente. - A festa havia sido num sábado e no domingo eu e George tínhamos ido almoçar com o meu pai, então não tive contato com ninguém até segunda de manhã. Quando me viu, ele literalmente, fugiu. Eu o vi correndo de mim! Nós assistimos às aulas próximas um do lado outro, mas não trocamos uma palavra. Sei que pode parecer dramático, mas eu queria morrer, queria chorar, e só me sujeitei a isso no intervalo. Cass e Katie ficaram o tempo todo dizendo que havia sido um insensível e que não me merecia. Eu sei como é se sentir indiferente do cara que a gente gosta, . Sei como é se decepcionar. Entendo exatamente como você ficou com o que aconteceu com o - então ela olhou pra mim novamente. Ver seus olhos vermelhos e mais lágrimas caírem deles, fez meu coração ficar pequeno e crescer uma raiva gigantesca de . Como ele tinha dito coragem de fazer isso com Lizzie? Ninguém é perfeito, mas ele poderia ter usado de outra forma. Ter conversado com ela ou ter evitado tudo isso. - Mas então, no final da aula, ele veio conversar comigo. Disse, sem ser grosseiro, que achava melhor deixar o que tinha acontecido pra lá, que sabia que eu gostava dele, mas que ele não sentia o mesmo. Fiquei magoada, irritada, com raiva... - fungou de novo, emitindo alguns sons estranhos, mas não que não considerei ser de choro. - Mas fiz o que ele havia pedido: deixei pra lá e decidi que iria esquecê-lo de uma vez por todas. Só que nos dias seguintes, descobri, da pior maneira possível, que ele e Hilary tinham voltado; eles estavam se engolindo naquele pátio que Peter te levou. O me usou fazer ciúmes nela! Foi por duas semanas apenas que eles ficaram juntos, até que Hilary terminou de novo. Vieram às férias, e um dia, estávamos bebendo no quintal da sua casa. tinha nos chamado para fazer uma socialzinha só nossa. Helen e John tinham saído com Emma. Compramos muita bebida, ficamos bêbados e acabamos dormindo na sala, esparramados pelo chão. Acordei no meio da noite com muita sede e fui até a cozinha. apareceu, ficou me encarando de um jeito esquisito, e disse que era um grande desgraçado antes de me agarrar e me beijar. Não tentei afastá-lo de primeira, eu queria que aquilo acontecesse mesmo sabendo que era errado. Ficamos muito tempo nos agarrando encostados no balcão, e então deixei que ele que ele colocasse a mão por baixo da minha blusa - ela ficou ligeiramente envergonhada. - Só que ai percebi que, mais uma vez, estava sendo uma presa fácil e o empurrei. Liguei para o George ir me buscar e fui pra casa sem falar com ninguém. tentou falar comigo, mas eu disse que não precisava, que o que tinha acontecido, ficaria apenas entre nós dois e ficou. Conheci meu primeiro namorado numa viagem que eu fiz para uma colônia de férias, o nome dele era Kyle, mas não deu certo, não conseguia gostar dele, o ficava atrás de mim o tempo todo, não conseguia ter paz! Dizia que tinha se arrependido, mas eu sabia que ele só falava isso porque queria ter alguém gostando dele. Então, conheci o Carl numa festa, o brigou comigo quando soube que estávamos namorando, ficamos exatamente um mês sem nos falar e mesmo depois, ele continuou implicando e começou a dar em cima de mim descaradamente... Daí você se mudou pra cá. Eu queria gostar do Carl, mas não consegui. Perdi minha virgindade por pressão dele, por ser teimosa em estar com uma pessoa que eu não gostava e pra provar pro que eu conseguia sim ficar sem ele. Fui uma grande imbecil, eu sei. – deu de ombros e suspirou. – E pra completar, nós ficamos na festada Katie... Mas foi só um beijo idiota, nada mais!
Lizzie nem esperou que eu dissesse algo. Pulou de cima de pia, endireitando-se através do seu reflexo no espelho. Minha amiga estava se recompondo, lacrando, novamente, seus sentimentos depois de tê-los exposto tão clara e verdadeiramente para mim. Admirável para alguns, complexo para outros.
Qual é a garota que não gostaria de poder esconder tão bem o que sente? Parecia tão fácil para Lizzie...
- Não é – disse, enigmática, ainda entretida com a sua imagem. Entendendo que eu não tinha entendido, acrescentou. – Guardar meus sentimentos. Não é fácil para mim também, . Só que eu tive que aprender a lidar com eles. Na verdade eu ainda estou no aprendendo.
- Você ainda gosta muito dele, não é? – eu sabia que a resposta era óbvia, mas não queria que Lizzie admitisse para mim e sim para ela.
Olhou para um ponto na pia, parecendo distante.
- Eu nunca gostei de nenhum cara como gosto dele – ela soltou um suspiro de alívio e detectei que mais declarações seriam feitas. - Às vezes eu acho que vou explodir com tanto sentimento misturado dentro de mim; numa hora que eu quero esganá-lo e na outra eu me derreto quando ele fica olhando pra mim ou diz algo fofo – ela voltou seu rosto pra mim, entortado a cabeça. – Você se sente assim com o ?
- O tempo todo – admiti sem pensar duas vezes. Lizzie sorriu de lado, vitoriosa. – Não faz essa cara...
- Você sabe o que isso quer dizer, não sabe?
Dei de ombros, indiferente. Não era hora de falar de mim.
- Por que você não dá mais uma chance ao ? – fingi não escutá-la. - Eu sei que você fica receosa, mas ele pode ter mudado.
- O também. Por que você não aceita o pedido de desculpas dele?
- Bem, digamos de depois daquela tentativa de falar comigo no vestiário feminino, ele não tenha tentado mais – odiei ouvir que minha voz ao invés de sair indiferente, soou tão frustrada. - Uma ajudinha aqui, por favor?
Ela estendeu a mão para me ajudar a descer da pia enquanto dizia:
- Não vou nem comentar que você está fugindo dele como o diabo foge da cruz.
- Muda o disco, por favor! – resmunguei, me ajeitando como ela havia feito para depois ver as horas no meu celular. – Parece que alguma nerdzinha aqui perdeu a aula de Matemática.
- Puta que pariu! – Lizzie me emburrou em direção a porta e eu comecei a rir com o seu nervosismo repentino.
Chegamos a tempo de encontrar a professora saindo da sala. Demos a desculpa de que estávamos na enfermaria e por sorte, ela gostava de mim e de Lizzie e disse que não nos daria falta. Nos passou o exercícios feitos na aula e os de casa. Feito isso, sentamos em nossas respectivas cadeiras esperando a próxima aula.
Durante o último tempo, fiquei pensando na história envolvendo o . Nunca tinha imaginado que as cenas que presenciava de Lizzie e ele poderiam machucar minha amiga. sempre pareceu gostar tanto dela, ser tão atencioso e preocupado. Aquela briga entre ele e Carl no aniversário da cidade não poderia ser apenas fachada. Nenhum cara se arrisca a apanhar por nada. Eu dava razão a Lizzie por ficar hesitante com reação aos sentimentos que “dizia” ter por ela, mas como ela poderia saber se ele estava ou não falando a verdade se não se arriscava? Chegava a ser hilário eu tentar solucionar os problemas dos outros sem nem saber a fórmula exata para o meu.
Por ficar viajando e tentando pensar em algo para ajudar meus amigos, acabei demorando um século a entregar o questionário sem direito à consulta sobre Sistemas Reguladores que valia dois pontos na média. Aos poucos a sala foi ficando vazia e Lizzie, que obviamente foi à primeira porque já sabia tudo de cor e saiu antes do horário, pediu para que eu a encontrasse na biblioteca ou caso demorasse mais, no pátio.
Depois de enrolação e chutes nas respostas, entreguei o questionário, não aguentando mais ter que segurar o xixi. Tirei meu cachecol, o colocando dentro da bolsa e mandei uma mensagem para Lizzie avisando que já estava livre e aproveitando que os corredores estavam vazios por causa da hora, fui até o banheiro do segundo andar já que o do meu estava sendo limpo no momento. Ao passar pelo laboratório de química, ouvi o barulho da porta se abrindo atrás de mim e meu braço direito foi puxado com força. Meu grito de susto foi sufocado por uma mão grande e fui puxada com tudo para dentro da sala com a luz apagada. Minha bolsa encarregou pelo meu antebraço com o movimento brusco, caindo no chão e meu corpo bateu contra a parede ao lado da porta, que foi trancada logo em seguida. Arregalei os olhos por causa do susto, ainda com a boca coberta, tendo meu campo de visão preenchido por com o semblante sério e decidido.
Como ele sabia que eu estava passando por ali?
- Eu vou te soltar, mas você tem que prometer que não vai gritar – pediu, com o rosto próximo ao meu, me fazendo engolir em seco. Confirmei com a cabeça, sentindo seu aperto no meu braço afrouxar imediatamente.
Me mantive imóvel depois de ser totalmente liberada, sem ter nenhuma intenção de quebrar o contato com os olhos hipnóticos de . Ficamos nos encarando por segundos e segundos exatamente como na cozinha mais cedo. Meus olhos faziam o caminho dos dele até seus lábios entreabertos, me chamando, implorando para que eu os tocasse com os meus. Antes que pudesse acontecer algo, deu as costas para mim, parando perto de uma das extensas bancadas. Só assim consegui me sentir mais plena dos meus atos.
- Não quis te assustar e muito menos te machucar, mas você não me deu alternativa. – ele se virou, falando no tom necessário para que apenas nós dois pudéssemos escutar.
- O que você quer? – questionei da melhor maneira impertinente que consegui, começando a andar pela sala. Por dentro eu estava vibrando em saber que ele ainda se dava ao trabalho de demonstrar que estava se importando, mas nem em um milhão de anos mostraria que estava mexida com tal ato.
Ele hesitou, pensando em suas próximas palavras, notando o meu comportamento e enfiou as mãos nos bolsos da jeans.
- Tudo bem, vamos por regras aqui – sua expressão suavizou, mas sua voz continuou firme. – Vamos conversar civilizadamente, sem xingamentos nem nada, você me deixa falar e depois é a sua vez, ok?
- Pensei que já tivéssemos dito tudo o que precisávamos – passei por ele, olhando por toda a sala parcialmente escura se não fosse pela luz que entrava pelas janelas largas. Senti os olhos de cravados nas minhas costas e quando voltei, encostando-me na bancada a sua frente, ele tentou ser mais rápido, olhando para seus All Star azul marinho.
- Não estou falando de domingo, ... – ele entendeu a referência que eu tinha feito, dizendo as palavras como se deixasse desculpas subentendidas. – Essa semana toda você ficou me evitando. Segunda nem ao menos parou para ouvir o que eu estava dizendo, simplesmente saiu correndo do vestiário...
- Não estava correndo de você, Du Schwein! - interrompi, dando um passo a frente, reforçando minha palavra.
- O que você disse? – perguntou confuso, também dando um passo na minha direção, tirando as mãos dos bolsos e ficando numa postura ereta. – Ah, esquece! Eu vou falar de qualquer maneira, você querendo ou não. Tranquei a porta e a chave está no meu bolso! - retomou o rumo da conversa, dando um sorrisinho cínico enquanto apontava para seu bolso esquerdo. – Não há escapatória.
- É? E se eu desse um chute nas suas bolas? – ameacei. Com certeza a ideia não estava tão longe de ser posta em prática. - Você não continuaria se achando O tal se estivesse agonizando no chão!
- Você me dar um chute? – perguntou pausadamente. quis reprimir uma gargalhada e acabou por soltar uma risada nasalada. - Só pode tá brincando comigo, né? Você não tem reflexo pra isso!
Dando mais passos pra frente, deixei uma distância sadia para mim, mas o suficiente para ter o efeito certo das minhas próximas palavras:
- Geht zu Hölle! – xinguei novamente, cutucando seu peito com força, não vacilando nem um segundo ao olhar diretamente em seus olhos.
- Ah você é a Super Pirracenta, sabia? Até deveria usar um uniforme especial por debaixo da roupa, assim toda vez que algo aconteceu que não te agrada, você arranca e mostra seus super poderes! – implicou, achando graça da careta que eu fiz ao ouvir o novo apelido idiota. – Daí você pode nocautear todo mundo com as suas armas secretas: O Soco da Irritadinha e o Grito da Mimada!
- É preciso ter uma paciência oceânica pra aturar você! – revirei os olhos, indo até minha bolsa jogada. Forcei a maçaneta, não obtendo sucesso. – Abre – mandei sem me dar o trabalho de virar.
- Você não manda em mim. – negou teimoso com a mesma superioridade que eu usara.
- Ótimo, eu me viro sem você! – exclamei já sem paciência nenhuma, forçando novamente a porta. Dei uma chacoalhada na maçaneta, e a porta fez um barulho e tanto.
Ouvi passos apressados atrás de mim, mas antes que eu tivesse tempo de fazer algo a respeito, pegou o meu braço e me girou rápido, fazendo minhas costas baterem na mesma parede de antes e minha bolsa cair, de novo. A região da minha pele que estava presa formigava enquanto nossos corpos estavam quase colados. Só de pensar que em apenas um puxão eu poderia selar nossas bocas, meu coração foi na boca. Prendi a respiração e minha temperatura ameaçou a elevar drasticamente.
abriu a boca, sem emitir nenhum som, percebendo em que posição estávamos. Pela segunda vez no dia, meu ego inflou; estava tenso por estar desse jeito comigo.
Mas que merda! Quem eu queria enganar? Eu também estava tensa com aquilo tudo; apenas estava tentando tapear meu nervosismo e ansiedade com respostas secas para que nem eu e nem ele notássemos. Patética.
Mesmo não tendo comido nada até o momento, meu estômago dava cambalhotas enjoativas suplicando para que nada fosse ingerido; meus olhos não deixavam sequer um movimento de escapar e minhas pernas bambas não se arriscavam a se mexer caso o contrário eu corria o grande risco de cair com qualquer movimento brusco.
- Por que você faz isso comigo? – perguntei, encurralada.
- Você é a pessoa mais egoísta que eu conheço – escondeu o rosto no vão entre o meu pescoço e ombro, esfregando seus lábios pelo caminho todo até meu ouvido – Acha que eu sou de ferro? Que não sinto nada?
- Você está me machucando! – prendi a respiração, ficando toda arrepiada quando o nódulo da minha orelha foi levemente mordido. Me remexi o máximo que pude, não tendo nenhum sucesso. Quando mais tentava escapar, mais me prensava.
- Você tem me machucado todos os dias com a sua indiferença e eu tenho aguentado – disse ácido, mas afrouxou o aperto nos meus pulsos - Olha o que você está fazendo comigo! – ele apontou pro próprio rosto, indicando suas olheiras.
Inclinei a cabeça para o lado como se perguntasse “E então?” e o canto direito do seu lábio foi repuxado, formando um sorriso enviesado. Um sorriso irritantemente charmoso e sacana, exatamente como o do que eu conheci. Tudo agora estava diferente. Não era apenas implicância boba ou o jeito como me olhava. As situações haviam se tornado extremas; todas as sensações que eu sentia por tê-lo por perto eram extremas. E com perdão necessário da dramaticidade; tudo tinha indo para um caminho sem volta. Para ambos.
Talvez, por entender a minha reação como um convite, largou o meu pulso, fazendo sua mão deslizar suavemente por todo o meu braço. Fiquei encurralada entre seus braços estreitamente organizados em cada lado do meu corpo, as mãos apoiadas na parede. Tão perto, a distância quase inexistente...
- ... – adotei um tom mais ameno, arrastando a pronuncia do seu nome, forjando autocontrole. Pisquei demoradamente, detectando sua presença a centímetros de mim, sua boca a centímetros da minha... Era pressão demais ter que suportar tanta aproximação e ter que suportar a minha decisão de repeli-lo.
- Já não disse pra você não me chamar assim? – sussurro suavemente. Quase pude sentir seus lábios roçando nos meus enquanto falava. Quando reabri os olhos, parecia meio desligado, encarando minha boca. Seu cheiro inconfundível estava tão perto e tão forte, que causou torpor e abrandamento da minha pulsação, produzindo uma espécie de inércia física e mental em mim. Não conseguia me mexer de tanta expectativa, esperando uma reação dele. Qualquer uma que fosse.
Ele uniu nossas testes, segurando delicadamente o meu rosto com suas mãos macias, como se tivesse medo de que eu pudesse escapar. Fiz o mesmo, a respiração quente batendo no meu rosto, fazendo com que toda aquela ideia de ir embora fosse esquecida. Onde eu estava com a cabeça para pensar uma coisa dessas se minha pele estava em brasas só pelo simples fato de estar tão próximo da dele daquela maneira?
- Pensei ter escutado você dizer que não queria que eu te tocasse mais – quebrou o silêncio, os olhos fechados, se concentrando no momento.
- Parece que você não me obedeceu, né? - segurei sua mão que estava em minha bochecha, querendo transmitir meu calor também. O único barulho na sala eram nossas lufadas de ar que já não saiam apenas dos nossos narizes, uma contra a outra, pele contra pele.
A ponta do seu nariz se esfregou na ponta do meu, num beijo de esquimó e eu apenas me dei levar, esticando o pescoço e ficando na ponta dos pés, entorpecida e me sentindo plenamente satisfeita. Era surreal. Se eu não o tivesse tocando e sendo correspondida, acharia que estava sonhando acordada.
- É uma tarefa difícil, sabe.
Dei um sorriso fechado, sentindo todos os pelos possíveis do meu corpo se manifestarem quando esfregava seus dedões nas minhas bochechas num carinho inocente. Sem conseguir evitar prosseguir, deslizei minhas mãos pelo seu pescoço, ombros, me deliciando com cada com cada região que tinha contato, parando em seu peito e puxar o pano do seu suéter cinza-chumbo, só para ter certeza de que não estava tendo uma alucinação. Eu estava, mais uma vez, encontrando o meu refúgio; a minha proteção. não era um substituto para os meus problemas, ele só os fazia parecerem menos complicados e mais fáceis de serem enfrentados; tudo se encaixava.
A saudade de ficar tão perto dele daquela maneira era quase irracional. Ela gritava dentro de mim, explodia através dos meus poros, da minha respiração, em cada batimento cardíaco. Não precisa de mais nada. Se não me queria como eu o queria, que pelo menos pudéssemos ficar quietinhos, até a maldita saudade diminuir, quem sabe desaparecer. Ali e só ali, eu me contentaria com pouco.
Eu precisava admitir que mexia comigo de um jeito que jamais nenhum outro cara mexera e que saudade que eu sentia dele era sem dimensão. Os meus sonhos eram provas disso. Minha cabeça gritava “Não”, mas meu coração suplicava “Sim, sim, sim. Deixe-o continuar”. Quem eu deveria obedecer, afinal?
- Bem, acho que somos contraditórios com o que queremos – voltou a falar aos sussurros.
- Você é um cafajeste, cretino e idiota isso sim... – e você é uma babaca trouxa que se rende a qualquer aproximação.
Nos separamos, mas não muito. Só o suficiente para que pudéssemos nos fitar. Ainda era possível inspirar o hálito fresco naturalmente que tinha, misturado com algo doce, o que tornava tudo melhor. Pisquei lentamente mais uma vez, umedecendo os lábios.
- Eu tento, mas... Eu não aguento – soprou com uma expressão angustiante em seu rosto. Moveu sua mão direita para minha nuca, segurando os fios do meu cabelo sem força e eu me tremi toda, minhas pernas bambeando, fazendo o máximo para permanecerem firmes.
- Não aguenta o que, ? – eu estava desnorteada, puxando o ar pela boca, controlando a vontade de atacá-lo.
- Ficar mais tempo sem fazer isso – ele inclinou seu rosto na direção do meu, e ao invés se encostar seus lábios nos meus, beijou o canto da minha boca de um lado e depois do outro. Quando pensei que finalmente fosse me beijar, ele desviou do meu rosto e foi até o meu pescoço, colocando meu cabelo para trás e me cheirando profundamente atrás da minha orelha. No reflexo, me encolhi, sentindo uma pontada forte de excitação vindo do baixo ventre, e tirando proveito disso, foi para o outro lado do meu pescoço.
- Eu sou um menino mau. Vai me castigar? - ele puxou o ar mais uma vez, me deixando arrepiada deu uma forma que nunca tinha tido antes, - nem mesmo nas outras vezes que estive com ele -, começando no final da espinha, subindo até minha nuca, me fazendo sobressaltar um pouco. Riu satisfeito com o efeito que causara, e me cheirou de novo, dessa vez passando a ponta do seu nariz do caminho por toda a região. Amoleci, sentindo uma tonteira de repente. Era como se eu tivesse tomado um choque de 220volts. Meu coração estava tão acelerado que por um momento achei que fosse ter um ataque ali mesmo, em seus braços. Estava fora de órbita.
- Talvez... – balbuciei, não pensando exatamente na frase formulada. - Se você continuar sendo idiota...
Soltei um murmúrio, não conseguindo me conter quando me cheirou pela terceira vez, arrastando sua boca e seu nariz pelo meu pescoço. Minhas mãos agarraram ainda mais o suéter, puxando seu corpo contra o meu e automaticamente fui prensada com vontade contra a parede, por pouco não sendo esmagada com o atrito das minhas costas contra a parede.
- Seu sotaque é tão lindo - se contraiu contra mim quando minhas unhas entraram em contato com a sua pele macia, arranhando as laterais do seu tronco por dentro do suéter. Soltou o ar pesadamente, puxando os fios da minha nuca, dessa vez com mais violência, e me olhou como se dissesse “Eu estou no comando” refletindo luxúria e desejo em suas íris brilhantes.
Como uma explosão, provou os meus lábios com a ponta da língua e sem nenhuma pressa, pediu passagem para a sua. O beijo era vagaroso, libidinoso e intenso, encaixando nossas bocas perfeitamente de forma quase bruta tal era a força que mantínhamos uma na outra com as pontas dos nossos narizes se esfregando, fazendo pressão uma na outra, mudando a posição dos nossos rostos. Minha cintura foi enlaçada com firmeza e sem dificuldades, meus pés ficaram a centímetros do chão quando fui levantada ao mesmo tempo em que joguei os meus braços ao redor do seu pescoço, embrenhando meus dedos nos fios da sua nuca, arranhando a região bem de leve, aumentando o ritmo do beijo, com nossas línguas se enroscavam sensual e urgentemente agora.
Era chocolate.
O cheiro adocicado que eu detectara junto com seu hálito era chocolate. A junção mais apetitosa do mundo: e chocolate, só pra mim.
Chupei sua língua com gana, querendo ter o gosto do doce também na minha boca. Fui carregada às cegas pela sala, com tomando o cuidado para não esbarrar em nada, até encostar minha lombar em uma superfície sólida. Sem desgrudar nossas bocas, mas com a sua ajuda, me escorei na bancada atrás de mim, ouvindo algo de vidro cair outro lado do móvel.
- Abre as pernas... – pediu com a voz rouca e ofegante. Fiz o que ele pediu e imediatamente já estava encaixado entre elas, pondo as mãos por baixo das dobras das minhas pernas, me puxando num movimento rápido e firme, quebrando qualquer distância que pudesse existir entre corpos. Arfei contra sua boca; seu sexo volumoso e rígido grudado em contato com o meu, me fazendo lamentar, com meu lábio inferior preso entre os seus, por estar usando calça jeans e não poder sentir direito sua ereção contra mim.
Péssima escolha de roupa para o dia, . Péssima!
Entre o beijo enérgico e afoito, ouvi o ruído discreto do zíper do meu casaco sendo aberto e no instante seguinte, a mão de apertou da minha cintura até abaixo até um dos meus seios, retornando do primeiro ponto ao segundo diversas vezes.
Sua mão ágil apalpou com vontade meu seio, sentindo meu bico enrijecido com a ponta do dedo, retardando o ritmo do beijo.
Ofeguei quando sutilmente quebrou a barreira da minha blusa e dedilhou a minha barriga até o seio de antes, puxou para baixo a sutiã e encostou lentamente a ponta do seu dedo no meu mamilo. começou a movimentar seu quadril na direção do meu, me fazendo suspirar alto quando seu volume roçou gostosamente na minha intimidade. Mordi seu lábio razoavelmente com força, assumindo a velocidade harmoniosamente das nossas línguas, voltando a deixá-las se entrelaçarem famintas, pondo uma mão sobre a que ele mantinha no meu seio, demonstrando como eu queira ser tocada, e a outra voltou para dentro do seu suéter, arranhando o caminho exato da sua coluna vertebral.
- Gostosa - soltou sonoramente, cheio de tesão, mantendo uma mão beliscando o meu bico e a outra apertando a minha coxa, colocando-a na altura do seu quadril. Saboreei a palavra, completamente extasiada ao ouvi-lo me chamar assim, estreitando o contato dos nossos corpos cruzando minhas pernas na sua cintura. Ele gemeu sofregamente, e em resposta, envolveu meu seio e o apertou com força o suficiente para deixar minha libido em proporções inimagináveis até então. Eu estava a ponto de bala, desejando arrancar suas roupas, e de modo desesperado, procurei saciar aquela vontade urgente, procurando o botão da sua calça.
afastou um lado do meu casaco, levando junto a alça da minha blusa, passando os lábios úmidos pelo meu ombro enquanto eu tentava me concentrar na tarefa de descer o seu zíper. Sem querer facilitar as coisas pra mim, ele mordeu levemente o meu ombro, trilhando o caminho do meu pescoço devagar. Ao mesmo tempo em que eu não queria deixar de tocá-lo, eu também queria apenas sentir seus toques em mim; meu corpo entrava em combustão a cada toque. Era como se eu estivesse no inferno e, a cada carícia, cada beijo, cada minuto que eu passava nos braços de , eu encontrasse o paraíso; o remédio certo para a dor interna que eu sentia o tempo todo, mas não sabia por que. Eu não sentia absolutamente nada, exceto prazer. Exceto a sensação de plenitude, de leveza e a vontade de querer que isso durasse por mais e mais tempo.
Com ambas as respirações entrecortadas, brinquei com o elástico da sua boxe. arfou. Beijei e mordi seu queixo, descendo para o pomo-de-adão, deslizando minha mão provocativamente por toda a extensão do seu membro por dentro da boxe, o sentindo pulsar com a carícia, o envolvendo, enquanto meu pescoço era atacado com chupões e mordidas das mais variáveis níveis.
- Caralho... – xingou na intenção de obter mais controle sobre si, procurando ansiosamente pela minha boca, terminando de tirar o meu casaco e inclinando seu corpo para cima do meu até me deitar na bancada, beijando o meu maxilar, em direção ao meu busto, beijando a parte de cima dos meus seios que era possível ser vista sem expô-los. Levantei a cabeça, observando perspicaz, o próximo passo de . Ele parou de repente, inclinando a cabeça pro lado e olhando para o fecho da minha calça, emoldurando as curvas do meu quadril com as mãos.
- ? – o chamei baixo, alguns segundos já gastos. Estávamos perdendo tempo! - O que foi?
Ele me olhou de cima, as íris penetrantes faiscando como se quisesse me virar do avesso.
- Estou tentando adivinhar como é a sua calcinha; que cor ela tem, se é pequena, de algodão ou rendada como aquela última; a preta que você estava usando... – respondeu, curvando os lábios para cima, encapetado, mostrando suas intenções. Minhas bochechas pegaram fogo por ele se lembrar de como era minha roupa íntima de sábado.
- Ficou envergonhada com que eu disse? – seu sorriso aumentou. Um sorriso de tirar o fôlego.
- Não estou acostumada – mordi o canto da boca, fazendo de tudo para não ver sua cara. Minhas bochechas pareciam querer me entregar porque não paravam de queimar por estar sendo encarada daquele jeito safado de .
- Você fica linda assim – me deu um selinho demorado, antes de levar o rosto até o cós da minha calça, distribuindo beijos molhados pelo meu tronco.
Meus cotovelos não aguentaram e deitei de novo, arqueando as costas e mordendo meu dedo indicador, contendo um gemido, sentindo a ponta da sua língua rente ao botão, fazendo a trilha até o meu umbigo, para depois dar pequenas mordidas ao redor e estender por toda a minha barriga conforme ia subindo a minha blusa aos poucos. Sufoquei uma gargalhada, me contorcendo quando os dentes de se fecharam na lateral do meu tronco, fazendo cosquinha.
- Para com isso! – movi meu corpo de um lado para o outro, tentando me livrar de .
- Não é hora de rir, Sr.ª – grudou nossos lábios, escorregando as mãos para dentro da minha blusa, me fazendo parar de rir na mesma hora. – Você gosta quando eu te toco assim, não gosta?
- ... – ignorei a vontade de querer revirar os olhos. Puxei sua blusa pra cima, não conseguindo tirá-la, pois resolvera ficar no meu pescoço, dando chupões leves, as mãos nas passadeiras do meu jeans, forçando meu sexo contra o seu corpo.
Uma música começou a tocar. O som era abafado e de certa forma continuava audível. Reconheci a música, mas no momento não conseguia relacioná-la a nada. Havia alguma coisa errada nisso.
mordeu meu nódulo, despreocupado com tudo ao redor, depositando seu peso em mim e por um momento voltei a corresponder seus toques, apertando seus ombros e jogando a cabeça pra trás, lhe dando mais acessão ao meu pescoço.
Foi então que a música chegou ao refrão e eu me toquei que era o meu celular tocando.
- Preciso atender meu celular – disse, tentando me levantar, empurrando . Ele não me respondeu, apertando a minha coxa com vigor. – Você não tá ajudando...
- Ah, não... Daqui a pouco ele para de tocar – apertou perto da minha virilha, tencionando abrir a minha calça, não se movendo um centímetro de cima de mim. Ele afastou a outra alça da minha blusa, por pouco não revelando meus seios.
- É sério, – lutei contra o desejo que não interromper. - A música vai chamar a atenção de alguém.
- Celular de merda! – exclamou irritado, se afastando de mim a contra gosto. Pegou a minha mão, me ajudando a descer.
Abaixei minha blusa, pondo das alças de volta, dando passos largos até a minha bolsa, agachando e pegando o celular. O nome de Lizzie aparecia piscando no display. Engoli saliva, ajeitando a voz antes de atender.
- Ei, onde você tá? – disparou sem me deixar falar.
- Eu... – fiquei de costas para , checando se não tinha ninguém no corredor. – Eu tô resolvendo um problema com o ...
- Resolvendo um problema com o ? Esse tempo todo? Sei... – soltou uma risadinha sarcástica. – Se livra dele e vem logo pro pátio. O sinal já vai tocar!
Foi só falar que o sinal tocou.
- Tudo bem, já tô indo – desliguei, e uma imagem de uma cartinha apareceu na tela. Apertei para ver a mensagem com o nome de Peter no final.
“Posso te ver na hora da saída? Preciso muito conversar com você.”
Meti o celular de qualquer jeito na bolsa, sem me preocupar em responder. Não havia tempo para isso.
colocou a mão na nuca, me encarando com cara de cachorrinho que caiu da mudança. Ele não queria que eu fosse embora, muito menos eu. Seu rosto estava vermelho, os lábios inchados, os cabelos em pé, a blusa amassada... O zíper aberto. Eu tinha feito um belo estrago.
- Lizzie tá me esperando no pátio – informei. Fui até a bancada para pegar o meu casaco. No movimento, meu corpo roçou no dele, que permanecia na mesma posição desde que eu levantara. Quando ia me afastar de vez, me pegou pelos cabelos, enfiando a língua na minha boca, sem delicadeza. Um beijo bruto, de tirar o fôlego, tomado pelo o desejo que tínhamos um pelo outro.
- Não queria ter que deixar você ir embora – disse pesadamente, finalizando o beijo com um selinho. Então ele me deu outro, e depois outro.
- Mas eu preciso ir. E você também – espalmei as mãos em seu peito. Desviei meus olhos do seu rosto, olhando para minhas mãos. Era assim que terminaríamos sempre que nos beijássemos?
- Podemos conversar em casa, quando você chegar da detenção? – levantou meu queixo, procurando nivelar nossos olhares. – Vai ser uma conversa diferente da que tivemos. Podemos almoçar juntos agora, eu vou para casa terminar de arrumar minhas coisas, e volto para te buscar quando você terminar a detenção. O que acha?
- Eu acho que você tá fazendo planos demais – rimos juntos, colando nossas bocas pela última vez. Fui me distanciando devagar sem que ele percebesse e quando menos esperava, me deu um puxão de volta.
- Vai me ligar quando acabar por aqui? Você sabe que não vamos pode conversar no caminho até Londres. O carro vai tá lotado... – ele não estava com a barreira de proteção em seus olhos, como fazia antes. estava querendo que eu enxergasse que ele estava sendo sincero. Queria que eu acreditasse nele.
- Tudo bem. Eu te ligo – decidi confiar. Meu sexto sentido estava concordando com a minha escolha. – Agora posso ir?
Assentiu sorridente, afrouxando seus braços ao meu redor.
- Eu vou depois de você para ninguém perceber nada.
Vi a grande movimentação pelo corredor de alunos saindo das salas, subindo e descendo as escadas, e abri a porta, saindo de mansinho. Ajeitei minha bolsa no ombro e o casaco na outra mão, me juntando as outras pessoas.
- , aqui! – Cassie acenou, surgindo entre a multidão, perto do seu armário. Katie estava ao se lado com cara de poucos amigos.
- O que foi? – perguntei à morena. Katie bufou, cruzando os braços, reprimindo sua raiva.
- Ela e brigaram – Cassie retorquiu, mexendo no interior do seu armário. – Ela deu ataque de pelanca por causa da Gemma Morgan que deu em cima do no final da aula.
- Gemma Morgan? Mas ela não era a fim do ? – questionei confusa.
- As coisas andam mudando por aqui, né?
- Cala a boca, Cassie! – Katie se impôs, autoritariamente. - Eu não quero mais ter que ouvi sobre aquela arrombada!
- Por que você tá gritando comigo? Eu não fiz nada! Sempre que você briga com o fica descontando sua raiva nos outros! Se toca, Katherine!
Algumas pessoas que passavam ficaram olhando para a pequena discussão, que se estendeu por longos minutos. Eu tentei intervir, mas nenhuma das duas me deu atenção. Aquilo foi me fazendo mal. Uma gritando com a outra, a muvuca de gente passando. O ar foi ficando abafado, a cena em câmera lenta, minha cabeça rodou e eu me senti nauseada. Respirei fundo, mas não melhorou em nada.
- Onde você tá indo? – estavam falando comigo? Dei passos curtos para frente, andando desengonçadamente. O que estava acontecendo comigo? Eu estava tão bem há poucos minutos... Estrelas dançavam diante de mim, piscando e sumindo depois.
Alguns alunos foram abrindo espaço para eu passar, me olhando assustados. Eu devia estar com uma cara horrível.
Meu cérebro demorava a processar as informações, deixando tudo em slow motion. - , o que você tá sentindo? – alguém chamou. Talvez fosse Katie, não sei. Eu consegui virar a cabeça na direção de onde vinha a voz, mas foi tudo muito devagar, quase parando. Era a imagem destorcida de Cassie.
Tarde demais. Meu pé pisou em falso e torceu.
- ! – vozes gritaram horrorizadas.
Cai, o impacto do primeiro degrau da escada atingiu no meu corpo, rolando até embaixo como uma boneca de pano. Numa dessas cambalhotas, bati com força em algo sólido e continuei descendo, até cair estatelada no chão, sem força ou vontade para me mexer. Tudo doía no mínimo esforço. Eu não conseguia respirar direito. Meus pulmões estavam em chamas. Tudo rodava. Algo quente escorreu pela minha testa, minha cabeça latejava como se fosse explodir. Toquei o meu rosto, vendo um líquido vermelho vivo nos meus dedos.
Ouvi passos perto de mim, pessoas formando uma agloremação. Vozes me chamando.
- Ai meu Deus... Precisamos tirar ela daqui agora! – pensei em ter ouvido Cassie. Ela se ajoelhou perto de mim, passando a mão pela minha testa. – Katie, ela tá sangrando!
- Saiam da minha frente! – era uma voz masculina entre outras vozes que não paravam de dar palpites sobre o que deveriam fazer comigo. Não quis tentar adivinhar quem era, daria muito trabalho e quanto menos esforço eu fizesse, melhor.
A pessoa enfiou uma mão por debaixo das minhas costas e outra por debaixo das minhas pernas, e com um impulso me levantou do chão. Aquilo machucou muito; minha cabeça rodou rápido, desprendendo do meu pescoço, piorando minha náusea. Eu gemi e fiz uma careta, agarrando o pescoço de quem me levava nos braços, enterrando meu rosto lá quando a pessoa se moveu.
- Você vai ficar bem – prometeu beijando minha testa, me sustentando com cuidado. Eu queria muito acreditar em sua promessa, mas parecia tão difícil... – Katie, chama o , ou qualquer um dos caras! Rápido!
- ! – Lizzie apareceu nos degraus que levavam para o primeiro andar. Começou a chorar quando me viu, correndo na nossa direção. – Precisamos levá-la para um hospital!
- Vai abrindo a porta do meu carro, pega a chave no meu bolso – apertei meus braços em seu pescoço, morrendo de dor. tentava descer sem me mexer, mas era impossível. Eu não podia olhar o caminho caso o contrário, vomitaria em nós dois.
- ! – distingui a voz de Peter. – O que aconteceu com ela? – ele foi nos acompanhando, andando ao lado de .
- Ela caiu da escada. Vou levá-la ao hospital agora. Não tenho tempo de falar com você. Liga para uma das meninas depois.
Andar pelo estacionamento nos braços de foi torturante. Ele tentava me carregar sem se movimentar muito, mas eu sentia cada passo que seus pés davam no chão. Então, quando eu achei que nada poderia pior, piorou. tentou me colocar no banco de trás do carro e eu simplesmente não o soltei.
- Vai ficar tudo bem, - cochichou no meu ouvido. - Você pode me soltar agora.
- Não consigo... - disse com a voz afetada. Fiz outra careca, sentindo meu corpo fraco, sem vida.
- Eu quero te ajudar, vamos, me solta - falou de novo, a voz gentil, aveludada.
- Não... Por favor, ... – eu só queria que ele calasse a boca ou parasse de me fazer perguntas. Responder me levava a um grande esforço.
- Tudo bem, eu vou com você aqui. Lizzie, abre a porta para mim? - o clique automático da porta disparou e vi se relance Lizzie abrindo a porta. sentou com dificuldade no banco, mas ainda tomando todo o cuidado comigo. Nos ajeitamos, eu sentada em seu colo, a cabeça em seu ombro, as pernas flexionadas no banco. - Está melhor agora? - alisou os meus cabelos, passando o dedo pelo meu corte.
- Não, mas vou ficar. É só você continuar perto de mim - meu corpo estava inerte. Não havia forças para mais nada.
- Onde tá doendo?
- Tudo.
Eu estava tonta novamente. A câmera lenta voltara. As estrelas também. Minha cabeça pulsava, ela iria explodir. Eu sabia disso. Eu sentia isso. Cada órgão do meu corpo clamava de dor.
Cortinas pretas taparam a visão que restara. E então eu apaguei.

Dicionário (com participação total de Cáa Pardine):
Du Schwein -> Seu porco, no sentido de seu filho da puta.
Geht zu Hölle -> Vá pro inferno.

Capítulo 18

Música do capítulo: Kyle Patrick - Another Life | Letra

Senti algo macio e quente encostou quase que imperceptivelmente na pele da minha bochecha e ao se afastar, deixou um pequeno rastro molhado pelo local. E então senti de novo, mais perto a minha boca. O rastro foi se espalhando por todo o meu rosto sem que eu pudesse pensar direito sobre o que estava acontecendo. Meus cílios pareciam estar, cada um, sendo segurados por fios muito finos, sustentando bigornas que impediam que eu pudesse abrir os olhos. Isso não me assustou. Ao contrário da maioria das pessoas eu não estava assustada por não poder ver. Eu estava tranquila, relaxada... Eu sentia que estava segura. Até poderia sorrir, se isso me fosse permitido.
Meu rosto foi acariciado com suavidade, assim como os meus lábios, um de cada vez. Era um carinho sutil, mas delicioso, agradável e bem vindo. O que estava pelo meu rosto, foi para um dos meus braços e o levantou, fazendo com que assim, minha mão também recebesse o carinho. Aquilo era quase terapêutico. Havia uma fragrância no ar... Forte, gostosa... Familiar... Mas que eu não lembrava no momento. Meu cérebro estava lento para entender o que estava acontecendo, e ao mesmo tempo, captava os toques que o meu corpo recebia a cada segundo.
Até que aquela mesma coisa macia e quente encostou-se às costas da minha mão. E depois os meus dedos, um por um, exatamente como nos meus lábios, voltando a fazer o mesmo trajeto ao chegar ao dedo mindinho. Consegui mexer a outra mão, demonstrando que estava aprovando os toques.
Eram lábios que estavam me proporcionando aquilo.
- When the lights go out we'll be safe and sound* – uma voz masculina e rouca cantarolou perto do meu ouvido. A pessoa entrelaçou os dedos nos meus com o dedão acariciando onde conseguia alcançar – Você está me ouvindo, não está? Você me deu um susto tão grande... Pensei... – a voz foi decaindo até calar-se de vez. Um suspiro foi tudo o que ouvi antes da voz voltar – Pensei que tinha pedido você.
Eu conhecia aquela voz... Conhecia aqueles lábios que não paravam de me beijar... Eu não estava alucinando, estava? Impossível. É claro que era ele. Só ele tinha aquele cheiro, afinal. Só ele tinha aquele toque magnético e relaxante.
Então ele tocou meu rosto novamente, contornando com a ponta dos dedos, os meus traços e, finalmente, eu consegui abrir um pouco os olhos. Eles ainda estavam pesados, mas eu lutei para mantê-los abertos o máximo que pude para ter certeza de que aquilo era real. Foi só fazer uma forcinha para enxergar mesmo com a visão turva e desfocada, que globos encontraram com os meus olhos. Era a única cor que dançava para mim. Estava tão perto e tão viva que era a única coisa que eu vi.
Foi rápido. Os olhos nos meus, a voz me chamando, mas que foi ficando distante conforme o meu nome era pronunciado repetidamente.
- , é você que está aí, meu amor?
Abri os olhos de súbito. Eu estava parada na porta da minha sala, segurando minha bicicleta pelo guidão. Houve uma movimentação na cozinha. Deixei a bicicleta na porta de qualquer maneira e entrei de vez, fechando a porta atrás de mim como mamãe sempre pedia. Ela sempre reclamava quando eu deixava a porta de casa escancarada, como na maioria das vezes acontecia.
Fui direto para a cozinha, encontrando com minha mãe de pé, com o rosto lavado por lágrimas e papai do outro lado, perto da porta dos fundos, parecendo muito zangado. Seu rosto não estava manchado por lágrimas, mas mostravam que já estivera não muito antes. E estava triste. Sempre achei papai um dos homens mais lindos do mundo. Mamãe e eu o chamávamos de Príncipe John e eu era a Miss dele. Ele nunca ficava zangado comigo. Nunca gritava ou me batia, diferente do pai da Jennifer. Papai era bem calmo, na verdade. E por isso eu não estava entendendo o que estava se passando naquele cômodo.
- Mamãe, por que você tá chorando? – questionei curiosa, chegando mais perto dela. Não houve resposta. Ela apenas colocou as mãos sobre o rosto e chorou. Olhei confusa para o papai, e ele também começou a chorar. – Papai?
Ele deu passos largos em direção a sala, e mamãe ao perceber, andou depressa agarrando seu braço, o impedindo de atravessar o batente.
- John, você não pode fazer isso! – implorou, se agarrando a ele com desespero. - Foi uma loucura, eu sei, mas...
- Cala a porra da boca, ! – ele gritou agressivo e irreconhecível, se soltando dela com nojo – Eu não vou voltar atrás na minha decisão!
- Não John, por favor... – ela soluçou alto, indecisa entre tocá-lo ou limpar o rosto – Vamos conversar!
- Eu não tenho mais nada para conversar com você! – ele parou de falar de repente, lembrando que eu assistia tudo. Seus olhos brilhavam com as lágrimas que desciam pelo seu rosto, mostrando o desespero que ele estava sentindo. Eu queria ajudar meu pai, mas eu não sabia como! Só ficava assistindo eles brigarem diante de mim!
As lágrimas apareceram nos meus olhos também e eu chorei com o desespero da minha mãe e a tristeza do meu pai.
Ele sumiu de vista ao passar pelo batente. Nisso, mamãe se encostou à parede mais próxima e continuou a chorar copiosamente até cair sentada no chão. Eu estava petrificada. O único comando que meu corpo tinha era de chorar e era só isso que eu sabia fazer. Ao piscar, eu não tinha mais sete anos e sim dezessete de volta. Existiam duas de mim! Uma ainda chorosa e a outra, de dezessete, estava perto da porta dos fundos. E agora, eu via tudo pelo lado da mais velha. Ninguém me via. Era como se eu fosse um fantasma do futuro visitando meu passado.
Passados os minutos papai retornou à cozinha segurando duas malas grandes que pareciam estar lotadas e pesadas. Caminhou na direção da minha versão de sete anos e agachou para me abraçar bem forte. Eu senti o abraço. Eu senti cada sentimento que o meu eu miniatura estava sentindo. Era totalmente surreal.
- Papai! – a de dezessete desaparecera e agora eu era a de sete anos de novo, chorando abraçada com o meu pai. – Por que você e mamãe ‘tão brigando? Não briga com ela, papai! É por minha causa?
- Claro que não, florzinha – disse com o choro entalado na garganta. Suas lágrimas molharam os meus ombros expostos com a blusa de alça com a estampa dos Cavaleiros do Zodíaco. Ele segurou o meu rosto. O dele estava tão vermelho quanto poderia ficar. Havia, além de tristeza, angustia. Meu coração ficou apertado. – Me escute, filha. Está vendo aquilo? – manuseou o rosto na direção das malas. – Papai vai se mudar, mas eu vou sempre vir te ver, entendeu? Eu nunca vou te esquecer , independente de onde eu estiver. Você é a pessoa mais importante no mundo para mim.
- Se mudar? – fiz uma careta, liberando mais lágrimas. – Por que, papai? Por que você não pode mais morar aqui comigo e com a mamãe?
- Porque... – a voz dele morreu por alguns segundos enquanto me encarava e pensava na resposta mais prudente. – Porque eu preciso ir.
Ele me deu mais um abraço bem apertado e demorado, beijou minha testa, limpou minhas lágrimas e disse:
- Você sempre será minha florzinha, . Papai vai sempre amar você, entendeu? Nada, nem ninguém vai nos afastar. Estarei sempre com você, independente da distância.
Não respondi. Não conseguia ter uma reação diante disso. Tudo estava muito confuso e ninguém ali parecia estar disposto a me contar a causa de tanto sofrimento.
Papai levantou, pegou suas malas e parou antes de atravessar o batente do hall. Deu mais uma olhada em tudo, inclusive em mim, menos em minha mãe. Corri atrás dele em tempo de vê-lo fechar a porta da frente com força. Gritei seu nome, mas ele não me atendeu. Continuei o chamando aos gritos e nada. Minha garganta ardeu. Ele não voltou.
John havia ido embora, pra sempre.
Você já teve a sensação da sua alma voltando para o seu corpo durante o sono? É como um baque, você não acorda, apenas sente uma coisa estranha, como se caísse. Foi exatamente dessa forma que eu me senti por, mais uma vez, reviver um momento marcante e difícil da minha vida.
Fui recuperando os sentidos aos poucos. Minhas pálpebras pesavam mais quilos do que eu podia suportar. Não. Não eram quilos, eram toneladas. Meu corpo estava mole, sonolento e exausto. Essa sensação... Eu conhecia essa sensação, mas dá última vez que eu a tivera, não fora tão forte. Agora era mil vezes pior. Fazia alguns meses que eu não me sentia... Que eu não me sentia dopada.
A última vez fora quando John começara os preparativos do funeral da minha mãe. Depois daquela semana que se tornara a pior da minha vida, eu só queria esquecer como era me sentir dominada por um comprimido pequeno, mas que pode ter um estrago tão horrível e desconfortável basta uma única vez. O que no meu caso, não foi. Não graças ao meu querido pai.
Respirei fundo, sabendo que aquela sensação passaria aos poucos. Tentei captar algum som, o menor que fosse, mas nada. Tudo estava calmo. Parecia que tudo ao meu redor estava dormindo.
Só depois de alguns minutos foi eu consegui abrir os olhos e encarar o teto branco. Nos primeiros segundos, demorava a piscar, a visão estava turva como antes, mas então tudo voltou ao normal. Quando consegui mantê-los abertos, senti algo descendo pelos cantos. Lágrimas caíram. A bola de tênis dificultava que eu engolisse saliva.
Por que logo agora eu sonhara com aquele dia? O que isso significava, afinal? Com tantas lembranças envolvendo minha mãe, eu realmente precisava lembrar esse? Eu não queria mais chorar por lembrar o dia em que John nos deixou. Nem mesmo em sonho! Eu tive que conviver com esse dia durante meses após a sua partida, não queria mais ser atormentada depois de anos! Será tão difícil? E o pior de tudo é que agora tudo viera com a porra detalhes! Eu nem mesmo me recordava do que John me dissera tudo aquilo, apenas que ele chorara, mas não lembrava que havia sido tanto.
Mas e daí? Ele fora embora, não?
O abraço que ele me deu foi tão apertado. Ele prometeu que eu sempre me amaria.
Ele não voltou para me visitar.
Por que agora eu não estava mais me sentindo tão confiante ao pensar que John me rejeitara?
Apertei os olhos, me forçando a para com aquela discussão mental. Minha cabeça latejava.
Funguei, me ajeitando melhor na cama para sentar. Aquela cama não era minha. Era uma cama de hospital. Lentamente, fui verificando o lugar. O quarto estava parcialmente escuro com sombras brincando pela falta de luz nas as paredes brancas com uma faixa verde clara feita de papel-parede. Respirei fundo mais uma vez, e notei que tirando o grogue, eu não estava mais nauseada ou tonta.
Olhei para o outro lado, e encontrei com perto da janela escondida por persianas que impediam do sol entrar. Ele dormia em uma poltrona pequena, próxima a uma mesinha quadrada, com a cabeça jogada para o lado no encosto, o corpo totalmente relaxado, as mãos unidas sobre o colo e respirava tranquilamente em sono profundo, com a boca levemente aberta. Reparei que ele não estava mais com a mesma roupa que eu me lembrava. Agora ele usa uma roupa mais leve; bermuda jeans dobrada até o joelho, T-shirt azul bebê de malha dos The Smiths e seu Vans Slip On chumbo sujo. Seu rosto demonstrava cansaço. As olheiras ainda estavam lá. Menos roxas, mas estavam.
Não contive um sorriso fechado. Não havia culpa, ninguém veria a minha reação ao vê-lo daquela maneira. Ninguém veria que eu estava me derretendo por ele. Eu me permiti esse momento de fraqueza pro longos minutos. Era difícil admitir até pra mim mesma que eu sentia uma necessidade constante de estar com ele, ouvir sua voz e sentir seu toque na minha pele. Eu nem sei direito como ou quando começou. No primeiro dia que nos vimos, eu o achei lindo, mas não foi isso que me fez vê-lo de outra forma, caso contrário, seria um cara lindo que eu topara em qualquer momento, em qualquer esquina. não era como muitos garotos por aí. Ele era discreto, calado e observador. Não se vangloriava ou gastava dinheiro a rodo por ter uma boa condição financeira. Muito menos era mulherengo, como eu pensara. Pelo que sei até o momento, só se envolvera com a vadia escrota da Lisa e a tal de Millie Murphy, ex-namorada do Peter. Não que isso seja algo confortável a se pensar; só de imaginar uma garota se esfregando nele, meu sangue ferve.
Ele nunca mais me chamou de Risadinha. Talvez porque eu tenha parado de chorar toda noite. Me irritar não era mais necessário. O apelido não era mais necessário para me distrair. Ao invés disso, nós nos aproximamos. Conhecemos um ao outro, aos poucos. Eu gostei do que eu conhecia através da casca atraente. Tinha vezes, quando estávamos conversando, que eu ficava olhando pra ele querendo perguntar “Você é real?” mesmo sabendo que a resposta era sim. Eu não conseguia ter domínio completo pelos meus sentimentos, principalmente quando estava por perto. Isso causou estranhamento e até um pouco assustador no começo, mas eu gostava. Adorava. Amava. Me mantinha ligada e desperta. Longe da tristeza, da saudade e de certa forma, da raiva, não ser quando o mesmo era o causador de tal sentimento.
Era incrível como conseguia me tirar do sério em segundos quando queria mandar em mim. Principalmente quando agia como um babaca mimado e arrogante. Minha vontade era martelar a cabeça dele! Estar perto do era como passar o paraíso ao inferno, vice-versa.
Se eu fosse colocar as cartas na mesa, comparando e Sam, a coisa ficaria num nível gritantemente desigual. Sam me ouvia, mas não me escutava. Não entendia. Ainda me lembro, claramente, o quão irritado ele ficava quando eu tocava no nome de John. Não por não gostar do que tinha acontecido comigo, e sim porque não tinha paciência para discutir sobre esse tipo de coisa. Olhando pra trás, eu pude ver que nossa relação fora tão superficial e falsa. Como eu percebi antes? Como eu pude ser tão cega? O que tinha acontecido comigo para que eu me deixasse levar por uma relação em que nada me acrescentava? Medo de rejeição? Trauma por ter visto meus pais se separando de uma maneira tão agressiva? Necessidade de ser amada? Eu sei que é horrível pensar assim, mas foi com a morta da minha mãe que eu pude abrir os meus olhos e entender aspectos da minha vida que até então, eu pensava ser os mais verdadeiros. Se isso não tivesse acontecido, quem poderia me dizer se eu ainda não estaria sendo enganada por todos? Ninguém. Ninguém me procurou depois que eu fui embora. Você tem noção de como é olhar pro seu passado e só ver falsidade, mentira e inveja? Inveja que nem eu sei do que, já que eu era sozinha com a minha mãe, morando numa pequena casa do subúrbio e estudando num colégio público. Eu não estou querendo me colocar como vítima, mas... Por que alguém teria inveja de mim? Eu nunca fui a mais bonita da escola ou a mais popular. Nunca ostentei coisas caras, mesmo com a pensão gorda que John nos mandava. Eu só tinha a minha mãe, que era também como um pai e então... Ela morreu. A única pessoa que era o meu conforto e amenizadora fora embora da minha para sempre, sem despedidas.
E isso me remetia a de novo. Ele se tornara tudo o que minha mãe era, com o acréscimo da atração inevitável, é claro. fora, em poucos meses, tudo o que Sam não fora durante muitos anos! Agora me diz: Como não comparar? Como não quebrar a cabeça querendo entender todos os sentimentos que eu tinha por ele? Como não ficar intrigada? Simplesmente porque não era um mero cara. Ele me entendia, me escutava, me compreendia, me ajudava quando eu nem pedia.
Pisquei sentindo dor nos olhos. Os cantos da boca de se repuxaram um pouco e me perguntei com o que ou quem ele estava sonhando... Então eu me lembrei dos grandes globos que preencheram a minha visão em algum momento enquanto eu ainda estava dopada. Só podiam ser os olhos dele, eu tinha certeza.
beijara o meu rosto, acariciara minha mão, disse que ficara com medo de me perder. Ele cuidara de mim.
Aos poucos tudo o que tinha acontecido foi passando pela minha cabeça como quando pegamos um filme e o avançamos para chegar ao ponto que paramos: Emma tagarelando no café da manhã, Helen avisando que John queria falar comigo, a conversa com ele, eu e Lizzie no carro, Peter e eu no cantinho dos namorados, o nosso quase beijo, nosso desentendimento, saindo enfurecido, dizendo bobagens sobre querer que eu fique com , Lizzie me contando sobre , o questionário de Biologia, alguém me puxando, a discussão com , nosso amasso no laboratório de química, Katie e Cassie discutindo, meu acidente na escada... Só de lembrar isso, minha cabeça latejou num lugar específico. Resmunguei, odiando a mim mesma por ter lembrado isso. O efeito da dopagem havia passado e agora eu podia sentir meu corpo dolorido, principalmente a minha costela direita e minha cabeça, que também pesava toneladas. Mexi o braço, mas algo repuxou a pele da minha mão, deixando-a dolorida. Havia uma agulha enorme perfurando a minha veia. Eu estava tomando soro. Argh, eu odiava agulhas!
Usei a outra mão para tocar na região da minha cabeça que não parava de doer. Passei a mão pelo rosto até a testa e quando cheguei até a região, toquei em um curativo. Não era dor que eu sentia até então, mas ainda sim era algo meio desconfortável. Ter um buraco na sua testa nunca é legal.
- Ótimo – resmunguei irônica. Uma dor aguda me atingiu quando apertei o local com força. Parecia um machucado bem grande por causa da dor que ia se espalhando desde que eu tocara na ferida. Por que diabos que tive que andar até a escada? – Dá próxima vez eu dou um tiro na boca logo de uma vez!
moveu a cabeça, a mudando para o lado da janela, porém eu não o olhei por muito tempo. A porta se abriu cautelosamente para não fazer barulho, o suficiente para me atrair.
Eu me lembrei das suas últimas palavras e nosso último momento como pai e filha e simplesmente a hostilidade não veio. Não tive, nem por um minuto, a vontade de ser rude com John.
Eu não sentia nada em relação a ele.
- Ah, finalmente você acordou! – disse animando, fechando a porta com o pé, segurando uma pequena caixa de papelão de estilo bandeja, daquelas que usando para equilibrarmos mais de uma bebida. A embalagem era da irreconhecivelmente da Starbucks. Dois Café Mocha, apenas – Faz muito tempo?
- Não... – respondi fraco. Minha voz ainda estava fraca e até um pouco rouca por ter ficado sem falar e sem engolir saliva, talvez por horas.
O observei colocar a bandeja cima da mesa perto de . Pegou um dos copos e caminhou até a minha cama.
- Como você está se sentindo? – deu um gole no café e o deixou de lado, no criado-mudo. Sua roupa também estava diferente. Não usava mais o casaco preto e pesado. O mesmo do dia do enterro da minha mãe. Mas ainda era uma das roupas que usava para trabalhar.
- Estou bem, John – uni as mãos quando ele tencionou tocá-las. Não ser rude não significava que as coisas tinham mudado entre nós. A marca dos cinco dedos no meu rosto ainda ardia. – Por que me doparam?
Ele se mexeu inquieto, cruzando os braços na altura do peito.
- O médico disse que você precisava ficar em observação por causa da pancada na cabeça e descansar, depois do acidente.
- Então você que me dopou de novo?! – o acusei, aumentando a voz num silvo, esquecendo que ainda dormia. John não pareceu espantado com a minha reação. Na verdade ele nem demonstrou estar ligando para a minha indignação – Não acredito que você fez isso!
- Não ! Eu não fiz nada disso! – replicou com tranquilidade. – O médico conversou comigo e achamos melhor. Precisávamos fazer todos os exames possíveis em você, entendeu? – ele descruzou os braços. – Nós não sabíamos o que tinha acontecido com você.
- Claro. É fácil falar, não é você que acorda sem ter a noção de quanto tempo se passou, não é? – ironizei, fazendo meu bico típico.
- Só quero o melhor para você – o olhar pareceu denotar aborrecimento. - Sempre quis. Você já deveria saber disso!
Bufei e olhei para a agulha enfiada na minha veia. Como eu queria arrancá-la...
- Há quanto tempo estou aqui, afinal? – perguntei, voltando os olhos para John, que não saíra de perto de mim ou parecia zangado com nossa pequena discussão.
John respirou fundo e estalou os lábios.
- Três dias, contanto com hoje – informou.
- O quê? – não estava acreditando que tinha perdido meu final de semana inteiro inerte naquela cama. Ainda mais um final de semana em Londres com meus amigos! – Por que tanto tempo?
- Porque você precisava descansar, já disse – explicou, tomando calmamente o seu Mocha, como se estivéssemos conversando no café da manhã em casa. - Você passou mal porque não estava comendo e nem dormindo direito. Sua pressão baixou e você acabou caindo da escada. Tiveram que bater chapa da sua cabeça, coletar seu sangue e fazer mais alguns exames pra ver sua saúde e nesse meio tempo, você ficou aqui, dormindo e sendo alimentada.
- Por soro, né?
- Exames não ficam prontos do dia pro outro, . Isso tudo aconteceu na sexta, você acha que clínicas ficam abertas finais de semanas? Médicos têm vida também! – revirou os olhos . - Você concordaria em ficar aqui e deixar de viajar com os seus amigos até todos os exames estarem prontos?
- Óbvio que não.
John gesticulou, achando a deixar que queria para provar que estava certo. Eu odiei admitir que ele estava.
- Você não tem noção do quanto nos deixou preocupados, – lançou um olhar apreensivo, bem longe de ser aquele John seguro o tempo todo. A firmeza com que falara me fez sentir culpa, por ele e por todos. – Só Deus sabe o que poderia ter acontecido se você caísse de mau jeito! Poderia ter quebrado a perna, ou pior, o pescoço! Poderia estar morta agora! Ou ter dito alguma sequela...
- Mas estou aqui, viva, não estou? – interrompi, não querendo me imaginar em tais situações. – Eu estou bem.
- Tem noção do que foi receber uma ligação do dizendo que você estava no hospital inconsciente? Não, , você não tem e sabe por quê? Porque você só está preocupada em ver o seu lado em tudo. Em me rejeitar por um erro que eu cometi anos atrás – ele parou de súbito, pensativo enquanto passava a mão pelo rosto, à expressão cansada. - Nunca mais faça isso comigo – enfatizou sério. John fechou os olhos brevemente, balançando a cabeça, espantando maus pensamentos – Nunca mais me dê um susto desses. Chega de enterros nessa família.
Ignorei quando os meus olhos arderam e engoli a saliva com dificuldade, esquecendo de toda a dor física que sentia. Não me atrevi a dizer nada em relação a minha mãe.
- Os exames ficaram prontos hoje de manhã – continuou, afetado. Vi os olhos de John ficarem marejados. Ele parecia realmente perturbado. Distante do homem que antes era meu pai. Senti uma inquietação no peito. – O médico veio conversar comigo e disse que não precisamos nos preocupar com nada. Você levou alguns pontos na testa, nada de grave, que poderão ser tirados daqui a duas semanas. Vai receber alta no fim da tarde.
Eu ia abrir a boca, mas a frase nunca saiu. Dito tudo o precisava, John pegou o seu café e saiu como entrou: sem qualquer barulho.
Um nó se formou na minha garganta. Abaixei a cabeça e pisquei. Duas grossas lágrimas rolaram pelo meu rosto, sem eu fazer o mínimo esforço para cessá-las, até molharem a minha camisola de hospital. Fungei, passando a mão livre no nariz e mordi o lábio, evitando que meu choro soasse alto. Sentia tanta raiva de mim agora. Tão burra e irresponsável. Pela primeira vez em anos, eu queria que John não estivesse longe de mim e sim me abraçando. Era assim que deveria ser, não era? Ele deveria estar me dizendo que tudo ficaria bem. Deveria estar dizendo que me amava incondicionalmente e que eu ainda era sua Miss. O que mais eu esperava? A única coisa que eu sabia fazer era repeli-lo, até mesmo quando não queria. Era quase que automático.
Soquei o colchão e a pele da minha mão foi repuxada mais uma vez com o movimento rápido. Sem pensar duas vezes, puxei a agulha pelo canal que levava o soro. Me arrependi logo em seguida. A agulha saiu e com ela, minha pele rasgou e uma ferida particularmente grande fez o sangue sair. Praguejei palavrões aos gritos, fechando os olhos e tapando o local com a intenção de estancar o sangue. Dei inspiradas e expiradas pequenas procurando por um alívio que não veio.
- Cacete ! O que você foi fazer? - ouvi meu nome e percebi a movimentação no canto do quarto. Abri os olhos no mesmo instante que chegou perto, assustado, e pegou minha mão dolorida, verificando a gravidade do machucado. – Eu vou chamar uma enfermeira.
Saiu correndo pra fora do quarto, deixando a porta aberta pela pressa. A enfermeira não demorou a aparecer. Era uma mulher magrinha e bonita, com os cabelos pintados com a raiz crescendo presos num coque. Ela fez um curativo na minha mão rasgada dizendo que o ferimento por pouco não precisava levar ponto e trocou o curativo da minha testa, que estava com sangue seco por dentro. Disse também que eu não precisaria mais ficar no sono. Um alívio.
ficou encostado na parede de frente para a minha cama, com os braços cruzados, sem tirar os olhos de mim. Ele não aparentava estar bravo, mas mesmo assim não gostei daquela atenção toda. Fez eu me sentir uma idiota.
- Que horas são? – perguntei qualquer coisa que me veio à mente a enfermeira que guardava todo o material utilizado dentro de uma caixinha de primeiros socorros.
- Dez em ponto – ela respondeu sorrindo amigavelmente para mim. – Tenta não mexer muito no machucado ou pode abrir mais e aí sim você vai precisar levar alguns pontos.
acenou com a cabeça como um agradecimento quando ela passou. Ele continuou calado e então foi uma cadeira que estava num canto, até a minha cama. Quando chegou perto o bastante, eu pude ver um band-aid no canto abaixo do seu olho esquerdo.
- O que aconteceu com você? – questionei, quando ele se sentou. Não era um machucado comparado ao meu da testa, é claro, mas até onde eu lembrava, não estava com aquilo.
- Isso? – ele apontou para onde eu me referia, esboçando um sorriso zombeteiro – Bem, digamos que eu e Lisa discutimos hoje mais cedo quando fui até a escola entregar o seu atestado médico.
- Ela te atacou?
- Era pra ser apenas um tapa, mas o anel dela era muito grande.
- Hm – entortei a boca, ficando bem interessada para saber o motivo da briga. A pergunta atravessou os meus lábios facilmente. – Por quê?
- Não foi nada demais - deu de ombros, ainda com o sorriso. – Deixa pra lá.
“Deixa pra lá”? Ele não ia me falar o motivo. É isso mesmo?
– Mas você deveria ter ficado para aula, não? – disfarcei.
- Acho que às vezes posso matar aula... – respondeu relaxado, colocando as mãos atrás da cabeça, escorregando na cadeira. – John precisava dormir depois de ficar a noite toda com você e minha mãe precisava trabalhar. Falando nisso, John já foi embora?
- Já – afirmei, suspirando alto.
levantou uma das sobrancelhas, notando algo de diferente.
- Nós discutimos – segredei, desviando os olhos , procurei algo interessante por todo o quarto. – Ele estava diferente comigo. No começo eu não percebi, mas então ele pareceu irritado.
- Ele está cansado de brigar com você, - justificou, me chamando pelo nome para deixar claro o quão sério falava. - Isso se torna cansativo com o tempo.
- Como você sabe? – voltei a olhá-lo.
- Porque eu conheço nosso pai muito bem e creio que você, mesmo durante esses anos, não tenha esquecido do homem que ele é. John não é do tipo de homem que gosta de ter problemas com alguém.
- Você o admira muito, né?
- Tenho muito orgulho do pai que eu tenho – disse com o orgulhoso e certa seriedade que me lembrou muito John. – Pode não ser meu pai de sangue, mas foi o cara que eu escolhi pra ser meu exemplo. Quero ser como ele quando ficar mais velho.
Eu podia ter meus problemas com John, mas ele nunca deu motivos para que duvidasse do seu caráter. Tive que concordar com isso.
Não abri a boca.
- Você não vai retrucar? Nem dizer nada? – perguntou descrente, vendo o meu silêncio de concordância. - Sério? Nenhuma objeção?! Nossa, estamos fazendo um progresso aqui!
- Cala a boca – fingi estar irritada. – Ou você será decapitado quando eu sair daqui!
- Aposto que sim – zombou com uma expressão mais debochada ainda, voltando com o jeito descontraído de sempre. - Mas e você, como se sente agora?
- Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim no mínimo umas dez vezes... – fiz uma falsa careta de dor. riu - Não que eu ache que você esteja muito melhor que eu. Essa cama parece ser bem mais confortável que a poltrona.
Ambos rimos.
- Pode apostar que sim – estalou o pescoço, sentindo o relaxamento instantâneo por todo o corpo. – Mas eu supero. Já dormi num colchão vagabundo na cabana, lembra?
- Como posso esquecer aquela cabana? Pelo menos você agora tem um colchão novo – brinquei, lembrando do dia em que me levou até o seu lugar secreto. Um lugar que somente eu conhecia. Ele pareceu lembrar o mesmo, pois me olhou cúmplice. – O pessoal já voltou?
- Do que você está falando? Eles nem foram, .
- Não? – fiz outra careta de desaprovação. Além de estragar o meu final de semana, tinha estragado o dos meus amigos? Sério? – Que merda, ! Por que não foram? Lizzie estava tão empolgada...
- Sério que você achou que eles iam viajar sem a gente? – perguntou não acreditando no que ouvira - Principalmente com você no hospital? O que botaram no seu sono quando eu não estava aqui? Extrato de merda?
- Eles deveriam ter ido! E você também!
- , ninguém conseguiria se divertir com você hospitalizada. Você já deveria sabe disso, não?
Assenti, puxando as pernas por debaixo da coberta até que elas estivessem na altura no meu peito e encostei o meu queixo nos joelhos.
- Eles vão vir depois da aula – avisou. - Eu disse que você teria alta.
- Obrigada, – agradeci baixo, mas alto o bastante para que ele pudesse escutar.
- Eles são nossos amigos, ficariam sabendo de qualquer forma...
- Não estou falando disso – o cortei de forma gentil. Dei um sorriso nervoso, o achando tolo demais por não entender do que eu falava. - Estou falando de você ter me ajudado quando eu caí. De ter me deixado ficar com você.
levantou da cadeira e tornou a se sentar, dessa vez na beirada da cama. Esperei o próximo passo, sentido a aproximação perigosa dos nossos corpos. Aquela sensação nunca ia embora por mais que estivéssemos naquela situação por diversas vezes, tão perto um do outro. Era minha maldição e minha salvação ao mesmo tempo.
- Um dia – tornou a falar, pausadamente dessa vez, enquanto levantava delicadamente o meu rosto pelo queixo. Não pude fazer mais nada a não ser olhá-lo. – Um dia eu prometi que sempre vou estar por perto quando você precisar. E pode ter certeza , eu sou um cara de palavra.
Eu sabia de que dia ele se referia. Da nossa primeira e única vez. O ritmo do meu coração diminuiu, quase parando.
- Obrigada por tudo.
- Não seja idiota, garota. Você sabe que não precisa disso.
Seus olhos transbordavam tranquilidade e calma. Segurança. Lá estava o que eu achei que não estava perdido.
Ele sorriu de um jeito doce e eu declinei de qualquer pensamento que podia me fazer afastá-lo. Sua mão seguiu suavemente o caminho do meu queixo até atrás da minha orelha, depositando o dedão na minha bochecha. Acariciou ali, me fazendo estremecer e então, sem que nenhum de nós pudesse evitar ou pensar direito, nossas bocas encontraram. Embrenhei meus dedos nos cabelos da sua nuca, e o forcei a curvar corpo um pouco sobre o meu, movendo meus lábios carinhosa e brandamente pelos dele. Minhas costas tocaram no travesseiro e se sentou mais perto, mantendo o quadril junto ao meu, a mão descendo pelo meu ombro e braço, até parar na minha cintura.
Como aconteceu, parou. recuou centímetros, sem qualquer intenção de aprofundar o beijo, a respiração acelerado em cima de mim. Antes que eu pudesse abrir os olhos direito, ele se aproximou mais uma vez e me deu um selinho molhado e gostoso, daqueles que a gente sabe que a pessoa está se segurando pra não nos agarrar.
Não tivemos nem tempo de nos afastarmos direito ou dizer qualquer palavra. A porta abriu de repente, nos assustando. se levantou num pulo e arregalou os olhos.
Lizzie estava com a mão na maçaneta, paralisada, com Katie e Cassie logo atrás, no mesmo estado. As duas últimas sorriram e acompanharam Lizzie, que deu de ombros achando a cena que acabara de ver coisa mais normal do mundo e adentrou o quarto.
- Ops... – Cassie soltou teatralmente e tapou a boca em seguida, dando um sorriso abafado. Deixou sua mochila em cima da mesa nos pés da cama. – Acho que chegamos na hora errada meninas.
Katie cruzou os braços depois de se livrar da bolsa ao deixá-la jogada num canto. Com uma sobrancelha levantada, sorriu satisfeita. Não fez qualquer menção de abrir a boca, mas era impossível que qualquer pessoa que visse sua expressão não soubesse o que passava na sua cabeça diabólica “Hm, que safadinhos”.
as encarou tenso. Por um momento achei que ele estivesse fora de si ou tendo um ataque cardíaco, pois ficou parado, duro como uma rocha e sem respirar. Porém, não demorou em que eu entendesse que era apenas sua reação de ter sido pego no flagra.
Ele evitou me olhar. Segurei o riso quando seus olhos foram para os pés, esfregando as mãos na calça como se elas estivessem suadas e voltou a levantar a cabeça.
- Bem, - pigarreou alto, ignorando Katie completamente. Pôs a mão na boca como se estivesse com algo incomodando a garganta. - Já que vocês chegaram, eu acho que posso ir buscar o almoço – olhou para mim brevemente e emendou. – Trouxe algumas mudas de roupa que Emma e minha mãe separam pra você - apontou para uma nécessaire de oncinha. Ela estava tão escondida perto da poltrona que nem pude notá-la antes e olha que ela nem era pequena. Me perguntei o que seria “algumas mudas de roupa” para Emma e Helen. - E também carreguei o meu laptop porque pensei que você fosse querer se distrair um pouco. – mexeu dentro da própria mochila, tirando seu MacBook branco com a aparência de novo, apesar de já não ser, graças aos cuidados de moça que tinha com seus aparelhos e claro, o carro.
- Almoço? – quis saber. Ele deixou o MacBook em cima da mesa, ao lado do café que John trouxera e provavelmente já estava frio.
- É, vou ao Mcdonalds – respondeu de costas, fechando sua mochila e jogando-a em um ombro só. - Mas não conta pra ninguém, ok? Serei morto antes de terminar de dizer “Uma promoção do Mcchicken, por favor.”
- Mas...
- Shiu! – Lizzie colocou o dedo nos lábios em sinal para que eu me calasse. Ela deixou a bolsa em cima da cama, ficando na beirada. – , eu vou querer um Cheddar com Coca-cola mesmo. Você já me conhece.
- Claro. Conheço o gosto de todas vocês.
- Ótimo, agora deixe a com a gente – Katie o empurrou pelas costas em direção porta. Ele deixou-se conduzir até passar pelo portal e parou, virando-se abruptamente. – O que foi criatura?
- Eu... – se calou, o pensamento partindo, incerto. Levantei um pouco na cama, esticando o pescoço com um dicraeosaurus para pode vê-lo melhor – Nada.
Tornou a se virar, dessa vez para a saída e quando pisquei, já não estava mais lá.
Katie fechou a porta e encostou-se nela. Todas tinham os olhos em cima de mim. Me encolhi na cama, me sentindo intimidada com tanta atenção.
- Eu sei que não posso gritar aqui – Cassie foi a primeira a dizer, o punho fechado e levantado, o rosto com uma feição de que iria surtar. – Mas eu preciso dizer que, ai meu Deus, ! Você... Você...
- Está pegando o seu meio-irmão e nem nos contou, que safada! – Katie completou, se empoleirando nos pés da cama. Cassie que estava perto fez o mesmo. – E então, já rolou algo a mais?
- Katie! – a repreendi, tentando ficar séria.
- Ah, fala sério , não tem mais nenhuma criança aqui – deu um sorrisinho pra Cassie, que retribuiu. – A gente sabe que não é nenhuma novidade.
- Como você pode ter tanta certeza? – desconversei, cruzando os braços e me fazendo de superior. Não podia ser tão óbvio...
- Nós – apontou para si e para as outras – convivemos com você dia e noite. Nós – repetiu o gesto. – até podemos não te conhecer tanto tempo assim, mas acho que foi o suficiente pra gente sacar quando você tá escondendo algo. Principalmente quando envolve alguém do grupo, no caso o , que é nosso amigo há anos, né?
- Certo – ela e Cassie vibraram, ficando em cima de mim. – Gente, preciso respirar!
- Que mané respirar, minha filha! Quero saber todos os detalhes sórdidos! – Katie semicerrou os olhos, maliciosa. – Você é tão safada, ! Não acredito que não contou pra gente antes!
- Você já sabia, né? – Cassie cutucou o ombro de Lizzie. – Vocês duas de segredinhos, najando contra nós...
- Eu só fui saber domingo passado, nem vem! – a outra se defendeu, chegando mais perto de mim.
- Olha, – intervir. A última coisa eu queria era que Katie e Cassie ficassem magoadas comigo. – eu sei que deveria ter falado antes, e sim, contei pra Lizzie antes, mas foi porque eu precisava desabafar com alguém.
- – Cassie me chamou, compreensiva, com um sorriso fofo. Ela se acomodou do meu lado e me abraçou pelo ombro. – Nós não estamos com raiva de você por ter contado pra Lizzie primeiro, relaxa. Katie e eu sabemos que vocês são muito próximas, assim como eu sou com a Katie. É normal. Afinidade acontece. Nós sabemos que você gosta da gente tanto quanto gosta dela, não é? – ela falou para Katie que assentiu – Só que bem... Ainda assim, você não precisava ficar calada, entende? Você pode contar com a gente, afinal somos suas amigas.
- Eu sei – sorri fraco, me sentindo realmente acolhida por todas as três e agradecida pela compreensão de Cassie e Katie. – Mas eu fiquei confusa. Não tinha certeza do que pensar em relação ao , então como explicaria pra vocês? Só no domingo chegou a um ponto que eu não consegui me segurar mais.
- Mas por quê?
E lá se foram quase duas horas contando tudo até aquela manhã, assim como tinha feito com Lizzie, com o acréscimo dos detalhes sórdidos (não todos, é claro) que Katie me pentelhou pra saber. As expressões das minhas amigas se revezavam da mais plena alegria até a pior expressão de raiva que uma pessoa pode fazer. Até Lizzie se manifestava com caretas ou sorrisos bobos, mesmo já sabendo tudo de cor e salteado. Vez ou outras meu monólogo era interrompido parar perguntas, que eram respondidas prontamente. Katie confessou que ela e Cassie já tinham conversado com os outros garotos sobre um suposto romance entre eu e e deixou claro que todos concordaram de que elas estavam certas. Disse também que se na segunda soubesse de alguma coisa, teria chutado suas bolas sem dó nem piedade. Eu ri, mesmo tendo que lembrar como foi triste o dia anterior.
- Ele se cagou todo! – Katie se referiu ao quando finalizei a história, entre gargalhadas descontrolas que dávamos em conjunto. - Aposto que achou que fosse o John!
- Sim, sim – Lizzie tirou os óculos e enxugou a região abaixo dos olhos, que estavam molhadas de tanto lacrimejar. – Tínhamos que ter tirado uma foto!
- Ai como vocês são más – Cassie nos repreendeu, controlando o riso. - Então vocês fizeram as pazes?
- Não é tão simples assim, Cass – Lizzie assumiu um ar mais sereno e respondeu sabiamente por mim. – Eles ainda precisam conversar.
- Afinal o que era pra ser uma conversa se transformou em amasso! – Katie nos recordou. Não que realmente precisasse...
- Katie, estamos falando sério! – Lizzie rebateu.
- Eu disse alguma mentira por acaso? – questionou irritadiça. – , você sabe que eu estou apenas brincando, certo?
- Até parece que eu não te conheço, né? – dei um tapa na sua testa.
- E o que você sente de verdade pelo ? – Cassie recomeçou o assunto.
Hesitei um pouco.
- Eu acho que... – fiz uma pausa dramática sem realmente ter a intenção de fazê-la. – Talvez eu goste dele mais do que achei que gostasse. Talvez seja mais do que atração física.
- Talvez? – Lizzie balançou a cabeça, descrente. – , o que você sente pelo é muito mais que um “Talvez”, tá na cara.
Katie e Cassie assentiram em sincronia.
- E, – continuou. - caso você não saiba ele ficou aqui o final de semana inteirinho. Sempre que a gente vinha te visitar ele tava dormindo na poltrona ou conversando com você.
- Eu o ouvi falando comigo. Foi algo como uma música que eu não lembro a letra e depois ele dizendo que eu tinha lhe dado um susto. Ele pensou que tinha me pedido... Acho que era isso.
Três pares de olhos se arregalaram curiosos. Cassie piscou freneticamente, derretidamente romântica.
- Que lindo! – chiou serelepe. – Tá vendo como ele gosta de você!
- Ele se preocupa comigo, Cass. Isso não quer dizer que ele goste de mim do jeito como vocês estão dizendo – adverti. Eu tinha que pensar em todas as hipóteses. Não era só porque havíamos ficado algumas vezes que isso significava alguma coisa a mais.
- Ele deu a entender que... – Lizzie tentou argumentar.
- Ele deu a entender que tem medo do John descobrir, não que gosta de mim. O fato do se preocupar comigo não quer dizer nada, gente, acordem! Apenas que ele se importa do mesmo jeito que é com vocês e com os meninos. Não fantasiem.
- Mas ele nunca nos beijou...
- Ele me vê como a filha do pai dele – ressaltei, me sentindo estranha por dizer aquilo em voz alta. - Sente atração, não vou dizer que não até porque né... Mas e daí? Atração é atração.
- Isso quer dizer que...
- Que nada vai mudar. Um dos motivos mais fortes de que eu estar aqui foi ter levado a sério o que aconteceu na última semana. Não posso ficar mais me torturando, pensando no que fazer com as reações do cada vez que a gente se beija. Cansei de me fazer de ofendida sendo que eu também quis.
- Você tem razão – Lizzie pareceu recobrar o juízo. – Sua atitude de encarar o que aconteceu é muito madura, .
- Ah, eu queria tanto que você e o ficassem juntos! – Cassie choramingou, fazendo cara de que iria chorar.
- Eu também – Katie queixou-se desanimada, deixando os ombros mais soltos.
- Todas nós – foi à vez de Lizzie. – Se bem que eu conheço o muito bem e...
- Não Lizzie - ela deixou a frase morrer quando me viu negando com a cabeça. - Chega desse assunto, ok?
Ela concordou em silêncio. Apesar de ter sido diretamente para Lizzie, Cassie e Katie também concordaram com a cabeça.
- Eu só quero saber de uma coisa relacionada a ele... E que aconteceu hoje, pelo que o próprio me contou.
As três se ajeitaram na cama. Katie foi a única a perguntar:
- E o que seria?
- É o machucado perto do olho – ao me ouvirem dizer isso, o rosto de todas se iluminaram em entendimento. – O que aconteceu pra Lisa ter batido no ?
Todas caíram na gargalhada, menos eu.
- A causa de tudo foi você – comunicou Katie, tapando a boca para conseguir controlar a vontade de rir escandalosamente.
- Eu?
- , - Lizzie continuou pela outra que não tive sucesso em se controlar. Ela gargalhou mais um pouco enquanto a minha curiosidade ia aumentando cada vez mais, até que Lizzie respirou fundo e “engoliu” as próprias risadas. – Foi assim – respirou mais uma vez. – O foi até a escola para entregar seu atestado médico e quando estava saindo, encontrou com a Lisa no estacionamento. Eu e estávamos com ele e posso te assegurar que foi muito engraçado!
- Conta de uma vez! – quase gritei.
- A garota surtou quando viu que ele vinha pra cá, ficar com você – parou de falar porque Cassie e Katie encostaram a cabeça uma na outra, rindo horrores. Só quando ambas cessaram foi que Lizzie prosseguiu. – Primeiro ela deu em cima dele, então ele disse que precisava fazer umas coisas e quando ela perguntou o que ele ia fazer, respondeu que vinha pra cá.
- E onde isso é tão engraçado?
- Ela começou a dizer que você era uma idiota blábláblá – explicou, rolando os olhos, irritada por eu não partilhar do mesmo humor. – Coisa de gente sem argumento sabe. E o partiu pra cima dela! Não literalmente, é claro, mas verbalmente. O engraçado mesmo foi ver cara de piranha incubada dela quando ele disse que ele não tinha que dar satisfações a ela. Obviamente Lisa ficou puta e a reação foi bem... Dar um tapa. E continuou falando, falando e falando...
- E ele?!
- Saiu de perto. Se despediu da gente e foi pro carro – simplificou. - Você tinha que ver quando eu disse que sobre o machucado. ficou vermelho. Por um momento achei que ele fosse bater nela.
- Não seria má ideia – falei, o veneno escorrendo pela boca. Ah como seria ótimo ver Lisa apanhando de novo...
Me desculpei por ter melado o final de semana de todo mundo. Tudo bem que eu não passei mal de propósito, mas ainda assim, me sentia culpada. Cassie me animou comunicando que ela e as outras estavam planejando outra viagem a Londres.
Katie contou que ela e já estavam de bem e que tinha saído sábado à noite. Ela nos prometeu que iria controlar mais o ciúmes, mas nenhuma de nós levou muita fé. Katie não era Katie sem o jeito explosivo. Não tinha como mudar, ainda mais se tratando do namorado.
Lizzie me entregou um bilhete de Peter. Li em voz alta.

Suas amigas contaram que você vai receber alta hoje. Me perdoe por não poder ir te visitar, mas você sabe meus motivos. Não quero irritar sua família.
Não paro de sonhar com você desde sexta. Preciso te ver, mas pelo jeito você não vai pra escola nos próximos dias, né? Prometo que assim que der, dou uma passada na sua casa.

P.

, e estavam com quando ele retornou. Os três primeiros me deram abraços de urso, beijos e mais abraçados apertados, enquanto apenas pediu desculpas pela demorando dizendo que a culpa era dos outros que não decidiam o que escolher no cardápio. Ele não estava me evitando. Isso definitivamente me deixou aliviada e tranquila. O que tivesse que ser, seria afinal. Trocávamos sorrisos e olhares, que foram despercebidos pelos nossos amigos já que narrava uma pequena história sobre um Anão que morava no jardim da sua casa quando ele era mais novo ou algo do tipo, eu pegava algumas frases, não estava interessada naquilo, minha atenção era voltada para outra coisa, outra pessoa. Não demorou para o quarto ficar lotado conosco e com nossas risadas. Depois ter devorarmos nossos hambúrgueres em segundos, brincamos de mímica, jogamos buraco. A mesma enfermeira que tinha vindo mais cedo veio trazer meu almoço (tivemos que jogar as embalagens todas embaixo do meu travesseiro) e nos pediu silêncio. Para nós, foi como se ela não tivesse dito nada. Ou melhor, para os meninos. Acabou que no final todos foram expulsos porque estávamos perturbando os outros pacientes. Só sobrou porque era da família.
- Nós vamos invadir sua casa, hein – prometeu , beijando minha bochecha antes de sair atrás dos outros. foi atrás dele sem dizer nada.
Encostei a cabeça no travesseiro, achando o quarto muito grande agora. O almoço estava intocado em cima da mesa, assim como o Mocha Café. O efeito de estômago cheio estava chegando e eu sentia uma pequena sonolência, olhando para o céu claro e com sol fraco. Logo num dia tão bonito eu era obrigada a ficar de cama. Seria ótimo aproveitar a piscina hoje...
- Não durma de novo - meus olhos estavam se fechando sem que eu percebesse. Os abri de relance. estava em pé na beirada da cama com as mãos nos bolsos.
- Por quê? - bocejei, me forçando a não deixar minhas pálpebras se fecharem novamente. Me mexi confortavelmente numa posição que deixasse minha coluna inclinada.
- Porque você vai acordar como se um caminhão tivesse passado por cima de você no mínimo umas 20 vezes - riu. - E também porque Emma já deve estar chegando - ele olhou para o relógio analógico em seu pulso. - Se você estiver dormindo, ela vai destruir esse hospital.
- Emma esteve aqui?
- Todos os dias. Ontem tive que levá-la arrastada – pelo jeito que falou, deduzi que tirar Emma dali tinha dado trabalho. - E hoje ela não queria ir pra escola. Tive que prometer que assim que ela saísse, viria pra cá.
- Você vai buscá-la?
- Não. Minha mãe vai passar na escola. Vamos embora quando elas chegarem.
- Ouvir que vou ver Emma já é uma ótima coisa, melhor ainda é ouvir que vou poder sair desse quarto!
- Você resmunga muito! – reclamou.
- Ótimo – disse indignada. – Vou tomar banho então.
Eu pus as pernas pra fora da cama, me preparando para levantar, mas ficou na minha frente.
- Primeiro eu quero falar com você, se você deixar – pediu sério.
Concordei com a cabeça e voltei a sentar vagarosamente. Olhei para os meus pés descalços no chão gelado. Por dentro eu estava com frio na barriga típico de nervosismo.
- Bem, - começou, falando pausadamente, procurando as palavras – Eu...
- ! – Emma irrompeu pelo quarto, aos berros. Correu pelo quarto e me abraçou forte, sorrindo. – , ! – descansou o queixo no meu peito, me olhando. – Viemos te buscar!
- Eu sei, o me disse – retribui o sorriso, ficando sem fôlego com a força que ela mantinha em mim. – Estava morrendo de saudade de você.
Emma, como sempre, parecia uma garota fashionista de Paris. Usava um short jeans dobrado na barra, blusa verde-claro e um bolero de renda bege. O cabelo preso em uma trança embutida.
- Eu também! – ela escondeu o rosto no meu peito e me cheirou.
- Emma, deixa a tomar um banho – ralhou Helen, que eu nem tinha visto entrar. Atrás, na porta, estava John, nos observando com um pequeno sorriso.
- Tudo bem, tudo bem... – Emma revirou os olhos. Foi até a nécessaire e me entregou. – Mas não demora. Estarei contando o tempo!
Tomei o banho o mais rápido que eu pude, tomando o cuidado para não molhar os curativos da mão e da testa e não passar o sabão com muita força na minha costela, que estava um pouco roxa. Não achei que estava tão ruim para alguém recém-acidentada quando encarei meu reflexo no espelho. Escovei os dentes e me vesti, demorando horrores na última etapa. Emma e Helen haviam colocado muito roupa. Tanta, que para achar uma calcinha e sutiã, eu tive que tirar quase tudo de dentro da bolsa. No chão, catei a primeira http://i42.tinypic.com/qpf1a9.jpg que vi e nos pés, coloquei meu velho all star preto.
Só Emma e estavam no quarto quando saí do banheiro. Ele estava mexendo distraidamente no seu Mac, enquanto ela estava sentada de pernas de chinês na minha cama e escova de cabelo na mão.
- Finalmente! – Emma disse assim que me viu. me checou pelo canto dos olhos. – Você está mais corada! Agora vem cá, eu vou te pentear.
- Hm... - fiz, meio desconfiada, deixando a nécessaire no chão. - Só não arranque muitos fios de cabelo. Ele é meu calcanhar de Aquiles - disse, caminhando até a cama e ficando na frente de Emma.
soltou uma risada nasalada.
- Onde estão os outros? - perguntei para os dois. Fiz uma careta quando Emma passou a escova com força pelo meu couro cabeludo, jogando meu cabelo para trás. riu de novo.
- No corredor falando com o seu médico - respondeu, atento a nós duas.
- , podemos jogar Guitar Hero quando chegarmos em casa? Você é a única daquela casa que eu posso considerar uma oponente a altura. Ganhar de é como arrancar doce de criança... Ele mal sabe mexer na guitarra.
- Valeu rascunho de gente – resmungou ofendido. – Dá próxima vez peça pro Jack jogar com você então.
- Pode apostar que sim – rebateu Emma.
Nós duas rimos e não gostou nem um pouco. Fechou a cara e voltou a mexer no Mac.
- Você não deveria ficar irritado com a sinceridade da Emma, , afinal de contas ela falou para o seu bem – impliquei, não conseguindo segurar minha língua. – Vai que um dia te convidam para jogar e você passa vergonha?
- Ninguém perguntou sua opinião sobre isso, Risadinha – retrucou rudemente com os olhos vidrados na tela.
- Ui, ele ficou ofendido! – Emma disse no meu ouvido. Eu me segurei para não rir de novo, ao contrário dela.
Era incrível como não gostava de ouvir que não era bom em algo.
- Terminei! - Emma avisou, me entregando um espelho pequeno. – Olha como você ‘tá linda!
Ela tinha feito a sua trança, em mim. Como conseguiu essa proeza, não faço à mínima ideia.
Nesse momento o meu médico entrou no quarto, sorrindo pra mim. Era todo compacto; baixinho e rosado, daquela espécie de gordinho que quando a gente vê, acha muito fofo. Os cabelos finos, grisalhos, e uma barba de papai Noel. No seu crachá branco que combinava com o jaleco branco, estava escrito Dr. Lewis Moriarty. Ele era um daqueles médicos legais e engraçados.
Veio até a minha cama e pediu para que a minha comitiva particular esperasse um pouco lá fora. Emma nem se moveu, avisando que não sairia dali nem sob tortura. O médico me fez algumas perguntinhas bobas, mediu minha pressão, puxou as minhas pálpebras inferiores para ver se elas estavam vermelhas e enfiou aquela luzinha ofuscante nos meus olhos, deixando tudo anotado em sua prancheta. Finalmente, disso tudo e mil e uma recomendações, me dar uma lista de antibióticos para tomar por causa dos pontos na testa e avisar que eu deveria voltar ali há duas semanas para tirá-los, recebi minha carta de alforria.
- Pronta pra ir pra casa? – perguntou Helen, entusiasmada.
- Por favor! – falei dramaticamente.
Tempos depois, estávamos virando a esquina de casa, com Emma entre eu e no banco detrás da BMW de John. Helen havia passado o caminho todo falando ao telefone com Mark, o tal sócio da filial da Top Models que ficava Londres. Até onde a tagarelice de Emma deixou que eu ouvisse, Helen estava fazendo mudanças na filial de York.
E então o carro parou no seu lugar de sempre. Eu saí olhando para a casa que agora era meu lar e respirei fundo o ar da tarde, agradecendo por não ter que precisar ficar enfurnada numa cama de hospital por mais tempo. O meu mês seria longo, eu sabia. Sem telefone, sem internet, sem saídas depois da aula ou nos finais de semana, mas com certeza era melhor do que agulhas e o cheiro de éter eterno. Ou aquelas paredes horrivelmente brancas... Argh!
O ar da tarde me acertou com tudo e eu fiquei um pouco tonta.
- Ei, – murmurou fechando a mala de onde tinha tirado a nécessaire com as minhas coisas. - Está tudo bem?
- Sim - disse baixinho dando um sorriso para confirmar minha resposta. - Eu fiquei muito tempo deitada. Não é nada demais.
Ele me olhou desconfiado.
- Tem certeza? - perguntou, checando para ver se os outros estavam prestando atenção em nós. Felizmente todos já haviam entrado.
- Tenho, - respondi muito convicta enquanto caminhávamos para a porta aberta. Eu realmente estava bem, oras. Que mania de superproteção...
Diferentes vozes gritaram o meu nome quando meus pés tocaram o chão amadeirado do hall. Todos estavam me esperando, inclusive meus amigos. segurava um cartaz escrito “Seja bem-vinda ao lar”.
Como se não tivéssemos nos visto há poucas horas, Lizzie, Katie e Cassie vieram me abraçar. Em seguida foi a vez de Molly. Essa sim me deu um abraço de tirar quase todo o oxigênio dos meus pulmões, muitos beijos e disse que me faria virar uma bola com tanta comida. O que de fato, foi comprovado quando fomos até a sozinha. A mesa estava posta com muitos salgados, refrigerantes e doces, entre eles, torta alemã, um dos meus doces prediletos. No centro da mesa, havia um bolo de chocolate enorme de dois andares com o meu nome escrito com glacê.
- Vou deixar suas coisas lá em cima, ok? – disse para mim, sumindo pela escada.
- Vai lá – Lizzie, que era a mais próxima de mim na mesa, me cutucou. – Vai logo, !
Katie, na nossa frente, percebeu o que estava acontecendo e me olhou significadamente, apoiando a ideia de Lizzie.
Deixei minha torta alemã de lado e me retirei da cozinha sorrateiramente. Subi as escadas de dois em dois degraus e continuei o caminho com passos calmos. Dei de cara com saindo do meu quarto.
- No hospital você disse que queria falar comigo... – tomei logo a iniciativa sem deixá-lo dizer qualquer coisa. – Podemos tentar conversar agora?
- Claro – ele fez um aceno com a cabeça para dentro do meu quarto.
Entrei logo atrás e tranquei a porta para não corrêssemos o risco de sermos interrompidos ou a conversa fosse ouvida. Quando me voltei, estava em pé perto do pufe, com as mãos nos bolsos. Ele esperou que eu sentasse na cama para começar a falar.
- Você me deu um susto quando desmaiou indo pro hospital – confidenciou com a voz contida.
- Desculpa – apertei o edredom com ambas às mãos. De uma hora para a outra, meu estômago estava se revirando de nervosismo e meu coração palpitava de ansiedade e receio. Eu só pensava “Não me magoe de novo, . Por favor”
Ele andou um pouco pelo quarto, passou uma mão pelo cabelo e suspirou.
- Sinto muito por todo esse desentendimento que aconteceu – disparou tenso, os olhos firmemente nos meus. – Eu não sou o tipo de pessoa que saiba se expressar com facilidade... Principalmente quando é algo sob pressão – sem que eu nem fizesse qualquer comentário, ele logo se apressou em emendar - Não estou dizendo que você pôs pressão! Ai , que droga, estou fazendo de novo! – resmungou para si, nervoso. passou a mão pelo rosto e gesticulou frustrado. Parou e continuou me encarando, sem saber o que dizer. Uma melancolia exalava dele de tal forma que parecia que iria inundar o quarto a qualquer momento. - Eu sinto muito. Eu não queria dizer aquelas coisas horríveis pra você. Eu só... só não sabia como agir - vi em seus olhos que ele estava sendo sincero. - Foi tudo tão rápido. Você mesma disse! Eu fiquei... - com medo, completei mentalmente. Eu também, . Eu também estava com medo e ao mesmo tempo, nas nuvens. Como isso era possível? - Você sabe... Você sabe que eu não sou como alguns caras por aí que transam adoidados. Eu realmente queria ficar com você naquela noite.
- Tenho consciência que não fiz nada obrigada e também entendo, mesmo não ainda não achando legal, o porquê de você agir daquela maneira - se uma coisa que nunca soube e não saberia nem em um milhão de anos, era fingir o que eu estava sentindo. Sei que talvez estivesse sendo fácil, perdoando fácil, mas eu não podia culpar totalmente pelo que acontecera. Eu também quis, certo? Não foi como se me obrigasse a fazer algo com ele. Fora tudo consentido. OK, não saíra como eu imaginara, e eu ainda achava sua reação exagerada, as palavras desnecessárias, mas afinal já tinha acontecido. Por que debater mais se eu já sabia que ele estava sendo sincero comigo? A eternidade é muito tempo para que se ficar de cara feia. Já estava na hora de eu parar de me fazer de vítima e me posicionar de acordo com as minhas atitudes. Seria ridículo eu virar a cara agora se há poucos dias estava me agarrando com ele no laboratório de química. Na hora de fazer, eu fazia, mas na hora de assumir, ficava de cara feia e o culpava? Ridículo.
As coisas estavam esclarecidas. Era isso que importava. Nada de ficar remoendo o passado. Esse assunto já estava rendendo demais...
Levantei da cama, dando a conversa por encerrada.
- Eu realmente não queria que tivesse sido daquela maneira – reforçou pelas minhas costas quando passei por ele. Eu parei achando que ele fosse dizer mais alguma coisa, mas nada mais foi dito. Ele tocou o meu ombro e eu fechei os olhos, sentindo aquele friozinho de surpresa na boca do estômago e que foi se alastrando pelo meu corpo vagarosamente.
- Eu sei, – falei em resposta a última coisa que ele dissera. – Está tudo bem agora. Já conversamos sobre isso, ok?
Movi o corpo para retornar os passos até a porta, mas segurou o meu braço com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo e num movimento rápido, me virou para si.
- Espera.
- O que... – eu acompanhei a mão no meu braço percorrer o caminho da minha cintura.
- Se está tudo bem mesmo, você não vai se incomodar, não é?
- Não acho que isso seja necessário... – tentei me desvencilhar, mas rapidamente envolveu minha cintura.
- Relaxa. Eu só quero um abraço – pediu num sussurro. Pus minhas mãos em seu peito para que nossos troncos não se encostassem.
Certo. Era apenas um abraço. O que não é nada comparado ao fato de que estávamos nos beijando mais cedo.
Meio sem jeito, envolvi o pescoço de e encostei o queixo em seu ombro quando ele se agachou um pouco. Quase que de modo automático, fechei os olhos e aspirei o que fosse possível do seu aroma delicioso e calmante, desejando com afinco que a sensação do seu corpo colado ao meu permanecesse por alguns dias. Os braços de se estreitaram mais contra o meu corpo, me mantendo bem perto e enterrou seu rosto nos meus cabelos, os beijando depois. Eu sentia o seu coração batendo forte, tão forte quanto o meu e foi então que eu tive certeza que estávamos bem de verdade. Assim como ele, apertei mais os meus braços ao redor do seu pescoço, agora sentindo uma das mãos de percorrerem a minha coluna e parando no meio das minhas costas, como se pedisse para eu não me separar. Ficamos minutos naquela posição, um abraçando o outro, um apertando o outro, um sentindo o outro.
Nos separamos lentamente, o máximo para que pudéssemos nos olhar. Unimos nossas testas com nossos olhares fixaram-se um no outro, a respiração quente e aconchegante de bateu contra o meu rosto e meu corpo se arrepiou. Fiquei quente de repente, sentindo um arrebatamento das vibrações intensas dele passando pra mim de um jeito caloroso e intenso. Rocei a ponta dos nossos narizes devagar e vi piscar pesadamente, subindo a mão nas minhas costas para a minha nuca, me segurando possessivamente pelos cabelos.
- Vamos manter as coisas como elas estão - murmurei segurando delicadamente o seu rosto com as duas mãos.
sorriu. Mas não era como os sorrisos que me faziam querer sorrir junto. Era um sorriso triste, sem humor, sem vida.
- Tudo bem – concordou, respirando fundo. - Amigos, então?
- Amigos - repeti, tirando as mãos dele e me afastando lentamente.
- E quanto tempo você acha que isso vai durar?
Quem paga pra ver?

When the lights go out we'll be safe and sound* -> Quando as luzes se apagarem nós estaremos salvos e seguros (Trecho retirado da música We'll Be a Dream da banda We The Kings).

Capítulo 19

Música do capítulo: Muse - Madness | Letra

Meu material já estava todo guardado dentro da bolsa quando o sinal avisando o fim do último tempo de aula soou. Era o meu primeiro dia de aula desde o acidente e eu já estava pedindo arrego por férias. Com a proximidade dos simulados, os professores apertavam mais. Minha bolsa pesava por causa dos exercícios e trabalhos. Eu só tinha ficado quatro dias em casa por recomendação médica, mas já estava atolada de coisas para pôr em dia.
Apesar de tantas coisas para fazer e estudar, eu não precisava ter que olhar para a cara de Lisa. Ela não estava indo às aulas naquela semana. O boato que rondava St. Olave's School era que a loira oxigenada estava se recuperando de uma cirurgia plástica, pois para ela, depois da nossa briga, seu nariz não era mais o mesmo. Eu me sentia intimamente feliz por isso.
- Uma pena você não poder ir com a gente - Lizzie lamentou, andando ao meu lado pelo corredor lotado. Ela, Katie, Cassie e mais algumas meninas do nosso ano iriam para um pub novo que abriu na cidade chamado Mud Bug. Enquanto minhas amigas se divertiriam enchendo a cara e cantando no karaokê, eu gastaria minha sexta-feira em casa, sem absolutamente nada para fazer.
- Podemos ir quando meu castigo acabar - consolei nós duas. Mais eu do que ela, na verdade. Não estava com raiva e sim desanimada. Se eu não tivesse arranjado aquela briga com Lisa, nada disso estaria acontecendo.
- É. Mas não vai ser a mesma coisa sem você - Lizzie reforçou. - Seria ótimo vomitar naquele vestido azul-marinho que você tanto ama.
- Ah, como você é recalcada, garota!
- Não sou não - Lizzie riu, enlaçando seu braço no meu. - Só estou tentando tirar essa expressão de cu do seu rosto.
- Você pode tentar o quanto quiser, Google, mas não vai conseguir. Um mês inteiro sem sair vai acabar comigo! E olha que antes eu estava agradecendo por ele ao invés de estar enfurnada naquele hospital.
Estávamos atravessando o pátio quando avistei Cassie parada perto da cantina, sozinha, segurando, apreensivamente, o seu fichário laranja.
- Ei loira, o que está fazendo ai? - perguntei quando nos aproximamos. Levantei uma sobrancelha quando Cassie me encarou. Em seus olhos havia ansiedade. – O que você tem, Cass?
- Olhe para o seu lado direito e verá - ela respondeu apontando discretamente com a cabeça. Segui a direção, encontrando Katie e tendo uma pequena discussão no canto. - Estão brigando por causa da Gemma Morgan. De novo. – disse a última frase em tom enfático.
Já era a terceira vez. Aquilo já estava começando a me incomodar de verdade. Discussões entre e Katie eram frequentes por causa do gênio da minha amiga, isso todos já sabiam, mas Gemma Morgan estava realmente decidida a tirar Katie do sério. Mais cedo, no intervalo, antes de ir para a biblioteca terminar meu questionário de História, percebi que Katie já tinha ficado irritada por Gemma não parar de dar sorrisinhos para . Ele não correspondia... Mas também não fazia nada para evitar, o que deixava Katie possessa de ciúmes.
- Estão nisso desde que saímos da sala, há 15 minutos! – Cassie relatou entediada. Nós três estávamos atentas ao casal, esperando o momento certo para impedir que Katie desse um soco no namorado.
- Por mais que a gente saiba que ela é explosiva, não podemos culpá-la totalmente. não está ajudando – falei. Eu, no lugar de Katie, também iria ficar irritada. Uma coisa que sempre fui foi ciumenta.
- Ele gosta de irritá-la – Lizzie simplificou e soltou um breve suspiro. – Talvez goste de apanhar.
- Vai é acabar levanto belo chute nas bolas e aposto que não vai gostar tanto assim – emendei, já imaginando a cena. - Será que ele não vê que Katie é louca por ele e não precisa ficar fazendo esse tipo de coisa pra ter atenção dela?
- Eles sempre foram assim, - Eles vão ficar uma eternidade aí e eu tenho hora pra chegar em casa – avisei, checando à hora no relógio pendurado perto da parede da cantina. – Vejo vocês na segunda. Qualquer coisa liguem pro celular do que ele me passa a chamada sem John estar perto. Encham a cara por mim!
Me despedi de Lizzie e Cassie e rumei, sozinha, para o ponto de ônibus na rua detrás do colégio. não poderia me dar carona já que ele e os meninos teriam treino a tarde inteira.
Antes de virar a esquina, ouvi uma voz conhecida gritando meu nome pelas minhas costas. Girei os calcanhares. Peter vinha correndo sem muito esforço para me alcançar graças as suas pernas compridas.
- Ufa! – deu aquela parada desengonçada por causa da velocidade e resfolegou. Ele tirou os óculos do rosto e passou a mão pela testa razoavelmente suada. O dia estava particularmente quente para nós europeus, desacostumados com o calor. – Você saiu rápido. Por um momento achei que não te alcançaria.
- Tenho hora para estar em casa, Pete – o lembrei, sorrindo do seu modo agitado. – Estava indo pagar o ônibus.
- Ah, esqueci que você está de castigo. Ia te chamar para tomar um milkshake na SOCK’Z – disse um pouco desanimado. Na hora pensei que adora ir as sextas até lá. – Eu até daria uma carona, mas não vim de carro hoje. Posso te acompanhar até o ponto, pelo menos?
Eu diria que não por causa do nosso último momento juntos. Não queria ser indelicada caso Peter tentasse me beijar novamente. Contudo, não queria criar um clima estranho entre nós. Peter também demonstrava que não.
- Claro – acabei por aceitar com um sorriso amarelo. Ele iniciou a caminhada ao meu lado, sem fazer nada além do normal. No instante seguinte terminávamos de virar a esquina.
- Não nos falamos desde antes do seu acidente – comentou olhando para nossas sombras projetadas no chão. – Além dos bilhetes, é claro.
Até aqui eu e Peter não tínhamos nos falado direito pelo meu pouco contato com as pessoas fora de casa. Além do que a falta de tecnologia me permitia no momento. Só tínhamos trocado algumas palavras em bilhetes que vinham dentro dos meus livros. Lizzie que os colocava lá na maioria das vezes, sem que soubesse e eu respondia da mesma forma. Mas nunca, nunca mesmo, tocamos no assunto do quase-beijo-roubado. Era como se o fato não existisse.
- Hoje eu não pude ficar no intervalo porque precisava terminar um trabalho que já era pra ter sido entregue na segunda. As meninas fizeram alguns para me ajudar, mas eu não quis abusar mais.
Paramos na calçada, esperando o sinal fechar.
- E você tá 100% melhor? – atravessamos. Senti sua mão tocando o meu braço, mas não foi mais do que isso.
- Quando esses machucados sararem, - apontei para minha testa e mostrei a mão que eu tinha machucado ao puxar o fio do soro - estarei novinha em folha.
- Fiquei preocupado com você – admitiu sem rodeios. – Não só eu, é óbvio. Só que, infelizmente, eu não podia ir te visitar e acabava por saber das coisas apenas pelas suas amigas. Eu me senti mal com isso.
- Está tudo bem, Pete. Você se manteve presente o máximo que pôde dada a situação que você está com a minha família. Obrigada.
- também me deu algumas notícias – ele não pareceu gostar de dizer aquilo, mas também não parecia que iria aguentar guardar para si. O olhei de rabo de olho e constatei que sua expressão facial reforçava isso. – Foi estranho – Peter olhou meu perfil para ver se eu prestava atenção. – Confesso que fiquei surpreso por ele ter dado o primeiro passo.
Você não é o único.
- Talvez eu seja o elo que irá acabar com essa briga entre vocês – brinquei. O ponto de ônibus estava vazio a alguns passos de distância.
- Acho que não – foi a resposta; clara e rápida. Um tanto quanto seca para ser honesta. Eu esperei por mais alguma palavra que me explicasse o que Peter queria dizer com aquilo, mas ela não foi proferida.
Eu já me preparava para me despedir, pois sabia que o ponto que Peter teria que pega seu ônibus não era o mesmo que o meu, quando ele se acomodou perto da cadeira que ficava presa a estrutura.
- Não precisa esperar comigo. Você vai ter que voltar tudo de novo – disse, apontando para o lado contrário.
- Não vou te deixar sozinha – rebateu convicto, olhando para mim com os olhos semi-fechados por causa da claridade que batia no seu rosto. Eu dei de ombros e sentei ao seu lado, acomodando minhas coisas no colo. Ficamos em silêncio por alguns segundos em que Peter encarou seu par de botas pretas e perguntou: – Vai demorar muito pra você sair do castigo?
- Eu ainda estou na primeira semana – respondi num suspiro. Peter fez uma careta de dor engraçada. – John falou que vou ficar um mês.
- Então posso deixar meu convite já feito? Quero ser a primeira pessoa a sair com você.
- Sinto em te decepcionar, mas eu já combinei com as meninas de sair... Eu até te chamaria para ir junto, mas provavelmente você será o único homem. E mesmo que não fosse ainda tem...
- Tem o , eu sei – completou, com o tom de voz grave, irritadiço. Passou a mão pelo cabelo e olhou para o lado em que eu não pudesse ver seu rosto.
- não é o único cara com quem eu ando, Pete – expliquei com paciência. - , e também são meus amigos. E eles também não gostam de você.
- Eu sei... – concordou cabisbaixo.
- Se você sabe, não deveria estar colocando apenas o nisso.
- Mas é que você se importa com o que ele pensa – Peter virou o rosto da direção do meu e ficou me encarando para, não só ouvir a resposta, mas também para ver se o que eu diria seria verdade.
- Se eu me importasse com o que o pensa, eu não estaria aqui com você – o encarei de volta. - Você tem noção de quantas vezes nós já brigamos por sua causa?
- Sério? – ele perguntou com um sorriso abobado. – Eu imagino que ele tenha dito coisas horríveis sobre mim.
- Ele pode dizer o que quiser, eu não ligo. Você nunca me deu motivos para não te querer por perto. E cá entre nós, os argumentos dele são inválidos. Assim como os seus.
- Então você vai sair comigo quando não estiver mais de castigo?
Ele ficou sustentando o sorriso por um bom tempo enquanto olhava para mim como se pedisse que eu aceitasse o convite.
- É sempre bom sair com você – por fim, concordei. O sorriso dele aumentou ainda mais e por um momento achei que aceitar tinha sido um erro.
De longe, eu vi o ônibus se aproximando e antes de eu me mover, Peter fez o sinal para que ele parasse.
- Eu queria que a gente tivesse mais tempo juntos – lamentou, virando-se para mim depois de fazer o sinal. – E sozinhos.
Fiquei nas pontas dos pés e lhe dei um beijo na bochecha, segurando seu rosto.
– Valeu por esperar comigo – agradeci enquanto me afastava.
Ele assentiu com uma expressão tristonha e recuou para o lado de onde tínhamos vindo. Nós ficamos nos olhando até o ônibus parar na minha frente e a porta abrir. Peter acenou parado perto do sinal e eu entrei, acenando de volta.
Meu caminho para casa foi pensando nele. Como eu iria lidar com o fato de Peter estava cada vez mais demonstrando gostar de mim se eu não sentia o mesmo? É claro que eu gostava da atenção que ele me dava, qual garota não gostaria? Porém, eu não podia pensar só na minha vaidade. Precisava pensar nele também.
Peter era demais. Não só pela beleza, mas por dentro também. Ele era lindo e atencioso. Não me deixava de pernas bambas. A atração que eu sentia era de uma forma branda. Seria tão mais fácil se o que eu sentisse pelo , fosse com o Peter... Havia o fato de John e Helen, aparentemente, terem birra com ele, mas pelo menos a confusão seria menor. E menos complexa, sem dúvida.
Sentei num dos últimos bancos, perto da porta, pus os fones de ouvido e selecionei Heart of Glas, do Blondie. Peguei meu fichário de dentro da minha bolsa de couro. De lá, tirei os bilhetes guardados num compartimento na parte detrás.
“Ei, garota, como assim você vai me deixar sozinho nesse colégio? Lizzie acabou de me contar que você vai ficar mais alguns dias em casa, então resolvi te mandar esse bilhete já que até sem celular você ficou! Oh, como você é sortuda por ter batido a cabeça e ter que ficar em casa! Dá próxima vez que tiver essa bela ideia, me chame, ok? Vamos logo, , não fique muito tempo em casa ou ficará mais gorda do que já é! Já te disse que precisa exercitar essas banhas, certo? Brincadeiras à parte, espero que esteja tudo bem. Desculpe por não poder ir te ver. Eu até iria, mas não quero que você se complique mais com o seu pai. Volte logo. Seu sorriso faz falta”.

P.

Dizia o primeiro, com as letras finas e compridas. Involuntariamente, sorri. Sorri e desejei com todas as minhas forças, que aquele “gostar” que eu sentia, ficasse mais forte, mesmo tendo a plena certeza que não seria como com .
Reli todos os bilhetes, rindo sozinha de alguns, o que fez as pessoas me olharem torto. Mas oras, a culpa não era minha se eu achava engraçado a conversa sobre se o Sr. Barker passava os finais de semana assistindo hentais enquanto usava um extensor de pênis!
Saltei do ônibus antes do ponto certo e passei na lojinha de doces para abastecer o pote do meu quarto já que Emma estava sempre roubando minhas balas. Fui comendo metade do saco pelo caminho até em casa.
Helen estava do lado de fora, usando uma roupa informal; jeans skinny escura e um blusão masculino de algodão. Ela tirava caixas de papelão cheias de dentro do carro. Me viu quando terminava de tirar a última. Ao total eram duas.
- Você sabe que não deveria estar comendo isso antes de almoçar, não é? – me repreendeu de brincadeira. Agachou para pegar uma caixa. – Guarda isso antes que a Molly veja e me ajude a levar isso lá pra dentro.
Molly estava pegando um pouco no meu pé desde que eu voltara do hospital. Eu não ia mais pra escola sem pelo menos comer os ovos mexidos, torradas, bacon e salsinhas com uma caneca cheia de chá preto com um pouco de leite, afinal “O café da manhã é a refeição mais importante do dia”. Eu nem precisava fazer lanche no intervalo depois do café da manhã. Na hora do almoço e jantar, era a mesma coisa. Eu só não reclamava porque a comida de Molly era deliciosa demais.
- Pra quê isso tudo? – perguntei pegando a caixa que restara. Estava bem pesada e lotada de roupas. Helen foi na frente.
- Para os books dos modelos. Esqueceu? – deu um chute fraco na porta da frente e a mesma se abriu com facilidade. – A casa ficará lotada de homens e mulheres seminus. Ainda bem que seu pai não está em casa. Ele odeia essa parte do meu trabalho. Vamos deixar isso tudo no jardim porque o ensaio será lá.
Passamos rapidamente pela cozinha. Molly não estava lá, mas era claro que o cheiro delicioso que vinha das panelas em cima do fogão era seu trabalho.
Um gazebo não muito grande estava acabando de ser feito perto da piscina. Era de madeira clara e as pilastras eram desenhadas com flores por todo o tamanho e panos transparentes caiam como cortinas dando um clima romântico. Dentro e tomando quase todo o espaço, havia um sofá branco com muitas almofadas coloridas e velas. Um pouco mais afastado, estavam todos os equipamentos de fotografia que seriam usados, além de maquiagens, apetrechos e quatro araras lotadas de roupas separadas por cores e sexo.
Jack estava sendo impedido de subir no sofá pelo senhor Connor que terminava de ajeitar o gazebo.
O senhor Connor era um faz-tudo. John estava longe de ser bom em consertar coisas em casa. Ele só sabia projetá-las. Então sempre que precisávamos de algo, Helen chamava o senhor Connor. Ele era bem legal e com certeza havia sido muito bonito quando mais novo. Na verdade ele era um coroa no ápice dos seus 70 anos muito bem conservado. Molly que o diga. Eu começava a suspeitar de que eles estavam flertando. Principalmente porque ela sempre estava mais arrumada quando ele estava por perto.
- Sai daí, Jack! - Helen mandou.
O cachorro se afastou do gazebo, vindo rodear as minhas pernas. Sorrindo para ele, desviei das suas investidas para me derrubar para obter atenção.
- Ficou perfeito, senhor Connor! Não pensei que fosse ficar tão lindo – Helen deu uma boa olhada no resultado. Estava claro em sua expressão que ela estava mais do que satisfeita com resultado. – Muito obrigada. O senhor já pode ir.
Ela deu um envelope, que provavelmente era o pagamento e o senhor Connor se despediu de nós, com o seu costumeiro “menina ” ao falar comigo.
Deixei a caixa que carregava perto das araras, a pedido de Helen. Jack abanou o rabo quando viu que eu estava disponível e sentou no chão, com os olhos castanhos implorando por carinho. Não resisti e agachei, o beijando acima dos olhos, recebendo em resposta uma lambida na bochecha esquerda. Eu era a única pessoa da casa com quem ele era carinhoso.
- Você fica muito mais lindo quando fica desse jeito, sabia? – disse tendo a impressão de que Jack entendia tudo. Ele pôs o focinho nos meus joelhos e fechou os olhos. – Igual ao – emendei baixo, acariciando sua cabeça. Ao ouvir a voz do dono, Jack levantou a cabeça e a entortou, como se entendesse. – Vocês dois deveriam ser mais fofos. Mas acho que isso é o charme de vocês, né. Preferem ser dois bobões charmosos e cheirosos.
- Merda, daqui a pouco Mark e o resto da equipe vão estar aqui! – Helen resmungou alto consigo mesma, sentada na grama e mexendo nas caixas que carregara, perdida entre tantas roupas. – E então virão os modelos... Isso daqui vai ficar uma loucura!
Jack passou os olhos dos meus para Helen e depois voltou para mim, confuso. Cocei sua cabeça e dei um beijo em seu focinho.
- Helen – chamei, me pondo de pé. O cachorro saiu andando para o outro lado do jardim onde ficava sua ração. – Eu não vou ter nada para fazer o dia inteiro. Se quiser, posso ajudar – ofereci.
- Ah, obrigada . Eu vou aceitar sim – sorriu aliviada. – Mas você acabou de chegar da escola. Faz o seguinte: quando o Mark e os modelos chegarem, você ajuda a Molly com a comida, tudo bem? Se precisarmos de você aqui, eu aviso.
- Ok.
Ajeitei a bolsa no ombro e voltei para dentro da casa. Encontrei Molly na cozinha; Ela usava seu avental amarrado na cintura e os cabelos grisalhos presos num coque e descascava batata com um sorriso bobo.
- Eu sei o motivo desse sorrisão todo... - disse depois de depositar um beijo na sua bochecha. Molly levou um pequeno susto, mas continuou com o sorriso. – O nome dele se chama Connor.
- Ah , não invente bobagens! – ela negou envergonhada, como sempre fazia. Tentou disfarçar o sorriso, sem qualquer sucesso. – Senhor Connor e eu somos apenas bons amigos.
- Claro, claro. Bons amigos ficam de sorrisinhos um pro outro o tempo todo... – gargalhei. Molly estava vermelha igual a tomate. – Vocês dois são tão lindos juntos! Já se beijaram?
- ! – censurou. Eu a abracei de lado, rindo. – Vá logo deixar suas coisas no seu quarto e pare de me encher!
- Não pense que vai se livrar de mim. Helen disse para eu te ajudar hoje – falei alto, saindo da cozinha.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta, atirando a bolsa em cima da cama. Conectei o iPod no rádio e o deixei carregar enquanto corria para o banheiro e deixava a banheira enchendo. Voltei para o quarto arrancando o coturno dos pés, pulando em uma perna de cada vez. As meias e meu vestido também foram tirados e deixados no chão. Selecionei o aleatório para tocar e quando minha calcinha e o sutiã caíram no chão do banheiro, a voz com o sotaque carregado da Kate Nash cantando Foundations ecoou num volume bem alto, do jeito que eu gostava.
- Yeah, intelligent input, darling, why don't you just have another beer then?... – cantarolei, fazendo careta com as minhas batatas da perna entrando em contato com a água gelada.
Meu corpo foi relaxando conforme a água atingia cada parte dele, até eu estar sentada. Escorreguei um pouco mais pra baixo e deixei a cabeça na borda, deixando os pés para cima, acompanhando o ritmo animado e rápido da música.
- And everytime we fight I know it's not right, everytime that you're upset and I smile, I know I should forget, but I can't - cantei o refrão, fazendo caras e bocas, imitando com o sotaque inglês. Eu estava começando a ficar boa nisso!
Esperei a música chegar ao final e afundei a cabeça, deixando a mão machucada segurando a borda e pus os pés para dentro de novo. Abri os olhos por debaixo da água, enxergando tudo embaçado e ouvindo outra música entrando abafada pelos meus ouvidos. Meus olhos arderam depois de um tempo e eu os fechei, prendendo a respiração o máximo que era possível.
- O que você quer fazer primeiro? – mamãe perguntou, esfregando o meu couro cabeludo com carinho. Eu estava sentada dentro da banheira enquanto ela me dava banho sentada do lado de fora com aquele sorriso alegre e contagiante no rosto.
- Não sei – era o meu aniversário de seis anos e como regra, eu podia escolher o que queria fazer. E tudo começava cedo. Mamãe e papai sempre faziam as minhas vontades no “meu dia especial”.
Fechei os olhos antes que a pequena quantidade de água reservada num pote, atingisse minha cabeça.
- Vem – ela me enxugou com uma toalha salmão e me levou no colo até o meu quarto. – Nós podíamos ir naquela feira de animais e depois ao cinema. O que acha?
- Vou poder ter um cachorrinho? – eu sabia a resposta, mas sempre fazia. “Não”. Minha mãe tinha bronquite e ter um animal que soltasse pelo estava fora de cogitação. O máximo que eu tinha conseguido era um peixe-palhaço chamado Peixe que tinha morrido em menos de um mês porque eu sempre me esquecia de alimentá-lo.
- As mulheres da minha vida já estão prontas para o super café da manhã do príncipe John? – papai perguntou quando aparecemos na sala. A mesa estava posta e lotada de pães, cucas, queijos, salames, geléias, leite, café, müsli, iogurte e suco.
Eu corri em sua direção e pulei em seu colo. Os olhos iguais aos meus estavam cintilando de tão claros.
- Nossa garotinha está virando uma mocinha agora, !
Como fumaça, tudo se dissipou.
A água fria começava a incomodar como se me queimasse. Meus pulmões pediam oxigênio, enquanto eu forçava minha mente a relembrar aquele momento vivido com meus pais há tantos anos. Eu nem ao menos lembrava que ele existia.
Meus punhos se fecharam com força para reprimir o desespero que o meu sistema respiratório entrava a cada segundo que eu permanecia submersa. Não me movi. Eu queria ficar ali. Por uma fração de segundos, eu desejei morrer. Eu morreria para viver aquele momento de novo.
“Você só está preocupada em ver o seu lado em tudo. Em me rejeitar por um erro que eu cometi anos atrás. Nunca mais faça isso comigo”. disse uma voz masculina.
Levantei de repente. Abri a boca e respirei o mais fundo possível. O ar que entrou por ambos os caminhos, queimou. Chegou a doer com o ritmo que o meu peito subia e descia em pouco tempo. Fiquei tonta e mole. Tossi tão incessantemente que fiquei enjoada e minha garganta arranhou. Mal conseguia deixar os olhos abertos.
Wonderwall do Oasis entrava em forma de zumbido pelos meus ouvidos. Deitei a cabeça na borda da banheira, encolhida e cansada.
O que eu tinha acabado de tentar fazer?
“Reviver um momento da sua infância” outra voz feminina e num tom diferente da primeira se pronunciou.
Só por causa de uma lembrança?
Era só o que faltava agora. Virar uma estúpida garota-suicida! O que minha mãe diria se nós nos encontrássemos de novo, em outra vida? Diria que tinha sido imprudente em acabar com minha vida tão cedo? Ficaria feliz? A que ponto eu estava chegando, ao cogitar a ideia de cometer suicídio por meras lembranças estúpidas?
Fiquei assim; quieta e pensativa.
Eu tinha seis anos e vivia num mundo quase de conto de fadas. Um ano antes de John partir. Um ano antes, eu tinha meu pai comigo, minha família unida. E eu só tinha isso para lembrar. Duas situações completamente distintas para me basear: Uma do meu aniversário, que eu tinha acabado de reviver e a outra, a partida dele.
Poderia haver outras. Milhares delas. Mas eu não me lembrava de nada, como se tudo estivesse bloqueado dentro da minha cabeça. Após a partida de John, era como se minha vida tivesse começado do zero. Só minha mãe tinha permanecido intacta. Sempre presente e carinhosa. Não importava se fosse algo dos meus três anos, ela estaria lá. John também poderia ter estado um dia, mas eu não saberia dizer por que eu não lembraria, se não houvesse fotos. E como quase não existiam fotos dele em casa graças a mim...
Não faço ideia de quanto tempo fiquei ali, pensativa. Nada veio. Nem uma faísca de lembrança sequer. Então eu desisti e minha mãe invadiu naturalmente a minha mente. Meus olhos não queimaram por isso. Me senti triste sim, ainda existia o sentimento de perda, aquela angústia que tinha se tornado parte de mim toda vez que eu me lembrava da minha mãe, mas não senti desespero. Só de saudade. Não senti que tudo ao meu redor tivesse desmoronando e eu não tivesse mais apoio. Eu tinha. Por outras pessoas, de outras maneiras, mas eu tinha. Lamentar não me faria bem. Comecei a pensar que caso minha mãe tivesse conhecido Lizzie, Katie e Cassie, iria adorá-las. O mesmo eu diria sobre os meninos, incluindo Peter.
Pela primeira vez me toquei que para que eu encontrasse verdadeiros amigos, eu tive que perder a pessoa mais importante da minha vida.
Depois de toda aquela reflexão, joguei água no rosto e sai da banheira, me enrolando uma toalha felpuda. Fiz o ritual de me enxugar e depois passei hidratante no corpo todo, penteando os cabelos e trocando o meu curativo da testa. Os sequei e fiz um rabo de cavalo frouxo. Vesti a primeira roupa fresca que vi no closet; um short velho de cintura alta que eu mesma tinha customizado com taxinhas prateadas e um cropped top cinza-chumbo de manga caída, tão velha quanto o short.
Arrumei a pequena bagunça no quarto para que Molly não reclamasse e desci para ajudá-la.
- Eu atendo! – eu estava no último degrau quando a campainha tocou.
- Ah olá, . Helen está no jardim, certo? – Mark finalizou a ligação do celular quando me viu e saiu me atropelando com o resto da equipe em seu encalço, porta adentro. Helen não estava exagerando quando disse que o dia seria uma loucura. - Não se preocupe, nós sabemos o caminho! – gritou desaparecendo pelo corredor.
Mark era um homem esquisitíssimo, estiloso e muito hétero, contrariando a parte de “que todo homem que trabalha como moda, é gay” como algumas pessoas teimam em pensar. Helen tinha me contando que ele já tinha trocado de namorada umas três vezes nos dois últimos meses. Não era por nada, afinal ele era agente de modelo e estava sempre cercado de mulheres lindas, magras e interessadas em agradá-lo para conseguir algum contrato milionário. Só que de bobo Mark não tinha nada.
Depois de comer a carne assada acompanha por verduras cozidas que Molly tinha feito para o almoço, dispensei a torça de maçã e comecei a ajudá-la a fazer comida para o resto da tarde para todo mundo que estava no jardim.
– O que está pensando em fazer para esse povo todo? – perguntei lavando a louça. Do lado de fora já podíamos ouvir as vozes de Mark e Helen falando com os modelos.
- Para começar uma travessa de Trifle - Trifle era um bolo embebido em conhaque ou sherry, recheado com frutas ou geléia e coberto com creme que Helen era apaixonada. – Depois peixe frito empanado com batata frita. Salada com tudo o que tem direito para as magrelas. Ah, para o jantar, purê de batata com almôndegas de frango. Mais alguma sugestão, mocinha?
- Eu acho que isso vai deixar tudo mundo satisfeito, Molly. Tudo o que você faz fica uma delícia!
- Nunca tive uma puxa saco como você, sabia? – ela riu lisonjeada. - Eu vou lá dar um jeito no lavabo porque mais cedo não tive tempo e já volto. Quando terminar aí, comece a espremer as batatas.
Pela porta de correr, dei uma olhada na movimentação lá fora. O som estava ligado tocando Vogue da Madonna. Eu adorava aquela música. Me lembrava O diabo veste Prada, um dos meus filmes favoritos. E pelo que dava pra ver, era uma música que animava não só a mim, mas todos os envolvimentos no photoshoot. Helen, junto com as meninas que enroladas em roupões brancos, dançavam de um lado pro outro.
“Look around everywhere you turn is heartache it's everywhere that you go. Look around, you try everything you can to escape the pain of life that you know, life that you know” A voz da Madonna fez as janelas da cozinha tremerem. Helen do lado de for a cantava aos gritos ao mesmo tempo em que coordenava o que deveriam ser feito com cada modelo masculino.
- When all else fails and you long to be something better than you are today. I know a place where you can get away it's called a dance floor and here's what it's for, so - eu cantei, dando pulinhos no mesmo eixo enquanto descascava as batatas que Molly havia deixado dentro de uma bacia de água. - Come on, vogue, let your body, move to the music, move to the music. Hey, hey, hey, come on, vogue, let your body go with the flow, go with the flow, You know you can do it. Eu balançava o quadril de um lado para o outro, embalada na batida, cantando tão alto quanto conseguia.
- All you need is your own imagination, so use it. That's what it's for, that's what it's for! Go inside for your finest inspiration, your dreams will open the door, open up the door... - eu larguei as batatas e segurei na pia, subindo e descendo sensualmente sem deixar de cantar. Minha cabeça ia de um lado para o outro, de um jeito louco, totalmente controverso com os movimentos do meu quadril. - It makes no difference if you're black or white, if you're a boy or a girl. If the music's pumping it will give you new life. You're a superstar, yes, that's what you are, You know it.
Eu fazia caras e bocas conforme a música avançava, me sentindo a própria Madonna. Meu cabelo já estava todo desprendido do rabo de cavalo, faltava pouco pra chuchinha sair e mesmo assim eu não parava.
- Come on, vogue, let your body, groove to the music, groove to the music, hey, hey, hey. Come on, vogue. let your body go with the flow, go with the flow, You know you can do it.
- Greta Garbo and Monroe, Deitrich and DiMaggio, Marlon Brando, Jimmy Dean on the cover of a magazine. Grace Kelly, Harlow, Jean, picture of a beauty queen. Gene Kelly, Fred Astaire, Ginger Rodgers, dance on air... They had style, they had grace. Rita Hayworth gave good face, Lauren, Katherine, Lana too, Bette Davis, We love you!
Minha voz desapareceu quando virei de frente para a porta da cozinha que dava para o corredor. Emma e estavam paralisados me observando. Ela com os olhos arregalados e boca aberta, me olhando como se eu fosse uma maluca. Ele sorria de braços cruzados, com cara de quem estava se divertindo com a minha performace.
Usava o uniforme de futebol e carregava a mochila da escola num ombro só. Estava todo suado e cheio de lama. A palavra que veio na minha cabeça ao vê-lo daquela maneira foi “sexy”.
- O que você fez com a minha irmã? – Emma falou primeiro. Ela levantou as mãos como se quisesse me parar mesmo que eu não tivesse me movido em centímetro. E então olhou para o . – Eu realmente vi a dançando “Vogue” igual a uma doida? Como vocês esperam que eu seja uma criança normal vendo esse tipo de coisa? Eu juro, nunca mais serei a mesma Emma!
- Vai parar de ser chata então?! – ele perguntou com uma falsa esperança. Recebeu uma cara feia de resposta.
- Eu não estava dançando como uma doida! – disse ofendida, irritada e envergonhada. Eu não dançava tão mal assim! E minhas bochechas ainda estavam pegando fogo! Merda!
Voltei para o lugar da pia que eu não deveria ter sequer tido a ideia de sair.
- Ah, mas com certeza você estava se sentindo a própria Madonna... – zoou, ainda com aquele sorriso nos lábios. – Não há mal nenhum nisso, só que...
- Cala a boca, ! – eu o interrompi, batendo com o pano de prato na pia.
- Vamos começar com esse “” de novo? – ele revirou os olhos.
- É, , cala a boca! – Emma pôs as mãos na cintura. – Não ofenda a Madonna, entendeu?
- Emma! – chiei.
- Eu estou só brincando, – Emma deu o seu melhor sorriso inocente. – Você dança muito bem sim. Meio doida, mas dança. E você – cutucou a barriga de . – Não se esqueça do que nós conversamos no carro. Não seja teimoso!
- Não Emma, eu não vou participar! Já tinha falado com a mamãe sobre isso! – argumentou, mudando as feições do rosto. – Até porque faz muito tempo que eu não faço isso!
- Argh, também não vou mais pedir! – Emma disse em tom derrotado e veio até a mim. – Estou morrendo de fome! – ela cheirou as panelas e depois me deu um beijo depois de eu ter agachado na sua altura.
- Não ficou pro ensaio do coral hoje?
- Ah não, eu queria ver os ensaios dos modelos. Mamãe me deixou faltar.
- E ela disse pra você tomar banho antes de comer – lembrou, colocando a mochila em cima do balcão.
Emma revirou os olhos e disse:
- Já volto – e sumiu pela porta de onde viera, puxando sua mochila rosa.
veio para o meu lado, dando uma olhava no que eu estava fazendo enquanto se encostava em mim para lavar as mãos.
– Então Madonna, você é quem está fazendo o almoço? Por favor, me diga logo porque eu estou faminto e preciso comer algo decente!
- Você merecia uma resposta mal criada, mas sou educada demais para isso, ao contrário de você que é um mal educado e toma o espaço dos outros sem pedir! – revirei os olhos e o empurrei pelo quadril. – Sua mãe me pediu para ajudar Molly com a comida. São muitas pessoas e ela não daria conta de tudo.
- Olha, está sendo útil pela primeira vez na vida, que bom, não é? – me cutucou perto da cintura com a mão molhada e gelada na região que minha pele estava descoberta. Me sobressaltei pelo susto e pela cosquinha. Lateral era meu ponto fraco, definitivamente, e ele sabia muito bem disso. gargalhou gostosa e escandalosamente, jogando a cabeça pra trás. - Sua cara é ótima quando eu faço isso!
- Não faz isso, , você está me atrapalhando aqui! - o repreendi, chegando mais pro lado enquanto fingia irritação para ver se ele parava. - Além do mais, está todo nojento do treino. Vai tomar banho!
- Ah, primeiro quero implicar com você um pouco. Tem muito tempo que não faço isso! Sei que você sente falta - ele gargalhou mais uma vez e me cutucou de novo. Em consequência quase que eu deixei o espremedor cheio de batata cair na pia. - Você se contorcendo é muito engraçado!
- ! – aumentei a voz.
- Só estou brincando com você como faço com a Emma, .
- Mas eu não sou sua irmãzinha, – disse entre o riso e a irritação.
- Nós dois sabemos disso – retrucou automaticamente com a língua afiadíssima, e no momento seguinte, se calou, entendendo o que aquelas palavras significavam.
Seu sorriso morreu na hora e fui olhada com um receio.
Silêncio.
Fiquei tensa instantaneamente. Tentei falar, mas então percebi que não sabia o que responder. Eu pigarreei fingindo não ter escutado nada e desviei os olhos de voltar para as batatas, tentando disfarçar a minha falta de tato para a situação. Apertei o espremedor pensando o quanto eu queria que saísse de perto de mim e rápido. Minhas bochechas queimavam de vergonha enquanto eu me questionava se o propósito era ter me deixado daquela maneira ou se ele realmente tinha falado sem pensar.
Silêncio.
Fiquei um pouco mais calma quando o vi, pelo canto do olho, sair do meu campo de visão periférica. Passei a mão pela testa, tirando algumas mechas menores do meu cabelo que o penteado não prendia mais. Mas é claro que ele continuava ali. Sentia seus malditos olhos nas minhas costas.
Virei para pegar uma cadeira e o encontrei sentado em uma delas. Nós tivemos uma breve troca de olhares enquanto eu caminhava até uma cadeira vazia e a levava comigo, para a pia.
- Eu posso fazer isso pra você – ele se ofereceu andando para o seu antigo lugar, ao meu lado, quando me viu subindo na cadeira para pegar uma panela num dos armários suspensos acima da pia.
- Só estou pegando uma maldita panela, ! – disse bruscamente, sem olhar para baixo. Seu rosto batia na altura dos meus quadris e mesmo sem ver, eu percebi uma movimentação sua próxima do meu corpo.
Fiquei na ponta dos pés, esticando o máximo dos meus braços para pegar a panela, mas ela estava na parte de cima do armário. Pela minha altura eu não conseguiria pegá-la com facilidade. Me estiquei mais do que deveria, fazendo a cadeira balançar também.
- Caralho! – xinguei assustada e de olhos arregalados, me agachando um pouco. Teria sido um tombo horrível.
- Eu posso segurar a cadeira, se você quiser.
Assenti e recebi um sorriso fechado em resposta. Levantei a cabeça para panela e me estiquei mais uma vez. Não fiz mais nenhum movimento e as mãos de agarraram as batatas das minhas pernas. Pensei comigo “Certo, vamos fazer isso sem acidentes. É só não prestar atenção nele”.
Não demorou muito mais do que segundos para que suas mãos deslizassem sensual e vagarosamente até minhas coxas. Parecia que estava mais preocupado em me apalpar do que me segurar de verdade. No começo eu tentei ser indiferente, ou pelo menos achava isso até perceber que meus braços estavam esticados, segurando com força a madeira do armário. Imóvel, deixei que o rosto de se aproximasse até que eu pudesse sentir sua respiração atingindo a lateral da minha barriga. E sem achar um motivo realmente bom para interromper aquilo, eu deixei que suas mãos grandes e quentes tornassem a vagar pelas minhas pernas, subindo e descendo carinhosamente, fazendo meus poros se dilatarem em prazer. Sentia uma sensação de gelo escorrendo pelas minhas costas e tranquei a respiração, fechando os olhos por um breve momento. Uma das mãos passou por dentro do espaço entre as minhas pernas e foi subindo, subindo, subindo...
E eu... eu fui deixando.
Ele queria me tocar. Eu queria que ele me tocasse.
Mas as mãos pararam. Eu olhei para baixo e vi os cantos da sua boca repuxados para cima. Era um meio sorriso, daquele tipo que te desarma, mesmo que não tenha nada de especial. Nada galanteador, nem maldoso, mas que são totalmente simples e sinceros. Você fica hipnotizada por simplesmente por ter aquele sorriso direcionado pra você. Somente pra você.
- Tudo bem aí? – perguntou como se não estivesse há pouco não estivesse me bolinando.
- Não alcanço – disse rapidamente.
me virou de frente pra ele e firmou suas mãos na minha cintura, na intenção de me tirar dali de cima. Eu o segurei pelos ombros e joguei meu peso sobre o corpo dele, que foi me descendo aos poucos, me sustentando como se eu não pesasse nada. Tudo acontecendo em câmera lenta.
Estava fixada nos olhos límpidos dele e não notei quando cheguei ao chão. Ao invés de nos soltar, nós apenas continuamos parados, nos encarando intensamente e sem qualquer outra coisa na mente a não ser ficarmos próximos.
- Você sabe o que eu quero fazer, não sabe? – sua a respiração estava acelerada. Ele inclinou o rosto na direção do meu enquanto alisava minhas costas por debaixo da blusa, chegando perto do fecho do meu sutiã.
Com certeza ele não era o único que queria aquilo.
- Mas sabe que eu não vou fazer, não sabe? – sussurrou, falando pausadamente. Eu concordei, engolindo com dificuldade e com os olhos fixos em cada movimento que os seus lábios faziam. – Eu te prometi: apenas amigos.
Apertei seus ombros e um jato de ar quente atingiu o meu rosto. Foi a vez de fechar os olhos, relaxado, e reabri-los molemente, escorregando a ponta dos dedos pela minha coluna.
- Para de fazer isso comigo – pedi, quase chorando.
- Fazer o que? - sua voz era sombria. O brilho dos olhos desaparecendo e assumindo uma melancolia tão linda e profunda.
- Você sabe - eu estava, literalmente, sendo asfixiada por mim mesma. – Não é justo.
- Nada dessa história é justa, .
Pisquei muitas vezes consecutivas, pensando o que ele queria dizer com aquilo.
Alguém vinha do hall.
- , finalmente você chegou!
e eu nos afastamos depressa e sem graças, nos mantendo ocupados com qualquer coisa que encontramos antes de Molly irromper pela cozinha. Bem, na verdade foi só ele, que fingiu estar procurando algo nos armários enquanto eu voltei a espremer as batatas.
- Você não vai comer isso agora, né? – ela questionou como se o desafiasse a fazer aquilo.
- Estou em fase de crescimento! – exclamou indignado, metendo alguns cookies de baunilha com gotas de chocolate na boca.
Molly colocou nas mãos no quadril largo, olhando para ele com zelo.
- Tudo bem, mas não coma muito ou você vai acabar saindo da dieta que o seu treinador passou – não coma muito? Eu nem podia colocar dois cookies na boca que ela só faltava me açoitar!
- Só mais esses – prometeu, enfiando mais dois cookies inteiros na boca e sorriu mostrando os dentes sujos. - Pela , que não pode comer.
- Você é nojento – não era nojento, era fofo porque ficava com as bochechas cheias parecendo um esquilo guloso, mas eu nunca admitira isso. Nem pra mim.
- Ótimo trabalho, – Molly deu uma checada no que eu estava fazendo, não dando atenção para a pequena rixa que estava rolando ali. - Acho que já temos batatas o suficiente. Não precisa mais espremer.
- Estou pensando seriamente se vou ou não comer. na cozinha não é algo muito confiável, sabe - continuou a implicar, sorrindo debochadamente.
- Ótimo, então quem sabe o senhor não queira ficar no lugar dela? – Molly apontou, nada contente, para um rastro de macha que o tênis tinha deixado. – Ou quem sabe poderia levar esses tênis imundos para a lavanderia. Você está sujando a minha cozinha, !
- Já não sou mais bem vindo, já entendi – ele tirou os tênis com os pés e os segurou com uma mão. Jogou a mochila no ombro e deu um beijo na bochecha de Molly.
- Se fodeu, idiota - sibilei, semicerrando os olhos superiormente.
- Cadê sua educação, mocinha? – perguntou cinicamente.
Eu peguei a primeira coisa que estava ao meu alcance – uma batata descascada ainda inteira – e joguei em sua direção. foi mais rápido e desviou correndo para o jardim, rindo como um desesperado. A batata bateu na parede e ficou por lá mesmo.
- Louca! – gritou lá de fora.
- Ah vocês dois... – Molly suspirou, segurando o riso. – Bem, vamos continuar ao trabalho porque temos muita coisa pra fazer.
- , você poderia vir aqui fora, por favor? – Helen apareceu na porta de correr.
Ela estava rodeada de modelos masculinos, coordenando o lugar de cada um. Acho que nunca fiquei tão perto de homens tão estupidamente lindos e sem camisa de uma vez só. As garotas estavam do outro lado, umas se vestindo, outras se maquiando ou ajeitando o cabelo, com Mark dizendo o que deveria ser feito em cada uma. Vi algumas cochichando quando passei, provavelmente dizendo o quão gorda eu era.
Os garotos me deram passagem e eu me enfiei na roda, um pouco tímida por estar entrando em território desconhecido.
- Meninos, essa é a , minha enteada. Ela vai nos dar uma ajudinha hoje – Helen me apresentou agitada, ajeitando a calça de um dos modelos sem camisa, que estava de costas para ela. – Pronto – disse, dispensando o garoto com as mãos e dirigiu a palavra pra mim. - Preciso que você me ajude aqui já que o Mark está ocupado com as meninas – ela me entregou um caixinha de alfinetes. – Vamos arrumar as calças dos meninos no cós exatamente como eu fiz com aquele ali.
Helen ensinou como eu deveria fazer com as calças e me explicou como seria o ensaio. Os meninos iriam posar apenas de calças jeans, em poses descontraídas, para realçar a naturalidade deles já que aquelas fotos serviriam como portfólio. O das meninas seria um pouco mais elaborado, bem feminino, mas na mesma intenção que o outro seguia.
- , venha aqui – Helen nem ao menos olhou para ele quando passou por perto para entrar em casa. Parecia que ela o tinha sentido. fez uma careta de dor.
- Que foi, mãe? – deu passos capengas como se estivesse indo para um julgamento.
Eu fiquei quieta, ouvindo tudo, e ajeitando a calça de um modelo que fora me apresentado como Josh.
– Josh, essa calça ficou ótima em você – Helen elogiou com uma olhada rápida e virou-se para o filho. – Você não vai mesmo fazer o que eu te pedi, não é?
olhou para o céu e suspirou.
- Mãe, eu não faço isso tem uns três anos! Perdi o jeito.
- Não precisa ficar irritado comigo – ela segurou o rosto do filho, sorrindo carinhosamente. - Só acho que você poderia pegar algumas dicas com o David.
David? Que David? O fotógrafo da agência?
- Você é muito insistente. Puxei isso de você – devolveu o sorriso. – Posso falar com o David depois. Estou cansado por causa do treino.
- Certo, resmungão.
assentiu. Seus olhos se encontraram brevemente com os meus. Recebi uma piscada e um sorriso charmoso antes dele me dar as costas. Automaticamente eu sorri de volta, sem mostrar os dentes, lembrando do que tinha dito na cozinha.
- Oi? – um garoto acenou na frente do meu rosto, cortando a visão que eu tinha de voltando para dentro de casa.
- Ah, oi – olhei pra frente e dei de cara com um peitoral definido e branco. Levantei a cabeça e fui encarada com curiosidade. O garoto era mais poucos centímetros mais alto do que . O cabelo castanho escuro estava bem bagunçado o máximo que o corte permitia. Os olhos azuis, tão claros como os de Peter e a boca carnuda num tom avermelhado. Sem exageros, ele era o modelo mais lindo dali. – Foi mal. Eu estava distraída – eu até evitei olhá-lo diretamente por não estar acostumada em falar com um cara com aquele.
- É, eu percebi – ele deu uma risadinha que tinha sacado para quem eu estava olhando e passou a mão pela franja que o corte de cabelo nas laterais fazia. – é um cara legal. Já trabalhamos juntos.
- ? – fiquei tão surpresa que o olhei nos olhos. – Não sabia que ele é modelo – bem bizarro pensar em fazendo poses para uma câmera.
- Ah, mas ele não é. Pelo menos não oficialmente. Na verdade eu acho que ele prefere ficar na parte de fotografia. Tipo o David – o garoto apontou para o fotógrafo que já estava tirando foto de um trio de meninas. – Você vai sempre ajudar a Helen agora?
- Não sei ao certo – com a mão, pedi para ele ficar de costas para que eu pudesse ajeitar a calça. – É a primeira vez que eu faço isso. Não entendo nada de moda.
- Mas pode aprender – ele virou um pouco o rosto para falar. – Eu também não sabia.
- Não sei se é com isso que eu quero trabalhar. Como eu disse, estou só ajudando.
- Bem – ele se virou para mim quando terminei. – Então com o que você quer trabalhar? Deve ser algo bem legal.
Eu achei que tinha a resposta na ponta da língua, mas foi aí que eu me toquei que não tinha pensado nisso ainda. O que eu iria fazer quando me formasse?
- Eu ainda não sei – confessei, perdida. – Tem acontecido muita coisa comigo, o que não me deixou livre para pensar no meu futuro.
- Eu pretendo me formar em Administração, porque você sabe, carreira de modelo não dura muito tempo. A não ser que eu faça bastante sucesso.
- Tenho certeza que vai – se dependesse apenas da beleza, aquele cara, sem dúvida nenhuma, iria ser o maior sucesso de Helen. Financeiro é claro. Em termos pessoais temos o como exemplo.
- Philip, sua vez – Helen disse alto, procurando por alguém.
Foi nesse momento em que eu descobri o nome do desconhecido ultra-gato com quem eu estava falando sobre o meu futuro. Philip procurou por Helen e depois se voltou para mim, novamente.
- Sou eu. Não tinha dito o meu nome. Sou Philip Ellis.
- – eu só tinha dito por educação. Phillip provavelmente já sabia quem eu era já que Helen tinha me apresentado a todos. – Mas você já deve saber disso.
- É, eu sei.
- Philip! – Helen se aproximou, impaciente. – Estou te chamando! – Philip deu de ombros e foi na direção do gazebo. – E você, mocinha – Helen diminuiu a voz. – Nada de ficar distraindo meus modelos com essa barriga de fora. Se seu pai souber que eu te deixo para os urubus, nunca mais deixa você participar de uma sessão de fotos. Principalmente com modelos homens – ela finalizou com uma piscadela. Helen parecia que ia rir de mim a qualquer momento.
- Desculpa, Helen. Eu não queria te atrapalhar – mordi o canto da boca, receosa. – Acho melhor eu ir lá pra dentro.
Entreguei a caixa de alfinetes que estava atrás do meu bolso do short e entrei em casa. Ao passar pela cozinha, ouvi Emma gritando. Eu corri para o hall a tempo de vê-la descendo a escada e a parei.
- O que aconteceu?! – olhei para seu rosto e corpo, checando se havia alguma parte machucada.
- Me esconde! – exclamou em pânico, abraçando uma caixa retangular, de tamanho médio, com fotografias em preto e branco estampadas.
Lá de cima, entoou sonoramente pelo seu nome.
- Emma, o que você fez? – perguntei séria.
- É do ! – ela só teve tempo de dizer isso. Num minuto estávamos apenas nós duas e no outro estava no topo da escada, muito zangado, ainda usando o uniforme de futebol.
- Emma! – ele tornou a chamá-la. Emma se escondeu atrás de mim. – Eu já disse pra você não mexer nas minhas coisas! Me devolva isso! – dizia enquanto descia.
Antes de qualquer outra coisa, eu me pus bem na frente e estiquei o braço para pará-lo.
- Espera! – disse, autoritária e o olhando determinada.
ficou no penúltimo degrau, com os olhos fervendo direto para a pequena criaturinha trêmula atrás de mim. Nem parecia que estava me enxergando. Era apenas Emma e a caixa que ela segurava.
Emma agarrou a minha cintura e escondeu o rosto.
- Quero a minha caixa de volta – ordenou tão autoritário quanto eu.
- O que tem nela? – questionei, sem demonstrar qualquer receio.
Seus olhos e furiosos subiram até encontrar os meus.
- Não é da sua conta! – retrucou ríspido. – Emma pegou essa caixa no meu quarto e eu a quero de volta!
- Ótimo – cruzei os braços. – Você não vai pegar caixa nenhuma, , enquanto não me disser o que tem ali dentro para te deixar desse jeito.
- Que jeito? Eu só quero a minha caixa!
- Eu só estava brincando, ! – Emma se justificou pelas minhas costas.
- Eu vou te matar, Emma! – tentou passar por mim, mas eu consegui me mover mais rápido e me meti em sua frente.
- Wow, calmae campeão! – estalei os dedos na frente do seu rosto. – Você não vai matar ninguém!
- Por favor, não me pendure na janela pelos cabelos! – Emma choramingou, se agarrando mais a mim.
- Você disse isso a ela? – critiquei, horrorizada. – , ela só tem nove anos! Não tem vergonha?
- Ela é um monstrinho, ! – disse, defensivamente. - Você não percebe que ela está te manipulando? Ela quer que você brigue comigo! Conheço os truques dela!
Emma começou a fazer um barulho sufocado atrás de mim. Eu virei o rosto para entender o que estava acontecendo e... Ela estava tapando a boca para esconder que estava rindo!
- Eu falei! – aponto Emma com a mão, agitado.
- Emma! – censurei.
- Eu sou uma ótima atriz, não sou? – ela já não segurava mais o riso. Segurava a caixa contra o corpo com um braço e mantinha a mão livre na barriga. – Você caiu direitinho, !
- Monstrinho... – eu e dissemos uníssono entre os dentes.
- Ah pessoal, cadê o senso de humor de vocês?
bufou e eu evitei que ele fosse para ir para cima dela.
- Ok, ok, vamos acalmar os ânimos aqui – eu precisava colocar ordem na bagunça antes de Helen descobrisse o que estava acontecendo ali. E só eu sei o quanto ela estava cheia de coisas na cabeça. – Você – apontei para o – Sobe. Vai tomar um banho. Você está usando a casa inteira! Não te quero aqui embaixo tão cedo, entendeu? E você – apontei para Emma. – Muito esperta da sua parte se fazer de vítima, sua manipuladorazinha.
- Isso é como música para os meus lindos ouvidos... – sorriu debochadamente. – Mereço um Oscar!
- Você se divertiu, mas acredite, - continuei. - você está encrencada, Emma. Muito encrencada – levantei uma sobrancelha, lançando o olhar mais maternalmente sério. – Nós duas teremos uma longa conversa.
- E a minha caixa? – gesticulou, esperando uma resposta. – Só vou subir com ela.
- Não vai não – tomei a caixa de Emma em uma só puxada. Ela reclamou e foi ignorada. – Essa caixa está confiscada até a segunda ordem.
- Você não pode fazer isso! Ela é minha! – reclamou como um bebê sem a chupeta. – Me dá!
- Não, ! – girei o tronco para o lado, impedindo que ele arrancasse a caixa de mim. – Ela vai ficar comigo, já disse!
- Você está fazendo isso pra me irritar! – rosnou.
- Sim, estou! – confirmei, empinando o nariz.
- Vai olhar o que tem ai?
- Claro que vou. Você não quis me dizer.
- Ah !
- Deixa de ser um bebê chorão, . Você tá muito grande pra isso, não acha?
- Cala a boca, Emma! – dissemos juntos, olhando para ela na mesma hora.
- Terei que pegar a força, ? – ele virou-se pra mim.
- Experimente – desafiei, empinando os peito.
- Ahhh! – soltou, frustrado. – Desisto! Quer olhar o que tem ai dentro? Foda-se! Não me importo mais! São apenas fotografias velhas! Mas eu as quero ainda hoje!
E tornou a se virar, dessa vez para a escada, subindo os degraus rapidamente, resmungando.
- Babaca! – Emma falou baixinho. desapareceu ao chegar ao patamar e só ouvimos, de lá de cima, a porta do seu quarto bater.
- Sua geniazinha do mal – disse, passando por ela. – Precisava realmente disso?
- Eu só quis terminar o que tinha começado no carro – Emma respondeu, vindo atrás de mim até a sala.
- Por quê?
Nos sentamos de pernas cruzadas, no sofá quadrado em formato de L, uma de frente para a outra com a caixa entre nós. Eu realmente queria abri-la. Estava mais do que curiosa para saber que tipos de fotografias eram. Só que também pensei que se fizesse aquilo, não estaria invadindo a privacidade de .
- Não vai abrir? – Emma perguntou. – Tudo bem abrir, . Eu já fiz isso milhares de vezes.
- Isso realmente não me surpreende, Emma - minha expressão facial dizia muito mais do que minhas palavras. – Me diz por que você fez isso.
- Abre e você vai ver – insistiu.
- Não acredito que nós três tivemos nossa primeira discussão – comentei, rindo se humor. – Tudo por causa dessa maldita caixa e claro, com sua grande ajuda.
- Um minuto – Emma levantou o dedo e depois o passou no canto do olho direito. - Ah claro, isso realmente é comovente – disse sarcástica. Eu apenas me limitei a encará-la indiferente. - Mas será que você pode ver o que tem na caixa?
- Você não pode ter só nove anos... – eu pretendia enrolá-la e enrolar a mim mesma. Alguma coisa dizia para eu não abrir aquela caixa, por mais que o meu lado curioso estivesse falando alto.
Bem, o meu comentário não foi irrelevante porque, bem, Emma não parecia ter apenas nove anos. Não na maioria das vezes, pelo menos.
- Eu sou uma menina prodígio. Tenho um QI alto, sabe? – disse convencida com os olhos piscando. – Agora podemos logo acabar com o suspense?
Eu olhei para a caixa me sentindo meio esquisita e até pouco ansiosa. Cheguei a quase encostar na tampa, mas retrocedi com as mãos. A caixa me olhou de volta e minha imaginação deu um salto de repente, porque eu jurava de pé juntos que a caixa estava falando comigo. E o que ela me dizia era um simples “Me abra”.
- Que seja! – Emma disse, tirando a tampa de uma vez só. – Vê? Nada demais.
O conteúdo não era nada comprometedor, mas a qualidade do que tinha ali eram incríveis! Havia milhares fotografias de paisagens, objetos e recordações de momentos com pessoas conhecidas e desconhecidas por mim. É claro que Lizzie, Katie, Cassie, , e estavam lá. Havia milhares de com os meninos. Milhares mesmo. E fazendo todo o tipo de coisa que meninos fazem.
- Era isso que eu queria te mostrar – Emma contou, quando me viu pegar em uma foto panorâmica de uma rua vazia, cheia de neve e com árvores enfeitadas de pisca-pisca.
- Isso... Foi o quem tirou essas fotos? – Emma assentiu. Eu realmente estava impressionada. Era uma das fotos mais simples e lindas que eu já tinha visto. – Então foi por isso que um dos modelos disse que o prefere ficar com o David. Como eu não sei disso?
- Você não sabe porque o panaca do não tira mais fotos – explicou. - Ele guarda essa caixa em cima de uma prateleira no closet dele pra ninguém ver.
- Por quê? – eu fui caçando outras fotos pela caixa. Uma mais linda que a outra. Definitivamente levava jeito pra coisa.
Emma deu de ombros e fez beicinho.
- Eu e mamãe falamos pra ele participar do ensaio, mas ele não quis de jeito nenhum.
Ah, então a explicação para Emma estar enchendo o saco dele – não que há sempre um motivo – era essa. E Helen também.
Eu estava invejando por conseguir captar aquelas imagens. Não é como hoje em dia que basta você ter uma câmera profissional que você tira fotos do pôr do sol ou sei lá, de uma pessoa rindo. Havia sentimento.
Eram muitas fotos, muitas mesmo. Eu peguei a caixa e despejei tudo em cima do sofá. Algumas caíram nas minhas pernas e outras, nas de Emma. Mas foi uma em especial que me chamou atenção. Caíra bem no meu solo, virada pra cima.
Era de uma garota com o cabelo ruivo puxado pra cor strawberry blonde, cheios e ondulados estavam jogados para um lado só. Os olhos eram verdes bem claros com o contorno mais escuro e a pele era tão branca como papel. Boca carnuda e rosada, nariz pequeno. Ela era muito linda e de aparência delicada. Na foto ela estava deitada de bruços embaixo de uma planta. Encarava a câmera e a boca estava aberta como se estivesse falando.
Eu senti uma certa inquietude olhando pra ela. Uma aflição. Um aperto no peito. Uma angústia. Tudo ao mesmo tempo. Minhas mãos até mesmo ficaram repentinamente úmidas. Eu só pensava “Quem é essa e por que tem uma foto dela?”.
- Emma... – chamei ainda encarando a garota. Engoli a saliva presa na garganta e levantei a foto para que Emma visse. – Você conhece?
Emma estava distraída com uma foto. Ela levantou os olhos e deu um sorriso expansivo.
- Claro que sim! – exclamou. – O nome dela é Lou. É ex-namorada do !
Nos primeiros segundos eu apenas encarei Emma, sem conseguir ter qualquer reação. Aquilo não deveria me surpreender, afinal era um cara de muitas qualidades e obviamente ele já teria tido alguma namorada, mas surpreendeu. E foi deu um jeito bizarro.
Baixei a foto pra mim novamente e fiquei pensando se havia se apaixonado por ela. Mas eu não queria imaginar isso! Me perturbava a hipótese de ter apaixonado por outra garota. De compartilhar momentos íntimos. Argh! Me dava embrulho no estômago pensar isso.
Virei a foto e havia uma dedicatória escrita em letras pequenas e redondas:

“Achei essa foto no outro dia, quando estava mexendo na minha gaveta. Adoro ela. É do nosso primeiro encontro. Depois de bater, você me deu nosso primeiro beijo. O melhor da minha vida! Deixou de ser meu amigo e virou meu namorado.
Fiz uma cópia pra você lembrar também, enquanto eu estiver longe.
Amo você, . Não importa a distância.”

Namorada.
Namorada.
Namorada.
Aquela palavra não parava de soar dentro da minha cabeça. Era irritante!
- Eu gosto dessa daqui – Emma colocou outra foto em minhas mãos.
Mais uma deles dois. Ele sorria e a abraçava por trás, mantendo o braço que segurava a câmera, esticado. Ela, na frente e visivelmente menor que ele, estava com o rosto voltado pra cima, beijando o seu queixo. Por mais que eu odiasse admitir, eles faziam um casal lindo.
parecia muito feliz com ela.

“Seis meses juntos.
Amando você cada dia mais.”

Ver isso doeu muito. Eu nunca tinha sentido nada parecido. Era uma decepção comigo mesma, com ele. Completamente diferente da que eu havia sentido com Sam. Porque eu nem mesmo havia me importado dele estar com Jennifer. Eu havia me importado deles terem fingido serem meus amigos. A quebra de confiança.
Agora era como uma traição de algo especial que e eu tínhamos um com outro. Físico e emocionalmente, mesmo que ele já não estivesse mais com ela e nem chegara a ter comigo, era assim que eu me sentia olhando aquela imagem.
Eu queria ser ela, a tal ruiva bonita. Queria que estivesse rindo por minha causa. Ela era muito mais bonita que eu. Muito mais atraente. Provavelmente era melhor que eu em tudo.
A fotografia escapuliu das minhas mãos e se juntou as demais. Eu não queria mais tocar em nada daquilo. Me dava nojo.
- , o que você tem? – Emma perguntou, unindo as sobrancelhas, preocupada.
- Nada - balbuciei. Fui pegando desajeitadamente as fotos e colocando de volta na caixa. Conforme fui fazendo isso, mais e mais fotos deles dois apareciam. – Estou ótima.
- Você ‘tá com uma cara horrível, isso sim – insistiu.
- Impressão sua – desconversei. Fechei a tapa da caixa e a empurrei para Emma. – Devolva isso ao .
- Mas você nem viu tudo! – argumentou, no seu modo mimado. – Tem umas fotos bem legais!
- Devolva – repeti, encerrando o assunto.
Peguei o controle em cima da mesa de centro e liguei a TV, afundando no sofá.
Emma continuou me fitando, curiosa.
- Pode parar com isso? – pedi, zapeando pelos canais de filmes. Na real, eu nem olhava direito para a tela. Eu só lembrava das fotos de com a ruiva bonitona. Será que ela foi quem terminou? Há quanto tempo? Será que ele ainda gostava dela e por isso não namorou com mais nenhuma garota? As perguntas vinham na minha cabeça uma atrás da outra e eu não consegui pensar direito. Eu não deveria ter mexido na caixa e muito menor ter visto aquelas fotos.
Emma deu um tapinha frustrado na almofada mais próxima e fez o mesmo que eu: se afundou no sofá.
- Não tem nada de bom passando – ela disse, entediada, depois de um tempo.
Ele ainda devia gostar dela, caso o contrário, por que ainda teria aquela fotos? Por que nunca ninguém a mencionou? Qual era o problema das minhas amigas? Eu tinha o direito de saber! Eu deveria saber! Queria tanto saber aonde essa garota tinha se metido para eu não nunca tê-la visto.
- Vou devolver a caixa e ir lá pra fora - Emma avisou, me deixando sozinha no cômodo.
Eu estava tão indiscutivelmente chateada que nem me ofereci. Também não achei que Emma esperasse que eu o fizesse.
Pus a almofada que ela estava usando embaixo da minha cabeça e deitei, querendo descansar um pouco. Ainda estávamos na metade do dia e eu já queria dormir. O calor também não fazia nada para ajudar. Mesmo que não estivesse infernal, de alguma forma ele me deixava com a sensação de abafamento.
Estava repentinamente triste. Não com raiva. Apenas abatida.
- ? – Molly apareceu detrás do sofá, com um pano de prato em um dos ombros. – Está se sentindo mal?
- Não Molly... – sentei novamente, encolhendo as pernas. – Estou bem – ela me olhou como se não acreditasse no que eu estava dizendo. – É sério.
Não consegui forçar um sorriso. Era impossível.
- Deve ser o calor – disse ela, pouco convencida, passando a mão pela minha cabeça. – Acho que você deveria comer um pouco.
Molly era a pessoa mais bondosa que eu conhecia. Queria uma avó como ela.
- Vamos lá terminar de fazer seus deliciosos pratos – levantei e passei o braço pelos seus ombros.
Fiquei a tarde toda enfurnada na cozinha, ocupada demais ajudando Molly. Ocupada demais pensando em o ponto certo em que a comida deveria ficar do que pensar em ou em qualquer outra distração. E eu nem mesmo me forcei a isso. Foi naturalmente. Estava mais preocupada em saber o ponto em que a comida deveria ficar.
Naquela tarde, eu descobri que amava cozinhar e ainda por cima, era boa nisso. Claro que já tinha feito pequenas coisas, como fritar batata ou fazer macarrão, mas não passava disso. Nunca tinha me arriscado da maneira que Molly estava me ensinando.
- Hm... – Molly provou com a colher o tempero do frango assado que resolvemos substituir no lugar das almôndegas. Eu esperava que ele estivesse tão igualmente bom como o dela. – Está uma delícia! Você leva jeito, !
Eu estava me empenhando ao máximo anotando tudo no caderno de avisos que ficava pendurado na geladeira, e por isso, Molly tinha me deixado fazer algumas coisas por conta própria, com a sua supervisão.
O próximo passo era aprender a fazer o Trifle. O sabor seria de chocolate, por escolha de Helen, e minha mão esquerda já estava preparada para anotar passo a passo.
Lá pelo final do dia, estávamos com todos os pratos feitos, inclusive o jantar. Emma, que tinha ficado o tempo inteiro ajudando (ou atrapalhando, se você quiser ver por esse lado) Helen e o resto da equipe, nos ajudou a arrumar a mesa do jardim para que todos pudessem lanchar.
Molly dissera a todos que eu tinha feito grande parte das coisas e recebi muitos elogios. O que foi realmente motivador. Não que eu fosse a próxima Olivier Anquier, mas pra quem não sabia fazer praticamente nada...
Depois de todos comerem, Molly e eu levamos tudo para dentro. Ela ficou encarregada de levar a louça e eu, secá-la. Helen e o resto recolhiam os equipamentos, enquanto os modelos se preparavam para irem embora.
- Parece que de agora em diante terei uma concorrente – Molly brincou comigo.
- Como se alguém fosse preferir a minha comida a sua, né.
Nessa hora a campainha tocou e Molly pediu para que eu fosse ver quem era. Dei uma pequena corrida até a porta, abrindo-a abruptamente.
A última pessoa que eu pensei que veria tocando minha campainha, estava parada na minha bem frente.
- Ainda bem que foi você quem atendeu – Peter suspirou, com os olhos cobertos por óculos de lentes arredondadas à La John Lennon.
- Aconteceu alguma coisa com você? – disparei.
Ele deu um sorriso fraco, jogando os cabelos para trás.
- Eu vim aqui porque preciso conversar com você.
Conversar?
Eu não queria ser mal-educada, mas... Peter tinha que querer conversar comigo logo hoje? Logo aqui? Eu não queria estar por perto caso John chegasse do trabalho. Ou pior, descesse...
- Pete... – pensei em uma maneira de não ser indelicada e percebi que não havia outra maneira. – Não acho que seja uma boa hora. É melhor você ir.
- É importante – insistiu.
De qualquer maneira, se Peter Bradley tinha vindo até aqui com o risco de ser chutado pela minha família, mesmo que fosse para falar comigo, é porque realmente era importante.
- Espera ae – eu disse, matutando uma mentira que diria a Molly para poder sair de casa.
Não dei mais do que dois passos e encontrei com Helen passando sozinha pelo hall. Ela acabou nos vendo e parou, arregalando os olhos para Peter. Congelei da exata maneira em que eu andava.
- Ah, olá Sr Bradley - Helen o cumprimentou, disfarçando a surpresa muito bem. Ainda dava para ver que ela estava incomodada por vê-lo ali, mas Helen era educadamente polida demais para ser grosseira com alguém.
- Boa tarde Sra – Peter baixou os óculos e falou com certo receio, fazendo um aceno discreto com a mão.
Helen olhou para mim.
- Eu... Vou dar uma volta – avisei tensa.
Fiquei com medo de ver algum tipo de reprovação, mas não houve qualquer sinal. Helen apenas balançou a cabeça afirmativamente e disse:
- Não se atrase para o jantar.
Peguei a minha chave no recente aparador colocado no hall e empurrei Peter para que ele saísse de perto da porta e me seguisse. Saímos depressa dali.
- Pensei que ela fosse me mandar embora – Peter confessou, soltando um riso nervoso, quando já estávamos nos afastando da casa.
- Por um momento, eu também – dei uma olhada para trás para me certificar de que ninguém nos espionava pelas janelas. – Mas a Helen nunca faria isso. Nem com você.
- Ela ainda é a mãe de , – Peter disse como se quisesse deixar algo por subentendido.
- Você ficaria surpreso em saber que eles podem ser parecidos fisicamente, mas não compartilham do mesmo gênio.
Nós passamos pela loja de doces que mais cedo eu tinha ido e viramos a esquina, na direção de uma praça circular com muito verde, era onde Emma, pelo que Molly me disse, costumava ir quando era pequena. A maioria dos frequentadores dali eram crianças com suas babás ou mães, então foi uma ótima escolha de lugar que eu e Peter pudéssemos conversar.
Demos a volta pelo chafariz que ficava bem no meio, que continha peixes de variados tamanhos e espécies e nos sentamos num banco de cimento sem encosto que não batia o sol de fim de tarde graças a duas árvores grandes.
- Pronto, acho que estamos seguros aqui – cruzei as pernas sobre o banco. Peter fez o mesmo, ficando de frente pra mim. – Me conte. O que houve?
- Desculpa por ter ido a sua casa assim, eu espero não criar problemas pra você – ele se desculpou, mexendo ansiosamente nos óculos sob o colo.
- Pete, tá tudo bem – toquei em seu antebraço, querendo transmitir segurança, mesmo que aquela ansiedade começava a ser passada para mim. – Você é meu amigo e aquela casa, de certa forma, também é minha. É claro que John provavelmente vai ficar sabendo, mas... Eu não me importo. Agora me diz o que aconteceu.
Peter respirou fundo e levantou os olhos. Ali eu soube exatamente o que ele queria me dizer e eu só pedia mentalmente “Não faça isso”.
- Eu fui pra casa pensando muito sobre o que rolou hoje – foi dizendo. Eu vi que suas mãos estavam trêmulas. – Quero dizer, não só sobre hoje, mas você entendeu, não é? Me refiro a aquele clima estranho que ficamos até você pegar o ônibus.
O que eu ia dizer? Negar? Eu não poderia negar uma coisa óbvia como essa! Muito menos dar uma de idiota!
Eu apenas o encarei. Peter entendendo que eu não iria dizer nada, então continuou:
- Eu te senti meio distante... Senti que você estava me evitando – continuou, com pesar na voz. – E eu tenho certeza que foi por causa daquele beijo que eu tentei te dar na semana passada, então eu quero te pedir desculpas por isso.
- Você me assustou um pouco aquele dia – revelei e no segundo seguinte, vi que tinha dito merda pelo franzido de testa dele. – Não que eu tenha ficado com medo de você, eu só...
- Eu achei que você queria que eu te beijasse – se explicou. - Sabe, você ficou me encarando e... Eu vou dizer logo de uma vez, : desde a primeira vez que eu te vi, eu quis te beijar.
- Nossa, Pete... – levantei as sobrancelhas, espantada e sem graça com a sinceridade que existia naquelas palavras. Eu não tinha ideia do que dizer a ele. – Nunca ninguém foi tão direto assim comigo.
Soltando uma risada nasalada, Peter pegou minha mão que outrora o havia tocado e a segurou com as suas. Elas estavam frias, e ainda assim, admirei e consenti o carinho que seus dedos iniciaram na região das costas.
- E eu nunca fui tão sincero com alguém como sou com você – confidenciou, sem qualquer vestígio de vergonha. Entrelaçou meus dedos nos da sua mão oposta a minha. – Você sabe o quanto eu gosto de você.
- Eu também gosto de você, Pete – ele sorriu quando me ouviu dizer. – É sempre bom ter você por perto.
- É? – esperança. É tudo o que eu poderia definir sobre a expressão estampada no rosto de Peter. – É muito bom ouvir isso.
Era verdade que eu gostava dele, das nossas conversas, da companhia. Peter me atraia, não só pela beleza, mas pelas suas qualidades. Só que isso somente, não bastava. Eu não sabia se conseguiria ter um relacionamento, além do de amizade, pensando e sentindo todas aquelas coisas com .
Metade de mim queria muito ficar com Peter, dar a ele e a mim, uma chance. Mas a outra parte, a de e eu, falava mais alto. Dizia “Não desista dele”.
- Você é um amigo maravilhoso...
- Não comece com esse papo de amigo, – ele se esquivou de mim, revoltado. – Eu estou me declarando para você, e você me diz que eu sou um amigo maravilhoso? Quando você vai se entender de que eu quero mais do que ser seu amigo?
- Eu não sei se posso te dar o que você está pedindo – eu precisava ser sincera com ele, mesmo sabendo de que aquilo poderia custar a nossa amizade. É errado dar falsas expectativas, principalmente quando se tem consideração a outra parte envolvida.
- Você gosta de outra pessoa? – desconfiou.
Gostar? Eu logo pensei em . Então era isso que eu sentia por ele? Eu gostava mesmo dele?
Foram perguntas retóricas que eu fiz a mim mesma por alguns segundos. O tempo pareceu congelar enquanto os questionamentos eram unidos com cenas em que estava. Cena de nós dois ou apenas momentos em que eu me pegava o observando, como quando fui com as meninas em um dos seus treinos. Ou quando nos vimos pela primeira vez e ele sorriu tão sacana que me deixou totalmente sem fôlego.
A cada dia que passava, eu sentia um desejo por ele crescer e ao mesmo tempo, uma admiração pelo seu caráter, pelo seu jeito de defender seus ideais, mesmo que não fossem os mesmos que os meus. Não precisava de muita coisa para eu gostar de . Ele sempre foi tão ele, com uma personalidade tão forte que seria impossível passar despercebido. E mesmo que ele nem sempre seja a pessoa mais aplicada com as palavras, ninguém pode negar que é sim uma pessoa doce e carinhosa.
Então, afinal, quem eu quero enganar? É claro que eu gosto de ! Isso está estampado na minha cara com um letreiro coberto de pisca-piscas coloridos! É exatamente foi isso que eu não consigo ficar longe dele. Basta chegar perto, que eu fico mole como gelatina. Se quisesse me beijar na cozinha, eu não ia repelir. Se ele quisesse tirar a minha roupa ali mesmo, eu não ia negar. Esse é o exato motivo pelo qual eu não quero ficar com Peter. Eu quero ficar com o ! O cara que o meu pai tem criado como filho dele, divide uma irmã de nove anos e mora comigo debaixo do mesmo teto! E ainda por cima, o cara pelo qual eu abri as minhas pernas pela primeira vez! E como tinha sido bom fazer isso! Sentir todas aquelas sensações e ver que ele também sentia. Eu nem podia me lembrar de sem roupa em cima de mim sem ficar – desculpe pela palavra usada, mas ela é a única que pode descrever – molhada!
- ? – Peter me tirou da divagação.
- De certa maneira sim – eu não estava mentindo. Se eu tivesse dito “sim”, corria o risco de Peter me perguntar quem era se é que ele já não sabia. – Mas é complicado.
Peter soltou um “hm” pensativo. Depois de alguns segundos em silêncio, eu comecei a achar que ele estava juntando as coisas. Dava pra contar meus amigos do sexo masculino. Só que eu fui surpreendida com um:
- É o tal Sam, não é? Fico feliz que ele não more aqui. Apesar de tudo o que ele fez, entendo que você ainda sinta algo. Vocês ficaram um bom tempo juntos.
Por um momento, eu achei que era sarcasmo, mas aí eu vi que Peter acreditava mesmo que eu ainda gostava de Sam. Porque pensando bem, eu nunca havia dito a ele que tinha entendido que o que eu sentia por Sam não era amor. Por dois motivos: Primeiro) Quando eu havia lhe contado, ainda era recente e eu não pretendia entrar em detalhes. Segundo) Não iria retomar esse assunto. Era chato e fazia eu me sentir mais idiota cada vez que eu lembrava de todos esses anos sendo feita de babaca.
Para Peter, eu apenas tinha contato o necessário sobre os acontecimentos em Kassel.
- É... – fiz uma cara de quem não sabia o que estava dizendo. Omitir não é mentir, eu já disse isso uma vez. Mentir não é o meu forte, isso também já foi esclarecido por aqui. – Mas eu não quero falar sobre Samuel, Pete.
- É, eu sei – Peter esticou o braço na minha direção e pôs uma mecha que se soltara do rabo-de-cavalo, atrás da minha orelha. Ele segurou o meu rosto, roçando o dedão na minha bochecha. Fiquei arrepiada. – Desculpa.
Não era o choque que eu sentia quando fazia carinho em mim, mas era gostoso, então eu deixei.
- Sem problemas.
Ele tirou a mão do meu rosto e a pôs um pouco acima do meu joelho. Segui o toque com os olhos atentos.
- Poderíamos fazer isso dar certo – Peter disse convicto. Eu olhei para ele, sentindo com toda a certeza do mundo de que ele estava certo. Nós poderíamos dar certo... Se não existisse outra pessoa.
- Não há dúvidas quanto a isso pra mim, Pete. Mas agora... Simplesmente não dá. Eu não posso e nem quero mentir pra você quanto ao que eu tô sentindo no momento. Também não estou pedindo pra você me esperar, eu não tenho esse direito. Só espero que você não fique magoado comigo, porque acima de tudo, eu quero preservar a nossa amizade.
Peter sorriu largamente.
- , se eu já sentia admiração e respeito por você antes, depois disso tudo que você me disse, agora eu tenho mais um motivo pra ter a certeza de que você é uma garota incrível.
Eu sorri envergonhada e revirei os olhos.
- Você não vai me convencer a mudar de ideia! – o puxei pelo pulso, para que ele se levantasse comigo. - Vamos, eu tenho que voltar pra casa.
- Ah, droga, achei que estava conseguindo te levar na lábia! – brincou. Peter passou um braço sobre os meus ombros e beijou a minha bochecha. – Você é bem difícil, hein.
- Você vai ter que fazer muito mais do que dizer palavras bonitas, tá? – ao dizer isso, Peter e eu gargalhamos até sairmos da praça.
O sol estava se pondo quando tomamos o rumo de volta. Durante o pequeno trajeto, Peter foi me contando coisas que ele tinha feito durante os dias que não nos vimos. Nada de muito extraordinário ou fora da rotina, tirando a vez em que – por vontade própria – foi até ele dar notícias sobre mim.
- Foi muito estranho não ver me alfinetando. Ele apenas disse “Preciso falar com você” quando eu estava no estacionamento, indo pra aula, e eu olhei para os lados, para ver se algum dos amigos dele estavam por perto para, sei lá, me meter a porrada, mas não estavam! – ele narrava ainda abraçado comigo, quando já estávamos na minha rua. Eu podia notar o espanto em sua voz, mesmo que o acontecimento já com dias passados. – E então ele falou “Só quero te dizer que a está bem e vai voltar pra casa hoje à tarde. Tô indo pro hospital agora”. Eu fiquei muito contente por saber que você já estaria em casa no final do dia, mas triste porque não poderia te ver.
Fiquei muito orgulhosa em saber que tinha agido com maturidade pela primeira vez quando o assunto envolvia Peter. Por mais que eles não se gostassem, Peter era o meu amigo e tinha todo o direito de saber como eu estava. tinha engolido seu orgulho por mim.
- Mas você teve a ideia dos bilhetes. E vale ressaltar, uma ideia muito boa! – eu parei em frente a minha casa e tirei o braço de Peter de cima dos meus ombros. – Eu ainda os tenho guardados no meu fichário.
- Deve ficar lendo e pensando o quanto eu sou um cara maravilhoso – disse convencido.
- Ah, pelo amor, eu não sou obrigada a ouvir essas coisas! - bati fraco no seu ombro.
Peter segurou o meu pulso e me deu um puxão para si. Nossos corpos se chocaram desajeitadamente e eu fui encarada com seriedade.
- Eu tenho que entrar – avisei, abaixando a cabeça se deixar a mínima possibilidade daquilo se transformar em algo mais.
Nesse instante, a porta da frente se abriu. Nós viramos os nossos rostos a tempo de ver . Me afastei de Peter com rapidez e me recompus. saiu e veio na nossa direção.
- Tchau, Peter – joguei as palavras e fui de encontro a . Mesmo com ele não parecendo irritado, eu não queria arriscar. Uma coisa era avisar ao Peter de que eu estava bem, outra completamente diferente era Peter estar na porta da sua casa. – Oi, eu já estava entrando – peguei na mão de e o puxei para nossa casa.
- Eu só quero conversar – ele, delicadamente, tirou a minha mão da sua e continuou andando. - Bradley, quero falar com você – disse a Peter, sem gritar ou falar como se fosse superior.
Eu fiquei parada, achando aquela cena muito bizarra. Quando ficou frente a frente com Peter, eu duvidei de que ele estivesse sendo sincero, só que mais uma vez, ele me provou que eu estava errada. Dali, eu poderia ouvir perfeitamente sobre o que queria falar, mas ele sussurrou o assunto para Peter.
Ambos olharam para mim.
- É particular – informou.
Eu assenti subitamente estuporada. Olhei para os lados para ter certeza de que aquilo não era uma piada. E não era. Eu me senti numa realidade paralela.
Caminhei para a porta ao ver que eles não iriam parar de me olhar enquanto eu não sumisse. Quando olhei para trás, eles já não estavam mais lá. Depois do sentimento de choque, veio o da curiosidade.
Que porra de assunto era esse que tinha que conversar com Peter?
Retrocedi os passos com lentidão, e me esgueirei até a calçada. Os vi conversando na calçada da casa do vizinho, perto de dois carros estacionados. Havia arbustos ali e foi lá mesmo que eu me enfiei, com todo o cuidado, aproveitando a quase-escuridão como auxílio.
- Então você gosta mesmo dela? – foi o que eu consegui entender do final da frase de .
Eu sentei na grama, em meio aos arbustos mais próximos, tirando algumas folhas da frente e apurei os ouvidos. Dava apenas para ver a silhueta deles.
Peter cruzou os braços, mudando o peso de uma perna pra outra.
- Eu estou apaixonado por ela – corrigiu. se mexeu e seu rosto ficou totalmente a mostra na luz da rua. Vi quando seu maxilar travou. Peter felizmente, não notou. – Eu sei que você não gosta de mim, e sinceramente, eu também não gosto de você. Mas eu jamais usaria para te provocar.
Não tinha outro assunto que poderia querer conversar com Peter, a não ser a da briga deles então eu não fiquei tão surpresa quando Peter disse o meu nome. Eu só fiquei surpresa por querer saber aquilo. De ter sido tão direto.
- Ela disse que gosta de alguém... – Peter deixou a frase no ar quando permaneceu mudo. Paranóia ou não, achei que aquele comentário tinha sido quase que uma acusação do tipo “Eu sei de quem ela gosta e você também”.

- Disse? – o rosto de estava de volta a escuridão, mas a entonação em sua voz entregava que ele estava interessado... E preocupado.
Peter ia me entregar? Ele sabia de quem eu tinha falado? Minha vontade era aparece diante deles e gritar “Para tudo!”.
- É. Disse, mas não quem é.
pôs as mãos dentro dos bolsos da bermuda, balançando o corpo pra frente e pra trás devagar.
- Isso também não te importa, não é? Você não vai desisti dela – concluiu. Havia um quê de desafio em seu tom.
- Não, . Não vou – o outro retrucou da mesma maneira. – Se o cara de quem ela gosta é babaca o suficiente para não estar com ela, isso só faz bem pra mim. Eu gosto dela de verdade.
ergueu o rosto, intimidante. A impressão que me deu foi que ele crescera alguns centímetros a mais. Peter podia ser um pouco mais alto, mas era mais forte.
- Boa sorte, Bradley – foi o que ele disse, encerrando a conversa. simplesmente deu as costas a Peter e voltou os seus passos para casa.
- Babaca – Peter resmungou baixo. Deu dois passos para frente, mas parou. Mudando de ideia, ele se virou e andou na direção oposta de .
agiu naturalmente durante o jantar. Helen não nada a respeito sobre a visita de Peter e também não de mostrou irritada comigo. Estava tudo dentro dos patrões normais que se estabeleceram desde que me mudei.
- Bem, agora podemos assistir Senhor dos Anéis! – bem, eu falei em padrões normais, mas não me referia a isso. Mais uma sexta-feira, mais um começo de maratona de Senhor dos Anéis para John. – Quem topa?
Como sempre, Helen e Emma concordaram animadíssimas. Eu achava curioso o fato de elas gostarem mesmo de assistir sempre o mesmo filme.
- E vocês dois? – John perguntou a mim e ao .
- Pô pai, eu combinei de ir à casa do . e , vão pra lá também.
- Ah, tudo bem então.
- Eu topo – disse simplesmente, tirando o resto dos talheres. – Qual deles vai ser?
A cozinha caiu em silêncio. Todos olharam para mim. John ergue uma sobrancelha e trocou olhares com Helen.
Essa minha aceitação com algo que vinha da parte de John não tinha vindo do nada. Desde a minha conversa com no hospital, eu resolvi que não ficaria o tempo inteiro na defensiva. Isso não significava que as coisas iam mudar. Elas apenas seriam feitas com mais consciência e menos pedras nas mãos.
John deu um pequeno sorriso e o desfez imediatamente.
- Pensei que a gente pudesse começar com “O Retorno do Rei” – respondeu expressivamente incrédulo.
- Bem, então vamos adiantando aqui enquanto a Emma te ajuda a colocar o filme – Helen tentou agir naturalmente pegando os talheres da minha mão e os pondo na pia, mas era evidente que ela só tinha feito aquilo para tirar o foco do que eu acabara de fazer.
Uma Emma muito mais animada do que antes puxou John pela mão para irem para a sala. ainda me olhava.
- O que? – sibilei pelas costas de uma Helen agitada.
- Nada – ele sibilou de volta, sorrindo.
Revirei os olhos, fazendo uma careta. mostrou a língua.
- Mãe, tô saindo – andou para a porta dos fundos ao mesmo tempo em que rodava seu chaveiro pelo dedo indicador.
- Não beba, ! – Helen disse para o lugar onde acabara de desaparecer. - Vai voltar que horas?
- Não sei! – ele gritou do jardim. – Qualquer coisa eu ligo e durmo por lá!
- Filhos... Nunca nos dão descanso – Helen disse a si mesma, andando de um lado pro outro limpando a mesa.
- Helen – aproveitando que estávamos sozinhas, decidi falar sobre o ocorrido mais cedo com Peter. Dei a volta na mesa de forma que ficasse de frente pra Helen. – Desculpa por mais cedo. Pelo Peter ter vindo até aqui e tudo mais... Eu não sabia de nada. Você ficou chateada comigo?
Helen deu os últimos retoques na mesa colocando a fruteira no centro e sorriu para mim sem qualquer deboche.
- Claro que não, . O fato de ter tido uma desavença com ele anos atrás, não signifique que você não possa ser amiga de Peter Bradley. Eu conheço o filho que eu tenho e sei que aquela confusão toda não foi apenas por parte do Peter. É claro que eu não contei ao e espero que você também não faça isso. Não quero mais dores de cabeça em relação a esse assunto.
Mal sabia ela que o filho já estava consciente de tudo.
- Pode deixar – não ia dizer nada, pois dizendo, eu teria que falar também que me dispensou para falar com o cara que – supostamente – ele mais tinha rixa. – Eu só quis esclarecer porque gosto muito de você, e não quero que haja um clima chato entre nós por uma coisa tão idiota.
Ela contornou a mesa e deu um peteleco no meu nariz.
- Nós duas e a Emma somos um time nessa casa. Um time para dominar e seu pai e deixá-los aos nossos pés. Precisamos ficar unidas! Ah, - ela baixou a voz num grau - mas também evite comentar sobre o Peter perto do seu pai, tudo bem? Infelizmente ele dá o maior apoio ao , blábláblá... Coisas de homens cabeça-dura.
- Sou um túmulo – cruzei meus dedos indicadores e os beijei. - Também não quero confusões.
- Me diz uma coisa – ela deu uma olhada rápida na porta e aproximou o rosto do meu como uma amiga que estivesse prestes a ouvir uma confissão. – Você gosta dele?
- Do Peter? – eu ri. – Claro que não! Somos apenas amigos. Ele diz gosta de mim, mas não rola.
- Certo – ela disse não se dando por vencida.
- As moças vem ou não? – John gritou da sala.
- Foi ótimo você ter aceitado assistir filme com a gente – Helen disse e então saiu da cozinha.
Eu tive vontade de dizer a Helen que aquilo não significava que minha relação com John iria mudar por causa daquilo, mas seria apenas uma forma de me manter impassível. Ao longo dos dias, eu tentei achar uma forma de “me desculpar” por ter sido tão dura no hospital enquanto John se mostrou tão preocupado comigo. Não só com palavras, e sim com reações. Eu vi e senti. A oportunidade de não precisar falar nada, estava ali.
E convenhamos, eu também não tinha nada pra fazer.
Fiz dois potes de pipoca – um pra mim e pra Emma e outro para Helen e John – e me deitei com Emma no lugar mais fresco: o chão. Não foi tão ruim assim assistir ao filme, tirando os momentos em que John conhecia todas as falas e por isso, falava junto com os personagens. Nada de almofadadas não tenha resolvido por um curto período de tempo.
- Oh, de novo – ao final do filme e depois de se espreguiçar, John viu Emma adormecida. Ele agachou e passou o braço por detrás das pernas dela. – Vem, Emma.
- Papai... – ela disse inconsciente e se aninhou no colo dele.
- Vai ficar ai? – Helen perguntou recolhendo os potes e os copos vazios.
- Vou. Tô sem sono.
- Boa noite então.
- Boa noite – devolvi, zapeando pelos canais.
Sozinha no primeiro andar da casa e no escuro, eu parei na HBO para ver o finalzinho do quinto episódio da terceira temporada de True Blood. Ao final, procurei por alguma coisa interessante em outros canais, mas não achei nada. Àquela hora só estava passando filmes eróticos, o que não era muito a minha praia.
Abri a janela para entrar um pouco de ar fresco na sala quente. Nem sinal de .
Enchi um copo com água e subi. Eu estava tão entediada que até arrumaria meu closet, mas ele já estava arrumado até a última calcinha. Minha única opção do que fazer era a redação de Francês e lá se foi eu me aventurar a escrever por quase duas horas. Escrever não era o problema. O problema era eu não ter prestado atenção na última aula – ou seja, sem anotações - e o professor ter pedido uma redação sobre o que ele tinha falado. Sem uma ajudinha das anotações de Lizzie e por eu mesma estar incomunicável, a coisa ficou complicada. Bolinhas de papeis espalhadas pela minha cama depois, consegui. Minha primeira reação foi rolar na cama e deitar de barriga pra cima, sentindo meus pulsos doendo.
Já passava das 3h quando eu vesti meu biquíni favorito, prendi o cabelo num coque firme no topo da cabeça e me enrolei numa toalha. Se eu teria que ficar entediada, não seria com calor pelo menos.
Toda a casa estava no breu, tirando a parte externa em pontos estratégicos. Sai pela porta da cozinha e nem vi sinal de Jack, que já devia estar em profundo sono dentro da sua casinha perto da árvore.
As luzes internas da piscina realçavam a cor dos ladrilhos azuis, fazendo com que parecesse a cor natural da água.
Dei aquela checada na temperatura da água, colocando um pé pra dentro e só então deixei a toalha em cima de uma das espreguiçadeiras. Tomando cuidado para não acordar ninguém, fui até a garagem e peguei uma daqueles isopores coloridos e compridos próprios para piscina, apoiando meus braços e o queixo nele, deixando que meu peso boiasse sem problemas. Em pouco tempo nem me lembrava do que era sentir calor.
Fechei os olhos, cantarolando o ritmo de uma música bem baixinho, batendo os pés afundados dentro da água com o mínimo de movimento possível, apenas para me locomover. Era muito gostoso ficar daquele jeito. O vento que batia no meu rosto e cabelo era leve e havia um silêncio muito agradável ao redor. Há quanto tempo eu não ficava daquele jeito, sozinha, mas não deprimida? Eu já estava me acostumando a morar com Emma, Helen, e John. Ficar o tempo inteiro na companhia de Lizzie, Katie, Cassie, , e . Eram as pessoas mais divertidas, sinceras e amigas que eu já tinha conhecido, mas eu não tinha um tempo pra mim. Estava sempre envolta de tanta gente, mergulhada em tantas conversas, que não tinha tempo de mergulhar, ficar envolta do meu pensamento, da minha própria voz. E quando tinha, eram situações momentâneas. Não estou reclamando e nem devo. Só que às vezes é bom a gente ter um tempo só pra gente. Ficar sozinho, pra mim, nunca foi de todo mal. Só assim conseguimos nos conectar com nós mesmos e pensar nas coisas que queremos/não queremos.
O latido de Jack me fez abrir os olhos. Ele vinha agitado da direção da porta do jardim que levava para a rua, com a língua pendurada.
- Jack, silêncio!
Logo atrás dele, estava . Usava uma bermuda cargo preta, uma regata da mesma cor, que conforme ele andava, grudava no seu tronco e havaianas. Ele sorriu para mim, contornando a piscina. Me afundei até o pescoço.
- Não era para você estar dormindo, mocinha? – Jack o seguia como um cão-guarda.
- Não era para você estar na casa do , mocinho? – o imitei, sorrindo com deboche. Nadei até a borda mais próxima e descansei meus braços ali.
- Fomos expulsos quando Cassie chegou – ele fez uma cara como se aquela situação fosse decorrente pouco antes de puxar sua blusa pra cima de uma vez só e largá-la em cima da minha espreguiçadeira enquanto descalçava os chinelos. – Daí eu resolvi voltar. Tomei um banho e levei o Jack pra dar uma volta comigo. Não tinha nada de bom passando na TV.
- Ei, o que você vai fazer? – perguntei quase engasgando com minhas palavras outra quando ele abriu o botão da sua calça. Ali estava eu com o cara que eu gostava, ficando seminu na minha frente. E ele nem parecia se incomodar.
- Vou entrar também!? – fez cara de óbvio. – Eu dei a volta no quarteirão, tô querendo me refrescar. Pergunte ao Jack!
Jack, que estava descansando deitado perto de nós, mexeu os olhos de um lado para o outro, sem entender. Eu bufei, me sentindo estúpida e fiquei de costas para não ver se despir – como se eu já não o tivesse visto sem nada -, mexendo minhas mãos dentro da água.
entrou na piscina com calma, sentando na borda bem ao meu lado. Eu continuei ocupada demais com minhas mãos, fingindo que ele não existia – e nem que seu corpo não me atraísse nem um pouco. Estava sendo um pouco difícil evitar olhá-lo, mas Deus ia ser bom comigo e me ajudaria nisso.
Ficamos em silêncio. Não era incômodo e nem desconforto. Era tensão mútua. Eu estava trêmula, feito bambu. Era a primeira vez que ficávamos tão expostos um pro outro depois da nossa primeira vez e de certa forma, eu me sentia tímida por ele poder ver meu corpo melhor. Por isso mesmo eu fiquei encolhidinha no meu canto, com água até os ombros.
Ele nadou pela piscina e eu relaxei um pouco, mas sempre em alerta.
Quando olhei pra cima, estava na borda oposta, do outro lado da piscina, me fitando expressivamente. Existia ali um sorrisinho sacana que ele tentava esconder.
- Quando eu era pequeno, eu tinha medo de ficar na piscina sozinho – revelou para quebrar o gelo. Até que ponto aquilo era mentira, eu não sabia. – Na verdade até hoje eu não gosto, por isso que não entrei mais cedo.
- Medo? – mordi o lábio. estava com cara de que iria aprontar. A hipótese me deixou, confesso, com receio e excitada – literalmente falando. – Medo de quê?
Ele foi se aproximando sorrateiramente.
- Porque eu sempre acho que vai aparecer um tubarão.
Eu tapei a boca pra não soltar uma gargalhada estridente que acordaria o bairro inteiro.
- Não tem graça! – ele falava sério, mas eu mal conseguia respirar. Era hilário um cara como , do tamanho dele, da idade dele, do porte totalmente másculo dele, tivesse medo de aparecer um tubarão na piscina. – Você tem medo de escuro! – exclamou defensivamente.
- Mas o meu medo é aceitável – disse entre uma gargalhada e outra, mal notando que ele estava cada vez mais perto. – Desculpa , mas é muito engraçado ouvir isso de você. Isso é sério?
- Claro que é! – confirmou carrancudo. Ele parou bem na minha frente a uns dois passos de distância, indignado. – Eu estou aqui contando uma coisa que nem o sabe, e você fica rindo de mim?
- Desculpa, desculpa – tapei a boca novamente, agora para reprimir outra gargalhada. – Não está mais aqui quem riu. – fiz um zíper imaginário nos lábios.
ficou sério de novo. Vi quando suas sobrancelhas se juntaram.
- Não! – foram questões de segundos para que ele colocasse as mãos nas minhas costelas para me fazer cosquinha. – , para, para, para! Você vai me matar!
Ele me envolveu com um braço só e com a outra mão livre, explorava minha barriga e costela sem piedade ao mesmo tempo em que eu me contorcia e debatia, rindo ao ponto de chorar. Por vezes eu mordi o lábio para não gritar no lugar de rir.
- Agora é minha vez de rir de você! – rebateu, também rindo.
- Socorro! – implorei, sem voz. Eu tentava me libertar dele, mas não havia força o suficiente. As cosquinhas estavam sendo muito eficazes e o braço que me envolvia estava muito resistente as minhas investidas.
- Diz que se rende! – ele disse rindo no meu ouvido, se divertindo as minhas custas.
Meu cabelo já estava solto e úmido da água que espirrava quando eu me debatia, meu rosto, provavelmente muito vermelho. Eu já não tinha mais forças nem pra rir.
- Eu me rendo, eu me rendo! – foi aí que eu consegui golpear pelo menos uma vez. E foi bem no olho direito. O que Lisa tinha machucado dias antes e que já estava curando.
- ‘Taquepariu – ele xingou, me soltando na hora. Eu me virei, assustada. - Acho que tô cego!
- Desculpa . Juro que não foi de propósito! – cheguei mais perto, querendo olhar, mas estava com ambas as mãos em cima do lugar ferido. – ‘Tá doendo muito? Me deixa ver.
Ele tirou as mãos. A região abaixo do olho estava um pouco vermelha. Quando toquei, reclamou.
- Desculpa mesmo!
- Tudo bem, , eu sei que foi sem querer – falou compreensivo. – Nem está doendo tanto assim agora. Foi só a batida.
- , eu não quero te assustar, mas ‘tá sangrando – um filete de sangue estava escorrendo pelo rosto dele. Fiquei muito nervosa por ver sangue. Não tinha problemas com isso, mas essa prova só me fazia eu me sentir culpada. – Acho melhor colocar um curativo nisso.
- Não é nada, ... – ele “pegou” um pouco de água e jogou no rosto. O sangue saiu, mas logo outro filete apareceu. – Viu?
- Deixa de ser teimoso. Vou colocar um band-aid ai.
- Ai, tá bom – concordou contrariado.
nadou até a borda da piscina e saiu suspendendo o corpo com a ajuda dos braços. Vestiu sua roupa e chinelo e eu me enrolei na toalha. Com isso nós entramos em casa, subindo a escada com na ponta dos pés.
- Onde tem band-aid? Minha caixa de primeiros-socorros acabou.
- Eu tenho uma caixa no meu banheiro.
- No seu banheiro? – parou no meio da escada.
Eu virei, estando a dois degraus na frente.
- Algum problema?
- Ahn... Não... – ficou fazendo uns barulhos estranhos com a boca, como se estivesse engasgado, mas eu não dei trela e continuei subindo.
Encostei a porta do quarto e pedi a ele que se sentasse em algum lugar enquanto eu catava a caixa embaixo da pia.
- Eu vou molhar seu quarto – ele disse.
- , pode se sentar.
Deixei a toalha molhada na pia e coloquei o short que tinha usado mais cedo. estava sentado na minha cama, olhando para a mesma quando retornei. Não me viu saindo do banheiro porque estava olhando bem para o lado que eu dormia. Eu diminui o passado conforme avançava. Eu fui andando e observando aquela cena. Talvez fosse loucura minha, mas para mim, ele estava lembrando daquela noite. Eu sempre lembrava, é claro. Às vezes duvidava de que tinha acontecido mesmo e do jeito como aconteceu. Vê-lo ali me deixou com o coração palpitando, a boca seca, as pernas trêmulas e ter certeza de que não só gostava. Eu estava apaixonada por .
Um momento tão simples e tão significativo.
Eu estava tão fodida... Gostar de alguém que não gosta da gente é sempre ruim. Imagina morar no mesmo teto que ela?
- – o chamei num suspiro.
Ele olhou pra frente. Para mim.
- Nossa, nem vi você voltar.
- Você estava distraído – comentei naturalmente, fingido estar normal.
Peguei o menor band-aid que achei e dei a caixa para segurar. Não foi proposital, mas meus seios ficaram bem na altura do seu rosto.
- Ainda dói? – ele encostou no roxo – que não estava mais tão roxo - da minha costela enquanto eu esticava o braço para colocar o band-aid. O toque foi como fogo. Me sobressaltei mais pela delicadeza com que ele tinha usado do que com a cosquinha. Mesmo assim não tirou a mão. Ele fez o contorno do machucado com a sua mão enorme.
Evitar ficar arrepiada foi impossível. Os bicos dos meus seios ficaram protuberantes sob o biquíni. olhou para eles e então levantou os olhos para mim. Vi neles que ele tinha gostado daquilo.
- Não, não dói mais – recuei dois passos, sentindo um leve calor entre as pernas. Calor por todo o corpo. - Eu só espero não ficar com a cicatriz dos pontos – joguei o papelzinho do band-aid ali dentro e apontei para a testa. – Já tenho uma nas costas que eu odeio.
- Por quê? – ele entortou o rosto, interessado.
- Porque parece uma macha. Fica bem na minha coluna. Eu cai de velotrol quando era criança e nunca mais saiu.
- Posso ver? - pediu, se sentando na beirada da cama
A cicatriz ficava acima do nó do biquíni, então eu fiquei de costas e joguei o cabeço pra frente.
- Chega pra trás.
Senti se aproximar até seus dedos tocarem na minha pele.
- Gostei dela – disse, também fazendo o contorno. Eu fechei os olhos, aquele calor entre as pernas aumentou. Engoli em seco. – É bem pequena.
Com uma mão segurou a minha cintura e com a outra, ele desfez o nó do meu biquíni em um puxão. O meu reflexo foi segurar a parte da frente. Nada mais fiz. Eu congelei. Não podia, eu não queria dispensar aquele toque. Era como se eu não fosse eu e ele não fosse ele. Apenas duas pessoas querendo ter um momento gostoso, bom.
Minha visão ficou turva quando os lábios úmidos de tocaram minha pele quente, bem em cima da minha marca. Meu coração dentro do peito palpitava e minhas mãos tremeram.
Senti um tesão tão forte que nem lembrava de respirar. Minha boca ficou seca e minha calcinha, molhada. Lambi os lábios e fechei os olhos, acompanhando pelo tato, os beijos que distribuía pelas minhas costas e o roçar da ponta do seu nariz pela minha coluna. Ele segurava minha cintura com firmeza e cada vez mais, meu coração acelerava. Uma das mãos foi parar na minha barriga, dedilhando a parte de baixo do meu umbigo. Arfei. Eu queria tanto aquilo, ficar com ele, que não me importava o dia seguinte.
Mais uma vez eu estava sendo irracional ao se tratar de .
Ouvi o leve movimento que seu corpo atrás do meu. Girei os calcanhares vagarosamente até encontrar seu peitoral no nível dos meus olhos.
colocou a mão embaixo do meu queixo e erguei o meu rosto.
- Cada parte do seu corpo é lindo, inclusive essa marca que você odeia – sussurrou, curvando os lábios num sorriso perfeito, digno de um suspiro.
Pressionei os lábios um no outro, numa clara demonstração de inquietude. Acho que nunca fiquei com tanta vergonha na vida.
- Você não deveria dizer essas coisas pra mim.
- Eu sou seu amigo, não sou? Então. Eu tenho que te dizer a verdade sempre.
Nós nunca vamos ser amigos, era o que deu queria dizer.
esvaziou todo o peito de uma só vez, soltando o ar em mim. Inclinou-se pra cima de mim, desviando sua boca da minha.
- Boa noite, – depositou um longo beijo na minha bochecha. Que poder de resistência uma mera mortal e com os hormônios a mil tinha contra isso?
Passou por mim e antes que ele tivesse ido de vez, eu sussurrei:
- Boa noite, .
O som da porta se fechando foi como um alívio e uma decepção ao mesmo tempo. Involuntariamente um barulho de engasgo saiu da minha garganta. Eu desamarrei o nó do pescoço, andando até o banheiro e lá, terminei de tirar o short e a parte de baixo do biquíni. Liguei o chuveiro e entrei embaixo da água fria, acolhendo a sua temperatura de bom grado. Aquele calor estava me deixando sobrecarregada.
Encostei na parede de azulejos e fui escorregando até o chão. Minha intimidade gritava por algum tipo de ajuda e foi exatamente o que eu fiz. Fechei os olhos e devagar, fiz minha mão deslizar ao meu clitóris hipersensível, abrindo mais as pernas e movimentando o quadril junto com os dedos quando encontrei o ritmo certo. Eu acelerei a pressão, gemendo e em pouco tempo, senti a sensação atenuante que o orgasmo proporciona. Pela segunda vez, meu prazer tinha nome e sobrenome: .

Capítulo 20

Música do capítulo: The Pretty Reckless - You. | Letra

- Ele não perguntou por que não vamos para a sua casa? - Lizzie arrumava sua bolsa enquanto eu a esperava já com a minha pendurada no ombro pronta para encontrarmos Cassie.
- Eu disse que não dava pra ser lá porque o Brandon estava doente e não tinha ninguém para ficar com ele - contei à ela a mentira que eu tinha inventado. Emma quem tinha me ajudado a encontrar esse álibi. Ter um monstrinho como irmã as vezes pode ter suas vantagens...
O clima entre eu e John depois daquela sessão de Senhor dos Anéis estava mais... como eu poderia dizer? Mais ameno. Eu ainda não me dirigia a ele diretamente, apenas nos casos mais extremos, mas de alguma forma, algo havia mudado entre nós. Talvez porque eu havia cansado de ser a eterna rebelde, talvez porque ele já não forçava mais uma relação de pai e filha. O fato é que eu tinha me aproveitado disso e, durante o almoço de domingo perguntei se eu poderia ir até a casa de Lizzie para almoçar e fazer um trabalho. John pensou bem, mas depois de Helen ter conversado com ele, ele aceitou numa boa.
- Não acredito que você inventou que o meu gato está doente pra poder enrolar seu pai, - ela disse sarcástica. - Você está me saindo uma bela de uma mentirosa!
- Ah Lizzie, ele não me deixaria sair com vocês antes de terminar o meu castigo! Eu tinha que ser convincente! - me justifiquei, sem qualquer demonstração de culpa. - E não fui eu quem inventou isso. Foi a Emma, então culpe ela...
- Mente e ainda coloca a culpa na irmã de nove anos... - disse rindo e me puxou pelo braço.
Nós encontramos com Cassie conversando com os meninos, exceto , assim que saimos do prédio A. Katie também não estava com eles. Mas ao contrário de quem pensa, eles não estavam juntos. Ela tinha ido embora mais cedo, após do intervalo, por não estar se sentindo bem depois de mais discussão por causa de Gemma Morgan. Cassie, Lizzie e eu tínhamos até pensado em ir até sua casa ao invés de ir ao shopping, mas Katie tinha deixado claro - com a sua maneira delicada que estava mais aflorada do que nunca nos últimos dias - que não queria nossa presença.
- Eu posso te buscar depois do treino, se você quiser - sugeriu disfarçadamente aos sussurros quando os outros não prestavam atenção em nós. Estavam mais preocupados em debater sobre a prova de química que teríamos na semana seguinte. - Eu devo sair daqui umas 16h30.
Eu dei uma breve olhada nele, sentindo aquela palpitação forte e um frio na barriga que todo mundo sente quando estamos perto de quem a gente gosta. Era a primeira vez que eu usufruía daquele sentimento sabendo exatamente o que ele significava, e tinha consciência do que era estar de verdade apaixonava por alguém… e era tão bom. Toda vez que eu pensava sobre isso, não sabia como agir com .
A todo custo tentei me acalmar, mas foi incrivelmente difícil.
- Pode ser - aceitei com uma falsa indiferença. Por dentro eu me sentia estupidamente eufórica mesmo que não houvesse motivo para tal.
Ele só está sendo legal com você, idiota!
Pelo canto do olho vi sorrir enviesado, me fitando através dos seus óculos escuros.
- Você o quê? - Cassie perguntou indignada, praticamente aos gritos no meio da praça de alimentação do shopping, enquanto nos empanturrávamos de Burguer King e usávamos nossas coroas de papelão. As pessoas sentadas nas mesas ao lado deram uma espiada para ver o que estava acontecendo. - Por que você não disse nada? Não agarrou ele? Não tirou a roupa?
- Fala baixo, Cass! Ninguém precisa ouvir - Lizzie a censurou e depois se virou pra mim. - Por que você não disse nada? estava ali, na palma da sua mão!
Eu tinha contado à elas sobre o ocorrido no meu quarto com , só não esperei que a reação fosse tão calorosa.
- Acho que é mais fácil dizer que eu estava na palma das mãos dele, né? Literalmente falando - elas balançaram a cabeça em negativa. - Eu fico tão vulnerável quando está perto de mim ou quando ele me toca. Eu nunca tinha feito aquilo antes!
- Aposto minhas duas pernas que se você deixasse, ele mesmo iria preferir fazer aquilo em você! - Cassie exclamou rindo. - adora fazer em mim.
Abaixei um pouco a cabeça, quase encostando o queixo na mesa com medo de que mais alguém além delas pudesse me ouvir.
- Dói? - perguntei em voz baixa, um pouco tímida.
- Ah, dizem que no começo dói um pouco, mas é quando você não está acostumada. Como posso dizer? "Apertadinha", entende? - foi Lizzie quem explicou primeiro. - O meu dói também porque logo que eu perdi a virgindade com o Carl, a gente terminou.
- Ninguém nunca... te tocou, ? - Cassie perguntou com uma curiosidade quase fascinada, com o seu jeito inocente. - Eu sei que você era virgem até pouco tempo, mas você namorou por um ano, não foi? - fiz que "sim" com a cabeça. - Você e Sam nunca fizeram nada?
- Ele nunca colocou a mão por dentro da minha roupa, se é o que você quer saber - respondi brincando com uma batata frita no ketchup. Cassie estava quase subindo na mesa para apertar as minhas bochechas. - Rolava umas mãos pra lá e outra pra cá, mas quando o assunto era sem roupas, eu não deixava. Eu e ele conversamos muito sobre isso, e quando eu estava decidida a deixa acontecer, tudo aquilo aconteceu e... bem, não rolou.
- Então você nunca fez nada? Tipo, nada, nada mesmo?
- Isso é anormal por acaso?!
- Cassie, você está constrangendo a perguntando dessa maneira! - Lizzie se intrometeu, dando um cutucão em Cassie e olhando significativamente pra ela. - Acho que está claro que nunca rolou nada, né?
- Mas é que é tão fofo, Lizzie! - tentou se explicar, falando infantilmente arrastado. - Desculpa , claro que não é anormal. Eu só acho tão lindo! Você era completamente virgem! E como quase não já não falava muito sobre o seu namoro e depois do que aconteceu, menos ainda, eu pensei que vocês tivessem feito alguma coisa, as preliminares por exemplo - abanou o ar sobre a cabeça, espantando aquele assunto. - O que importa é que aquele babaca nunca tocou em você. O dia que fizerem em você, você vai gostar! Vai ser muito especial.
Eu e Lizzie gargalhamos pela maneira que Cassie falou.
- Cass, você é a pessoa mais romântica que eu já conheci - disse, achando realmente muito fofo a maneira com que ela pensava. Cassie enxergava as coisas de outro modo. Existia uma grande convicção no que ela falava.
- Ela sempre foi dessa maneira... Um caso perdido - Lizzie tirou sarro, mas por dentro eu sabia que ela tão romântica quanto a outra.
- Eu realmente acredito que eu e somos pra sempre - seus olhos sonhadores brilharam nesse momento, ignorando qualquer comentário que Lizzie pudesse ter feito. - Sei lá, mesmo que a gente não fique juntos o resto da vida, eu sei que o que a gente vive vai ser especial pra sempre.
Eu senti uma certa inveja dela. Realmente deve ser muito bom ter tanta certeza que o sentimento que temos por outra pessoa é recíproco, não só por palavras, mas por gestos. Estava estampado na cara de que só existia Cassie para ele e vice versa.
- Diferente de você, eu não fiz boas escolhas - ri de mim mesma sem ver qualquer humor na situação. - Meu primeiro e único namorado me trocou por uma garota que eu achava que era minha melhor amiga. Belo exemplo, né?
- Mas agora você se libertou dele e encontrou uma pessoa que gosta de você de verdade!
- Eu gosto muito do Peter, mas...
- Para! - Lizzie me interrompeu bruscamente, fazendo sinal com as mãos. - Ninguém está falando do Peter aqui, . Cassie está falando do .
- Por que sempre temos que entrar nesse assunto? Nós não já conversamos sobre isso. Vocês lembram?
- , é evidente que o gosta mesmo de você - Cassie insistiu, certa em me convencer. - Tá na cara dele!
- Tá bom - eu apenas concordei para não entrarmos mais nesse assunto.
- Tá bom? - Lizzie repetiu ultrajada. Ela pegou a batata frita que estava a meio caminho da sua boca e apontou para mim. - Para de ser burra! Se o não gostasse de você, se sentisse apenas vontade de transar, você realmente acha que ele se daria ao trabalho de te procurar depois do que aconteceu? Você realmente acha que ele tentaria se explicar? Você acha que ele passaria a merda do final de semana dele todo enfurnado naquele quarto de hospital esperando você acordar? É óbvio que não! Se ele te achasse uma garota qualquer, se só sentisse atração, como você mesma diz, você não acha que seria muito mais cômodo pra ele apenas se afastar já que ele conseguiu tirar a sua calcinha? Por que você acha que ele é carinhoso com você? - ela balançou a batata perigosamente. O ketchup quase voou na minha cara. - Pensa! Ele não fez o que fez por causa de você ou dele. Fez por causa do John! Ele chegou primeiro na vida do , ajudou Helen a criá-lo durante todos esses anos e agora só porque você chegou com um belo par peitos e pernas, um bumbum empinado e olhos verdes, acha que vai fazê-lo passar por cima dessa admiração? Sinto muito te informar , mas não vai. O peso que você e John tem na vida do é impossível de igualar. É como se te pedisse pra escolher entre ele e a sua mãe, entende? Ambos são importantes, mas você escolheria a sua mãe sem pensar duas vezes! - e dito isso, ela enfiou a batata frita na boca como um gran finale teatralmente dramático.
Elas não sabiam. Foi por isso que ninguém tinha me falado dela. Elas não sabiam sobre a existência da garota ruiva.
- Ele gosta de outra - revelei num tom que não fizesse meu coração doer tanto, enquanto olhava para as duas.
- Ele não tirar os olhos de você - Cassie reforçou as palavras de Lizzie, completamente surda para o que eu acabara de dizer. Lizzie também parecia não ter me escutado porque concordava com a cabeça tudo o que a outra falava. - Nunca soubemos se o já apaixonado por alguém porque você sabe como ele é caladão. Ele nunca nos contou nada, as garotas com quem ele fica a gente conhece, mas eu sei que ele já gosta de você! 'Tá tipo, escrito na cara de bobo dele quando você tá perto! O problema é está numa situação complicada, . Você não vê isso porque não tem nada a perder. Ele tem. Você só tem que fazê-lo admitir para si mesmo, sabe? Fazer...
- Vocês não me ouviram? Ele gosta de outra garota - olhei para as duas. Dessa vez eu falei em alto e bom som, interrompendo a tagarelice de Cassie sem qualquer delicadeza. Depois que eu terminei minha frase, vi o quanto ela tinha soado raivosa. - gosta de outra garota!
Lizzie tapou a boca de Cassie antes que ela falasse qualquer coisa.
- De onde você tirou isso, garota? - suas sobrancelhas claras estavam unidas numa só linha.
- A Emma me mostrou uma caixa que o tem com muitas fotografias de vocês, dos meninos e de uma garota ruiva. Pelo que li e a Emma me contou, eles namoraram - expliquei, desviando os olhos delas. Não conseguia disfarçar o incômodo que falar sobre aquelas fotos causava em mim.
Lizzie e Cassie trocaram olhares confusos.
- Você tem certeza? - Lizzie perguntou. Cassie ao seu lado fazia esforço para se lembrar. - Qual é o nome dela? Ela é daqui? Nunca vi andando com uma ruiva a não ser eu.
- Eu não sei! - respondi exasperadamente frustrada. - Emma me disse o nome dela, mas eu não lembro!
Diante de mim, Cassie arregalou os olhos e cutucou freneticamente Lizzie, quase a furando no ombro.
- Lizzie, lembra daquela época em que o vivia indo pra casa da tia dele? Será que essa garota não tem a ver com isso? Se ela fosse daqui nós já a teríamos visto, né? Eu lembro que naquela época ele e os garotos viviam de segredinho e depois de um tempo, o até parou de ir lá e ficou esquisitão.
- Lembro! - exclamou a outra, a coroa quase caindo no chão. Num minuto as duas tinham esquecido que eu estava ali e trocavam fatos de sei lá quanto tempo atrás. - Isso foi no primeiro ano, não foi? Lembro sim! Sempre que a gente chegava perto deles eles paravam de falar. Isso durou quase um ano!
- Numa das fotos a garota escreveu uma dedicatória falando sobre os seis meses deles... - informei. Cassie e Lizzie viraram o rosto para mim na mesma hora.
- Hm, ... – ela me chamou baixinho, me esperando sentar ao seu lado, penteando o cabelo, para continuar. - Você vai passar o Natal com a gente agora, não é?
- Sim, Emma - disse incerta. Eu não havia pensado no natal nem mesmo antes de ir a York. - Mas ainda é cedo para pensar nisso, não acha?
- Eu sei, só queria ter certeza - ela fez uma carinha fofa, toda feliz com hipótese de passarmos o Natal juntas pela primeira vez. - Você vai adorar conhecer a família, principalmente a tia Abigail!
- Família? - meu estômago deu uma reviravolta quando imaginei uma casa lotada de pessoas me olhando como se eu fosse um ser de outro mundo. Eu estava visualizando que passaria pela mesma sensação do primeiro dia de aula. - Onde vocês costumam passar o Natal?
- Ah, cada ano passamos na casa de alguém sabe? Ano passado foi nas montanhas. até me ensinou a esquiar... - ela contou como se fosse uma pessoa super vivida. - Pelo que mamãe disse acho que vai ser na casa da tia Abigail, na França. Devemos esquiar por lá também.
< br /> Foi tudo se juntou na minha cabeça em pequenas informações, por etapas: tinha uma tia, a irmã de Helen que se chamava Abigail, que morava na França e se o que Cassie e Lizzie disseram - o fato dele ter ido frequentemente para lá durante um tempo - a tal ruiva era de lá. Uma ruiva francesa.
Minha conclusão causou em mim um de alívio que me deixou leve de um segundo para o outro. Saber que a tal ruiva bonitona estava há quilômetros de distância, mesmo que isso não fosse (ou talvez fosse?) o empecilho para eu ficar com , era ótimo. Tipo, isso não mudava o fato de ter fotos deles dois juntos, mas era quase que uma luz no fim do túnel
- É um absurdo haver outra ruiva na vida do além de mim - Lizzie quis dar uma descontraída na mesa. Deu uma mordida raivosa em seu hambúrguer depois de eu contar sobre minha conversa com Emma. - Você vai ter que perguntar para a Emma o nome dessa garota de novo. Quero dar uma olhada no Facebook dela.
- Não, Lizzie. Vamos deixar esse assunto morrer, eu só contei sobre essa garota porque vocês ficam viajando sobre e eu - me conhecendo bem, eu tinha certeza que se soubesse qualquer outra coisa sobre a garota, principalmente perfis em redes sociais, iria ficar paranoica. E quanto mais paranoica, mas interesse sobre a vida amorosa de eu teria. Isso não era bom. Eu tinha medo de descobrir mais coisas e ficar mal.
- Mas ... Você não está curiosa para saber mais sobre ela? - Cassie fez uma cara de quem não estava se convencendo pela minha ideia. - Porque eu vou ser bem sincera, eu estou aqui morrendo de curiosidade para saber o por que deles terem terminado e se eles ainda mantém contato.
- Claro que eu tenho Cass, mas eu não quero ficar pensando sobre eles. Do que vai adiantar? Eu não posso fazer nada se ainda gosta dela. Não é a primeira vez que eu gosto de alguém que não gosta de mim.
- Então o que você vai fazer? - Lizzie indagou.
- Eu? Continuar como estou e não me meter mais nisso. A única coisa que eu posso fazer é esperar.
O resto do meu mês de castigo se arrastou, mas finalmente chegara ao fim. Outro começara e nada tinha melhorado entre Katie e , que volta e meia faziam as pazes e discutiam pelo mesmo motivo: ciúmes. O cerco se tornava mais fechado conforme Katie pressionava mais para que ele não falasse mais com Morgan. Isso só o afastava mais dela e o aproximava de Gemma, principalmente pelo fato de Katie fazer questão de expô-lo durante as brigas na frente do todo mundo, não importava quem fosse. Katie gritava e dizia coisas pesadas. Era como se ela quisesse, se certa forma, humilhá-lo pela atenção a outra garota. A única coisa que posso dizer que era boa nesses momentos é que não fazia o mesmo, ele a deixava falando sozinha, um respeito que eu em particular apreciei, e infelizmente não era visto pela namorada.
Eu e as meninas tentamos conversar com Katie, mas ela não nos escutava. Os meninos fizeram o mesmo com , mas ele insistia em dizer que Katie não era sua dona. Isso tudo era como um estímulo para Gemma Morgan. Ela gostava de ver o circo pegar fogo e eu percebia que isso fazia o interesse em ficar maior. Eu não culpava Katie por querer que o namorado ficasse longe de uma pessoa que não fazia bem ao namoro deles, nenhuma de nós culpava, eu só queria que ela tratasse esse assunto de outra forma; expliquei, pedi, avisei e tudo entrava em um ouvido e saia pelo outro. Depois de um tempo, paramos de insistir. Katie era muito cabeça dura e só pararia quando algo acontecesse que a fizesse abrir os olhos e ver que aquela não era a maneira mais adequada de tratar uma pessoa que gostava tanto dela.
Isso sem dúvidas comprometeu o seu comportamento. Ela andava – pela primeira vez desde que a conheci – calada, completamente diferente daquela Katie provocativa e com a língua afiada. Estava sempre triste. Às vezes, admito que sentia saudade dos seus comentários ácidos. também estava estranho. Ele, ao contrário do que era, estava mais rabugento e recluso. Os dois quase não ficam juntos no intervalo, e isso constantemente nos deixava sem saber o que fazer já que eles nem ao menos queriam ficar no nosso grupo. Se notava de longe que aquela história não teria um bom fim. O namoro de Katie e estava por um fio