Angelus Novus

Escrito por Belle Castro | Revisado por Natashia Kitamura

Tamanho da fonte: |


Capítulo 01

  Estava um dia lindo, as nuvens pareciam estar a milhares de milhas de distância e o sol raiava forte queimando minha pele exposta no vestido amarelo que eu usava.
  Hoje seria mais uma sexta-feira normal, onde eu sairia da empresa em que trabalho como recepcionista, iria para casa me arrumar para outra noite de bebedeira com os amigos. Amigos estes sendo o melhor casal do mundo que eu já tinha conhecido: Peter e , meus melhores amigos que se oficializaram como um casal de namorados a alguns meses atrás. Com estes dois, a vida era pura alegria, como se a tristeza e solidão nunca pudesse me atingir.
  Saíamos toda sexta desde que meu ex-namorado tinha terminado comigo a exatas 5 semanas. Com as idas ao pub localizado no centro da cidade, minha vida foi voltando a ter cores.

---

  - Olha lá quem vem chegando, galera! A maravilhosa Montana! Palmas para ela! – Peter exclama logo que me vê entrando no pequeno pub que sempre íamos. Além dele e , estavam reunidos mais alguns amigos que estudavam conosco na universidade.
  - Obrigada, obrigada, queridos fãs da maravilhosa falecida. – Rio e logo cumprimento todos que estavam sentados ao redor da mesa redonda cheia de garrafas de cerveja. – Hey, ! – Sento ao lado de minha amiga dando um beijo em sua bochecha.
  - Oi, ! Você veio dirigindo? – Ela pergunta assim que boto as chaves do meu novo carrinho em cima da mesa.
  - Vim. Vou ter que sair daqui, infelizmente, sóbria. – Digo, fingindo que estava secando uma lágrima que havia escorrido de meu rosto. Eram raras as vezes que eu ia embora sóbria, pois as bebidas alcoólicas daquele pub eram maravilhosas e me levavam ao espaço no primeiro gole. – Minha mãe quebrou a perna e agora que está sozinha, terei que ir ajudá-la, então vou pra casa dela.
  - Que triste, amiga! – Ela ri de minha encenação. – Mas você não vai ser a única essa noite. Peter vai ficar de babá amanhã com o irmão mais novo e pra não jogar ele na caçamba de lixo, não vai poder ficar de ressaca, obviamente.
  - Ele de babá? Você vai ter que tirar uma foto para mim deste momento! HAHAHA!
  - Quero só ver no que isto vai dar. – Ela olha para o namorado que ria com nossos outros amigos enquanto bebia um pouco da cerveja que continha dentro da pequena garrafa.

  Apesar de não poder ficar bêbada, nada me impedia de beber algumas garrafas de cerveja ou outros drinks. Bebia um pouco de cada moderadamente, mas sem exageros.
  A noite ia passando com uma rapidez surpreendente; após ter dançando um pouco com e uma outra mulher desconhecida que já havia esquecido o nome, percebi que já eram quase quatro da manhã e eu precisava de algumas horas de sono antes de pegar a estrada, quando o sol já estiver no céu clareando nossas vistas.
  - Gente, preciso ir. Não vou aguentar ficar mais aqui sem cair na tentação das maravilhas e ainda preciso dormir um pouco, pois preciso estar lá na casa de minha mãe antes do meio dia. – Digo enquanto pego meus pertences e meu casaco. – Eu vou indo, mas vocês fiquem até o amanhecer e bebam todas por mim. Tchauzinho! - Aceno para quem ficava e me viro para ir em direção à saída.
  - Tchau, minha querida. Dirija com cuidado! – Escuto Peter gritar atrás de mim.

  Saio do pub e vou em direção ao local aonde tinha deixado o meu carrinho estacionado. Havia o comprado recentemente com todo o esforço que havia feito: aguentando pessoas ricas e mimadas telefonando para mim querendo falar ou marcar uma reunião com o senhor. Credo. Entro no automóvel, logo colocando o cinto de segurança e ligando o carro para ir até meu apartamento no sul da cidade.
  Como era de madrugada, o movimento era escasso, apesar de eu ter visto uns dois ou três, talvez quatro carros perambulando pelas ruas.
  Quase chegando perto do prédio onde eu morava, tive que passar por uma avenida, que nos horários de pico é muito movimentada e, como não havia nenhum carro ou pessoa por ali, resolvo tirar a sandália de salto que calçava.
  Tiro a que estava no pé esquerdo com sucesso, mantendo uma velocidade média constante, mas quando fui tirar a que estava no pé direito, o fecho buga. Não queria tirar os olhos da avenida, mas aquela sandália estava me incomodando muito. Olho para as calçadas que haviam ao lado, só para verificar se não havia ninguém querendo atravessar e meio que me abaixo para conseguir desprender o fecho da sandália, assim libertando o meu pézinho. Demorei alguns segundinhos para conseguir, mas obtive sucesso.
  Quando volto para a posição que estava antes de ter me abaixado, levei um susto.
  Foram segundos. Em um flash mais rápido que o da câmera fotográfica.
  Uma sombra preta na frente do carro.
  Um barulho de uma batida.
  Um som de alguém caindo.
  Paro o carro por conta do desespero. O som das batidas do meu coração poderiam ser possíveis de serem escutadas do outro lado do mundo.
  - Por favor, por favorzinho, minha Santa Kim Kardashian! Por favor, não me faça ir pro andar debaixo! – Faço um tipo de uma reza, tentando obter a coragem de libertar o cinto e sair do carro. – Por favor, que seja uma vaca, um passarinho, um rinoceronte, mas que não seja uma pessoa que tenha filhotes.
  Tomo um pouco de coragem e liberto o cinto, sentindo o frio na barriga aumentar mais ainda. “Desde quando esfriou tanto?”
  Saio do carro descalça e vou dando passos lentos e cautelosos por conta do medo estar se apossando de mim. Quando finalmente dou a volta no carro, olho para o que eu tinha atropelado. O choro me consome. Eu tinha matado uma pessoa.
  Não, não podia ser, não...
   Era um homem. O que aquele ser fazia no meio da rua numa hora dessas?
  Ele estava numa posição muito estranha, as pernas dele uma mais desengonçada que a outra.
  O ar dentro de meus pulmões ficava cada vez mais escasso.
  - Celular... Celular... Cadê o meu celular? – A consciência volta e procuro meu celular para ligar para a ambulância. Abro a porta do passageiro e pego dentro de minha bolsa o celular, logo discando o número da emergência. - Alô? Por favor, preciso de uma ambulância com urgência. Um homem foi atropelado na Avenida das Sete perto da esquina com a Senhora de Lourdes... Não, não fui eu. – Minto, sabendo que não havia radares nem câmeras nesta parte da avenida. – Eu não sei, cheguei agora e vi que tinha uma coisa estirada no chão. Por favor, moça, mande logo que to muito preocupada com ele... Tá, tá, manda vir rápido. – Desligo e apesar de estar muito preocupada mesmo com aquele cara desconhecido, entro no carro, mas não para ir embora e deixá-lo ali estirado no meio da avenida, mas para deixar mais afastado e não poder me incriminar.
  Eu sabia que havia cometido uma terrível tragédia, além de ter atropelado aquela pessoa desconhecida, havia mentido na cara dura para a mulher que havia me atendido, dizendo que não havia sido eu quem cometeu o acidente.
  Demoraram uns 10 minutos para chegarem. Neste intervalo, a única coisa que eu sabia era chorar e soluçar de pavor pelas consequências que poderiam gerar. Nesse meio tempo, agradeci por ele não ter morrido, já que graças a uma palestra de um bombeiro que assisti quando estava no ensino médio fui conferir seu batimento cardíaco; seu coração batia muito pouco, mas mesmo assim era algo.
  Os médicos, ou sei lá quem eram, pularam da ambulância e alguns foram socorrer aquele que estava no chão e outro veio me fazer algumas perguntas. Não sabia o porquê delas, mas respondi algumas tentando não falar a verdade verdadeira. Perguntaram se eu queria acompanhar, respondi que não, apesar de querer saber o que iria acontecer com aquele desconhecido. Eu não o conhecia, mas queria conhecer. Como não poderiam perder muito tempo ali, quem estava fora entrou e logo se foram, deixando apenas uma mulher, eu, nervosa por ter atropelado alguém.
  Entro no carro, antes verificando se havia algo em sua frente, havia um leve amassado onde havia atingido o cara, mas nada muito relevante, apesar de que aquele quem havia sido ferido ser aparentemente “pesado”. Não que ele fosse gordo, mas devido à altura. Faço o resto do percurso em uma velocidade menor do que a de uma formiga andando, por medo de atingir alguém novamente.
  Quando já estou em minha cama, tento dormir, mas os olhos não fecham, temendo relembrar daquele ser que provavelmente irá ser prejudicado. Temendo que ele sofra a partir de hoje por uma coisa que eu fiz.

  Quando o sol raiou, eu não havia nem fechado os olhos.

Capítulo 2

  Estou atrasada... Estou atrasada... Estou atrasada...
  Nada melhor do que chegar atrasada no trabalho pela trilionésima vez.
  Eu corria parecendo uma louca pelas ruas cheias de pessoas indo para seus trabalhos ou turistas visitando as lojinhas que tinham por aí. Era um inferno morar a milhares de quadras do único ponto de ônibus próximo, e ainda por cima ter que pegar ele abarrotado de pessoas.
  Já era para eu ter me acostumado com esta vida cheia de apuros para pegar um ônibus, já que tinha vendido meu carro a 2 anos atrás, mas nunca era possível se acostumar com um transporte lotado quando já se sabia do conforto que um carro só para você podia proporcionar.

---

  - Está atrasada. - Uma das recepcionistas fala.
  Não respondo nada e vou em direção à maquininha de identificação botar meu dedo indicador para que notificasse que horas eu havia chegado.
  Já trabalhava no hospital Saint-Lauren como recepcionista fazia um ano. Não era um trabalho tão glorioso, pois não havia feito medicina para ver pessoas feridas se agonizando de dor, mas mesmo assim, todos os dias eu via esse maravilhoso cenário passando na minha frente. Maravilhoso.
  Dou uma corridinha até a salinha de funcionários, onde coloco o jaleco e o crachá de identificação, guardo minha bolsa, dou uma olhada no espelho para comprovar que eu estava descabelada, para então prender o cabelo num rabo de cavalo.
  - , se você continuar se atrasando sabe muito bem no que vai resultar. - Cléo fala assim que sento ao seu lado, ligando o computador.
  - Eu não faço ideia de como eu chego atrasada se todo dia eu acordo cedo e mal faço tudo o que tenho que fazer. - Claro, até porque eu fico deitada na cama mofando até que o despertador toca faltando uns 10 minutos para o ônibus estar no ponto.
  - Hm. Sei. Você teve sorte hoje que o dono do hospital não passou aqui hoje para averiguar tudo e também que não estava cheio de pessoas até agora. Às vezes parece que todo mundo combina para sofrer alguma coisa que tenha que vir para cá.
  - Coitada de você. - Respondo, enquanto digito o usuário e senha do computador para que se direcionasse ao menu inicial.
  Como recepcionista de um hospital há um ano, eu já tinha visto milhares de pessoas entrarem e saírem. A cada uma delas eu pensava no porquê de estar aqui, mesmo que falassem que foi um acidente de carro ou outro motivo, eu queria saber como aconteceu e como é a pessoa. Em cada uma, eu via aquela pessoa. Cada vez que a porta se abria e passava algum ser inconsciente na maca, eu o via. E era traumatizante que mesmo depois de dois anos, eu não havia esquecido do ocorrido. Eu não sabia quem ele era, não sabia o que aconteceu com ele, não sabia nada. E não me atrevia a procurar pelos arquivos alguma entrada no hospital naquele dia, alguns minutos depois de terem o levado. Vai que não o enviaram para cá...

  - Olá. - Escuto alguém se pronunciar e saio do mundinho que havia criado para olhar para a pessoa. Era uma mulher aparentando ser de idade, mesmo que fosse muito bonita.
  - Bom dia, em que posso te ajudar? - Falo o que sempre falava.
  - Eu queria marcar uma consulta com o doutor , .
  - Claro. Seria para a senhora? - Pergunto receosa, já que o lindo doutor era fisioterapeuta especializado em casos de pós-acidente.
  - Claro que não. - Ela da uma risadinha. - É para meu filho.
  - Hm... Tá. Vocês já tem cadastro? - Pergunto enquanto penso no sofrimento que ela deve ter por ter um filho que deve não andar.
  - Ele deve ter, mas ficamos um bom tempo fora da cidade e voltamos para um novo endereço pois acabamos de nos mudar pra cá. Você vai precisar de uns documentos, né? - Ela pergunta enquanto mexe na bolsa.
  - Sim, sim... Qual seria o nome dele para que eu já abra a página aqui? - Pergunto com os dedos já preparados para digitar o nome do filho.
  - .

CONTINUA...



Comentários da autora
--