Angels The First Season

Escrito por Victor Nobre | Revisado por Naty (Até Capítulo 01) e Mariana

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CHAPTER ONE: THOMAS

  Eu achava que lembranças eram algo que seria fácil de deixar para trás... bolsões de tempo congelados que — por puro e barato sentimentalismo — poderia rever. Mas sendo mais uma indulgência do que uma necessidade. E isso foi antes de perceber que talvez essas, lembranças, fossem a chave para seguir adiante, regredir, ou para recuperar a fé e o futuro daqueles que você mais ama e admira no mundo. Isso foi o que eu percebi antes da minha queda dos céus, me tornando para uns mais outro anjo caído, e seguidor de Cage e servo de Lúcifer.
  Mas, em toda minha vida imortal, eu nunca havia feito um pouso forçado contra uma caçamba de lixo hospitalar comum.
  Só sei que quando acordei, estava caindo. Enormes arranha-céus giravam, aparecendo e sumindo do meu campo de visão. A minha essência imortal comum em todos os anjos estava se dissipando em linhas azuis flutuando em direção ao céu. Tentei voar, me teletransportar para outro lugar, até mesmo virar nuvem e fazer milhares de outras coisas que deviam ser fáceis para mim, devido eu ser um anjo, mas eu só continuei caindo. Despenquei em um espaço estreito entre dois prédios e BAM!!
  Já imaginou coisa mais triste e assombrosa do que o som de um anjo se espatifando contra um amontoado de sacos plásticos cheios de lixo hospitalar comum? (Pois é, também não.)
  Gemendo e me contorcendo de dor. Continuei lá por um bom tempo, minhas narinas ardiam com o fedor de fralda geriátrica de idoso com diarreia, fralda de criança e papel higiênico usado. Minhas costelas pareciam quebradas, embora isso não pudesse ser possível (afinal, eu sou imortal, não sou?). Minha mente estava inquieta e confusa, mas uma lembrança veio à tona — a voz de meu pai, Ângelus: SUA CULPA. SUA TOTAL E EXCLUSIVA CULPA.
  Só aí eu entendi o que havia acontecido comigo. E chorei de desespero.
  Se eu, que sou o anjo do equilíbrio, não fui capaz de descrever o que senti naquele momento, como vocês seres humanos mortais, poderiam me entender? Imagine uma criança, e essa criança tendo seu brinquedo favorito tirado de si, ou o mais comum: ser atingido por um jato d’água na frente de uma multidão às gargalhadas. Imagine a água congelante atingindo seu rosto e preenchendo sua boca, e seus pulmões, machucando a pele. Imagine se sentir impotente, envergonhado, completamente vulnerável, despido pública e brutalmente de tudo que faz você ser você. Minha humilhação foi pior do que isso.
  SUA CULPA, ressoou a voz de Ângelus em minha cabeça.
  — Não! — gritei desolado. — Não pode ser verdade! Por favor!
  Silêncio. Era tudo que havia, ao meu redor naquele beco escuro tinham escadas de incêndio enferrujadas que ziguezagueavam fachada acima, cobertas pelo céu cinzento e impiedoso.
  Tentei em vão lembrar-me de algo sobre minha sentença. Meu pai chegou a dizer quanto tempo duraria esta punição? O que eu deveria fazer para poder retornar aos céus? Bom, eu mal consigo me lembrar qual era a aparência de meu pai, muito menos por que ele decidiu me despejar na terra. Houve uma guerra com os demônios, algo assim. Os Anjos quase derrotados e humilhados.
  De algo tenho certeza: minha punição fora injusta! Meu pai precisava pôr a culpa em alguém, e claro que escolheria o mais bonitos dos anjos do equilíbrio vital, talentoso e popular do céu: eu. (Não, eu não acho que sou convencido, se é o que está pensando.)
  Fiquei deitado por horas no lixo, observando a etiqueta do lado de dentro da caçamba: PARA COLETA, LIGUE PARA 1-555- VAI PRO INFERNO. (Irônico? Nem um pouco. Eu, anjo. Inferno. Sacou agora?)
  Ângelus vai reconsiderar, eu disse a mim mesmo. Ele só está tentando me assustar. A qualquer momento, vai me levar de volta para o céu e me tirar daqui, não sem antes me ensinar uma moral de fábula ridícula.
  — É... — Minha voz soou vazia e desesperada. — É, é isso.
  Tentei me levantar. Queria estar de pé quando Ângelus aparecesse para pedir desculpas. Minhas costelas latejavam. Meu estômago se contraiu. Segurei a lateral da caçamba e me curvei, cuspindo sangue. Acabei caindo por cima de um dos ombros, que bateu no asfalto com um estrondo.
  — Aaaaii. — Choraminguei de dor. — Merda!
  Admito — cá entre nós — ficar de pé não foi nada fácil. Minha cabeça estava girando. Eu quase desmaiei com o esforço. Olhei ao redor e vi que estava em um beco sem saída entre um hospital universitário e uma loja de cd’s retro.
  A uns quinze metros à frente havia uma rua com vitrines sujas que abrigavam escritórios de contabilidade, uma casa de penhores e um Walmart. Eu estava em alguma parte oeste de Manhattam, supus, ou talvez no Brooklyn. Meu pai estava brincando com minha cara.
  Inspecionei meu corpo humano. E parecia um adolescente caucasiano do sexo masculino, usando tênis, calça jeans rasgadas no joelho — peça a qual eu especificamente gostei —, uma camisa branca, que agora estava encardida por conta da queda e uma jaqueta de couro vermelha.
  Gostei, mas preciso de um médico. Eu me sentia enjoado, fraco e mas tão, tão humano.
  E pra falar a verdade, eu nunca em toda a minha imortalidade, entendi como vocês humanos, toleram isso. Vocês passam a vida toda presos em um saco de carne, incapazes de apreciar os prazeres mais simples, como se transformar em um beija-flor ou se dissolver em pura luz.
  E agora, que os céus me ajudem, eu era um de vocês, apenas mais um saco de carne no vasto universo que chamamos de lar.
  Remexi nos bolsos com uma mão enquanto a outra segurava a lateral do meu corpo na tentativa idiota de acabar com as dores nas costelas, ainda torcendo para estar com o meu medalhão Wings, o qual continha minhas asas. Nada.
  Encontrei um smartphone apple, e uma carteira barata de náilon com cem dólares americanos dinheiro o qual eu podia usar para comer, talvez) e uma carteira de motorista provisória do estado de Nova York com a foto de um adolescente idiota, pateta, mas em compensação muito, mas muito bonito que de jeito nenhum poderia ser eu — afinal, eu era mais gato —, com o nome de Thomas Gardner. A crueldade de meu pai não possuía limites!
  Respirei fundo. Ânimo, eu disse a mim mesmo. Devo ter mantido algumas habilidades angelicais. As coisas podiam ser piores.
  Uma voz grossa gritou:
  — Ei, Cade, dá uma olhada nesse otário!
  Havia dois jovens cercando uma garota na saída do beco: um atarracado com cabelo platinado com mechas vermelhas — que mais parecia com aqueles cantores coreanos —, e o outro, alto e ruivo. Os dois usavam moletons e calças largas. Para completar, tinham o pescoço coberto por uma tatuagem de cobra em forma de “S” . Pronto, só faltava a palavra VÂNDALOS grafadas em letras enormes na testa de cada um.
  O ruivo grudou o olhar na mochila que a garota segurava.
  — Pega leve, Mikey. A mocinha aqui parece bem simpática. — Ele sorriu e puxou uma faca de caça do cinto. — Na verdade, aposto que ela quer dar todo seu dinheiro pra gente e sua mochila também, não é?

***


  Culpo minha idiotice e desorientação pelo que aconteceu em seguida.
  Eu sabia que minha imortalidade havia sido retirada de mim, mas ainda me considerava um anjo poderoso! É impossível mudar o jeito de pensar com a facilidade que se pode, digamos, fazer sexo (mandei mal no exemplo, né?) por exemplo.
  Além do mais nas outras ocasiões em que meu pai me puniu me tornando humano (e sim, isso aconteceu mais de uma vez: uma em 1642 durante a derrota de Constantinopla, e outra em 1500 durante o descobrimento do Brasil), eu mantive minhas asas, a força de dez homens e pelo menos parte dos meus poderes angelicais. E supus, que novamente seria assim.
  Eu não ia permitir que dois rufiões levassem a mochila e o dinheiro da garota a minha frente.
  Então, me empertiguei todo e torci para que Cade e Mikey ficassem intimidados diante da minha postura real e beleza angelical (qualidades as quais nunca seriam tiradas de mim, independente o que mostrasse uma carteira de motorista). Ignorei o chorume quente proveniente da caçamba, que escorria pelo pescoço.
  — Eu sou Yurik — anunciei saindo das sombras — Vocês, humanos, têm três escolhas: podem fugir e irem fumar a maconha de vocês em outro lugar ou serão destruídos.
  Eu queria que minhas palavras ecoassem pelo beco, sacudissem os prédios de Nova York e fizessem os céus chovessem desgraça flamejante. Nada disso aconteceu. Quando pronunciei a palavra destruídos minha voz falhou.
  Cade, o garoto ruivo, abriu um sorriso ainda mais largo. Pensei como seria divertido se eu conseguisse fazer as tatuagens de cobra ao redor de seus pescoços ganharem vida e estrangulá-los até a morte.
  E novamente. Eu estava errado.
  — O que você acha, Mikey? — perguntou ele ao amigo. — Devemos fugir e ir fumar nossas maconhas?
  Mikey fez cara feia. Com o cabelo loiro arrepiado, os olhos pequenos e cruéis e o corpo atarracado, ele me lembrava de Julius, um demônio com que eu lutei durante os tempos babilônicos (bons e velhos tempos).
  — Não estou muito a fim de fumar maconha hoje, Cade. — A voz dele parecia a de alguém que comeu cigarros acesos. — Quais eram as outras opções mesmo?
  — Fugir? — disse Cade.
  — Não — respondeu Mikey.
  — Sermos destruídos?
  Mikey riu com deboche.
  — Que tal destruirmos ele e brincar com a garota ali? — perguntou Mikey. — Então?
  Cade jogou a faca para o alto e a segurou pelo cabo.
  — Gostei dessa ideia. Vamos lá?
  Enfiei a carteira no bolso de trás da calça. Puxei o garota que tremia, e levantei os punhos. Não achei que seria legal massacrar humanos até a morte, afinal, eu era um anjo “pacífico”, tão pacífico que a revolução francesa foi iniciada por que a Maria Antonieta não me deixou comer croissants e me deu brioches. Mesmo em meu estado enfraquecido, eu seria bem mais forte do que qualquer humano.
  — Eu avisei — falei. — Meus poderes estão muito além do entendimento de vocês.
  Mikey estalou os dedos e riu.
  — Tudo bem, Percy Jackson. — Cade riu junto e a garota de olhos azuis me olhou assustada.
  A garota colocou as mãos na cabeça e disse.
  — Oh, Meu Deus! Vou ser protegido por um louco.
  — Você devia voltar pros livros. — disse Cade rindo a Mikey.
  Quando estava bem perto, eu avancei. Coloquei toda a minha fúria naquele soco. Devia ter bastado para vaporizar Mikey e deixar uma marca em forma de delinquente no asfalto. Mas ele desviou, o que se mostrou irritante para mim.
  Eu cambaleei para frente. Vamos combinar que quando o todo poderoso elaborou vocês, humanos baseados no modelo de argila de Adão e Eva, fez um trabalho porco. As pernas mortais são desajeitadas. Tentei compensar e usar minhas reservas infinitas de agilidade, mas Mikey me deu um chute nas costas, enquanto Cade ia atrás da garota sorrindo maliciosamente. Eu caí e bati meu rosto angelical no chão. Minhas narinas dilataram como se fossem air bags.
  Meus ouvidos estalaram. Um gosto de cobre inundou minha boca. Rolei para o lado e vi Cade prensando a garota contra a caçamba de lixo, tentando fazer algo que não conseguia identificar, grunhi e logo vi Cade e Mikey juntos em minha frente olhando para mim.
  — Mikey — disse Cade —, você está compreendendo o poder desse cara?
  — Não — respondeu Mikey. — Não estou compreendendo.
  — Tolos! — Gemi. — Vou acabar com vocês!
  — Ah, claro que vai. — Cade limpou a faca ensanguentada e a jogou na caçamba.
  Mikey chutou minha barriga me fazendo gemer de dor.
  — E graças a esse papo de: “Vou destruir vocês”, a loirinha de olhos azuis ali... — apontou para o garoto que estava jogado no chão. — Deve estar sentindo uma dor enorme depois da brincadeirinha que o Cade fez com ele.
  Cade riu e se ajoelhou na minha frente.
  — Mas, espera, Mikey. Ele disse que ia acabar com a gente. — Mikey riu.
  — Mas acho que vamos acabar com ele primeiro.
  O garoto levantou a bota bem acima do meu rosto, e o mundo ficou preto.

CHAPTER TWO: THOMAS — CONVERSA COM A “COISA”

  Eu não era massacrado com tanta violência desde minha aposta com a máfia italiana em mil novecentos e bolinha. E um conselho: NUNCA MEXA COM A MÁFIA!
  Enquanto Cade e Mikey me chutavam, eu me encolhi para tentar proteger as costelas e a cabeça. A dor era cruciante. Eu vomitei e tremi. Apaguei e voltei a mim, com a visão cheia de bolinhas coloridas. Quando meus agressores se cansaram dos chutes, decidiram que era mais divertido bater na minha cabeça com um saco de lixo.
  Eles enfim se afastaram, ofegantes. Cade se aproximou do garoto que ainda estava inconsciente e o cutucou, fazendo uma careta maliciosa. Se virando para Mikey dizendo:
  — Devia se divertir com ele um pouco, se é que me entende. — Mikey riu e foi andando até o garoto.
  Minha visão embaçada não me permitia ver muito, mas ouvi o cinto de Mikey ser desafivelado e ouvi o corpo ser arrastado para longe do meu campo de visão, ouvindo uma hora depois gemidos altos de Mikey enquanto ouvia a garota chorar quando Mikey lhe dizia palavras sujas e pornográficas. Minha ira falou mais alto.
  — Não... — a cabeça caiu de encontro ao chão. — Toquem nela!
  — Olha aqui — disse Cade rindo. — Thomas Gardner.
  Mikey riu enquanto gemia.
  — Thomas? É ainda pior do que Yurik.
  Toquei o nariz e a sensação era de que ele estava do tamanho de um colchão de água, e com a mesma textura. Meus dedos ficaram manchados de vermelho.
  — Sangue — murmurei. — Não é possível.
  Mikey fez um grunhido alto sinalizando que já havia finalizado.
  — Na verdade, é bem possível, Thomas. — Cade se ajoelhou ao meu lado. — E pode haver mais num futuro próximo. Então, você não quer nos explicar por que não tem cartão de crédito? Eu odiaria pensar que bati tanto em você por apenas cem dólares.
  Olhei para o sangue nas pontas dos meus dedos. Eu era um anjo. Não tinha sangue. Mesmo quando fui transformado em humano antes, icor prateado ainda corria em minhas veias. Eu nunca tinha sido tão... Convertido. Devia ser um erro. Um truque. Qualquer coisa.
  Tentei me sentar.
  Minha mão escorregou na pequena poça de sangue que vomitei durante os chutes e eu caí novamente. Meus agressores morreram de rir.
  — Eu adoro esse cara! — comentou Mikey.
  — É, mas o chefe disse que ele ia estar cheio da grana. — reclamou Cade.
  — Chefe... — murmurei. — Chefe?
  — Isso mesmo, Thomas. — Cade deu um peteleco na minha cabeça. — O chefe mandou: “Vão até o beco, acabem com o cara. Vai ser mamão com açúcar!” Ele disse que a gente tinha que acabar com você usando a loirinha ali, que trabalha nesse hospital aqui, disse também que você é bonzinho demais para deixar um inocente ser machucado e pelo visto errou. E isto... — ele balançou o dinheiro no meu rosto. — Não é pagamento digno.
  Talvez o chefe deles fosse um anjo, ou um arcanjo, afinal ninguém poderia saber o local que eu cairia na terra, não especificamente desse jeito. Talvez Cade e Mikey não fossem humanos. Talvez monstros ou espíritos habilmente disfarçados. E isso ao menos explicaria o porquê me deram aquela surra épica.
  — Quem... quem é seu chefe? — me esforcei para ficar de pé. Estava tão tonto que me senti flutuando perto demais da fronteira entre o céu e o purgatório do caos primordial, mas tentei não deixar transparecer e mantive a pose. — Ângelus mandou vocês? Ou talvez tenha sido Sara? Eu exijo uma audiência!
  Mikey e Cade se olharam como se dissessem: Dá pra acreditar nesse otário?
  Cade tirou outra faca.
  — Você não se toca não é, Thomas?
  Mikey tirou o cinto, que agora não passava de uma corrente de bicicleta, e enrolou no punho.
  Decidi retardá-los com meu canto. Eles podem ter resistido aos meus punhos, mas nenhum humano é capaz de resistir a minha voz d’ouro. Eu estava tentando decidir se cantaria “Don’t Stop Believe” ou “Tittanium”, quando uma voz gritou:
  — EI!
  Os delinquentes se viraram. Acima de nós no segundo lance das escadas de incêndio, havia uma garota de uns doze anos.
  — Deixem ele em paz — ordenou ela.
  A primeira coisa que veio à minha mente fora que Sara havia vindo me ajudar. Minha irmã costumava aparecer de diversas formas quando estou em perigo, como uma garotinha, um leopardo, um leão branco ou uma águia. Mas algo me disse que não era o caso.
  A garota na escada de incêndio não transmitia exatamente medo. Era pequena e gorducha, com cabelos escuros e um corte meio bagunçado em forma capacete, usando um colar de metal dourado com o símbolo da lua preenchida por pedras brilhantes. Apesar do congelante frio, ela não usava casaco. Sua roupa parecia ser meio “dark” demais para sua idade, o vestido roxo, salto um pouco alto demais, meia-calça preta. E talvez eu estivesse errado de novo e ela estava indo a uma festa à fantasia vestida de vampira, ou sei lá.
  Ainda assim... Havia alguma coisa feroz e rude em sua expressão. A mesma expressão obstinada da minha ex-namorada, Íris, tinha quando lutava com os demônios.
  Mikey e Cade não pareceram impressionados.
  — Acho melhor você dar o fora, garotinha. — disse Mikey.
  Ela bateu o pé, a escada de incêndio balançou e riu sarcástica.
  — Não. — o sorriso dela sumiu. — Acho melhor você dar o fora daqui!
  A voz anasalada, mas firme e mandona fez parecer que ela estava realmente no controle da situação, só que parecia mais que ela estava brincando de faz de conta.
  — O que o anjinho ali tiver é meu, incluindo o dinheiro! — vociferou, a voz por um momento engrossando.
  E foi ali que eu percebi o que aquela “garotinha” fazia ali. Era por mim. Ela não era humana, ela era um...
  — Demônio. — conclui deixando meu pavor transparecer. Olhei para Mikey e Cade e gritei. — Fujam! Corram! Ela não é humana!
  A garota olhou para mim e sorriu de lado indicando que pela primeira vez neste dia, que eu estava correto. E mesmo que eu estivesse arrebentado e coberto de lixo; nenhum dos dois delinquentes me ouviu. É, com toda certeza eles estão mortos!
  Cade olhou com raiva para o demônio disfarçado. O tom alaranjado do seu cabelo pareceu escorrer para o rosto.
  — Você só pode estar brincando. Some, pirralha! — Cade lançou algo na direção dela.
  A garota nem se mexeu, o objeto caiu aos seus pés e rolou inofensivamente até parar aos pés de Cade. O corpo da garota começou a se transformar, a pele começando a ficar esbranquiçada, os olhos cobertos por uma penumbra negra, os dentes horrorosos e unhas enormes. O sorriso dela se tornou psicótico quando um par de chifres surgiu dentre os cabelos.
  — A comida não pode opinar! — o monstro se moveu numa velocidade praticamente impossível para os humanos.
  As luzes do beco começaram a se apagar, Mikey olhava para todas as direções assustado e de repente foi levado para a escuridão, gritando incontrolavelmente. Cade arregalou os olhos e tentou fugir, mas o demônio retornou e atravessou seu braço no abdômen dele, o rasgando ao meio em seguida, fazendo seus restos mortais voarem.
  Eu tentei me afastar enquanto o demônio se transmutava novamente na garotinha. Considerei fugir correndo, mas mal conseguia mancar. Também não queria acabar morto.
  — Não gostei deles. — disse a garota por fim.

***

  Eu encarava o demônio já fazia meia hora, eu acho, ele ou ela estava encostado na parede próxima a mim, olhando os dedos ensanguentados, e acabou grunhindo, se aproximando de mim.
  — Wow! Calma, anjinho! — me arrastei para trás novamente. — Não vou te machucar.
  — Como assim, não vai me machucar? — o demônio assentiu e riu. — Não é isso que demônios fazem?
  A garota foi até o corpo da menina morta por Cade mais cedo e a arrastou para perto se ajoelhando e enfiando a mão na caixa torácica do cadáver, retirando de lá o coração, mordendo-o. Essa não! Vou vomitar!
  — Por que não vai me machucar? — perguntei com o medo mais do que evidente.
  — Vou deixar uma coisa bem clara. — a garota acendeu os olhos negros novamente. — Você só está vivo, porque o chefe te quer vivo. E porque você perdeu isso quando caiu.
  O monstro lançou o meu colar Wings e a pulseira na minha direção, eu segurei antes que se chocassem contra o chão. O colar brilhou ao sentir minha pele de encontro a seu emblema, a pulseira também brilhou, coloquei o colar e a pulseira.
  — Olha... — disse a garota perto da escuridão. — Um aviso: Isso vai doer.
  Quando a garota sumiu meio a escuridão, meu corpo se arqueou, o processo de cura começaria. E seria bem doloroso.

***

  Abri meus olhos, recebendo o impacto da luz em meu rosto, meu corpo todo doía, principalmente a área das costelas. Havia algo preso em meus pulsos, a textura se assemelhava a couro, tentei levantar os braços e as pernas, o que foi estupidamente idiota, pois um alarme irritante começou a soar pelo quarto que parecia ser de hospital.
  — Ele acordou. Chamem o Dr. Summers! — disse a enfermeira, desligando o alarme.
  — Onde eu estou? — a enfermeira sorriu ternamente e abriu aporta para um jovem de cabelos loiros, olhos azuis e óculos ray-ban.
  O jovem médico, eu diria que residente, tinha um porte meio atlético, mas ao mesmo tempo sedentário, a pele branca combinava com a tonalidade de seus olhos, os cabelos arrumados para o lado de um jeito elegante o suficiente para ser usado em um jantar de gala. Ele pegou o prontuário ao pé da cama e sorriu.
  — Bom... senhor Gardner. — ele levantou os olhos, que estavam cintilantes. — Você escapou por sorte. Se eu não tivesse lhe encontrado no beco da morte, estaria morto agora.
  — Bem... Obrigado... Doutor? — perguntei e ele riu.
  — Desculpe, fui chegando e esqueci de me apresentar. — ele olhou o relógio de pulso. — Sou o doutor Scott Summers, você está no hospital universitário de Manhattam.
  Realmente, papai, suas punições estão ficando cada vez mais previsíveis! Eu sorri amarelo enquanto os enfermeiros tiravam as amarras das minhas pernas e pulsos.
  — As amarras... — ele ficou levemente corado. — Não foi uma opção minha. Você estava se machucando e falando outras línguas.
  Eu arregalei os olhos, eles estavam perto de descobrir o que eu era e isso eu não podia permitir, o médico começou a retirar a agulha da minha pele, fechei os olhos e sorri.
  — Eu sou poliglota. — ele riu e assentiu. — Você é bom no que faz, por falar nisso.
  — Obrigado! — sorriu. — Minha mãe cobra muito de mim, sabe, porque ela quer que eu a supere.
  Mãe. Ângelus nunca me falou sobre minha mãe, nem como na verdade eu me tornei um anjo, muitos dos anjos do equilíbrio foram humanos que se sacrificaram por algo ou alguém, Miguel, o conhecido Arcanjo, uma vez me disse que para sermos bons, não era preciso de muito e sim de pouco. Imagino a dedicação desse médico, a pressão que a mãe dele coloca sob o mesmo e como isso o afeta. Deslizo o dedo sobre a pulseira e a mesma brilha, acendendo em meus olhos uma coisa que nós, Anjos do Equilíbrio Vital, chamamos de Cerne, a verdadeira vocação.
  Me surpreendi com Cerne dele, era dourado com pigmentos coloridos, ele possuía um Cerne aproximado ao de um Querubim ou Serafim.
  — Você vai superá-la. — ele me olhou atento. — Vejo que em você há uma verdadeira dedicação à medicina. E você deve ter o quê? Dezoito, Vinte e cinco anos?
  Ele corou de novo e sorriu.
  — Vinte e dois anos. Sou da turma avançada. — eu sorri terno e ele retribuiu. — E você quantos anos tem?
  Bom... Eu não sei para falar a verdade, eu meio que não reparei na carteira de motorista do Thomas Gardner. Eu fiz cara de confuso e Scott abriu a boca, como quem diz “Ahhh”.
  — Você tem vinte e três. A polícia esteve aqui e entregou seus documentos que acharam no beco, você é formado em mitologia, história e cultura da humanidade com PhD em Demonologia. — ele respirou. — Não acha que é muito jovem pra ser formado em tantas coisas?
  Eu sou um GÊNIO! (Não que eu não fosse antes...) PhD em Demonologia? O que meu pai está aprontando? Creio que o que está acontecendo comigo não seja uma punição...
  — Thomas? — a voz de Scott me acordou. — Você está bem? Estava aéreo.
  — Não só estava pensando. — Scott me entrega um copinho com dois comprimidos azuis claros e um branco. — O que é isso?
  — São remédios. Para sua concussão, você bateu a cabeça muito forte na queda do helicóptero da empresa do seu pai. — Scott me entrega um pouco d’água e eu ingiro os comprimidos.
  — A perícia do departamento central da polícia de Manhattam acaba de descobrir o que fez com que o helicóptero onde estava o filho do empresário Kiriam Gardner caísse, a causa da queda do helicóptero foi uma pane elétrica nos controles centrais, causadas por um raio segundo as imagens de segurança dos prédios próximo ao local de queda. Thomas Gardner passa bem. Aqui é Halsey Ferrys para o New York Five. — disse a repórter do telejornal.
  — Obrigado. Pelos remédios. — Scott fechou os olhos e sorriu formando ruguinhas ao lado dos mesmos. — Sério, você salvou minha vida.
  — Não foi nada. — Scott assinou uma folha e me entregou, era um documento onde constava que recebi alta e estava liberado. — Neste documento também contém o número do meu telefone, não esqueça da nossa consulta na segunda feira.
  Me arrastei até a borda da cama e pousei os pés sob o chão, sentindo o frio arrepiar minha espinha. Scott me entregou uma mochila com as iniciais “TG” que logo deduzi: Thomas Gardner, retirei algumas peças de roupa e me dirigi ao banheiro para me trocar.

CHAPTER THREE: THOMAS — LILITH! EU?! ARCANJO?

  A saída do hospital foi rápida e, para falar a verdade, bem dolorosa. Ao pisar do lado externo do edifício um choque térmico atravessou o meu corpo, como se uma barreira invisível estivesse entre mim e o mundo real. Eu sabia o que aquilo era, isso se chama...
  — Feitiço. — sussurrei sentindo uma rajada de ar quente contra minha pele. — Apareça, Séraph. Eu sei o que é você.
  Uma esfera negra instável e não constante apareceu e se tornou uma sombra, de corpo feminino e feições maléficas o rosto era encoberto pela escuridão, mas o sorriso pretencioso.
  — Ora, ora, ora. — soou a voz feminina em minha mente, causando uma latente, constante e pulsante dor aguda.
  — O que você é? — perguntei recuando. — O que quer?
  A figura sombria riu, enquanto com um simples gesto com as mãos fez com que minha cabeça parecesse um balão que a cada sopro de ar estivesse próximo de estourar. A mulher mostrou os olhos vermelhos vibrantes, o sorriso se destacando na escuridão. E então soube.
  Ela não era um Séraph, ou algo do tipo, ela era uma coisa muito, muito pior.
  — O. Que. Eu. Quero? — a voz latejante se aproximou e eu grunhi. — É isso o que quer saber? O que Eu quero?
  — Sim. — caí de joelhos. Meus poderes de anjo não estavam funcionando era como se a barreira me impedisse de usá-los. — O que você quer?
  A mulher nas sombras sorriu de lado estalou os dedos fazendo a dor parar, as sombras indo em direção as mangas do vestido negro de renda, um cristal de Emerson negro no pescoço coberto de ouro, os cabelos negros cacheados. Lilith.
  — Bom... O que eu quero? — Lilith se ajoelhou em minha frente, uma linha rígida no lugar do sorriso, como se estivesse pensando. — Quero saber o que você está fazendo aqui, anjo.
  Sorri de lado, pois bem... EU TAMBÉM QUERO SABER! E olha... Eu queria ser um médium, vidente, xamã, sei lá só para saber o que diabos (espera, diabos não), quer dizer, o que pelos céus eu estou fazendo no subúrbio de Manhattam.
  — Eu também quero saber. Mas diz aí, como você saiu do outro lado? — Lilith levantou uma das sobrancelhas. Te peguei!
  — Isso não lhe diz respeito, Yurik. Ou você esqueceu o que eu te fiz em Nova Orleans em 1800? Essa eu tenho que admitir, doeu. Lilith me deu as costas fazendo surgir um trono negro, se sentando nele em seguida. — Agora. O que você está fazendo aqui?
  — Sério? De verdade, nem eu sei. — dei uma risada. — Acho que aprontei alguma, pois não lembro o porquê de ter sido expulso do paraíso.
  Lilith pousou as mãos no queixo eu sabia o que isso significava, e então uma pequena lâmpada se acendeu no meu minúsculo cérebro de passarinho (porque nós anjos temos asas, sacou?) e me toquei o que ela queria.
  — O médico! — gritei me levantando. Lilith me olhou assustada. — Você quer o médico!
  — Não necessariamente o médico. — Lilith olhou as unhas com um sorriso. — Queremos o coração dele!
  Definitivamente eu estou FERRADO! Vocês sabem o quão difícil é sobreviver a uma luta com a cópia vadia da Eva? E o pior, se você não se tornar brinquedinho dela. E quando eu digo não é brinquedinho no sentido “brinquedinho de tortura”, sendo o tipo de brinquedo que você vai se tornar é de uma certa forma, tortura, mas uma “tortura boa”. Se é que me entendem (carinha maliciosa). Os olhos de Lilith se tornaram negros.
  — Por que querem o médico? — passei de idiota suicida para idiota suicida com complexo de bravura, traduzindo, idiota ao quadruplo.
  — Você não vai querer saber. — sinalizei para que falasse. Lilith suspirou. — De certa forma, em alguns casos, segundo algumas fontes o núcleo da alma é glândula pineal, que é localizada no centro do cérebro. Mas, em casos raros, o núcleo da alma se torna o coração, um coração verdadeiro, ingênuo. Entendeu?
  Assenti com a cabeça e logo depois Lilith sumiu e eu estava novamente na frente do hospital.

***

  O motorista do meu pai, quis dizer, do pai do Thomas, estacionou o carro em frente a uma surpreendente mansão, jardins suntuosos e magníficos, um lago cristalino e outras coisas. Ao descer do carro fui guiado até o quarto do Thomas, o qual eu afirmo, era bem decorado, prêmios e diversos certificados incluindo o citado por Scott mais cedo, o certificado de PhD em Demonologia e Angelologia. O smartphone sinalizou o recebimento de uma mensagem.

“VOCÊ POSSUI UMA MENSAGEM DE RYAN

  RYAN: Hey, fiquei preocupado com vc! Me liga. — 08:30am.

  Olhei para o teto e suspirei como a magnitude da situação onde Ângelus me meteu e o pior não chegava nem perto disso, eu estava na mira de Lilith, de novo. E coloquei uma pessoa no caminho, mas dessa vez eu não fugiria. Eu morrerei se preciso.
  — Espero que este corpo te agrade, Yurik. — disse uma voz a qual eu conhecia muito bem.
  Me virei e dei de cara com a pessoa que eu queria encontrar.
  — Sim, pai. Este corpo me agrada. — ele deu um sorriso sarcástico. — O que eu aprontei dessa vez?
  — Você realmente não se recorda? — Ângelus quase nunca estava pensativo e isso me preocupava.
  — Não, pai. — suspirei. — Não me lembro de nada, tirando você gritando comigo.
  Ângelus veio até mim, os lábios franzidos e a mandíbula rígida, pousou seus dedos em minhas têmporas tentando invadir minha mente em busca das lembranças, seu rosto possuía feições ilegíveis mesmo que para um anjo poderosos feito ele. Ele me largou e passou as mãos sobre os cabelos, andava de um lado para o outro visivelmente atordoado.
  — Agora sei o que fez Lilith fugir do Outro lado. — Ângelus passou as mãos novamente sobre as madeixas negras. — Um médico. Que pelo que eu vi, possui uma alma equivalente à de um Serafim ou Querubim.
  — Foi o mesmo o que pensei. — fui até a janela. — Meus poderes estão fracos, não posso voar, ou usar qualquer magia divina.
  Ângelus veio até mim e segurou meus ombros os olhos brancos se acenderam, a aura azulada com pigmentos dourados mostrava o seu nível perante o meu, meu pai é um Kyriotes, um dominador de anjos, digamos que um dos muitos “gerentes” que vagam por Heaven.
  — Arrancaram suas asas. — Ângelus grunhiu. — Por isso seus poderes foram minimizados.
  Me virei de frente para ele, suas mãos se dirigiram até o meu peito quase nu devido a camisa gola “v” que eu estava usando, senti uma queimação, eu sabia o que ele iria fazer. Senti minha alma se consumir por dentro, toda a maldade que eu, quis dizer, toda a maldade que Thomas fez estava sendo redimida, ele estava sendo elevado para o estado de perdão.
  Ângelus retirou a mão do meu peito e olhou-me assustado.
  — Por isso você perdeu as asas e os poderes. — Ângelus lançou as coisas da mesa de Thomas ao chão. — Eles uniram sua alma à do humano, não uniram, quer dizer, você reencarnou como Thomas, pois roubaram a alma dele e só restou os pecados.
  — Como assim? Eu reencarnei? — Soquei a parede de ódio. — Que merda fizeram comigo?! ME DIZ!
  Ângelus fez movimentos com os braços, ele iria me enfeitiçar, uma esfera dourada apareceu parecia uma bolha de ouro líquido, um cálice foi retirado dele, ele iria me ungir.
  — Se eu fizer isso sabe o que vai acontecer, não sabe? — assenti com a cabeça. — Ajoelhe-se Thomas Gardner!
  Caí de joelhos perante meu pai, ele ergueu uma de suas mãos sob minha cabeça e recitou um canto dos arkangélos, o canto dos Arcanjos, ele iria me ungir como um anjo superior, isso é um crime perante os outros Arcanjos, porque segundo a lei, nenhum anjo inferior poderia ungir um humano sem que fosse um Serafim, Querubim, Arcanjo.
  — Agora, Thomas Gardner você será ungido como Gabriel, Miguel, Rafael e como outros antes deles. Você agora é um Arcanjo. Use sabiamente este poder, meu filho! — Ângelus derramou o líquido do cálice sobre mim, minha pele começou a queimar, na verdade todo o meu corpo entrou em chamas, meu corpo foi ao chão, senti a aura dourada com pigmentos brancos envolverem meu corpo e soprar as cinzas formando um novo medalhão wings e uma pulseira.
  — O que aconteceu comigo? — Ângelus jogou um roupão branco em minha direção, ele se recostou contra a parede próxima a porta de vidro da varanda e suspirou.
  — Eu quebrei uma lei. Acho que já sabe disso. Você agora é um Arcanjo, suas asas são mais poderosas, seus poderes são obviamente superior ao de qualquer anjo inferior. — um raio se partiu no jardim da mansão que era em frente ao meu quarto.
  Um arrepio tomou conta da minha espinha como se fosse um aviso de que o perigo estava à espreita, foi quando um anjo atravessou a janela equipado com uma armadura dourada com pérolas cravejadas, o cabelo ruivo que lhe cobria parte dos ombros e costas, olhos verdes feito esmeraldas, a pele alva feito neve e uma enorme espada prateada, ao atravessar a janela levou consigo Ângelus que logo estava equipado, armadura prateada com uma esmeralda no peito, os cabelos pretos longos e uma espada prateada, os olhos pretos furiosos.
  — Como ousastes profanar a lei do criador? — gritou o anjo o qual não havia reconhecido.
  Tentei me aproximar, mas diversos raios caiam em volta do campo de batalha me impedindo de intervir no conflito.
  — Eu precisava fazê-lo! — Ângelus explicou. — Thomas e Yurik se tornaram a mesma pessoa e isso não lhe é estranho, Miguel? E logo quando Lilith fugiu de sua prisão? — Miguel abaixou a espada, mas se manteve em guarda.
  — Lilith?! — a dúvida havia sido plantada. — Como ela fugira de seu purgatório?
  — Exatamente Miguel, e se isto, esta atividade demoníaca, é o que está abalando a prisão de Belial? — disse Ângelus fazendo sua armadura sumir. Mas... Belial? B-e-l-i-a-l? Droga! Ele estava mesmo fazendo DELE?
  — Por sua sorte, Ângelus, de ser um dominador e um dos anjos mais confiáveis do criador, que eu deixarei Thomas vivo. — Miguel se desarmou, trajando agora um terno preto, o cabelo curto social. — Irei averiguar. E... Thomas!
  Olhei para Miguel que estava se dissipando em pura luz. Ele sorriu de lado.
  — Não faça nada imprudente.

CHAPTER FOUR: SCOTT — VISÃO

  Ao sair do meu turno no hospital, me dirijo ao meu carro no estacionamento e vejo o garoto que atendi mais cedo, seu nome era Thomas. Junto a ele uma mulher a qual parecia uma rainha má de contos de fadas, me escondi para poder ouvir o que estavam conversando.
  — Bom... O que eu quero? — disse a mulher misteriosa que se ajoelhou em frente a Thomas, uma linha rígida no lugar do sorriso, como se estivesse pensando. — Quero saber o que você está fazendo aqui, anjo.
  Anjo?! Mas o que...
  A mulher se virou na minha direção e eu me escondi, sentindo um arrepio tomar conta do meu corpo, ouvi Thomas grunhi de dor e apertei os olhos com medo. Eu deveria ajudá-lo, mas ouvi Thomas dizer algo.
  — Eu também quero saber. Mas diz aí, como você saiu do outro lado? — a voz dele parecia serena, despreocupada. E o que é o outro lado?
  — Isso não lhe diz respeito, Yurik. Ou você esqueceu o que eu te fiz em Nova Orleans em 1800? — Essa eu tenho que admitir, me assustou. A mulher deu as costas fazendo surgir um trono negro, se sentando nele em seguida. — Agora. O que você está fazendo aqui?
  Yurik?
  — Sério? De verdade, nem eu sei. — Thomas deu uma risada. — Acho que aprontei alguma, pois não lembro o porquê de ter sido expulso do paraíso.
  Sério. Esse garoto é louco ou ele está fazendo o jogo dela? Porque estou ficando seriamente apavorado. Eu gritaria, se possível. Mas isso colocaria a nós dois em perigo, caso ela fosse uma psicopata.
  A mulher pousou a mão no queixo pensativa, aquilo estava acabando com meus nervos.
  — O médico! — Thomas gritou se levantando. A mulher o olhou, assustada. — Você quer o médico!
  Espera... Eles estavam falando de mim?
  — Não necessariamente o médico. — a mulher olhou as unhas. — Queremos o coração dele!
  Meu... Coração? Então foi aí que aproveitei a chance e corri para o carro, arrancando com o mesmo pela pista o mais rápido possível.

***

  Ao estacionar na garagem do meu prédio, segui até o elevador e o mesmo me levou à cobertura, onde eu morava. E para falar a verdade, eu nunca havia percebido o quão eu estava solitário desde que eu terminei o meu atual romance há alguns meses, aquilo estava se tornando um drama constante e contínuo em todos os outros casos. Eu precisava beber, mas então a voz daquela mulher louca e psicótica me veio à mente. Queremos o coração dele! É, eu realmente preciso urgentemente beber.
  Fui até o pequeno bar que possuía próximo a cozinha e pus uma quantidade um pouco exagerada de um whisky caríssimo que ganhei de mamãe no natal do ano passado. E o telefone tocou. Fui ao mesmo e identifiquei a pessoa que me incomodava tanto nos últimos quatro meses.
  — O que você quer? — fui grosso, a pessoa do outro lado da linha provavelmente estava com um sorriso no rosto.
  — Precisamos conversar. — sua voz soou sedutora e ao mesmo tempo cautelosa, que acabei sorrindo sarcástico.
  — Você me disse a mesma coisa quando terminou comigo. — a pessoa do outro lado da linha se silenciou e suspirou.
  — Você não perdoa nunca? — disse atrevidamente.
  — Não costumo perdoar desde que eu descobri que você havia terminado comigo — aquilo ia doer, mas eu tinha que dizer. — Porque você tinha me traído!
  Por um milésimo de segundo eu pensei que finalmente havia me livrado desse peso, mas eu estava pior, eu havia aceitado que fui traído e isso machucava mais que tudo.
  — Eu não te traí! — estava mais preocupado em manter sua reputação, de novo. — Scott, me ouve. Por favor!
  — Vai se ferrar! — encerrei a chamada e engoli a dose de whisky puro.
  Um tempo depois, não sei quanto, eu estava desmaiado no sofá e despertei com o telefone tocando, se fosse... não, não vou dizer esse nome de novo.
  — O que você quer? — fui rude de novo, mas a língua enrolou.
  — Isso é jeito de falar com a sua mãe, Scott?! — arregalei os olhos e pedi desculpa. — E que história é essa de que você terminou o...
  — Não fala essa palavra! Por favor. — mamãe suspirou e esperou.
  — Anda, me explica o porquê de você ter terminado com o noivado. — provavelmente mamãe estava com seu típico sorriso audacioso e vingativo no rosto.
  — Bom... — fiz suspense. — Isso não interessa nem a você nem ao papai, sabia?
  Mamãe riu irônica e disse: “George, Scott disse que o casamento não é da nossa conta!” e logo após eu afastei o smartphone do ouvido, ela iria gritar.
  — SCOTT SUMMERS! Como ousa? — ela riu de novo. — Você sabia que seu pai contratou o melhor buffet, a melhor produtora de eventos de Paris e comprou a melhor mansão dos Hampton’s para lhe dar de presente?
  — Eu fui TRAÍDO! O casamento não vai acontecer porque eu F-U-I- T-R-A-Í-D-O! — mamãe bufou no telefone.
  — Deixa de drama, Scott! — dessa vez fui eu que ri.
  — Drama?! — gritei — Você acha traição um drama?
  — Filho, seu pai já me traiu diversas vezes e olha só... estamos juntos a trinta anos. — ela recitou um pequeno mantra. — Acho melhor ajeitar as coisas, Scott, acho bom mesmo.
  A chamada foi finalizada. Lancei o copo contra a parede e o mesmo se partiu em milhares de pedacinhos, como meu coração, que por ironia, uma mulher louca e psicopata queria. Tirei a camisa social e logo em seguida a calça ficando de peça íntima e pulei na piscina que ficava na varanda da cobertura. Me sentei na borda e deixei as lágrimas caírem, como eu devia ter feito há quatro malditos meses.
  A vista de Nova York preenchia meu campo de visão, milhares de pontos amarelos, vermelhos, azuis e verdes preenchiam as avenidas, os outdoors, eu definitivamente não vou consertar as coisas dessa vez, não vou fazer o que mamãe quer. Mesmo que isso me custe muito.
  E querem saber...? Pela primeira vez, em toda a minha vida eu soube que eu ficaria bem.

***

  No dia seguinte, eu dei glórias por ser sexta-feira e eu estava de folga todo o dia, minha ressaca estava me matando, ouvi vozes na cozinha e me assustei quando a pessoa de cabelos loiros com mechas vermelhas pulou em cima de mim.
  — Sai, Luke! Você pesa. — ele se levantou e me olhou se fingindo de ofendido.
  — Eu devia deixar suas panquecas queimarem, sua vadia da medicina! — ele se deitou ao meu lado e nós rimos alto enquanto ouvíamos Lia reclamando das panquecas no fogo.
  Simplificando: Luke, Lia e eu somos melhores amigos desde o finalzinho do ensino fundamental e ficamos ainda mais próximos desde o ensino médio. Lia faz medicina veterinária, está quase se formando. Já Luke está formado em design de interiores, mas está concluindo o curso de literatura inglesa e se preparando para ter PhD em literatura medieval. Lia tem um namorado chamado Johansson, ele está no Iraque, no exército e eles iam se casar daqui a alguns meses, o que se tornou inviável devido a estadia dele no Iraque. Luke é um galinha, literalmente, toda semana está com um garoto ou garota diferente e isso é cómico, porque ele chora quando acaba. O que não está tão diferente de você! — disse meu eu interior.
  — Vocês vêm comer ou não? — disse Lia colocando a cabeça na entrada do quarto. — E por que você bebeu metade da garrafa do whisky caríssimo da sua mãe?
  Pulei da cama e fui ao banheiro fazer minha higiene matinal, vesti uma calça de moletom cinza e um suéter branco, Luke e Lia já estavam posicionados na mesa e já estavam comendo. E parece que foi obra do destino ou carma, me sentei à mesa e iniciaram-se as perguntas.
  — Me explica a história do whisky. — disse Lia inquisitiva.
  — Você provavelmente já sabe o motivo, Lia. — disse Luke suspirando. — Deve ter sido culpa...
  — Não fala esse nome! — larguei o garfo e um silêncio constrangedor tomou conta. — Desculpem, eu estou estressado demais.
  — Também estaria se estivesse na sua situação. — Lia colocou a mão no meu ombro e sorriu confortando-me. — Seus pais já sabem do...
  — Casamento? — suspirei e bebi um gole de café. — Sim, eles já sabem. Mamãe quer que eu conserte as coisas com aquela pessoa.
  Luke se engasgou e me olhou, Lia olhou para ele como se pedisse que ele não me contasse algo, o que foi em vão. Luke abriu a boca em menos de dois segundos.
  — Aquela pessoa estava na festa do Jessie ontem e me pediu para tentar convencer você a reatar o noivado. — Lia jogou o guardanapo nele. — Me diz que essa pessoa não te ligou e que foi por causa disso que você praticamente engoliu metade do whisky.
  Me levantei da mesa e levei meus utensílios à pia, começando a lavá-los com toda calma do mundo, mas com minha mente trabalhando um turbilhão de pensamentos e ideias. Eles ainda esperavam uma resposta, e eu teria que dá-la.
  — Sim, me ligou. — Luke sussurrou “eu sabia!” e Lia resmungou. — Mas eu mandei ele se ferrar.
  Luke riu alto e bateu palmas junto a Lia que tentava parar de rir, Luke correu em minha direção e me encheu de beijos e abraços. E me veio aquela mulher novamente à minha mente. O que ela queria dizer quando disse: “Queremos o coração dele!”? E por que meu paciente estava jogando o jogo dela. Devia deixar isso de lado, ou coloque ele contra a parede! — aconselhou meu subconsciente. Talvez ele tivesse razão e eu devesse deixar isso de lado.
  — Bom... — disse Lia me dando um beijo. — Temos que ir, mas te vemos na boate?
  — Claro! — abracei Luke que me levantou do chão como sempre fazia. — Até a noite.
  — Até! — os dois disseram em uníssono e saíram porta a fora.

***

  Olhei o relógio e o mesmo marcava seis horas e trinta minutos, e desta vez Sense8 estava mais entediante do que eu me jogar do alto do prédio — o que eu não faria. — mas me contentei em olhar para a parede de tijolos avermelhados imaginando a cena que eu vi no dia seguinte entre Thomas e a mulher psicopata. E aquilo me assustava. Meu telefone tocou, era um número desconhecido.
  — Alô? Doutor Summers? — reconheci a voz, era Thomas.
  — Ahn... Oi, Thomas. Como está? — fechei os olhos tentando apagar aquela cena medonha da minha mente.
  — Estou bem melhor, obrigado. — ele pareceu relutante. — Você está livre hoje à noite?
  — Por quê? Aconteceu alguma coisa? — o que ele queria comigo hoje à noite?
  Ele riu.
  — Não. É porque eu ganhei convites de uma boate nova que abre hoje e eu queria saber se você quer me fazer companhia, talvez chamar uns amigos. — e novamente minha mente estava tirando sarro do meu medo.
  — Ah! Claro. Vou chamar meus melhores amigos, Lia e Luke. — ele disse que nos esperaria em frente ao estabelecimento e desligou.
  A noite chegou mais rápido do que eu esperava, estava correndo o máximo que podia para me arrumar e chegar a tempo na casa de Lia, Luke já me ligara pela centésima vez para eu busca-lo, afinal ele precisava afogar as mágoas de seu recente termino, como eu.
  — Por Deus! Você demorou, Scott! — resmungou Luke ao entrar no carro.
  — Boa noite pra você também, Luke! — revirei os olhos junto a Lia.
  — Mas que boate e roupas são essas? — perguntou Lia enquanto Luke se olhava no retrovisor.
  Eu peguei meu smartphone e olhei a mensagem de Thomas com o endereço e vi o convite da boate: BOATE HELLROAD APRESENTA: FANTASIA (ABERTURA DOS PORTÕES ÀS 19:30).
  — A boate se chama Hellroad e é uma festa à fantasia. — explicou Luke enquanto eu seguia em direção à estrada.

***

  A boate estava extremamente cheia, Thomas nos encontrou em menos de uma hora e fomos à área Vip, Luke aproveitou seu look príncipe charming de desenho animado e caiu na pista enquanto Lia estava sentada ao meu lado.
  — Notícias dele? — gritei próximo a seu ouvido, Lia sinalizou um “não” com a cabeça.
  — Te ligou de novo? — gritou Lia me fazendo olhá-la. — Não diga nada, eu já sabia.
  Suspirei e fitei Thomas se dirigindo em direção a um muro de acrílico branco com frestas que nos davam uma pequena visão do local do outro lado, Thomas olhava para todos os lados como se estivesse nervoso que alguém o visse, um jovem loiro com uma blusa cropped preta com lantejoulas douradas, calças cinzas apertadas até demais — eu diria —. Eu por um milésimo de segundo pensei que estava alucinando, pois Thomas, ou o seu corpo, se transformaram naquela mulher sinistra do outro dia no hospital e então ela quebrou o pescoço do garoto loiro.
  Seu corpo se inclinou para baixo e ela enfiou a mão direita na caixa torácica do garoto e de lá puxou o coração que assustadoramente pulsava incessantemente em sua mão, pus minhas mãos sob a boca quando deixei um suspiro sair, a mulher de vestido preto se virou em minha direção e sorriu, os olhos negros como a noite.
  Ouvi um grito vindo do meio da pista de dança, a música havia parado e todos naquele local possuíam os mesmos olhos negros da mulher, o corpo de Luke estava jogado no chão, seu pescoço ensanguentado, o grito saíra de Lia que estava rodeada daqueles monstros, sua mão estava pressionando o corte no pescoço de Luke, ao me aproximar retirei o cinto da minha roupa e pus envolta do ferimento fazendo um pequeno torniquete, mas pressionando com a mão.
  — O que eles são? — disse Lia, as mãos trêmulas e ensanguentadas.
  — E-Eu não sei. — Luke estava em completa agonia e apertava meu braço com força. — Você vai ficar bem, eu prometo. Vai ficar tudo bem.
  — Eu acho que não. — disse uma voz feminina.
  Fitei a figura de cabelos cachados e vestido roxo de renda, olhos vermelhos vibrantes e um sorriso maléfico no rosto. Ela fez um pequeno gesto com a mão e os monstros foram embora.
  — Ah, que pena. — ela riu. — Ele vai se tornar um de nós.
  — Um de vocês? — indagou Lia ainda tremula. — O que vocês são?
  A mulher se ajoelhou próxima a Luke e passou um dedo sobre seu ferimento e lambeu o sangue do dedo, ela sinalizou para que eu ficasse quieto e sussurrou em meu ouvido.
  — Nós somos demônios.



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