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Encaixando a Música
|| sábado 20/05/2017 às 12:55 - Comentários
|| Arquivado em: Colunas

A música está presente em nossas vidas o tempo todo. Ela tem o poder de fazer você sentir o que ela desejar: animação, excitação, terror, tristeza, tensão ou até mesmo alegria.

É normal o desejo de adicionar alguma música em sua história, porém às vezes não temos ideia como abordar ou fazemos de forma “errada”. Claro que eu não estou aqui para julgar sua maneira de escrever, no entanto tais dicas podem ajudar e muito nos seus textos e deixar os seus leitores mais confortáveis ao lerem seu projeto. Essas dicas valem também para aqueles que desejam fazer uma Songfic.

Sabe quando você escuta aquela música em inglês que se encaixa perfeitamente ao romance dos seus personagens e seu desejo é fazê-los dançá-la?

Eu explico.

Imagine que esteja escrevendo uma história de um casal de adolescentes que têm uma relação de amor de ódio. Em um dos momentos no qual eles se provocam, os dois estão dentro de uma casa de show e a banda está tocando Shut Up And Dance de Walk the Moon. A música se encaixa na situação que os dois estão vivendo e você quer evidenciar isso.

A primeira dica que quero dar é evitar colocar toda letra da canção, a não ser que toda ela tenha um peso/significado importante para seus personagens.

A verdade é que nós leitores não lemos tudo. Principalmente o refrão for repetido na história — aliás, se nós conhecemos a letras dificilmente vamos querer lê-la de novo.

Outra coisa que quero ressaltar é que evite colocar a letra e a tradução de forma simultânea. Até mesmo para leitores que tem uma boa base da língua estrangeira, é desconfortável ter que ler dos dois modos e apenas deixa o capítulo cheio de informação que muitas vezes não estamos tão interessados em ler.

Outro conselho que devo acrescentar é que tenha total certeza da função da música em sua história. Se não vai usá-la durante a narração, receio que não seja necessário colocá-la como encheção de linguiça, não é verdade?

Exemplo:

Bruce cruzou os braços e fingiu que não observava Clary dançar em sua frente. Ao redor dele havia um grupo de adolescentes pegajosos e bêbados que balançavam ao ritmo da música. Ele parecia um peixe fora d’água parado e carrancudo no meio de uma pista de dança.

Oh, não se atreva a olhar para trás
Apenas mantenha seus olhos em mim
Eu disse que você está se segurando
Ela disse, “Cale a boca e dance comigo!”

— Não sabia que você era tão careta assim, Bruce. — Comentou ela colocando as mãos dele na sua cintura.

— Sinceramente, Clary, não vejo como isso possa… — Foi interrompido pelo indicador da menina em seus lábios.

— Cale a boca e dance comigo. — Sussurrou ela com um sorriso ladino.

Mas há aqueles momentos que você quer que o personagem sinta a música e se identifique com a mesma. Há momentos que você o imagina com um violão e se declarando para algo ou alguém.

Nesse caso existem dois jeitos legais de se abordar. O primeiro é da forma mais tradicional em que a letra da música aparece no texto enquanto são narrados os sentimentos e expressões dos que vivenciam a cena. Vão exemplificar com uma música brasileira desta vez; chama-se Mais de Amanda Rodrigues.

Exemplo:

Meu coração batia como uma britadeira dentro do peito. Derek subiu no palco improvisado segurando o violão, esquecendo-se de sua timidez e que todos o olhavam ansiosos. Ouvi algumas piadinhas sem graça de seus amigos quando ele arrumou os óculos do rosto e deu duas batidinhas no microfone, me deixando mais nervosa ainda. O que diabos ele estava fazendo?

— Essa música é para a mulher da minha vida, Faith. Eu poderia dizer mais coisas, porém acho que a música fala por si só — e deu uma risadinha.

Derek demorou alguns segundos para achar a nota e coçou a garganta. Com sua voz melodiosa começou a cantar nossa música.

Meu amor, eu nunca vou conseguir explicar
O que eu sinto por você
O que sinto ao te ver
Mas eu vou tentar
Eu vou continuar tentando,
Eu vou tentar pôr em palavras
Traduzir meu coração

Meus olhos se encheram de lágrimas, as pernas bambas com aquela declaração de amor em público. Derek odiava chamar atenção e nunca fez algo semelhante quando estávamos apenas namorando.

Mas é clichê dizer que você é especial pra mim
É tão clichê dizer que eu não vivo sem você
Você merece mais
Muito mais

Ao contrário do que ele cantava na canção, eu não acreditava que merecia aquele novo homem que meu marido se tornara; apenas tinha certeza que sentia-me muito grata.

A outra forma, que particularmente adoro, é a de resumir a música em um parágrafo. Você destaca o que quer dizer e ainda expressa o que o personagem sente. Vou usar a mesma música do exemplo anterior.

Exemplo:

A música era calma, acústica e familiar. Fiquei com um sorriso maior do que o rosto quando prestei atenção na letra conhecida que falava o quanto eu merecia mais do que um “você é especial para mim” e quão clichê era falar aquelas frases prontas; dizia que já havia cansado de procurar um presente que demonstra-se o amor que sentia por mim e que era pouco dá para mim algo que só dinheiro pode comprar. Ele finalizou dizendo que tudo que podia fazer era viver para me fazer feliz e não consegui evitar chorar como uma criança. Eu não o merecia e assim como Derek havia prometido, fiz uma promessa silenciosa em fazê-lo feliz na mesma proporção que ele me fazia sentir ser a mulher mais sortuda do mundo.

Dessa forma eu resumi a música, passei a mensagem dela e mostrei o que a personagem sente. Tudo sem precisar ser direta e simplesmente jogar a letra da canção; às vezes só é necessário um resumo do que ela está escutando. Os escritores também podem usar essa ‘técnica’ caso a música da história não exista e você não queira criá-la de forma literal.

Então, esse é o fim de mais uma coluna. Espero ter auxiliado vocês com seus próximos projetos! Até breve.

Coluna por Maraíza Santos

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